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Dilma reforça que Brics é força motriz do desenvolvimento global

Via Jornal do Brasil

Presidente citou crise mundial para destacar importância econômica do grupo.

Nesta quinta-feira (9), a presidente Dilma Rousseff destacou, na Rússia, a importância dos países do Brics (Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul) para impulsionar o desenvolvimento global num momento em que a crise financeira internacional persiste afetando países ricos e os em desenvolvimento. Dilma defendeu mais espaço para os países do grupo em organismos de governança mundial, como o Fundo Monetário Internacional e o Conselho de Segurança da ONU.

As declarações foram feitas durante discurso na sessão plenária da VII Cúpula dos Brics, realizada na Rússia. Dilma também destacou que chegou o fim do “super ciclo” das commodities e que, com a crise financeira, “a recuperação dos países desenvolvidos ainda é lenta e frágil e o crescimento dos países em desenvolvimento foi agora afetado”.

Dilma durante encontro dos Chefes de Estado e de Governo do Brics com Conselho Empresarial

“A persistência da crise passou a exigir das nossas políticas econômicas novas respostas. Sabemos que chegamos ao fim do super ciclo das commodities. Sabemos que ainda permanece muita volatilidade no setor financeiro. Os emergentes, principalmente os Brics, estou certa disso, continuarão a ser a força motriz do desenvolvimento global. Seu peso deve se refletir nas instituições de governança internacional, o que reforça a necessidade de reformulação do fundo monetário”, afirmou a presidente.

A reformulação no Conselho de Segurança da ONU também foi um tema citado por Dilma. “O Brasil acredita que um Conselho de Segurança da ONU reformado e ampliado será mais legítimo e eficaz no sentido de garantir a paz internacional e a segurança coletiva.”

O presidente russo, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; o presidente da China, Xi Jinping; e o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, acompanharam o discurso de Dilma.

 

“Fortaleza está para os Brics como Bretton Woods esteve para o FMI e o Banco Mundial” diz Paulo Nogueira Batista

Por Adriana Fernandes | Via Estadão

Paulo Nogueira Batista, que deixa o FMI para ser vice-presidente do Banco dos Brics

De malas prontas para Xangai, onde assumirá o cargo de vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, o economista Paulo Nogueira Batista diz que a nova instituição financeira global poderá financiar projetos do setor público e privado, dar garantias e participar de Parcerias Público-Privadas. Também poderá ter participação do capital acionário dos projetos, que terão foco em infraestrutura e desenvolvimento sustentável.

Junto com o FMI dos Brics, como está sendo chamado o Acordo Contingente de Reservas, o banco nasce como uma terceira via de contraponto ao arcabouço financeiro internacional formado pelo FMI e o Banco Mundial.

Em entrevista na qual faz questão de ressaltar que fala a título pessoal, pois ainda não assumiu o cargo depois da passagem pela diretoria executiva do FMI, Batista afirma que os países do bloco – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – não encontram na arquitetura financeira atual espaço condizente com sua importância. FMI e Banco Mundial, diz, são instituições que foram criadas com base no eixo de poder do Atlântico Norte, EUA e Europa. “Esses países são ainda fundamentais, mas não têm mais a mesma capacidade de dar as cartas”, diz.

Quando o banco dos Brics vai funcionar?

O acordo que estabeleceu o banco foi assinado há um ano em Fortaleza na Cúpula dos Líderes e está prestes a entrar em vigor. Para a estratégia operacional, surgiu a ideia de, antes da entrada em funcionamento, nomear uma pré-administração com vice-presidentes para que se mudem para Xangai e para definir os procedimentos operacionais. A meta é que entre em operação em janeiro de 2016.

Por que optar por essa terceira via? Uma opção não poderia ter sido fortalecer as instituições nacionais já existentes?

As instituições nacionais dos Brics são importantes. Cada um tem seu equivalente ao BNDES e os cinco são ativos e operam internacionalmente. Mas há o objetivo de criar uma instituição nova, que seja o resultado da ação conjunta dos cinco países, que seja um organismo internacional. O que se quis fazer foi um salto. Um banco que seja multilateral e que estará aberto à participação de outros países. Qualquer país membro nas Nações Unidas poderá entrar como sócio.

Recentemente foi criado o Banco Asiático de Desenvolvimento em Infraestrutura (AIB), sob liderança da China, para se contrapor ao Banco de Desenvolvimento da Ásia (BDA), que tem forte influência americana. Essas novas instituições correspondem a um novo arranjo global, um novo ‘Bretton Woods’?

De fato, o banco criado sob a liderança da China tende a competir mais com o banco asiático de desenvolvimento, que está sob forte influência do Japão e americana. Não seria ir longe demais, mas, em certo sentido, podemos dizer que Fortaleza está para os Brics como Bretton Woods esteve para o FMI e o Banco Mundial. Mas há diferença de proporção, porque são quase globais.

Nesse sentido não está surgindo um novo contraponto ao FMI e ao Banco Mundial?

Sim. O novo banco é de alcance global. Mas é preciso lembrar que vai crescer aos poucos, ir passo a passo, para ser uma coisa segura e sólida. Vai demorar até que tenha alcance comparável a de outros bancos. Usar a expressão de contraponto, tudo bem, desde que se entenda que a relação é mais complexa, envolve cooperação e até atuação conjunta. Poderemos atuar conjuntamente com o Banco Mundial. Essas novas instituições não foram criadas contra ninguém, mas para ajudar os Brics e os países em desenvolvimento.

Mas há uma estratégia chinesa de reduzir a hegemonia americana e europeia no sistema monetário internacional?

Não posso falar da estratégia chinesa. Mas os Brics são cinco países grandes que têm um traço comum. São países que não encontram na arquitetura financeira atual espaço condizente com sua importância relativa. Quando a China cria o banco asiático e um fundo para a rota da seda – outra iniciativa de caráter internacional -, reflete disposição de atuar, não contra instituições existentes, mas adicionalmente.

Não corre o risco de o Brasil ficar periférico nessa nova ordem internacional?

O Brasil é um país que tem peso grande. Está entre os dez maiores em área, população e PIB. Um país como o Brasil não será periférico a não ser que trabalhe ativamente para ser. A não ser que a gente teime em ser periférico. Mas o Brasil não é grande suficiente para sozinho modificar as coisas. Precisa trabalhar em alianças.

Qual será o foco do banco. Onde ele vai atuar?

O banco tem o mandato claro para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em países em desenvolvimento e nos Brics. Um país desenvolvido poderá ser sócio, mas não poderá ser tomador de empréstimo. Já um país em desenvolvimento poderá entrar como sócio tomador. O banco vai financiar projetos tanto do setor público como do setor privado e de parcerias público-privadas.

Que projetos vai financiar?

É prematuro. Só temos condições de avaliar projetos a partir do ano que vem. O banco está autorizado a financiar projetos do setor privado, a dar garantias e a entrar no capital acionário, no equity.

O banco pode ajudar no futuro o programa de concessões?

Pode, desde que sejam projetos do que está previsto no acordo. Mas o banco não foi criado com o propósito de financiar nada. Não existe uma lista de projetos. Não tem uma coisa predeterminada. Isso é coisa que vamos trabalhar.

Por que esses novos bancos estão surgindo?

Porque o banco mundial não está dando conta de atender a demanda por infraestrutura. Há um hiato entre a capacidade de financiamento dos organismos multilaterais existentes e demanda enorme que existe por infraestrutura nos países em desenvolvimento.

Quais as armadilhas a serem evitadas?

O novo banco tem de aprender com a experiência do Banco Mundial e FMI e aplicar o que deu certo. O FMI está com um problema meio crônico de não conseguir se adaptar com necessária velocidade ao mundo que está surgindo no século 21 em que países fora do eixo do Atlântico Norte têm peso crescente. São instituições criadas no pós-guerra, com base no eixo de poder do Atlântico Norte, EUA e Europa. Esses países são ainda fundamentais, mas não têm mais a mesma capacidade de dar as cartas.

Que oportunidades surgem para o banco e o FMI dos Brics?

Se o novo banco quiser dar um salto em relação aos já existentes, terá de ser muito mais aberto aos outros países em desenvolvimento. Para que o Brics reivindicam mais voz? Essa é uma pergunta que temos de responder conjuntamente. Se a resposta não for clara, vão dizer ‘ah bom!’ Esses cinco países estão querendo mais influência, mas não são diferentes dos países do Atlântico Norte. Temos uma vantagem que é que os países do grupo não há muito tempo tinham empréstimos do FMI. Temos a experiência não muito distante de sermos devedores num mundo em que o Atlântico Norte dá a regra.

O Rio é candidato para sediar o FMI do Brics?

Essa sugestão foi feita. A China também quer fazer a sede em Xangai.

Temos chance?

Tem. É uma discussão política e ao mesmo tempo técnica que os países têm de fazer. Imagino que ao longo do segundo semestre isso seja definido por consenso.

Nova comitiva de senadores terá agenda intensa na Venezuela

Via Agência Senado

Os senadores Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Telmário Mota (PDT-RR), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Roberto Requião (PMDB-PR) terão uma intensa agenda nesta quinta-feira (25). Eles compõem a comitiva externa do Senado que visita a Venezuela e viajaram ao país vizinho nesta quarta-feira (24), em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). O objetivo da visita, segundo Lindbergh, é conversar com representantes do governo e da oposição para entender a situação política atual da Venezuela. A comitiva também vai defender a democracia, com a realização de eleições livres e isentas.

Logo no início da manhã, a comitiva de senadores vai se reunir com o Comitê de Familiares Vítimas das Guarimbas – como são chamadas as ações de guerrilha na Venezuela. Está prevista para as 13h uma reunião com partidos de oposição. As legendas oposicionistas acusam o governo do presidente de Nicolás Maduro de tomar posições antidemocráticas e limitar a liberdade de imprensa. Logo depois, às 15h, os senadores vão se encontrar com representantes do Ministério Público e da Defensoria Pública.

Para as 17h, está prevista a última reunião oficial do dia. A comitiva vai se encontrar com o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, e com a ministra de Relações Exteriores, Delcy Rodrigues. Ao fim do dia, os senadores retornam para o Brasil.

A constituição de uma comitiva para visitar a Venezuela foi aprovada pelo Plenário do Senado na semana passada. O requerimento pedia a verificação in loco da situação política, social e econômica da Venezuela. O presidente do Senado, Renan Calheiros, disse esperar que a comitiva tenha uma recepção civilizada. Segundo o presidente, a comitiva atual representa o Senado, assim como a comitiva anterior.

Esta é a segunda comissão de senadores que visita a Venezuela em duas semanas. Na quinta-feira passada (18), um grupo de senadores desembarcou no país vizinho com a intenção de conversar com presos políticos. No entanto, a van que conduzia os senadores foi parada por manifestantes. Depois do incidente, a comitiva enfrentou problemas no trânsito e teve de voltar ao aeroporto, sem cumprir a missão.

No retorno ao Brasil, os senadores criticaram a Venezuela e o governo brasileiro – que, segundo eles, não apoiou a comitiva de forma devida. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) chegou a dizer que os parlamentares brasileiros foram para uma “arapuca armada pelo governo venezuelano”, com a cumplicidade do governo brasileiro. Como reação, os senadores integrantes da comitiva anunciaram ações que visam a exclusão da Venezuela do Mercosul.

A senadora Ana Amélia (PP-RS) apresentou um voto de repúdio – que foi enviado à Venezuela, mesmo sem ter o apoio da maioria dos colegas. A constituição de outra comissão também foi motivo de discussão entre os senadores. Para Aécio Neves (PSDB-MG), a nova comitiva é “chapa branca”. Na visão de Lindbergh, porém, a comissão anterior teve um papel incendiário na Venezuela e atuou com um viés político, de olho na política interna do Brasil.

“Queremos ter uma posição equilibrada. A última coisa que queremos é que a Venezuela entre em uma guerra civil”, afirmou Lindbergh.

Lula, Getúlio, Brizola, Chávez, Cristina e a resistência

Por FC Leite Filho | Via Café na Política

O desabafo de ontem do ex-presidente Lula me faz recordar algumas conversas que tive ao telefone com Leonel Brizola, quando este já beirava os 90, nos albores de 2002. Brizola era homem muito contido e policiado, presencialmente, mas, no telefone, costumava se soltar. Nessas nossas ligações, lamentava a inércia do PDT, sua cria que não chegou ao poder e nem por isso deixou de se acomodar. “Nós nos aburguesamos”, dizia, ao vituperar contra a burocratização e a fossilização que, impotente, via carcomer as entranhas de sua legenda e, junto com ela, toda a política nacional.

Com o Lula agora reclamando dos seus petistas que “só querem cargos” e “não mais trabalham de graça” e da inação da atual presidenta Dilma, Brizola perguntava para onde tinham ido a vibração e a pureza daqueles que lutaram contra a ditadura, em favor das diretas-já e da anistia. Sua conclusão era de que tudo ia acabar sendo engolido pelo sistema de dominação, ali pelo início do novo milênio, a todo vapor, por causa da magia da globalização, por baixo da qual o neoliberalismo devorava reputações, riquezas naturais e direitos do trabalhador.

Brizola, porém, não viveu para presenciar a virada contra os velhos dominadores que ocorreria pouco depois de sua morte, em 2004, com o advento dos presidentes progressistas Hugo Chávez, o próprio Lula, Evo Morales, Rafael Correa e Néstor e Cristina Kirchner. A postura destemida e colaborativa desta nova fornada de líderes, na mesma linha nacionalista de Brizola e Vargas, impôs uma nova correlação de forças pela qual foi possível promover, em seus países, a ascensão social de milhões de pessoas, a criação massiva de empregos, o fomento do comércio regional e o desenvolvimento com inclusão.

Como tal política implica contraria interesses secularmente incrustados, principalmente porque nossas prioridades comerciais se deslocaram dos Estados Unidos e da Europa para a China e a Rússia, a reação não se fez esperar. As investidas isoladas para derrocar Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, todas desbaratadas a partir justamente da força que havia assumido aquela cooperação regional.

Mas agora, elas voltam com ímpeto de um furacão, redobrado, coordenado e simultâneo, para aniquilar não apenas um outro presidente progressista, isoladamente, mas todos eles juntos, numa só bordoada. São as arremetidas dirigidas que acabam de ser despejadas, indistintamente, contra a Venezuela, a Argentina, o Brasil, a Bolívia e o Equador. A partir de uma articulação midiática extra-continental, essa ofensiva se imiscui na sociedade civil, na opinião pública, na Justiça, no Parlamento, nas igrejas, nos partidos políticos e nas empresas de todos esses países.

Sua estratégia visa, primeiro, desacreditar, com desinformação e fabricação de escândalos, como o “petrolão” brasileiro, o “enriquecimento ilícito da família Kirchner”, na Argentina, e as “operações de narcotráfico” do presidente do parlamento venezuelano, Diosdado Cabello. Na segunda etapa, vem o assalto ao poder, com ou sem sangue, para anular todas as medidas inclusivas que beneficiaram a classe média e trabalhadora, mas que provocaram prejuízos ao sistema dominante, ou seja, as empresas transnacionais e o sistema financeiro.

Daí os ataques a Lula, Dilma, Cristina Kirchner, Nicolás Maduro, sucessor de Chávez na Venezuela, Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador. Mas, aqui, o importante a observar é que esses ataques vêm sendo rebatidos com grande vigor e determinação, por Maduro, Cristina, Evo e Rafael, sobretudo porque eles cuidaram de engendrar uma militância articulada que vai para as ruas defender o governo e suas conquistas, sempre que estas são ameaçadas.

No Brasil, reconheçamos, tanto Lula, como Brizola e Getúlio Vargas, vítimas das mesmas ou ainda mais intensas ignomínias, descuidaram de organizar o povo para defender seus projetos. A diferença de Lula para Getúlio e Brizola é que estes últimos viviam num Brasil que se jactava de viver de costas para os vizinhos da América do Sul. Hoje, não, Lula e Dilma têm o apoio da Argentina e da Venezuela, que formam conosco as grandes potências do subcontinente, além, é claro, da Bolívia e do Equador.

Lula e Dilma, portanto, não estão sozinhos, só precisando construir seus apoios efetivos internos, para, juntamente com as forças vizinhas, rebater os golpes do grande império, inclusive porque assim estarão mais fortes para resistir. Se os dois fraquejarem, será a perdição não só do Brasil mas de toda a América Latina, progressista e não progressista, já que o arrastão imperial não se dispõe a poupar a ninguém.

A internacionalização da direita nos trópicos

Por Suhayla Khalil | Via Sul 21

A ida da comitiva de senadores brasileiros encabeçada por Aécio Neves, do PSDB, à Venezuela me fez lembrar da viagem de Richard Nixon ao país, em 1958, quando este ainda era vice-presidente dos Estados Unidos. Os episódios guardam alguma semelhança. Então como hoje, as delegações foram recebidas com fortes doses de hostilidade nas ruas de Caracas. Nos dois casos, o repúdio à visita veio de manifestações populares e não do governo instituído. Ambos também demonstraram uma sucessão de erros e provas de desconhecimento em relação à Venezuela e, em última análise,  aos países da região, mas que procuraram ser canalizados de forma positiva pelos integrantes das delegações nos seus países de origem.

Primeiramente, a visita não tinha caráter diplomático e é preciso lembrar que o sistema internacional tal qual é concebido desde a Paz de Westfália até os dias de hoje é um sistema de Estados alicerçado no princípio da soberania. Dessa forma, os esforços de mediação de qualquer crise política interna devem ser realizados com a anuência do governo e/ou com a utilização dos recursos de estruturas de cooperação internacional. No caso da Venezuela, isso já vem ocorrendo no âmbito da Unasul. O secretário da Unasul, o colombiano Ernesto Samper, nomeou uma delegação integrada pelos ministros de Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, da Colômbia, María Ángela Holguín, e do Equador, Ricardo Patiño, para promover a aproximação entre a ala governista e a oposição na Venezuela.

A visita dos senadores, da forma que foi realizada, mostrou certa arrogância e desconhecimento da lógica de funcionamento das relações internacionais. Falas de parlamentares, como Aloysio Nunes, que comentam que o pleito de excluir Venezuela do Mercosul deve ser levado à Organização dos Estados Americanos, demonstram o profundo desconhecimento dos legisladores brasileiros em relação aos processos internacionais.

Nesse sentido, a visita pirotécnica mais atrapalha do que ajuda. Manobras equivocadas como essa polarizam ainda mais a crise interna venezuelana e ameaçam as relações entre Brasil e Venezuela, além de colocarem em risco a própria integração regional. Não à toa, nos rememora o caso do diplomata Eduardo Saboia, que, contrariando ordens superiores e normas internacionais, trouxe clandestino para o Brasil o senador boliviano Roger Molina. Digo não à toa, porque Saboia também embarcou nessa nova aventura juntamente com os senadores brasileiros, já que foi descoberto que ele compunha a comitiva a Caracas. Ambos os casos puseram o governo brasileiro em uma saia justa nas suas relações externas.

Vale lembrar que o processo de institucionalização da cooperação regional é recente na América Latina e deve ser cuidado. Além disso, tal tipo de atuação reforça o discurso nada desejável de que o Brasil é um país imperialista em seu entorno regional. Assim sendo, a oposição brasileira agiu de forma muito mais auto-interessada, de forma a capitalizar o ensejo para lograr visibilidade interna e internacional, e ignorou os interesses nacionais defendidos por nossa política externa. Vale lembrar que a Venezuela é um dos nossos principais parceiros comerciais. Também é um dos principais vendedores de petróleo para os Estados Unidos, que, até hoje, nem de longe interromperam os fluxos comerciais com o país. Ademais, o processo de integração regional tem sido uma prioridade do governo brasileiro desde a redemocratização e tratada como política de Estado.

Por fim, quanto à expulsão da Venezuela das instituições regionais, é preciso ter em mente algumas ponderações. Um primeiro problema a ser enfrentado é o de que a cláusula democrática do Mercosul é bastante abrangente e não há critérios claros para a definição de regime democrático. Ou seja, temos uma questão de ordem processual a ser enfrentada. Em segundo lugar, a História já provou que a expulsão de membros não é a melhor decisão política. Na verdade, a exclusão demonstra uma inaptidão e a falta de legitimidade das instituições regionais para cuidar de suas crises internas.

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Suhayla Khalil é Doutora em Relações Internacionais e professora da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

Uruguai e acordos comerciais com a UE: acomodando o traseiro na poltrona “em duas velocidades”

Por Fernando Moyano | Via Correio da Cidadania

Walter Cancela, embaixador uruguaio na União Europeia, disse na segunda-feira, primeiro de junho, que o Mercosul não planejou um acordo “em duas velocidades” com a União Europeia ((UE), ou, seja, deixando de lado a Argentina por dois anos), senão um acordo “dos quatro sócios, porque a UE tem mandato para negociar com o bloco do Mercosul, não em separado”.
No dia seguinte, foi anunciado que ele seria removido de seu cargo porque suas declarações haviam incomodado o presidente Tabaré Vázquez, ao mesmo tempo em que não o incomodaram os insultos do ministro da Defesa aos organismos de Direitos Humanos.

“Da política exterior cuida o presidente”, disse o chanceler da República, e acrescentou que buscariam rapidamente um substituto porque as negociações começam já. “Se a Argentina decidir não participar, o resto do bloco seguirá adiante”, disse o ministro da Economia, há alguns dias, e que isso foi acordado com Dilma Rousseff na recente visita de Tabaré a Brasília. (parece decidir também sobre a política internacional do Brasil).

Vinte e quatro horas depois, os mesmos hierarcas dizem que não demitiram Cancela, mas apenas o “colocaram sob observação”. Ao mesmo tempo, o ex-presidente José Mujica disse que a solução para a América Latina não virá do comércio com a Europa, que está em “situação complexa e cheia de incertezas”.

Para entender alguma coisa, vamos à raiz do problema.

A debilidade relativa congênita da classe dominante uruguaia a aproxima periodicamente do poder imperial. Desde a incipiente burguesia colonial de Montevidéu, “a muito fiel e conquistadora”, que em 1806 recuperou para a coroa espanhola a Buenos Aires invadida. Ou a “independência” do Uruguai em 1825-28, de costas para o projeto federal artiguista, por decisão de Sua Majestade Britânica. E a infame Tríplice Aliança de 1865 para invadir e destroçar o Paraguai, acabando com sua resistência contra a penetração imperialista. De brinde, esta guerra nos deixou um exército uruguaio formado com um rejunte de mercenários e essa condição se prolonga até as “missões de paz” de hoje.

Nossa única redenção possível é a integração latino-americana. “O Uruguai não pode seguir marcha somente pelos trilhos uruguaios. Os do Uruguai insular. O Uruguai que está morto. Que não tem possibilidades de desenvolvimento autônomo… Esse caminho está condenado à frustração. o Uruguai não pode, por si só, adquirir sua independência”, afirmava o jornalista e político Carlos Quijano, fundador e diretor do Marcha (antigo semanário).

Mas qual integração? “A integração dos desenvolvimentistas não é a nossa”, acrescentava Quijano. O capitalismo periférico dependente define uma competência especial entre as burguesias coloniais da região, uma disputa por um melhor lugar na vassalagem da estrutura colonial. O espaço que ganha uma, perde a outra, e essa competência servil degrada a todas em benefício do centro imperial.

A cenoura é buscar um desenvolvimento por via capitalista para “alcançar o Primeiro Mundo” em uns trinta anos, aproveitando as possíveis oportunidades no comércio mundial (agora o chamam de “país inteligente”). Essa integração seria coordenar as ofertas para esse mercado e aceitar por igual os capitais e os produtos externos. Mas sem interação produtiva sempre há o limite da competência em chegar aos mesmos objetivos por vias particularistas.

O suposto desenvolvimento por imitação do caminho dos países europeus e EUA nos últimos trezentos ou quatrocentos anos, é impossível. Isso foi claramente demonstrado, faz tempo, por autores como o marxista uruguaio Vivian Trías.

Já não é mais possível uma acumulação primitiva pela exploração das colônias e superexploração do trabalho, como na revolução industrial. Reformar a atual distribuição da terra já não significa uma remoção do feudalismo, um modo de produção inferior; agora é preciso quebrar a concentração de terras em mãos do agronegócio transnacional, impossível por pura e simples competição capitalista.

Hoje o excedente econômico é levado pelo imperialismo, que conta com o monopólio financeiro, potência militar, acesso aos recursos naturais, meios de comunicação e tecnologia. Em vez de uma burguesia autônoma como na decolagem capitalista na Europa, as nossas são subsidiárias do capitalismo globalizado, vivem em seu interstício e não podem, nem buscam, ser outra coisa.

O que faz um governo como o da Frente Ampla? Se o que busca é gerir o capitalismo, assuma a lógica capitalista. Sentado na poltrona, traseiro e cérebro se moldam.

O que pode fazer um pequeno país capitalista, periferia da periferia, como o Uruguai? Se saltar da panela, cai no fogo.

Cada vez que alguma crise cria dificuldades, o governo proclama que os capitais podem vir para cá porque o Uruguai baixa os panos; cada vez que algum outro governo da região tenta sequer uma pequena negociação ou resistência, aqui se prestam ao papel de fura-greves para mostrar “responsabilidade”. E anunciam que o Uruguai está “blindado” e, mais ainda, sairá beneficiado pelas dificuldades dos vizinhos. Com o gorro em mãos, pedindo moedas.

Mas acaba passando o que é previsível para qualquer um, menos para essa equipe econômica. As dificuldades da região pendem sobre o Uruguai, porque esses países são mercados do Uruguai. Deles, vêm muitos investimentos de capital, divisas e são sócios em obras de infraestrutura. É o dilema do prisioneiro. Se mandar em cana o teu cúmplice, é possível que vás antes dele.

Entre servir ao império ou ao sub-império, para alguns é preciso “se abrir ao mundo” para ver se assim se vendem serviços aos países centrais, e para outros é melhor vender na região a ideia de um porto de águas profundas entre todos. Todas as opções dentro do capitalismo, porque por algo estão sentados na poltrona.

Deslocar-se entre Argentina e Brasil, no Uruguai, é como vir a reinventar a roda. Armar intrigas entre eles para ver se pescamos algo, talvez dê um pão para hoje. Mas com certeza traz fome para amanhã. Porque qualquer império proferirá sempre resolver com os maiores, por mais que possa tirar desta “terra sem nenhum proveito”.

Um país inteligente não merece um governo estúpido. Não é de estranhar que em tantas voltas pelo labirinto, alguém se incomode que outro diga uma verdade simples e modesta.

Nestas condições, nesse contexto inabalável do capitalismo, quais dessas “duas velocidades” é a solução? Simples, não há solução.

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Fernando Moyano, uruguaio, é membro da revista Alfaguara e fundador da Coordenação pela Retirada das Tropas do Haiti.

Tradução de Raphael Sanz, do Correio da Cidadania.

‘A China sabe o que quer, mas o Brasil não’, avalia economista sobre acordo entre os dois países

Por Luiza Bulhões Olmedo e Jaqueline Silveira | Via Sul 21

Professor de economia e de Relações Internacionais da UFRGS, André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo e avalia acordo analisa acordo com o Brasil. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo, inclusive do Brasil. Recentemente, os dois países assinaram um acordo de US$ 50 bilhões, considerado um grande negócio pelo governo brasileiro. Contudo, o economista é cauteloso ao analisar os prós e contras da parceria com a China. Na opinião de Cunha, o governo federal não tem uma visão estratégica, ao contrário da China, de modo que a parceria pode não se tornar um bom negócio para a economia brasileira.  Ele também criticou o fato de não se discutir os grandes temas do futuro do país e de o Congresso se preocupar com coisas menores, sem entrar nessa sua pauta. Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Sul21:

Sul21 - O crescimento chinês alavancou juntamente grandes produtores agrícolas, como o Brasil. Quais as consequências de ter a nossa economia tão atrelada ao ciclo econômico chinês?

André Cunha – O processo de ascensão da China é caracterizado por um crescimento muito forte nos últimos 30 anos. E com o avanço da internacionalização chinesa de 2001 para cá, quando a China entra na OMC (Organização Mundial do Comércio), ela vai se convertendo no principal parceiro comercial de boa parte do resto da humanidade. Uma dimensão que se destaca dessa internacionalização é a demanda chinesa por recursos naturais, até para dar sustentação ao seu crescimento. Então, notamos que de 2002 até meados de 2011, 2012 tem uma elevação muito grande do preço dos recursos naturais, e também um aumento da demanda quantitativa associada a essa elevação de preços. Isso contribui de fato positivamente para países que são produtores e exportadores de recursos naturais, os países da América do Sul são um exemplo disso. Para países da América Central e do Norte, como o México, já é outra coisa. Metade da África que exporta recursos naturais e energia, beneficia-se desse processo; já quem importa recursos naturais se prejudicou, porque os preços subiram. De 2012 pra cá, os preços estão refluindo mais em alguns segmentos de commodities e menos em outros. (Commodities são essas mercadorias, principalmente minérios e gêneros agrícolas, com características uniformes que são produzidas em larga escala e comercializadas em nível mundial, de modo que seus preços são definidos no mercado internacional).

Uma característica para economias como a brasileira, que tem uma estrutura de produção diversificada, é que na medida em que vão dependendo de commodities, ficam mais expostas às oscilações de demandas e de preços. Na medida em que os preços deixam de ser favoráveis, a economia brasileira vai perdendo o dinamismo do ponto de vista de comércio exterior. A principal dificuldade é a excessiva especialização na produção e na exportação em uma economia que já era diversificada, o que remete a um processo que eu chamo de regressão. Nós estamos voltando à condição a que ficamos décadas tentando superar, que é a condição de uma economia primário-exportadora. De alguma forma, o Brasil está voltando a ter uma economia mais instável, que depende mais dos estímulos externos. O Brasil emerge no começo dos anos 1980 como o 8º maior parque industrial do mundo. Aliás, o Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos. E hoje, o Brasil recuou bastante nesse processo. Nós tínhamos quase 3% da produção mundial de manufaturas e hoje temos pouco mais de 1,5% dessa produção. A China, ao contrário: está crescendo pela diversificação produtiva e pela diversificação do seu comércio exterior. O Brasil está se especializando em recursos naturais.

“(…) O Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos, e hoje o Brasil recuou bastante nesse processo.”

Sul21 – Isso pode ser prejudicial para economia do Brasil futuramente?

Cunha – Nada é bom e ruim em si. É bom o Brasil ser competitivo, ser exportador de recursos naturais? É bom, mas o problema é ser só isso. Na medida em que o Brasil vai se especializando só nisso, na minha avaliação, isso reduz potencial de crescimento. Por quê? Quando a renda mundial cresce, a demanda por recursos naturais cresce, mas menos rapidamente do que a demanda de produtos industrializados. Ou seja, se o mundo cresce e eu estou especializado em recurso natural, a procura pelos meus bens cresce, mas menos rapidamente do que quando eu cresço, e compro produtos sofisticados. Esse é um processo que muitos chamam de regressão, porque o Brasil já foi isso quando era uma fazenda de café. Depois, deixou de ser, e agora está voltando. A indústria está perdendo participação no PIB (Produto Interno Bruto), o comércio exterior depende de poucos produtos: basicamente minério de ferro e soja, e isso para um país como o Brasil é difícil. O Brasil não é uma economia pequena e especializada, como o Chile, por exemplo, então, para nós, isso é problemático. Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro. O problema é exportar soja para importar o resto. Não ter uma estrutura diversificada, isso é ruim, e é o que está acontecendo, infelizmente.

“Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro, o problema é exportar soja para importar o resto.”

Sul21- Como funciona a política cambial chinesa, e como ela contribui nesse processo?

Cunha – A política chinesa tem evoluído ao longo do tempo, atualmente eles procuram administrar o processo de valorização de sua moeda. Acho que um pouco da tua pergunta é se a China manipula ou não o valor de sua moeda. Eu alguma medida, sim. O que a China usa é uma estratégia mercantilista. Qual é o país que ascendeu internacionalmente que não usou a estratégia mercantilista antes? Todos usaram. A Inglaterra foi mercantilista, os Estados Unidos foram mercantilistas, o Japão, a Alemanha, em certa etapa do seu processo de ascensão. Então nesse processo o que a China evita é a entrada de dólares toda vá para o mercado. Se fosse toda para o mercado, o preço do Renminbi (Yuan Renminbi -moeda chinesa) desabaria mais rapidamente e prejudicaria sua estratégia exportadora. E eles vêm administrando isso.

O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nós não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa. O que a China quer conosco, a China sabe. O que o Brasil quer com a China, o Brasil não sabe. Não temos uma estratégia para isso, então esse é o problema. O problema do Brasil não é a política cambial chinesa, o problema é que o Brasil não tem política cambial. O Brasil usou o câmbio como âncora para estabilizar preços, para combater a inflação. Faz 20 anos que faz isso. O real é valorizado e isso está matando a indústria. Minha perspectiva não é anti-chinesa, pelo contrário A China está ascendendo e já é a maior economia do mundo em poder de compra e a segunda em valores correntes de mercado, e é o nosso principal parceiro comercial. O que nós vamos fazer com isso? Essa é a questão.

“O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nos não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa.”

Sul21 – Com a crise internacional de 2008, e o fim do boom das commodities, o que muda na relação entre Brasil e China? 

Cunha – Durante o período de boom das commodities, não só o Brasil, como os países exportadores de recursos naturais em geral, tiveram um choque favorável nos termos de intercâmbio. Os preços daquilo que a gente exporta, dispararam; e os preços daquilo que importamos, como as manufaturas, estavam moderados.  E a China contribui nas duas pontas: importando as commodities e exportando suas manufaturas baratas. Agora, esse negócio reverteu, e a gente está crescendo menos em função disso. Parte do efeito da crise internacional ainda existe e agora até aumentou. O crescimento da China está reduzido, assim como a especulação no mercado de commodities. Parte do excesso de liquidez mundial voltou para os Estados Unidos, para comprar ativos financeiros, especialmente ações, dos Estados Unidos. Tudo isso contribui para a mudança dos preços das commodities. Como nós estamos muito dependentes desses preços, crescemos menos. Parte das nossas dificuldades tem a ver com isso, com a reversão desse ciclo. Quando o ciclo vai, eu vou, quando o clico cai, eu paro. Isso é uma economia dependente e reflexa. De lá pra cá, nós estamos patinando em parte por isso.

Sul21 – A nova onda de investimentos chineses, como desse anúncio recente de mais de US$ 50 bilhões, tem sido visto por muitos como uma grande oportunidade para o Brasil neste momento de crise. Mas o senhor vê com cautela esse acordo, então como avalia os reflexos para nosso cenário econômico?

Cunha – Temos de separar em duas coisas. Nós estamos numa situação em que a economia está em contração, o PIB terá uma queda neste ano, nós temos um governo com pouco apoio da sociedade, sem apoio no Parlamento, encurralado. Sem capacidade de reação, sem capacidade de propor uma estratégia de crescimento para o país, de ter uma agenda positiva para o país.  Então, os chineses surgem, nesse momento, e não é só aqui, como nossa a grande saída. Eles vêm para a América Latina fazendo acordos, comércio, investimentos no momento em que a América Latina está com grandes dificuldades. A China pode dinamizar nossa economia? Até pode, mas eu seria um pouquinho mais cauteloso. Não vai ser uma coisa imediata, da noite para o dia. Tem esse fundo que, supostamente, a Caixa Econômica Federal vai administrar, de US$ 50 bilhões, para investir em infraestrutura. Vamos ver quando o dinheiro chegar, como o dinheiro será usado. Isso não vai gerar efeito de curto prazo.

Esses projetos chineses são fundamentalmente de infraestrutura para canalizar a produção de recursos naturais do Brasil para ser vendido na China. É aquela ferrovia para ligar o Rio ao Peru, que vai contribuir para o avanço na destruição da Floresta Amazônica. Tudo isso para vender soja e minério de ferro. Soja e minério de ferro não desenvolvem um país como o Brasil, com 8,5 milhões de km² e com 200 milhões de habitantes. Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil. Isso vai dar dinheiro para quem produz soja, dinheiro para quem importa iphone, e vai concentrar renda, porque não terá renda para todo mundo. Mas insisto, a culpa não é dos chineses, os chineses nos trazem uma grande oportunidade, agora a gente não sabe o que fazer com isso. Este governo não tem estratégia e os anteriores também não tinham. Os chineses têm: eles querem mercado consumidor, eles querem acesso a recursos naturais, eles querem trazer seus investimentos e seus trabalhadores, porque eles têm de criar emprego. Eles têm agenda e nos estamos frágeis.

“Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil”

Sul21- O senhor disse que, neste momento, a economia está frágil. Mas há alguns setores da economia brasileira que podem ser beneficiados pela aproximação chinesa?

Cunha – Há promessas diversas. Vamos pensar na construção de ferrovias: o Brasil tem problema de infraestrutura, tem de investir em infraestrutura e o Estado não tem dinheiro suficiente para investir em infraestrutura, nossas empreiteiras estão quebradas, esse é um momento ruim. Uma coisa seria, por exemplo, se esses investimentos fossem feitos pela Odebrecht, a Camargo Corrêa. Não estou aqui defendendo as empreiteiras. Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas. O Brasil está num processo um pouco catártico, que a gente compreende, mas daqui a pouco não terá mais empresas. Se esse investimento chinês fosse realizado por empresas brasileiras, por nossas construtoras, se eu internalizo a produção de locomotivas e demando aço produzido aqui dentro, se encadeio com a estrutura produtiva, isso gera um resultado potencialmente positivo.

O fato é que se não conseguir encadear para dentro, esse investimento simplesmente vai ser para isso: um corredor para pegar a soja aqui e levar para lá. O cara da soja vai ganhar, o do minério de ferro vai ganhar. Isso agrega pouco dentro do país. Então, depende como é que nós vamos fazer. Como nós estamos frágeis e sem estratégias, o risco do resultado líquido na ponta não ser tão bom como se promete não é pequeno. Se nós tivéssemos estratégia, se o governo tivesse capacidade de impor uma agenda, se conseguisse agregar a sociedade, agregar o empresariado nacional, que também está enlouquecido neste momento, aí os ganhos poderiam superar as perdas. Principalmente os ganhos com o setor produtivo industrial. Seria extremamente benéfico para o Brasil que empresas chinesas se instalassem e produzissem locomotivas aqui com agregação de valor no Brasil, partes, peças e componentes sendo produzidos também aqui, encadeando com o que tem no país, usando as construtoras brasileiras, ia ser uma maravilha. Agora se vai ser assim, não sei. Temos que ver o que vai acontecer.

“Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas.”

Sul21 - Dentre os investimentos anunciados está uma ferrovia que ligará o Atlântico ao Pacífico. Qual o impacto desse empreendimento para o Brasil? 

Cunha – Pode ser positivo, pode ser negativo. Qual é o impacto ambiental que vai ter isso? A própria legislação ambiental que foi aprovada recentemente reduz a capacidade do governo central de regular e joga a responsabilidade para os governos locais, isso é trágico! Como é que vai funcionar esse encadeamento com os setores produtivos locais? Eu não li nada desses documentos, em geral esses acordos são cartas de intenções, como uma coisa muita bonita. Como é que funcionou isso lá no passado? Qual foi o país que aceitou uma situação passiva como essa, de ser mero fornecedor de recursos naturais e de mercado consumidor, e que tenha se desenvolvido? Nenhum. Se isso fosse bom, a China teria feito e não fez isso. A China atraiu investimentos, as empresas que foram para lá tinham de transferir tecnologia, era o que o Brasil tinha de estar fazendo, mas não é isso que está sendo feito. Para desenvolver o Brasil, esses projetos de infraestrutura teriam de ter outra lógica, outro encadeamento. Mas o que temos é um Estado sem estratégia, e neste momento em crise política e com um empresariado que também não tem a capacidade de enxergar ali adiante. Muita gente vai ganhar, uma parte do empresariado virou o que no passado se chamava de burguesia importadora. Não produz mais aqui, simplesmente importa. Então, essa estratégia da China interessa porque eles vão ganhar dinheiro importando, não vão produzir no Brasil. Por que isso? Porque o dólar está muito barato ao longo dos anos, então é mais fácil importar do que produzir aqui porque a estrutura tributária é uma loucura, porque o ambiente de negócio é horrível. Um Estado que não tem estratégia não corrige esses problemas, que não foram corrigidos nos últimos 30 anos.

Sul21 – Então, talvez o Brasil possa não aproveitar esse abundante capital chinês e ainda colocar em xeque nosso setor industrial? 

Cunha – O setor industrial vem em queda há 30 anos, antes de a China ascender. A China não determinou isso, mas esse processo tende a se aprofundar. A aproximação com a China, se fosse usada estrategicamente pelo governo e pelo setor empresarial, poderia ajudar a reverter esse processo. Agora, no curso que as coisas estão andando, o risco de aprofundar um processo que já existia é enorme. Neste momento, eu atribuiria maior probabilidade, porque a história não está fechada, a isto. O que discute o Congresso Nacional? É manter financiamento privado, é distritão, é distritinho. Quais são os temas estratégicos futuros do Brasil? Nenhum, zero. O governo encurralado, a sociedade não apoiando. Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta. E eles (chineses) estão fazendo o jogo deles. A sociedade não enxerga, a mídia não coloca essas questões, todo dia se abre o jornal e só se vê escândalo, a gente não vê isso sendo discutindo pela sociedade. As nossas possibilidades de futuro estão se decidindo nessas questões. Da forma como está, o risco do Brasil é de perder mais do que ganhar. Isso não quer dizer que não tenha gente que vai ganhar muito dinheiro.

“Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta.”

Sul21 – Como a relação do Brasil com os vizinhos latino-americanos é afetada pela presença da China no subcontinente?

Cunha – Historicamente, o Brasil vendeu manufaturas. Para quem é que nós vendemos automóveis, geladeiras? Para os vizinhos, onde a gente consegue alguma competitividade. O Mercosul nos protege, temos a tarifa externa comum, temos acordo automotivo. Acontece que esse processo de integração é um processo problemático, de muitas disputas. O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica. Por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade. E agora nós estamos sem dinheiro. Se o governo central brasileiro não tem dinheiro para pagar os terceirizados que fazem prestação de limpeza nas universidades – tá todo mundo pedalando, todo mundo -, quanto mais para bancar um projeto estratégico para financiar exportações para os vizinhos. E se o Brasil não tem dinheiro para financiar suas exportações para a Argentina, a China tem. Os chineses fizeram um projeto grande lá na Argentina. O Brasil está de joelhos, no chão, não tem estratégia, não tem governo.

Uma parte da América Latina já decidiu o que vai fazer. A Aliança do Pacífico é México, Colômbia, Chile, Peru e esses caras vão para onde? Vão para a Ásia. Tem um acordo Transpacífico, com Estados Unidos, China e vários outros. O mundo está se movimentando e nós estamos aqui, parados. Renan Calheiros (Presidente do Senado) dando recado, Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) dizendo que não vai, discutindo coisinhas, cargo aqui, cargo ali, e o mundo indo, e a gente parado. A gente não faz nada de estratégico que possa gerar resultados efetivos a longo prazo. As exportações brasileiras estão relativamente perdendo Market share. Nós tínhamos 60%, 70% do mercado de calçados na Argentina, esse mercado cresceu porque a renda cresceu, por causa da dinâmica chinesa. Mas as exportações brasileiras pra Argentina crescem menos do que esse mercado e os chineses conseguem avançar. Isso está acontecendo em vários lugares. Esse é o efeito deslocamento do comércio (os mercados crescem, mas a fatia brasileira diminui) então isso está dificultando.

Vamos comparar Estados Unidos e China: quando os EUA estabeleceram a estratégia da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que é baseada na integração do comércio, houve uma reação aqui. E o Mercosul era um elemento central dessa reação. Por que a ALCA não aconteceu? Era no período do Fernando Henrique Cardoso, que em tese tinha um maior alinhamento com os Estados Unidos, em tese era um cara mais liberal e poderia aderir a esse projeto. Por que isso não aconteceu? Porque o Brasil concorre com o EUA em agronegócio. Não era tão claro que íamos ganhar com essa integração comercial, aí houve uma reação e parou. E agora a China?  Ela tem complementaridade e, nessa medida, vai ampliando espaço e nossos países passam a depender mais gravitacionalmente da economia chinesa. E, portanto, passam a ter relações mais fugazes entre eles, inclusive pelo comércio. Hoje, as economias da América Latina, principalmente da América do Sul, estão muito mais vinculados à China do que ao próprio EUA. A China entra onde há vácuo: África, América Latina, onde não bate de frente com os EUA. Nota 10 para eles, estão fazendo direitinho o jogo.

“O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica, por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade e agora nós estamos sem dinheiro.”

Sul21- E qual seria a diferença fundamental entre a relação que temos hoje com a China e a que tivemos um dia com os Estados Unidos?

Cunha – No Brasil, a forma como nos estruturamos enquanto nação, a nossa economia, a própria colonização, se deram a reboque no processo de desenvolvimento da Europa, da sua industrialização. Nós nos tornamos satélites, principalmente do ponto de vista econômico, embora tivéssemos, a partir do Século XIX autonomia política formal. Não éramos colônias formalmente, mas economicamente estávamos dependentes. Esse modelo primário exportador gera isso: nós vendemos recursos naturais, importamos manufaturas, crescemos menos, a nossa tecnologia não se desenvolve, a sociedade concentra riqueza. Quando o desenvolvimento é baseado em recursos naturais, quem é que tem acesso à riqueza? Quem controla a terra. Isso dificulta o processo de desenvolvimento em geral, ainda que hajam exceções. A ascensão da China recoloca essa questão para nós em função da nossa complementaridade. Não significa dizer que a China, conscientemente, deseja nos tornar uma colônia formal ou do ponto de vista estritamente econômico. Trata-se de um processo que tende a acontecer pela nossa complementaridade econômica com a China. A partir dos anos 1930, com a Segunda Guerra Mundial, a disputa EUA x União Soviética na Guerra Fria, abriu-se uma janela para que nossos países se industrializassem, se urbanizassem, se diversificassem. Esse contexto da Guerra Fria abriu espaço para nossa ascensão.

A ascensão da China nos remete ao modelo anterior porque nós não temos estratégia. Insisto, se tivéssemos, aproveitaríamos de outra forma. A diferença fundamental é que a China representa uma força gravitacional, como se estivéssemos fisicamente atraídos por um corpo estelar e entramos nessa órbita. Com os EUA, a diferença é que nós concorremos com o agronegócio, nós temos economias que concorrem mais entre si. Nós não somos área estratégica para os EUA, que está mais preocupado com a Ásia, o Oriente Médico; a América Latina está lá. De alguma forma, o interesse dos EUA pra cá diminuiu. A China chegou em meio a esse vácuo de liderança local, com Estados nacionais relativamente fracos e instáveis, e ela com enorme apetite de internacionalização.

Sul21 – No âmbito das Relações Internacionais, fala-se muito da cooperação Sul-Sul. Nesse sentido, o que representa a parceria com a China?

Cunha – Este termo, para mim, não se aplica para as relações sino-brasileiras. Como é que eu chamo a China, que é a maior economia do mundo em paridade de poder de compra, a maior população do mundo, uma potência nuclear, de parceria Sul-Sul? Isso é um eufemismo. Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente. Assimétrica, de dependência. Então, não é uma relação Sul-Sul. É a mesma coisa dizer que a relação dos espanhóis com os maias foi Sul-Sul. Não. Isso é para a retórica oficial. O Brasil é o espelho reverso da China. A China avança, se diversifica, investe em infraestrutura, qualifica os recursos humanos, é potência nuclear, tem elevada autonomi. O Brasil é o contrário: não cresce, a produtividade não cresce, não investe em gente. Aí é o reverso. Como é que eu vou chamar isso de Sul-Sul? O Brasil é grande, mas é grande e não tem força.

“Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente”.