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Mudança climática: 12 pontos-chave para a cúpula de Paris

Por Manuel Planelles | Via El País

Os representantes de 195 países, a maioria dos Estados do mundo, reúnem-se na Cúpula do Clima de Paris, entre 30 de novembro e 11 de dezembro. Neste encontro, tratarão de fechar o primeiro acordo global para tentar frear a mudança climática.

O que é a mudança climática?

Os chamados gases do efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono (CO2), acumulam-se na atmosfera e impedem que as radiações infravermelhas que o planeta emite para se esquentar saíam para o espaço. Isso faz com que a temperatura do planeta suba. Esses gases sempre estiveram presentes na atmosfera. O problema, segundo o consenso (quase absoluto) dos cientistas, é que as atividades humanas contribuíram para romper o equilíbrio que existia. A indústria, o transporte e os usos do solo aumentaram a concentração desses gases. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a concentração de CO2 na atmosfera chegou, em 2014, a 397,7 partes por milhão (ppm). Antes da Revolução Industrial, era de 279 ppm.

Quais as consequências da mudança climática?

Os cientistas do grupo IPCC da ONU mostraram que, se o ser humano continuar com o ritmo de emissão de gases sem tomar medidas para reduzir as consequências, a temperatura média global subirá de 3,7 a 4,8 graus em 2100, em relação ao nível pré-industrial. Além do aumento da temperatura e do nível do mar, os cientistas sustentam que também afetará os fenômenos climáticos extremos, como inundações, secas e ciclones. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA analisou 28 fenômenos extremos registrados no planeta em 2014. E concluiu que em 14 casos a mudança climáticafez com que eles fossem mais prováveis ou mais fortes.

Pode ser revertida?

Os cientistas do IPCC alertam que já existe uma mudança climática comprometida pelos gases do efeito estufa que o homem emitiu, principalmente, desde a década de setenta do século passado. Por isso, não dá para impedir que a temperatura média global aumente. A opção que existe é limitar esse aumento para dois graus em 2100, em relação aos níveis pré-industriais, para evitar grandes desastres naturais.

O que é a COP21 de Paris?

A vigésima primeira Conferência das Partes (COP21) é a cúpula em que se sentam os 195 países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC). Nesse tratado internacional, de 1992, foi reconhecida a importância do aquecimento global. Mas esse texto tem que se desenvolver com medidas concretas.

O que é o Protocolo de Kyoto?

Protocolo de Kyoto, de 1997, fixa as metas concretas de redução de gases que os países desenvolvidos têm que atingir. No entanto, ele foi legalmente vinculado a apenas 37 Estados, dos quais 28 pertencem à União Europeia, e que representam 12% das emissões globais. As principais potências emissoras de gases ficaram fora: China, por não estar no grupo de países desenvolvidos, e os EUA, que não ratificou o protocolo. Kyoto entrou em vigor em 2005, e em dez anos de aplicação, conseguiu uma redução de 22% das emissões nos 37 países signatários, muito acima dos 5% fixados como meta. Mas, por não afetar as principais potências, as emissões globais continuaram crescendo. Entre 2000 e 2010, por exemplo, subiram 24%.

O que será discutido em Paris?

Um protocolo para substituir o de Kyoto e que começaria a ser aplicado a partir de 2020. Neste caso, a intenção é que os 195 signatários realizem políticas de mitigação, ou seja, reduzam as emissões de gases. Além disso, espera-se que seja fixado como objetivo que, ao final do século, a temperatura global não supere os dois graus, embora Estados mais expostos (como os insulares) queiram baixar essa meta para 1,5 graus.

Qual a fórmula escolhida?

O tratado não vai impor metas individuais de redução de CO2. Para tentar não repetir Kyoto, com um alcance muito limitado, optou-se por outra fórmula: cada país, voluntariamente, apresentará compromissos de redução de emissões, tanto os desenvolvidos quanto os que não são. A alguns dias do começo da cúpula, mais de 170 já fizeram isso. Entre eles, estão todas as principais potências econômicas do mundo.

Esses esforços são suficientes?

Não. Segundo as estimativas realizadas pela ONU, extrapolando os compromissos voluntários (nos quais os Estados fixam metas para 2025 e 2030), a temperatura ao final do século subirá pelo menos 2,7 graus, embora outras organizações e instituições falem de até quatro graus. De fato, a previsão é de que até 2030 as emissões continuem crescendo, ainda que em um ritmo menor que nas últimas décadas. Algumas potências, como a União Europeia e a China, propõem como solução que esses compromissos individuais sejam revisados a cada cinco anos, para se aproximarem da meta de dois graus.

O protocolo de Paris será legalmente vinculante?

Esse pode ser um dos pontos mais complicados da cúpula de Paris. A União Europeia aposta em um protocolo com seções vinculantes. Por exemplo, que sejam assim os compromissos de redução de emissões que cada país apresentou voluntariamente. No entanto, a administração de Barack Obama pode enfrentar problemas, como aconteceu com Kyoto, para fazer o Congresso e o Senado ratificarem um protocolo legalmente vinculante. A União Europeia já desistiu que sejam incluídas sanções, porque considera que isso pode dissuadir alguns países a assinarem o acordo.

O que é a adaptação?

Além da mitigação, a cúpula também discutirá políticas de adaptação, ou seja, medidas para que os países mais vulneráveis se preparem para a mudança climática. Para isso, está prevista a criação do chamado Fundo Verde para o Clima, que a partir de 2020 contará com 100 bilhões de dólares anuais. Quem deve fornecer o dinheiro? Essa pode ser outra das dificuldades em Paris. Em teoria, apenas os países considerados desenvolvidos. Mas potências como a China ficariam fora dessa categoria.

Haverá acordo?

É complicado aventurar-se nessa resposta. Em 2009, com a Cúpula de Copenhague, expectativas parecidas com as de Paris foram levantadas e o resultado foi um fracasso. Desta vez, além de os sinais da mudança climática terem se acentuado, parece haver uma implicação maior das principais potências, do G20 em geral, e da China, EUA e Alemanha em particular. Os líderes desses três países colocaram a mudança climática na sua agenda durante o último ano.

E se não houver acordo?

Se não houver, ou se o acordo for pouco ambicioso, não significa que a luta contra a mudança climática terá terminado. Muitos dos compromissos voluntários de redução de emissões já estão contemplados na legislação nacional de cada país. Seria o caso, por exemplo, da União Europeia, que se fixou metas concretas para 2030, independente da cúpula. Se não houver acordo, talvez o pior prejuízo seja para a ONU e para a ideia de que um problema global, como a mudança climática, pode ter uma resposta também global.

A longa marcha nacional da insensatez

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

Nunca foi tão difícil prever cenários para o país como agora.

Em geral montam-se cenários identificando duas ou três variáveis-chave e um duas possibilidades, no máximo três para cada uma.

Hoje em dia, a quantidade de variáveis indefinidas é inédita.

  1. Quanto tempo mais perdurará a crise política e quais seus efeitos sobre as tentativas de impeachment?

  2. A Comissão de Justiça da Câmara dará ou não aval para o julgamento de Eduardo Cunha pela casa? Dando, haverá votação aberta ou fechada? Sendo fechada, ele será condenado ou absolvido?

  3. Sendo condenado ou absolvido qual será o encaminhamento que dará aos pedidos de impeachment da Presidente?

  4. Com a prisão de Delcídio Amaral, qual será a solução de continuidade das articulações do governo?

  5. No festival de delações em curso, por quanto tempo ainda serão blindadas as lideranças da oposição? Se Aécio Neves e José Serra forem engolfados pelas delações, como ficará a oposição?

  6. Quais os desdobramentos para a situação – e para Lula – de uma eventual delação de Delcídio Amaral?

  7. Que outros políticos ou Ministros do STF foram mencionados por Delcídio nos demais grampos que ainda não foram divulgados?

  8. Saindo o pacote fiscal, em quanto tempo se recompõem as finanças públicas?

  9. Não saindo, como estará a situação dos estados a partir de abril, quando cessam os efeitos da arrecadação do IPVA?

  10. O fator Dilma: qual o seu fôlego para recompor a governabilidade em caso de aumentou ou redução da crise política?

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Desse conjunto vasto de alternativas têm que emergir duas saídas para a crise:

  1. Recomposição da base de apoio político permitindo aprovar uma saída fiscal.

  2. Dilma Rousseff começar a governar.

Essa barafunda de alternativas mostra nitidamente o tamanho da crise institucional.

O Congresso converteu-se em um arquipélago de grupos sem rumo e sem liderança. O mesmo ocorre com os diversos partidos políticos, alguns na defensiva, outros na ofensiva, mas todos prisioneiros de interesses imediatos e paroquiais.

A exposição das vísceras do presidencialismo de coalisão não poupa ninguém, nem governo nem oposição.

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Por outro lado, todo o aparato judicial – Ministério Público, Polícia Federal e tribunais em geral – não parecem dispostos a nenhum tipo de trégua, alguns claramente aliados com a mídia, outros inibidos pelo chamado clamor das ruas.

O destempero da Ministra Carmen Lucia, do STF, é uma demonstração clamorosa de que o show midiático penetrou em todos os poros do poder.

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Daqui para a frente, há que se aguardar e iniciar a contagem regressiva para dois eventos.

O primeiro, é a calmaria de fim de ano, com o recesso parlamentar. A segunda são  os efeitos do vácuo fiscal em 2016.

Os estados conseguem garantir o primeiro trimestre com a arrecadação do IPVA. A partir de abril, a crise fiscal pode bater pesado nos estados e municípios. Muitos deles serão incapazes de pagar a própria folha.

Se não se conseguir virar o ano com perspectivas otimistas mínimas, as comportas do desemprego serão abertas.

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Não se sabe o que poderá interromper essa marcha da insensatez. Uma hora cairá a ficha geral para interromper essa marcha da insensatez. A incógnita é quanto mais a crise terá que se aprofundar para se chegar ao bom senso.

Desastre social teria sido menor sem espetáculo para a televisão

Por J. Carlos de Assis

Foto: Colégio Web

As investigações da Lava Jato revelaram, por trás da corrupção real, a corrupção de caráter de seus próprios autores que, por vaidade ou presunção, atropelam com prisões ilegais princípios mais elementares de Justiça e direitos consagrados dos cidadãos, como habeas corpus, presunção de inocência e julgamento com o devido processo legal. Estamos na mais aberrante situação de ditadura do Judiciário, tão detestável quanto a ditadura militar, e pior que ela pois fica sob o véu da legalidade.

Não é legítimo o poder invocado pelo Judiciário do Paraná, sob cobertura do Supremo, para criar legislação tópica no lugar de seguir a lei geral. Seus executores se superpõem ao Legislativo e ao Executivo quando, por exemplo, usam de subterfúgios para justificar prisões por tempo indeterminado com óbvio propósito de arrancar dos moralmente torturados alguma forma de delação. Isso não é Justiça. É arbítrio. Em qualquer país civilizado chama-se ditadura. Ou justiça do Cádi, como ensinou Max Weber.

Já escrevi que quem decreta prisão em flagrante de suspeito por ter apontado em declarações gravadas ilegalmente sua intenção de corromper quatro ministros do Supremo teria de tê-lo tratado ou como louco fanfarrão sem crédito, ou como potencial colaborador numa delação premiada. Por caminhos tortuosos, os ministros suspeitos deram crédito apenas à parte da gravação que falava numa fuga rocambolesca, cobrindo a si mesmos como a toga dos novos intocáveis e se escondendo por trás da situação de autoridade.

Justiça do Cádi, segundo Weber, “não conhece qualquer julgamento racional”. É a matriz do direito consuetudinário anglo-saxônico, diferente de nossa matriz romana, racional. Atende apenas ao arbítrio do juiz, não raro sob influência da opinião pública. Isso é particularmente assustador numa democracia de massas. Nesta, “a opinião pública é a conduta social nascida de ´sentimentos´ irracionais. Normalmente, ela é encenada, ou dirigida, pelos líderes partidários e pela imprensa”. No nosso caso, podemos dizer pela imprensa, a serviço de uma certa ala do poder político.

Deixo muito claro que aplaudo a parte criminal legal da Operação Lava Jato. Mas não posso concordar com a virtual paralisação da Petrobrás e da cadeia de petróleo, com a destruição de grandes construtoras brasileiras e de centenas de milhares de empregos, e com o comprometimento de toda a economia brasileira, lançada numa contração este ano que pode chegar a 5%. Se tivesse sido feita com maior discrição, sem a conotação de investigação-espetáculo, a operação poderia chegar aos mesmos resultados criminais, sem prejudicar a economia e sem atropelar a legalidade.

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José Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

PGR pede abertura de inquéritos contra Renan, Delcídio e Jader

Por Wilson Lima | Via Fato Online

Delcídio e Renan são alvos de novos pedidos de inquéritos pela PGR. Joel Rodrigues/ObritoNews/Fato Online

A PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu, nesta segunda-feira (30), ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Teori Zavascki, a abertura de inquéritos contra os senadores Delcídio do Amaral (PT/MS), Jader Barbalho (PMDB/PA) e Renan Calheiros (PMDB/AL), presidente do Senado. Os pedidos de investigação querem apurar crimes como lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

As petições estão em segredo de Justiça mas são baseadas, principalmente, nas delações premiadas do lobista Fernando Soares, o Baiano, tido como o operador do PMDB no esquema de desvios de recursos da Petrobras, investigado pela Operação Lava-Jato e nas informações prestadas pelo ex-diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró. Cerveró firmou delação premiada na terceira semana de novembro, mas ela ainda não foi homologada pelo ministro Teori Zavascki.

Segundo investigações da Lava-Jato, Jader, Renan e Delcídio são apontados como beneficiários do pagamento de propina após a compra da refinaria de Pasadena, pela Petrobras. A força-tarefa da Lava-Jato aponta que, somente em Pasadena, foram pagos de US$ 15 milhões a agentes políticos para facilitar a concretização do negócio. Os senadores também teria recebido recursos desviados fruto de contratos firmados pela Sete Brasil na operação de navios sondas para Petrobras. Nos contratos de Navios Sondas, conforme as delações de Fernando Baiano, houve um repasse de US$ 6 milhões para Renan, Jader e para o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau.

Na semana passada, Delcídio foi preso acusado de atrapalhar as investigações da Polícia Federal e do MPF no âmbito da Lava-Jato. Uma gravação feita pelo filho de Cerveró, Bernardo, revelou um plano de fuga para Cerveró, que foi arquitetado pelo petista. Após a prisão do parlamentar, o STF instaurou inquérito para apurar a conduta de Delcídio.

 

Renan já é alvo de quatro inquérito relacionados à Lava-Jato e Jader Barbalho, apesar de ter sido constantemente citado, até o momento não era alvo de um pedido de investigação. Atualmente, existem 31 inquéritos instaurados no Supremo apurando condutas de parlamentares envolvidos na Lava-Jato. São 13 senadores investigados. Desde o início das investigações, Jáder, Renan e Silas, sempre negaram qualquer tipo de envolvimento no esquema da Lava-Jato.

Outro Lado

Ao tomar conhecimento, no final da tarde desta segunda-feira (30), do pedido do  procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para abertura de dois novos inquéritos contra ele, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), divulgou nota na qual afirma que “suas relações com as empresas públicas nunca ultrapassaram os limites institucionais”.

Renan disse ainda já prestou os esclarecimentos necessários, mas se colocou à disposição para novas informações. O presidente do Senado declarou que “nunca autorizou, credenciou ou consentiu que seu nome fosse utilizado por terceiros”.

Já o senador Jáder Barbalho (PMDB-PA), também incluído no novo pedido de inquérito do procurador, disse desconhecer os termos do pedido. “Não posso me manifestar sobre isso. O que vou dizer a respeito de algo que não conheço?”

Congresso decide futuro de Delcídio, Cunha e do governo

Por Gabriela Salcedo | Via Congresso em Foco

Governo aposta na aprovação da revisão da meta fiscal para não entrar em colapso. No Senado, oposição prepara representação contra petista. Na Câmara, Cunha tenta barrar sua cassação.

A bancada vazia do senador Delcídio do Amaral no Senado. Oposição articula representação contra o ex-líder do governo. Antônio Cruz/ABr

A semana promete ser decisiva para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e para o governo. Os dois parlamentares podem ficar mais perto da cassação do mandato. Já o Executivo, que anuncia nesta segunda-feira (30), um corte de R$ 10,7 bilhões no orçamento, corre contra o relógio para que o Congresso Nacional aprove a revisão da meta fiscal para 2015. Do contrário, poderá agravar a crise que afeta suas contas.

Partidos de oposição pretendem entrar com pedido de cassação do mandato de Delcídio no Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. Receosos de o pedido não partir da Mesa, uma vez que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também é investigado no Supremo Tribunal Federal pela Operação Lava Jato, o PPS, o PSDB, o DEM e a Rede se movimentam para entrar com representação nesta terça-feira (1º) contra o ex-líder do governo. O presidente do Senado, no entanto, tem dado sinais de resistência à instalação do Conselho de Ética.

Na Câmara, a promessa também é de dias agitados. Nesta terça-feira o Conselho de Ética se reunirá para votar o parecer preliminar de Fausto Pinato (PRB-SP). O deputado já se manifestou pelo prosseguimento da ação contra o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo ele, a representação apresentada pela Rede e pelo Psol traz indícios que podem ser considerados como quebra de decoro parlamentar do peemedebista, o que o fez redigir parecer pela admissibilidade do caso. Os integrantes do conselho deverão votar agora pela continuidade ou não do processo. Entre outras coisas, Cunha é acusado de ter mentido à CPI da Petrobras ao negar a existência de contas na Suíça.

Antes de a batata assar para o seu lado, Cunha pretende acender outra fogueira. Ele anunciou que pretende decidir, no início desta semana, sobre todos os sete pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, que ainda estão pendentes de decisão. No Conselho de Ética, o deputado fluminense depende do voto de três petistas para impedir o avanço de seu processo de cassação.

Meta fiscal

Quanto às votações, a sessão conjunta para decidir sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2016 e o projeto de lei (PLN 5/15) que define a nova meta fiscal a ser cumprida em 2015. Prevista para a última semana, a votação foi adiada para esta terça devido à prisão de Delcídio. Uma vez aprovada a revisão da meta deste ano, o governo fica autorizado a cumprir déficit primário de até R$ 119,9 bilhões.

O relatório do projeto da LDO 2016 que será apreciado contraria a vontade do governo. A equipe econômica de Dilma tentou aprovar redução de pelo menos R$ 20 bilhões na meta. No entanto, a Comissão Mista de Orçamento não autorizou. Com isso, a proposição estabelece que a União e seus entes federados apresentem resultado fiscal de R$ 43,8 bilhões no próximo ano.

Uma missão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s desembarca no Brasil para uma nova análise do quadro político e econômico do país, como informa o jornal O Estado de S.Paulo. A chegada dos analistas da S&P surpreendeu negativamente o mercado financeiro. Há menos de dois meses a agência retirou o grau de investimento – o selo de bom pagador – e colocou a nota do Brasil em grau especulativo para os investidores. O receio dos analistas e do governo é que novo rebaixamento esteja em curso com o agravamento das crises política e econômica.

Supersalários

A pauta do Plenário da Câmara está trancada com proposição que também pode gerar muitos dissabores aos planos fiscais do governo. Será apreciado em plenário substitutivo ao Projeto de Lei 3.123/15, do poder Executivo, que desfigura o texto do governo para regulamentar o teto do funcionalismo. Pela nova versão, os servidores poderão receber até mais que o dobro do atual teto, que é de R$ 33,7 mil, ou seja, mais de R$ 67,5 mil.

Já o Senado deverá decidir sobre a Medida Provisória 697/15, que abre crédito extraordinário de R$ 950 milhões em favor dos Ministérios da Justiça, das Relações Exteriores, dos Transportes, da Defesa e da Integração Nacional.

Entre as despesas previstas com o montante, o Ministério da Integração Nacional receberá R$ 610 milhões para atender as populações vítimas de desastres naturais. A medida destina também R$ 300 milhões para o Ministério das Relações Exteriores, que devem ser utilizados no pagamento de aluguéis de imóveis, salários de auxiliares locais e auxílio-moradia de servidores de 227 representações diplomáticas no exterior (embaixadas, consulados e escritórios).

Riscos diferentes do Brasil, da Argentina e da Venezuela

Por J. Carlos de Assis

A extrema divisão interna da sociedade está encaminhando a Argentina e a Venezuela para a tragédia de uma revolução social. Nós também corremos o mesmo risco, porém com uma atenuante: aqui, depois do fim da Guerra Fria, as divisões ideológicas são menos acentuadas, e as divergências políticas nas elites dirigentes são superficiais. Com isso, é muito difícil identificar uma diferença essencial entre seguidores de Lula e de Fernando Henrique. Há diferenças, sim, mas fundamentalmente no campo emocional, como torcidas de futebol.

Antes que haja uma contestação, é bom lembrar que o principal ministro de Dilma, Joaquim Levy, na área central da administração pública, saiu das hostes tucanas. Então como dizer que há diferenças inconciliáveis entre as elites petistas e tucanas no terreno concreto da economia? Obviamente que há petistas indignados com a entrega a Levy do principal posto do Governo mas eles não contam como elite dirigente. Diante do fato, a única saída dos inconformados é estimular ações das bases contra o Ministro de forma puramente emocional.

Essa situação foi criada não por Dilma, mas por Lula, com seu espírito de conciliação. Por diferentes razões isso funcionou com ele. Por diferentes razões isso já não funciona com ela. Dois fatores nos empurraram para o estado de pré-ruptura que nos aproxima de Argentina e Venezuela: a não aceitação por Aécio Neves, sem qualquer base jurídica ou política, de sua derrota eleitoral, e as consequências econômicas da Lava Jato, que empurrou o país para uma recessão a que se somou ao ajuste Levy. O resultado é uma contração que ameaça chegar a 5%  este ano, já se anunciando oficialmente mais 2% de contração no próximo.

Se o risco de ruptura na Argentina e na Venezuela se deve a divisões ideológicas e políticas, no Brasil o problema é de outra natureza: caminhamos para uma das crises econômicas e sociais mais agudas de nossa história, o que afeta interesses reais, não propriamente ideológicos e políticos, de milhões de pessoas desempregadas ou ameaçadas de desemprego e de queda de renda real. Essa base social, na medida em que tomar consciência de que não lhe oferecem esperança, pode explodir, não contra o PT ou contra o PSDB, mas contra toda a classe dominante e dirigente, por seu fracasso na condução da economia.

A mídia tem papel decisivo no processo de gerar combustão social. A máquina de magnificação de escândalos da Rede Globo, totalmente partidarizada, está criando condições emocionais para a explosão da crise na medida em que martela a opinião pública com denúncias ainda em fase de investigação tomadas como verdadeiras (veja o caso do filho do Lula). Acontece aí o que escrevi em “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”: a grande imprensa reproduz, como verdade, toda declaração da polícia, da promotoria ou do juiz a fim de explorar, de forma muitas vezes injusta, a emoção de cada caso..

Essa situação extrema requer soluções extremas. Ninguém tem dúvida de quão difícil é arquitetar um pacto social. Mas isso vem sendo tentado e teremos notícias em breve do compromisso que está sendo costurado em torno do DIEESE juntando trabalhadores e patrões. No próximo dia 3 será anunciado um acordo. Mesmo que não seja o ideal, nem completo, será o primeiro passo para a construção do que estou chamando de Grande Acordo Social em torno do objetivo comum de mudar a política econômica no rumo da recuperação e preservação do emprego, e da retomada imediata do crescimento econômico.

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José Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”,  Ed. Textonovo, SP.

Rasgando a Constituição Cidadã: O Estado de Direito à beira do abismo

Por Geniberto Paiva Campos | Brasília, novembro de 2015

Foto: Agência Câmara

Estranhem o que não for estranho. Sintam-se perplexos ante o cotidiano. Tratem de achar um remédio para o abuso, mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.

(Bertolt Brecht – “A exceção e a regra”)

1.    De forma lenta, segura e gradual o Brasil vai se afastando dos cânones da Lei, da Democracia e do Estado de Direito. E o mais grave, com a adesão cúmplice de juízes das mais diversas instâncias. Resolvidos a promover “mudanças” no país a qualquer custo, com o apoio automático e algo apressado da chamada grande imprensa e de setores articulados do Congresso Nacional.

A sociedade brasileira assiste, perplexa, às vezes lamentavelmente passiva, aos mais abusivos ataques às suas mais sagradas instituições, num grau de ousadia nunca imaginado, colocando em grave risco conquistas recentes no campo da Democracia, que se imaginava se não  perenes, ao menos duradouras.

Inocula-se de forma insidiosa na Sociedade o germe da desconfiança com a classe política e com os dirigentes do poder executivo. Ao mesmo tempo em que se criam heróis togados, com a nobre missão de “salvar” o país, passando por cima da Lei e dos Direitos dos Cidadãos. Tal como no século passado, decretou-se a morte -  por asfixia – do processo democrático, com o nobre pretexto de salvar a própria Democracia.

A sequência cronológica dos fatos não permite dúvidas quanto a esse processo, ingênuo em sua aparência, destinado a fazer o país caminhar a passos firmes em direção à barbárie. Criando, dessa forma, as condições para a aceitação plena do capitalismo rentista, fazendo do Brasil tão somente uma colônia – genuflexa – deste “admirável mundo novo“ neoliberal que se constrói, inexoravelmente. A ferro e fogo. No qual o “abuso é sempre a regra”.

A tensão dialética entre o Novo e o Arcaico, evolui agora no leito suave de um estranho entendimento: é impossível atingir o Nirvana neoliberal dentro da Lei e do Estado de Direito. Como dizia aquele velho e calejado senador nordestino na vã tentativa de justificar os abusos: -“Ora, a Lei. Se preciso, contorna-se a Lei. Mas, se necessário, quebra-se a Lei. “ Parece que esses inflexíveis argumentos permeiam e anestesiam a consciência dos novos donos do poder. E celebra-se entre as elites um pacto pelo atraso. Pela resistência à Modernidade. Afastando a Democracia, com Justiça e a Igualdade, dos nossos horizontes, mesmo os mais distantes.

2. Os torniquetes e o garrote vil passaram a ser utilizados mais intensamente na vida política e eleitoral brasileira, a partir de 2002, numa sequência irreversível. Primeiramente a Lei que proibiu e passou a punir a compra de votos. No varejo. No atacado continuou permitida, através das doações privadas às campanhas eleitorais. Depois a Lei da Ficha Limpa. Normas legais obtidas junto ao Congresso Nacional por mobilização popular, cheias de boas intenções em sua origem, mas que lamentavelmente serviram até agora, apenas para estigmatizar a atividade política e alargar caminhos para os abusos legais cometidos em sequência cronológica. Um exemplo, a AP 470, codinome ”Mensalão”, quando juízes da Suprema Corte se permitiram usar dos mais estapafúrdios e incoerentes critérios legais na tomada de duras decisões condenatórias.

(Exemplo da “coerência” de um juiz do STF: 1. ao condenar um líder petista na AP 470: “não existem provas contra o réu, mas a literatura jurídica me permite condenar”;  2. ao absolver um ex-presidente da república: “não vejo provas no processo, portanto não tenho como condenar sem ao menos uma única prova”).

Dando seguimento à campanha de criminalização das atividades partidárias e empresariais entra em cena a “Operação Lava Jato”, que no esforço de provar a todo custo suas estranhas teses jurídicas, e prender e punir mesmo sem provas consistentes, introduz na mente dos brasileiros que leem os periódicos e acompanham as notícias por rádio e TV, a “delação premiada”. O novo achado do judiciário brasileiro, o qual veio substituir o bizarro e surpreendente “domínio do fato”, amplamente utilizado na AP 470.  Parece que o judiciário, a exemplo da mídia, passou a “testar hipóteses”. E aferir a aceitação dos seus fiéis leitores/seguidores à sua incrível capacidade criadora. Afinal, tudo é permitido, pois é preciso pegar os bandidos e exorcizar os demônios da política. Sutilmente, no século 21, reedita-se o Estado Novo, o golpe dentro do golpe em 1937, na ditadura Vargas, implantando-se uma Nova Ordem Jurídica visando impedir a evolução do país em direção a uma sociedade mais justa e igualitária. Pouco importando se essa nova ordem poderá levar o país a um brutal regime ditatorial. O conhecido “samba de uma nota só” da política brasileira. Sempre a caminho do habitat dos primatas.

3.    Agora foi a hora e a vez de um senador da república. (Claro, apenas por mera coincidência, do Partido dos Trabalhadores). Preso em flagrante delito. Qual o grave delito que o senador Delcídio do Amaral teria cometido, sabendo-se que a Constituição da República – ainda vigente -  só permitiria a sua prisão em flagrante caso houvesse cometido crimes inafiançáveis? Quais seriam esses crimes?

Para responder a essas questões, ouçamos os operadores do Direito.(*)

De acordo com autoridades do Direito Penal, “aprende-se nos primeiros anos da  Faculdade de Direito, por mais medíocre que seja o professor de Processo Penal, serem eles o racismo (não a injúria racial), a tortura, o tráfico ilícito de drogas, o terrorismo, os definidos como crimes hediondos, o genocídio e os praticados por grupos armados, civis ou militares, , contra a ordem  constitucional e o Estado Democrático, nos termos  do artigo 5º, XL.II e XL.III da Constituição Federal” Difícil, senão impossível, enquadrar o senador nestes tipos de delitos para respaldar sua prisão em flagrante. Devendo-se, portanto, aguardar a denúncia.

Ainda de acordo com os autores citados, a Constituição estabelece: a) “senadores devem ser investigados e punidos caso cometam crimes; b) não é permitida a prisão preventiva de senadores.” Exceto nas condições acima citadas (crimes inafiançáveis). Concluem os autores: “estariam criadas condições para a suspensão de dispositivos constitucionais, instaurando-se a exceção? Abrimos espaço para em nome da finalidade justificar o que não se autoriza”? Eis a questão.

Adicionalmente, mas não menos importante, o senador teria sido vítima de uma grotesca armação, ao participar de uma conversa privada, cujos diálogos foram gravados sem autorização prévia dos participantes. (Coincidentemente com quatro pessoas presentes, número que caracteriza a formação de quadrilha…)

Qual o valor legal probatório de uma gravação obtida em tais condições? Teria havido autorização legal, prévia? Este é um ponto que necessita esclarecimento.

Supondo ter sido a gravação obtida ilegalmente, qual o valor dessa prova?

Eis o que disse um ministro do STF no julgamento da AP 307-DF, citado pelos mesmos autores:  “ A gravação de conversa com terceiros, feita através de fita magnética, sem o conhecimento de um dos sujeitos da relação dialógicanão pode ser utilizada pelo Estado em juízo (…) sendo, em consequência, nula a eficácia jurídica da prova obtida por esse meio…”

4.    Situadas além da argumentação jurídica relacionada à legalidade de atos e decisões de juízes e tribunais, colocam-se questões fundamentais, conectadas à plena vigência do Estado de Direito no Brasil. Afinal, com tantas e tão repetidas transgressões à Ordem Jurídica não estaria o pais caminhando para um estado de exceção? Podem ser citadas: – a perigosa “naturalidade” com que medidas escancaradamente ilegais são assimiladas; – a politização e até a partidarização explícita de setores do judiciário (vide a surpreendente justificativa do voto de um ministro do STF ao declarar – se favorável à “prisão em flagrante” de um senador da República, medida claramente contrária ao que determina a norma constitucional, e mais grave, contendo assertivas descabidas, que caberiam melhor num palanque, constituindo uma espécie de ameaça à legalidade e à ordem vigentes); – o uso abusivo e repetido de prisões como forma de coação de réus, sem qualquer chance de terem respeitado o sagrado direito à presunção de inocência e o direito de defesa, com mínimas possibilidades de um julgamento justo; – e, finalmente, o uso da “delação premiada” como moeda de troca para possível  atenuação de suas penas, desde que direcionadas para determinadas pessoas e partidos políticos.

Todos estes fatos, incontestáveis, colocam o Estado de Direito reconquistado a duras penas pela sociedade brasileira há pouco mais de 30 anos, à beira do precipício, de profundidade impossível de calcular e cujo retorno à normalidade democrática torna-se impossível prever. Até quando iremos conviver com o abuso?

(*) “Para (não) entender a prisão de um senador pelo STF ”/ Moreira, R.A e Rosa, A.M . inwww.empóriododireito.com.br / 2015