Arquivos da categoria: Integração

Lava Jato abre espaço para investimento chinês no Brasil

Por Mariana Schreiber | Via BBC Brasil

Li Keqiang desembarca junto com empresários chineses nesta segunda-feira em Brasília

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, e uma missão de empresários de seu país desembarcam nesta segunda-feira em Brasília com a promessa de investir dezenas de bilhões de dólares em diversos setores da economia – de ferrovias a hidrelétricas, passando por autopeças, agronegócios, mineração, siderurgia e TI (tecnologia da informação).

O momento é visto como especialmente favorável a esses investimentos.

De um lado, o governo tem sido obrigado a cortar gastos em infraestrutura devido às restrições orçamentárias.

De outro, os setores de construção e óleo e gás passam por um cenário difícil por causa da Operação Lava Jato, que investiga esquemas de corrupção envolvendo Petrobras, grandes obras públicas e empreiteiras nacionais.

O contexto complicado acaba sendo uma oportunidade para o capital chinês, nota Maria Luisa Cravo, gerente Executiva de Investimentos da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

“Com certeza, cria uma oportunidade. Empresas estrangeiras, quando estão avaliando um país para investir, levam em conta todo tipo de fator. Certamente, empresas de óleo e gás que não estava atuando no Brasil, não eram fornecedores da Petrobras, têm interesse e sabem que há uma oportunidade (agora)”.

Segundo Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil China (CCIBC), um estaleiro chinês ganhou neste ano parte da concorrência internacional aberta pela Petrobras para construção de módulos de compressão, cujo contrato original de US$ 750 milhões foi cancelado com a brasileira Iesa, após citações na Lava Jato. O grupo Inepar, ao qual pertence a Iesa, está em recuperação judicial.

“Como se sabe, os grandes projetos de infraestrutura e de petróleo e gás sempre foram dominados por grandes empreiteiras brasileiras que ora têm dificuldade de concluir as suas obras. Nossa Câmara têm se esforçado para trazer investimentos de grandes empresas chinesas para ajudar a recuperar a economia do Brasil e manter empregos brasileiros”, afirma.

“O empréstimo de US$ 3,5 bilhões (R$ 10,5 bilhões) feito recentemente à Petrobras demonstra a confiança que a China deposita no Brasil e demonstra a importância que a China dá a essa aliança estratégica e comercial. Um amigo em hora de necessidade é um amigo verdadeiro”, acrescenta Tang.

O financiamento, obtido junto ao Banco de Desenvolvimento Chinês no início de abril, chega em um momento que a Petrobras está com o endividamento elevado e enfrenta dificuldade de obter recursos emitindo títulos e ações.

Agenda

Li Keqiang reúne-se com a presidente Dilma Rousseff nesta terça-feira de manhã e no dia seguinte cumpre agenda no Rio e Janeiro, antes de seguir viagem para Colômbia, Peru e Chile.

A China vem ampliando sua presença na região e tem laços próximos também com Venezuela e Argentina.

Durante a passagem da comitiva chinesa pelo Brasil serão assinados mais de 30 documentos, entre acordos governamentais, empresariais e outros atos, sinalizando intenções novas de investimentos de US$ 50 bilhões (R$ 150 bilhões), segundo o embaixador José Alfredo Graça Lima, atualmente à frente da Subsecretaria-Geral de Assuntos Políticos 2, área responsável pelas relações políticas e econômicas do Brasil com a Ásia.

Petrobras recebeu US$3,5 bilhões em empréstimo recente da China

Segundo informações da agência Reuters, será anunciado também a criação de um fundo na Caixa de US$ 50 bilhões com recursos do Banco Industrial e Comercial da China (ICBC) para investimento em infraestrutura – não está claro em que medida essas duas cifras se sobrepõem.

Enquanto maior parceiro comercial do país, a China já tem hoje peso importante na economia brasileira. Para Graça Lima, o crescente interesse chinês em investir aqui traz o relacionamento dos dois países a um novo patamar.

“A visita do primeiro-ministro Li Keqiang segue um histórico de visitas de alto nível que se iniciaram em 2004 e que vêm contribuindo para adensar a relações bilaterias entre Brasil e China. E (essas relações) estão tomando outro vulto, ou subindo de patamar, na forma de uma cooperação mais voltada para investimentos, tanto em infraestrutura, como em capacidade produtiva, que são duas áreas de especial interesse para o Brasil de hoje”, disse Graça Lima, em apresentação a jornalistas na semana passada.

Se tudo que está sendo anunciado vai sair do papel é outra história.

Segundo o embaixador, são projetos que estão em diferentes estágios de negociação e planejamento. Um dos mais importantes para os dois países é a construção de uma ferrovia transoceânica, que cortará Brasil e Peru, facilitando o escoamento de grãos e outros produtos da região Centro-Oeste para o Oceano Pacífico.

Infraestrutura

Segundo o diretor executivo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Bruno Batista, é justamente essa preocupação com escoamento de produtos brasileiros para a China, “questão de segurança alimentar”, que tem elevado a disposição do país em investir na logística brasileira.

Até hoje, observa Batista, a presença do capital chinês na infraestrutura de transportes do Brasil é pequena, mas a expectativa é que isso mude nos próximos anos.

Fábrica chinesa na África: região tem recebido milhões de dólares em investimentos do país.

Em junho, o governo federal pretende anunciar um novo pacote de concessão de obras em infraestrutura, e, segundo o diretor da CNT, há grande interesse chinês nas ferrovias.

Para os investimentos se confirmarem, porém, é preciso clareza nos detalhes técnicos e na taxa de retorno desses investimentos, afirma ele.

Batista lembra que nenhuma das ferrovias anunciadas no pacote de concessões de 2012 saiu do papel até hoje, porque essas incertezas afastaram investidores.

Naquele ano, o governo anunciou que as concessões significariam investimentos de R$ 91 bilhões em ferrovias – os projetos estão sendo revisados para entrar no novo pacote previsto para junho.

“A insfraestrutura de transportes está num momento de crise de recursos, com a redução dos investimentos públicos e dos financiamentos liberados pelo BNDES. O capital privado ganha mais importância agora e a única sinalização clara de interesse (em investir) é do governo chinês”, destaca Batista.

Interesse brasileiro

Em entrevista à imprensa chinesa na semana passada, Dilma sinalizou que o interesse brasileiro nessa parceria também é grade.

“O Brasil passa por um momento em que todo o conhecimento e a expertise da China na área de investimento em infraestrutura nós podemos aproveitar, tanto na área de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos”, disse ela ao China Business News, ressaltando que a participação chinesa em ferrovias vai ser “essencial” para o Brasil.

Monitoramento da Apex indica que, entre 2004 e 2014, a China investiu US$ 50 bilhões no Brasil. Maria Luisa Cravo explica que antes esses investimentos eram mais concentrados em fábricas e que agora o escopo está se ampliando para obras de infraestrutura, que são mais caras.

A montadora Chery é uma das empresas chinesas que chegou recentemente ao Brasil

Entre as empresas chinesas que investiram no Brasil nos últimos dez anos, destacam-se JAC Motors e Chery (montadoras), Sinopec (petróleo e gás), Huawei (telecomunicações), Foxconn (eletrônicos), Banco da China (financeiro) e a Companhia Nacional da Rede Elétrica da China (energia). Recentemente, a Apex mediou a instalação da uma empresa de ônibus elétricos em Campinas – a primeira fábrica na América Latina da gigante chinesa BYD.

Mas o que estaria por trás do apetite bilionário chinês pelo Brasil?

Certamente, é de interesse do país melhorar a logística das nossas exportação, reduzindo os custos de produtos comprados em grande quantidade pela China, como soja e minério de ferro.

Apesar de a queda nos preços das commodities ter provocado um recuo no valor das vendas brasileiras para a China, o país manteve-se como principal parceiro comercial do Brasil em 2014, quando a corrente de comércio (soma de importações e exportações) foi de US$ 78 bilhões.

Questionado sobre se haveria também uma estratégia geopolítica da China no sentindo de ampliar sua influência na América do Sul, o embaixador Graça Lima descartou a existência de “uma agenda secreta” e minimizou uma possível perda de protagonismo do Brasil na região.

“Interessa ao Brasil que seus 11 vizinhos progridam, que tenham uma grau de desenvolvimento que sirva para mais estabilidade, mais paz, mais segurança (na região). Nesse ponto, a China é vista como uma parceiro bem vindo”, argumentou.

Geopolítica

Para Charles Tang, porém, há sim uma intenção geopolítica, na medida em que a China busca a se contrapor aos Estados Unidos como potência global.

Esse é o entendimento também de Renato Baumann, diretor da área de Relações Econômicas e Políticas Internacionais do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada). “A China quer expandir sua áreas de influência e tornar o yuan uma moeda de referência global”, afirma ele.

Com enorme volume de reservas internacionais, da ordem de US$ 4 trilhão, a China também busca diversificar suas aplicações.

Há anos já vem investindo na África, não sem alguma controvérsia, como por exemplo na construção de ferrovias cuja bitola só serve para trens chineses ou devido à prática de importar mão de obra chinesa para essas obras.

Investidores chineses já tentaram trazer mão de obra nacional na construção de umas das linhas de transmissão de energia da usina de Belo Monte, no Pará, mas foram barrados pela legislação trabalhista brasileira.

Sobre essas polêmicas, o embaixador Graça Lima disse que o Brasil “não é totalmente ignorante” e que o país estará atento aos riscos.

“Para isso que são requeridos mecanismo de acompanhamento, memorandos de entendimentos, que deixem muito claro que o se busca é um benefício equilibrado”, garantiu.

Dilma e Vázquez debaterão mudança nas regras para acordos fora do Mercosul

Via Agência Efe

A possibilidade de os países do Mercosul assinarem acordos bilaterais com outras nações de fora da região estará na pauta da reunião entre a presidente Dilma Rousseff e do presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, no próximo dia 21.

Defensor do “regionalismo aberto”, o líder uruguaio destacou a necessidade de os países de menor economia do Mercosul terem a oportunidade de fazerem pactos com outros Estados que não integram o bloco econômico sul-americano.

Presidente Dilma Rousseff se reunirá no próximo dia 21 com o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez. EFE/Fernando Bizerra Jr.

As declarações de Vázquez foram dadas quatro dias depois do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Armando Monteiro, ter dito que o Mercosul deveria dar “mais liberdade” a seus membros para negociar.

“Aparentemente isso não era apoiado por grandes países como o Brasil e a Argentina, salvo em algumas circunstâncias, como quando o Uruguai assinou seu tratado de livre-comércio com o México. No entanto, parece que o Brasil também está reivindicando isso agora”, disse o presidente do Uruguai.

A União Europeia (UE) defende um acordo “ambicioso” com o Mercosul, apesar das sensibilidades existentes em alguns setores estratégicos, conforme afirmou na última sexta-feira, em São Paulo, a embaixadora do bloco no Brasil, Ana Paula Zacarías.

Na última quarta-feira, o ministro de Relações Exteriores do Uruguai, Nin Novoa, adiantou que o comércio, a energia, o Mercosul e a UE estariam na pauta da reunião entre os dois líderes.

 

A crise interna, a Petrobras e o BRICS: Entrevista com J. Carlos de Assis

Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/05/2015

Parceria estratégica Brasil-China é a solução para a economia nacional?

A vinda de Joaquim Levy e sua ortodoxia para a Fazenda significa continuidade da política econômica petista, não mudança. Os juros estratosféricos visam tão somente atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos, e a dinâmica da inflação no Brasil é ligada aos preços administrados e ao alto grau de indexação. O ajuste fiscal e a Operação Lava Jato podem custar 5% do PIB, um desastre recessivo.

Essa é a visão do jornalista, economista e professor da Universidade Estadual da Paraíba, José Carlos de Assis. Em entrevista ao Blog dos Desenvolvimentistas, além de analisar o cenário econômico nacional, falamos de geopolítica e conjuntura global.

Ativo na imprensa alternativa, onde publica artigos regularmente, Assis considera que a partilha é o regime certo para o pré-sal e taxa de “oportunismo deslavado” as recentes iniciativas que visam flexibilizá-lo. Enxerga nessa ofensiva forte influência de interesses externos, e indica uma parceria estratégica com a China como a saída para a recuperação da economia brasileira.

Confira a íntegra:

Como explicar o giro ortodoxo da política econômica do governo? Que efeitos ainda serão sentidos por conta do ajuste?

Não há giro. Há uma continuidade. Em matéria de política econômica o Governo Dilma não é muito diferente do de Lula. Lembram-se do Palocci? Qual a diferença entre o Levy e ele? A situação conjuntural é que mudou. Antes, nos aproveitamos do boom das commodities e acumulamos grandes superávits comerciais; agora, estamos numa terrível situação no balanço de pagamentos devida a uma política cambial estúpida, que vinha de antes. De fato, neste primeiro trimestre, o déficit em conta-corrente acumulado em 12 meses atingiu US$ 101,6 bilhões. É um desastre anunciado.

As perspectivas são negras, se os atores da economia real, empresários e trabalhadores, não se juntarem para convencer o setor público que, se não houver intervenção dele, vamos para uma contração da economia da ordem de 5 a 6% – 0% de carry over do crescimento zero em 2014, 2% negativos do efeito Levy e menos 3% do efeito Lava Jato, que está sendo devastador.

Enquanto se aperta a economia real, os juros sobem e o serviço da dívida vai às alturas. Essas decisões são contraditórias? A economia feita com os cortes será perdida nos gastos financeiros?

A única coerência é ditada pela situação externa: na medida em que se tem déficits em conta-corrente elevadas, o Governo tem que atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos. Como desestruturamos nossa indústria e o boom das commodities acabou, resta-nos apenas aumentar os juros. E aumentar os juros, obviamente, nada tem a ver com controle de inflação. É para atrair dinheiro especulativo e assim fechar a conta externa.

Por que a subida dos juros parece não fazer efeito sobre a inflação? Haveriam métodos diferentes pra combater a subida dos preços?

A política de juros altos, como disse, não tem nada a ver com a inflação. É um remendo para atrair dinheiro especulativo a fim de fechar o balanço de pagamentos. Enquanto isso a inflação vai evoluindo segundo sua própria lógica, que é a dos preços administrados e da indexação generalizada, mesmo que nem toda formal.

Em paralelo ao recuo econômico, cresce a aderência a mudanças nas regras de exploração do pré-sal e na política de conteúdo nacional. O que desencadeou esse processo? Que interesses se beneficiam disso?

É o mais deslavado oportunismo por parte das forças externas e internas que querem destruir a correta política de petróleo. É repulsivo que um sujeito como o senador Serra, que fez a lei dos genéricos, esteja nessa.

Procedem as alegações de que a Petrobras não tem caixa pro montante de investimentos necessários no pré-sal?

É verdade, não tem caixa. Mas tem patrimônio para suportar um nível de endividamento muito maior do que tem, favorecendo a retomada dos investimentos. O correto seria o Tesouro passar recursos para o BNDES, e o BNDES os repassar à Petrobrás, para que a empresa escape das injunções bancárias e de agências de risco, que não passam de agentes do charlatanismo mais deslavado.

José Carlos de Assis

Quais serão as consequências da eventual “flexibilização” do regime de partilha e da política de conteúdo nacional?

Em ambos os casos, seria uma perda injustificável por parte dos que defendem o emprego e as empresas internas. Não falo de empresas nacionais, pois só subsistem algumas poucas, mas de empresas internas, ou seja, instaladas no Brasil, gerando emprego e renda aqui dentro. A política de conteúdo nacional é fundamental para sua sobrevivência, e a sobrevivência de centenas de milhares de empregos, já que as internacionais pressionariam para trazer tecnologia e mão de obra de fora.

Enquanto isso, o cenário internacional é de acirramento de conflitos por recursos estratégicos. De que forma se insere a nossa crise interna no tabuleiro geopolítico?

Boa parte das pressões exercidas sobre a Petrobrás se deve a razões geopolíticas. Os EUA e seus acólitos europeus tentam atrair a Rússia para uma guerra na Ucrânia, a fim de (tentar) estrangulá-la economicamente, o que torna a política brasileira de adesão aos BRICS uma atitude hostil: o amigo de meu inimigo é meu inimigo. Sem o correto entendimento dessa questão, não entenderemos jamais as pressões americanas e europeias para nos impedir de consolidarmos os BRICS, usando inclusive forças políticas internas consideráveis, sobretudo por meio do PSDB.

Quanto as iniciativas do BRICS de fundar um Banco de Desenvolvimento e criar seu arranjo de reservas contingentes. Como essas propostas afetam a arquitetura político-econômica global?

Vai ser a primeira mudança significativa na arquitetura financeira internacional criada pelos anglo-americanas em Bretton Woods em seu próprio interesse. Em outras palavras, criará condições para o início da execução de políticas monetárias soberanas nos BRICS e nos demais países em desenvolvimento, tendo em vista o apoio a ser dado a políticas econômicas de interesse nacional.

Quais seriam os passos mais apropriados para o Brasil frente a esse quadro?

Sem dúvida nenhuma, um acordo estratégico com a China, em bases produtivas, não comerciais. Estou participando de um esforço nesse sentido, pelo qual proporemos à China que nos abra uma linha de crédito considerável para financiarmos produção destinada à própria China, de metais e de commodities e produtos agrícolas industrializados, ancorada em grandes financiamentos também em energia e logística. Esperamos ter a proposta pronta para a chegada do Primeiro Ministro chinês, com uma grande comitiva de empresários, a partir do próximo dia 18.

Jacques Wagner representa Brasil em desfile na Rússia e lembra parceria estratégica dos países

Por Sandro Fernandes | Via Opera Mundi

Presidente Dilma Rousseff não foi ao evento devido a compromissos pessoais, mas enviou uma carta endereçada ao mandatário russo, Vladimir Putin.

O ministro da Defesa do Brasil, Jaques Wagner, participou neste sábado (09/05), em Moscou, da solenidade em comemoração aos 70 anos da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. O ministro representou o Brasil no evento. A presidente Dilma Rousseff não foi ao evento devido a compromissos pessoais, mas enviou uma carta endereçada ao mandatário russo, Vladimir Putin.

Em conversa com jornalistas, Wagner destacou a cooperação técnico-militar entre o Brasil e a Rússia, lembrando que os dois países têm uma parceria estratégica.

Questionado sobre a possibilidade de exercícios militares do Exército russo no território brasileiro, Wagner disse não haver limitações no relacionamento entre os países. “O Brasil não tem nenhum tipo de limitação do ponto de vista do relacionamento. A nossa diplomacia é independente. No geral, nós fazemos operações conjuntas com o guarda-chuva institucional da ONU. O Brasil não tem tradição de fazer exercícios conjuntos bilaterais se não forem com esta cobertura da ONU, mas eu não vejo nenhum impedimento de que a gente venha a fazer algum exercício conjunto com a Rússia”, afirmou.

Desfile do Dia da Vitória em Moscou foi chamado pelo Kremlin de “maior da história”. Agência Efe

A imprensa russa noticiou recentemente que o governo do país pode colaborar com o Brasil na questão da segurança, após a experiência com megaeventos adquirida durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi.

O ministro disse que não dispensa colaborações e que, “se há experiências que podem ser aproveitadas, elas têm que ser aproveitadas”. Citando a França, ele lembra que “os terroristas estão usando expedientes e atitudes absolutamente inimagináveis um tempo atrás”. Para Wagner, os últimos episódios de terrorismo no mundo indicam que “nenhum país pode dizer que está completamente preparado”.

Militarmente, a cooperação entre a Rússia e o Brasil já está sendo afetada por questões conjunturais nos dois países. “A coisa mais palpável que tem de aquisição brasileira é dos carros antiaéreos russos, mas houve atraso por causa do aperto fiscal”. Segundo Wagner, o pedido de oferta de preço (aos russos) deve ser feito em breve, mas não é provável que a compra seja efetuada antes dos Jogos Olímpicos.

Dia da Vitória

O ministro Jaques Wagner é filho de imigrantes poloneses judeus e conta que sua família perdeu parentes na Segunda Guerra Mundial. “O Dia da Vitória, num mundo conturbado como está hoje, cada dia tem que ser mais lembrado”, afirmou.

Jaques Wagner viajou hoje para Paris, onde fica até quarta-feira (20/05), antes de voltar para o Brasil.

Banco Central bloqueia participação do Brasil no Banco dos BRICS

Por J. Carlos de Assis

Em mais uma ação de cabal subordinação à finança anglo-americana, o Banco Central do Brasil está dificultando, com evidente intenção de sabotar a capitalização da parte brasileira no Banco dos BRICS sob o pretexto imbecil de proteger as reservas internacionais. O Banco dos BRICS é, de longe, o principal legado do primeiro mandato de Dilma no plano internacional. Deverá ser o grande instrumento de financiamento da infraestrutura no bloco, independente da interferência, das taxas de juros e das condicionalidades norte-americanas e europeias.

O argumento da vertente entreguista do Banco Central é grotesco, já que a transferência de recursos das reservas para a capitalização do banco não altera a posição fiscal brasileira. Afinal, é muito mais interessante ter dinheiro rendendo juros no banco do que rendendo os pífios juros dos títulos públicos dos Estados Unidos, nos quais as reservas são aplicadas. No Banco dos BRICS o dinheiro vai gerar investimentos reais, e não apenas um fluxograma de recursos totalmente desvinculado da economia real.

Já é tempo de nacionalizarmos o Banco Central do Brasil. É curioso que ele tenha sido criado pelos militares, num primeiro momento sem oposição americana, como um banco desenvolvimentista, grande financiador da agricultura brasileira. Foi nossa titubeante democracia, no Governo Sarney, e pelas mãos de economistas ditos progressistas, que o Banco Central virou-se para o lado da ortodoxia anglo-americana, tornando-se, pela política monetária, um dos principais obstáculos ao nosso desenvolvimento econômico.

Outra curiosidade é que não foram os americanos, mas os ingleses e franceses, que espalharam pelo mundo a concepção de bancos centrais ortodoxos. Descrevi isso na minha tese de doutorado na Coppe, convertida em livro, “Moeda, Soberania e Trabalho”, ed. Europa. A total conversão à ortodoxia se deu via influência posterior dos Estados Unidos no FMI, revelando outra tremenda contradição: os americanos exigem que todo mundo tenha banco central ortodoxo, mas eles próprios tem um banco desenvolvimentista, organizado de forma tão cínica que é capaz de despejar moeda fiduciária no mundo sem qualquer tipo de controle.

O Banco dos BRICS, que o Banco Central tenta boicotar, será a primeira fissura na arquitetura financeira internacional erigida pelos anglo-americanos no pós-guerra. Será um banco ligado à produção, à economia real. Não essa fábrica de papel sórdida operada nos EUA e agora também no BCE, oferecendo a seus nacionais dinheiro de graça para que adquiram patrimônios reais mundo afora, praticamente sem custos. Com a próxima vinda ao Brasil do Primeiro Ministro chinês, a Presidenta Dilma poderia aproveitar a oportunidade para dar uma ordem seca ao Banco Central para deixar de criar obstáculos para o Banco dos BRICS e disponibilizar imediatamente as reservas a fim de que isso seja feito.

***

J. Carlos de Assis é economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira, estando dois novos no prelo.

A América Latina e a nova ofensiva imperial: Entrevista com FC Leite Filho

Por Rennan Martins | Brasília, 30/03/2015

O final da década de 90 e início do século XXI na América Latina foi marcado pela ascensão de governos progressistas, em maior ou menor grau, em diversos países. Dedicados a construção de uma alternativa a doutrina neoliberal imposta pelo império de Washington, o fato é que conseguiram imprimir nova direção ao continente com políticas que favoreceram principalmente os cidadãos mais pobres.

Absorto em outras questões e julgando ter conseguido impor uma ordem unipolar ao mundo, os EUA se depararam com um movimento político pouco disposto a ceder a seus caprichos. O fortalecimento de instituições multilaterais como Mercosul, Alba e Unasul impulsionou a integração latino-americana que por sua vez isolou Washington em diversas frentes, como no caso de Cuba em que se viu obrigado a mudar minimamente sua política por conta do total descrédito em que caíram.

No entanto, a vocação de uma potência hegemônica, ainda que declinante, tornou a se manifestar e agora os EUA inauguraram nova rodada de hostilidades contra a América Latina, como no caso em que declarou ser a Venezuela uma ameaça a sua segurança nacional, decretando inclusive sanções contra alguns cidadãos do país bolivariano. A aprovação do aumento de tropas no Peru e a ressurgimento da IV frota evidenciam a guinada norte-americana no sentido de pôr ordem no que consideram “seu quintal”.

É diante desse panorama que o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou FC Leite Filho, jornalista e editor do blog Café na Política. FC nos adverte que a postura beligerante dos EUA se dá por sua ambição de dominar mercados e recursos. Discorre sobre as lideranças que impulsionaram a integração latino-americana e sobre os vários acontecimentos recentes que desestabilizaram os governos progressistas.

Confira a íntegra:

Como entender a desestabilização que alguns países da América Latina, principalmente Venezuela, Argentina e Brasil, têm sofrido? Que interesses estão por trás disso?

A integração latino-americana desatada pelo presidente Hugo Chávez, presidente da Venezuela, a partir de 1999, quando se instalou no Palácio de Miraflores, fez os países do subcontinente priorizar seus negócios entre si e não mais dependentes dos Estados Unidos e Europa. Eles começaram a trocar petróleo por frutas, gado, alimentos e a contratar empresas brasileiras, argentinas e colombianas para fazer suas pontes, estradas, metrôs, portos, petroleiros etc. Isto, naturalmente, traduziu-se em prejuízos às empresas americanas, acostumadas que estavam a ganhar automaticamente todas as licitações nesse terreno ou mesmo dispensando estas.

Há ainda o aspecto geoestratégico. A Venezuela, por exemplo, era, antes de Chávez, um protetorado dos Estados Unidos, que dominavam sua política, sua economia e, particularmente a energia, ou seja, suas imensas jazidas de petróleo e gás, consideradas as maiores do mundo. No Brasil, a descoberta do petróleo na área ,do pré-sal, cuja capacidade não foi de todo definida mas beira aí alguns bilhões de barris despertou a velha cobiça das Sete Irmãs, que hoje são em menor número, mas continuam com a mesma gula e poder. Acresça-se o fato de os Estados Unidos terem sempre atuado por aqui como donos do pedaço. Quando o coronel Vernon Walters, designado pelo presidente Kennedy, em 1962, para articular o golpe militar de 1964 no Brasil, alertou: “Não podemos perder o Brasil, porque o Brasil não é uma Cuba, o Brasil é uma China”. Já a Argentina foi ao longo da história (à exceção dos períodos Perón e Kirchner) um protetorado do capital financeiro internacional. Então, esses interesses agora se agudizaram, depois de terem sido, em parte, negligenciados em função de outras prioridades americanas no Oriente Médio e na Ásia e tendem a apelar até para a guerra militar, se preciso for, como previu o presidente Nicolás Maduro, sucessor de Chávez.

Porque ao mesmo tempo em que retoma relações com Cuba os EUA alegam ser Caracas uma ameaça a sua segurança nacional? Trata-se de política externa contraditória?

Este foi um golpe de mestre do presidente Barack Obama, para se livrar e desmoralizar a política belicista de seus rivais republicanos na política estadunidense. Obama disse que o embargo de 50 anos à Cuba não produziu nada de benéfico para os chamados interesses ocidentais. Não se deduza daí que Obama esteja sendo bonzinho. Ele visa afastar Cuba da Venezuela e do resto da América Latina e atrelá-la à política de Washington, mas Cuba, que ainda é, entranhadamente, castrista, recusa todos esses mimos e aprofunda cada vez mais seus vínculos com Maduro, pois toda a sua infraestrutura depende do petróleo venezuelano e da tecnologia do Brasil e da Argentina. Tentando se equilibrar com os falcões locais, Obama, ao mesmo tempo dá uma guinada, no que demonstra não estar nem aí para a política de boa vizinhança, decreta as sanções contra Caracas quase que ao mesmo tempo que tentava aproximar-se de Cuba.

Quais reais motivos movem Washington a escalar as hostilidades contra Venezuela e seu governo bolivariano?

A pergunta está em parte respondida no primeiro item. Mas Washington, na realidade, sempre hostilizou a política chavista. Para isso, utilizou todo o seu aparato, que vai das sabotagens econômicas e das várias tentativas de golpe, à mobilização da mídia internacional para desmonizar e desmoralizar o bolivarianismo. Observe o noticiário da grande imprensa no Brasil, na Argentina, na Colômbia e até na Espanha. Eles acharam que derrubariam fácil o Maduro, em quem viam um líder fraco e mesmo trapalhão. Mas Maduro é um quadro importante. Ele teceu, durante seis anos como chanceler de Chávez, toda a teia latino-americana, chinesa e árabe, pela qual certos golpes, como a queda do preço do petróleo não mais afeta de morte o regime. Nicolas Maduro ainda revelou ser um bom ganhador de eleições, mais até do que o Chávez, apesar de não ter o carisma deste. Outro ponto para ele foi o de neutralizar a mídia local, coisa que o Chávez tampouco conseguiu. Finalmente, seria interessante observar o que está acontecendo na Espanha. O movimento popular Podemos, de Pablo Iglesias, credencia-se para ter importante papel nas eleições nacionais de 20 de dezembro, podendo até fazer o primeiro-ministro, se não agora, pelo menos nos próximos anos. Ironia das ironias: o Podemos tem suas raízes no bolivarianismo e na experiência e defesa dos governos populares de Chávez, Evo Moralez, Kirchner, Lula, Daniel Ortega e Rafael Correa.

Sobre a Argentina. Qual foi o desfecho do conflito com os fundos abutres? Ele teve alguma influência nas relações bilaterais Buenos Aires – Washington?

Os fundos abutres quiseram quebrar a Argentina com aquela conversa do juiz Griesa, de Nova York. Chegaram mesmo a declarar o default do país. Cristina resistiu bravamente, como tem resistido e ganhado todas as batalhas com a mídia de lá, dominada pelo Grupo Clarín. Ela simplesmente não pagou cerca de 1,3 bi de dólares, por uns títulos podres que os abutres haviam comprado por uma bagatela dos enganados pelo corralito. Cristina simplesmente afirmou, quando revidou o achaque dos buitres (é assim como eles são chamados em Buenos Aires): “Amanhã vai ser um dia normal e tudo vai continuar como nos outros dias. E foi o que aconteceu. A Argentina não quebrou e sua economia está bem melhor do que a nossa. Nós precisamos de líderes deste talante, que não se dobram, pelo contrário, vão em frente, com a soberania, a independência e, principalmente, os interesses de nossos países.

O caso Nísman permanece sem desfecho. É possível que o governo argentino tenha envolvimento na morte do promotor? Quem se beneficiou com sua morte?

Este caso é outra crise fabricada pela mídia, tendo a auxiliá-las os fundos buitres, que agem como irmãs siamesas. O promotor Alberto Nisman dominou a cena midiática durante quase dez anos como pretenso defensor das vítimas do atentado à associação israelita AMIA, que redundou em 85 mortos e quase 300 feridos. Não fez nada pelas vítimas nem pelas investigações do caso, que até hoje, depois de 21 anos, não saíram da estaca zero. Era também um homem muito ligado à embaixada dos Estados Unidos, em Buenos Aires, a quem submetia seus relatórios, antes de encaminhar às autoridades (isto foi comprovado pelos documentos da embaixada vazados pelo Wikileaks). Depois, ele se envolveu numa denúncia sem pé nem cabeça contra a presidenta Cristina Kirchner. Seu papel inseria-se num plano diabólico, com base numa espécie de megafactoide, que queria aproveitar a comoção do Charlie Hebdo com aqueles milhões que percorreram as ruas da França, para transplantá-la para Buenos Aires. Era algo megalomaníaco, mas que poderia funcionar se se defrontasse com uma presidenta débil. O objetivo era derrocar a presidenta Cristina Kirchner ou, no mínimo, abalar a performance de seu partido na eleição presidencial do próximo 20 de outubro. O promotor acabou pagando com a morte, não se sabe se por suicídio unilateral ou induzido ou mesmo assassinado, pois a causa envolve interesses imperscrutáveis da CIA, do Mossad israelense e do submundo dos serviços secretos da Argentina. Como se sabe, até o incidente Nisman, esses serviços eram dominados por egressos da ditadura. Cristina aproveitou a oportunidade para fazer uma limpa no organismo e depois foi inocentada da denúncia mal-ajambrada de Nisman. Aquilo que era um golpe em seu prestígio político acabou por alça-la ainda mais na simpatia dos argentinos. Segundo as últimas pesquisas, seu prestígio situa-se acima dos 45%.

De que forma EUA e União Europeia encaram a ascensão de instâncias multilaterais como BRICS, Unasul e ALBA? Preocupa-lhes o fato de não estarem sobre sua tutela?

Estas instituições é que têm garantido a sobrevivência dos governos populares, na medida que previnem golpes e sustentam suas economias e políticas sociais dos ataques especulativos, das guerras econômicas e da sabotagem midiática. O BRICs, que chegou a ser esnobado como “piada” pelos doutos de Washington e Londres, é que está suprindo, com empréstimos a longo prazo, os prejuízos com a queda do petróleo, os quais afetaram dramaticamente a Venezuela e mais ainda a Rússia. É outro sinal de independência em relação aos antigos mercados cativos desses dois centros financeiros e uma prova de que o mundo multipolar e não mais unipolar, como querem os americanos, é possível. O plano dos mercados era baixar o preço do petróleo a menos de 30 dólares, mas agora, com essa crise do Yemen, grande país exportador do ouro negro e passagem dos navios petroleiros do mundo árabe, tudo pode acontecer, inclusive o petróleo voltar a subir.

Como o Brasil se insere nesse contexto de formação de uma ordem mundial multipolar? Quais os cuidados e contribuições que o Brasil pode adotar nesse caminho?

O Brasil avançou muito neste papel durante o governo Lula. A Dilma travou um pouco este processo, no primeiro governo, mas agora parece empenhada em participar mais, tanto da Unasul como dos BRICs. Seu apoio à Venezuela, neste momento, é crucial para a sobrevivência dessa política de integração dos emergentes. Seja como for, o Brasil, pelo peso de sua economia e amplitude de seu território, além da afinidade de que desfruta com os hermanos latino-americanos, é uma peça decisiva nesse xadrez.

O entendimento e cooperação entre os Estados latino-americanos está acontecendo? A quantas anda o processo?

A integração ainda está no seu estágio inicial. A morte de Chávez e o recolhimento do Lula diminuíram um pouco a seu vigor. Chávez e Lula eram dois caixeiros-viajantes que, com sua presença física constante nos diversos países, impulsionavam esse processo. Mas como atingiu uma dinâmica própria, creio que deve progredir, ainda que em ritmo mais lento. Vamos ver a eleição na Argentina. Se a Cristina fizer seu sucessor, ela terá mais tempo de substituir o Hugo Chávez nesta articulação. Essa mulher tem muita garra e é corajuda, como dizem nossos hermanos.

Quanto aos milhares de marines autorizados a desembarcar no Peru. Eles representam ameaça à América do Sul? Que objetivos esse contingente possui?

O Peru está como o México, super atrelados aos americanos. Seu presidente, Olanta Humala, que era chavista além de militar, entregou-se tal modo ao sistema de dominação americano-europeu, que privatizou tudo, desde a Petroperu até o Banco de la Nación. Agora, ele abre as portas para os soldados estadunidenses instalarem bases e cruzarem o território, sem necessidade sequer de apresentar documento. Mas isto também tem seus influxos. Você se lembra das sete bases que os Estados Unidos queriam instalar na Colômbia. Onde estão essas bases. Isto é mais para nos infundir medo.

Quais as perspectivas diante desse quadro geopolítico internacional? Que fazer para deter a investida contra os governos não-alinhados da América Latina?

Eu só espero que a Dilma não dê uma de João Goulart, querendo se compor com a direita. O Brizola aconselhou-o muito as e voltar para as suas bases. Jango era, por natureza, um tipo conciliador, que ouvia o embaixador americano, Lincoln Gordon, o golpista-mor, digamos assim. Por isso, foi atropelado pelo golpe de 64. É claro que a situação é outra e a Dilma tem uma tradição de enfrentamento. O perigo no momento é midiático. A matriz de opinião da mídia consegue se infiltrar na sociedade e impor sua narrativa. Você quer um exemplo? Outro dia fui falar para uma amiga dos riscos que estamos sofrendo com uma nova privataria do tipo FHC, que, como você sabe, rebentou no México e Peru. Sabe o que ela me respondeu? “Ora, mas não é a Dilma que está querendo privatizara a Caixa Econômica?” E eu fiquei sem argumentos. Como é que a Dilma entra numa dessas. Como é que ela coloca contra si 200 mil funcionários da Caixa, que seriam seus potenciais defensores e aliados na luta contra o golpismo? Prefiro crer que isso seja boato. Mas sou um otimista e acho que uma mobilização maciça das forças progressistas, inclusive partindo da internet, pode ganhar as ruas e reverter esta arremetida golpista. O Lula tampouco pode continuar calado e o Cid Gomes parece estar surgindo aí para abrir um flanco na classe média.

Cristina resiste contra golpistas apoiados pelos EUA

Por Dario Pignotti, de Buenos Aires | Via Pátria Latina

O que se viu na Avenida de Maio tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, composta por muitos viúvos e viúvas da ditadura militar.

Um verão portenho asfixiante. Dias antes de completar 39 anos do golpe de Estado na Argentina, milhares de pessoas participaram de uma marcha contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner, exibindo uma atitude desestabilizadora nunca vista desde a recuperação da democracia, no começo da década de 80.

O ambiente político que impera nesses primeiros dias de março evoca a atmosfera do tango Verano Porteño, em que Piazzolla mescla uma sonoridade encrespada com uma melodia densa.

Os últimos dias de estio têm sido tórridos, com temperaturas superiores aos 30 graus, podendo alcançar os 35 graus quando alguém caminha pelas estreitas ruas do centro, próximas à Casa Rosada, o palácio de onde despacha a Chefe de Estado.

A morte do procurador Alberto Nisman, cujo corpo foi encontrado com um tiro na cabeça, é o pretexto em que se apoiam os neogolpistas interessados em incendiar o cenário.

Quando faltam 7 meses para o fim de seu segundo mandato, Cristina é objeto de uma campanha destituinte lançada pela oposição direitista e pela imprensa local, ambas respaldadas pelos principais grupos internacionais de notícias, com a CNN na vanguarda. E por trás de tudo isso, parece atuar o grande braço de Washington, interessado em fazer com que Cristina pague caro por sua aproximação com Irã, Venezuela e China.

Cristina não retrocede diante da estratégia incendiária de seus inimigos e promete enfrentá-los convocando os militantes, em boa parte os jovens, para “defender o projeto” iniciado em 2003 por seu marido, o falecido Néstor Kirchner, responsável pelo estreitamento das relações com o Brasil.

Fundamentalistas

Fanáticos, alguns inimigos do governo kirchnerista reconhecem que estão dispostos a prosseguir até um golpe branco, se com isso pudessem “defenestrar essa mulher de merda que está ocupando a Casa Rosada”, declara a senhora Beatriz Gimenez.

“Essa máfia bolivariana que está governando nosso país está acabando com tudo de bom que tivemos”, me diz uma indignadíssima Gimenez, que se apresenta como gerente de uma empresa de turismo na Avenida Santa Fe, situada no endinheirado bairro Norte, conhecido como um dos principais redutos do “anticristinismo”.

“Cristina está metida em tudo o que há de podre neste país. Eu tenho certeza de que ela mandou matar o procurador Alberto Nisman para calá-lo, foi um assassinato mafioso típico dos peronistas (seguidores do general Juan Perón). Essa gentalha tem que sair da (Casa) Rosada de qualquer jeito, porque na Argentina a maioria somos gente decente”, acrescenta.

De cabelo loiro e pele bronzeada – além de um botox que dá volume exagerado a seus lábios –, a senhora Gimenez dá por certo que o procurador Nisman “foi assassinado por gente a mando do governo”, apesar de os relatórios dos peritos da Corte Suprema não terem encontrado elementos para sustentar essa hipótese que, por ora, parece pouco crível.

As opiniões da senhora Gimenez, contaminadas pelo bombardeio de notícias falsas lançado pela imprensa tradicional, se repetem nos shoppings de alto padrão de consumo ou nos bares do aristocrático bairro da Recoleta, onde o mundo fala de política.

Espelho da Avenida Paulista

Aqui, na orla do Rio da Prata, a oposição ao kirchnerismo não emprega o termo “impeachment”, como fazem no Brasil os detratores da presidenta Dilma, mas querem que Cristina saia de qualquer modo, acusando-a pela morte do procurador Nisman – que em meados de janeiro apareceu morto com um tipo na cabeça em seu apartamento, em um episódio ainda não esclarecido, mas que poderia ter sido suicídio.

Milhares de portenhos – entre eles, a gerente Beatriz Gimenez – que participaram da passeata desestabilizadora do dia 18 de fevereiro, insultaram o governo e o grupo La Cámpora, formado por jovens quadros kirchneristas leais à mandatária e a uma gestão que culmina com os acordos estratégicos firmados com a China há um mês e com a reestatização das ferrovias, promulgada na primeira semana de março.

O que se viu na Avenida de Maio, em Buenos Aires, em fevereiro, tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, onde senhoras bem vestidas e perfumadas escondem sua saudade pela ditadura que derrubou João Goulart em 1964.

A mobilização destituinte do mês passado que desembocou na histórica Praça de Maio foi encabeçada por um grupo de procuradores – entre os quais há vários com um passado ligado à ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983, com um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos.

Em que pese sua grande exposição, a mobilização de 18 de fevereiro não conseguiu convocar um número importante de trabalhadores organizados, nem moradores das favelas, nem jovens com menos de 25 anos, uma faixa etária na qual o kirchnerismo é forte.

Em contrapartida, o ato de respaldo ao governo, ocorrido em 1° de março, contou com a presença de uma maioria de jovens junto a quem marcharam cidadãos oriundos dos subúrbios pobres da Grande Buenos Aires.

Intromissão dos EUA e de Israel

O procurador Alberto Nisman, que era um assíduo visitante da embaixada dos EUA, segundo documentou o Wikileaks, morreu pouco depois de acusar Cristina Fernández de Kirchner, em uma entrevista exclusiva ao Grupo Clarín, de ter obstruído a investigação do atentado terrorista que matou 85 pessoas em 1994, em uma associação da comunidade judia.

Atuando como um bispo dentro do xadrez diplomático que há anos os Estados Unidos e a Argentina disputam, Nisman recebia ordens de seus chefes políticos nos Estados Unidos e, também não se descarta, em Israel.

Essa relação do fiscal morto Nisman com Washington e Tel Aviv é algo que praticamente ninguém desconhece, e é até admitida implicitamente por alguns porta-vozes da direita, como a deputada Elisa Carrió.

Com seu tom provocador, similar ao da golpista venezuelana Maria Corina Machado (amiga de Aécio Neves), a opositora Carrió recomendou ao governo que solicite apoio à CIA e denunciou uma suposta conspiração de Venezuela e Irã para semear o terror na Argentina.

É claro que o governo argentino não seguiu os conselhos da legisladora, cujas declarações extravagantes não fazem inveja às do ex-militar e deputado carioca Jair Bolsonaro.

Em 8 de março, dia Internacional da Mulher, o ministro de Relações Exteriores Héctor Timmerman declarou que seu governo segue uma política exterior “independente” e considera que não é necessário “estar muito perto” da Casa Branca.

Em entrevista ao programa “60 minutos”, do canal norte-americano CBS, o ministro disse que “Washington estava sempre pressionando” o procurador Nisman para manipular a investigação do atentado contra a associação judia em 1994, a fim de culpar o governo do Irã.

Antes de falar no “60 minutos”, o chefe da política externa portenha havia solicitado aos governos de Barack Obama e Benjamin Netaniahu que não usassem o caso Nisman para intervir na política argentina, agravando o quadro desestabilizador construído pelas forças conservadoras.

“A Argentina não tem qualquer interesse estratégico, militar ou de inteligência no Oriente Médio. E observa com preocupação como alguns Estados intervêm em outros países para resolver suas disputas geopolíticas. Meu país rechaça essas ações e solicita que elas não ocorram em território argentino”.

Essa posição do titular do Palácio San Martin, sede do ministério de Relações Exteriores, recebeu enérgicas respostas das autoridades americanas e israelenses, que insistem em culpar o Irã pela matança de 85 pessoas em 1994, em Buenos Aires.

O próprio Netaniahu reiterou sua acusação ao Irã pelo massacre ao falar no Parlamento norte-americano no começo de março, o que foi entendido como uma advertência ao governo de Cristina, que acabará em 10 de dezembro.

O mensalão de Cristina

Em várias pesquisas, Cristina, eleita duas vezes e impedida constitucionalmente de tentar um terceiro mandato, conserva uma popularidade próxima aos 40%, bastante superior à de seus adversários políticos – como Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires e homem forte do clube Boca Juniors; e Sergio Massa, um ex-funcionário do governo de Néstor Kirchner que migrou para a oposição.

Mauricio Macri e Massa possivelmente serão candidatos nas eleições presidenciais do próximo dia 15 de outubro, quando o kirchnerismo se apresentará com um postulante ainda não definido. Este terá como principal capital o respaldo da mandatária.

É nesse contexto que a estratégia conservadora se apoia no desgaste da imagem presidencial, associando-a à morte do procurador Nisman e judicializando a campanha por meio de manobras de um importante grupo de juízes e procuradores que integram o “partido judicial”, segundo definição dada por Crisina.

Embora não escondam o fato de fazerem parte da ofensiva desestabilizadora, os procuradores são tratados como próceres pela imprensa, num roteiro em que são elevados à condição de heróis nacionais por sua obsessiva perseguição ao governo – imitando o ocorrido no Brasil, com o endeusamento do ministro Joaquim Barbosa durante o processo do mensalão.

Isso explica por que a multitudinária marcha opositora de fevereiro foi encabeçada por procuradores, por trás de quem caminham, semiocultos, os dirigentes da oposição, que ainda não tem uma estratégia comum para enfrentar o kirchnerismo nas eleições de outubro.

Podemos e Chomsky

Na segunda-feira, 9 de março, quando os EUA anunciavam represálias contra a Venezuela, um grupo de jovens defendiam o governo do presidente Nicolás Maduro em um café da rua Córdoba, próximo ao belíssimo Teatro Cervantes.

“Obama está tentando derrotar Maduro e Cristina ao mesmo tempo, para erradicar a chama latino-americana acendida por Kirchner, Chávez e Lula há 10 anos, quando eles sepultaram a Alca na reunião (Cúpula das Américas) de Mar del Plata”, afirma Guillermo Guisoni, um garoto de 18 anos que pretende cursar sociologia na Universidade de Buenos Aires.

Guillermo e dois amigos da mesma idade dizem que querem assistir ao Seminário Internacional pela Emancipação e a Igualdade, organizado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria do Pensamento Nacional, em que se reuniem algumas das cabeças mais prolíficas do pensamento político e da ação política. Representantes do partido espanhol Podemos, Noam Chomsky, o vice-presidente boliviano, Alvaro García Linera, Emir Sader, Ignacio Ramonet, o mexicano Cuauhtemoc Càrdenas e o italiano Gianni Vattimo estão entre os que dissertarão no Cervantes, uma joia arquitetônica construída à imagem e semelhança do Colégio San Idelfonso, na Espanha.

“Vamos chegar cedo ao Cervantes para ficar em primeiro na fila dos ingressos porque virá muita gente. E se não conseguirmos entrar, vamos ficar do lado de fora, vendo pelo telão”, conforma-se Guillermo, que em 15 de outubro votará pela primeira vez. “Em quem vai votar?”. “No candidato indicado por Cristina, é claro”, responde com segurança o garoto, enquanto seus companheiros sorriem com um gesto de aprovação.