Por Luiza Bulhões Olmedo e Jaqueline Silveira | Via Sul 21

Professor de economia e de Relações Internacionais da UFRGS, André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo e avalia acordo analisa acordo com o Brasil. Foto: Guilherme Santos/Sul21
Professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), André Cunha acompanha o avanço da China como principal parceiro comercial de boa parte do mundo, inclusive do Brasil. Recentemente, os dois países assinaram um acordo de US$ 50 bilhões, considerado um grande negócio pelo governo brasileiro. Contudo, o economista é cauteloso ao analisar os prós e contras da parceria com a China. Na opinião de Cunha, o governo federal não tem uma visão estratégica, ao contrário da China, de modo que a parceria pode não se tornar um bom negócio para a economia brasileira. Ele também criticou o fato de não se discutir os grandes temas do futuro do país e de o Congresso se preocupar com coisas menores, sem entrar nessa sua pauta. Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Sul21:
Sul21 - O crescimento chinês alavancou juntamente grandes produtores agrícolas, como o Brasil. Quais as consequências de ter a nossa economia tão atrelada ao ciclo econômico chinês?
André Cunha – O processo de ascensão da China é caracterizado por um crescimento muito forte nos últimos 30 anos. E com o avanço da internacionalização chinesa de 2001 para cá, quando a China entra na OMC (Organização Mundial do Comércio), ela vai se convertendo no principal parceiro comercial de boa parte do resto da humanidade. Uma dimensão que se destaca dessa internacionalização é a demanda chinesa por recursos naturais, até para dar sustentação ao seu crescimento. Então, notamos que de 2002 até meados de 2011, 2012 tem uma elevação muito grande do preço dos recursos naturais, e também um aumento da demanda quantitativa associada a essa elevação de preços. Isso contribui de fato positivamente para países que são produtores e exportadores de recursos naturais, os países da América do Sul são um exemplo disso. Para países da América Central e do Norte, como o México, já é outra coisa. Metade da África que exporta recursos naturais e energia, beneficia-se desse processo; já quem importa recursos naturais se prejudicou, porque os preços subiram. De 2012 pra cá, os preços estão refluindo mais em alguns segmentos de commodities e menos em outros. (Commodities são essas mercadorias, principalmente minérios e gêneros agrícolas, com características uniformes que são produzidas em larga escala e comercializadas em nível mundial, de modo que seus preços são definidos no mercado internacional).
Uma característica para economias como a brasileira, que tem uma estrutura de produção diversificada, é que na medida em que vão dependendo de commodities, ficam mais expostas às oscilações de demandas e de preços. Na medida em que os preços deixam de ser favoráveis, a economia brasileira vai perdendo o dinamismo do ponto de vista de comércio exterior. A principal dificuldade é a excessiva especialização na produção e na exportação em uma economia que já era diversificada, o que remete a um processo que eu chamo de regressão. Nós estamos voltando à condição a que ficamos décadas tentando superar, que é a condição de uma economia primário-exportadora. De alguma forma, o Brasil está voltando a ter uma economia mais instável, que depende mais dos estímulos externos. O Brasil emerge no começo dos anos 1980 como o 8º maior parque industrial do mundo. Aliás, o Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos. E hoje, o Brasil recuou bastante nesse processo. Nós tínhamos quase 3% da produção mundial de manufaturas e hoje temos pouco mais de 1,5% dessa produção. A China, ao contrário: está crescendo pela diversificação produtiva e pela diversificação do seu comércio exterior. O Brasil está se especializando em recursos naturais.
“(…) O Brasil produzia mais produtos industriais que todos esses países asiáticos juntos, e hoje o Brasil recuou bastante nesse processo.”
Sul21 – Isso pode ser prejudicial para economia do Brasil futuramente?
Cunha – Nada é bom e ruim em si. É bom o Brasil ser competitivo, ser exportador de recursos naturais? É bom, mas o problema é ser só isso. Na medida em que o Brasil vai se especializando só nisso, na minha avaliação, isso reduz potencial de crescimento. Por quê? Quando a renda mundial cresce, a demanda por recursos naturais cresce, mas menos rapidamente do que a demanda de produtos industrializados. Ou seja, se o mundo cresce e eu estou especializado em recurso natural, a procura pelos meus bens cresce, mas menos rapidamente do que quando eu cresço, e compro produtos sofisticados. Esse é um processo que muitos chamam de regressão, porque o Brasil já foi isso quando era uma fazenda de café. Depois, deixou de ser, e agora está voltando. A indústria está perdendo participação no PIB (Produto Interno Bruto), o comércio exterior depende de poucos produtos: basicamente minério de ferro e soja, e isso para um país como o Brasil é difícil. O Brasil não é uma economia pequena e especializada, como o Chile, por exemplo, então, para nós, isso é problemático. Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro. O problema é exportar soja para importar o resto. Não ter uma estrutura diversificada, isso é ruim, e é o que está acontecendo, infelizmente.
“Não estou dizendo que é ruim exportar soja ou minério de ferro, o problema é exportar soja para importar o resto.”
Sul21- Como funciona a política cambial chinesa, e como ela contribui nesse processo?
Cunha – A política chinesa tem evoluído ao longo do tempo, atualmente eles procuram administrar o processo de valorização de sua moeda. Acho que um pouco da tua pergunta é se a China manipula ou não o valor de sua moeda. Eu alguma medida, sim. O que a China usa é uma estratégia mercantilista. Qual é o país que ascendeu internacionalmente que não usou a estratégia mercantilista antes? Todos usaram. A Inglaterra foi mercantilista, os Estados Unidos foram mercantilistas, o Japão, a Alemanha, em certa etapa do seu processo de ascensão. Então nesse processo o que a China evita é a entrada de dólares toda vá para o mercado. Se fosse toda para o mercado, o preço do Renminbi (Yuan Renminbi -moeda chinesa) desabaria mais rapidamente e prejudicaria sua estratégia exportadora. E eles vêm administrando isso.
O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nós não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa. O que a China quer conosco, a China sabe. O que o Brasil quer com a China, o Brasil não sabe. Não temos uma estratégia para isso, então esse é o problema. O problema do Brasil não é a política cambial chinesa, o problema é que o Brasil não tem política cambial. O Brasil usou o câmbio como âncora para estabilizar preços, para combater a inflação. Faz 20 anos que faz isso. O real é valorizado e isso está matando a indústria. Minha perspectiva não é anti-chinesa, pelo contrário A China está ascendendo e já é a maior economia do mundo em poder de compra e a segunda em valores correntes de mercado, e é o nosso principal parceiro comercial. O que nós vamos fazer com isso? Essa é a questão.
“O problema do Brasil não é a China, o problema é o Brasil. Nos não temos estratégia para nada, nem para nos desenvolvermos, nem para lidarmos com ascensão chinesa.”
Sul21 – Com a crise internacional de 2008, e o fim do boom das commodities, o que muda na relação entre Brasil e China?
Cunha – Durante o período de boom das commodities, não só o Brasil, como os países exportadores de recursos naturais em geral, tiveram um choque favorável nos termos de intercâmbio. Os preços daquilo que a gente exporta, dispararam; e os preços daquilo que importamos, como as manufaturas, estavam moderados. E a China contribui nas duas pontas: importando as commodities e exportando suas manufaturas baratas. Agora, esse negócio reverteu, e a gente está crescendo menos em função disso. Parte do efeito da crise internacional ainda existe e agora até aumentou. O crescimento da China está reduzido, assim como a especulação no mercado de commodities. Parte do excesso de liquidez mundial voltou para os Estados Unidos, para comprar ativos financeiros, especialmente ações, dos Estados Unidos. Tudo isso contribui para a mudança dos preços das commodities. Como nós estamos muito dependentes desses preços, crescemos menos. Parte das nossas dificuldades tem a ver com isso, com a reversão desse ciclo. Quando o ciclo vai, eu vou, quando o clico cai, eu paro. Isso é uma economia dependente e reflexa. De lá pra cá, nós estamos patinando em parte por isso.
Sul21 – A nova onda de investimentos chineses, como desse anúncio recente de mais de US$ 50 bilhões, tem sido visto por muitos como uma grande oportunidade para o Brasil neste momento de crise. Mas o senhor vê com cautela esse acordo, então como avalia os reflexos para nosso cenário econômico?
Cunha – Temos de separar em duas coisas. Nós estamos numa situação em que a economia está em contração, o PIB terá uma queda neste ano, nós temos um governo com pouco apoio da sociedade, sem apoio no Parlamento, encurralado. Sem capacidade de reação, sem capacidade de propor uma estratégia de crescimento para o país, de ter uma agenda positiva para o país. Então, os chineses surgem, nesse momento, e não é só aqui, como nossa a grande saída. Eles vêm para a América Latina fazendo acordos, comércio, investimentos no momento em que a América Latina está com grandes dificuldades. A China pode dinamizar nossa economia? Até pode, mas eu seria um pouquinho mais cauteloso. Não vai ser uma coisa imediata, da noite para o dia. Tem esse fundo que, supostamente, a Caixa Econômica Federal vai administrar, de US$ 50 bilhões, para investir em infraestrutura. Vamos ver quando o dinheiro chegar, como o dinheiro será usado. Isso não vai gerar efeito de curto prazo.
Esses projetos chineses são fundamentalmente de infraestrutura para canalizar a produção de recursos naturais do Brasil para ser vendido na China. É aquela ferrovia para ligar o Rio ao Peru, que vai contribuir para o avanço na destruição da Floresta Amazônica. Tudo isso para vender soja e minério de ferro. Soja e minério de ferro não desenvolvem um país como o Brasil, com 8,5 milhões de km² e com 200 milhões de habitantes. Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil. Isso vai dar dinheiro para quem produz soja, dinheiro para quem importa iphone, e vai concentrar renda, porque não terá renda para todo mundo. Mas insisto, a culpa não é dos chineses, os chineses nos trazem uma grande oportunidade, agora a gente não sabe o que fazer com isso. Este governo não tem estratégia e os anteriores também não tinham. Os chineses têm: eles querem mercado consumidor, eles querem acesso a recursos naturais, eles querem trazer seus investimentos e seus trabalhadores, porque eles têm de criar emprego. Eles têm agenda e nos estamos frágeis.
“Vender soja para importar iPhone: isso não vai desenvolver o Brasil”
Sul21- O senhor disse que, neste momento, a economia está frágil. Mas há alguns setores da economia brasileira que podem ser beneficiados pela aproximação chinesa?
Cunha – Há promessas diversas. Vamos pensar na construção de ferrovias: o Brasil tem problema de infraestrutura, tem de investir em infraestrutura e o Estado não tem dinheiro suficiente para investir em infraestrutura, nossas empreiteiras estão quebradas, esse é um momento ruim. Uma coisa seria, por exemplo, se esses investimentos fossem feitos pela Odebrecht, a Camargo Corrêa. Não estou aqui defendendo as empreiteiras. Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas. O Brasil está num processo um pouco catártico, que a gente compreende, mas daqui a pouco não terá mais empresas. Se esse investimento chinês fosse realizado por empresas brasileiras, por nossas construtoras, se eu internalizo a produção de locomotivas e demando aço produzido aqui dentro, se encadeio com a estrutura produtiva, isso gera um resultado potencialmente positivo.
O fato é que se não conseguir encadear para dentro, esse investimento simplesmente vai ser para isso: um corredor para pegar a soja aqui e levar para lá. O cara da soja vai ganhar, o do minério de ferro vai ganhar. Isso agrega pouco dentro do país. Então, depende como é que nós vamos fazer. Como nós estamos frágeis e sem estratégias, o risco do resultado líquido na ponta não ser tão bom como se promete não é pequeno. Se nós tivéssemos estratégia, se o governo tivesse capacidade de impor uma agenda, se conseguisse agregar a sociedade, agregar o empresariado nacional, que também está enlouquecido neste momento, aí os ganhos poderiam superar as perdas. Principalmente os ganhos com o setor produtivo industrial. Seria extremamente benéfico para o Brasil que empresas chinesas se instalassem e produzissem locomotivas aqui com agregação de valor no Brasil, partes, peças e componentes sendo produzidos também aqui, encadeando com o que tem no país, usando as construtoras brasileiras, ia ser uma maravilha. Agora se vai ser assim, não sei. Temos que ver o que vai acontecer.
“Empreiteira tem de fazer obras, não pode se meter na política, não pode financiar campanha. Nós temos de moralizar esse negócio, mas temos de preservar essas empresas.”
Sul21 - Dentre os investimentos anunciados está uma ferrovia que ligará o Atlântico ao Pacífico. Qual o impacto desse empreendimento para o Brasil?
Cunha – Pode ser positivo, pode ser negativo. Qual é o impacto ambiental que vai ter isso? A própria legislação ambiental que foi aprovada recentemente reduz a capacidade do governo central de regular e joga a responsabilidade para os governos locais, isso é trágico! Como é que vai funcionar esse encadeamento com os setores produtivos locais? Eu não li nada desses documentos, em geral esses acordos são cartas de intenções, como uma coisa muita bonita. Como é que funcionou isso lá no passado? Qual foi o país que aceitou uma situação passiva como essa, de ser mero fornecedor de recursos naturais e de mercado consumidor, e que tenha se desenvolvido? Nenhum. Se isso fosse bom, a China teria feito e não fez isso. A China atraiu investimentos, as empresas que foram para lá tinham de transferir tecnologia, era o que o Brasil tinha de estar fazendo, mas não é isso que está sendo feito. Para desenvolver o Brasil, esses projetos de infraestrutura teriam de ter outra lógica, outro encadeamento. Mas o que temos é um Estado sem estratégia, e neste momento em crise política e com um empresariado que também não tem a capacidade de enxergar ali adiante. Muita gente vai ganhar, uma parte do empresariado virou o que no passado se chamava de burguesia importadora. Não produz mais aqui, simplesmente importa. Então, essa estratégia da China interessa porque eles vão ganhar dinheiro importando, não vão produzir no Brasil. Por que isso? Porque o dólar está muito barato ao longo dos anos, então é mais fácil importar do que produzir aqui porque a estrutura tributária é uma loucura, porque o ambiente de negócio é horrível. Um Estado que não tem estratégia não corrige esses problemas, que não foram corrigidos nos últimos 30 anos.
Sul21 – Então, talvez o Brasil possa não aproveitar esse abundante capital chinês e ainda colocar em xeque nosso setor industrial?
Cunha – O setor industrial vem em queda há 30 anos, antes de a China ascender. A China não determinou isso, mas esse processo tende a se aprofundar. A aproximação com a China, se fosse usada estrategicamente pelo governo e pelo setor empresarial, poderia ajudar a reverter esse processo. Agora, no curso que as coisas estão andando, o risco de aprofundar um processo que já existia é enorme. Neste momento, eu atribuiria maior probabilidade, porque a história não está fechada, a isto. O que discute o Congresso Nacional? É manter financiamento privado, é distritão, é distritinho. Quais são os temas estratégicos futuros do Brasil? Nenhum, zero. O governo encurralado, a sociedade não apoiando. Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta. E eles (chineses) estão fazendo o jogo deles. A sociedade não enxerga, a mídia não coloca essas questões, todo dia se abre o jornal e só se vê escândalo, a gente não vê isso sendo discutindo pela sociedade. As nossas possibilidades de futuro estão se decidindo nessas questões. Da forma como está, o risco do Brasil é de perder mais do que ganhar. Isso não quer dizer que não tenha gente que vai ganhar muito dinheiro.
“Enquanto os caras estão batendo panela, os chineses chegam e tomam conta.”
Sul21 – Como a relação do Brasil com os vizinhos latino-americanos é afetada pela presença da China no subcontinente?
Cunha – Historicamente, o Brasil vendeu manufaturas. Para quem é que nós vendemos automóveis, geladeiras? Para os vizinhos, onde a gente consegue alguma competitividade. O Mercosul nos protege, temos a tarifa externa comum, temos acordo automotivo. Acontece que esse processo de integração é um processo problemático, de muitas disputas. O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica. Por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade. E agora nós estamos sem dinheiro. Se o governo central brasileiro não tem dinheiro para pagar os terceirizados que fazem prestação de limpeza nas universidades – tá todo mundo pedalando, todo mundo -, quanto mais para bancar um projeto estratégico para financiar exportações para os vizinhos. E se o Brasil não tem dinheiro para financiar suas exportações para a Argentina, a China tem. Os chineses fizeram um projeto grande lá na Argentina. O Brasil está de joelhos, no chão, não tem estratégia, não tem governo.
Uma parte da América Latina já decidiu o que vai fazer. A Aliança do Pacífico é México, Colômbia, Chile, Peru e esses caras vão para onde? Vão para a Ásia. Tem um acordo Transpacífico, com Estados Unidos, China e vários outros. O mundo está se movimentando e nós estamos aqui, parados. Renan Calheiros (Presidente do Senado) dando recado, Eduardo Cunha (presidente da Câmara dos Deputados) dizendo que não vai, discutindo coisinhas, cargo aqui, cargo ali, e o mundo indo, e a gente parado. A gente não faz nada de estratégico que possa gerar resultados efetivos a longo prazo. As exportações brasileiras estão relativamente perdendo Market share. Nós tínhamos 60%, 70% do mercado de calçados na Argentina, esse mercado cresceu porque a renda cresceu, por causa da dinâmica chinesa. Mas as exportações brasileiras pra Argentina crescem menos do que esse mercado e os chineses conseguem avançar. Isso está acontecendo em vários lugares. Esse é o efeito deslocamento do comércio (os mercados crescem, mas a fatia brasileira diminui) então isso está dificultando.
Vamos comparar Estados Unidos e China: quando os EUA estabeleceram a estratégia da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que é baseada na integração do comércio, houve uma reação aqui. E o Mercosul era um elemento central dessa reação. Por que a ALCA não aconteceu? Era no período do Fernando Henrique Cardoso, que em tese tinha um maior alinhamento com os Estados Unidos, em tese era um cara mais liberal e poderia aderir a esse projeto. Por que isso não aconteceu? Porque o Brasil concorre com o EUA em agronegócio. Não era tão claro que íamos ganhar com essa integração comercial, aí houve uma reação e parou. E agora a China? Ela tem complementaridade e, nessa medida, vai ampliando espaço e nossos países passam a depender mais gravitacionalmente da economia chinesa. E, portanto, passam a ter relações mais fugazes entre eles, inclusive pelo comércio. Hoje, as economias da América Latina, principalmente da América do Sul, estão muito mais vinculados à China do que ao próprio EUA. A China entra onde há vácuo: África, América Latina, onde não bate de frente com os EUA. Nota 10 para eles, estão fazendo direitinho o jogo.
“O Brasil e nossos vizinhos estão quase em permanente instabilidade, ou política ou econômica, por poucos períodos de tempo a gente consegue respirar, ter uma certa tranquilidade e agora nós estamos sem dinheiro.”
Sul21- E qual seria a diferença fundamental entre a relação que temos hoje com a China e a que tivemos um dia com os Estados Unidos?
Cunha – No Brasil, a forma como nos estruturamos enquanto nação, a nossa economia, a própria colonização, se deram a reboque no processo de desenvolvimento da Europa, da sua industrialização. Nós nos tornamos satélites, principalmente do ponto de vista econômico, embora tivéssemos, a partir do Século XIX autonomia política formal. Não éramos colônias formalmente, mas economicamente estávamos dependentes. Esse modelo primário exportador gera isso: nós vendemos recursos naturais, importamos manufaturas, crescemos menos, a nossa tecnologia não se desenvolve, a sociedade concentra riqueza. Quando o desenvolvimento é baseado em recursos naturais, quem é que tem acesso à riqueza? Quem controla a terra. Isso dificulta o processo de desenvolvimento em geral, ainda que hajam exceções. A ascensão da China recoloca essa questão para nós em função da nossa complementaridade. Não significa dizer que a China, conscientemente, deseja nos tornar uma colônia formal ou do ponto de vista estritamente econômico. Trata-se de um processo que tende a acontecer pela nossa complementaridade econômica com a China. A partir dos anos 1930, com a Segunda Guerra Mundial, a disputa EUA x União Soviética na Guerra Fria, abriu-se uma janela para que nossos países se industrializassem, se urbanizassem, se diversificassem. Esse contexto da Guerra Fria abriu espaço para nossa ascensão.
A ascensão da China nos remete ao modelo anterior porque nós não temos estratégia. Insisto, se tivéssemos, aproveitaríamos de outra forma. A diferença fundamental é que a China representa uma força gravitacional, como se estivéssemos fisicamente atraídos por um corpo estelar e entramos nessa órbita. Com os EUA, a diferença é que nós concorremos com o agronegócio, nós temos economias que concorrem mais entre si. Nós não somos área estratégica para os EUA, que está mais preocupado com a Ásia, o Oriente Médico; a América Latina está lá. De alguma forma, o interesse dos EUA pra cá diminuiu. A China chegou em meio a esse vácuo de liderança local, com Estados nacionais relativamente fracos e instáveis, e ela com enorme apetite de internacionalização.
Sul21 – No âmbito das Relações Internacionais, fala-se muito da cooperação Sul-Sul. Nesse sentido, o que representa a parceria com a China?
Cunha – Este termo, para mim, não se aplica para as relações sino-brasileiras. Como é que eu chamo a China, que é a maior economia do mundo em paridade de poder de compra, a maior população do mundo, uma potência nuclear, de parceria Sul-Sul? Isso é um eufemismo. Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente. Assimétrica, de dependência. Então, não é uma relação Sul-Sul. É a mesma coisa dizer que a relação dos espanhóis com os maias foi Sul-Sul. Não. Isso é para a retórica oficial. O Brasil é o espelho reverso da China. A China avança, se diversifica, investe em infraestrutura, qualifica os recursos humanos, é potência nuclear, tem elevada autonomi. O Brasil é o contrário: não cresce, a produtividade não cresce, não investe em gente. Aí é o reverso. Como é que eu vou chamar isso de Sul-Sul? O Brasil é grande, mas é grande e não tem força.
“Não existe Sul-Sul nessa relação. A relação Brasil-China é uma relação Norte-Sul, tal qual a relação Norte-Sul foi historicamente”.