Por Heldo Siqueira
Indicadores evidenciam que modelo atual não dá conta de explicar a inflação. Burocratas do Bacen precisam ajustar a teoria a realidade, não o contrário.
O debate sobre a taxa básica de juros básica da economia brasileira parece esquentar às vésperas de uma nova reunião do Copom. A autoridade monetária em sua última ata sinalizou a possibilidade de elevar mais uma vez a meta de taxa básica de juros de 14,25% ao ano para 14,75% a.a. Segundo o Banco Central, a persistência da expectativa de inflação dos agentes percebida pelo Boletim Focus [1] é elemento suficiente para a explicação de sua iniciativa. Mesmo assim, diversas tem sido as vozes divergentes quanto a percepção da autoridade monetária sobre a inflação brasileira. Para o professor José Luiz Oreiro, uma eventual elevação da taxa básica de juros é uma insensatez [2]. Outros artigos apresentam visão alternativa sobre a relação de causalidade entre taxa de juros e inflação, mostrando que a valorização do câmbio tem papel relevante no controle dos preços no Brasil e efeitos altamente deletérios para a economia real [3][4]. Qualquer analista sério deveria utilizar as vozes divergentes de um debate profissional e questionar frequentemente a eficácia de suas ferramentas (esse é o papel do meio científico). Entretanto, a crença, aparentemente irrefletida, do Banco Central em seus modelos parece não permitir que as críticas a sua metodologia prosperem, bem como a adoção de medidas alternativas. Afirmar que o manejo do câmbio seja o único instrumento efetivo contra a inflação parece um pouco de exagero, mas a percepção desse fator, em alternativa ao hiato de produto, parece cada vez mais evidente!
Analisar os pressupostos antes de indicar a eficácia de um modelo matemático deve fazer parte da rotina de qualquer bom cientista. No caso do modelo do Banco Central para determinação dos juros, um dos princípios baseia-se no que os economistas costumam chamar de curva de Phillips [5] [6]. Trata-se de uma relação empírica (e teoricamente muito mal explicada) segundo a qual é possível trocar crescimento econômico por inflação. Implícito nesta lógica está a relação inversa, ou seja, seria possível impor uma recessão para dissipar aumentos de preços. O significado dessa interpretação é que a utilização da capacidade da economia acima do potencial representaria um excesso de demanda gerando aumentos de preços como compensação. O gráfico 1 mostra a taxa de utilização da capacidade instalada e a taxa de inflação no Brasil entre 2006 e 2015.
Gráfico 1 – Índice de utilização da capacidade instalada e IPCA (12 meses)
Fonte: CNI [7] e Ipeadata [8]
Observa-se, pelo gráfico 1, que foi necessário levar o índice de utilização da capacidade instalada a 79,3%, em fevereiro de 2009, para trazer a inflação que estava em 6,4% a.a. (limite superior da meta) no mês de agosto de 2008 para 4,2% a.a. (centro da meta) em novembro de 2009 [9]. Outro vale que aparece em relação à utilização da capacidade instalada acontece em janeiro de 2012, com 80,2%. Naquele momento, a inflação desacelerou de 7,3% a.a. em outubro de 2011, para 4,9% a.a. em julho de 2012. As indicações sobre a curva de Phillips adotadas pelo Banco Central indicariam, nesse caso, que com uma utilização da capacidade instalada perto de 80,0% os índices de preços deveriam estar sendo reajustados entre 4,5% a.a. e 5,0% a.a. Entretanto, o que se observa são índices de inflação no dobro deste valor (10,5%), com utilização abaixo de 80,0% em todo o segundo semestre de 2015, chegando a 77,0% em novembro. Caso a tal curva existisse, ou ao menos os agentes acreditassem, por experiência, em sua existência, a expectativa de inflação deveria estar muito abaixo do centro da meta estipulada 4,5%. Nessas condições, seria sensato avaliar se o modelo baseado na curva de Phillips está efetivamente servindo para explicar a inflação corrente.
Ao justificar sua atuação, o Banco Central argumenta que pratica a regra de Taylor em seu modelo forward looking. Trata-se da prática de monitorar a expectativa do mercado (financeiro) sobre a inflação, antecipando os choques de oferta e estabelecendo uma taxa de juros que mantenha a inflação na meta. Em termos práticos, se a política monetária é forward looking as altas na taxa de juros deveriam antecipar as altas da inflação, mitigando os efeitos dos aumentos de preços. O gráfico 2 apresenta a média móvel da inflação em 12 meses e a taxa básica de juros anualizada.
Gráfico 2 – Média móvel do IPCA (12 meses) e Selic (12 meses)
Fonte: Ipeadata, 2016.
Mesmo sem um aparato estatístico que possa justificar de maneira irrefutável a afirmação, é possível perceber que os movimentos de alta e queda na inflação são anteriores aos observados em relação às decisões do Banco Central de reverter as trajetórias de taxa de juros. Entre janeiro de 2006 e o final de 2015, todos os movimentos da inflação anteciparam os movimentos na taxa básica. Essa observação baseia-se no fato de que a inflação, tanto quando se acelera quanto arrefece, apresenta movimentos anteriores aos movimentos equivalentes na Selic. Supondo, ainda assim, que os parâmetros dos analistas do mercado sobre a sinalização do Banco Central permanecesse constante, teríamos a expectativa de inflação mais baixa desde julho de 2007, última vez em que a taxa passou de 13,0% a.a, quando começou a convergir para a meta que foi alcançada em 2009. Entretanto observou-se que as expectativas de inflação se apresentam consistentemente acima do centro da meta, modificando-se de 7,0% há quatro semanas para 6,8% no último boletim Focus. E esse movimento se dá mesmo com uma sinalização de política monetária contracionista acontecendo desde Julho de 2013, quando a taxa estava em 7,3%. Ou seja, a sinalização do Banco Central não foi suficiente para conter a percepção do mercado, mesmo com a utilização da capacidade instalada em amplo declínio.
Nas condições apresentadas, parece óbvio que a explicação para a inflação não reside na utilização do produto acima de seu potencial ou das expectativas desreguladas sobre os índices de preços. Outro pressuposto (controverso) dos modelos é a estabilidade da inflação internacional. Por esse princípio, os diferenciais na taxa de câmbio podem moderar os preços internos. A operacionalização desse mecanismo se dá pelo fato de que os produtos podem sempre ser exportados, tendo seus preços cotados no mercado internacional, ou substituídos por importados, de maneira que os preços domésticos tenham que ceder à possibilidade de substituição por similares estrangeiros. Entretanto, caso esteja havendo uma desvalorização é possível que os movimentos nos preços nacionais estejam sofrendo influência dos preços internacionais. O gráfico 3 parece fornecer elementos para inferir sobre os movimentos do câmbio.
Gráfico 3 – Inverso dos preços do petróleo, Número índice da taxa de câmbio e média móvel da inflação (12 meses)
A primeira observação a ser feita reside no fato de que a média móvel do IPCA apresenta movimentos bem próximos do índice do câmbio. O índice do preço do petróleo representa a desvalorização dos preços de commoditties no mercado internacional, levando em conta o Dólar americano. Com a retirada dos estímulos econômicos nos Estados Unidos está havendo um movimento de apreciação do Dólar que é, absorvido pelo indicador de commoditties [10]. Caso seja adotadas a relação do câmbio como explicação para as variações nos preços, temos uma aceleração severa a partir de meados de 2008, que foi respondida por uma depreciação cambial em escala menor do Real. Tratou-se, portanto, de uma apreciação relativa da moeda brasileira. A partir de 2011 há uma apreciação do indicador de commoditties que passa a sofrer uma desvalorização acentuada a partir de agosto de 2013, quando um barril de petróleo estava cotado a US$ 116,27 para atingir seu menor patamar na série a US$ 37,08 em dezembro de 2015 [11]. O momento atual apresenta uma desvalorização do indicador de commoditties que pode ser considerado o principal fator para a atual aceleração da inflação. Caso esta seja a explicação para a inflação, temos uma situação em que será inútil o aumento das taxas de juros, pois não há diferencial de juros que permita a valorização da moeda brasileira em níveis que permitam trazer a inflação para a meta em um prazo razoável. Por outro lado, os modelos econômicos não podem inferir com precisão qual seria o nível de recessão econômica necessária para diminuir a utilização da capacidade instalada ao patamar que faça os índices de preços convergirem para a meta. Mais que isso, mesmo que os modelos pudessem prever com exatidão tais parâmetros, o desgaste econômico provocado pela valorização artificial do câmbio e pela recessão prolongada parecem um preço elevado demais a pagar para fazer convergir uma inflação que não parece estar sendo gestada no Brasil.
Referências:
[1] http://www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20160108.pdf
[2] https://jlcoreiro.wordpress.com/2016/01/18/a-marcha-da-insensatez-do-banco-central-do-brasil/
[3] https://jlcoreiro.wordpress.com/2016/01/06/histerese-no-comercio-exterior-e-a-taxa-de-cambio-de-equilibrio-industrial-licoes-para-o-caso-brasileiro/
[4] http://www.paulogala.com.br/?p=3619
[5] Usualmente se utiliza como indicador do produto potencial a utilização da taxa de emprego da mão de obra. Entretanto, adotando os princípios do modelo de oferta agregada, para uma dada função de produção, a quantidade do fato trabalho utilizado é aquele que maximiza o produto, de maneira que a utilização da força de trabalho ou da capacidade instalada são equivalentes. Caso fosse possível empregar diferentes níveis de trabalho com o mesmo estoque de capital (ou vice-versa), teríamos mais de um ponto de produto potencial para a mesma renda, o que tornaria toda a macroeconomia neoclássica um exercício de futilidade.
[6] https://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2015/06/ri201506b4p.pdf
[7] http://www6.sistemaindustria.org.br/gpc/externo/estatisticaAcessoSistemaExterno.faces
[8] ipeadata.gov.br
[9] Os próprios modelos econômicos apontam a defasagem entre um impulso de política monetária e sua resposta na economia.
[10] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/12/1719814-eua-aumentam-taxa-de-juros-pela-1-vez-desde-2006.shtml
[11] É importante observar que os preços do petróleo continuam em declínio, chegando a serem cotados abaixo de US$ 30,00 o barril.
http://www.jb.com.br/economia/noticias/2016/01/18/opep-anuncia-que-equilibrio-de-precos-do-petroleo-comeca-em-2016/
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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.


A decisão de investimento em qualquer setor da economia requer cuidadosos estudos de cenários econômicos para as condições de oferta e demanda no horizonte de tempo considerado, além de uma razoável dose de coragem.


