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EUA aceitarão a boia salva-vidas que Putin lhes oferece?

Por Robert Parry | Via Consortium News

Exclusivo: A obsessão dos neoconservadores com ‘mudança de regime’ na Síria está empurrando outro ‘grupo de pensamento’ da Washington oficial a ‘aconselhar’ que os EUA rejeitem a oferta russa para ajudar a estabilizar a Síria e pôr fim à terrível torrente de refugiados que buscam a salvação na Europa – escreve Robert Parry.

 

O presidente russo Vladimir Putin jogou, aos estrategistas políticos dos EUA o que equivale a uma boia salva-vidas, para ajudar a arrancá-los do poço de areia movediça que é a guerra síria. Mas os neoconservadores da Washington oficial e os veículos da grande mídia-empresa nos EUA puseram-se agora a latir contra “a audácia” de Putin, lançando dúvidas sobre os seus motivos.

Por exemplo, o principal editorial do The New York Times na 2ª feria acusava Putin de estar “aprofundando perigosamente a presença militar russa” na Síria, apesar de Putin já ter dito que seu objetivo é ajudar a enfrentar para derrotar os jihadistas sunitas no Estado Islâmico e em outros movimentos extremistas.

Por sua vez, o Times resmunga que Putin usará seu discurso na Assembleia Geral da ONU “para defender a formação de uma coalizão internacional contra o Estado Islâmico, aparentemente ignorando a coalizão que já existe para essa finalidade liderada pelos EUA.”

Na sequência, o Times retoma o bizarro argumento dos neoconservadores de que a melhor maneira de resolver a ameaça do Estado Islâmico, Al Qaeda e outras forças jihadistas seria derrubar o presidente sírio Bashar al-Assad e todo o seu exército – precisamente as duas forças político-militares que há quatro anos impedem uma vitória arrasadora dos grupos sunitas terroristas naquela região.

A delirante ‘receita’ do Times/neocons nunca muda: só falam de ‘mudança de regime’ em Damasco, mudança que, milagrosamente, afinal levaria à emergência daqueles míticos rebeldes “moderados” que ninguém jamais viu, mas que, ninguém sabe como, ‘dizimariam’ extremistas muito mais numerosos e muito mais bem armados. Essa ideia ignora o fato de que, depois de um projeto de treinamento para os tais ‘moderados’, que custou $500 milhões aos contribuintes norte-americanos, os militares dos EUA já disseram que há “quatro ou cinco” deles no campo de batalha dentro da Síria. Em outras palavras, todos os membros dessa brigada treinada pelos EUA ao custo de $500 milhões podem ser contados nos dedos de uma mão.

Mas, em vez de repensar o patético “grupo de pensamento” da Washington oficial para a Síria – ou de oferecer aos leitores melhor jornalismo sobre o conflito sírio – o Times põe-se imediatamente a culpar Putin por tudo.

“Que ninguém se engane sobre a culpa da Rússia na agonia da Síria” – escreve o Times. – “Mr. Putin poderia ter ajudado a impedir a luta que já matou mais de 250 mil sírios e fez número ainda maior de migrantes e deslocados, se tivesse trabalhado com outras grandes potências em 2011 para impedir Mr. Assad de fazer guerra contra o próprio povo, por causa de pacíficos protestos antigoverno. (…) Mr. Assad provavelmente já estaria fora do governo, não fosses as armas e ajudas de todo o tipo que recebe da Rússia e do Irã.” (…) [AB. A primeira afirmação correta do N.Y.Times!]

A narrativa simplória do Times corresponde perfeitamente ao que neoconservadores influentes repetem e no que desejam que o ocidente acredite, desde que os mesmos neoconservadores incluíram a Síria na sua famigerada lista de ‘mudança de regime’, ao lado de Iraque e Irã, desde que a lista foi construída, como parte da campanha eleitoral do israelense Benjamin Netanyahu em 1996. A narrativa do Times’ também deixa de fora o papel crucial de Turquia, Arábia Saudita, Qatar e outros “aliados” dos EUA no apoio à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico a ela ligado.

E o dinheiro que Bush torrou?

Para complicar ainda mais a narrativa “A culpa de tudo é de Putin” da Washington oficial, há o papel do presidente George W. Bush e dos militares norte-americanos que lançaram as bases desses brutais movimentos de extremistas sunitas quando invadiram o Iraque na década passada.

Afinal, foi exclusivamente como reação à presença militar dos EUA, que a “Al Qaeda no Iraque” lançou raízes no território iraquiano e, na sequência, chegou à Síria.

A derrubada e posterior execução do governante sunita Saddam Hussein alienaram os sunitas da região, sim; mas, além e mais grave que isso, o desespero de Bush para tentar evitar que acontecesse total derrota militar dos EUA no Iraque durante seu segundo mandato levaram-no a autorizar o pagamento de bilhões de dólares a combatentes sunitas, para conseguir que parassem de matar soldados norte-americanos, de modo que Bush tivesse tempo para negociar uma retirada da tropa dos EUA que permanecia no Iraque.

A partir de 2006, aqueles pagamentos feitos pelos EUA para subornar grupos armados sunitas foram crucialmente importantes para conseguir que parassem de resistir contra o que então se chamava “Despertar Sunita”. Dado que o programa de suborno precedeu a “avançada” de tropas que Bush ordenou em 2007, não há dúvidas de que a trégua comprada-e-paga tornou-se central no que a Washington oficial saudou, naquele momento, como “avançada bem-sucedida” ou “afinal vencemos”.

Além dos bilhões de dólares pagos em contêineres de dinheiro dos EUA para grupos de sunitas armados, a “avançada” de Bush custou a vida de outros mil soldados norte-americanos e matou número incontável de iraquianos, muitos dos quais se ocupavam exclusivamente de seus afazeres da vida diária, até serem explodidos e reduzidos a postas de carne pela poderosa munição dos EUA. [Ver, por exemplo, o vídeo "Collateral Murder" (Assassinato Colateral), exatamente o filme que a cabo Chelsea Manning revelou ao mundo, vazamento que lhe custa hoje pena de 35 anos de cadeia, que ela está cumprindo.]

Mas o que a comunidade de inteligência dos EUA só agora começa a avaliar é o dano colateral causado pelos subornos que o governo Bush pagou a insurgentes sunitas. Parte desse dinheiro parece ter sido usada como capital inicial para converter a “Al Qaeda no Iraque” em Estado Islâmico, enquanto os sunitas, que continuaram a ser segregados e perseguidos pelo governo de xiitas que os EUA impuseram no Iraque, expandiam seus ataques sectários na direção da Síria.

Além dos xiitas iraquianos,[1] o governo secular da Síria, com Assad e outros líderes chaves do ramo alawita do Islã xiita, também passou a ser atacado por extremistas sunitas locais e jihadistas estrangeiros, alguns dos quais se uniram ao Estado Islâmico, mas cuja maioria agregou-se à Frente Nusra da Al Qaeda e a outras fontes radicais. Embora o Estado Islâmico tenha surgido como “Al Qaeda no Iraque” (AQI), logo se converteu em força ainda mais sanguinária e, na Síria, emancipou-se da Al Qaeda central.

Isso foi o que Assad sempre disse (ou: Relatórios de inteligência)

A inteligência dos EUA acompanhou em tempo real muitos desses desenvolvimentos. Segundo um relatório da Agência de Inteligência da Defesa de agosto de 2012, “AQI apoiou a oposição síria desde o início, tanto ideologicamente como pela imprensa. (…) AQI declarou sua oposição ao governo de Assad, porque o considerava regime sectário que matava sunitas.”

Em outras palavras, o que Assad sempre disse, desde os primeiros ataques, sobre haver “terroristas” infiltrados na oposição, sempre teve fundamento na realidade.

Nas primeiras agitações, em 2011, houve casos de elementos armados que mataram policiais e soldados. Adiante, foram ataques terroristas à bomba contra altos funcionários do governo sírio, incluindo uma explosão, dia 18/7/2012 – que o governo sírio denunciou como atentado por suicida-bomba – que matou o ministro da Defesa da Síria, general Dawoud Rajiha, e Assef Shawkat, vice-ministro da Defesa e cunhado do presidente Assad.

Naquela época já era muito claro que Arábia Saudita, Qatar, Turquia e outros países governados por sunitas estavam mantendo, com dinheiro e outros recursos, grupos rebeldes jihadistas que lutavam para derrubar o governo Assad, que viam como protetor de cristãos, xiitas, alawitas e de outras minorias sempre ameaçadas de perseguição no caso de os extremistas sunitas prevalecerem.

Como se lia no Relatório da Inteligência da Defesa de 2012 sobre a Síria, “internamente, os eventos estão tomando rumo claramente sectário (…). Salafistas, a Fraternidade Muçulmana e a Al-Qaeda no Iraque são as maiores forças que comandam a insurgência na Síria. (…). O Ocidente, países do Golfo e Turquia apoiam a oposição; enquanto Rússia, China e Irã apoiam o governo da Síria.”

Os analistas da Inteligência da Defesa já compreendiam claramente os riscos que a AQI representava para a Síria e para o Iraque. O relatório conclui com um claro alerta para a expansão da AQI, que já se estava convertendo em Estado Islâmico, ou o que naquele relatório é chamado “ISI”. O brutal movimento armado via suas fileiras inchar sempre mais, com a chegada de jihadistas globais que se reuniam em torno da bandeira negra da militância armada sunita, intolerante contra os ocidentais, tanto quanto contra os “hereges” xiitas e de outras ramos não sunitas do Islã.

[AB. (ver nota 1) Dentro da tradicional lógica imperialista britânica, não seria destituído de sentido de favorecer a perseguição e/ou massacre, também de sunitas no Iraque, porque isso contribuiu para o acirramento dos ódios e para o aumento de mortes de árabes de todas as seitas e facções. Assim, o governo xiita do Iraque, que deixou de satisfazer os interesses imperialistas, fora estimulado a massacrar sunitas e poderia continuar fazendo isso. Essas perseguições a sunitas iraquianos os incitaria a escapar do país e, devidamente armados pelos angloamericanos, a ir praticar suas vinganças na Síria contra xiitas, estendendo-as a outras religiões ou grupos não-sunitas. Essa foi a mesma lógica das duas Guerras Mundiais: Alemanha vs. Frasnça na 1ª; Alemanha vs. União Soviética, na 2ª, em conflitos provocados para tentar eliminar esses Estados como potências. Sobrou como total, somente a Rússia.]

Com aquele movimento crescendo, havia risco de que a violência voltasse a respingar sobre o Iraque. O relatório da Inteligência da Defesa escreveu: “Assim se cria a atmosfera ideal para que a AQI retorne aos seus velhos bolsões em Mosul e Ramadi [no Iraque] e assegurará ao grupo renovado ímpeto, ante a expectativa de unificarem a jihad sunita de Iraque e Síria, e com o resto dos sunitas no mundo árabe contra o que consideram o principal inimigo, os dissidentes [aparentemente, é referência ao xiismo e a outros ramos não sunitas do Islã]. O ISI pode também declarar um Estado Islâmico, de sua união com outras organizações terroristas no Iraque e Síria, que criará grave risco para a unificação do Iraque e proteção de seu território.”

Diante dessa crescente ameaça do terrorismo de sunitas – que efetivamente respingou de volta sobre o Iraque –, a ideia de que a CIA ou militares dos EUA pudessem efetivamente armar e treinar uma força rebelde “moderada” para lutar contra os islamistas já era delirante; pois foi o que o ‘grupo de pensamento’ dentre outros ‘importantes’ da Washington oficial sugeriu: criar precisamente um exército “moderado” para depor o presidente Assad. Isso feito, tudo ficaria automaticamente perfeito.

Dia 2/10/2014, o vice-presidente Joe Biden deixou entrever mais um pedaço do rabo do gato escondido no saco, quando contou aos que assistiam a uma palestra na Kennedy School, de Harvard: “nossos aliados [AB. satélites!] na região eram nosso maior problema [AB. ???] na Síria (…) sauditas, os emirados, etc., o que estavam fazendo? Estavam super decididos a derrubar Assad e, na essência, queriam lá uma guerra à distância [por procuração] de xiitas contra sunitas, e o que fizeram? Eles fizeram jorrar centenas de milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armamento militar sobre qualquer um que se dispusesse a lutar contra Assad. Problema é que o pessoal que estava sendo abastecido eram Al Nusra e Al Qaeda e elementos do jihadismo extremista vindos de outras partes do mundo” [à altura dos 53'20" desse clip].

É dizer, em outras palavras, que vários dos membros que compõem a coalizão anti-Estado Islâmico comandada hoje pelos EUA realmente financiaram e armaram, antes, os mesmos jihadistas que a coalizão supostamente combate hoje. Se se levam em consideração os bilhões de dólares perdidos que o governo Bush entregou a combatentes sunitas desde 2006, chega-se facilmente à conclusão de que a coalizão hoje liderada pelos EUA tem responsabilidade vasta e direta pela geração do problema que, hoje, ela está supostamente combatendo.

Biden disse coisa bem semelhante também em referência aos estados do Golfo Persa: “Agora, repentinamente… Não quero parecer leviano, mas… eles viram a luz! De repente, a Arábia Saudita parou de dar dinheiro a eles. (…) A Arábia Saudita está permitindo o treinamento, em seu território [de combatentes para lutar contra o Estado Islâmico] (…), os qataris cortaram a linha de suprimento para as organizações terroristas mais extremistas. E os turcos tentam agora fechar as fronteiras.”

Mas evidentemente permanecem muitas dúvidas sobre o comprometimento desses governos sunitas no combate contra o Estado Islâmico; e há ainda mais dúvidas sobre se o comprometimento deles inclui combater contra a Frente Nusra da Al-Qaeda e outras forças jihadistas sunitas. Alguns neoconservadores chegaram até a propor e defender que os EUA apoiem Al Qaeda – que seria ‘mal menor’, comparada ao Estado Islâmico e ao regime Assad.

Putin é culpado de tudo

Pois é quando o editorial do Times na 2ª feira joga todas as culpas sobre as costas de Putin, por grande parte do que se vê hoje na Síria, porque a Rússia teria tido o atrevimento de apoiar o internacionalmente reconhecido governo sírio, contra hordas de terroristas apoiados pelo ocidente. Para o Times, não caberia nenhuma culpa nem aos EUA ou a seus aliados, pelo horror que se vê hoje na Síria.

O Times também ladrou insultos pessoais contra o presidente Putin. Esses insultos são parte da outra narrativa do jornal, igualmente viciosa, mas sobre a crise da Ucrânia. Para os editorialistas empregados do Times, o que acontece na Ucrânia é caso simples de “agressão russa” ou de uma “invasão russa”. O jornal absolutamente não vê o papel clandestino ativo da vice-secretária de estado neoconservadora Victoria Nuland, que orquestrou a derrubada violenta do presidente Viktor Yanukovych eleito na Ucrânia em fevereiro de 2014.

No editorial da 2ª feira, o Times ‘noticiou’ que o presidente Barack Obama “considera Mr. Putin um bandido” –, apesar de ter sido Obama quem se vangloriava, mês passado: “Ordenei ação militar em sete países” –, mais um fato inconveniente que o Times deixa discretamente apagado do mundo. Quer dizer: quem é o “bandido”?

Pois apesar de todos os desaforos e desatinos, e de rosnar ofensas contra o presidente Putin… o Times acaba por ‘aconselhar’, no final do editorial, que Obama teste, sim, a boia salva-vidas que Putin jogou para a política dos EUA na Síria, política a qual – já cansada de espernear e bater mãos, tentando manter-se à tona – está já sumindo rapidamente em areias movediças. O editorial conclui:

“O secretário de estado John Kerry, falando em Londres na 6ª feira, deixou bem claro que os EUA passam a buscar ‘terreno comum’ na Síria, o que deve significar manter Mr. Assad temporariamente no poder, durante uma transição. Os russos terão (sic) de aceitar que Mr. Assad terá de sair ao final de um prazo determinado, digamos, seis meses. O objetivo é um governo de transição, que inclui elementos do governo Assad. O Irã deve ser parte de qualquer acordo.

“Os EUA devem ter em mente que as motivações de Mr. Putin são com certeza turvas, e que ele talvez não tenha tanto interesse em unir-se à luta contra o Estado Islâmico quanto tem em promover seu antigo aliado. Mas com isso em mente, não há razão para não testá-lo.”

A aparente disposição de Kerry, para trabalhar com os russos – posição que minhas fontes garantem que é também a de Obama – é pelo menos indício de que ainda resta alguma sanidade no Departamento de Estado – o mesmo que, inicialmente montou uma tentativa absurda e fútil para organizar um bloqueio aéreo para impedir a Rússia de entregar ajuda à Síria, por ar.

Se a tal ‘operação’ – brotada da divisão europeia chefiada por Nuland – fosse bem-sucedida, haveria risco de o governo sírio cair, abrindo as portas de Damasco para o Estado Islâmico e/ou Al Qaeda.

Os neoconservadores vivem tão obcecados com alcançar seu velho objetivo de fazer “mudança de regime” na Síria, que já nem veem o risco de entregar a Síria aos degoladores no Estado Islâmico e aos planejadores de ataques terroristas da Al Qaeda. [AB. Quem diz que isso seria um risco, alguma coisa desinteressante, do ponto de vista dos imperialistas?. O objetivo deles não é derrubar Assad? No momento é o que lhes interessa. Depois, eles, usando os métodos de sempre, transformam o tal ISIS em mais um satélite na região.]

Contudo, depois das sempre presentes patadas e coices para todos os lados minimamente civilizados, parece que as cabeças mais frias no governo Obama talvez tenham prevalecido –, talvez, também, no New York Times.

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[1] O original diz “Besides the Iraqi Sunnis, Syria’s secular government, with Assad and other key leaders from the Alawite branch of Shiite Islam (…)”. Parece ser engano, que aqui corrigimos, até melhor análise. Todos os comentários e correções são bem-vindos [NTs]

Tradução: Vila Vudu

Venda da Gaspetro é duríssimo golpe na Petrobras

Por Luiz Lima da Silva | Via Em Defesa do Petrobras*

Com a notícia, publicada no “Valor Econômico” de ontem (22/09), de concretização da venda de 49% de uma holding que ainda será criada e que reunirá as participações da Gaspetro – subsidiária integral da Companhia – à Mitsui Oil & Gas, as ações do plano de “desinvestimentos” da Petrobrás traçado pela atual administração finalmente deixam o terreno da especulação e dos balões de ensaio (já se deu como certa a venda, entre outras, de ativos da Transpetro, de participação na BR etc.).

A venda de parte da Gaspetro é particularmente danosa. A subsidiária é uma empresa das mais rentáveis. No último balanço publicado disponível no sítio da empresa (2012), o lucro líquido informado foi de R$ 1,845 bilhão, a receita, de R$ 6,211 bilhões e o patrimônio líquido da subsidiária, de R$ 10,625 bilhões – o que confere uma rentabilidade sobre o patrimônio da ordem de 17%, compatível com a de BANCOS. Fatiar a empresa dessa forma reduz consideravelmente o seu valor de mercado – o que não faz sentido nem mesmo sob a ótica privatista com a qual “Vendine” e o governo que o colocou lá tocam a Companhia. Por outro lado, a venda de uma subsidiária rentável dá cabo duma receita recorrente e consistente em prol de uma redução pontual da dívida da controladora, que sequer sabemos de quanto será, uma vez que até agora o valor da venda não foi divulgado. Em outras palavras, sacrifica o futuro da empresa – e o patrimônio construído por décadas de luta do povo brasileiro – no altar do curto prazo.

Além disso, é certo que, com a privatização – não vamos reproduzir aqui a esparrela de que a empresa está “apenas” vendendo parte do seu capital – devem-se esperar as demissões de praxe, como parte dos inevitáveis programas de “redução de custos” e “reestruturação” que acompanham a entrada de novos sócios.

O “plano de desinvestimentos” da Companhia é, sem meias-palavras, um crime continuado. E os petroleiros certamente darão a resposta adequada a este descalabro.

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*- Em Defesa do Petrobras é uma fanpage do Facebook dedicada a divulgar material de combate aos ataques privatistas e caluniosos contra a maior estatal brasileira. Você pode acessá-la aqui.

Pepe Escobar: Paz na Síria? Culpa de Putin!

Por Pepe Escobar | Via O Empastelador

Para avaliar o calibre intelectual do governo Obama, basta saber que ainda estão ‘analisando’ se devem persistir “ignorando” como até agora o presidente Vladimir Putin da Rússia, ou se devem investir numa parceria real para resolver o drama humanitário/geopolítico na Síria. Afinal, quando em dúvida entre diplomacia ou caos, todo aquele arsenal de armas que se concentra na avenida Beltway sempre segue a direção indicada pelo pensamento simplório que une neoconservadores e neoliberais: ‘mudança de regime’.

Além do mais, há a histeria non-stop de “Os Russos Estão Chegando!” – Guerra Fria 2.0remix, que agora está-se mudando da ocupação/invasão da Ucrânia, para a ocupação/invasão da Síria. A Casa Branca – a qual, como o Pentágono não é de brincar em serviço – realmente suplicou ao Kremlin que haja “de modo mais construtivo” lado a lado com a espetacularmente ineficiente coalizão dos muito suspeitos oportunistas que, em tese, combatem contra ISIS/ISIL/Daesh.

O porta-voz da Casa Branca Josh Earnest esclareceu que quando Obama decide que a tarefa sisífica de pegar o telefone e clicar “K” de “Kremlin” sim, interessa aos interesses dos EUA, ele clicará. A shakespereana dúvida pode durar vários dias – mesmo depois de o presidente Putin ter divulgado, por Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, que continua aberto ao diálogo.

A Casa Branca está pelo menos considerando um oferecimento de Moscou, para que realmente discutam a movimentação dos russos na Síria, mediante conversações diretas militares-com-militares. O Pentágono falará, tentando encontrar a tal “clareza” que tanto insiste em não aparecer aos olhos do governo Obama.

O duplo jogo de Ancara

A diplomacia, entrementes, está ativíssima. O ministro de Relações Exteriores da Turquia Feridun Sinirlioglu foi a Sochi para conversações sobre Síria – e Ucrânia – com os russos. A posição de Ancara permanece fossilizada: qualquer apoio a Bashar al-Assad significa mais civis mortos.

Também discutiram Oleogasodutostão – capítulo “Ramo Turco”. Diferente do que ‘noticia’ a mídia-empresa apocalíptica nos EUA, o oleogasoduto não foi descartado por Ancara. O problema é que Ancara não consegue, sequer, formar governo coerente desde as eleições de junho.

O comandante do Corpo dos Guardas Revolucionários do Irã [Iranian Revolutionary Guard Corps (IRGC) e superstar Comandante Qasem Soleimani também foi a Moscou essa semana, para promover a cooperação Damasco-Moscou. Calma, espere… Não, não foi. Porque Moscou simplesmente não autorizou a visita. Soleimani esteve na Rússia há três meses. A próxima reunião importante para discutir Síria acontecerá na 2a-feira, entre o vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir Abdollahian, e seu contraparte russo Mikhail Bogdanov.

Aqui é necessária uma rápida recapitulação. O capítulo sírio da “Primavera Árabe” foi patrocinado/financiado/armado quase totalmente por Ancara – que inverteu completamente sua doutrina geopolítica de antes de “zero problemas com nossos vizinhos” – ajudada por Doha; o envolvimento substancial da Casa de Saud e o apoio integralmente liderado pela retaguarda vindos da Casa Branca de Obama.

Passados quatro anos e meio e uma tragédia incomensurável, a verdadeira face dessa operação de mudança “Assad tem de sair” de regime… é a crise dos refugiados. Mais de 2 milhões, dos 4 milhões de sírios fugiram para a Turquia. Até que recentemente Ancara os libertou em massa dos campos de contenção onde haviam sido detidos, no caminho para os Bálcãs e a Prometida Terra Teutônica.

Implica dizer que Ancara está exatamente no centro da maior crise de refugiados que a Europa conhece em 70 anos. E o mesmo se pode dizer de Washington-que-apoia-Ancara.ISIS/ISIL/Daesh capturaram todas as armas que a CIA entregou por lá. Na operação foram ajudados por aquele patético “Exército Sírio Livre” – e por tanques e Humveessaídos do desmontado Exército Iraquiano treinado pelos EUA. Qualquer possível solução para aliviar a crise dos refugiados ao mesmo tempo em que se dê combate aoISIS/ISIL/Daesh deve incluir interromper as mil-e-uma formas diretas e indiretas pelas quais Ancara continua a garantir “apoio” ao falso “Califato”.

O problema é que Ancara é parte da supremamente ineficiente coalizão dos EUA. Afinal, alguns adultos em Washington conseguiram ver paradoxo que brilhava aos olhos de todos. Mesmo assim, o governo Obama continua amarrado por uma Ancara dominatrixque brinca de rabo que balança o cachorro. A equipe de Obama ainda acredita que Assad (“tem de sair”) é responsável, não só pela criação do falso “Califato” – absurdo completo sempre levianamente repetido por David das Arábias Cameron e pelo general Hollande –, mas que também é responsável pelo abissal fracasso da coalizão dos EUA que não consegue dar cabo do falso “Califato”.

É Ancara quem realmente comanda o que passa por ‘zona aérea de exclusão’ sobre a fronteira turco-síria, e Ancara quer combater os curdos sírios, ou curdos do PKK, não os bandidos de al-Baghdadi.

Droga! Onde foi parar minha inteligência em campo?

Enquanto isso, a máquina do Pentágono, se estivesse focada na “missão”, bem poderia Chocar & Apavorar os bandidos do “Califato” numa orgia-alimentar-de-fim-de-semana. Mesmo considerando o muito que eles não aprenderam no Iraque, é pouco provável que o Pentágono tenha em campo qualquer inteligência minimamente aproveitável.

Trata-se de uma faixa de deserto de mais de 400 km de comprimento, que acompanha a fronteira Sykes-Picot-em-processo-de-desmanche entre Síria e Iraque – de al-Baaj no norte do Iraque e até Rutba próxima à fronteira jordaniana. Há quem chame a coisa deTora Bora iraquiana; sim, parece mesmo o Afeganistão, só que com mais deserto.

ISIS/ISIL/Daesh controlam as províncias de Nínive, Dijla, Ifrit e Al-Jazeera no Iraque, Abu Kamal e Deir ez-Zor na Síria, e a maior parte de Furhat no Iraque, à volta de al-Baaj; é onde está instalado o centro de comando e controle do ISIS/ISIL/Daesh. Se algum analista do Pentágono se desse o trabalho de falar com o analista iraquiano Hisham al-Hashemi, ficaria sabendo que o próprio al-Baghdadi vive escondido em al-Baaj, com suas duas esposas. Mas quem está realmente no comando no momento é o emir para a Síria e Iraque, Abu Alaa al-Afari.

Os EUA jamais conseguiram controlar essas terras desoladas – para nem falar de, anteriormente, Saddam Hussein. As tribos locais são extremamente de linha duríssima e mestres nas artes do contrabando. Os bandidos do “Califato” casaram-se com mulheres das tribos e estão totalmente integrados. Xiitas são tratados como hereges malignos, piores, até, que cristãos. Adivinhem quem ensina doutrina nas tribos? Imãs da Arábia Saudita.

A Coalizão poderia facilmente bombardear até converter em poeira cinco batalhões especiais do ISIS/ISIL/Daesh – cada um com até 500 jihadis divididos por nacionalidade e especialização, e todos concentrados localmente; cidadãos do Maghreb e dos países do CCG garantem proteção aos comandantes, por exemplo, enquanto asiáticos e leste-europeus recolhem butins e impostos e vão providenciando o transporte das armas. A brigada chave é uma que “libertou” Mosul; 80% deles são iraquianos, e agora estão combatendo em Hassake, na Síria.

Pode haver cerca de 130 mil soldados do “Califato” em ação, incluídos os cerca de 15 mil estrangeiros. Mas as hidras de muitas cabeças estão em al-Baaj. Reduza o local a pó, e teremos Perseu Obama derrotando a medusa jihadi.

Mas em vez disso, o que há é o espetáculo pífio de quatro – repito: 4 – “rebeldes moderados” treinados pelos EUA deixados para combater o ISIS/ISIL/Daesh na Síria, como admitiu o general Lloyd Austin em audiência da Comissão de Serviços Armados do Senado dos EUA, 4a-feira passada. Todos se lembram daqueles “rebeldes” extraídos de robusto grupo de 54, que foram atacados pela Frente al-Nusra em julho. Quer dizer: a al-Qaeda na Síria – exibida como “moderados” pelos neoconservadores e pela imprensa-empresa norte-americana – reduziu aquela quimera dos “rebeldes moderados” de Obama (15 mil! Treinados e bem equipados!)  a… bem… a uma quimera de quatro (4).

E agora, com vocêêêêês, Putin!

O governo Obama – devidamente seguido pelos lacaios europeus – simplesmente se recusa a ouvir. Já em 2014 o ex-representante da Síria para a ONU-Liga Árabe, Lakhdar Brahimidizia que a análise que os russos estavam fazendo de todo o quebra-cabeças sírio sempre estivera certa, desde o primeiro momento.

Agora, aí está um Prêmio Nobel da Paz e ex-negociador Martti Ahtisaari, a dizer que já desde o início de 2012 havia sobre a mesa uma proposta dos russos, que incluía a saída de Assad, depois de negociações de paz com interlocutores oposicionistas confiáveis não jihadistas.

O que Moscou fez agora foi subir o jogo diplomático – tentando cobrir o vácuo entre Damasco e alguma oposição aproveitável (que absolutamente não é uma multidão de pessoas), ao mesmo tempo em que constrói uma verdadeira coalizão para dar combate ao ISIS/ISIL/Daesh. No que tenha a ver com Moscou, trata-se de grave ameaça à segurança nacional, com jihadistas enxameando rumo ao “Siriaque”, do rio Volga ao norte do Cáucaso.

E aí se encontra uma distinção importante: os interesses nacionais da Rússia não convergem necessariamente para a mesma direção que os interesses da segurança nacional do Irã (por exemplo, quando a Síria oferece uma ponte ao Hezbollah e uma projeção mediterrânea para o Irã).

Mesmo assim, Moscou é o único jogo diplomático na cidade, porque o Plano A de Washington continua a ser ‘mudança de regime’, e não há mapa do caminho “ocidental” coerente que garanta, ao mesmo tempo, esmagar o ISIS/ISIL/Daesh, ao mesmo tempo em que impede o desmembramento catastrófico do estado sírio.

A posição de Assad, em detalhes, está em RT, 16/9/2015. A posição de Putin, em detalhes, está em Russia Insider, 16/9/2015. Cabe a cada observador bem informado e não enviesado extrair as consequências inescapáveis. Enquanto isso, a enormidade da crise dos refugiados está aberta a quem queira vê-la, praticamente ao lado do quartel-general da União Europeia; nenhum euroburocrata viciado-dependente-terminal de ‘reuniões de cúpula’ sequer se aproximou dos que buscam asilo para falar com eles, que fosse.

Ao mesmo tempo em que escala no front diplomático, é claro que Moscou não perde de vista os fatos em campo – como se constata pela infraestrutura expandida da base aérea de Latakia onde estão alocados conselheiros especialistas russos. A histeria-piração organizada da think-tankelândia norte-americana, a ‘denunciar’ que a escalada diplomática “complica enormemente” a campanha da coalizão liderada pelos EUA perde até para brincadeira-truquezinho de jardim de infância.

Não haverá “confronto direto” entre os F-16s da Coalizão e os jatos russos – e o Pentágono sabe disso. O que o Pentágono não pode admitir é que a escalada diplomática russa necessariamente impede ideiazinhas como a de a Coalizão se enganar na mira e bombardear forças de Assad, em vez de forças do ISIS/ISIL/Daesh. E por falar nisso, o poder de Ancara sobre Washington continua a decair – desde que os EUA não se interessaram por ser parte da muito propagandeada zona aérea de exclusão a ser estabelecida no norte, sobre Aleppo.

Todos os membros da coalizão Turquia & CCG foram indiretamente alertados: esqueçam a ideia de usar armas letais fornecidas por Turquia, CCG e EUA, para atacar conselheiros e instrutores russos que se opõem aos “rebeldes moderados”. “Complica enormemente” os “esforços” da coalizão, no duplifalar da Think-tankelândia norte-americana, significa que ninguém conseguirá bombardear impunemente as forças de Assad. Ô droga! Como fica difícil entregar uma mudança de regime, ante tantos obstáculos!

De volta a pré-Bismarck?

A UE, enquanto isso, paga o preço pela obsessão da mudança de regime, convulsionada e estraçalhada por incontáveis divisões provocadas pela crise dos refugiados somada ao espectro do eterno medo de ter a jihad ao pé da porta nas suas ruas – e trens – que é a única coisa que ‘une’ as maiores capitais da Europa. Mas então, porque a UE talvez deseje desesperadamente uma solução para o quebra-cabeças sírio, aí temos David das Arábias Cameron e o general Hollande a preparar-se para lançar ataques aéreos que muito improvavelmente farão os bandidos do “Califato” estremecer nas suas botas de griffe, de deserto.

Não surpreende que a opinião paneuropeia está cada vez mais se convencendo de que quem está perpetuando a tragédia síria é o governo Obama – porque não desiste das miragens-obsessões de troca de regime e só fala de um inexistente “Exército Sírio Livre”, de inexistentes “rebeldes moderados” (‘moderados’ feito a al-Qaeda nan Síria), pra nem falar da demonizaão de qualquer ajuda que Rússia e Irã ofereçam a Damasco.

Putin não poderia ter sido mais translucidamente claro – e os adultos que haja por lá, de Washington a Bruxelas, captaram a mensagem: “Sem participação ativa das autoridades e dos militares sírios será impossível expulsar os terroristas daquele território, do país e de toda a região (…) Sem o apoio russo à Síria, a situação no país seria já pior que a da Líbia – e a onda de refugiados, muito maior.”

Quer dizer… Se há alguma chance de alguma paz na Síria, é por culpa de Putin.

Mas há outro possível cenário, que está sendo ativamente discutido para o futuro próximo. Seria uma “avançada” diplomática para criar múltiplos microestados em todo o Oriente Médio – como um contragolpe à carnificina em curso. Ter-se-ia, dentre outros, o Allawitastão, o Curdistão, o Druzistão, o Yazidistão, o Houthistão – todos com fronteiras que já razoavelmente claras na terra.

Pode-se dizer que seria um remix, para o século 21, dos principados europeus da Europa pré-Bismarck. Precedente, é o que a UE criou nos Bálcãs: dividiu a Iugoslávia pelas linhas religiosas, mesmo que a ampla maioria da população seja uniformemente eslava.

Esse remix do Oriente Médio só funcionaria se Turquia e Irã aceitassem que se crie um Curdistão. Nunca aceitarão.

Quanto a iraquianos e sírios, também desenvolveram forte identidade nacional: 70% dos sírios, conforme pesquisa recente, opõem-se à divisão do país (e 82% veemISIS/ISIL/Daesh como criação dos EUA e/ou invenção estrangeira) Mas a Síria poderia mesmo assim ser dividida em três, dependendo de até onde leve o jogo de poder entre EUA e Rússia. Mas pelo que se tem hoje, a luta por uma Síria unida, pacífica e secular é o único jogo realpolitiko na cidade.

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Tradução do original em inglês do Asia Times Online disponível em:

http://atimes.com/2015/09/peace-in-Síria-its-putins-fault-escobar/

Petróleo é pilar da soberania e desenvolvimento

Por Rogério Lessa | Via AEPET

O petróleo tem papel fundamental na estratégia das superpotências interessadas em segurança energética e acesso às reservas fora de seus territórios, bem como pode ser uma garantia para projetos de desenvolvimento em países produtores e exportadores. Neste caso, a Petrobrás e as reservas descobertas pela empresa podem abrir muitas perspectivas para o Brasil, mas também abrigam desafios para um projeto soberano de desenvolvimento.

Segundo o professor Maurício Metri, economista da UFRJ, além da segurança energética há outras três razões estratégicas pelas quais o uso deste recurso natural ainda permanecerá importante por bastante tempo: influência decisiva na hierarquia monetária internacional, alívio para o estrangulamento externo do balanço de pagamentos (no caso dos exportadores) e instrumento de política externa.

“O petróleo tem papel central nas estratégias das superpotências e o objetivo primordial é mitigar suas vulnerabilidades de abastecimento, algo decisivo na Segunda Guerra. Tanto que Hitler rompeu o tratado de não agressão que tinha assinado com Stalin e atacou a União Soviética”, disse Metri em sua palestra no seminário “Uma estratégia para o Brasil, um plano para a Petrobrás – Aspectos estratégicos e geopolíticos que influenciam o planejamento estratégico e de negócios da Petrobrás”, em andamento no Clube de Engenharia, no Rio.

O professor da UFRJ destacou o papel decisivo do petróleo na manutenção do dólar como moeda de referência para trocas internacionais, com óbvias consequências na política externa das superpotências, que inclui a inserção de suas petroleiras neste cenário, tanto pela via diplomática quanto pelo caminho da guerra. “Como estamos submetidos a um sistema competitivo, a expansão de uns pode significar o estrangulamento de outros. Precisando garantir abastecimento, muitos dos aliados dos EUA saíram da Segunda Guerra endividados em dólar”, comentou.

Numa fase seguinte, aproveitando as tensões entre China e União Soviética, os Estados Unidos abririam seu mercado interno para os chineses e se aproximariam da Arábia Saudita. “A China se tornou o novo grande parceiro estratégico nesta diplomacia triangular desenvolvida pelos EUA. Em 1973, antes do choque do petróleo, Kinsinger (Henry Kissinger, secretário de Estado de Richard Nixon) e bancos ingleses e americanos se uniram para exigir que a Arábia Saudita permanecesse comercializando seu petróleo em dólar. Assim, garantiram a cotação do petróleo em dólar e os depótitos dos recursos financeiros continuassem sendo feitos em sistemas que operassem em dólar”, lembrou.

Em seu processo de industrialização, vivido entre os anos 1930 e 1980, o Brasil saiu-se bem, segundo o palestrante, ao enfrentar o problema da dependência de dólares ao usar as exportações de café como meio driblar o estrangulamento externo, enquanto a União Soviética usou o petróleo para o mesmo fim. No entanto, “a pressão competitiva, a elevação das taxas de juros e a derrubada dos preços do petróleo deram à vitória aos EUA na Guerra Fria sem necessidade de confronto armado com os russos, já que geraram incapacidade de importação na URSS”, disse Metri.

O seminário “Uma estratégia para o Brasil, um plano para a Petrobrás – Aspectos estratégicos e geopolíticos que influenciam o planejamento estratégico e de negócios da Petrobrás”, é uma realização da Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET), em parceria com a UFRJ e o Clube de Engenharia. O evento, que conta com o apoio da Carta Capital, prossegue nesta quarta-feira (23), com palestra do economista e pesquisador da UFRJ, Raphael Padula.

Venezuela e Colômbia chegam a acordo para resolver crise na fronteira

Por Monica Yanakiew | Via Agência Brasil

Os presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Colômbia, Juan Manuel Santos, se reuniram hoje (21) pela primeira vez desde o início da crise na fronteira entre os dois países. A crise já dura um mês e fez com que cerca de 20 mil colombianos, que viviam em território venezuelano, deixassem o país.

Os presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Colômbia, Juan Manuel Santos, se reuniram hoje (21) pela primeira vez desde o início da crise na fronteira entre os dois países. A crise já dura um mês e fez com que cerca de 20 mil colombianos que viviam Divulgação/Unasul

No final do encontro, na capital do Equador, Quito, os dois governos anunciaram a decisão de normalizar imediatamente as relações diplomáticas; de investigar denúncias de ambas partes e de fazer uma reunião ministerial na capital venezuelana, Caracas, na próxima quarta-feira (23), para encontrar formas de combater o contrabando e narcotráfico na região.

Tanto Maduro quanto Santos manifestaram a intenção de se reunir, o que foi possível com a ajuda e a participação dos presidentes do Equador, Rafael Correa, e do Uruguai, Tabaré Vázquez. O Equador exerce a presidência pró-tempore da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e o Uruguai o da União de Nações Sul-americanas (Unasul), daí a iniciativa de Correa e Tabaré Vázquez para que os dois presidentes se encontrassem.

Os quatro presidentes ficaram satisfeitos com o que consideram ser um diálogo “construtivo”. Ficou acertado que os embaixadores da Colômbia, em Caracas, e da Venezuela, em Bogotá, deverão voltar a seus postos, normalizando as relações diplomáticas.

A crise foi desencadeada no dia 19 de agosto depois de uma emboscada a três militares venezuelanos, que patrulhavam a fronteira, para impedir o contrabando de alimentos e combustível. Além dos militares, um civil venezuelano foi ferido por homens armados que fugiram de moto.

Maduro atribuiu o ataque a “paramilitares” colombianos que, segundo ele, protegem o milionário negócio do contrabando, e mandou fechar parte da fronteira. Cerca de mil colombianos, vivendo ilegalmente na Venezuela, foram deportados.

Desde então, a tensão só aumentou, apesar dos chanceleres dos dois países terem se reunido duas vezes. Colômbia chamou seu embaixador em Caracas “para consultas” e Venezuela fez o mesmo com o seu representante em Bogotá.

Em um mês, Maduro estendeu o “estado de exceção” a 23 municípios fronteiriços e cerca de 20 mil colombianos deixaram a Venezuela, temendo ser expulsos. O Ministério da Defesa colombiano acusou aviões venezuelanos de violarem seu espaço aéreo, o que foi negado pela Venezuela.

Cunha insiste e fim da Lei da Partilha volta à pauta na Câmara

Por Osvaldo Maneschy | Via PDT

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), colocou como primeiro ítem da Ordem do Dia desta terça-feira (22/9) a votação do requerimento n° 1.229 do Deputado Mendonça Filho (DEM-PE) que pede urgência para seu projeto (PL 6726/2013) que acaba com a Lei da Partilha que garante para a Petrobras 30% do petróleo a ser extraído da camada pré-sal e, também, a posição de operadora única dos consórcios de exploração das megajazidas de óleo do pré-sal estimadas em mais de 200 bilhões de barris avaliados na casa dos trilhões de dólares.

Se for aprovado o pedido de urgência, o PL 6.726 de Mendonça Filho vai a plenário sem passar por nenhuma das comissões temáticas da Câmara e, se aprovado por maioria simples, que Cunha comanda, cai a Lei da Partilha sancionada por Lula em 2010 após dois anos dela ser discutida dentro do governo, com importante participação da então ministra Dilma Rousseff; e mais ano e meio de debates no Congresso Nacional. A lei foi discutida e criada para defender o interesse nacional já que não há risco exploratório no pré-sal, basta perfurar para extrair petróleo, e o custo de extração é baixíssimo – cerca de 9 dólares o barril.

Preocupado com a pauta, o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, se reuniu ontem à noite em Brasília com os líderes da base aliada do governo para manifestar sua posição contrária ao projeto de Mendonça Filho.

“O momento talvez não seja oportuno para discutir o modelo de exploração de petróleo”, disse Bendine aos jornalistas ao final do encontro que contou com a presença, entre outros, dos deputados Sibá Machado (PT-AC), Jandira Feghali (PC do B) e José Guimarães (PT-CE), que integram a base aliada do Governo na Câmara dos Deputados (foto).

Embora ressaltando que “não cabe à Petrobras legislar”, Bendine fez apelo aos líderes governistas para que não aprovem a urgência para o projeto de lei do deputado Mendonça Filho (DEM-PE),  primeiro item da pauta de votações da Câmara desta terça-feira (22/9).

Bendine argumentou:

“Há  três modelos hoje em vigor no país. Você tem modelo de concessão, tem modelo de partilha, tem de cessão onerosa. Acho que esse debate é rico. Faz parte da discussão do Congresso debater e entender o que achar melhor para o país. Só que acho que o momento não é oportuno, dado o cenário em relação ao mundo do Petróleo”, insistiu.

Bendine disse a Folhapress que o encontro com deputados foi para pedir a eles” um esforço” para que não permitam que se acelere a votação do projeto que acaba com a partilha.

“Vim trazer um pouco da visão do que a empresa tem passado, os desafios que a gente tem enfrentado. O mercado de petróleo não é muito favorável dadas as condições macroeconômicas no mundo. Não queremos fazer esse debate num momento como esse que a empresa vem vivenciando e a própria indústria – em relação ao petróleo”, explicou.

E acrescentou ;

“Faz parte da atribuição do Congresso procurar entender, ver qual o modelo é melhor para o país. A Petrobras sempre vai cumprir aquilo que lhe for determinado, não cabe a ela fazer legislação sobre o tema, mas acho que o momento talvez não seja oportuno para abrir esse tipo de discussão dado esse cenário que estamos vivenciando hoje em relação ao mundo do petróleo”, finalizou o presidente da estatal.

Segundo José Guimarães, a questão será levada hoje à reunião de líderes que ocorre nas terças  e que serve para discutir as prioridades da pauta da semana. Na terça-feira da semana passada o projeto de Mendonça também já esteve como primeiro ítem da Ordem do Dia, mas não foi discutido porque a matéria foi sobrestada por uma medida provisória. Voltou esta semana para primeiro ítem da pauta por iniciativa de Eduardo Cunha –aliado de Mendonça Filho – tem esta prerrogativa como presidente da casa.

O projeto de Mendonça Filho é um dos seis que estão em tramitação no Congresso Nacional no momento, visando atender as petrolíferas estrangeiras que atuam no país e nunca engoliram a Lei da Partilha que contraria os seus interesses.

Elas querem que vigore no pré-sal as mesmas regras, frouxas, que vigoram no  pós-sal e permitam que elas se tornem donas do petróleo brasileiro que extraem, graças a lei entreguista sancionada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso quando quebrou o monopólio da Petrobras, em 1997, e acabou com o monopólio estatal criado por Getúlio Vargas no dia 3 de outubro de 1953, junto com a Petrobras.

FHC  chegou a trocar o nome da empresa para Petrobrax e pretendia privatizá-la, mas teve que voltar atrás devido a firme reação dos petroleiros que sustentaram uma greve geral que durou mais  de 30 dias, desabasteceu o país e desgastou, muito, o  governo de FHC.

Na justificativa para sua proposta, Mendonça afirma que o modelo de partilha teve “claro viés estatizante” e que a eficácia das concessões “já foi comprovada”.

“Propomos o retorno ao modelo anterior, que garante maior competição e, consequentemente, maiores possibilidades de ganhos para o Tesouro”, afirmou o deputado repetindo  argumentos do lobista Adriano Pires, do Instituto Brasileiro de Petróleo;  e das petrolíferas estrangeiras que atuam no Brasil.

Elas já produzem e exportam diariamente dezenas de milhares de barris de petróleo deixando no país, em dinheiro, apenas  10% do valor desse petróleo a titulo de royalties;  e mais 23%, a título de impostos.  Elas se apoderam, em óleo, de 67% do petróleo que extraem.

No regime de concessão, a propriedade do petróleo extraído é exclusiva do concessionário por certo período de tempo em troca de compensação financeira. Já no modelo de partilha, previsto para a exploração dos campos do pré-sal, cabe ao contratante extrair o petróleo, assumindo todos os custos e vence a licitação para explorar o campo do pré-sal o contratante que conferir uma maior participação em favor do Estado no volume de petróleo produzido.

A concessionária arca com todos os custos e riscos da exploração e divide a produção com a União, que lucra em barris de petróleo, não em dinheiro. Esse regime foi criado especialmente para a exploração do pré-sal após anos de estudo no governo, discussão no Congresso e sanção da lei, pelo então presidente Lula.

A retomada do regime de concessão é defendida pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, daí o seu empenho a favor do projeto de Mendonça Filho – atendendo aos interesses das petrolíferas estrangeiras que atuam no Brasil. Atualmente há no Congresso Nacional , por iniciativa de diferentes parlamentares, inclusive o senador José Serra (PLS-131), seis projetos de lei determinando o fim da Lei da Partilha.

Golpe isolaria o Brasil

Por Marcelo Zero

A destituição de governante legitimamente eleito sem sólidos e claros fundamentos jurídicos chama-se golpe. Ainda mais quando a governante é Dilma Rousseff, cidadã bem mais honesta que muitos de seus algozes políticos. Contra ela, todos sabem, não há nada, absolutamente nada.

Tanto faz se for pela via tradicional das armas ou pela via “moderna” das impugnações brancas, golpe é golpe. Não adianta querer disfarçá-lo sob oportunistas e falaciosos vernizes jurídicos e políticos. Não adianta usar dos “dois pesos e duas medidas” e da “justiça caolha” para tentar criminalizar práticas seculares e apenas um partido. Não adianta justificar o injustificável alegando que tal decisão é política, pois julgamentos puramente políticos só ocorrem em ditaduras.

Do ponto de vista da agressão inominável ao mandato popular, tanto faz a quartelada ou o “golpe paraguaio”. Quebra-se a ordem democrática. Comete-se violência contra a única fonte legítima de poder numa democracia: o voto do eleitor.

Enganam-se aqueles que acham que uma ação desse tipo, ainda que com um verniz jurídico, seria bem absorvida pelo país.

Não seria. Na realidade, uma manobra desse tipo deixaria uma profunda cicatriz aberta em nossa democracia. Passaríamos a viver numa situação de instabilidade permanente, agravada por profunda desconfiança em nossas instituições, as quais passariam a ser vistas, com razão, como meros instrumentos a serviço das forças políticas derrotadas nas últimas eleições. A mediatização republicana dos conflitos políticos, base da convivência democrática, se tornaria impossível e a violência acabaria por substituir a negociação.

Enfim, o “golpe paraguaio” nos levaria, com o tempo, a uma situação parecida com a da Venezuela de hoje.

Observe-se que as nossas dificuldades econômicas, consequências óbvias da grande crise mundial, demandam, para sua superação, capacidade de articulação e negociação, especialmente com os setores sociais organizados, como o dos trabalhadores, por exemplo. A volta da direita derrotada ao poder, pela via paraguaia e com um receituário ortodoxo e draconiano de ajuste, encontraria, muito em breve, maciça resistência popular, que neutralizaria quaisquer medidas e inviabilizaria a frágil e complexa governabilidade da crise.

Melhor seria apostar em negociações amplas e na construção de consensos mínimos, tática política que demonstrou ser muito exitosa em todo o mundo, na condução de ajustes e de políticas econômicas em tempos de dificuldades. Erros na condução da política econômica podem ser corrigidos, crimes contra a democracia não podem.

Entretanto, as consequências nefastas não ficariam restritas somente à ordem interna. O Brasil muito provavelmente também sofreria com desdobramentos profundamente negativos, no plano internacional.

Além da vergonha de retroceder à condição de uma “republiqueta de bananas” perante a opinião pública mundial, o país quase que certamente arcaria com o peso de um isolamento diplomático, no plano regional e internacional.

Deve-se recordar que o Paraguai, após promover “golpe de Estado parlamentar” contra o presidente Lugo, em 2012, foi suspenso, por unanimidade, tanto do Mercosul quanto da Unasul. No caso do golpe contra Zelaya, em Honduras, no ano de 2009, esse país foi suspenso da OEA, também pela unanimidade dos países votantes.

Em ambos os casos, os golpes tinham a forma de destituições conduzidas dentro da ordem constitucional e legal daqueles países. Contudo, esse verniz constitucional e jurídico não convenceu ninguém. Prevaleceu o entendimento que ocorrera agressão contra o mandato popular e o governante legítimo.

Não há porque pensar que, no caso do Brasil, o entendimento seria diferente. Até mesmo o New York Times, jornal conservador, afirmou, em editorial recente, que não há motivo para a deposição da presidenta. Mesmo que não houvesse condenação formal ao possível golpe, o mal-estar diplomático seria duradouro.

Convenhamos: uma tentativa de deposição da presidenta inequivocamente honesta, conduzida pelo atual presidente da Câmara dos Deputados, réu em diversos processos criminais, seria motivo de chacota em todo o mundo. Piada pronta a percorrer o planeta. Aliás, a piada feita a esse respeito pelo grande humorista Gregório Duvivier, já se alastra como pólvora digital. Um chiste francamente escatológico, como é apropriado ao tema.

Os que apostam no golpe perderam a capacidade de raciocinar estrategicamente sobre o Brasil. Não pensam nas terríveis consequências internas e externas de sua proposta tresloucada. Pensam apenas em seus interesses menores e no curto prazo.

Na realidade, nem pensam mais. Agem com base na bílis, no ódio e no desejo de vingança. Entusiasmados com o quanto pior melhor, que não cessam de cevar, acreditam que podem ter êxito.

Não terão, pois seu êxito seria o fracasso do Brasil e da sua democracia.

Com o tempo, seriam eles a ficar isolados. Sós com a sua vergonha histórica.