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Como a Rússia está detonando o jogo turco na Síria

Por Pepe Escobar | Via Oriente Mídia
Oil transportation routes into Turkey from Syria and Iraq. © Ministry of defence of the Russian Federation

Mas… por que Washington levou virtualmente uma eternidade para realmente reconhecer que ISIS/ISIL/Daesh vende petróleo roubado da Síria, o qual acaba sempre chegando, no mínimo, até a Turquia?Porque a prioridade sempre foi deixar que a CIA comande – nas sombras – uma “linha de rato” – pela qual continue a fornecer armas a uma legião de “rebeldes moderados”.Assim como o Daesh – pelo menos até agora –

a gangue Barzani no Curdistão Iraquiano nunca agia no turno em que Washington fazia a ‘segurança’. A operação que o Governo Regional do Curdistão comanda na Turquia é virtualmente ilegal; de roubo do petróleo que pertence ao estado, no que tenha a ver com Bagdá.O petróleo que o ‘Estado Islâmico’ rouba não pode passar por território controlado por Damasco. Não pode passar pelo Iraque dominado pelos xiitas. Não pode andar para o leste até o Irã. É a Turquia ou nada. A Turquia é o braço mais oriental da OTAN. EUA e OTAN ‘apoiam‘ a Turquia. E assim se demonstra que EUA e OTAN, no fim das contas, apoiam o ISIS/ISIL/Daesh/Estado Islâmico.

 

O que é certo é que o petróleo ilegal roubado pelo Daesh ou o petróleo ilegal do KRGseguem o mesmo padrão: interesses de energia, com os suspeitos de sempre jogando jogo de longa duração.

Todos esses interesses estão focados em o que fazer para controlar toda e qualquer gota de petróleo que haja no Curdistão Iraquiano e, depois, na Síria “libertada“. É crucialmente decisivo saber que Tony “Deepwater Horizon” Hayward está dirigindo a [empresa]

Genel, cuja mais alta prioridade é controlar os campos de petróleo que foram roubados, primeiro, de Bagdá; e serão, possivelmente, roubados também dos curdos iraquianos.E há também o barril de pólvora conhecido como os turcomenos.A razão chave pela qual Washington sempre ignorou solenemente a longa lista de negócios sujos de Ancara na Síria, mediante uma sua Quinta Coluna de jihadistas turcomenos, é que uma “linha de rato” da CIA cruza precisamente a região conhecida como Montanhas Turcomenas.

Esses turcomenos receberam, entregue por comboios “humanitários” despachados de Ancara, os TOW-2As fabricados nos EUA, para cumprirem a função de defender as rotas pelas quais viajam armas e contrabando. Os conselheiros são – como não se poderia imaginar que não fossem – aquele pessoal da [empresa] Xe/Academi, antes Blackwater. Mas aconteceu que a Rússia identificou o bando e o golpe, e começou a bombardeá-los. Então o SU-24 foi derrubado.

A Quinta Coluna turcomena

Agora a CIA está numa missão de Deus – tentando freneticamente impedir que sua “linha de rato” seja definitivamente detonada pelo Exército Árabe Sírio por terra e pela Rússia, por ar.O mesmo desespero aplica-se à rota Aleppo-Azez-Killis, que é também essencial à Turquia, para todos os tipos de contrabando.

O braço avançado da aliança “4+1” – Rússia, Síria, Irã, Iraque, plus Hezbollah – não carrega prisioneiros, no esforço para reconquistar esses dois corredores chaves.

E isso explica o desespero de Ancara – com uma ajudinha da “Voz do Dono (de Erdogan)” – para que crie imediatamente outra linha de rato/corredor novo/a que passe por Afrin, atualmente sob controle dos curdos sírios, enquanto as forças de Damasco e da Rússia não chegam lá.

Mais uma vez é importante lembrar que aquele bando de grupos turcomenos são uma Quinta Coluna a serviço de Ancara no norte da Síria.

Muitos turcomenos vivem em territórios curdos. E esse é o mais absoluto fator complicador: a maioria deles vive na região de Jarablus, atualmente controlada peloISIS/ISIL/Daesh. É exatamente essa área que está cortando a conexão geográfica entre os dois cantões curdos, Kobani e Afrin.

Assim sendo, imagine um corredor autonomamente controlado por curdos sírios, ao longo de toda a fronteira turco síria. Para Ancara, esse é o pior dos pesadelos. A estratégia de Ancara tem sido mover esses peões turcomenos, com alguns “rebeldes moderados” somados a eles, para a região de Jarablus. O pretexto? Varrer do mapa o Daesh. A real razão? Impedir que os dois cantões curdos – Afrin e Kobani – fundam-se.

E mais uma vez Ancara estará em disputa direta contra Moscou.

A estratégia russa repousa sobre relações muito boas com os curdos sírios. Moscou não apenas apoia a fusão dos curdos sírios, mas vê aí um passo importante em direção a uma nova Síria livre de takfiris. Rússia até reconhecerá oficialmente o Partido da União Democrática (PYD) e lhes garantirá um escritório de representação na Rússia.

Ancara considera o PYD e seu braço paramilitar, as Unidades de Proteção do Povo (YPG), como ramos do PKK. E a coisa fica ainda mais estranha, se se sabe que Moscou e Washington estão cooperando com as Unidades de Proteção do Povo, curdos, contra oISIS/ISIL/Daesh.

O xilique total previsível de Ancara aconteceu sob a forma de o ‘Sultão’ Erdogan declarar que o [rio] Eufrates seria uma “linha vermelha” intransponível para Unidades de Proteção do Povo. Se tentarem mover-se para o oeste, para dar combate aos terroristas do Daesh, empurrando-os para fora da área de Jarablus, o Exército Turco atacará.

É absolutamente chave para a Turquia controlar essa área entre Jarablus e Afrin, porque esse é o local onde ficaria a tal “zona segura”, de fato um zona aérea de exclusão que Ancara sonha com implantar, servindo-se para isso dos três bilhões que acabou de extorquir da União Europeia para abrigar refugiados mas, também, para controlar o norte da Síria. Os turcomenos seriam encarregados dessa área – bem como da linha Azez-Aleppo –, assumindo que o Exército Árabe Sírio não limpe logo e completamente a mesma área.

É onde entra a AbCE

Ancara, portanto, está diante de dois cenários cheios de turcomenos, ambos muito desagradáveis, para dizer o mínimo.Turcomenos convertidos em instrumentos de Ancara e leões-de-chácara contra as Unidades de Proteção do Povo, curdos, significa terrível divisão sectária, orquestrada pela Turquia; nesse caso, quem mais perde é a unidade da nação síria.

Entrementes, o Exército Árabe Sírio e a Força Aérea Russa estão bem próximos de assumir o total controle das Montanhas Turcomenas.

Isso permitirá que a aliança dos “4+1” avance mais fundo na luta contra o chamado “Exército da Conquista” e o réptil de duas cabeças, de nome Jabhat al-Nusra (também conhecida como al-Qaeda na Síria) e Ahrar al-Sham, com todos esses “apoiados” e armados por Turquia, Arábia Saudita e Qatar.

O avanço inexorável do “4+1” vem com benefícios extras: o fim de todas as linhas de rato ativas naquela região e o fim de possíveis ameaças à base aérea da Rússia, em Hmeimim.

Que ninguém se engane: Moscou infligirá ao ‘Sultão’ Erdogan a máxima dor possível.

Pelo jornal turco Radikal, o Prof. Abbas Vali da Universidade Bogazici confirma essa ideia:“O Partido da União Democrática (PYD) gostou da intervenção dos russos na Síria. Uma aliança entre o PYD e Rússia é inevitável. O bombardeio russo contra grupos islamistas radicais em solo terá impacto enorme nas operações do PYD.”

Quer dizer: não importa de que ângulo se olhe, Turquia e Rússia estão em rota de séria colisão na Síria. Moscou apoiará os curdos sírios sem nenhuma limitação, na luta deles para unir os três principais cantões curdos no norte da Síria, numa Rojava unificada.

Quanto à ‘estratégia’ de Washington, resume-se agora à necessidade de que a CIA padece, de encontrar alguma nova “linha de rato”. Implicará sentar à margem – também super armada –, assistindo a turcomenos e curdos acabarem com a “linha de rato” velha, criando assim uma abertura para que o Exército Turco intervenha e a Força Aérea Russa bloqueie qualquer intervenção dos turcos, e é quando, garantido, o céu vem abaixo ou o inferno abre as portas.

O ‘sultão’ Erdogan precisa desesperadamente de uma nova “linha do rato” protegida pela CIA, para continuar a armar não só sua Quinta Coluna de turcomenos, mas também chechenos, uzbeques e uigures. E Bilal Erdogan, codinome Erdogan Mini-eu-mesmo [orig. MiniMe], desesperadamente precisa de novas rotas de contrabando de petróleo e um par de novos navios-petroleiros; a Rússia não perde nenhum dos movimentos deles. As notícias mais recentes do Ministério de Defesa da Rússia desencadearam uma erupção vulcânica: a família-gangue Erdogan foi chamada de “criminosos”, e Moscou só exibiu um aperitivo das provas que tem em estoque.Assim sendo, há a linha de rato da heroína afegã. A gangue do assalto ao petróleo líbio. A linha de rato fascista na Ucrânia. A linha de rato de armas da Líbia para a Síria. O comércio de petróleo roubado da Síria. As linhas de rato pelo norte da Síria.

Pode-se designar a coisa toda, genericamente, como “Atividades-business-Clandestinas do Excepcionalistão, AbCE” [orig. UEBAUnregulated Exceptionalist Business Activities]. Por que não? Não há business, como a guerra-business.

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Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Banco dos BRICS anuncia primeiros projetos

Via Sputnik Brasil

Abril de 2016 será um mês importantíssimo para o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Será o mês da assinatura do primeiro pacote de projetos da entidade, disse o seu vice-presidente, Vladimir Kazbekov.

Kazbekov, de nacionalidade russa, participou da cerimônia de abertura da cúpula da mídia dos países-membros do grupo BRICS (grupo informal composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A cúpula acontece em Pequim e marca mais um passo na consolidação do espaço midiático — e, pelos vistos, econômico — do grupo.

“Nos próximos meses, nós enfrentamos um grande trabalho, vista a necessidade de formar o pessoal do banco, de elaborar os primeiros projetos. É uma tarefa muito grande e séria, que precisa ser realizada para que possamos, até finais de abril [de 2016], preparar para assinatura o primeiro pacote, que conterá pelo menos um projeto de cada das partes”, ressaltou Kazbekov,

O vice-presidente do banco destacou que a Rússia e a Índia já apresentaram os seus projetos, o projeto brasileiro está chegando “um dia desses”.

O Novo Banco de Desenvolvimento ainda não está funcionando. Está em uma última etapa da constituição, mas o funcionamento da entidade é iminente, fato que é confirmado por vários especialistas internacionais. Por isso, “apesar de o banco não estar operando ainda, existe um grupo de trabalho temporário” que está examinando os projetos, frisou o representante russo.

Yuan abre passo

Vladimir Kazbekov destacou uma das ideias mais populares recentemente na economia internacional: intercâmbio em moeda nacional, sem recurso ao dólar estadunidense. Neste sentido, o vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento acha que o yuan renminbi, “moeda do povo” da China, seria uma ótima opção para começar.

“Claro, tendo em conta a estabilidade da moeda chinesa e do volume do mercado de dívida chinês, eu acredito que a entrada no mercado chinês para fazer empréstimos em yuans será um dos primeiros passos para garantir a criação dos fundos do Novo Banco de Desenvolvimento”, disse Kazbekov.

O yuan já teve várias experiências, que foram qualificadas de positivas, de uso duplo com o rublo russo, em regiões fronteiriçãs entre a Rússia e a China, em 2005.

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS foi anunciada na cúpula do grpo em Fortaleza, no Brasil, em 2014. Em 2015, a ideia se solidificou e o banco obteve uma sede, em Xangai (China). O principal objetivo da entdidade será financiar projetos de infraestrutura nos países-membros do grupo BRICS e em países emergentes.

Duas decisões extemporâneas, um ano depois

Por Hélio Silveira | Rio de Janeiro, 27/11/2015

Levy e Dilma. Foto: Estadão

Em 27/11/2014 publicamos o artigo “Duas decisões extemporâneas: Será a oficialização da deflação e recessão global? no Blog dos Desenvolvimenistas.

Comentava-se duas notícias relevantes, uma externa e a outra interna:

Externa: A decisão da OPEP, em 27-11-14, de manter a oferta do petróleo.

Interna: A Presidente Dilma ao apresentar seu trio econômico: Ministro da Fazenda; do Planejamento e o Presidente do Banco Central anuncia aumento dos juros e um forte ajuste fiscal. Comentei que as perspectivas eram negativas, pois, tal qual 2011, ao não perceber que a situação econômica externa/interna já era de recessão, em ambas as ocasiões promoveu aumento de juros e corte de despesas.

Comentaremos, então, os principais fatos econômicos de 2015:

Vemos que a economia mundial continua em sua trajetória de recessão, desde 2008, caminha para o 8º ano de baixo crescimento, apesar das políticas monetárias de afrouxamento de liquidez e juros baixos nas principais economias centrais. A liquidez beneficia a valorização/manutenção dos valores dos ativos – o índice S&P 500 de 27/11/14 à 27/11/15 valorizou 1%, enquanto o desemprego se mantem firme na maior parte do mundo.

De fato, tornou-se regra manter política monetária frouxa e política fiscal austera, sendo a resultante o baixo crescimento e manutenção do desemprego, gerando, por sua vez o desajuste social e político.

Em janeiro de 2015, conforme nossa previsão, a queda da cotação do petróleo, provocou queda e deflação de preços nos principais países. Como resposta, não restou aos bancos centrais aumentaram suas políticas de afrouxamento de liquidez. o que teve como consequência o aumento do dólar (manchete do relatório Itau BBA : “BCs aliviam, Brasil na contra mão”).

As commodities, diante de um choque deflacionário do petróleo, também sofrem um processo de reajuste. De fato, medidas pelo Índice CRY/Bloomberg de 01/12/14 à 27/11/15 as commodities caíram 29%.

Comparemos as colocações das nossas previsões, um ano depois:

Choque deflacionário por causa do petróleo:

“2014, 41 anos depois do choque de 1973 portanto, os principais países da OCDE, lutam contra a recessão e a deflação e recebem este golpe que constitui um choque deflacionário no principal insumo (custo) global”

Vejam a Cotação do Petróleo Brent até agora: US$ 70 em 27/11/14 e US$ 45 em 27/11/15, queda de 36%.

Previsão para o Dólar e Economia dos EUA em 27/11/14: 

“O dólar possivelmente se fortalecerá o que os forçará a manter os juros negativos por muito tempo, podendo ainda ter de retomar o quantitative easing, afrouxamento quantitativo, a única política que fazem, obviamente destinada ao 1%.”

Variação da Cotação do Dólar Index: 88,41 há um ano atrás e agora – 100,05, alta de 13%. A alta dos juros pelo Fed esperada para meados de 2015, foi postergada para 9/15, depois em 10/15 e agora é esperada para 12/15, de maneira muito reduzida e de forma muito cautelosa, não sendo descartada a volta do quantitative easing se necessário, por conta de um possível risco de desarranjo por conta do endividamento bancário e corporativos dos países asiáticos em especial a China. O Fed projeta o crescimento de 2% do PIB (contra 2,4% de 2014) e se preocupa com a elevação do nível de desemprego.

Mais recentemente, com o desempenho do 3º trimestre, em termos anuais de 2,1% o crescimento anual em relação aos três trimestres de 2014 é de 2,2%, abaixo do crescimento de 2014 de 2,4%.

O Fed continua preocupado com o nível da inflação anual 0,2% (em outubro de 2015) abaixo da inflação de 2014 – 0,80%.

Previsão para a Economia do Japão em novembro de 2014:

“O Japão, forte consumidor de petróleo, luta para enfraquecer o iene a fim de criar inflação no mercado interno e recebe um choque deflacionário dessa magnitude.”

A Inflação (IPC) do Japão em nov/14 (índice mensal anualizado) foi de 2,38%; em set/15= 0,00%. Seu crescimento do PIB em 2014 foi de 0,0%; em 30/out o BOJ rebaixou sua estimativa do PIB de 2015 de 1,70% para 1,2%, sendo a taxa de crescimento em setembro/2015(3º trimestre)= – 0,2%; anualizado = – 0,8% – (acesse esses dados aqui) .

Previsão para a Zona do Euro em novembro de 2014:

“A União Europeia até outro dia estava sendo estrangulada pelo gás russo que passa pela Ucrânia. Agora, minimizam este obstáculo mas enfrentarão outro, a deflação intensificada por mais esse choque.”

A Inflação anual da Zona do Euro em dez/14= – 0,02%; em set/15(anualizada)= 0,03%.

Crescimento do PIB da Zona do Euro em 2014=1,3%; Taxa de crescimento em setembro/2015(3º trimestre)= 0,3%; anualizado =1,6% (acesse esses dados aqui). A Zona do Euro, respondeu ao aumento do afrouxamento da liquidez, apesar da queda da cotação do petróleo, com ligeiro aumento da inflação e do crescimento do PIB.

Previsão para China:

“China, também preocupada com a queda dos preços internos, recebe este choque deflacionário.”

Inflação IPC em dez/14= 1,6%; em set/2015(Dez 14 a set 15 (anualizada) = 0,13%- (acesse esses dados aqui). Crescimento do PIB da China em 2014=7,4% previsão do Banco da China para 2015 de 7,1% para 7% . E a do FMI de 6,8%. Crescimento do PIB em set/2015(3º trimestre)= 1,8%; anualizado= 6,9% .

A China em seu processo de afrouxamento de liquidez produziu um forte financiamento de operações em bolsa de valores, criando uma onda especulativa onde o Índice Shangai Composite  encerrou 31/12/14 em 3.235 pontos, alcançou o pico de 2015, em 11/junho, com 5.178 pontos ou alta de 60%. A “bolha” estourou e em 25/agosto (75 dias após), o Índice atingiu a mínima ao atingir 2.851 pontos ou queda de 45%. Hoje, fechou em 3.436.

Outro fato relevante foi a desvalorização do Iuan, em 11 e 12/agosto, o Governo Chinês desvalorizou sua moeda em 3,5% surpreendendo o mundo.

Previsão para a Índia:

“A Índia possivelmente se beneficiará da queda do petróleo, já que é altamente dependente do insumo e luta contra uma inflação renitente e preços internos elevados do setor de alimentação.”

Inflação anual pelo IPC em dez/14= 5,86%; em set/15(acumulada e anualizada)= 5%.

Crescimento do PIB da Índia em 2014=7%; Taxa média do crescimento até ago/2015 anualizado =7% - (acesse esses dados aqui). Então, a Índia manteve seu forte ritmo de crescimento e, ajudada pela queda do preço do petróleo, teve uma pequena queda no nível inflacionário.

Previsão para o Brasil:

“Dilma, como em 2010, comete o mesmo erro estratégico. Enquanto o mundo inteiro teme a deflação (em 2010 era o início da recessão, mas com commodities ainda inflacionadas, ela aumenta consistentemente a SELIC de 10% para 12%). Ao apresentar seu trio principal da equipe econômica nos “premia” com um extemporâneo e desastrado arrocho fiscal e mais aumentos de juros, no mesmo dia da decisão da OPEP.

As perspectivas são negativas diante deste desarranjo.”

Infelizmente, a realidade se confirmou. Ao não atentar para as condições econômicas, tanto interna como externa, já deterioradas apresentando forte sintoma de desaquecimento de nossa Economia, o trio econômico, de forma ortodoxa e insensata, ao adotar políticas pró-cíclicas, como o corte do crédito dos bancos oficiais, corte de gastos públicos e impostos, aumento da Selic de 11,15% (novembro/14) para 14,25%(novembro/15), a atualização agressiva dos preços e tarifas defasadas promoveu um forte choque de custos. Diante desse desarranjo, nossa taxa de câmbio, por tanto tempo anestesiada pelos maiores juros do mundo, se depreciou fortemente. Estes fatores em nossa Economia oligopolizada só podem resultar em alta inflação e desemprego. O PIB, previsto para este ano de 2015, terá uma redução de 2,6% (ou mais de acordo com as fontes) a inflação caminha para os 10% a.a. e o desemprego além dos 8%.

A atividade produtiva, que já vinha desaquecendo durante o 2º semestre de 2014, estancou. Nossas duas principais empresas, a Petrobrás e a Vale, que representam uma boa parte do PIB, ainda sofreram de situações indesejadas, tanto de natureza jurídica como de acidentes provocados por falha de conservação e manutenção provocando infelizmente: mortes e desastres ambientais. Isto tudo contribuiu para a desestruturação do nosso contexto econômico. A resultante só pode ser conflito no campo político e insatisfação social.

A solução lógica e sensata diante deste quadro só poderia vir de um consenso político liderado por um(a) Estadista e um grupo de Conselheiros respeitáveis da sociedade civil. Que ao entender a gravidade do contexto, tanto interno como externo, propusesse um Plano Emergencial Político e Econômico para superar este impasse. Lembramos que todo esse contexto interno desagradável também está inserido no contexto internacional maior, onde observamos com temor os fatos sociais e fricções políticas que ocorrem no continente europeu e oriente médio. Tudo isso faz parte logicamente do arranjo perverso instaurado no pós-2008, onde para os 1% sobram afrouxamento de liquidez e para os 99% a austeridade fiscal, desemprego, choro e ranger de dentes.

Diante deste quadro, não nos atrevemos a fazer más previsões para os próximos anos, só nos resta clamar por lógica e sensatez…

Cotações das matérias-primas caem ao nível mais baixo em 16 anos

Por Ignacio Fariza | Via El País

Dois trabalhadores observam um poço de extração de petróleo / GETTY

Desaceleração da economia chinesa e valorização do dólar são as principais causas.

A cotação das matérias-primas está deprimida. O preço das principais commodities está no nível mais baixo dos últimos 16 anos. O colapso não se limita ao petróleo, com alguns dos principais produtos primários (zinco, ferro e níquel) tendo perdido mais de um terço de seu valor no último ano. A desaceleração econômica da China, o principal importador desses produtos, e a forte valorização do dólar frente a outras moedas são as principais causas da queda dos preços. Essa situação representa um desafio para os países produtores, muitos dos quais são emergentes.

O Bloomberg Commodity Index, índice que apresenta a evolução dos preços de uma ampla gama de produtos primários — do petróleo ao milho, passando por alumínio e gás natural —, ficou na semana passada nos níveis mais baixos desde meados de 1999. Diferentemente daquela vez, agora o preço do petróleo não explica tudo: naquele momento o barril de Brent [tipo de petróleo de referência] era cotado a 10 dólares, nível que hoje, apesar do colapso que levou o petróleo a cerca de 40 dólares, é inimaginável. Em 2015, a queda do índice é explicada pelo colapso dos metais industriais devido à desaceleração econômica de seu maior consumidor, a China, e pela força do dólar, moeda na qual a maior parte das commodities é cotada.

Os investidores não tiram o olho da situação da economia chinesa. O gigante asiático é o maior consumidor mundial e absorve quase a metade da produção de alumínio, cobre e carvão. A mudança de modelo econômico de Pequim, passando de um focado nas exportações e no investimento público para outro, baseado no consumo interno, diminuiu seu apetite por matérias-primas. E a desaceleração de sua economia provocou colapso na demanda por produtos primários. Em 2010 seu consumo de matérias-primas crescia 35% ao ano e conseguia absorver tudo que o Ocidente deixasse de consumir. Hoje a taxa ano a ano está em cerca de 9%, quase três quartos a menos.

Petróleo, um caso emblemático

A matéria-prima por definição, num mundo condicionado pelo acesso às fontes fósseis de energia, continua em queda livre. Há várias razões por trás desse colapso: a economia europeia se recupera lentamente demais da crise e por isso não consome tanto petróleo quanto se esperava; os países emergentes desaceleraram seu fulgurante crescimento e precisam de menos petróleo; os estoques aumentaram e, acima de tudo, os produtores, com Arábia Saudita e Iraque à frente, continuam bombeando com força depois do surgimento dofracking como tecnologia eficiente de extração, gerando uma superoferta que o mercado não consegue digerir.

No último ano o petróleo passou de 80 para 45 dólares, e os exportadores menos eficientes (para os quais é mais caro produzir um barril), como a Venezuela, começam a sentir os danos do petróleo barato e a exigir uma mudança de estratégia ao cartel da OPEP (que reúne países exportadores de petróleo).

Em outubro o petróleo estancou temporariamente sua queda, mas nas últimas semanas a tendência mudou. Em novembro, o Brent voltou a cair, perdendo 9%. “Nem mesmo o aumento da tensão no Oriente Médio, com os novos bombardeios pela França e pela Rússia na Síria, pressionou a alta dos preços”, ressaltam os analistas do banco francês Natixis.

“Com o argumento de que o apetite chinês não teria fim, nos anos posteriores à crise se generalizou a opinião de que haveria um superciclo de matérias-primas”, explica por e-mail o ex-economista do Fundo Monetário Internacional (FMI) Stephen Jen, hoje responsável pelo fundo de alto risco britânico SLJ Macro Partners. “Durante esse período, os países vendedores desses produtos superdimensionaram sua capacidade para alimentar a voraz China e agora se deparam com uma menor demanda, que não só afeta os preços como faz com que parte da oferta não encontre comprador”, acrescenta.

O segundo ponto de referência para compreender o que aconteceu com o mercado de matérias-primas é a revalorização do dólar frente ao resto das moedas do mundo, devido à cada vez mais próxima elevação das taxas de juros nos EUA. As cédulas verdes subiram quase 14% frente ao euro este ano, e sua evolução praticamente forma uma imagem em negativo da apresentada pelas commodities: quanto mais caro o dólar, mais baratas as matérias-primas.

Opiniões divergentes

O mercado espera que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) suba logo as taxas de juros nos EUA, e que o Banco Central Europeu (BCE) mantenha sua política monetária expansionista. Essa divergência deve fortalecer ainda mais a moeda norte-americana. “O dólar continuará subindo até atingir um pico no primeiro trimestre de 2016 e depois se desvalorizará”, afirma James Butterfill, diretor de análise e estratégia de investimento da gestora de ativos ETF Securities. Em sua opinião, diferentemente do que normalmente se acredita, quando as taxas de juros sobem partindo de um nível muito baixo o dólar tende a aumentar seu valor em médio prazo, o que provocaria o repique do petróleo e dos metais industriais. Caso isso aconteça, esse argumento reforçaria o prognóstico do Goldman Sachs e da The Economist Intelligence Unit, que acham que os mercados de matérias-primas se estabilizarão em 2016 e 2017, depois de quatro anos de queda sustentada.

Em seus dois relatórios mais recentes, divulgados na semana passada, o banco de investimentos norte-americano continuava a recomendar a seus clientes que não entrassem no mercado decommodities, mas começava a ver uma mudança de tendência nos países exportadores para o próximo exercício. “2016 deve ser o ano em que os emergentes regressarão ao caminho do crescimento, embora muito distantes das taxas da década de 2000.” O colapso das moedas desses países paralelamente ao das matérias-primas abre, segundo o Goldman Sachs, “oportunidades de compra em moeda local não vistas por décadas”.

Colapsos em destaque
  • Níquel. O metal, produzido basicamente na Rússia, Canadá e Cuba, é a matéria-prima com maior queda no último ano: 45%.
  • Ferro. O minério de ferro, do qual a China compra 60% do que se produz no mundo, teve baixa de 36% desde novembro de 2014.
  • Zinco. Perdeu um terço de seu valor no último ano. China e, em menor medida, Peru e Austrália, são os países que mais acusam essa acentuada queda na cotação.
  • Platina. Seu mergulho, de 29% nas últimas 52 semanas, afeta acima de tudo a África do Sul, maior produtor.

Por sua vez, a The Economist Intelligence Unit põe em evidência o reequilíbrio de forças no mercado de matérias-primas. “Começam a ser vistas respostas a partir do lado dos produtores, que devem levar a uma estabilização dos preços no ano que vem”, indica em seu relatório mais recente. Seus especialistas confiam na recuperação dos preços dos produtos agrícolas, impulsionados pelo aumento da população mundial. Apesar da melhoria geral, admitem que continuam sem sentir “sinais” de aumento do apetite investidor pelas matérias-primas.

Os analistas do banco Nomura discordam desses diagnósticos otimistas e acreditam que, longe de parar, a sangria das commodities continuará e trará junto uma desvalorização ainda maior das moedas dos países exportadores. Isso é claro também para Jen, do SLJ: “Os preços continuarão a ser baixos até que a oferta e a demanda se reequilibrem”.

O futuro incerto do ciclo progressista sul-americano

Por André Calixtre | Via Blog do GR-RI

É precipitado dizer que a vitória de Mauricio Macri na Argentina representaram o ocaso dos governos de esquerda.

Mauricio Macri durante campanha: ele foi eleito no domingo 22 com cerca de 51% dos votos. Divulgação / Cambiemos

Escrevo no calor das eleições argentinas e sua opção, nada inédita, de cambiar radicalmente seu campo político-partidário para uma direita que há tempos não víamos governar os países sul-americanos do lado de cá da Cordilheira dos Andes.

Após intensas mudanças no padrão de acumulação destes países – operadas ao longo da década de 1980, cujos efeitos foram a reorientação de seus espaços nacionais de exploração para os fluxos globalizantes do capital financeiro – a entrada, durante a década de 1990, na era contemporânea parecia ter cobrado um preço muito alto.

O impulso da redemocratização tinha construído, ao longo desta década, frustrações civilizatórias: economias estagnadas em seu PIB per capita, a taxas crescentes de desemprego e uma incapacidade de resolver a vida de milhões de cidadãos na extrema pobreza e de equacionar a brutal desigualdade herdada do período ditatorial.

Apesar da deterioração do tecido social provocada pelo ciclo dos 1990, sua notável orientação neoliberal avançou enormemente na integração econômica da região. A tara pelos mercados globais e o nojo a tudo que é autêntico na história latino-americana produziu um repertório comum de políticas macroeconômicas capazes de orientar o caminho da integração pela lógica desse novo padrão de acumulação capitalista.

Duas consequências concretas advieram desse processo: o Mercado Comum do Sul (Mercosul), criado pelo Tratado de Assunção no início da era liberal dos 1990, e o surgimento, após a Cúpula de Brasília de 2000, da América do Sul como espaço político-econômico, para além de uma mera circunstância geográfica.

A força maior que alimentava a integração nos anos 1990 era sua perspectiva hemisférica. Em cada ação dos Estados nacionais havia o objetivo de preparar a região para a incorporação de seus mercados à influência direta norte-americana, concretizando a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Intelectuais, empresários, partidos políticos e governos caminhariam em uníssono nesse grande projeto para a região, não fosse a crise de 1998-2003 suspender as pretensões deste campo político que, hoje, se reorganizou.

Estamos há doze anos em um ciclo peculiar na história do desenvolvimento capitalista da América Latina. Nos escombros da crise cambiária que solapou as bases macroeconômicas sustentadoras do ciclo neoliberal, governos de orientação progressista elegeram-se para os Estados sul-americanos com a tarefa de reconstruir as condições de acumulação capitalista e, simultaneamente, equacionar mais de trinta anos de lutas sociais patrocinadas pelas esquerdas.

O vetor desse processo foi a saída negociada do ciclo neoliberal para um novo ciclo de crescimento sustentado pelos estímulos ao mercado interno (puxados pelo mundo do trabalho), pela nacionalização dos recursos naturais e pela reconstrução da capacidade do Estado operar políticas públicas.

O resultado foi uma mudança sensível nas principais variáveis de bem estar na América do Sul: a pobreza extrema, que havia crescido 70% em relação a 1990 no auge da crise em 2001, retorna à metade do mesmo ano base em 2013; o PIB per capita, estagnado nos anos 1990, é 65% maior em 2014; o desemprego médio está 20% menor que no início do ciclo liberal; e a desigualdade, medida pelo índice de Gini pela ótica da renda, está 5,5% menor que no ano 1990, considerando que ela chegou a crescer 20% no ciclo neoliberal.

Esses dados escondem inúmeras realidades nacionais e diferentes trajetórias de desenvolvimento, mas mostram com muita clareza que o ciclo progressista dos últimos doze anos foi tanto mais eficiente na sua estratégia de garantir maiores taxas de crescimento e, portanto, de acumulação, quanto socialmente menos injusto que o modelo neoliberal.

O legado do ciclo progressista para a América do Sul fez surgir novas instituições de integração, exemplo maior da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), mas também reorientou as instituições herdadas pelo ciclo neoliberal após a derrubada do objetivo maior, a Alca, durante a Cúpula de Mar del Plata, que completou dez anos em 2015.

O Mercosul, que era o instrumento por excelência tutor da integração hemisférica, passa a acoplar-se às estratégias de desenvolvimento nacionais, ampliando a mobilidade do capital, mas também levando consigo a mobilidade dos direitos e a perspectiva cidadã ao bloco.

Importante sempre frisar que este acordo favoreceu a expansão capitalista, é parte de sua ideologia globalizante e da necessidade de criar mercados regionais, porém, a orientação progressista dada pelos governos de esquerda influenciou decisivamente o comportamento de outras variáveis que não somente o crescimento econômico.

Na alma do ciclo progressista, a orientação maior era a substituição da ordem global vigente desde o pós-guerra. Da integração hemisférica “inevitável”, a construção de blocos alternativos de poder sustentou o processo de multipolarização global, ampliando a crítica aos organismos internacionais a partir da negação do alinhamento automático com a hegemonia norte-americana.

A chamada diplomacia Sul-Sul brasileira, elogiada entre analistas da política externa mesmo nos campos liberais, só foi possível pela legitimidade dada ao Brasil em seu esforço de contestação da ordem global. Que não reste dúvida do espaço concreto em que esta legitimidade se operou: a integração sul-americana.

Passados mais de uma década, os efeitos civilizatórios do ciclo progressista são muito pouco reconhecidos por seus críticos. A nostalgia neoliberal vai-se alimentando das contradições inerentes a qualquer estratégia circunstanciada nas referências periféricas e subdesenvolvidas do capitalismo.

Evidente que o modelo progressista gerou desequilíbrios macroeconômicos, afinal de contas, qualquer processo civilizatório, por menor que seja, gerará conflitos distributivos desestabilizadores dos negócios.

Mas e o imenso desequilíbrio social gerado pela aventura liberalizante dos 1990, também não foi o motor de uma das crises macroeconômicas mais profundas que tivemos, com países perdendo mais de 30% sobre o PIB em fuga de capitais e moedas nacionais inteiras varridas pelo processo de dolarização? É isso que desejam os críticos do “bolivarianismo” para seus respectivos países? Creio que não.

Se as eleições argentinas representariam o ocaso dos governos de esquerda que lideraram os países sul-americanos nos últimos doze anos (dezessete, se considerarmos o início pela eleição de Hugo Chávez, em dezembro de 1998)? Acredito ser muito precipitado.

Pois o legado do ciclo progressista não são as contradições de um fracasso, como foi a saída para crise do neoliberalismo, e sim as contradições de um sucesso. Em todos os países sul-americanos, a disputa pela direção do desenvolvimento foi acirrada pela inclusão de novos atores na privilegiada cena do poder.

As classes populares em ascensão transformaram-se em grandes e heterogêneos blocos de interesse, cujos novos governos terão de, necessariamente, negociar para governar.

Nos debates domésticos, as políticas sociais e a ampliação do mercado de trabalho estão apontando para uma nova geração de políticas públicas, voltadas para acelerar a redução da desigualdade. No plano internacional, a agenda multipolar depende fundamentalmente da resistência sul-americana à consolidação do projeto hemisférico de poder dos Estados Unidos. Jogar fora estas duas forças construídas pelo ciclo progressista seria um grande equívoco.

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André Calixtre é economista, mestre em Desenvolvimento Econômico e doutorando em História Econômica, todos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É membro do GR-RI.

O jogo da paz nas mãos de um estrategista experiente

Por J. Carlos de Assis

Vladimir Putin (Valery Sharifulin/ZUMA Press/Newscom)

O governo turco, odiado por grande parte de seu povo, não perde por esperar. Talvez tenha que esperar por muito tempo porque faz parte da estratégia militar histórica da Rússia cozinhar o inimigo e trazê-lo para perto de casa s só então liquidá-lo. Foi assim com Carlos XII da Suécia, com Napoleão e com Hitler. Os mais notáveis comandantes militares russos, o Marechal Sucorov, que derrotou Napoleão, e Marechal Zhukov, que derrotou Hitler, ganharam suas medalhas mais significativas usando o recurso da paciência.

Já vimos que Putin é um estrategista cuidadoso e de extrema eficácia. Enquanto o ocidente instigava os nazistas ucranianos a tomarem o poder em Kiev, mediante financiamento aberto do Departamento de Estado norte-americano, ele preparava com astúcia a reincorporação da Crimeia como província russa estratégica. O aparato de informação ocidental ficou desorientado. Obama, com cara de tacho, não soube como reagir a não ser impondo um injustificado e ineficaz bloqueio seletivo contra a Rússia.

Chegará a hora em que a Turquia pagará pela derrubada do bombardeiro russo e pelo assassinato covarde dos dois pilotos. Porém, estejam certos que não será dentro do modelo a ferro e fogo norte-americano, que está destruindo três países que nada tinham a ver com o World Trade Center a pretexto de combater terroristas, com o resultado fantástico de multiplicar justamente a criação de milhares de terroristas no Afeganistão, no Iraque e no Paquistão, entre outros países árabes e não árabes,  e até a bucólica Bélgica.

Na verdade, ao contrário da Rússia que se limita a defender interesses estratégicos imediatos, os Estados Unidos querem dominar o mundo a qualquer custo. Washington tem sido a grande fonte de instabilidade em todo o planeta. Agindo sem qualquer escrúpulo, transferiu para os tempos atuais suas táticas fracassadas da Guerra Fria, quando perdeu duas guerras de larga escala, Coreia e Vietnã, mostrando sua incompetência enquanto hegemon. As grandes vitórias norte-americanas foram contra Granada, Haiti e Noriega!

Se tivesse a mesma assessoria belicista dos neoconservadores americanos, Putin poderia se precipitar em aplicar uma vingança justa contra Ancara e levar o mundo à beira de uma guerra global – nas vizinhanças de uma guerra nuclear. Felizmente, há sangue frio em Moscou. O ato terrorista do governo turco gerará suas consequências, mas no momento oportuno. Temos que aprender a compreender Putin. Ele é um estrategista. Apesar dos esforços norte-americanos para isso, ele evitará que o mundo mergulhe numa guerra nuclear.

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José Carlos de Assis é economista, jornalista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira e do recente “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigatvo”, ed. Textonovo, SP.

 

Congressista norte-americana propõe lei que impede a guerra “ilegal” contra Assad; Diz que as operações da CIA devem cessar

Por Tyler Durden | Via Zero Hedge

Tulsi Gabbard. Foto: ABC News

No mês passado a congressista norte-americana Tulsi Gabbard foi a CNN e expôs a estratégia de Washington na Síria.

Em entrevista memorável conduzida por Wolf Blitzer, Gabbard diz que os esforços para a derrubada de Assad são “contraprodutivos e “ilegais”, para depois ir além e acusar a CIA de armar e financiar os mesmos terroristas que a Casa Branca define como maiores inimigos.

Gabbard diz ainda que o governo norte-americano mente para seus cidadãos e que isso pode desencadear até mesmo a “Terceira Guerra Mundial”.

Aos que perderam, segue o vídeo:

Isso foi antes dos atentados em Paris.

Depois dos ataques, parece que Gabbard cansou-se da postura ambígua do governo no combate ao terrorismo e agora, com apoio republicano, a democrata do Hawaii propôs uma lei que impede a “guerra ilegal” que visa tirar Assad do poder.

Gabbard lutou no Iraque duas vezes e assina o projeto juntamente ao congressista republicano dam Scott. A Associated Press assim relata:

Numa aliança inconvencional, uma democrata e um republicano fecharam questão no sentido de fazer a administração Obama parar de atuar na derrubada do presidente sírio Bashar Assad, focando todos os esforços, por conseguinte, em destruir o Estado Islâmico e sua militância.

A deputada Tulsi Gabbard e seu colega republicano, Austin Scott, propuseram uma lei que acaba que a dita “guerra ilegal” que intenta derrubar Assad, o líder da Síria acusado de matar centenas de milhares de cidadãos numa guerra civil contra o Estado Islâmico, que já dura mais de quatro anos.

“Os EUA conduzem duas guerras na Síria”, diz Gabbard. “A primeira é contra o Estado Islâmico e seus extremistas, que o Congresso autorizou depois do ataque de 11 de setembro. A segunda guerra é ilegal e é a que tenta derrubar o governo sírio de Assad.”

Scott alega que “Trabalhar na queda de Assad, nesse ponto do conflito, é contra-produtiro no que se refere ao que deveria ser a missão primordial.”

Desde 2013 a CIA treinou em torno de 10.000 combatentes, o número total dos chamados “moderados”, no entanto, permanece uma incógnita. O apoio da CIA aos rebeldes os permitiu pôr considerável pressão sobre o governo de Assad. Agora, estas mesmas forças estão sendo bombardeadas pela Rússia e há poucas chances do patronato ianque intervir, dizem os oficiais norte-americanos.

Durante anos a CIA os financiou generosamente – tanto que no último verão houveram propostas de cortes orçamentais no Congresso. Alguns destes rebeldes foram capturados; outros desertaram e agora somam forças as fileiras do Estado Islâmico.

Gabbard argumenta que o Congresso nunca autorizou esta operação da CIA, mas, estes programas não requerem este tipo de aprovação, tendo sido enviados aos comitês de inteligência, como previsto em lei, de acordo com declarações em off de assessores.

Gabbard argumenta que os esforços contra Assad são contra-produtivos por que estão auxiliando o Estado Islâmico a derrubá-lo e então dominar todo o território sírio. Se o EI se apossar dos armamentos militares, infraestrutura e comunicações do exército sírio, se tornariam ainda mais perigosos, fazendo explodir a crise dos refugiados.

E pra que não haja confusão, Tulsi esclarece que entende que a absurda política de Washington para o Oriente Médio vai bastante além da Síria. Ou seja, ela entende o cenário como um todo. Abaixo o que ela pensa sobre a presença massiva norte-americana e a prática de derrubar regimes acusados de violações de direitos humanos:

“Disseram exatamente a mesma coisa sobre o Saddam, sobre Gadhafi, e os resultados das mudanças de regime foram terríveis, não somente sendo falhas, mas trabalhando diretamente na fortificação de nossos inimigos.”

A CIA trabalhará, sem dúvida, para neutralizar Tulsi Gabbard.

Afinal, ainda há esperança para o povo norte-americano, apesar de tudo.

Se o público leigo não quer ouvir os blogs “lunáticos” ou o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, talvez escute uma deputada que serviu duas vezes no Iraque e agora denuncia a população que a Casa Branca, o Pentágono, e especialmente a CIA, estão juntos numa guerra “ilegal” que objetiva derrubar um governo de um país soberano, ao mesmo tempo que arma os extremistas responsáveis por ataques como o de Paris.

Boa sorte Tulsi, e obrigado por provar que há ao menos um político norte-americano que não é ingênuo nem desonesto.

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Você pode continuar lendo este post, em inglês, aqui.

Tradução: Rennan Martins