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“Os crimes não são explicados pela variável ‘idade’”: Entrevista com Vitor Amorim de Angelo

Por Rennan Martins | Vila Velha, 24/06/2015

O ano de 2015, marcado pela ascensão de um Congresso Nacional dos mais conservadores da história brasileira. Com a Câmara presidida por Eduardo Cunha, o que se vê é o avanço e apoio a propostas controversas e retrógradas, tais como a terceirização, o Parlashopping, a dita “cristofobia”, e, como não poderia deixar de ser, a redução da maioridade penal.

Prevista para ir a plenário no próximo dia 30, a PEC 171 teve relatório aprovado que prevê a redução da maioridade de 18 para 16 anos nos casos de crime hediondo. A despeito dessa restrição, o que se vê são congressistas apartados da sociedade e surdos as opiniões dos especialistas da área, travando um debate guiado basicamente por clichês de programa sensacionalistas.

Diante dessa conjuntura, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou o professor e doutor em ciências sociais, Vitor Amorim de Angelo. Conhecido nas redes sociais após memorável aula de política dada em pleno estúdio da Rede Globo, Vitor nos lembra que 70% dos países fixam a idade penal em 18 anos, diz que a imprensa espetaculariza os menores infratores a fim de fazer lobby pela redução e ressalta que entre 1990 e 2013 aumentamos em 500% a população carcerária sem ao menos chegar perto de reduzir os índices de criminalidade.

Confira a íntegra:

No que consiste a proposta de redução da maioridade penal em discussão no Congresso? Por que há tanta aderência a ela na sociedade?

Consiste em reduzir a idade mínima para a imputação de pena a quem cometer determinados atos tipificados como crimes, para os quais existe alguma pena. Hoje, esta idade é de 18 anos. Antes disso, o adolescente pode ser responsabilizado, mas não julgado como um adulto. Ou seja, entre 12 e 18 anos, no Brasil, o adolescente pagar, sim, por suas infrações. Mas jamais com cadeia, o que ocorre apenas depois dos 18. A proposta em discussão é baixar essa idade para 16 anos. Em linhas gerais, boa parte da sociedade – mais de 80%, segundo as últimas pesquisas – tem a percepção de que isso diminuiria, automaticamente, os alarmantes índices de criminalidade. Há várias origens para essa percepção. A cobertura midiática sobre determinados casos em que efetivamente há participação de menores de 18 anos contribui muito nesse sentido. A capa de uma edição recente da revista Veja é um exemplo acabado dessa superestimação, mediatizada, da contribuição do adolescente para o aumento da criminalidade no Brasil. Contudo, quando observamos o percentual dessa participação, então vemos que uma parte insignificante desse grupo etário está envolvido em crime contra a vida, como homicídio e latrocínio. Segundo dados da ONU, são precisamente 0,013%. Nada. A décima parte de 1%. O problema é que essa exceção é diuturnamente associada à impunidade. Pega-se crimes bárbaros, que existem, claro; generaliza-se esses crimes; e, na sequência, afirma-se que esse adolescente ficará impune – esta é uma palavra-chave – por que o Estatuto da Criança e do Adolescente não permite ao juiz tratá-lo como o criminoso que a sociedade enxerga nele.

No que se baseiam os defensores da redução da maioridade? Que dados dispõem para defendê-la?

Vitor Amorim de Angelo, em entrevista ao ES TV

Aqui, a questão não são dados, mas percepções. Por onde quer se que se olhe, objetivamente falando, não haveria nem porquê discutir o assunto. Se fosse apenas por dados, a redução da maioridade não passaria, como possivelmente ocorrerá. Mas, em se tratando de percepção, acredita-se que isso será eficaz para diminuir a criminalidade no país. Não só não será, como trará outras consequências agora ignoradas ou secundarizadas. Por exemplo, o aumento de uma população carcerária já excedente em milhares de presos.

Existe alguma relação entre a idade penal e os índices de violência? Qual fatia de criminalidade é realmente proveniente dos menores?

Em estatística se aprende isso: uma coisa é correlação, outra é causalidade. Pode-se correlacionar quaisquer variáveis possíveis. Todavia, o quanto uma explica a ocorrência da outra é uma questão totalmente diferente. Os crimes não são explicados pela variável “idade”, menos ainda pela idade que vai de 16 a 18 anos, como se, pegando essa faixa, a lei fosse punir aqueles que cometem boa parte dos crimes e ficam impunes, diminuindo, dessa forma, a criminalidade no país.

Os países que reduziram a maioridade penal obtiveram que resultados? Como se situa o debate sobre essa questão em termos internacionais?

Não, não obtiveram. Mais de 70% dos países do mundo fixam a maioridade em 18 anos, como o Brasil, hoje.

Que efeitos a redução da maioridade teriam sobre o sistema penal e carcerário? O que aconteceria com o novo contingente de jovens incorporado?

Seriam incorporados à população carcerária. Hoje, nós temos mais de 500 mil presos no Brasil. De 1990 a 2013, essa população cresceu mais de 500%. No entanto, os crimes não diminuíram. Estamos entre os países que mais prendem em todo o mundo. A redução da maioridade só vai acelerar este processo, sem que tenhamos conseguido resolver outros, como, por exemplo, as condições em que este cidadão é preso. Sim, porque ele é cidadão, não um animal. Até pelos animais se tem mais respeito. Nossos presos, porém, são invisíveis. O que faremos é jogar parte dos nossos adolescentes nesse submundo, invisível, que é o das prisões, cujo índice de reincidência, hoje, é superior a 70%. Não se imagina que dali sairá alguém transformado para melhor, certo?

As políticas punitivistas são eficazes na redução dos índices criminais? Qual a relação entre elas e a reincidência?

Isoladamente, não. Ou seja, simplesmente prender, não. Nesse sentido, as se ignorar todas as outras questões em jogo, produzimos um sistema falido cuja reincidência é altíssima. O que torna este sistema caro e inútil, a bem da verdade, tendo em vista o que produz para a sociedade.

Quais países conseguiram, efetivamente, reduzir a criminalidade entre a juventude? Que políticas adotaram?

Países como a Alemanha, por exemplo, tem adotado cada vez mais práticas socioeducativas do que punitivas, pura e simplesmente. O caminho para o Brasil seria esse. Aprofundar o ECA, em vez de tomá-lo como instrumento de impunidade, é que seria a alternativa para o Brasil.

Petrobras, sua história e a soberania: Entrevista com Wladmir Coelho

Por Rennan Martins | Curitiba, 08/06/2015

A Operação Lava-Jato desencadeou uma série de mudanças no rumo da gestão da Petrobras. Independente ou não da intencionalidade, o fato é após o escândalo a estatal tomou um rumo ainda mais pró-mercado, algo deveras providencial a certos interesses internacionais.

O enfraquecimento das políticas de desenvolvimento e soberania ora apoiadas na Petrobras deu-se num contexto nebuloso em que uma campanha midiática denuncia os mal feitos ao mesmo tempo que apresenta como única solução intensificar as medidas entreguistas e privatistas.

A fim de situar o debate em termos diversos, porém fundamentais para compreensão do real propósito da empresa, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Wladmir Coelho, Historiador, Mestre em Direito, Conselheiro e pesquisador da Fundação Brasileira de Direito Econômico, e autor do blog Política Econômica do Petróleo. Coelho faz uma importante retrospectiva histórica do petróleo e sua relação com o desenvolvimento econômico brasileiro, relembra que os interesses contrários a soberania nacional não descansam e é taxativo quando aponta que o modelo de partilha é também uma forma de financiamento do oligopólio transnacional do petróleo.

Confira a íntegra:

Como você caracteriza a gestão petista da Petrobras? A retórica nacionalista é condizente com a prática?

A criação da Petrobras representou uma ruptura com o modelo econômico de base colonial encarnando, esta empresa, os sentimentos de independência econômica cuja representação maior encontra-se na figura de Tiradentes.

A Inconfidência de Minas Gerais passou para a história como um movimento em defesa das recursos minerais – simbolizado no ouro – permanecendo este aspecto como espécie de fundação do nacionalismo no Brasil.

Assim qualquer movimento de base nacionalista em nosso país, necessariamente, apresenta em sua estrutura a defesa da utilização do ouro, minério de ferro ou petróleo como forma de alcançar a independência econômica.

No início do século passado Arthur Bernardes, Pandiá Calógeras, Monteiro Lobato e outros tantos quando falavam em nacionalismo entendiam a necessidade de uma legislação voltada para o controle brasileiro do setor mineral.

Veja que a Petrobras resulta de uma longa história iniciada no final do século XVIII e sua criação efetivou-se graças a mobilização de diferentes setores da sociedade que assumiam a condição de herdeiros deste sentimento nacionalista e, desta forma, o dever de concretizar a independência econômica do Brasil.

A Petrobras nasceu da mobilização popular contra o controle dos grupos internacionais que impediam a exploração do petróleo nacional. O povo brasileiro, de forma ousada, criou uma empresa para quebrar um gigantesco oligopólio que controlava, ou ainda controla, a produção mundial.

Sabemos que estes mesmos grupos internacionais jamais desistiram de desviar a Petrobras de sua missão. Sempre agiram manipulando dados e informações a começar pelo relatório Link cujo teor apontava a inviabilidade comercial da exploração do petróleo em terra no Brasil.

A ditadura militar, ao internacionalizar a Petrobras e criar o chamado contrato de risco, seguido do governo de Fernando Henrique Cardoso que jogou no lixo 300 anos de lutas pela emancipação econômica do Brasil, anulando o monopólio estatal do petróleo, representam o tamanho da disputa que ainda temos a nossa frente.

Quanto ao atual governo observo que o discurso nacionalista em defesa da Petrobras foi abandonado. O ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, advoga sem o menor pudor a redução do chamado conteúdo nacional – e vejam que nossa Constituição desde 1995 apresenta-se bastante flexível em relação a definição de empresa nacional – isso sem falar do desespero de sua excelência em efetivar o mais rápido possível os leilões.

Vamos juntando ao tema o chamado desinvestimento cujo verdadeiro nome é venda de partes da Petrobras. A todo momento surge o fantasma da entrega de campos de produção em território nacional para a satisfação dos lucros de acionistas residentes do outro lado do Atlântico. Esta prática não apresenta características nacionalistas.

Completo dizendo o seguinte: Desde o início da discussão a respeito da forma de exploração do pré-sal apontei o grave erro presente no modelo que oferecia a Petrobras a condição de operadora ficando, todavia, com apenas 30% de controle dos blocos. A empresa nacional transformou-se em financiadora dos oligopólios.

A Petrobras não foi criada para “concorrer” com os oligopólios petrolíferos, sua missão não é oferecer ganhos ao mercado internacional de ações e sim garantir à autossuficiência nacional protegendo a economia dos ataques especulativos representados na condição pendular dos preços do petróleo.

De que forma o pré-sal insere o Brasil no mapa geopolítico? Quem são os maiores interessados em nossas reservas petrolíferas?

 

Wladmir Coelho

As reservas petrolíferas brasileiras sempre estiveram na mira dos oligopólios do petróleo. No início do século XX a Standard Oil controlava, em nosso país, vastas áreas com potencial produtivo e graças à existência de uma legislação permissiva que impedia a pesquisa e consequente exploração do petróleo brasileiro.

A estratégia para impedir a exploração do petróleo nacional completava-se quando inúmeros geólogos, quase sempre ligados a Standard Oil, negavam através de relatórios “científicos”, a existência de reservas petrolíferas, em condição de exploração comercial, em território brasileiro.

Temos ainda a conhecida subserviência da grande imprensa nacional aos interesses dos oligopólios internacionais. Monteiro Lobato, ao defender a criação de empresas nacionais de exploração petrolífera, foi atacado duramente em artigos do jornal O Globo, nos quais era acusado de louco a inconsequente. Também não podemos nos esquecer que durante muitos anos a ESSO brasileira foi responsável pelo programa jornalístico de maior audiência no rádio, o Repórter Esso.

Voltando a geopolítica devemos lembrar que no período em questão os Estados Unidos eram os maiores produtores de petróleo do mundo e lutavam para garantir o preço que atendia aos interesses, principalmente, da Standard Oil. Preço e volume da produção, naturalmente.

Este fato como sabemos sofreu alterações nos anos 70 quando verificou-se uma crescente dependência dos EUA do petróleo originário do Oriente Médio. Este aspecto nunca agradou os responsáveis pela elaboração da política de defesa estadunidense, preocupados com a instabilidade política da região. Instabilidade, diga-se de passagem, decorrente, em grande parte, em função da manutenção de governos favoráveis aos Estados Unidos.

Somado ao fato instabilidade política em nossos dias a quantidade de petróleo encontrado em áreas de fácil acesso, os chamados campos tradicionais, revelam evidente queda restando a exploração nas profundezas oceânicas ou regiões de clima extremo como o Ártico.

O curioso deste momento consiste no retorno dos Estados Unidos a condição de grande produtor mundial de petróleo graças a polêmica exploração do xisto. Verifica-se com clareza uma movimentação dos EUA no sentido de controlar áreas com potencial produtivo.

Vejamos o caso do Canadá cuja economia encontra-se em franca desorganização em função de sua recente dependência da exportação do petróleo de xisto – algo próximo dos 90% de sua produção – aos Estados Unidos.

Devemos ainda acrescentar o México, as tentativas de isolamento da Venezuela acusada de ameaça a segurança nacional dos Estados Unidos. Qual ameaça? Simples. A Venezuela levanta-se contra os acordos comerciais que ignoram a soberania nacional.

O pré-sal de forma evidente encontra-se nos planos da chamada segurança energética dos Estados Unidos. No mínimo temos uma enorme quantidade de petróleo nas profundezas do oceano e sua eventual exploração representa o poder de intervenção no mercado internacional e consequente aumento do poder econômico brasileiro.

A utilização deste patrimônio como produto de simples exportação atenderá diretamente aos interesses de sempre e diminui o peso, a importância geopolítica do Brasil. Precisamos utilizar melhor o poder econômico decorrente da exploração petrolífera e para este fim devemos repensar o formato atual da Petrobras.

Como a Operação Lava Jato está influenciando a Petrobras? Quais são os impactos mais significativos?

Petróleo e corrupção sempre andaram juntos. As maiores empresas petrolíferas compraram governos e quando encontravam alguma resistência oficial promoviam, ou promovem, golpes de estado, assassinatos.

Esta prática inclui os países de origem, bastando para este fim verificar a ligação entre petróleo e indústria da guerra nos Estados Unidos ou Inglaterra, acrescidos os recentes escândalos ligados a exploração do xisto cujo resultado nefasto encontra-se nos prejuízos ao meio ambiente e a saúde dos moradores de áreas de exploração.

A Petrobras foi criada em oposição aos métodos mercadológicos dos oligopólios, portanto não deveria permanecer na condição de mais uma empresa ou concorrente destas. Este projeto é uma triste herança da ditadura acrescida da ficção neoliberal dos anos 90.

O tempo todo a grande imprensa aponta como “salvação” da Petrobras a sua total submissão as regras do chamado mercado. Não, este caminho mostrou-se prejudicial aos interesses do povo brasileiro.

A submissão da Petrobras ao mercado implica na aceitação pura e simples de sua associação aos interesses dos oligopólios que em nome do lucro passam a ditar a política econômica da empresa. A Petrobras nasceu para combater este modelo.

É possível que se aproveitem da repercussão dos escândalos para promover políticas privatizantes?

Os inimigos da Petrobras nunca descansaram. Com ou sem escândalo a empresa sempre foi atacada, ora como incompetente, argumento usado desde a ditadura quando foi introduzido a primeira quebra do monopólio através dos contratos de risco ou “dinossauro” estatal, mesmo que nunca tenha funcionado nesta condição, que impedia a livre concorrência e consequente preços baixos para o combustível. Este discurso foi moda nos anos 90 durante o período de Fernando Henrique Cardoso.

No fim do ano passado, uma comissão de procuradores foi aos EUA e assinou com o Banco Mundial um acordo de cooperação nas investigações da Lava Jato. Este tipo de movimentação é comum? É possível dizer que o Banco Mundial tenha influência no andamento dos processos?

O Banco Mundial constitui instrumento poderoso para a implantação e manutenção das políticas neoliberais. Sua atuação contra a Petrobras é bastante conhecida. Um exemplo:

O processo de privatização da Petrobras nos anos 90 recebeu amplo apoio do órgão financeiro em questão. Diga-se de passagem o financiamento do gasoduto da Bolívia ao Brasil apresentava como condição primeira a presença dos oligopólios de sempre, naturalmente para beneficiarem-se da estrutura construída com o endividamento dos dois países sul-americanos.

Há diferenças significativas entre o regime de partilha e o de concessões? Em sua visão, qual é o mais vantajoso e por que?

Os dois entregam o petróleo. Os dois reduzem a Petrobras a condição de financiadora dos oligopólios de sempre e apresentam em sua base as formas para garantir a simples exportação de matéria prima.

Quando o governo adotou o modelo de partilha apresentou como a melhor forma do mundo associando este ao sucesso da exploração petrolífera da Noruega. Naquele país, afirmava o antigo colaborador da ditadura Edison Lobão, o Estado criou uma empresa para administrar os contratos e aplicava ou guardava os recursos para uso futuro em um fundo de ações.

Não foi bem assim. A Noruega, durante o auge da exploração no Mar do Norte, estatizou todo o processo e aplicou, sem destinar ao mercado de ações, os recursos diretamente e principalmente em políticas de bem-estar social.

Somente no início dos anos 2000, como forma de garantir o apoio da União Europeia a exploração do petróleo do Ártico, disputado inclusive com a Rússia, a Noruega aceitou compartilhar parcela da exploração nacional com empresas privadas.

O mais vantajoso para o Brasil é suspender o modelo atual e em questão o seguinte: Qual a vantagem de destinarmos trabalho e recursos financeiros para criarmos uma indústria de exportação de matéria prima?

Considerando que a cada dia se torna mais barato o uso de outras fontes de energia, você vê o petróleo perdendo seu valor estratégico? A soberania sobre as jazidas continuará sendo questão de alta relevância?

Sabemos todos da existência de fontes alternativas de energia, todavia a utilização destes recursos representam novos desafios. Um exemplo: A transformação de alimentos como o milho ou soja em matéria prima para combustíveis.

Temos ainda uma estrutura empresarial e industrial totalmente dependente do petróleo, que apesar do evidente declínio de áreas tradicionais para exploração ainda apresenta-se como forma mais viável, do ponto de vista econômico, como forma de energia.

Devemos ainda acrescentar que o petróleo é também matéria prima para parcela considerável das mais variadas formas de indústria. Temos petróleo em quase tudo atualmente.

Agora, precisamos entender que um país no estágio histórico e econômico como o Brasil deve pensar ou repensar sua matriz energética considerando novas ou alternativas fontes de energia. Contudo este fato não reduz a relevância do controle das áreas com potencial petrolífero.

Em relação as tensões internacionais. Em que regiões se espera um acirramento pelo controle das jazidas de petróleo e derivados? Que sinais desses conflitos já se manifestam?

Primeiro as regiões disputadas economicamente entre a China e Estados Unidos. Neste caso temos os países da Ásia Central. Existe ainda a tensão da China, principalmente, com o Japão relativa ao controle e acesso ao Mar do Sul da China, uma região com grande potencial petrolífero.

Nesta disputa pelo controle da Ásia Central temos ainda os interesses da Rússia cuja influência nesta região relativa a exploração petrolífera tem origem na era soviética, e devemos acrescentar nesta disputa o Irã um grande fornecedor da China que constitui limites com as áreas disputadas no centro asiático.

Os sinais destes conflitos manifestam-se, dentre outros, no processo de recriação ou rearmamento do exército japonês, na política de isolamento da Rússia, além dos acordos comerciais envolvendo os países do Pacifico.

Quanto a América Latina, verifica-se a clara oposição dos Estados Unidos aos países que apresentam resistências a assinatura dos famosos acordos comerciais com cláusulas de renúncia a soberania.

Que posição o Brasil deveria assumir, daqui pra frente, em relação a Petrobras e ao tabuleiro geopolítico internacional?

Não há outro caminho a não ser a retomada do projeto que criou a Petrobras. Defendo o retorno do monopólio da empresa desta vez apoiado na estatização do processo. A Petrobras empresa de capital mista revela-se fragilizada e neste ponto vou recorrer novamente à história:

O processo que resultou na criação de uma empresa mista detentora do monopólio não foi o desejo dos brasileiros durante a campanha do Petróleo é Nosso. A defesa de uma empresa estatal estava presente, inclusive, através do projeto dos empresários de Minas Gerais, elaborado a partir dos estudos do professor Washington Albino e intitulado Tese Mineira do Petróleo.

Neste projeto revelava-se com clareza a criação de uma empresa petrolífera estatal como elemento-chave para a garantia da autossuficiência energética e utilização do poder econômico decorrente desta exploração em beneficio do projeto nacional de desenvolvimento.

Diante dos problemas que hoje vivemos incluindo os fatos sobre corrupção, relações internacionais e crise econômica mundial devemos, no mínimo, criar condições para a discussão da questão do petróleo no Brasil.

Crise hídrica. Uma fatalidade climática ou ela foi construída? Entrevista especial com Humberto Miranda

Via IHU

“Se considerarmos o mesmo nível de ‘exportação de água’ hoje, para uma população de 200 milhões de habitantes, estaríamos exportando 560 litros de água/ano por habitante”, diz o economista.

A partir da crise hídrica que já afeta alguns estados brasileiros, devem ser feitas as seguintes questões: “Por que chegamos a esse ponto? A quem interessa a crise da água? É uma fatalidade climática ou ela foi construída?”, sugere Humberto Miranda em entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail.

Ele lembra que embora a agricultura tenha demandado um uso expressivo de água com a expansão do agronegócio, a “chamada ‘crise hídrica’, por seu turno, tem mais a ver com o urbano: indústria e urbanização”.

De acordo com ele, o consumo de água industrial e o uso doméstico apresentam uma situação mais complexa, porque estão relacionados “às formas de produção intensivas em recursos naturais (desperdiçam/degradam) ou às características específicas de um segmento em franco crescimento, como o de bebidas alcoólicas e não alcoólicas”. Para fabricar apenas um litro de bebida, por exemplo, são gastos entre 1,5 e 3 litros de água.

Contudo, pontua, a expansão urbana é o ponto “mais grave de todos” quando se analisam as causas do desperdício de água. “A questão central está no ritmo de crescimento das manchas urbanas. Esse é um dado mais estrutural e que não se resolverá tão cedo, mas poderá ser o calcanhar de Aquiles da crise das águas urbanas”, frisa. E acrescenta: “O avanço do capital imobiliário, através da valorização/especulação do uso/ocupação dos solos e na disputa pela localização vantajosa contribui vigorosamente para essa expansão”.

Humberto Miranda é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS, mestre e doutor pelo Instituto de Economia da Universidade de Campinas – Unicamp. Atualmente é professor da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico – CEDE e desenvolve estudos e pesquisas na área de Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente, com ênfase na questão regional e urbana.

Confira a entrevista:

IHU On-Line – Como o fato de a economia brasileira ser uma economia que depende da exportação de commodities impacta na crise hídrica que estamos vivendo?

Humberto Miranda - Numa matéria do jornal O Globo de 11/09/2012, intitulada “Brasil exporta cerca de 112 trilhões de litros de água doce por ano”, fez-se uma estimativa aterradora. Se considerarmos o mesmo nível de “exportação de água” hoje, para uma população de 200 milhões de habitantes, estaríamos exportando 560 litros de água/ano por habitante. Só que não adianta individualizar o problema. Essa informação se refere ao setor agroexportador, mas não sabemos ainda o quanto isso tem afetado ou impactado o abastecimento humano. Também não se trata de cada um de nós reduzirmos o consumo individual, que tem efeito no curto prazo. Isso ajuda até certo ponto, mas os limites são mais dramáticos. Trata-se de perguntar: por que chegamos a esse ponto? A quem interessa a crise da água? É uma fatalidade climática ou ela foi construída?

IHU On-Line – Qual é o custo para o Brasil da exportação de água via commodities? Qual é o impacto econômico desse processo de exportação de água?

Humberto Miranda - Vamos, em primeiro lugar, separar as coisas. A questão da exportação de commodities tem a ver com a forma como o Brasil foi resolvendo a vulnerabilidade externa, fragilizado pela falta de crescimento industrial e com sérios gargalos na infraestrutura. Dada tal exigência exportadora, fomos expandindo o agronegócio. Só que as características de nossa agricultura tropical obrigam um elevado gasto de água/hectare em determinadas culturas que necessitam de irrigação em larga escala e em mais intervalos de tempo. Uma técnica conservacionista como a do Plantio Direto, utilizada na cultura de grãos (soja), em que há maior preocupação conservacionista dos solos e das águas, foi introduzida muito tempo depois da substituição do modelo de modernização agrícola subsidiado pelo Estado que vigorou nos anos de 1970 e entrou em crise nos 1980.

Aquele modelo era desperdiçador de recursos naturais e incentivava o desmatamento provocando sérios processos de erosão dos solos. Foi um modelo que intensificou a degradação ambiental (poluição, desmatamentos, perda de solos e águas, etc.). Com a crise da dívida externa e as restrições à expansão do financiamento (e do crédito agrícola em particular), houve uma redução dos subsídios na agricultura e isso fez com que o custo aumentasse para o empresário rural. A solução seria construir um modelo mais conservacionista. Todavia, a preocupação não era necessariamente com os impactos ambientais, mas como a queda dos investimentos e prejuízos ao empresário rural, que viu sua lucratividade cair rapidamente.

“A transposição do Rio São Francisco, por exemplo, seria hoje um problema ou uma solução?”

Pós-1990, com a ascensão da chamada “agricultura verde”, os agricultores foram convertendo seus sistemas de produção. O apelo conservacionista é funcional ao novo modelo de agricultura quanto à diminuição do uso de defensivos (“venenos”) nas lavouras, mas não perdeu suas características centrais de ser concentrador de terra, degradador de recursos naturais e promotor de relações de trabalho precárias ou de baixa qualificação/remuneração. Essa é a questão. Não é apenas porque a água é utilizada para produzir soja ou para matar a sede do gado ou como um insumo, etc., mas porque ela é disputada por grupos econômicos (agroindustriais) poderosos e desperdiçada por falta de controle público.

O mercado olha para o produto e não para o manejo dos solos e das águas. Por exemplo, a soja orgânica no Brasil é certificada e valorizada no mercado internacional, mas as técnicas de manejo ainda prejudicam o solo (revolvem o solo com mais frequência e há maior perda superficial dos solos que no Plantio Direto). No caso da criação de animais, estimulada pelo poder dos grandes frigoríficos dos grupos JBS (FriBoi) e Marfrig, muitos córregos estão sendo fechados impedindo que as águas alimentem os rios. Os rios estão sobre perdas de água. Essa água é “exportada” nas carnes e nos grãos. Esta é a situação do Centro Oeste hoje, que sofre uma progressiva e acelerada degradação em seus recursos naturais. Ninguém pergunta: quanto de água se exporta? Então, a questão é anterior à crise da água atual. Então é um problema que já existia e que foi agravado nos anos 2000 em diante.

IHU On-Line – O crescimento rápido e desordenado das populações urbanas, marcado pelas desigualdades sociais e também pela negligência com o meio ambiente, pode agravar a crise hídrica? De que maneira?

Humberto Miranda - A chamada “crise hídrica”, por seu turno, tem mais a ver com o urbano: indústria e urbanização (expansão urbana). As estimativas, em geral, dizem que o uso doméstico, o industrial e o agrícola da água, respectivamente, são de 10%, 20% e 70%. Tenho chamado atenção para o fato de que, no caso da agricultura (emineração), esse uso é muito concentrado por usuário e o nosso modelo de agricultura irrigada precisa ser totalmente revisto, tanto no que tange à legislação ambiental/recursos hídricos quanto à eficiência econômica e ao acesso/uso privilegiados dos grandes demandantes. A transposição do Rio São Francisco, por exemplo, seria hoje um problema ou uma solução? A meu ver, seria um problema, porque as nascentes do rio no Sudeste (Minas Gerais) foram comprometidas pela falta de chuvas e de manejo inadequado das águas.

No caso do consumo de água pela indústria e do uso doméstico (serviços de abastecimento), a situação é mais complexa porque está relacionada às formas de produção intensivas em recursos naturais (desperdiçam/degradam) ou às características específicas de um segmento em franco crescimento, como o de bebidas alcoólicas e não alcoólicas. Para fabricar um 1 litro de bebida não alcoólica, por exemplo, gastam-se entre 1,5 e 3 litros de água. Gostaria de ver os critérios de eficiência ambiental e certificação sendo aplicados nessa indústria, porque elas têm garantia de atendimento à sua demanda firme de água. Existem medidas de caráter econômico-ambiental que poderiam perfeitamente ser usadas nesses casos.

Expansão urbana e especulação imobiliária

O caso do modo de expansão urbana é o mais grave de todos. Desperdício de água na cidade pelos grandes usuários (grupos econômicos e bairros de elite) é algo comum: lavagem de calçadas e de automóveis com água potável deve ser tratado como crime ambiental. São segmentos das classes médias sem compromisso ambiental que cometem esses atos, são empresas sem noção do valor dos recursos hídricos, que precisam ser multadas para mudar de comportamento. O uso humano/residencial da água não é respeitado. Quando a Sabesp diminui a pressão da água, penaliza a população pobre em benefício dos usuários mais abastados ou com recursos para ir à justiça cobrar o que é de direito de todos, mas que está sendo individualizado. Porém, a questão central, a meu ver, está no ritmo de crescimento das manchas urbanas. Esse é um dado mais estrutural e que não se resolverá tão cedo, mas poderá ser o calcanhar de Aquiles da crise das águas urbanas.

“A nossa crise não é propriamente de falta d’água, mas do colapso do sistema de abastecimento”

As cidades de hoje crescem além de seus limites e tornam-se conturbadas rapidamente. Os incentivos ao uso do transporte individual em detrimento do público também estimulam essa expansão, inclusive porque boa parte da classe média alta mora em condomínios fechados, nos limites da cidade ou afastados destes. O avanço do capital imobiliário, através da valorização/especulação do uso/ocupação dos solos e na disputa pela localização vantajosa contribui vigorosamente para essa expansão. Empresas como MRV e Cyrela ganham mais na valorização dos terrenos que nas construções em si. O prédio ou a casa construída é seu custo fixo barateado ao máximo. O terreno sujeito à especulação é seu superlucro.

Nesse processo, a população está perdendo o direito à cidade e o acesso ao abastecimento de água também. Deslocada para longe do lugar de trabalho, torna-se ainda mais carente de serviços de infraestrutura. Tanto é que, proporcionalmente, o ritmo de crescimento da mancha urbana tornou-se mais acelerado que o ritmo de crescimento da população urbana, que continua superconcentrada nas grandes cidades.

Com o avanço da especulação imobiliária na última década, o espraiamento da cidade puxado pela valorização dos terrenos favorece os impactos aos solos e às águas. A ampliação da infraestrutura e dos serviços é garantida desigualmente. Por isso que a cidade cresce expulsando moradores para perto de mananciais, piorando as condições de captação de água em quantidade e qualidade adequadas. Estima-se que só em São Paulo um milhão de pessoas ocupem essas áreas de preservação permanente. Culpam os ocupantes, mas não culpam os interesses especulativos que não desocupam prédios vazios nos centros urbanos em flagrante desrespeito à função social da propriedade.

Judiciário

O judiciário é incompetente nessa questão porque privilegia o direito de propriedade em detrimento do que estabelece o Estatuto da Cidade e a Constituição Federal. Dessa maneira, o crescimento das áreas de ocupação irregular e a dificuldade de ampliar a rede de abastecimento d’água contribuem para o espraiamento da cidade e isso encarece o investimento público e compromete a rede de águas que não dá conta. Há sucateamento, vazamentos, falta de manutenção, “gatos”, etc. As parcerias público-privadas nem sempre dão conta da cidade como um todo e privilegiam áreas com maior retorno econômico.

Por outro lado, nossa rede urbana é muito concentrada. Grandes cidades localizadas em áreas metropolitanas e outras grandes cidades situadas fora do espaço metropolitano tornaram-se um problema. Grosso modo, em cerca de 610 grandes cidades brasileiras estão concentrados 130 milhões de brasileiros, aproximadamente, sendo que, nas demais, quase cinco mil cidades, concentram-se algo em tono dos 70 milhões de brasileiros. A questão do abastecimento de água nas cidades onde as manchas urbanas se expandem num ritmo maior se tornou extremamente grave e a dificuldade de realizar saneamento ambiental (água e esgoto) em cidades dispersas num vasto território encontra dificuldades.

A maioria dos municípios nem sequer acessa recursos financeiros disponíveis (verba federal) do fundo de saneamento. Poucos usam o dinheiro. Ademais, apesar de haver uma legislação própria para a gestão de áreas metropolitanas, não se veem iniciativas governamentais para lidar com o problema das “águas urbanas”, falta d’água, preservação de mananciais ou combate a enchentes de forma efetiva. A cisterna que capta água da chuva foi uma solução de suma importância para as áreas rurais do Nordeste, mas nenhuma iniciativa apropriada às cidades foi proposta. São iniciativas individuais que predominam ao estilo “salve-se que puder”. Na verdade, seria preciso criar uma novainfraestrutura urbana para lidar com o problema das águas, bem como reduzir a impermeabilização dos solos urbanos, aumentar as áreas verdes para, ao menos, amenizar a situação e, no caso de São Paulo, parar de fazer viadutos nas zonas de vale e realizar a abertura de córregos. São medidas que não exigem novas construções, mas que não são feitas. Os governos atendem aos interesses das empreiteiras, mas não dos cidadãos.

IHU On-Line – Quais as diferenças entre crise hídrica e crise de abastecimento? Em que momento a crise hídrica pode nos levar a uma crise de saneamento?

Humberto Miranda - O problema desencadeado agora no estado de São Paulo, em especial, é mais uma crise de abastecimento do que crise hídrica. Não falta água no Brasil. A idade da pedra, como disse o economista Delfim Netto, não acabou por falta de pedra. A nossa crise não é propriamente de falta d’água, mas do colapso do sistema de abastecimento, da má gestão e das “aventuras hídricas” da Sabesp, que protegeu seus investidores e não a população (usuários). A Sabesp acabou de distribuir dividendos para seus acionistas nos EUA em meio à crise. Atribuir o problema a uma fatalidade (estiagem prolongada) é uma forma de evitar as explicações.

Esta crise é, a meu ver, eminentemente urbana, porque é de abastecimento humano nas áreas territorialmente mais concentradas de pessoas e que sofrem com o ritmo de crescimento da mancha urbana onde ela ocorre de maneira mais dramática. Se do ponto de vista do desperdício ou do gasto, a agricultura e a indústria utilizam muito mais água que o consumidor residencial, do ponto de vista urbano a situação é mais grave e pode levar a conflitos sérios porque interesses econômicos estão sendo privilegiados em detrimento do abastecimento da população, salvo os casos em que a água deve ser garantida prioritariamente, como nos hospitais. Portanto, o problema tem suas implicações urbanas como as centrais, além do fato de nossa agricultura ser mesmo “exportadora de água”.

A crise interna, a Petrobras e o BRICS: Entrevista com J. Carlos de Assis

Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/05/2015

Parceria estratégica Brasil-China é a solução para a economia nacional?

A vinda de Joaquim Levy e sua ortodoxia para a Fazenda significa continuidade da política econômica petista, não mudança. Os juros estratosféricos visam tão somente atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos, e a dinâmica da inflação no Brasil é ligada aos preços administrados e ao alto grau de indexação. O ajuste fiscal e a Operação Lava Jato podem custar 5% do PIB, um desastre recessivo.

Essa é a visão do jornalista, economista e professor da Universidade Estadual da Paraíba, José Carlos de Assis. Em entrevista ao Blog dos Desenvolvimentistas, além de analisar o cenário econômico nacional, falamos de geopolítica e conjuntura global.

Ativo na imprensa alternativa, onde publica artigos regularmente, Assis considera que a partilha é o regime certo para o pré-sal e taxa de “oportunismo deslavado” as recentes iniciativas que visam flexibilizá-lo. Enxerga nessa ofensiva forte influência de interesses externos, e indica uma parceria estratégica com a China como a saída para a recuperação da economia brasileira.

Confira a íntegra:

Como explicar o giro ortodoxo da política econômica do governo? Que efeitos ainda serão sentidos por conta do ajuste?

Não há giro. Há uma continuidade. Em matéria de política econômica o Governo Dilma não é muito diferente do de Lula. Lembram-se do Palocci? Qual a diferença entre o Levy e ele? A situação conjuntural é que mudou. Antes, nos aproveitamos do boom das commodities e acumulamos grandes superávits comerciais; agora, estamos numa terrível situação no balanço de pagamentos devida a uma política cambial estúpida, que vinha de antes. De fato, neste primeiro trimestre, o déficit em conta-corrente acumulado em 12 meses atingiu US$ 101,6 bilhões. É um desastre anunciado.

As perspectivas são negras, se os atores da economia real, empresários e trabalhadores, não se juntarem para convencer o setor público que, se não houver intervenção dele, vamos para uma contração da economia da ordem de 5 a 6% – 0% de carry over do crescimento zero em 2014, 2% negativos do efeito Levy e menos 3% do efeito Lava Jato, que está sendo devastador.

Enquanto se aperta a economia real, os juros sobem e o serviço da dívida vai às alturas. Essas decisões são contraditórias? A economia feita com os cortes será perdida nos gastos financeiros?

A única coerência é ditada pela situação externa: na medida em que se tem déficits em conta-corrente elevadas, o Governo tem que atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos. Como desestruturamos nossa indústria e o boom das commodities acabou, resta-nos apenas aumentar os juros. E aumentar os juros, obviamente, nada tem a ver com controle de inflação. É para atrair dinheiro especulativo e assim fechar a conta externa.

Por que a subida dos juros parece não fazer efeito sobre a inflação? Haveriam métodos diferentes pra combater a subida dos preços?

A política de juros altos, como disse, não tem nada a ver com a inflação. É um remendo para atrair dinheiro especulativo a fim de fechar o balanço de pagamentos. Enquanto isso a inflação vai evoluindo segundo sua própria lógica, que é a dos preços administrados e da indexação generalizada, mesmo que nem toda formal.

Em paralelo ao recuo econômico, cresce a aderência a mudanças nas regras de exploração do pré-sal e na política de conteúdo nacional. O que desencadeou esse processo? Que interesses se beneficiam disso?

É o mais deslavado oportunismo por parte das forças externas e internas que querem destruir a correta política de petróleo. É repulsivo que um sujeito como o senador Serra, que fez a lei dos genéricos, esteja nessa.

Procedem as alegações de que a Petrobras não tem caixa pro montante de investimentos necessários no pré-sal?

É verdade, não tem caixa. Mas tem patrimônio para suportar um nível de endividamento muito maior do que tem, favorecendo a retomada dos investimentos. O correto seria o Tesouro passar recursos para o BNDES, e o BNDES os repassar à Petrobrás, para que a empresa escape das injunções bancárias e de agências de risco, que não passam de agentes do charlatanismo mais deslavado.

José Carlos de Assis

Quais serão as consequências da eventual “flexibilização” do regime de partilha e da política de conteúdo nacional?

Em ambos os casos, seria uma perda injustificável por parte dos que defendem o emprego e as empresas internas. Não falo de empresas nacionais, pois só subsistem algumas poucas, mas de empresas internas, ou seja, instaladas no Brasil, gerando emprego e renda aqui dentro. A política de conteúdo nacional é fundamental para sua sobrevivência, e a sobrevivência de centenas de milhares de empregos, já que as internacionais pressionariam para trazer tecnologia e mão de obra de fora.

Enquanto isso, o cenário internacional é de acirramento de conflitos por recursos estratégicos. De que forma se insere a nossa crise interna no tabuleiro geopolítico?

Boa parte das pressões exercidas sobre a Petrobrás se deve a razões geopolíticas. Os EUA e seus acólitos europeus tentam atrair a Rússia para uma guerra na Ucrânia, a fim de (tentar) estrangulá-la economicamente, o que torna a política brasileira de adesão aos BRICS uma atitude hostil: o amigo de meu inimigo é meu inimigo. Sem o correto entendimento dessa questão, não entenderemos jamais as pressões americanas e europeias para nos impedir de consolidarmos os BRICS, usando inclusive forças políticas internas consideráveis, sobretudo por meio do PSDB.

Quanto as iniciativas do BRICS de fundar um Banco de Desenvolvimento e criar seu arranjo de reservas contingentes. Como essas propostas afetam a arquitetura político-econômica global?

Vai ser a primeira mudança significativa na arquitetura financeira internacional criada pelos anglo-americanas em Bretton Woods em seu próprio interesse. Em outras palavras, criará condições para o início da execução de políticas monetárias soberanas nos BRICS e nos demais países em desenvolvimento, tendo em vista o apoio a ser dado a políticas econômicas de interesse nacional.

Quais seriam os passos mais apropriados para o Brasil frente a esse quadro?

Sem dúvida nenhuma, um acordo estratégico com a China, em bases produtivas, não comerciais. Estou participando de um esforço nesse sentido, pelo qual proporemos à China que nos abra uma linha de crédito considerável para financiarmos produção destinada à própria China, de metais e de commodities e produtos agrícolas industrializados, ancorada em grandes financiamentos também em energia e logística. Esperamos ter a proposta pronta para a chegada do Primeiro Ministro chinês, com uma grande comitiva de empresários, a partir do próximo dia 18.

A crise brasileira é fruto de conflitos globais: Entrevista com Flavio Lyra

Por Rennan Martins | Vila Velha, 29/04/2015

Potências do G7 em verde, e potências ascendentes do BRICS, em vermelho.

A crise que o Brasil atravessa só pode ser compreendida em sua totalidade conjugando o panorama nacional ao internacional. As contradições entre núcleos de poder internos, influenciados por poderio externo, acirram o conflito político e econômico desencadeado pela crise de 2008 e evidenciado desde a última corrida eleitoral.

Por trás do combate a corrupção da Operação Lava Jato estão interesses globais, alinhados as potências tradicionais declinantes, que visam a preservação da hegemonia por meio da sabotagem ao BRICS, da sujeição da Petrobras as regras dos cartéis transnacionais e do desmantelamento da indústria tecnológica e empreendedora brasileira.

Essas são as interpretações do economista Flavio Lyra, da escola da Unicamp. Em seu artigo A crise brasileira e os núcleos de poder que a determinam, Lyra traça as linhas gerais dessa importante tese. Pela relevância e originalidade da análise, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou-o mais uma vez. Nela, Flavio aprofunda o diagnóstico da crise que assola o país, vê o ajuste fiscal como um perigo por conta da capacidade de desmobilização das forças populares, e sugere um pacto entre o empresariado nacional e os trabalhadores como forma de combater as forças que querem impôr um modelo eternamente dependente ao Brasil.

Confira a íntegra:

De que maneira a crise internacional afetou o modelo conciliatório praticado até o fim do ano passado? Que respostas seriam adequadas para manter e ampliar a inclusão social?

Antes de tudo, a crise interrompeu o “boom” de exportação de produtos primários, deflagrado pelo surpreendente crescimento da China. O Brasil conseguira acumular saldos positivos nas contas externas em apenas três anos. A partir de 2008 começaram a aparecer saldo negativos, que somente cresceram nos anos seguintes. Por seu turno, a indústria sofreu as consequências negativas do país manter a moeda apreciada visando controlar a inflação e favorecer a entrada líquida de capital estrangeiro para financiar o déficit das contas externas. O crescimento alcançado nos governos de Lula e a melhoria na distribuição da renda, somente foram possíveis em decorrência dessa conjuntura externa excepcional, porém com o altíssimo custo de aprofundar perigosamente o processo de desindustrialização que já vinha da década de 90.

Muito embora, tenha havido no período um forte afluxo de capital externo, a influência sobre a taxa de formação de capital foi muita pequena, mostrando que não dá para esperar que o capital estrangeiro seja fundamental para o crescimento da formação de capital no país. Para alguns autores, esse papel pode ser até negativo, pois aumenta a desnacionalização da economia quando vai para a atividade produtiva e extrai poupança interna quando se trata de capital meramente rentista.

O calcanhar de Aquiles da economia brasileira tem sido a baixa taxa de formação de capital, que está intimamente associada ao caráter rentista-financeiro do modelo de política econômica vigente, o chamado tripé, cujo funcionamento é um obstáculo ao financiamento do investimento produtivo público e privado, pois o sistema econômico é direcionado para a acumulação financeira através das altas taxas de juros que sobrecarregam as empresas produtivas e o setor público.

No quadro atual o mais provável é regridam os resultados alcançados no campo da inclusão social, pois o custo do ajuste que está sendo realizado, vai ser jogado nas costas dos trabalhadores, seja pela redução do gasto social, seja pela perda de poder de compra dos salários. Enquanto não for possível ao sistema de poder que gira em torno da classe trabalhadora se rearticular para poder influenciar as decisões do governo, será praticamente impossível retomar o crescimento e ampliar o processo de inclusão social.

A rearticulação do sistema de poder que gira em torno da classe trabalhadora, somente poderá acontecer em disputa ferrenha com o sistema de poder que gira em torno do sistema financeiro, dos setores tradicionais da indústria, das empresas estrangeiras e do agrobusiness. Essa disputa é que vai determinar o que acontecerá no país em termos de reforma política, especialmente da política econômica.

Nessa disputa, ainda não está inteiramente claro de que lado se situará o sistema de poder das grandes empresas nacionais, em que se incluem as grandes empreiteiras, que têm nítidos interesses no aumento da formação de capital produtivo do país, mas que têm interesses antagônicos em relação ao sistema de poder da classe trabalhadora. Um pacto, entre estes dois grupos de interesse seria indispensável para o país voltar a crescer e prosseguir com o processo de inclusão social. No momento, está havendo uma aliança tática entre estes núcleos, pois os interesses imediatos de ambos foram colocados sob ameaça com a campanha contra a corrupção desencadeada pelo sistema de poder que gira em torno do sistema financeiro privado, articulado com o sistema de poder externo, que gira em torno dos Estados Unidos e de seus aliados europeus.

A curto e mesmo a médio prazos não é possível vislumbrar formas de manter e ampliar a inclusão social, pois o modelo de política econômica vigente é notoriamente contrário à retomada do crescimento e ao aprofundamento da política social do governo. No melhor dos casos, será possível salvar algumas conquistas sociais alcançadas. Os salários reais deverão ser nitidamente prejudicados pela política econômica, no quadro de recessão que se desenha daqui pra frente.

Quais condições impediram o governo de prosseguir na agenda econômica progressista? De onde e como surgiu essa interdição?

A mudança na conjuntura internacional, com a desaceleração do crescimento chinês e o crescimento da competição no mercado de produtos industriais impediram a continuação do crescimento econômico e a continuação das políticas de inclusão social. Não sem razão, o crescimento industrial e a formação de capital foram bastantes afetados. A tentativa do governo Dilma de aumentar a taxa de investimento, mediante a ação de financiamento ao investimento privado pelo BNDES e a redução do superávit fiscal, para aumentar o investimento público, não produziram os resultados esperados. Os dois outros sistemas internos de poder, viram-se, então, diante da oportunidade de deslocar do governo o sistema de poder da classe trabalhadora. Para tanto, contaram com o apoio do sistema de poder externo, que gira em torno dos Estados Unidos e de seus aliados europeus, com a mobilização da grande imprensa e de setores da polícia federal e do poder judiciário.

Desencadearam, então, uma ampla campanha contra o governo e seu partido, que acabou afetando negativamente o clima negócios e neutralizando as ações do governo voltadas para a elevação da taxa de formação de capital, num quadro já desfavorável, em decorrência da redução dos preços e da taxa de expansão da demanda externa de produtos primários. A campanha eleitoral para a sucessão presidencial, voltada para concentrar no governo e no PT a culpa pelos atos de corrupção identificados nas relações entre a PETROBRAS e as empreiteiras, somente contribuiu para aumentar o clima de pessimismo entre os empresários e acelerar o processo de reajuste de preços.

Que interesses levam os núcleos externos de poder a promover/apoiar a desestabilização do Brasil? Como estes núcleos se articulam aos internos?

Flavio Lyra

O sistema externo que gira em torno dos Estados Unidos e da Europa têm basicamente quatro tipos de interesses, que são determinantes para o apoio a ações desestabilizadoras em relação ao Brasil. Primeiro, bloquear a consolidação do sistema externo de poder que começa a tomar forma em torno dos BRICS, especialmente da China, que representa uma séria ameaça a hegemonia do dólar na economia internacional. Segundo, desarticular o grupo dos países do MERCOSUL-UNASUL, que tende a acompanhar o Brasil nas disputas de poder no âmbito internacional. Terceiro, assegurar-se no tocante ao controle do petróleo da Venezuela e do Brasil. Por último, afastar competidores do mercado de construção pesada, no qual as empreiteiras do Brasil têm se destacado interna e externamente.

O sistema externo, que gira em torno dos Estados Unidos tem fortes articulações internas com o núcleo conformado pelas indústrias tradicionais, pelo setor agroexportador, pelo sistema financeiro privado e pelas empresas multinacionais. Este núcleo é defensor da integração dependente da economia brasileira com os Estados Unidos e a Europa, dentro de uma concepção neoliberal, que bloqueia o aparecimento de um novo ator de peso, como Brasil, na economia internacional. Já a articulação interna do sistema dos BRICS se dá principalmente com os segmentos que defendem maior autonomia na política de desenvolvimento do país, articulado em torno dos sistemas de poder da classe trabalhadora e das grandes empresas nacionais, privadas e públicas.

Por que mesmo diante da perda de hegemonia e alto endividamento os EUA e UE não reveem suas posições políticas e econômicas? Há sustentabilidade do arranjo que propõem essas potências?

Essa não é uma questão simples de ser equacionada. Por um lado, a liderança inconteste dos Estados na área militar, no desenvolvimento tecnológico e no controle da moeda internacional, embora ameaçados, ainda têm um papel dominante sobre os destinos da economia internacional. As mudanças que venham a ocorrer nessa área, tenderão a ser lentas e colocam o mundo diante da ameaça sempre presente de guerras de resultados imprevisíveis. Por seu turno, a Europa tem profundas divisões internas que lhe impedem ter uma estratégia comum frente ao mundo. Sem contar que, também se confrontam com contradições com os Estados Unidos, especialmente no mercado internacional.

Os arranjos propostos pelas grandes potências concentram-se essencialmente em manter as condições de dominação existentes no âmbito internacional e de evitar o fortalecimento de novos centros de poder. Daí, as ações baseadas em sanções econômicas que têm utilizado contra países como o Iran, a Rússia e as tentativas de desestabilização de governos que direta ou indiretamente tendam a participar em acordos que possam fragilizar o dólar, como moeda internacional, como é o caso dos BRICS.

Que propostas trazem os BRICS? De que forma essas propostas afrontam a ordem global?

A grande ameaça que o sistema dos BRICS representa para os interesses do sistema de poder que gira em torno dos Estados Unidos e da Europa, tem a ver com a perda de hegemonia do dólar nos mercados internacionais, seja no financiamento do comércio, seja no financiamento de grandes investimentos na infraestrutura. Atualmente, os países carentes de grandes investimentos na infraestrutura, que precisam de financiamento internacional, têm que se submeter às condicionalidades do Banco Mundial, cujo controle os Estados Unidos mantêm com mão de ferro, visando submeter as políticas econômicas desses países aos propósitos da integração dependente do sistema de poder sob a hegemonia daquele país. A política de privatização de empresas estatais no Brasil sofreu forte influência do Banco Mundial.

Por seu turno, o Fundo Monetário Internacional, continua fortemente dependente dos interesses dos Estados Unidos e da Europa. O esforço de maior participação nas quotas do Fundo, por parte de países como os BRICS, até hoje não teve desdobramentos práticos nos órgãos decisórios daquele organismo.

Por último, mas não menos importantes, o dólar como moeda de reserva internacional, constitui um importante instrumento de transferência de renda do mundo para a economia norte americana e um meio eficaz para o financiamento de sua indústria de guerra e dos projetos de desenvolvimento tecnológico associados a essa indústria.

O que desencadeou a cooptação de braços do Estado tido como neutros para a ação política? Não há formas de combater esse aparelhamento?

A influência dos Estados Unidos e dos países europeus nos centros do poder estatal no Brasil é um fenômeno que tem acompanhado nossa vida de longa data. Em certas épocas, essa influência se torna mais forte em função da conjuntura internacional. Não se pode esquecer que no golpe militar de 1964, os Estados Unidos tiveram papel determinante, não só em sua preparação, quanto na orientação das políticas internas subsequentes. Na conjuntura atual, os fato de o Brasil ter um governo considerado de esquerda, mobiliza naturalmente a atenção dos órgãos de segurança dos Estados Unidos e da Europa. Por outro lado, a atitude de maior autonomia dos países da região para a condução de suas políticas internas e externas, representa uma ameaça à hegemonia regional dos Estados Unidos e uma perda de capacidade no controle dos abundantes recursos naturais, especialmente o petróleo. Os acordos militares, de combate ao narcotráfico e de assistência técnica à formação e treinamento de pessoal, têm sido um canal privilegiado para a cooptação de funcionários do Estado brasileiro.

Poderia ilustrar como algo legítimo, que é o combate a corrupção, se torna um instrumento com fins políticos? Como diferenciar?

O combate à corrupção é uma bandeira de fácil manipulação pela imprensa e sempre esteve presente na vida política dos países, especialmente os da América Latina, onde prestou-se eficazmente para fomentar golpes de estado contra governos que se propunham a realizar reformas de cunho social. Ela tem a vantagem de atacar um problema que facilmente mobiliza as pessoas, sem despertar atenção para outras questões muito graves ligadas às desigualdades sociais. Embora a corrupção perpasse todas esferas da vida social, é muito fácil convencer as pessoas que a responsabilidade por sua existência é inteiramente do governo, quando na realidade tanto os poderes Judiciário e Legislativo, quanto a sociedade civil, têm se revelado muito susceptíveis a práticas ilícitas. A corrupção apresenta-se como um fenômeno endêmico em nossas sociedades, especialmente na cooptação de políticos por empresas, através do financiamento de caríssimas campanhas eleitorais. As campanhas contra a corrupção sempre encontram subsídios importantes na realidade e é muito difícil identificar quando seu uso é feito com finalidades políticas.

Quais os sinais de que o grande empresariado compreendeu a ameaça externa? É possível reestabelecer um pacto entre a classe trabalhadora e a indústria nacional?

Desde há bastante tempo existe uma política de reserva de mercado para as grandes empresas nacionais que atuam na siderurgia, na petroquímica, na construção civil e nas indústrias do petróleo e da energia. Essa política permitiu constituir grandes conglomerados produtivos que já estão presentes no mercado internacional, particularmente na América Latina, como competidores de peso das corporações internacionais. Os governos recentes do Brasil buscaram fortalecer esses conglomerados com apoio financeiro, através do BNDES e das políticas de compras no mercado interno, tanto no caso de grandes projetos de investimento no país, como são os casos do programa de construção naval e de exploração de petróleo pela Petrobras, da construção de hidroelétricas e obras rodoviárias e ferroviárias. Também, mediante o financiamento do BNDES na exportação de serviços, em obras importantes de infraestrutura exterior, como o porto de Mariel em Cuba.

Destaque-se, ainda a participação desses grupos no desenvolvimento da indústria de defesa, com projetos importantes na indústria de aviação civil e militar, na construção de submarinos nucleares e de armamentos em geral.

Essas grandes empresas passaram a constituir um dos três sistemas de poder que comandam a economia do país e seus interesses vão na direção de um projeto nacional de desenvolvimento, na contramão do projeto de internacionalização dependente que interessa ao sistema de poder que gira em torno das grandes corporações internacionais dos Estados Unidos e da Europa.

A campanha de combate à corrupção transformou-se, assim, num instrumento funcional para o sistema que gira em torno das grandes corporações internacionais, na medida em que presta-se para três propósitos: a) prejudicar o sistema das grandes empresas nacionais; b) desmoralizar a participação da classe trabalhadora no poder; c) desestimular a participação do Brasil na constituição do sistema dos BRICS, e d) prejudicar o esforço de integração regional com o fortalecimento do MERCOSUL – UNASUL.

O sistema de poder baseado na classe trabalhadora e o sistema de poder baseado na grande indústria vão ser naturalmente forçados a se aliarem por uma questão de sobrevivência, não obstante as contradições existentes entre eles. A questão crucial, neste caso, é a de saber qual sistema comandará o processo.

A reação em marcha no meio político contra a desestabilização do governo é uma indicação clara de que a grande empresa nacional compreendeu a inconveniência dessas ações para seus interesses econômicos. A estagnação econômica que se desenha para os próximos anos vai atuar como fator de estímulo à formação de um pacto entre o sistema da classe trabalhadora e o das grandes empresas nacionais, para a retomada do crescimento, acirrando o conflito interno entre esses dois sistemas e o sistema que gira em torno do setor financeiro e rentista da economia. A questão nacional, pode voltar a ser um ingrediente importante no cenário político do país, tão logo seja superado o clima atual de pressões para a desestabilização do governo.

É possível que a base social do PT se esvaia por conta do ajuste fiscal? Os efeitos dele ainda estão por se manifestar?

Esse é um perigo ostensivo. A incapacidade demonstrada pelo PT de preservar suas fontes de apoio junto aos movimentos sociais e de atuar para contrarrestar o controle dos meios de comunicação pelos segmentos mais tradicionais da elite brasileira, fragilizou bastante o partido, não somente na disputa pela preferência do eleitorado, quanto na afirmação de sua hegemonia sobre os partidos políticos da coalizão governamental. O ajuste fiscal que o governo está sendo obrigado a realizar vai na contramão do fortalecimento de sua base de apoio popular. Os efeitos negativos sobre o bem-estar da população ainda estão por se manifestar em toda sua extensão. A política econômica até agora adotada, não vai permitir a retomada do crescimento e, certamente vai afetar negativamente as conquistas salariais da classe trabalhadora e os benefícios alcançados pelos segmentos mais pobres da população.

Que ações imediatas seriam indicadas para despressurizar o cenário político? As perspectivas atuais são de melhora ou acirramento da crise?

O fortalecimento da aliança tática entre as forças políticas influenciadas pelo sistema de poder da classe trabalhadora e o sistema das grandes empresas nacionais, tem grande chance de atenuar as pressões, desestabilizadoras do governo, curto prazo. O direcionamento dos gastos de propaganda do governo para os segmentos da mídia menos agressivos contra o governo, pode atenuar a campanha de desestabilização vigente. Mas, como a política econômica não oferece perspectivas de retomada do crescimento, tende a prejudicar a classe trabalhadora e o ambiente de crise tende a permanecer, enquanto não seja possível realizar reformas políticas que desloquem o poder do setor financeiro e permitam mudanças na política econômica que sirvam para a retomada dos investimentos produtivos, em detrimento da acumulação financeira. A atual política econômica, centrada no tripé, precisa ser alterada em favor de uma política voltada para o investimento produtivo e a retomada do crescimento.

A guerra termonuclear como possibilidade real: Entrevista com Paul Craig Roberts

Por The Saker | Via Resistir.info

Já há muito queria entrevistar Paul Craig Roberts. Durante muitos anos acompanhei seus escritos e entrevistas e sempre que o lia esperava ter um dia o privilégio de entrevista-lo acerca da natureza do estado profundo dos EUA e do Império. Recentemente, enviei-lhe um email e pedi-lhe uma entrevista e, muito gentilmente, ele concordou. Fico-lhe muito grato por esta oportunidade.

The Saker: Tem-se tornado bastante óbvio para muita gente, se não para a maioria, que os EUA não são uma democracia ou uma república, mas antes uma plutocracia dirigida por uma pequena elite à qual alguns chamam “os 1%”. Outros falam do “estado profundo”. Assim, minha primeira pergunta é a seguinte: Podia por favor gastar algum tempo para avaliar a influência e pode de cada uma das seguintes entidades, uma por uma? Em particular, pode especificar para cada uma se tem uma posição “top” na tomada de decisão, ou uma posição “média” na implementação da decisão na estrutura real do poder (lista sem qualquer ordem específica):

  • Federal Reserve
  • Grande banca
  • Bilderberg
  • Council on Foreign Relations
  • Skull & Bones
  • CIA
  • Goldman Sachs e bancos de topo
  • “100 famílias do topo” (Rothschild, Rockefeller, Dutch Royal Family, British Royal Family, etc.)
  • Israel Lobby
  • Maçons e suas lojas
  • Big Business: Big Oil, Complexo militar-industrial, etc.
  • Outras pessoas ou organizações não listadas acima?

Quem, qual grupo, que entidade consideraria que está realmente no cimo do poder na actual política dos EUA?

Paul Craig Roberts: Os EUA são dirigidos por grupos de interesses privados e pela ideologia neoconservadora que sustenta ter sido escolhido pela História como o país “excepcional e indispensável” com o direito e a responsabilidade de impor sua vontade ao mundo.

Na minha opinião os grupos de interesses privados mais poderosos são:

  • O Complexo militar/segurança
  • Os quatro ou cinco bancos de mega dimensão “demasiado grandes para falirem” e a Wall Street
  • O agronegócio
  • As indústrias extractivas (petróleo, mineração, madeira).

Os interesses destes grupos coincidem com aqueles dos neoconservadores. A ideologia neoconservadora apoia o imperialismo ou a hegemonia financeira e político-militar americana.

Não há imprensa ou TV independente americana. Nos últimos anos do regime Clinton, 90% dos media impressos e da TV estavam concentrados em seis mega companhias. Durante o regime Bush, a National Public Radio perdeu sua independência. Assim, os media funcionam como um Ministério da Propaganda.

Ambos os partidos políticos, republicanos e democratas, estão dependentes dos mesmos grupos de interesses privados para fundos de campanha, assim ambos os partidos dançam para os mesmos mestres. A deslocalização de empregos destruiu os sindicatos manufactureiros e industriais e privou os democratas das contribuições políticas de sindicatos trabalhistas. Naqueles dias, os democratas representavam o povo trabalhador e os republicanos representavam os negócios.

O Federal Reserve está ali para os bancos, principalmente os grandes. O Federal Reserve foi criado como prestamista de último recurso para impedir bancos de falirem devido a corridas bancárias ou retirada de depósitos. O Fed de Nova York, o qual conduz as intervenções financeiras, tem uma directoria que consiste nos executivos dos grandes bancos. Os últimos três presidentes do Federal Reserve foram judeus e o actual vice-presidente é o antigo governador do banco central israelense. Judeus são proeminentes no sector financeiro, no Goldman Sachs por exemplo. Nos últimos anos, os secretários do Tesouro dos EUA e dirigentes das agências regulatórias financeiras foram principalmente os executivos da banca responsáveis pela fraude e pela alavancagem excessiva de dívida que lançaram a última crise financeira.

No século XXI, o Federal Reserve e o Tesouro serviram apenas os interesses dos grandes bancos. Isto tem sido a expensas da economia e da população. Exemplo: pessoas reformadas não tiveram o rendimento de juros durante oito anos a fim de que as instituições financeiras pudessem tomar emprestado a custo zero e ganhar dinheiro.

Não importa quão ricas sejam algumas famílias, elas não podem competir com poderosos grupos de interesses tais como o complexo militar/segurança ou a Wall Street e os bancos. A riqueza estabelecida há muito pode cuidar dos seus interesses e alguns, tais como os Rockfellers, têm fundações activistas que na maior parte trabalham provavelmente em estreita colaboração com o National Endowment for Democracy para financiar e encorajar várias organizações não governamentais (ONGs) pró americanas em países que os EUA querem influenciar ou subverter, tal como se verificou na Ucrânia. As ONGs são essencialmente Quintas Colunas dos EUA e operam sob nomes como “direitos humanos”, “democracia”, etc. Um professor chinês contou-me que a Fundação Rockfeller criou uma universidade americana na China e que ela é utilizada para organizar diversos chineses anti-regime. No passado, e talvez ainda hoje, havia na Rússia centenas de ONGs com financiamento estado-unidense e alemão, possivelmente até 1000.

Não sei se os bilderbergs fazem o mesmo. Possivelmente são apenas pessoas muito ricas e têm seus protegidos em governos que tentam proteger seus interesses. Nunca vi quaisquer sinais de bilderbergrs ou maçons ou Rothchilds a afectarem decisões do Congresso ou do ramo executivo.

Por outro lado, o Council for Foreign Relations é influente. O conselho é composto de antigos responsáveis da política governamental e académicos envolvidos em política externa e relações internacionais. A publicação do conselho, Foreign Affairs, é o principal fórum de política externa. Alguns jornalistas também são membros. Quando fui proposto como membro na década de 1980, fui vetado.

A Skull & Bones é uma fraternidade secreta da Universidade de Yale. Algumas universidades têm tais fraternidades. A Universidade de Virgínia, por exemplo, tem uma e a da Georgia também. Estas fraternidades não têm tramas governamentais secretas ou poderes de domínio. Sua influência seria limitada à influência pessoal dos membros, os quais tendem a ser filhos de famílias da elite. Na minha opinião, estas fraternidades existem para dar status de elite aos membros. Elas não têm funções operacionais.

The Saker: E quanto a indivíduos? Quem são, na sua opinião, as pessoas mais poderosas nos EUA de hoje? Quem toma a decisão estratégica final, em alto nível?

Paul Craig Roberts: Não há realmente pessoas poderosas por si próprias. Pessoas poderosas são aquelas que têm por trás grupos de interesses poderosos. Desde que o secretário da Defesa William Perry privatizou grande parte das funções militares em 1991, o complexo militar/segurança tem sido extremamente poderoso e o seu poder é ainda mais ampliado pela sua capacidade para financiar campanhas políticas e pelo facto de que é uma fonte de emprego em muitos estados. Essencialmente as despesas do Pentágono são controladas pelos fornecedores da defesa.

The Saker: Sempre acreditei que em termos internacionais, organizações tais como a NATO, a UE e todas as outras são apenas uma frente e que a aliança real que controla o planeta são os países ECHELON: EUA, Reino Unido, Canada, Austrália e Nova Zelândia, também conhecidos como “AUSCANNZUKUS” (também são mencionados como a “anglo-esfera” ou os “Cinco olhos”), sendo os EUA e Reino Unido parceiros sénior e os outros três parceiros júnior. Será correcto este modelo?

Paul Craig Roberts: A NATO foi uma criação estado-unidense, alegadamente para proteger a Europa de uma invasão soviética. Seu propósito expirou em 1991. Hoje a NATO proporciona cobertura à agressão dos EUA, bem como forças mercenárias para o Império Americano. A Grã-Bretanha, Canada, Austrália são simplesmente estados vassalos dos EUA assim como a Alemanha, França, Itália, Japão e o resto. Não há parceiros, apenas vassalos. É o império de Washington, nada mais.

The Saker: Diz-se frequentemente que Israel controla os EUA. Chomsky e outros dizem que são os EUA que controlam Israel. Como caracterizaria o relacionamento entre Israel e os EUA – é o cão que abana a cauda ou é a cauda que abana o cão? Diria que o lobby de Israel está no controle total dos EUA ou ainda há outras forças capazes de dizer “não” ao lobby israelense e impor a sua própria agenda?

Paul Craig Roberts : Nunca vi qualquer evidência de que os EUA controlam Israel. Toda a evidência é de que Israel controla os EUA, mas só na sua política do Médio Oriente. Nos últimos anos Israel, ou o lobby israelense, foi capa de controlar ou impedir nomeações académicas nos EUA e a estabilidade no emprego (tenure) para professores considerados críticos de Israel. Israel tem tido êxito tanto em universidades católicas como nas estaduais em travar estabilidades e nomeações. Israel pode também bloquear algumas nomeações presidenciais e tem uma influência vasta sobre os media impressos e da TV. O lobby israelense também tem abundância de dinheiro para financiar campanhas políticas e nunca falha em remover deputados e senadores dos EUA considerados críticos de Israel. O lobby israelense foi capaz de penetrar no distrito negro do Congresso de Cynthia McKinney, uma mulher negra, e derrotá-la na sua reeleição. Como disse o almirante Tom Moorer, Chefe de Operações Navais e Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas: “Nenhum presidente americano pode enfrentar Israel”. O almirante Moore não pôde sequer conseguir uma investigação oficial ao ataque mortífero de Israel ao USS Liberty em 1967.

Qualquer um que critique políticas israelenses, mesmo num espírito colaborativo, é etiquetado como “anti-semita”. Na política, nos media e nas universidades americanas, isto é uma sentença de morte. Você pode ser atingido por um míssil infernal.

The Saker: Qual das 12 entidades de poder que listei acima tem, na sua opinião, desempenhado um papel chave no planeamento e execução da operação “falsa bandeira” do 11/Set? Afinal de contas, é difícil imaginar que isto foi planeado e preparado entre a posse de GW Bush e o 11 de Setembro – deve ter sido preparado durante os anos da administração Clinton. Não é verdade que a bomba de Oklahoma City foi um ensaio para o 11/Set?

Paul Craig Roberts: Na minha opinião o 11/Set foi o produto dos neoconservadores, muitos dos quais são judeus aliados a Israel, Dick Cheney, e Israel. Seu objectivo foi proporcionar “o novo Pearl Harbor” que os neoconservadores disseram ser necessário para lançar suas guerras de conquista no Médio Oriente. Não sei durante quanto tempo antes foi planeado, mas Silverstein obviamente fez parte disto e ele não teve o World Trade Center durante muito tempo antes do 11/Set.

Quanto ao bombardeamento do Murrah Federal Building na cidade de Oklahoma, o general Partin, da Força Aérea, seu perito em munições, preparou um relatório técnico provando para além de qualquer dúvida que o edifício explodiu a partir de dentro, para fora, e que o camião com a bomba foi encobrimento. O Congresso e os media ignoraram este relatório. O bode expiatório, McVeigh, já estava definido e isso foi a única estória permitida.

The Saker: Pensa que as pessoas que dirigem os EUA hoje percebem que estão numa rota de colisão com a Rússia a qual poderia levar à guerra termonuclear? Em caso afirmativo, por que é que eles assumiriam tamanho risco? Será que eles realmente acreditam que no último momento os russos “piscarão” e recuarão, ou acreditam realmente que podem vencer uma guerra nuclear? Não terão medo de que numa conflagração nuclear com a Rússia perderão tudo o que têm, incluindo seu poder e mesmo suas vidas?

Paul Craig Roberts: Estou tão perplexo quanto você. Penso que Washington está perdida no excesso de confiança e na arrogância e está mais ou menos insana. Também há a crença de que os EUA podem vencer uma guerra nuclear com a Rússia. Houve um artigo na Foreign Affairs cerca de 2005 ou 2006 na qual se apresentava esta conclusão. A crença na “vencibilidade” da guerra nuclear tem sido promovida pela fé nas defesas ABM (Anti-Ballistic Missile). O argumento é que os EUA podem atingir a Rússia tão duramente num primeiro ataque antecipativo (preemptive) que a Rússia não retaliaria por medo de um segundo ataque.

The Saker: Como avalia o actual estado de saúde do Império? Durante muito anos temos visto sinais claros de declínio, mas ainda não há colapso visível. Acredita que um tal colapso é inevitável e, se não, como poderia isto ser impedido? Será que veremos o dia em que o US Dólar subitamente se tornará sem valor ou será que algum outro mecanismo precipitará o colapso deste Império?

Paul Craig Roberts: A economia dos EUA está esvaziada. Não tem havido qualquer crescimento do rendimento real mediano das famílias durante décadas. Alan Greenspan, como presidente do Fed, utilizava uma expansão do crédito ao consumidor para substituir o crescimento em falta no rendimento do mesmo, mas a população está agora demasiado endividada para contrair mais crédito. Assim, não há nada para conduzir a economia. Tamanha quantidade de empregos na manufactura e em serviços profissionais transaccionáveis, como engenharia de software, foram removidos para o exterior que a classe média sofreu uma contracção. Licenciados em universidades não podem obter empregos que permitam uma existência independente. De modo que não podem constituir famílias, comprar casas, electrodomésticos e mobílias para o lar. O governo produz baixas mensurações de inflação ao não medir a inflação e baixas taxas de desemprego ao não medir o desemprego. Os mercados financeiros são manipulados (rigged) e o ouro deitado abaixo apesar do crescimento da procura através de vendas shorts a descoberto no mercado de futuros. É um castelo de cartas que tem aguentado mais tempo do que eu pensava possível. Aparentemente, o castelo de cartas pode suster-se até que o resto do mundo cesse de manter o US dólar como reservas.

Possivelmente o império impôs demasiada tensão à Europa ao envolvê-la num conflito com a Rússia. Se a Alemanha, por exemplo, abandonasse a NATO, o império entraria em colapso, ou se a Rússia pudesse encontrar engenho (wits) para financiar a Grécia, a Itália e a Espanha em troca de abandonarem o Euro e a UE, o império sofreria o golpe fatal.

Alternativamente, a Rússia pode dizer à Europa que não tem nenhuma alternativa excepto alvejar capitais europeias com armas nucleares uma vez que a Europa se juntou aos EUA na guerra contra a Rússia.

The Saker: A Rússia e a China fizeram algo único na história e foram para além do modelo tradicional de constituir uma aliança:   concordaram em tornar-se interdependentes – poder-se-ia dizer que concordaram em ter um relacionamento simbiótico. Acredita que aqueles que são responsáveis pelo Império tenham compreendido a mudança tectónica que acaba de acontecer ou estão simplesmente a cair numa negação profunda porque a realidade os assusta demasiado?

Paul Craig Roberts: Stephen Cohen diz que simplesmente não há discussão de política externa. Não há debate. Penso que o império pensa que pode desestabilizar a Rússia e a China e que isto é uma das razões porque Washington tem revoluções coloridas a actuarem na Arménia, Quirguistão e Uzbequistão. Como Washington está determinada a impedir a ascensão de outras potências e está perdida no excesso de confiança e arrogância, ela provavelmente acredita que terá êxito. Afinal de contas, a História escolheu Washington.

The Saker: Na sua opinião, será que eleições presidenciais ainda importam e, em caso afirmativo, o que é a sua melhor esperança para 2016? Pessoalmente tenho muito medo de Hillary Clinton a quem considero como uma pessoa excepcionalmente perigosa e absolutamente perversa, mas com a actual influência neocon entre os republicanos, podemos realmente esperar que um candidato não neocon obtenha a nomeação do Partido Republicano?

Paul Craig Roberts: O único meio pelo qual uma eleição presidencial poderia importar seria se o presidente eleito tivesse por trás um movimento forte. Sem um movimento, o presidente não tem poder independente e ninguém para nomear quem fará a sua parte. Os presidentes estão cativos. Reagan tinha algo de um movimento, apenas o suficiente, com o que fomos capazes de curar a estagflação apesar da oposição da Wall Street e fomos capazes de acabar com a guerra-fria apesar da oposição da CIA e do complexo militar/segurança. Reagan era idoso e vinha de um outro tempo. Ele assumiu que o gabinete do presidente era poderoso e actuou dessa forma.

The Saker: O que diz acerca das forças armadas? Pode imaginar um Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas a dizer “não, Sr. Presidente, isso é louco, não faremos isto” ou espera que os generais obedeçam a qualquer ordem, incluindo uma para começar uma guerra nuclear contra a Rússia? Tem alguma esperança de que os militares dos EUA pudessem interferir e travar os “loucos” actualmente no poder na Casa Branca e no Congresso?

Paul Craig Roberts: Os militares dos EUA são criaturas das indústrias de armamentos. O objectivo completo de se fazer general é qualificar-se para ser um consultor na indústria da “defesa”, ou tornar-se um executivo ou ir para a direcção de um empreiteiro da “defesa”. Os militares servem como fonte para carreiras de aposentação quando então os generais ganham o dinheiro grosso. Os militares dos EUA estão totalmente corruptos. Leia o livro de Andrew Cockburn, Kill Chain .

The Saker: Se os EUA estão realmente e deliberadamente descendo o caminho rumo à guerra com a Rússia – o que deveria a Rússia fazer? Deveria recuar e aceitar ser subjugada como uma opção preferível à guerra termonuclear, ou deveria resistir e portanto aceitar a possibilidade de uma guerra termonuclear? Acredita que uma deliberada e muito poderosa demonstração de força por parte da Rússia poderia deter um ataque dos EUA?

Paul Craig Roberts: Tenho muitas vezes desejado saber acerca disto. Não posso dizer que sei. Penso que Putin é bastante humano para capitular ao invés de provocar a destruição do mundo, mas Putin tem de responder a outros dentro da Rússia e duvido que nacionalistas apoiassem a capitulação.

Na minha opinião, penso que Putin deveria centrar-se na Europa e torná-la consciente de que a Rússia espera um ataque americano e não terá qualquer opção excepto exterminar a Europa como resposta. Putin deveria encorajar a Europa a desligar-se da NATO a fim de impedir a 3ª Guerra Mundial.

Putin também deveria assegurar-se de que a China entende que representa a mesma ameaça para os EUA, tanto quanto a Rússia, e que ambos os países têm de se manter unidos. Talvez se a Rússia e a China mantivessem suas forças num alerta nuclear, não o alerta máximo, mas um alerta elevado que transmitisse o reconhecimento da ameaça americana e transmitisse esta ameaça ao mundo, os EUA pudessem ser isolados.

Talvez se a imprensa indiana, japonesa, francesa, alemã, britânica, chinesa e russa começassem a informar que a Rússia e a China perguntam se receberão um ataque nuclear antecipativo (pre-emptive) de Washington o resultado fosse impedir esse ataque.

Tanto quanto posso dizer a partir das minhas muitas entrevistas com os media russos, não há consciência russa da Doutrina Wolfowitz . Os russos pensam que há alguma espécie de mal entendido acerca das intenções russas. Os media russos não entendem que a Rússia é inaceitável porque a Rússia não é um vassalo dos EUA. Os russos acreditam em toda asneirada ocidental acerca de “liberdade e democracia” e acreditam que têm pouco disso mas estão a fazer progressos. Por outras palavras, os russos não têm ideia de que são visados para a destruição.

The Saker: Quais são, na sua opinião, as raízes do ódio de tantos membros das elites estado-unidenses para com a Rússia? Será isso apenas um resto da Guerra-fria ou haverá uma outra razão para a russofobia quase universal entre as elites dos EUA? Mesmo durante a Guerra-fria, não estava claro se os EUA eram anti-comunistas ou anti-russos. Haverá algo na cultura, nação ou civilização russa que dispare essa hostilidade e, em caso afirmativo, o que é?

Paul Craig Roberts: A hostilidade para com a Rússia remonta à Doutrina Wolfowitz:

“Nosso primeiro objectivo é impedir a re-emergência de um novo rival, tanto no território da antiga União Soviética como alhures, que coloque uma ameaça da ordem daquela colocada anteriormente pela União Soviética. Isto é uma consideração dominante subjacente à nova estratégia de defesa regional e requer que nos empenhemos para impedir qualquer potência hostil de dominar uma região cujos recursos, sob controle consolidado, seriam suficientes para gerar poder global”.

Enquanto os EUA estavam centrados nas suas guerras no Médio Oriente, Putin restaurou a Rússia e travou a invasão da Síria planeada por Washington e o bombardeamento do Irão. O “primeiro objectivo” da doutrina neocon foi rompido. A Rússia tinha de ser posta em linha. Essa é a origem do ataque de Washington à Rússia. Os media dependentes e cativos dos EUA e da Europa simplesmente repetem “a ameaça russa” para o público, o qual está despreocupado e além disso desinformado.

A ofensa da cultura russa também está aqui – éticas cristãs, respeito à lei e à humanidade, diplomacia ao invés de coerção, costumes sociais tradicionais – mas isto é o pano de fundo. A Rússia é odiada porque ela (e a China) é uma restrição ao poder uno e unilateral de Washington. Esta restrição é o que levará à guerra.

Se os russos e os chineses não esperarem um ataque nuclear antecipativo por parte de Washington serão destruídos.

Chomsky: a América Latina viveu uma mudança significativa, de importância histórica

Por Ignacio Ramonet | Via Esquerda.net

Noam Chomsky falando no Fórum Internacional pela Emancipação e a Igualdade. Captura de imagem de vídeo.

A última edição do Le Monde Diplomatique de Espanha publica uma longa entrevista com Noam Chomsky, feita em Buenos Aires por Ignacio Ramonet. Dada a sua extensão, o Esquerda.net publica-a em partes, sendo esta primeira sobre as mudanças na América Latina e as relações dos EUA com a Venezuela e Cuba. O título original de toda a entrevista é: “Contra o império da vigilância”.

Em Buenos Aires (Argentina), de 12 a 14 de março passado, organizado pelo Ministério da Cultura e pelo Secretário de Coordenação Estratégica do Pensamento Nacional, Ricardo Forster, teve lugar um importante Fórum Internacional pela Emancipação e a Igualdade, que reuniu personalidades de grande prestígio vindas dos Estados Unidos, da América Latina e da Europa. Tratava-se de refletir sobre o momento que se está a viver não só na América Latina como também nalguns países da Europa, onde novas organizações políticas (Syriza, Podemos), que conhecem bem os avanços progressistas realizados na América Latina, estão a tentar mudar as coisas e contribuir com soluções de inclusão social e de rejeição das políticas “austeritárias”1.

No marco desse encontro excecional, pudemos entrevistar o nosso amigo norte-americano Noam Chomsky, um dos intelectuais mais prestigiados do mundo. Um homem que há muito pensa como construir um mundo mais justo, menos desigual e com menos violência.

Ignacio Ramonet: Noam, em 9 de março passado, Barack Obama assinou uma ordem executiva e decretou “estado de emergência” nos Estados Unidos devido à “ameaça inusitada e extraordinária” que representaria a Venezuela para a segurança nacional do seu país. Que pensa desta declaração?

Noam Chomsky: Temos de ser cuidadosos e distinguir duas partes nessa declaração. Por um lado, um facto real: a imposição de sanções a sete funcionários públicos da Venezuela. A outra parte é um aspeto mais técnico, a forma como se formulam as leis nos Estados Unidos. Quando um presidente impõe uma sanção tem de invocar esta declaração ridícula que pretende haver “uma ameaça à segurança nacional e à existência dos EUA” por parte de tal ou qual Estado. É um aspeto técnico do direito dos EUA. É tão ridículo que, de facto, nunca tinha sido sublinhado. Mas desta vez fez-se questão disso, porque surgiu na América Latina. Na declaração habitual quase nunca se menciona todo este contexto, e acho que é a nona vez que Obama invoca uma “ameaça à segurança nacional e à sobrevivência dos EUA”, porque é o único mecanismo ao seu alcance atraves do qual a lei lhe permite impor sanções. Ou seja, o que conta são as sanções. O resto é uma formalidade absurda; é uma retórica obsoleta da qual poderíamos prescindir, mas que, em todo caso, não significa nada.

Ainda que às vezes sim. Por exemplo, em 1985, o presidente Ronald Reagan invocou a mesma lei dizendo: “O Estado da Nicarágua é uma ameaça à segurança nacional e à sobrevivência dos Estados Unidos”… Mas nesse caso era verdade. Porque ocorria num momento em que o Tribunal Internacional de Justiça tinha ordenado aos EUA que pusessem fim aos seus ataques contra a Nicarágua através dos chamados “Contras” contra o governo sandinista. Washington não o levou em conta. Por sua vez, o Conselho de Segurança das Nações Unidas também adotou, nesse momento, uma resolução que pedia, a “todos os Estados”, que respeitassem o direito internacional… Não mencionou ninguém em particular, mas todo o mundo sabia que se estava a referir aos EUA.

O Tribunal Internacional de Justiça tinha pedido aos Estados Unidos que pusessem fim ao terrorismo internacional contra a Nicarágua e que pagassem reparações muito importantes a Manágua. Mas o Congresso dos Estados Unidos o que fez foi aumentar os recursos para as forças [os “Contras”] financiadas por Washington que atacavam a Nicarágua… Isto é, a administração Reagan opôs o seu método à resolução do TIJ e violou o que este lhe estava a pedir. Nesse contexto, Reagan pôs as seus botas de cowboy e declarou que a Nicarágua era uma “ameaça à segurança dos Estados Unidos”. Recordará que, naquele mesmo momento, Reagan pronunciou um célebre discurso dizendo que “os tanques da Nicarágua estão apenas a dois dias de marcha de qualquer cidade do Texas”… Ou seja, declarou que havia uma “ameaça iminente”… Bom, segundo Reagan, aquela “ameaça” era uma realidade… Mas agora não, a de Obama é uma fórmula retórica, uma expressão técnica, digamos. Claro, trata-se de dar à declaração um aspeto dramático adicional para tentar enfraquecer o governo de Venezuela… Algo que Washington faz quase sempre nesses casos.

Conheceu o presidente Hugo Chávez. E Chávez tinha por si uma grande admiração. Fez o elogio de alguns dos seus livros. Que lembranças tem dele e que opinião lhe merece como dirigente, em particular pela sua influência na América Latina?

Tenho que lhe confessar que depois de o presidente Chávez ter mostrado o meu livro [Hegemonia ou Sobrevivência] na Organização das Nações Unidas (ONU), se vendeu muito bem na Amazon.com [risos]. Um amigo meu, um poeta, disse-me que o livro estava entre os últimos do ranking de Amazon e de repente venderam-se milhares. Ele perguntou-me se o presidente Chávez não podia mostrar um livro dele também na ONU… [risos] Bom, tive com Chávez algumas conversas, nada mais, no palácio presidencial. Estive em Caracas um dia com um amigo e basicamente falámos com Chávez sobre como chegou ao poder, como reagiram os EUA, e muitas outras coisas dessa natureza. Chávez fez um esforço muito importante para introduzir mudanças substanciais na Venezuela e na sua relação com o mundo. Um dos seus primeiros atos foi conseguir que a Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que possuía quase o monopólio do petróleo, reduzisse a produção para que o preço do barril aumentasse. Segundo o que me disse, esse foi o momento em que os EUA se voltaram definitivamente contra a Venezuela… Antes toleravam-no… Chávez fez muitas coisas mais: forneceu petróleo a baixo preço a Cuba e a outros países das Caríbas; realizou esforços para melhorar o sistema de segurança social, reduzir a pobreza, lançou as “missões”, que significavam um grande esforço a favor da gente humilde, etc.

Nisto obteve um verdadeiro grau de sucesso, mas enfrentou graves dificuldades, em particular a incompetência, a corrupção, a maneira de combater as greves, etc. O resultado final é um contexto difícil para a Venezuela internamente. E o problema mais grave – que não foi superado –, e que é um problema na América Latina em geral, é que todos estes países dependem de um modelo não sustentável de desenvolvimento económico, baseado na exportação de produtos primários. Um país pode assumir isso – a Argentina e o Brasil sabem-no – se a economia se diversificar de tal maneira que possa desenvolver uma verdadeira indústria complexa. Mas uma indústria baseada unicamente em produtos agrícolas ou mineiros não é um modelo sustentável. Se vir os países que se desenvolveram, começando pela Inglaterra, EUA e outros, todos, originalmente, começaram por exportar produtos básicos. Por exemplo, os EUA desenvolveram-se porque tinham um quase-monopólio num dos produtos básicos mais importantes do século XIX, que era o algodão produzido em plantações com acampamentos de escravos – acampamentos que teriam impressionado os nazis se estes os tivessem podido ver. E assim os EUA conseguiram aumentar a produtividade do algodão mais rapidamente do que a indústria, e isso sem inovação técnica… além do chicote que usavam para torturar os escravos. Com o uso intensivo da tortura e de outras atividades horripilantes, a produção de algodão aumentou muito rapidamente, e assim os donos dos escravos enriqueceram-se, evidentemente, mas também se desenvolveu o sistema fabril.

Se pensar, por exemplo, no nordeste dos EUA, que é uma zona industrial onde estão as principais fábricas, naquele tempo estavam ocupadas pelo algodão, produziam panos a partir do algodão. O mesmo acontecia na Inglaterra. Os ingleses importavam o algodão dos EUA e desenvolveram as suas primeiras fábricas. O que também permitiu a expansão do sistema financeiro, que era uma manobra extremamente complexa sobre o empréstimo de fundos e outras operações financeiras. E todo isso a partir do cultivo do algodão. Um sistema comercial, um sistema industrial, um sistema financeiro.

Pois bem, os EUA também, como outros países desenvolvidos, não respeitaram o que hoje é chamado de “economia sã”. Os princípios que hoje se proclamam eram violados, e existiam altos impostos e outros mecanismos protecionistas. E isso continuou assim até o ano de 1945, quando realmente os EUA puderam desenvolver a produção industrial de aço, e de muitas outras coisas mais. É assim que se pode fazer o desenvolvimento. Se um país se autolimita à exportação de produtos primários vai fracassar… E isso é o que ocorre na Venezuela. A economia continua a depender terrivelmente da exportação de petróleo… Esse modelo é insustentável. E também é insustentável uma economia unicamente baseada na exportação de soja ou de outros produtos agrícolas. De tal forma que temos de passar por um formato diferente de desenvolvimento, como o que fizeram a Inglaterra e os Estados Unidos. E outros países europeus, evidentemente. Por exemplo, a França. Vinte por cento da riqueza da França foi produto da tortura dos haitianos… que continua hoje, lamentavelmente. O mesmo aconteceu com a história do desenvolvimento de outros países coloniais.

A Venezuela não superou este obstáculo. E tem outros problemas internos graves que, evidentemente, os EUA querem exacerbar. Acho que as sanções constituem um esforço para consegui-lo. Na minha opinião, uma boa resposta da Venezuela seria simplesmente deixar passar por alto. Claro, não se podem ignorar as sanções, porque são reais… Mas sim o que mencionou, essa pretensão ridícula de “ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos”. É importante repetir que isto, em si, não significa nada. Como lhe disse, é meramente uma expressão formal. É algo que os meios de comunicação, nos EUA, sequer assinalaram. O importante é a reação que, neste caso, ocorreu na América Latina.

No dia 17 de dezembro passado, o presidente Barack Obama, e também o presidente Raúl Castro, fizeram uma declaração, cada um por seu lado, em que anunciavam a normalização das relações entre Cuba e os Estados Unidos. O presidente Obama, nessa declaração, reconheceu que cinquenta anos de política norte-americana de pressões, com bloqueio económico incluído, não tinham produzido qualquer resultado, e que era preciso mudar de política. Que pensa desta normalização entre Cuba e os EUA? E como vê a evolução das relações entre Havana e Washington, e a influência desta evolução para o conjunto da América Latina?

Pequena correção. Não se trata de “normalização”. É, primeiro, um passo para o que poderia ser uma normalização. Ou seja que o embargo, as restrições, a proibição de viajar livremente de um país a outro, etc., não desapareceram… Mas efetivamente constitui um passo para a normalização, e é muito interessante ver qual é a retórica atual da análise de Obama e da sua apresentação. O que disse é que cinquenta anos de esforços “para levar a democracia, a liberdade e os direitos humanos a Cuba” fracassaram. E que outros países, infelizmente, não apoiam o nosso esforço, de tal maneira que temos de encontrar outras formas de continuar a nossa dedicação à imposição da democracia, liberdade e direitos humanos que dominam as nossas políticas benignas com o mundo. Palavra mais, palavra menos, é o que disse. Quem leu George Orwell sabe que quando um governo diz alguma coisa, é preciso traduzi-la para uma linguagem mais clara. O que disse Obama significa o seguinte: durante cinquenta anos fizemos um terrorismo de grande escala, uma luta económica sem piedade que deixaram os EUA totalmente isolados; não pudemos derrubar o governo de Cuba nesses cinquenta anos, portanto, tudo bem se encontramos outra solução? Essa é a tradução do discurso; é o que realmente quer dizer ou o que se pode dizer tanto em espanhol quanto em inglês.

E vale a pena recordar que a maioria destas questões são suprimidas nos debates norte-americanos e mesmo europeus. Efetivamente, os EUA fizeram uma campanha grave de terrorismo contra Cuba sob a presidência de John F. Kennedy; o terrorismo era extremo naquele momento. Há um debate, às vezes, sobre as tentativas de assassinato de Fidel Castro, e fizeram-se ataques a instalações petroquímicas, bombardeamentos de hotéis – onde sabiam que havia russos alojados –, mataram gado, etc. Ou seja, foi uma campanha muito grande que durou muitos anos.

E mais, depois de os EUA terminarem o seu terrorismo direto apareceu o terrorismo de apoio, digamos, com base em Miami nos anos 1990. Além da guerra económica, que foi iniciada por Eisenhower, ganhou realmente impulso durante a era Kennedy e intensificou-se depois. O pretexto da guerra económica não era “estabelecer a democracia” nem “a introdução de direitos humanos” era castigar Cuba por ser um apêndice do grande Satã que era a União Soviética. E “tínhamos que proteger-nos”, da mesma maneira que “tínhamos de nos proteger” da Nicarágua e de outros países…

Quando ocorreu o colapso da União Soviética, que aconteceu com o embargo? O bloqueio agravou-se. E mais, Clinton ganhou a partida a George Bush (pai) para ampliar o bloqueio. Clinton fortaleceu-o mais. Algo estranho da parte de um senador liberal de Nova Jersey… E, mais tarde, pior ainda, foi intensificado o esforço para estrangular e destruir a economia cubana. E todo isso não tinha nada a ver, obviamente, nem com a democracia nem com os direitos humanos. Nem sequer é uma piada. Basta ver os registos norte-americanos do seu apoio às ditaduras violentas, terroristas na América Latina. Não só as apoiaram como as impuseram. Como no caso da Argentina, onde os EUA eram o mais firme apoio da ditadura argentina. Quando o governo da Guatemala estava a cometer um verdadeiro genocídio, Reagan quis apoiá-lo. Mas o Congresso tinha-lhe determinado certos limites. Por isso disse: bom, tudo bem se o fazemos na Argentina? E transformamos os militares argentinos em neonazis para fazer o que queremos. Infelizmente, a Argentina passou a ser uma democracia depois; e foi aí que os Estados Unidos perderam esse apoio que tinham. E então recorreram a Israel para continuar com o treino dos exércitos de terrorismo na Guatemala. Mas já, desde princípios dos anos 1960, houve uma tremenda onda de repressão em toda a América Latina, no Brasil, no Uruguai, no Chile, na Argentina e assim até na América Central. Os Estados Unidos, diretamente, participavam em todos estes comandos. Antes também, e hoje continuam.

Por exemplo, Obama é praticamente o único líder que deu apoio, em 2009, ao golpe de Estado em Honduras, que derrubou o governo constitucional [de Manuel Zelaya] e que instalou uma ditadura militar que os EUA reconheceram. Isto é, podemos deixar de lado a conversa sobre a democracia e os direitos humanos; não têm nada a ver: o esforço era para destruir o governo. E sabemos porquê. Uma das coisas boas dos EUA é que, em muitos sentidos, são uma sociedade livre, e temos muitos registos internos, de deliberações internas que foram publicadas. De maneira que se pode saber exatamente o que ocorreu.

Em 1999, apareceu Hugo Chávez na Venezuela, e uma série de países adotaram programas antineoliberais, vários governos progressistas começaram a aparecer na América Latina; no Brasil, com Lula; depois na Bolívia, com Evo Morais; depois no Equador, com Rafael Correa; depois na Argentina, com Nestor Kirchner; no Uruguai, com Tabaré Vázquez e Pepe Mujica. Isto espalhou-se pela América Latina; e efetivamente, como acaba de dizer, a América Latina tem escapado um pouco às mãos dos EUA. Eu queria perguntar-lhe, primeiro, que opinião tem sobre estes governos progressistas, em geral, da América Latina? E segundo, por que os EUA puderam encontrar-se nesta situação de perda de influência na América Latina?

Bom, são acontecimentos de enorme importância nesta parte do mundo, todo o que descreveu é de relevância realmente histórica. Se pensarmos na América Latina… Durante quinhentos anos, a América Latina, basicamente, viu-se controlada pelos poderes imperialistas ocidentais, sobretudo pelos EUA no século XX, e antes houve outros… Na América Latina, as populações originárias viam-se controladas por uma elite pequena, geralmente branca, quase branca, muito rica, no meio do povo pobre. Então, estas elites eram como que alheias ao seu próprio país: exportavam capital para a Europa, por exemplo, e enviavam os seus filhos para os Estados Unidos. Não se preocupavam com o seu próprio país. E a interação entre os países de América Latina era muito limitada. Cada elite da cada país tinha um desvio para o ocidente, e ideias imperialistas. Havia certas diferenças, mas esta era em geral a situação típica. E isto vem acontecendo desde há quinhentos anos de uma forma ou de outra.

Mas, a partir de 1999, começou a mudar esta situação. O que descreve é uma mudança muito significativa; é um momento de importância histórica. E os Estados Unidos são, evidentemente, o país, a potência que exerce o maior domínio em todo mundo, mas já não têm o poder esmagador de destruir governos e de impor ditaduras militares onde lhe apetece. Se pensarmos, por exemplo, nos últimos quinze anos… Houve alguns golpes de Estado: uma tentativa inesperada na Venezuela em 2002; bem, funcionou, digamos, durante dois dias e nada mais. Os EUA apoiaram-na plenamente mas não tiveram o poder de impor um novo governo. Houve outro no Haiti em 2004; aí temos… os torturadores do Haiti, a França e os EUA combinaram o sequestro do presidente Aristide para enviá-lo para o centro da África, e mantê-lo ali, oculto, para que não pudesse participar sequer nas eleições. Bom, isto teve êxito, mas o Haiti é um país muito fraco. Houve outro caso em Honduras, em 2009 – sim, com Obama – os militares desfizeram-se do governo constitucional… Aí houve uma “desculpa democrática”, e Washington não o quis condenar como um golpe militar… Mas o resultado foi que os EUA viram-se isolados nessa posição de apoio a esse golpe militar triunfante. E agora esse país é um desastre completo. Tem um terrível registo – o pior – em matéria de direitos humanos. E se consideramos a migração para os EUA, que é um grande tema, a maioria dos imigrantes provém das Honduras, porque este país foi destruído pelo golpe que Washington apoiou.

Assim, vemos alguns casos de sucesso, por assim dizer, mas não como no passado, não como antigamente. A América Latina agora deu um passo adiante para conseguir certo grau de independência. É o caminho correto. Bom, a UNASUR, o MERCOSUL, a CELAC [Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribeños]; há diferentes grupos que representam passos para a integração. A CELAC é totalmente inovadora, porque os EUA e o Canadá ficam excluídos, e isto ninguém poderia ter imaginado; era algo inconcebível anos atrás.

Todo isso se vê refletido de vários modos; houve um estudo recente muito interessante do que poderíamos chamar, por exemplo, a “pior tortura do mundo”: prendemos alguém e mandamo-lo para a ditadura militar mais cruel para que lá seja torturado, de maneira impune, e podemos assim obter certa informação. Esta é a pior forma de tortura. Os Estados Unidos vêm-no fazendo desde há anos e anos. Houve um estudo para saber que países cooperam. Claro, os países de Médio Oriente; enviam-nos para lá para levar a cabo esta tortura: já o faziam com Assad na Síria, com Mubarak no Egito, e com Kadhafi na Líbia, não? E os países europeus na sua maioria participaram, Inglaterra, Suécia, França, todos estes países.

No entanto, houve uma região no mundo, na qual não participou nenhum país: a América Latina. E isto é realmente interessantíssimo. Quando a América Latina estava sob o controlo dos Estados Unidos, era um centro global de tortura. Agora, até se negaram a participar neste horrendo jogo, neste tipo de tortura implementado pelos Estados Unidos. Isto é uma mudança muito significativa, um sinal realmente muito importante. Houve certos casos de sucesso, parciais, na América Latina, que liderou a resistência ao projeto neoliberal, podemos chamar assim. Também outros sucessos, apesar de ainda haver muito caminho a percorrer ainda.