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Para André Singer, governo precisa ativar economia e ‘mudar de rumo’ para enfrentar crise

Por Eduardo Maretti | Via RBA

‘Se existe uma avaliação de que as medidas necessárias a uma política de desenvolvimento não teriam base política, isso tem que ser explicado à sociedade’, avalia ex-porta-voz da Presidência da República.

“O governo Dilma, no primeiro mandato, foi muito corajoso na política econômica”, diz cientista político

São Paulo – A crise vivida pelo governo Dilma Rousseff no início do seu segundo mandato tem aspectos políticos, desencadeados principalmente pelo confronto com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), econômicos, decorrentes da adoção de uma política oposta à que o eleitorado da presidenta esperava, e jurídicos, como consequência da Operação Lava Jato.

Para o cientista político André Singer, embora o governo Dilma, no primeiro mandato, tenha sido “muito corajoso, entre meados de 2011 e final de 2012, tentando alavancar a economia com industrialização e distribuição de renda”, o início do segundo ficou comprometido com a frustração causada pela adoção de soluções que, como o ajuste fiscal, contradizem a plataforma de campanha. “Se a presidente Dilma não tinha a avaliação de que poderia desenvolver essa política (desenvolvimentista), não deveria ter feito a campanha nesses termos. O eleitorado costuma não perdoar esse tipo de mudança”, diz Singer, em entrevista exclusiva à RBA.

Por isso, analisa, o governo precisa “insistir em reativar a economia brasileira e resolver o problema dos gastos públicos por meio do aumento de receitas que adviria da própria reativação da economia”.

Ex-secretário de redação do jornal Folha de S. Paulo, ex-secretário de Imprensa do Palácio do Planalto e ex-porta-voz da Presidência da República, cargos exercidos no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o professor do departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP entende que as manifestações ocorridas no dia 13 (em defesa do mandato de Dilma) e do dia 15 (contra a presidenta) eram previsíveis. “Mas a dimensão delas foi maior do que se esperava.”

Leia a entrevista:

Havia quem achasse que o Brasil seria “outro país” depois das manifestações dos dias 13 e 15. Isso aconteceu?

Não diria que é um outro país, mas é um fato novo que, de alguma forma, altera, sim, a conjuntura. Essas manifestações eram previsíveis, mas a dimensão delas creio que foi maior do que se esperava.

Ambas?

Ambas foram maiores. Elas eram previsíveis porque, de um lado, há um acirramento do conflito distributivo, que já vem andando desde, eu diria, aproximadamente junho de 2013, mas agora, com o ajuste fiscal, ele se torna mais agudo, porque com o ajuste fiscal fica premente saber quem vai pagar essa conta, de onde vai tirar. Isso tornou o conflito distributivo bem mais quente. De outro lado você tem o enfraquecimento do governo, e com isso há uma situação que começa a aparecer como de crise, e numa situação de crise, as forças políticas e sociais tendem a se mobilizar. Essas duas causas aceleram uma conjuntura bem complicada.

Há um mês e meio o sr. não considerava haver uma crise. Hoje, já se pode falar em crise?

Eu acho que nós entramos num processo de crise, sim. Uma coisa que acelerou essa situação foi o erro que o governo cometeu ao confrontar o Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados. Houve uma derrota importante que deixou o governo numa situação frágil no Congresso Nacional. E deixou a relação com o PMDB muito estremecida. A isso se acrescentou o fato de que as denúncias da Operação Lava Jato atingiram a presidência do Senado e da Câmara, com a consequência de que, no caso do Senado, houve uma espécie de “rebatimento” ao Executivo, que, na minha opinião, não tem responsabilidade sobre a lista que acabou sendo decidida pela Procuradoria-Geral da República e enviada ao Supremo Tribunal Federal dos políticos a serem investigados. Ao mesmo tempo há os sinais de que a situação econômica está se deteriorando de maneira mais acelerada do que se previa. Isso era previsto, mas essa deterioração está sendo mais rápida do que o previsto, o que coloca o cenário numa situação de início de crise.

Na questão das dificuldades econômicas, o que se pode atribuir a erros do governo e o que é causado por pressão do mercado?

A gente precisa separar bem os elementos para compreender o que está acontecendo. Quando se fala de erros do governo Dilma, costuma ser a senha para se falar de uma política econômica que o mercado financeiro não gostava e gradativamente essa rejeição acabou ganhando o apoio do conjunto do capital. O conjunto dos empresários acabou aderindo a um ponto de vista de que essa política que vinha sendo desenvolvida no governo Dilma era equivocada. Eu não concordo com essa avaliação. O governo Dilma, no primeiro mandato, foi muito corajoso, entre meados de 2011 e final de 2012, tentando alavancar a economia com industrialização e distribuição de renda. Para fazer isso, ela adotou o que eu chamo de ensaio desenvolvimentista. Talvez tenha sido, durante todo o período do lulismo, o mais nítido ensaio desenvolvimentista que ocorreu na política econômica. Os juros foram reduzidos para um patamar de 2% reais ao ano, não nominais, que é uma aproximação importante da taxa de juros internacional. Houve uma política de controle cambial, e simultaneamente de investimento público por meio do PAC. Naquele momento houve uma transformação do chamado tripé macroeconômico neoliberal.

A gente poderia dizer que se apresentou uma nova matriz econômica, e isso não é força de expressão. Só que durou pouco. A partir do final de 2012 e meados de 2013, começa um recuo, e os dois últimos anos são de uma política mista: os juros voltaram a subir, uma certa forma de controle cambial foi abrandada e de alguma maneira alguns aspectos do tripé macroeconômico neoliberal voltaram, juntamente ainda com uma política do tipo desenvolvimentista, com as desonerações, controle do preço da energia.

Não acho que tenham sido erros. Acho que foram idas e vindas dentro de um projeto desenvolvimentista do qual a burguesia se afastou, inclusive a burguesia industrial, que eu acredito tenha sido num primeiro momento o objeto do governo. Penso que o governo apostou que a burguesia industrial fosse apoiar essa política que em boa medida foi desenhada para ela, porque era uma política voltada para a reindustrialização do país. Vamos lembrar por exemplo que a proposta de redução do preço da energia nasceu na Fiesp, o governo encampou, mas a reação da burguesia foi dizer que o governo era intervencionista e que a presidente Dilma deveria ser substituída. Entre o primeiro e o segundo mandato a presidente Dilma finalmente acabou por ceder às pressões do mercado financeiro, pressões que a essa altura já tinham o apoio do conjunto da burguesia, e está realizando uma política recessiva, que era reivindicação desses setores.

A presidente tem sido criticada à esquerda pelo ajuste fiscal e a política adotada. Existiria alternativa? Qual seria?

Certamente existiria. Insistir em reativar a economia brasileira e resolver o problema dos gastos públicos por meio do aumento de receitas que adviria da própria reativação da economia.

Como ativar a economia num cenário de crise, preço das commodities baixo, desindustrialização e emprego dando sinais de recuo?

A questão das commodities vale plenamente até 2008. A partir daí começa uma nova realidade, com a crise capitalista internacional. A situação de excelência do preço e consumo das commodities vendidas pelo Brasil se altera em alguma medida a partir de 2008. De 2008 até 2012, o governo adota um conjunto de medidas para sustentar a economia e em parte conseguiu. 2010 foi um ano de crescimento, com 7,5% já numa situação pós-crise.

Crescimento muito apoiado nos bancos públicos…

Sem dúvida. Não haveria como desenhar uma política de reativação da economia sem os bancos públicos. O que eu acho é que seria necessário insistir nessa política. O Brasil tem um grande mercado interno e está longe de ser um país pronto. As pessoas têm muito para consumir e chegar a um padrão de vida de baixo consumo. Não existe aqui uma situação como a japonesa ou a alemã, em que as pessoas não precisam de coisas fundamentais. Existe um enorme contingente de pessoas que vivem em situação de pobreza relativa, maior ou menor, que ainda precisam consumir. Você pode produzir para essas pessoas. É preciso encontrar os meios de ativar essa economia, ainda que a situação internacional seja mais difícil.

Existem duas vertentes hoje, postas para enfrentar uma situação de dificuldades econômicas. Uma é a receita de austeridade, que está valendo praticamente para todos os países, com exceção da Grécia, que resolveu arriscar uma outra alternativa. Eu diria: nós também temos que arriscar. Diante de uma situação como essa, o Brasil precisaria tentar uma outra saída.

Isso não parece difícil, no momento?

Na realidade, o que aconteceu, por razões que eu não compreendo muito bem, é que a presidente Dilma resolveu fazer uma campanha dizendo isso (apontando para uma política desenvolvimentista). E acabou sendo eleita com essa plataforma. Foi uma eleição apertada, e nesta diferença pequena que se consolidou no segundo turno esse discurso teve um papel de catalisador, que animou muita gente a ir pra rua fazer campanha. Hoje, em face do que está acontecendo, eu digo que foi um erro. Se ela não tinha a avaliação de que poderia desenvolver essa política, não deveria ter feito a campanha nesses termos, porque a mudança entre o que se diz o que se faz, em termos eleitorais, cobra um preço muito alto. O eleitorado costuma não perdoar esse tipo de mudança. Criou-se uma expectativa de uma política diferente e uma certa base política para uma outra tentativa de reativar o crescimento que, no meu entendimento, é o que foi prometido explicitamente na campanha. Agora, se existe uma avaliação de que as medidas necessárias para isso seriam medidas que não teriam base política, isso tem que ser explicado para a sociedade, para o eleitorado e também para a militância que apoiou essa proposta.

Mas propostas de desenvolvimento apresentadas na campanha não podem ser interpretadas como para ser executadas a longo prazo? Não é um pouco cedo para fazer o julgamento de que Dilma “traiu” o eleitorado?

Eu torço pelo melhor. Quando a presidente diz que as medidas não são drásticas, que são temporárias e que terão efeito rápido, torço para que ela tenha razão. No entanto, nós somos obrigados a acompanhar os acontecimentos tal como eles se apresentam. Na argumentação dos economistas neoliberais e de diversos porta-vozes desse ponto de vista, fica claro que o que se busca é se produzir desemprego. “A economia brasileira deixou de ser competitiva porque há muito emprego e os salários cresceram.”

Então, esta política que está sendo desenvolvida busca isso, não vai parar enquanto não atingir isso. Torço para que não aconteça e sempre dou o crédito a quem do nosso campo está afirmando outras coisas. Mas sou obrigado, como analista, a advertir que existe uma enorme pressão na outra direção e os sinais que a gente vê parecem ser preocupantes.

É verdade que influem também as consequências da Operação Lava Jato. Esta operação está afetando um dos núcleos da economia brasileira, que gira em torno da Petrobras. Não é apenas a Petrobras. Mas, diante de uma situação como esta, mais razão teria então o governo para ativar a economia. É preciso de uma ação, por assim dizer, anticíclica. Se você tem um dos setores econômicos afetado por um processo de investigação, que tem de ser feito – as denúncias parecem ter determinados elementos que justificam a investigação –, por mais que crie problemas para uma empresa que queremos preservar como patrimônio do povo brasileiro, então, mais razão tem o governo de procurar ativar, não desativar a economia. Não é uma crítica no sentido de desgastar o governo, mas no sentido de dizer que é preciso mudar de rumo.

Morales diz que Obama deve pedir “perdão” à Venezuela antes de cúpula

Via Agência Efe

O presidente da Bolívia, Evo Morales, exigiu nesta sexta-feira que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, “peça perdão” à Venezuela por suas “ameaças” antes da Cúpula das Américas, e advertiu que se não fizer isso terá que enfrentar os “presidentes anti-imperialistas” na reunião do Panamá.

Em entrevista coletiva na cidade de Cochabamba, Morales criticou o fato dos EUA terem declarado estado de emergência nacional pelo “risco” de que a situação na Venezuela representa para sua segurança.

Evo diz que obama “ameaçou” o país. EFE/Hugo Ortuño

Morales afirmou que a os EUA não são “apenas uma ameaça para a Venezuela, mas para a América Latina”.

A Cúpula das Américas será realizada entre os dias 10 e 11 de abril.

Além disso, o governo americano ampliou as sanções a vários funcionários venezuelanos incluídos em uma lei aprovada em dezembro do ano passado por Washington.

Morales afirmou que com esta decisão os Estados Unidos estão “planejando a intervenção militar na Venezuela”.

Segundo o governante boliviano, todos os países “rejeitaram essa ameaça”, por isso, segundo sua opinião, será “melhor” para o presidente Obama “chegar bem” na Cúpula das Américas para debater sobre outros temas de desenvolvimento.

Segundo sua opinião, “o melhor sinal” que o governo americano pode enviar para a região é suspender o embargo econômico a Cuba antes da reunião de chefes de Estado no Panamá.

 

Moscou ratifica criação de banco do Brics

Por Kira Latukhina | Via Gazeta Russa

Membros do Brics terão direitos exclusivos, como, por exemplo, à presidência rotativa. Foto: AP

Novo Banco de Desenvolvimento acordado na cúpula de Fortaleza dá passos iniciais para sair do papel. Primeiro presidente de conselho gestor será brasileiro.

O presidente russo Vladímir Pútin ratificou na segunda-feira (9) o acordo de criação do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O documento está disponível no portal oficial de informações jurídicas do país.

O acordo de criação da instituição foi assinado no dia 15 de julho de 2014 em Fortaleza, Ceará. A ideia é que o banco seja usado para financiar projetos infraestruturais e para o desenvolvimento estável dos países do Brics e outros em desenvolvimento.

Apesar de o banco poder ser usado por outros Estados, os fundadores terão direitos exclusivos na instituição. Assim, os presidentes da organização serão escolhidos entre representantes dos países do Brics em regime de rotação e a maior parte dos votos para decisões-chaves dos órgãos administrativos serão dos países fundadores.

Também está previsto um sistema administrativo de três níveis, composto por conselho gestor, conselho de diretores e presidente.

O primeiro diretor do banco será um representante indiano, o primeiro presidente do conselho de diretores, brasileiro, e do conselho gestor, o ministro das Finanças russo Anton Siluanov, como anunciado anteriormente pelo vice da pasta, Serguêi Stortchak.

O volume de capital autorizado do banco é de 100 bilhões de dólares, de capital dedicado, 50 bilhões, e de capital social, 10 bilhões.

O capital será repartido entre os países participantes de maneira proporcional. A fração que caberá à Rússia será de 2 bilhões de dólares.

O Ministério das Finanças russo espera que o Novo Banco de Desenvolvimento esteja em funcionamento até o final do ano e trabalhe com força total em quatro ou cinco anos. O acordo é aberto para a adesão de novos participantes, que devem ser membros da ONU de países desenvolvidos ou em desenvolvimento.

A sede ficará em Xangai.

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Material originalmente publicado no jornal Rossiyskaya Gazeta.

“Em política econômica, a política é o substantivo, a economia é adjetivo”: Entrevista com Adhemar Mineiro

Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/03/2015

Trajetória da taxa básica de juros de janeiro de 2011 a atual.

Na semana passada o Comitê de Política Monetária decidiu mais uma vez pela alta de 0,5% da taxa Selic, quando alcançamos a modesta cifra de 12,75% anuais. A ortodoxia econômica – repudiada pela presidenta durante a campanha – assume agora posição central, com direito a pronunciamento oficial em sua defesa e até mesmo repúdio público a gestão anterior por parte do novo e poderoso ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A guinada de retorno aos preceitos do Mercado iniciou o arrefecimento das atividades produtivas, consumo e expectativas. O ajuste fiscal que afeta a arrecadação demandará por sua vez mais cortes e a perigosa espiral de encolhimento pode entrar em cena. A quebradeira de 2008 ensinou pouco ou nada aos tomadores de decisão e a hegemonia neoliberal prontamente se recompôs. Este quadro suscita questionamentos importantes ao debate. Por quê tanta insistência numa política econômica que já se provou equivocada? A quem interessa a manutenção dela? Que opções tem os países que não querem se submeter aos caprichos do mercado financeiro?

Para analisar esta questão crucial o Blog dos Desenvolvimentistas conversou com Adhemar Mineiro, economista, técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), assessor da Rede Brasileira de Integração dos Povos (REBRIP) e integrante da Secretaria de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores. Mineiro considera que as relações de poder no Brasil estão dominadas pelo setor financeiro, beneficiário das taxas de juros que voltaram a subir. Nos lembra que as decisões econômicas são guiadas pela política, expressam a correlação de forças de um país e aponta o mercado interno e a integração regional como alternativa ao modelo desregulador e liberalizante que outra vez vem à tona.

Confira a íntegra:

Semana passada o Copom anunciou o quarto aumento consecutivo da Selic e chegamos ao maior patamar da taxa em 10 anos. Como uma taxa de juros alta como a nossa influi na economia?

Essas altas taxas de juros desincentivam o investimento produtivo (embora parte importante deste no Brasil seja financiado via BNDES, que até aqui não toma a taxa SELIC como referência direta), e penalizam o consumo (créditos mais caros) e os endividados em geral. Mas o mais importante é que garantem uma alta rentabilidade ao setor rentista da sociedade (os donos dos ativos financeiros), e promovem a concentração de renda (se um setor é remunerado a 12,75% ao ano, enquanto a renda nacional fica estagnada, é evidente que está havendo concentração de renda em benefício dos aplicadores do mercado financeiro).

Quem se beneficia e quem é prejudicado com juros elevados?

Os beneficiários são os donos dos ativos financeiros, e os intermediários financeiros – bancos e outros. Os prejudicados são os que dependem de crédito para o consumo e o investimento, e os endividados em geral. Pode-se dizer também que, ao atingir o consumo e o investimento e frear a atividade econômica, os trabalhadores em geral são prejudicados, pois veem atingida sua renda e ameaçados seus empregos.

Por que em nosso país os juros são tão maiores que no resto do mundo? Como explicar essa “cultura” rentista?

Creio que isso expressa o poder que têm no Brasil os detentores dos ativos financeiros e os intermediários financeiros. A situação é bem complicada, pois no Brasil, da propriedade dos ativos financeiros, da propriedade da terra, da propriedade do solo urbano e outros, a classe de proprietários deriva não apenas poder econômico e financeiro, mas poder político (pela via do financiamento de campanha) para manter o status quo e operar a seu favor a política fiscal (isto é, manter a tributação regressiva no país), o gasto público em seu benefício, e outras benesses resultantes do controle do poder político, contribuindo para ainda maior concentração da renda e da propriedade no futuro.

Quando se questiona o aumento de juros as explicações sempre giram em torno do combate a inflação. Este é o único instrumento que pode ser empregado? Se não, que outros métodos poderiam ser usados?

Esse é talvez o pior instrumento a ser empregado, pois ao inibir o investimento, funciona como uma camisa de força ao crescimento econômico, já que sem expansão da produção não se pode crescer em função dos efeitos sobre a inflação e sobre o balanço de pagamentos oriundos do crescimento sem investimento. Além disso, no curto prazo, o aumento dos juros é custo para vários setores, e como tal, também um propulsor da inflação. Para pensar os instrumentos, se deveria refletir sobre as causas da inflação no Brasil. Seguramente elevadas margens de lucros, elevados custos financeiros, dolarização de alguns preços importantes, remuneração de concessões, entre outros, estão na raiz da inflação brasileira. Atacar essas causas nos remete, entretanto, à questão anterior e à discussão sobre o poder político da classe de proprietários no Brasil, ou seja, o poder político é que dá o tom do debate. A política de combate à inflação adotada acaba refletindo a essência – em política econômica, a política é o substantivo, a economia é adjetivo – e penaliza a renda e o emprego dos trabalhadores e dos mais pobres, garantindo os elevados rendimentos do chamado “andar de cima”, os proprietários da riqueza no país.

Quais são os efeitos da guinada ortodoxa que o governo deu? Há chance da recessão se instalar este ano?

O “clima de recessão” já está instalado, em função da própria adoção do discurso de freio da economia via políticas monetária e fiscal adotado pelas autoridades econômicas, o que você está chamando de “guinada ortodoxa”. O que vai acontecer de fato depende de muita coisa, e com a instabilidade internacional e as indefinições da política interna, qualquer um que fizer previsões para além de três meses, e isso sendo muito condescendente, está obviamente ou chutando ou em realidade propagandeando seus próprios interesses.

Ao mesmo tempo em que a União Europeia questiona a efetividade das políticas cíclicas o Brasil adere a elas. Como explicar isto?

De novo aqui só conseguimos entender os discursos sobre a política econômica se entendemos que a política é o substantivo nessa definição, e o econômico é adjetivo na expressão. A Europa está evidentemente no centro de um debate sobre alternativas, com vários países (não só os que viveram de forma mais aguda a crise a partir de 2008, como Irlanda, Portugal, Espanha, Grécia, Lituânia, Chipre, Itália e outros, como também países do chamado “núcleo duro” da União Europeia, como a França e a Inglaterra) tendo que administrar uma saída política para o futuro, e o crescimento de partidos políticos e propostas de soluções impensáveis até 2010. E no Brasil hoje predominam os interesses dos proprietários dos ativos financeiros e os intermediários financeiros. Mas é o pêndulo da política econômica. Em 2008 e 2009, ao adotar políticas heterodoxas, o Brasil conseguiu muito mais sucesso em gerir a crise econômica que a Europa. Como explicar? Pela política, pela correlação de forças do jogo político, pela dinâmica do enfrentamento político no interior dos países.

Por quê mesmo após a quebradeira de 2008 as teorias dos “gurus” da economia continuam em alta? A academia não realizou uma autocrítica?

Em 2008 e 2009 se ensaiou, não só na academia, mas em especial entre os que tomam decisão na economia mundial, que é o que conta, um ensaio de autocrítica. Quem ler os comunicados finais dos encontros dos G20 dos EUA e da Inglaterra nesse período vai ver claramente esse ensaio. Entretanto, ele só seguiu adiante até que o mundo financeiro tivesse limpado seus passivos comprometidos, passando o risco e o chamado “mico” para o setor público. A partir de 2010, e das reuniões do G20 em Toronto, Canadá, e em Seul, na Coreia do Sul, o discurso foi mudando, e hoje temos novamente uma ampla hegemonia das posições mais ortodoxas. A academia aqui conta como formadora de opinião, com as opiniões mais ortodoxas sendo reverberadas pelos editoriais da grande imprensa, mas o mundo dos tomadores de decisão, que é o mais importante, também passou por esse processo. Entretanto, é um processo, e não está muito claro o final da história, até porque essa história não tem final, ela segue sua dinâmica. Há que considerar, nesse momento, o peso dos asiáticos entre os tomadores de decisão (que não se movem em geral pelas “academias” do Ocidente), reflexo de um mundo mais multipolar, e a busca desesperada da Europa para evitar propostas de fragmentação ou o crescimento da extrema-direita. Vamos ver o que vai acontecer nos debates nos próximos anos.

Considerando a conjuntura global de arrefecimento das atividades produtivas, que política econômica seria mais apropriada como resposta?

Do ponto de vista do Brasil, creio que se voltar mais para dentro, buscar alavancagem no mercado interno e nos investimentos em infraestrutura social e expansão da produção de bens dentro do país. Além disso, creio que seria positivo não só para o Brasil como para os demais países da região uma retomada do processo de integração regional, que foi uma via importante até meados da primeira década do Sec. XXI, mas anda meio abandonado. Quanto mais se for para o mercado global, mais instabilidade financeira e mais concorrência externa será o resultado. E, aproveitando a baixa dos preços das commodities, é hora de buscar sair dessa armadilha de ser um produtor e exportador de commodities, que representa um enorme custo social e ambiental para o país.

As turbulências do mercado internacional nos dão importante oportunidade de discutir um novo projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil, mas isso não é um debate trivial, e nem diletante, mas um debate político de fundo, de definição de rumos. Perdemos fundamentalmente a chance de fazer esse debate no processo eleitoral do ano passado, o que foi uma pena. Suspeito que os setores dominantes agora queiram centrar o debate no epidérmico, tratando temas como a corrupção como uma questão fundamentalmente moral, quando ela é mais do que tudo um elemento estrutural no funcionamento da política no Brasil. Um exemplo? A grande imprensa fala o tempo todo na relação promíscua entre políticos (de vários partidos, de governo e oposição) e as empreiteiras, mas ninguém se anima a debater a questão do financiamento público de campanhas, que poderia ser uma forma de reduzir o poder político das empreiteiras, aliás a grande maioria dos políticos (de novo, de governo e oposição, da maioria dos partidos) nem quer ouvir falar nisso. E, ao fazer dessa questão epidérmica o centro do debate, se perde a chance, mais uma vez, de fazer um debate político de fundo, sobre o modelo de país que queremos, e as políticas para caminhar naquele sentido.

Mas, de novo, essa agenda curto-prazista e que não entra nos debates de fundo sobre os rumos da sociedade brasileira é um reflexo da correlação de forças atual, interessa aos proprietários da riqueza no país, que não querem mudar nada, ou quase nada, que, como dizia um velho compositor cubano (Silvio Rodriguez), “no es lo mismo, pero es igual”.

É como se a Argentina tivesse voltado para visão de 1960, diz Mujica sobre integração regional

Via Opera Mundi

“O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, afirmou presidente uruguaio, que está no fim do mandato.

Mujica diz que Argentina parece ter “retrocedido” para uma visão de 1960. Agência Efe

“A integração precisa uma liderança, e essa liderança se chama Brasil, mas a Argentina teria que acompanhar, e não acompanha nem um c…, pelo contrário, é como se a Argentina tivesse retrocedido para uma visão de 1960″, criticou duramente o presidente uruguaio.

A poucos dias de deixar o governo do país, Mujica analisou a situação atual do processo de integração regional encarnado em organismos como o Mercosul e a Unasul e considerou que existe “um grande desafio pela frente”.

O presidente do Uruguai também afirmou que os países mais integracionistas da região latino-americana são os “menores”, por “necessidade”.

Mujica questionou o papel que Argentina desempenha neste processo, ao afirmar que o país “se esquece da integração” porque “quando as coisas vão bem agarra para o outro lado”.

O chefe de Estado se referiu ao Brasil, Argentina e México como “os países determinantes da América Latina”, mas ressaltou que seus dirigentes “falam e assumem um discurso integracionista, mas do ponto de vista prático, estão intrometidos até as orelhas nas contradições do Estado nacional”.

“A Argentina termina sendo determinante em tudo. O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, considerou Mujica.

“Se não encontramos mecanismos que vão nos integrando, que possam nos dar uma presença internacional de peso, vamos continuar como folhas soltas no vento”, acrescentou.

Após cinco anos de governo, Mujica deixará o poder em 1º de março. Em seu lugar assumirá Tabaré Vázquez, que já presidiu o Uruguai entre 2005 e 2010 e venceu o segundo turno das eleições realizadas em 30 de novembro do ano passado.

Dilma defende que Celac inclua comércio em sua pauta

Por João Fellet | Via BBC

Bloco dá ênfase a questões políticas mas Brasil quer levar discussão econômica a cúpula

A presidente Dilma Rousseff propôs nesta quarta-feira em San Jose, capital da Costa Rica, que a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) amplie suas atribuições e busque incrementar o comércio entre seus países membros para defender a região de turbulências econômicas externas.

Em discurso diante dos outros chefes de Estado do bloco, Dilma defendeu criar um fórum de empresários da Celac, com a presença de governos e empresas da região.

“Seu objetivo será desenvolver o comércio, aproveitando as oportunidades diversificadas que nossas economias oferecem, e estimular a integração produtiva no espaço Celac, promovendo nossas relações com o mundo”, afirmou.

Dilma disse que a proposta busca enfrentar “uma conjuntura econômica mundial complexa”, que atribuiu à “lenta recuperação da economia americana” e à estagnação na Europa e no Japão, além da desaceleração do crescimento na China.

“Diante desse quadro, torna-se urgente nossa cooperação, priorizando o comércio intrarregional e ao mesmo tempo estimulando o desenvolvimento e a integração de nossas cadeias produtivas.”

A presidente afirmou ainda que “os países da Celac devem unir-se para enfrentar os problemas da economia mundial e retomar o crescimento robusto”.

Desde sua fundação, há três anos, a Celac é um fórum voltado principalmente a temas políticos e, diferentemente de outros blocos regionais, como o Mercosul e a Aliança do Pacífico, dá pouca ênfase a questões econômicas e comerciais.

O bloco já vem, no entanto, expandindo sua atuação para outros temas e regiões. No início do mês, os chanceleres de seus países membros participaram pela primeira vez do fórum Celac-China, em Pequim.

A parceria busca atrair mais investimentos chineses para a região e definir diretrizes para as relações da China com os países da Celac.

Ao negociar com latino-americanos e caribenhos, a China traz como bagagem sua grande expansão recente na África, onde na última década difundiu com sucesso um modelo pelo qual financia e executa obras de infraestrutura em troca de matérias-primas.

A Celac em breve também fará sua primeira reunião com a União Europeia, em junho. Segundo Dilma, no encontro serão debatidas “oportunidades de investimento e de comércio”.

A proposta de Dilma sobre o fórum de empresários da Celac se alinha com sua defesa por uma “diplomacia de resultados”, que priorize ganhos econômicos. A visão norteia outras iniciativas externas de seu governo, entre as quais os planos anunciados de usar a Agência Brasileira de Cooperação para estimular a exportação de produtos brasileiros.

Transcendência histórica

Dilma afirmou que embargo dos Estados Unidos a Cuba deve “ser superado” após anúncio de reaproximação dos países

Em seu discurso, Dilma também tratou do anúncio da normalização das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, ocorrido em dezembro e que ela chamou de “um fato de transcendência histórica”.

Segundo ela, com o anúncio, “começa a se retirar de cena o último resquício de Guerra Fria em nossa região”.

“Os dois chefes de Estado (Barack Obama e Raúl Castro) merecem nosso reconhecimento pela decisão que tomaram – benéfica para cubanos e norte-americanos, mas, sobretudo, para todo o continente.”

A presidente ponderou, no entanto, que o embargo econômico, financeiro e comercial dos Estados Unidos a Cuba continua em vigor.

“Essa medida coercitiva, sem amparo no direito internacional, que afeta o bem-estar do povo cubano e prejudica o desenvolvimento do país, deve também ser superada.”

Dilma afirmou que o financiamento do Brasil à reforma do porto de Mariel, em Cuba, simboliza o compromisso do país com “uma integração abrangente” no hemisfério.

A obra, financiada pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), foi executada pela empreiteira brasileira Odebrecht.

Dilma permanece em San José até esta quinta-feira, quando participará de uma reunião fechada com os demais membros da Celac.

Há a previsão de que ela aproveite o evento para se encontrar em privado com os presidentes do Panamá, Juan Carlos Vilela, e da Colômbia, Juan Manuel Santos.