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Com PIB em queda e recessão, projeto ‘ultraliberal’ avança no país

Por Helder Lima | Via RBA

Ao comentar resultado do PIB, professor da Unicamp afirma que ajuste fiscal encobre objetivos menos nobres e velados das política econômica: combater a inflação com o desemprego e queda na renda.

Para Fagnani, política de Levy (foto) visa a promover recessão e combater inflação com a alta do desemprego.

O recuo do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre do ano, anunciado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de -1,7% em relação ao trimestre imediatamente anterior e de -4,5% comparado ao mesmo período de 2014, reflete que está em curso no país o desenvolvimento de um projeto “ultraliberal”, afirmou à RBA o professor de economia da Unicamp Eduardo Fagnani.

“O script que foi traçado em 2013 e 2014 pela oposição está sendo aplicado pelas mãos das forças políticas que foram vencedoras em 2014”, afirmou. Segundo Fagnani, essa recessão tem três funcionalidades “veladas”, que estão nas entrelinhas do discurso em defesa do ajuste fiscal mantido pelos economistas conservadores, também chamados de ortodoxos: “Rebaixar salários para debelar a inflação, fazer as reformas e contaminar a questão política, o que enfraquece o governo. É isso que estamos vendo. É muito claro”, disse.

Em 2014, a situação fiscal brasileira não era de crise terminal, como os meios de comunicação e o mercado retratavam. “Havia condições de fazer alguma coisa mais gradual do que esse tratamento de choque.” Para o professor, o que aconteceu é que a partir de 2015, quando o governo Dilma passou a apostar no projeto liberal que os economistas Armínio Fraga e Eduardo Gianetti da Fonseca defendiam, a economia entrou em uma crise funcional. “Quer dizer, você faz um esforço extraordinário, mas qual o problema de ter um déficit primário de 0,6% durante um ano (resultado oficial de 2014), de 1% durante o segundo e o terceiro anos?”, pergunta, destacando que o Japão desde 2009 tem déficit primário de 7%, 8% todo ano, sem que isso signifique a derrocada econômica do país.

“Mas quando você diz que isso é um problema terminal, dramático, e com base nisso, que é uma premissa falsa, você implementa uma política de austeridade econômica liberal clássica, você joga o país nesse ajuste suicida”, afirma. É verdade que com o resultado primário do ano passado o país interrompe uma série histórica de superávits ano a ano, com média de 3% de resultado positivo entre 2004 e 2013.

Mas para o professor de economia, o resultado nominal das contas do país, pouco considerado pelos economistas conservadores e pela grande mídia, mostra a realidade dos interesses que estão encobertos pelo ajuste fiscal. “O déficit nominal, que inclui as despesas financeiras (pagamento de juros da dívida), em oito, nove meses passou de 6,5% do PIB para 9% do PIB. São quase três pontos percentuais”, afirma. “No ano passado, nós gastamos R$ 250 bilhões de juros e este ano vamos gastar R$ 500 bilhões e pode chegar a R$ 600 bilhões; estamos falando de um aumento da despesa com juros de pelo menos R$ 250 bilhões, e ainda ficamos dizendo que o problema é o ajuste primário das contas”, protesta o economista.

“Essa estratégia vai ampliar o desemprego, que vai ser em dois dígitos a partir do começo do próximo ano. Os trabalhadores perdem, a pobreza vai aumentar, a desigualdade também, mas os detentores dos títulos da dívida pública vão ficar mais ricos. Eles ganham mais quando a economia vai mal”, alerta Fagnani, para quem o resultado do PIB neste ano mostra o total fracasso do tripé macroeconômico neoliberal que o Brasil adotou em 1999 e que consiste nas metas de inflação, de superávit primário e câmbio flutuante. “Você aumenta a taxa de juros para combater uma inflação de taxa de câmbio. Isso é uma coisa absurda”, critica.

Fagnani considera que o governo está se enfraquecendo politicamente com o ajuste fiscal. “É um suicídio político, uma coisa inacreditável está acontecendo no Brasil. O mais estranho é que os neoliberais estão receitando essa política desde 2013. E eles culpam o que estava sendo feito até 2014, é inacreditável”, afirma. “O ministro da Fazenda (Joaquim Levy) não pode dizer que o objetivo da política dele é promover a recessão, mas veladamente esse é o objetivo”, acredita Fagnani, lembrando que, no fundo, a receita dos economistas ortodoxos consiste de combater a inflação com o desemprego.

Ele também vê nas ideias predominantes no noticiário da grande mídia a tentativa de interditar a distribuição de renda e os programas sociais. “É um discurso que criminaliza qualquer tentativa de fazer políticas que ampliem o emprego e melhorem a renda. Há um discurso dominante que diz que esse tipo de política é populista, algo irresponsável, porque depois você tem de pagar o preço. É uma desqualificação, porque está criminalizando qualquer política, qualquer governo que ouse fazer uma política que melhore a renda, o emprego – é isso o que está em jogo e não tem quem faça o contraponto, alguém com peso político para dizer o contrário.”

Para o professor, em última instância, os conservadores defendem que os direitos conquistados e a distribuição de renda não caberiam na democracia e na Constituição do país. E um dos desdobramentos dessa crise que é “fabricada” será o emparedamento político do governo nas eleições de 2018.

A corrupção legitimada do cartel financeiro

Por Rennan Martins | Vila Velha, 01/12/2015

Passa despercebido da opinião pública – e publicada – brasileira este que é um dos maiores escândalos financeiros já revelados, o do cartel internacional do câmbio. O esquema está sendo investigado no Brasil, Suíça e Reino Unido. Nos EUA os processos tiveram desfecho com o reconhecimento de culpa e pagamentos que somam U$ 5,6 bilhões por parte dos bancos Barclays, Citigroup, JP Morgan, Royal Bank of Scotland e UBS.

No Brasil a querela corre, sob sigilo, em processo administrativo (PA 08700.004633/2015-4) no Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica, desde o dia dois de julho do presente ano, e abrange não só as instituições financeiras supracitadas, mas também os bancos Standard de Investimentos, Tokyo-Mitsubishi, UFJ, Credit Suisse, Deutsche Bank, HSBC, Chase, Merril Lynch, Morgan Stanley, Nomura, Royal Bank of Canada, Standard Chatered, e ainda mais trinta pessoas físicas. Sua abertura se deu após um dos bancos envolvidos, o suíço UBS, assinar um acordo de leniência no qual se compromete a apresentar provas dos crimes em troca da imunidade relativa a eventuais punições.

Denominados “o cartel” ou “a máfia”, o grupo teria usado o serviço de chat da Bloomberg, pelo menos entre 2007 a 2013, para, nas palavras do Valor Econômico:

(…) fixar níveis de preços (spread cambial); coordenar compra e venda de moedas e propostas de preços para clientes; além de dificultar e/ou impedir a atuação de outros operadores no mercado de câmbio envolvendo a moeda brasileira. Ainda de acordo com o Cade, as instituições financeiras acusadas teriam se coordenado para influenciar índices de referência dos mercados cambiais, por meio do alinhamento de suas compras e vendas de moeda.”

Se condenados os bancos arcarão com multas entre 0,1% a 20% do seu faturamento no setor relativo ao ano anterior à instauração do processo administrativo, enquanto as pessoas físicas estão sujeitas a multa de 1% a 20%, se administradores, e entre R$ 50 mil a R$ 2 bilhões, no caso dos não administradores. O presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior, José Augusto de Castro, estima os prejuízos em US$ 50 bilhões nas vendas de manufaturados e dois milhões de empregos não criados.

Hegemonia e ideologia

A oligopolização do capital financeiro e seu domínio sobre todos os outros setores teve início com a desregulação e liberalização iniciada com a onda neoliberal que varre a economia global a partir da década de 80. Ao contrário do postulado e até hoje repetido, o processo não desconcentrou nem “democratizou” o mercado, mas o restringiu a um conglomerado restrito altamente interconectado que, evidentemente, ignora os preceitos da Mão Invisível sempre que isso se traduz em “lucros” exorbitantes.

É o que diagnostica com maestria o economista Andrea Fumagalli, em entrevista ao IHU:

O pensamento neoliberal fundamenta-se no conceito de neutralidade da moeda e na suposição da perfeita competição nos mercados financeiros. Na verdade, os mercados financeiros não são imparciais e neutros, mas expressão de uma hierarquia bem precisa: longe de serem concorrenciais, escondem uma pirâmide que vê, na parte superior, poucos operadores financeiros controlando mais de 65% de fluxos globais e, na base, uma miríade de pequenos investidores e operadores desempenhando uma função passiva. Tal estrutura permite que poucas empresas tenham capacidade de atingir e afetar a dinâmica do mercado. As agências de rating (amiúde em conluio com as financeiras) ratificam, de modo instrumental, decisões oligárquicas, tomadas de tempos em tempos.

Com tal farsa, o pensamento neoliberal tenta fazer passar como objetiva, neutra e naturalmente dada, uma estrutura de poder que, ao contrário, objetiva favorecer uma distribuição que vai dos mais pobres para os mais ricos.”

Considerando a duração, escala e magnitude dos roubos praticados por este cartel transnacional, é forçoso constatar um elemento fundamental na equação, aquele que torna estes crimes socialmente aceitos. Falo do conceito de hegemonia. Apesar de teorizada pelo comunista Antonio Gramsci, a hegemonia é muito melhor trabalhada pelos capitalistas.

Por meio de uma imprensa cooptada e um aparelho industrial de cultura massiva são incutidos na sociedade e até mesmo no Estado, os valores condizentes aos interesses do 1%. O consumismo, o individualismo e a alienação são propagados de forma a anestesiar e confundir a sociedade, legitimando a agenda desta oligarquia. A “intelectualidade” mainstream evita tratar de fios desencapados como o cartel do câmbio, mas quando o faz desvia o foco, como é possível ver no artigo publicado no Blog do Noblat, onde o título “Só o BC não viu” dá a entender que o problema é de governo, escondendo a natureza estrutural da problemática.

É também desta forma que se imprime diretrizes políticas a um determinado país. Vejam o exemplo da Operação Lava Jato. Uma investigação que se propunha a desmantelar um cartel de empreiteiras se torna um escândalo que transcende seu âmbito original, tornando-se um espetáculo onde todo um Estado, governo e instituições são submetidos. A conveniência política da Lava Jato é o único fator que expõe o porque se transforma uma junta de juízes e procuradores em estrelas, inflando-lhes o ego a cada arroubo punitivista. Ou outra coisa explicaria a completa desatenção da justiça e sociedade com certos casos de corrupção e o horror frente a outros? Onde estão os vazamentos, colativas de autoridades e manchetes bombásticas, quando o assunto é o cartel transnacional do câmbio?

A corrupção, portanto, não passa de sintoma num sistema onde o valor maior é a acumulação, estando suas elites livres para usarem de seu poder econômico para conseguir mais poder político e assim impôr suas regras. Não serão heróis nem justiceiros que darão conta desta questão urgente, mas uma profunda mudança de valores no sentido da cooperação e solidariedade.

A longa marcha nacional da insensatez

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

Nunca foi tão difícil prever cenários para o país como agora.

Em geral montam-se cenários identificando duas ou três variáveis-chave e um duas possibilidades, no máximo três para cada uma.

Hoje em dia, a quantidade de variáveis indefinidas é inédita.

  1. Quanto tempo mais perdurará a crise política e quais seus efeitos sobre as tentativas de impeachment?

  2. A Comissão de Justiça da Câmara dará ou não aval para o julgamento de Eduardo Cunha pela casa? Dando, haverá votação aberta ou fechada? Sendo fechada, ele será condenado ou absolvido?

  3. Sendo condenado ou absolvido qual será o encaminhamento que dará aos pedidos de impeachment da Presidente?

  4. Com a prisão de Delcídio Amaral, qual será a solução de continuidade das articulações do governo?

  5. No festival de delações em curso, por quanto tempo ainda serão blindadas as lideranças da oposição? Se Aécio Neves e José Serra forem engolfados pelas delações, como ficará a oposição?

  6. Quais os desdobramentos para a situação – e para Lula – de uma eventual delação de Delcídio Amaral?

  7. Que outros políticos ou Ministros do STF foram mencionados por Delcídio nos demais grampos que ainda não foram divulgados?

  8. Saindo o pacote fiscal, em quanto tempo se recompõem as finanças públicas?

  9. Não saindo, como estará a situação dos estados a partir de abril, quando cessam os efeitos da arrecadação do IPVA?

  10. O fator Dilma: qual o seu fôlego para recompor a governabilidade em caso de aumentou ou redução da crise política?

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Desse conjunto vasto de alternativas têm que emergir duas saídas para a crise:

  1. Recomposição da base de apoio político permitindo aprovar uma saída fiscal.

  2. Dilma Rousseff começar a governar.

Essa barafunda de alternativas mostra nitidamente o tamanho da crise institucional.

O Congresso converteu-se em um arquipélago de grupos sem rumo e sem liderança. O mesmo ocorre com os diversos partidos políticos, alguns na defensiva, outros na ofensiva, mas todos prisioneiros de interesses imediatos e paroquiais.

A exposição das vísceras do presidencialismo de coalisão não poupa ninguém, nem governo nem oposição.

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Por outro lado, todo o aparato judicial – Ministério Público, Polícia Federal e tribunais em geral – não parecem dispostos a nenhum tipo de trégua, alguns claramente aliados com a mídia, outros inibidos pelo chamado clamor das ruas.

O destempero da Ministra Carmen Lucia, do STF, é uma demonstração clamorosa de que o show midiático penetrou em todos os poros do poder.

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Daqui para a frente, há que se aguardar e iniciar a contagem regressiva para dois eventos.

O primeiro, é a calmaria de fim de ano, com o recesso parlamentar. A segunda são  os efeitos do vácuo fiscal em 2016.

Os estados conseguem garantir o primeiro trimestre com a arrecadação do IPVA. A partir de abril, a crise fiscal pode bater pesado nos estados e municípios. Muitos deles serão incapazes de pagar a própria folha.

Se não se conseguir virar o ano com perspectivas otimistas mínimas, as comportas do desemprego serão abertas.

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Não se sabe o que poderá interromper essa marcha da insensatez. Uma hora cairá a ficha geral para interromper essa marcha da insensatez. A incógnita é quanto mais a crise terá que se aprofundar para se chegar ao bom senso.

Desastre social teria sido menor sem espetáculo para a televisão

Por J. Carlos de Assis

Foto: Colégio Web

As investigações da Lava Jato revelaram, por trás da corrupção real, a corrupção de caráter de seus próprios autores que, por vaidade ou presunção, atropelam com prisões ilegais princípios mais elementares de Justiça e direitos consagrados dos cidadãos, como habeas corpus, presunção de inocência e julgamento com o devido processo legal. Estamos na mais aberrante situação de ditadura do Judiciário, tão detestável quanto a ditadura militar, e pior que ela pois fica sob o véu da legalidade.

Não é legítimo o poder invocado pelo Judiciário do Paraná, sob cobertura do Supremo, para criar legislação tópica no lugar de seguir a lei geral. Seus executores se superpõem ao Legislativo e ao Executivo quando, por exemplo, usam de subterfúgios para justificar prisões por tempo indeterminado com óbvio propósito de arrancar dos moralmente torturados alguma forma de delação. Isso não é Justiça. É arbítrio. Em qualquer país civilizado chama-se ditadura. Ou justiça do Cádi, como ensinou Max Weber.

Já escrevi que quem decreta prisão em flagrante de suspeito por ter apontado em declarações gravadas ilegalmente sua intenção de corromper quatro ministros do Supremo teria de tê-lo tratado ou como louco fanfarrão sem crédito, ou como potencial colaborador numa delação premiada. Por caminhos tortuosos, os ministros suspeitos deram crédito apenas à parte da gravação que falava numa fuga rocambolesca, cobrindo a si mesmos como a toga dos novos intocáveis e se escondendo por trás da situação de autoridade.

Justiça do Cádi, segundo Weber, “não conhece qualquer julgamento racional”. É a matriz do direito consuetudinário anglo-saxônico, diferente de nossa matriz romana, racional. Atende apenas ao arbítrio do juiz, não raro sob influência da opinião pública. Isso é particularmente assustador numa democracia de massas. Nesta, “a opinião pública é a conduta social nascida de ´sentimentos´ irracionais. Normalmente, ela é encenada, ou dirigida, pelos líderes partidários e pela imprensa”. No nosso caso, podemos dizer pela imprensa, a serviço de uma certa ala do poder político.

Deixo muito claro que aplaudo a parte criminal legal da Operação Lava Jato. Mas não posso concordar com a virtual paralisação da Petrobrás e da cadeia de petróleo, com a destruição de grandes construtoras brasileiras e de centenas de milhares de empregos, e com o comprometimento de toda a economia brasileira, lançada numa contração este ano que pode chegar a 5%. Se tivesse sido feita com maior discrição, sem a conotação de investigação-espetáculo, a operação poderia chegar aos mesmos resultados criminais, sem prejudicar a economia e sem atropelar a legalidade.

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José Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

Banco dos BRICS anuncia primeiros projetos

Via Sputnik Brasil

Abril de 2016 será um mês importantíssimo para o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. Será o mês da assinatura do primeiro pacote de projetos da entidade, disse o seu vice-presidente, Vladimir Kazbekov.

Kazbekov, de nacionalidade russa, participou da cerimônia de abertura da cúpula da mídia dos países-membros do grupo BRICS (grupo informal composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A cúpula acontece em Pequim e marca mais um passo na consolidação do espaço midiático — e, pelos vistos, econômico — do grupo.

“Nos próximos meses, nós enfrentamos um grande trabalho, vista a necessidade de formar o pessoal do banco, de elaborar os primeiros projetos. É uma tarefa muito grande e séria, que precisa ser realizada para que possamos, até finais de abril [de 2016], preparar para assinatura o primeiro pacote, que conterá pelo menos um projeto de cada das partes”, ressaltou Kazbekov,

O vice-presidente do banco destacou que a Rússia e a Índia já apresentaram os seus projetos, o projeto brasileiro está chegando “um dia desses”.

O Novo Banco de Desenvolvimento ainda não está funcionando. Está em uma última etapa da constituição, mas o funcionamento da entidade é iminente, fato que é confirmado por vários especialistas internacionais. Por isso, “apesar de o banco não estar operando ainda, existe um grupo de trabalho temporário” que está examinando os projetos, frisou o representante russo.

Yuan abre passo

Vladimir Kazbekov destacou uma das ideias mais populares recentemente na economia internacional: intercâmbio em moeda nacional, sem recurso ao dólar estadunidense. Neste sentido, o vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento acha que o yuan renminbi, “moeda do povo” da China, seria uma ótima opção para começar.

“Claro, tendo em conta a estabilidade da moeda chinesa e do volume do mercado de dívida chinês, eu acredito que a entrada no mercado chinês para fazer empréstimos em yuans será um dos primeiros passos para garantir a criação dos fundos do Novo Banco de Desenvolvimento”, disse Kazbekov.

O yuan já teve várias experiências, que foram qualificadas de positivas, de uso duplo com o rublo russo, em regiões fronteiriçãs entre a Rússia e a China, em 2005.

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS foi anunciada na cúpula do grpo em Fortaleza, no Brasil, em 2014. Em 2015, a ideia se solidificou e o banco obteve uma sede, em Xangai (China). O principal objetivo da entdidade será financiar projetos de infraestrutura nos países-membros do grupo BRICS e em países emergentes.

O porrete e o vira-lata

Por Mauro Santayana | Via Brasil 247

Todo dia acordo no lado errado do capitalismo. Foto: Street Art

No momento em que se levantam, novamente, as vozes do neoliberalismo tupiniquim, exigindo uma rápida abertura comercial do Brasil para o exterior, e o PMDB inclui, em seu documento Uma Ponte para o Futuro, a necessidade do Brasil estabelecer acordos comerciais com a Europa e os EUA, lembrando a iminência e a imposição “histórica” do Acordo Transpacífico, e em que mídia tradicional segue com sua insistência em defender como modelo a ridícula Aliança do Pacífico, a União Européia – depois de enrolar, durante anos, nas negociações com o MERCOSUL – parece que vai simplesmente “congelar” as negociações entre os dois blocos nesta sexta-feira.

A razão é clara.

Por mais que se esforcem os vira-latas tupiniquins, fazendo tudo que os gringos querem, oferecendo quase 90% de liberação de produtos, os protecionistas europeus simplesmente se recusam a concorrer com o Mercosul na área agrícola – justamente onde somos mais competitivos.

E, além disso, como se não bastasse, a UE como um todo, para dificultar, hipocritamente, ainda mais o fechamento de um acordo, exige o equivalente a uma rendição total da nossa parte:

A liberação de quase 100% dos produtos e livre acesso, para suas empresas, como se nacionais fossem, a setores como serviços de engenharia e advocacia e ao gigantesco mercado de compras governamentais brasileiro, de dezenas de bilhões de dólares.

O recado é óbvio:

Não adianta ficar ganindo e mendigando com olhar pidão, para ter atenção ou uma migalha, porque não vamos ceder um centímetro, e, mesmo que vocês façam tudo, tudo o que queremos, poderão não ganhar nada em troca, está claro?

Como lembramos outro dia, grandes potências impõem acordos comerciais, e os pequenos países os assinam.

Nações que não tem uma indústria tão desenvolvida como a nossa, como a Argentina, ou outras, que, com salários miseráveis, se transformaram em mera linha de maquila, tendo prejuízos no comércio exterior, apesar de trabalharem como burros de carga montando produtos destinados a terceiros mercados, como o México (vide O México e a América do Sul), não tem outra saída a não ser se associar a outros países (esse é o projeto do Brasil para a América do Sul, por meio do Mercosul e da UNASUL) ou assinar acordos comerciais desvantajosos, para se integrar, subalternamente, à economia mundial.

Países maiores, com grandes mercados consumidores reais ou potenciais, como a China, preferem fechar suas economias durante anos, dedicando-se a desenvolver seu mercado interno, a indústria e a tecnologia, abrindo seletivamente seu território a empresas estrangeiras e cobrando um alto preço para quem quisesse ter acesso a ele, para depois se impor, comercialmente, ao mundo.

A pergunta é a seguinte:

Vamos nos atrelar, como um mero vagão de commodities, ao trem puxado pela Europa e os Estados Unidos, onde sempre seremos tratados, apesar de nossos eventuais progressos, como um povo de segunda classe, ou, em nossa condição de oitava economia do planeta, vamos tentar estabelecer um projeto próprio e soberano, de longo prazo, como fazem outras potências intermediárias do nosso tipo, como a China, a Rússia e a Índia, que, aliás, não têm – nenhuma delas – acordos de livre comércio com a Europa ou os EUA?

Tentar emular, abjetamente os outros, e lamber o sapato alheio é fácil.
Difícil é trabalhar para erguer – assumindo a missão e o sacrifício – no quinto maior território do mundo – uma nação justa, forte, e independente, e legá-la, como fizeram em outros países que muitos no Brasil admiram e “copiam”, como um estandarte de honra e de prosperidade, para os nossos filhos.

 

Duas decisões extemporâneas, um ano depois

Por Hélio Silveira | Rio de Janeiro, 27/11/2015

Levy e Dilma. Foto: Estadão

Em 27/11/2014 publicamos o artigo “Duas decisões extemporâneas: Será a oficialização da deflação e recessão global? no Blog dos Desenvolvimenistas.

Comentava-se duas notícias relevantes, uma externa e a outra interna:

Externa: A decisão da OPEP, em 27-11-14, de manter a oferta do petróleo.

Interna: A Presidente Dilma ao apresentar seu trio econômico: Ministro da Fazenda; do Planejamento e o Presidente do Banco Central anuncia aumento dos juros e um forte ajuste fiscal. Comentei que as perspectivas eram negativas, pois, tal qual 2011, ao não perceber que a situação econômica externa/interna já era de recessão, em ambas as ocasiões promoveu aumento de juros e corte de despesas.

Comentaremos, então, os principais fatos econômicos de 2015:

Vemos que a economia mundial continua em sua trajetória de recessão, desde 2008, caminha para o 8º ano de baixo crescimento, apesar das políticas monetárias de afrouxamento de liquidez e juros baixos nas principais economias centrais. A liquidez beneficia a valorização/manutenção dos valores dos ativos – o índice S&P 500 de 27/11/14 à 27/11/15 valorizou 1%, enquanto o desemprego se mantem firme na maior parte do mundo.

De fato, tornou-se regra manter política monetária frouxa e política fiscal austera, sendo a resultante o baixo crescimento e manutenção do desemprego, gerando, por sua vez o desajuste social e político.

Em janeiro de 2015, conforme nossa previsão, a queda da cotação do petróleo, provocou queda e deflação de preços nos principais países. Como resposta, não restou aos bancos centrais aumentaram suas políticas de afrouxamento de liquidez. o que teve como consequência o aumento do dólar (manchete do relatório Itau BBA : “BCs aliviam, Brasil na contra mão”).

As commodities, diante de um choque deflacionário do petróleo, também sofrem um processo de reajuste. De fato, medidas pelo Índice CRY/Bloomberg de 01/12/14 à 27/11/15 as commodities caíram 29%.

Comparemos as colocações das nossas previsões, um ano depois:

Choque deflacionário por causa do petróleo:

“2014, 41 anos depois do choque de 1973 portanto, os principais países da OCDE, lutam contra a recessão e a deflação e recebem este golpe que constitui um choque deflacionário no principal insumo (custo) global”

Vejam a Cotação do Petróleo Brent até agora: US$ 70 em 27/11/14 e US$ 45 em 27/11/15, queda de 36%.

Previsão para o Dólar e Economia dos EUA em 27/11/14: 

“O dólar possivelmente se fortalecerá o que os forçará a manter os juros negativos por muito tempo, podendo ainda ter de retomar o quantitative easing, afrouxamento quantitativo, a única política que fazem, obviamente destinada ao 1%.”

Variação da Cotação do Dólar Index: 88,41 há um ano atrás e agora – 100,05, alta de 13%. A alta dos juros pelo Fed esperada para meados de 2015, foi postergada para 9/15, depois em 10/15 e agora é esperada para 12/15, de maneira muito reduzida e de forma muito cautelosa, não sendo descartada a volta do quantitative easing se necessário, por conta de um possível risco de desarranjo por conta do endividamento bancário e corporativos dos países asiáticos em especial a China. O Fed projeta o crescimento de 2% do PIB (contra 2,4% de 2014) e se preocupa com a elevação do nível de desemprego.

Mais recentemente, com o desempenho do 3º trimestre, em termos anuais de 2,1% o crescimento anual em relação aos três trimestres de 2014 é de 2,2%, abaixo do crescimento de 2014 de 2,4%.

O Fed continua preocupado com o nível da inflação anual 0,2% (em outubro de 2015) abaixo da inflação de 2014 – 0,80%.

Previsão para a Economia do Japão em novembro de 2014:

“O Japão, forte consumidor de petróleo, luta para enfraquecer o iene a fim de criar inflação no mercado interno e recebe um choque deflacionário dessa magnitude.”

A Inflação (IPC) do Japão em nov/14 (índice mensal anualizado) foi de 2,38%; em set/15= 0,00%. Seu crescimento do PIB em 2014 foi de 0,0%; em 30/out o BOJ rebaixou sua estimativa do PIB de 2015 de 1,70% para 1,2%, sendo a taxa de crescimento em setembro/2015(3º trimestre)= – 0,2%; anualizado = – 0,8% – (acesse esses dados aqui) .

Previsão para a Zona do Euro em novembro de 2014:

“A União Europeia até outro dia estava sendo estrangulada pelo gás russo que passa pela Ucrânia. Agora, minimizam este obstáculo mas enfrentarão outro, a deflação intensificada por mais esse choque.”

A Inflação anual da Zona do Euro em dez/14= – 0,02%; em set/15(anualizada)= 0,03%.

Crescimento do PIB da Zona do Euro em 2014=1,3%; Taxa de crescimento em setembro/2015(3º trimestre)= 0,3%; anualizado =1,6% (acesse esses dados aqui). A Zona do Euro, respondeu ao aumento do afrouxamento da liquidez, apesar da queda da cotação do petróleo, com ligeiro aumento da inflação e do crescimento do PIB.

Previsão para China:

“China, também preocupada com a queda dos preços internos, recebe este choque deflacionário.”

Inflação IPC em dez/14= 1,6%; em set/2015(Dez 14 a set 15 (anualizada) = 0,13%- (acesse esses dados aqui). Crescimento do PIB da China em 2014=7,4% previsão do Banco da China para 2015 de 7,1% para 7% . E a do FMI de 6,8%. Crescimento do PIB em set/2015(3º trimestre)= 1,8%; anualizado= 6,9% .

A China em seu processo de afrouxamento de liquidez produziu um forte financiamento de operações em bolsa de valores, criando uma onda especulativa onde o Índice Shangai Composite  encerrou 31/12/14 em 3.235 pontos, alcançou o pico de 2015, em 11/junho, com 5.178 pontos ou alta de 60%. A “bolha” estourou e em 25/agosto (75 dias após), o Índice atingiu a mínima ao atingir 2.851 pontos ou queda de 45%. Hoje, fechou em 3.436.

Outro fato relevante foi a desvalorização do Iuan, em 11 e 12/agosto, o Governo Chinês desvalorizou sua moeda em 3,5% surpreendendo o mundo.

Previsão para a Índia:

“A Índia possivelmente se beneficiará da queda do petróleo, já que é altamente dependente do insumo e luta contra uma inflação renitente e preços internos elevados do setor de alimentação.”

Inflação anual pelo IPC em dez/14= 5,86%; em set/15(acumulada e anualizada)= 5%.

Crescimento do PIB da Índia em 2014=7%; Taxa média do crescimento até ago/2015 anualizado =7% - (acesse esses dados aqui). Então, a Índia manteve seu forte ritmo de crescimento e, ajudada pela queda do preço do petróleo, teve uma pequena queda no nível inflacionário.

Previsão para o Brasil:

“Dilma, como em 2010, comete o mesmo erro estratégico. Enquanto o mundo inteiro teme a deflação (em 2010 era o início da recessão, mas com commodities ainda inflacionadas, ela aumenta consistentemente a SELIC de 10% para 12%). Ao apresentar seu trio principal da equipe econômica nos “premia” com um extemporâneo e desastrado arrocho fiscal e mais aumentos de juros, no mesmo dia da decisão da OPEP.

As perspectivas são negativas diante deste desarranjo.”

Infelizmente, a realidade se confirmou. Ao não atentar para as condições econômicas, tanto interna como externa, já deterioradas apresentando forte sintoma de desaquecimento de nossa Economia, o trio econômico, de forma ortodoxa e insensata, ao adotar políticas pró-cíclicas, como o corte do crédito dos bancos oficiais, corte de gastos públicos e impostos, aumento da Selic de 11,15% (novembro/14) para 14,25%(novembro/15), a atualização agressiva dos preços e tarifas defasadas promoveu um forte choque de custos. Diante desse desarranjo, nossa taxa de câmbio, por tanto tempo anestesiada pelos maiores juros do mundo, se depreciou fortemente. Estes fatores em nossa Economia oligopolizada só podem resultar em alta inflação e desemprego. O PIB, previsto para este ano de 2015, terá uma redução de 2,6% (ou mais de acordo com as fontes) a inflação caminha para os 10% a.a. e o desemprego além dos 8%.

A atividade produtiva, que já vinha desaquecendo durante o 2º semestre de 2014, estancou. Nossas duas principais empresas, a Petrobrás e a Vale, que representam uma boa parte do PIB, ainda sofreram de situações indesejadas, tanto de natureza jurídica como de acidentes provocados por falha de conservação e manutenção provocando infelizmente: mortes e desastres ambientais. Isto tudo contribuiu para a desestruturação do nosso contexto econômico. A resultante só pode ser conflito no campo político e insatisfação social.

A solução lógica e sensata diante deste quadro só poderia vir de um consenso político liderado por um(a) Estadista e um grupo de Conselheiros respeitáveis da sociedade civil. Que ao entender a gravidade do contexto, tanto interno como externo, propusesse um Plano Emergencial Político e Econômico para superar este impasse. Lembramos que todo esse contexto interno desagradável também está inserido no contexto internacional maior, onde observamos com temor os fatos sociais e fricções políticas que ocorrem no continente europeu e oriente médio. Tudo isso faz parte logicamente do arranjo perverso instaurado no pós-2008, onde para os 1% sobram afrouxamento de liquidez e para os 99% a austeridade fiscal, desemprego, choro e ranger de dentes.

Diante deste quadro, não nos atrevemos a fazer más previsões para os próximos anos, só nos resta clamar por lógica e sensatez…