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Uma visão alternativa da crise econômica

Por Heldo Siqueira

Uma das proezas construídas pelo governo Dilma parece o consenso sobre equívocos na política econômica. Mesmo assim, há interpretações diferentes para o problema. A interpretação mais corriqueira que tenho tomado notícia diz respeito ao abandono do tripé macroeconômico pela chamada nova matriz. A tríade de princípios de política econômica é representado pelo regime de metas para inflação, câmbio flutuante e superavit primário. Essa visão não parece completamente equivocada, mas acredito que seja simplista em interpretar as decisões do governo. A simplificação atribui ao abandono forçado que ocorre agora, com o virtual estouro da meta de inflação, o problema da política econômica dos últimos anos, quando as medidas heterodoxas foram tomadas justamente para o seu cumprimento! Uma visão alternativa teria sido a reformulação dos objetivos de política econômica quando houve a possibilidade1.

Um debate ficou marcante entre o então Ministro da Fazenda Guido Mantega e o ex-(futuro)-Ministro da Fazenda Armínio Fraga, em que havia uma divergência sobre o fim da crise de 2008. O titular da pasta defendia as medidas tomadas pelo governo por entendê-las como anticíclicas, enquanto o ex-ministro e postulante ao cargo afirmava que a economia mundial já havia se recuperado da crise.

Uma primeira visão sobre a credibilidade da política econômica pode ser apresentada pela relação entre a perseguição de uma inflação menor e sua relação com a taxa de juros. O gráfico2 apresenta essa relação.

A média da taxa selic entre 2005 e a crise foi de 14,7%, enquanto no período posterior à crise foi de 10,0%. A visão vigente é que a credibilidade adquirida nos anos antes da crise pode ter baixado a “taxa de juros natural”. Entretanto, entre os críticos ortodoxos há quase consenso que a política adotada após a crise foi equivocada. Nesse caso, a manutenção de taxas de juros deveria representar um influxo de recurso na economia que elevaria as taxas de inflação às alturas. Entretanto, a média de inflação no período após a crise foi de 5,6%, nada muito superior ao período anterior, 4,9%. Ou seja, o momento em que o tal tripé macroeconômico3 estava de pé, a taxa de juros real era em média 9,8%, baixando para 4,4% no período posterior, sem que a inflação saísse do controle. Aparentemente a economia real passou a não ligar muito para o tal tripé.

Outra destacada relação da inflação é sua correspondência com o câmbio. Vários intérpretes da trajetória econômica brasileira postulam que a relação da Selic-inflação é intermediada pela taxa de câmbio. Por essa perspectiva, o diferencial de juros atrai divisas para o país valorizando a moeda brasileira. Com isso, as mercadorias importadas e os insumos estrangeiros ficam mais baratos, impactando nos índices de preços internos. Em um gráfico com o índice de preços e o câmbio, pode-se perceber a trajetória comum.

Taxa de câmbio brasileira e a relação com outras moedas

Outro gráfico mostra a relação do índice da moeda brasileira4 em comparação com o Euro, a Libra Esterlina, o Iene e um indicador de trajetória do Petróleo em dólares que representa o inverso do curso da moeda americana.

A valorização do preço do petróleo em dólar pode ser interpretada como uma desvalorização da própria moeda americana ocorrida do início do período até a crise. É importante reparar que a moeda brasileira valoriza-se relativamente ao dólar e a todas as outras moedas entre 2005 e 2008. A hipótese do tripé é que haveria uma convergência do câmbio livre que deveria ser consistente com a meta de inflação. Entretanto, deixado às forças do mercado, a relação do Real com a moeda americana se apreciou, sem que isso representasse uma convergência para a meta de inflação do período, ou seja, 4,5%5. Uma hipótese alternativa é que o chamado boom de commodities representava, na verdade, um processo inflacionário em nível global, tendo o Brasil adotado, talvez indeliberadamente, a valorização cambial para esterilizá-lo. Com a crise, há um refluxo imediato no consumo de petróleo, com a valorização imediata do dólar. Após 2009, há uma nova desvalorização da moeda americana, com as políticas expansionistas americanas, revertida em 2014.

Mas o destaque do período após a crise é a nova valorização do Real até meados de 2012. Ou seja, há outro momento de inflação importada e o Brasil permitiu a valorização de sua moeda novamente. A partir de 2012, com as medidas de redução da taxa Selic, supostamente injustificada pelo mercado, a moeda brasileira passa a acompanhar o índice das outras. Em outro gráfico é possível ver a trajetória da inflação e do câmbio. Em resumo, a manutenção do sistema de metas para inflação, com a utilização dos juros e o controle da inflação implicou em uma apreciação cambial desnecessária do real6.

Expansão fiscal mesmo com câmbio valorizado

Se uma parte da política econômica cuida da oferta de moeda nacional e sua relação com o estoque de divisas (taxa de câmbio), a outra diz respeito ao desempenho fiscal. A perspectiva que está sendo apresentada inferiu que o país teve, durante o período entre 2005 e a crise de 2008 um câmbio persistentemente valorizado, trajetória que retornou após 2009 até meados de 2012. A decisão do governo de promover a política anticíclica após a crise através dos incentivos fiscais e o aporte de recursos no BNDES adiou o vale do ciclo econômico, tornando-o pior por acelerar a deterioração dos saldos comerciais. Mesmo com o Real apreciando-se o gasto público expandiu-se 16,7% em 2009 e 20,5%, excluídos os recursos do BNDES. Tratou-se de um estímulo espetacular para a substituição de produtos nacionais por importados7.

O câmbio valorizado tende a diminuir as exportações por tornar as mercadorias nacionais mais caras em divisas e estimular as importações por causa da apreciação da moeda. O gráfico que apresenta essa relação entre 2005 e 2015 mostra a trajetória de importações e exportações brasileiras.

De fato, as exportações brasileiras caíram entre 2005 e 2008, ano da crise. Quanto as importações, tiveram a trajetória inversa, com reversão em 2008 e novos aumentos a partir de 2009. A desvalorização cambial relativa a partir de 2012, as importações voltam a cair a partir de 2013. A crise, ao desvalorizar a moeda brasileira parece ter estimulado as exportações com reversão a partir de 2012. A nova apreciação cambial reverteu o quadro de ampliação das exportações, enquanto havia o estímulo às importações. Em termos absolutos, enquanto as exportações cresceram à média de 10,2% ao ano, as importações à 15,9%. Assim, o saldo comercial que chegou a US$ 46,5 bilhões em 2006 deteriorou-se a deficit em 2014.

Visão alternativa

Essa perspectiva alternativa apresenta um ponto de convergência com a visão ortodoxa: a capacidade dos estímulos em fazer política anticíclica se esgotou. Entretanto, apresenta visões diferentes a respeito dos motivos pelos quais isso aconteceu. Enquanto para os ortodoxos o suposto abandono do tripé o motivo dos problemas fiscais, em algum tipo de crise de confiança, essa visão apresenta dados reais de saldos comerciais e limites cambiais para a manutenção dos estímulos econômicos. O estímulo fiscal atrelado à perseguição da meta de inflação naquele período representou um crescimento baseado na importação de produtos e em desincentivos à exportação! O abandono atual (flexibilização) das metas de inflação é porque não há mais espaço para apreciação cambial dada a deterioração dos saldos comerciais. Insistir nessa política é a alternativa populista e irresponsável!

Mais que isso, se tivesse abandonado (ou ao menos flexibilizado) as metas de inflação em 2010, 2011 e 2012, o governo tivesse acompanhado a desvalorização das outras moedas teríamos menos pressões sobre os preços hoje. Já me trazem calafrios as perspectivas de retorno da valorização cambial com o Dólar hoje a R$ 3,07, quando havia sido R$ 3,20 no início de março, e perspectiva de aumento na taxa de juros básica.

Referências:

1 Trata-se de um complemento do artigo sobre a interpretação da crise cambial atual.http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2015/03/18/uma-interpretacao-do-descontrole-cambial/

2 Quebra do Lehman Brother, interpretado como o início da crise.

3 Antes de 2005 a taxa selic chegou a 13,8%, em Fevereiro de 2004, de maneira que não cabe a interpretação de que a credibilidade estava sendo construída no período analisado.

4 A relação é em número índice com janeiro de 2005 representando 1,00 para todas as moedas. A manutenção em 1,00 representaria a paridade com o dólar, valores menores que 1,00 representam valorização em relação à moeda americana e acima de 1,00 desvalorização.

5 É importante salientar que no período anterior à crise o Brasil vinha cumprindo as metas de superávit de maneira que não há motivos para acreditar que havia inflação por parte do gasto público.

6 Outro debate interessante seria quais alternativas o Brasil possuía (ou possui), para esterilizar as pressões inflacionárias vindas do mercado internacional.

7 E olha que o câmbio ainda não consertou a divergência entre o preço do Camaro, que custava US$ 23.280 em 2012 e passou de R$ 47.724 com o Dólar a R$ 2,05 para R$ 76.000 com Dólar perto de R$ 3,30 mas já melhorou em relação ao Palio de R$ 51.500. http://economia.uol.com.br/noticias/infomoney/2012/08/31/chevrolet-camaro-custa-nos-eua-menos-que-palio-weekend-no-brasil.htm

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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.

4,6 milhões é o preço do PL 4.330?

Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/04/2015

Liderados pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a quem o experiente jornalista político Jânio de Freitas descreveu como “cria de Paulo César Farias”, nossos deputados aprovaram por 324 votos favoráveis e 137 discordantes o texto base do Projeto de Lei 4.330/04, que regulamenta e amplia a possibilidade de terceirizações nas empresas.

Polêmico, o PL extingue a diferenciação entre atividade-meio e atividade-fim – o que abre precedente para a possibilidade de terceirizações ilimitadas e empresas sem empregados – estabelece que a responsabilidade da empresa contratante é subsidiária em relação a prestadora do serviço, e permite até mesmo a terceirização de cargos do serviço público, excetuando somente os setores de regulamentação e fiscalização. Trata-se do maior retrocesso aos trabalhadores desde a ditadura militar.

A retórica dos partidários do projeto de que é preciso especializar o mercado de trabalho e dar garantias aos mais de 12 milhões de terceirizados no país não resiste a análise dos dados. O texto prevê que no caso de calote patronal o trabalhador somente poderá recorrer a “empresa mãe” após esgotadas as possibilidades de receber da que o contratou, a dita responsabilidade subsidiária. Além do mais, no Brasil os terceirizados recebem em média 24,7% menos que os diretamente contratados, possuem jornada semanal 3 horas e meia maior e são os que mais sofrem acidentes de trabalho, o que derruba por terra a tese da especialização. A precarização dos terceirizados é tão evidente que entre os 10 maiores resgates de trabalhadores em condição análoga a escravidão realizados entre 2010 e 2013, em nada menos que 90% dos casos as vítimas eram terceirizadas.

A Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho (Anamatra) tem verdadeiro horror a proposta. Em campanha de denúncia e combate ao projeto, o presidente da associação e juiz titular da 20ª Vara Trabalhista de Porto Alegre sustenta que a lei tem potencial de reduzir a participação do fator trabalho na renda dos atuais 34 a 37% para algo entre 25 a 30%, e diz que os efeitos seriam “catastróficos”.

Se tudo isso ainda não fosse suficiente, temos ainda escandalosa inconstitucionalidade no PL. O artigo 37 inciso II da Constituição Federal prevê que:

“a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração”.

Serão nossos parlamentares tão ignorantes, ou prepotentes, a ponto de afrontar a constituição munidos de um simples Projeto de Lei?

O mais intrigante desse quadro é o fato da direita tanto denunciar o suposto aparelhamento do Estado por parte do PT e ainda assim defender a terceirização dos cargos das empresas públicas e sociedades de economia mista, o que justamente as transformará em mero cabide eleitoral. É o velho patrimonialismo da elite de volta a ofensiva.

Os verdadeiros interessados no PL 4.330/04

Na terça-feira (7) o PL foi pautado pelo presidente da Câmara e como não poderia ser diferente, diversos atos de repúdio ocorreram em 17 estados e no Distrito Federal. Em frente ao congresso juntaram-se cerca de 4 mil manifestantes (segundo a CUT, a PM estima 2,5 mil) no intuito de pressionar os parlamentares.

Diante da pressão, o altivo Eduardo Cunha tomou uma medida inusitada que escancara a quem ele serve com o PL 4.330. Os sindicalistas da CUT e CTB foram proibidos de adentrar a chamada “casa do povo”, enquanto representantes de entidades empresariais, principalmente da indústria, assistiam a plenária tranquilamente. A atitude foi tão absurda que em liminar que suspende a autoritária decisão o ministro do STF Marco Aurélio Mello considerou “inimaginável” o acontecido.

Os favoráveis a terceirização generalizada arrotam termos como eficiência e especialização mas pesquisa da própria Confederação Nacional da Indústria demonstra o óbvio, quando perguntados sobre a terceirização, 91% dos industriais a consideram em primeiro lugar uma boa alternativa para a redução dos custos.

Por fim chegamos ao que motivou a headline do artigo, o pequeno grande segredo do maior entusiasta do projeto. Em 2014 o atual presidente da Câmara Eduardo Cunha declarou arrecadação da ordem de 6,8 milhões em doações para a campanha. Desse montante, 4,6 milhões vieram principalmente da indústria de bebidas, mineradoras, bancos e da Telemont, interessadíssimos no assunto. Será esse o preço pago pela aprovação do PL 4.330? Ou as empresas acreditam no “compromisso com o bem público” de seus patrocinados?

O PT precisa deixar de ser a “UDN de macacão”

Por Osvaldo Maneschy

É preciso lembrar da mensagem de Vargas e do real inimigo.

O PT de hoje é o que o velho PTB, o de Vargas, foi no passado.

Sou brizolista e concordo com Lucia Valadares.

Não é hora de purismos.

O jogo é bruto e o descreveram muito bem: eles querem tudo e não podemos brincar com isto,

O PT de hoje, me desculpem os petistas, precisa deixar de ser a “UDN de macacão”, como Brizola e Darcy Ribeiro um dia o descreveram.

Os petistas radicais – e o pessoal do PSOL e do PSTU também – precisam ler a Carta Testamento de Vargas e entender porque Getúlio Vargas deu um tiro no coração.

O processo que vivemos hoje é exatamente o mesmo.

O império ataca!

O que está em jogo é o Brasil e todos nós – que não escrevemos na cartilha da gringalhada.

Ontem 10 deputados do PDT, o partido criado por Brizola para acabar com a farsa da ditadura de lhe tomar a sigla PTB, votaram a favor da terceirização – alinhando-se a Eduardo Cunha et caterva.

Contra os direitos trabalhistas de Getúlio Vargas.

Também não faz sentido na minha cabeça de ex-diretor da ABI, de ex-auxiliar do Dr. Barbosa Lima na luta contra as privatizações via Modecon, que o PT convoque uma reunião aqui no Rio de Janeiro, na sede da ABI, em defesa da Petrobrás, e não permita que pessoas como eu – tivessem acesso ao auditório da ABI.

Porque não sou da CUT, nem do PT.

Não é assim que se soma.

Não foi assim na luta que travamos contra a ditadura.

A luta atual precisa ser suprapartidária, de todos nós.

O PT não é dono da verdade.

Se hoje toda a mídia está contra ele, toda a mídia já o incensou, lá atrás, para esvaziar Leonel Brizola.

Porque Brizola, varguista, incendiário, populista, é que era o inimigo principal.

Brizola sempre soube das coisas e voltou, depois de 15 anos de exílio, mais maduro.

Por isso se tornou o inimigo principal desta turma que hoje ataca o PT, no primeiro momento.

Mas foi muito duro convivermos com os ataques, além da direita, dos petistas.

Mas sobrevivemos e estamos aqui, querendo ajudar.

Porque hoje, por tudo o que fez de certo, apesar dos erros cometidos, o inimigo principal deles é o PT.

Eu compreendo isto.

O PT compreende?

Na questão do voto eletrônico, que por tantos anos ajudei Brizola, ficamos praticamente sozinhos no início – na luta pela transparência do sistema.

Não tenho dúvidas sobre a vitória da Dilma e a derrota eleitoral do PSDB.

Dilma ganhou honestamente.

Mas se o PT nos tivesse ajudado lá atrás, se Brizola não tivesse segurado sozinho essa bandeira, hoje o PT não seria alvo do PSDB neste assunto

O PSDB sempre trabalhou contra a transparência do voto eletrônico

E se hoje estrila, é por puro oportunismo e cretinismo.

Por conta da briga do senador Requião e de Brizola, lá atrás, nas eleições de 2002, tivemos voto impresso.

Depois do escândalo do voto eletrônico do Senado.

Mas o Eduardo Azeredo (PSDB), com a ajuda entre outros do Demóstenes Torres (DEM), ambos figuras impolutas de nossa República, e também do PT e do João Paulo Cunha, derrubaram a primeira lei do voto impresso.

Mas depois foi restabelecida a impressao do voto, pela ação de Brizola Neto (PDT) e Flavio Dino (PC do B).

E Lula sancionou a segunda lei do voto impresso.

Que deveria entrar em vigor na última eleição presidencial.

Mas o impoluto Ministério Público Federal, através de Sandra Cureau, com a ajuda do STF, impediu, pela segunda vez, a impressão do voto.

Estou falando isto, amigos, porque não tenho dúvidas de que se antes de 64 era preciso soltar dinheiro da CIA para eleger direitistas, hoje a coisa é muito mais fácil.

Esses próceres do parlamento que atacam as conquistas sociais dos últimos anos, nos governos do PT, não tenham dúvidas amigos, conhecem o caminho do balcão da compra de votos.

E compram. Ficou mais fácil.

Voltando ao tema central, é preciso clareza do momento que vivemos.

O busilis é a Lei da Partilha e a Petrobrás.

Temos que defende-las em uma luta que abranja a todos os brasileiros de bem.

De todos os partidos, de todas as cores.

Nossa luta precisa ser suprapartidária como Dra. Maria Augusta Tibiriçá Miranda, parceira do Dr. Barbosa Lima Sobrinho no Modecon, nos ensinou que tem que ser, quando estão em jogo as grandes causas do Brasil.

Estamos vivendo dias e semanas que valem por décadas.

Sobre como o capital aprendeu a se manifestar

Por Heldo Siqueira

Há algum tempo li um artigo do professor Eugênio Bucci1 em que dizia que ninguém havia escrito o que ele queria ler sobre a relação entre o capital e a mídia e escrevia, basicamente para ter o que ler. Não sou especialista em política ou ciências sociais, mas após ler várias interpretações sobre as manifestações nas últimas semanas, sinto-me em condição parecida. Recorro ao método dialético, segundo o qual: se observa a realidade diretamente, formula-se a teoria e analisa se a teoria se encaixa à realidade (concreto pensado). Acredito que à esquerda e à direita, por motivos justos ou escusos, temos mais wishfull thinking que análises objetivas, com teorias querendo ser encaixadas na marra à realidade.

No lado da esquerda, acredito que a questão principal é querer pregar na direita o ódio aos mais pobres e às políticas sociais. Essa afirmação, apesar de cair como uma luva para o discurso da luta de classes, parece uma simplificação do discurso da direita. É improvável que alguém se oponha à melhoria das condições de vida da população. Entretanto, o debate gira em torno de como oferecer tais melhorias. Segundo os conservadores, oferecer serviços através do Estado é uma maneira de distribuir dinheiro dos outros. Não se questiona, por exemplo, o fato de que a principal atividade da segurança é defender a propriedade privada e que os que tem mais propriedade são os mais beneficiados. Além disso, um dos principais papéis da educação é preparar os trabalhadores para serem empregados das empresas. Quanto à justiça, o custo da burocracia e dos advogados acaba a tornando mais um mediador de conflitos da classe média e menos um instrumento de garantias de direitos. Dito isso, um debate sobre o financiamento do Estado, que poderia ensejar em uma reforma tributária que a tornasse mais justa é perdido. Ao contrário ficamos em um debate infrutífero sobre a intenção dos mais ricos que serve apenas como panfleto.

Para a direita, as manifestações parecem bem-sucedidas por engendrarem uma reflexão sobre a corrupção e, supostamente, enfraquecerem o governo federal. Chegam ao absurdo de identificar espontaneidade no movimento, com a confusão, deliberada ou não, deste conceito com o de liberdade em relação aos partidos políticos. À esquerda e à direita há um equívoco nessa questão. Enquanto a esquerda fica tentando identificar quais partidos estão envolvidos nas manifestações, sob a premissa traiçoeira, de que apenas partidos políticos ou sindicatos tem o direito de organizar a sociedade. No extremo oposto, ignora-se que há grupos por trás do processo de mobilização e que estes estão organizados por algum interesse. Ninguém se organiza sem interesse! Como naquele provérbio sobre a guerra, não ter interesses é o equivalente a estar morto. Tanto os novos grupos da direita “Movimento Brasil Livre” e “Estudantes pela Liberdade”, quanto os grupos de mídia com a Rede Globo à frente, tem o legítimo direito de terem interesses e reivindicá-los nas ruas, conclamando o máximo de pessoas que puderem2.

Uma outra reflexão importante é o que tornaria ilegítimo algum tipo de protesto ou manifestação. Em uma sociedade em que os bens se convertem em mercadorias, a produção é feita para a venda e não para o consumo. Seria ingenuidade pensar que grupos organizados ou partidos políticos pudessem se opor a essa lógica. Como bom consumidor de organização popular os grupos capitalistas financiam aquelas manifestações que lhes são interessantes. Não se trata de fundar ou manter uma ou outra organização, mas simplesmente de incentivar que haja a influência no debate para o seu lado. Como vendedores de organização popular, esses grupos entregam o trabalho que lhes é encomendado (e no caso da manifestação do dia 15/03, com extrema competência!). Difundir ideologia é uma tarefa tão cara quanto nobre e ter alguém para pagar as contas sempre ajuda3. Caso esses movimentos tivessem uma ideologia diferente da que pregam, os recursos que os financiam seriam dados a outros que representassem a lógica dos financiadores. Mesmo assim, em alguns momentos, o fiador e o financiado se confundem de uma maneira que um passa pelo outro. Quer dizer, o debate real é com os interesses que estão financiando o grupo organizado e não com o grupo. Ou seja, enquanto a sociedade passa a discutir temas genéricos como corrupção e liberdade econômica, o clima esquenta para o governo.

Nesse caso, é importante separar os dois interesses. Aparentemente os interesses dos organizadores (exceto a Rede Globo que, na verdade, também se confunde com os financiadores) converge para o clima das que conseguiram criar4. Muita empolgação para criar um clima de tensão e poucas propostas efetivas. Não se pode esperar muito mais de um grupo de jovens com grandes aspirações políticas e pouca vivência sobre como o debate político se dá. Não há, portanto, ilegitimidade no movimento que, ao contrário, parece levar segmentos da sociedade avessos a manifestações públicas às ruas, mesmo que com ideias arcaicas e bolorentas. Nesse sentido, trata-se de um movimento salutar para a democracia pois permite o debate de temas como intervenção militar ou nacionalismo.

Move-se então, a análise para os interesses dos financiadores. De fato, parecem preocupados em pressionar o governo e para eles quanto mais genérica a pauta das ruas mais fácil incluir qualquer coisa no discurso e manipular seu resultado. Uma convergência interessante é o fato de que os escândalos de corrupção versarem sobre o setor de petróleo e haver interesses internacionais ligados a essa indústria financiando as manifestações5. Trata-se, de um (dos poucos) segmento no qual o Brasil possui tecnologia e estoque de capital para concorrer em nível mundial. Outros beneficiários da instabilidade política, que tentaram se manter afastados do processo de mobilização, mesmo tendo dado incentivo, foram os políticos do PSDB. Por questões alegadamente ideológicas, o partido se vinculou irremediavelmente com o processo de privatização. Ao mesmo tempo, sempre se colocaram claramente contra o regime de partilha adotado para o pré-sal e a favor da abertura do setor para estrangeiras6.

Quanto a seletividade da indignação, ela parece não ser em relação ao PT. Ao contrário, políticos de várias agremiações estão sendo investigados e denunciados, inclusive vinculados aos partidos da oposição. Além disso, vários processos com o tema da corrupção encontram-se espalhados por varas pelo país sem que haja qualquer revolta em relação ao seu conteúdo. Uma visão alternativa da seletividade diz respeito ao caso da lava-jato versar sobre a Petrobrás! O ataque ao PT parece ser um subproduto do clima de indignação, por se tratar do partido que abriga a titular do governo federal, responsável pela petrolífera e principal fiador do regime de partilha. Fosse qualquer outro partido na mesma situação estaria sendo atacado! Mais que isso, sabe-se lá qual seria a posição do PT caso estivesse na oposição do processo que lidera.

O debate deve ser sobre se trazer novas empresas para acelerar o processo de exploração do pré-sal é de interesse nacional ou se o controle da exploração é mais importante. Deter o controle sobre o capital, sob a hegemonia da sociedade capitalista, equivale a participar das tomadas de decisão de investimento. Privatizar o setor ou abri-lo é equivalente a terceirizar essas decisões a interesses diversos. Mais que isso, trata-se de um setor que foi o cenário dos principais conflitos em nível mundial nos anos 2000 e permanece respondendo por eles.

Não se trata de defender o PT ou a corrupção. A indignação frente aos escândalos é legítima e deve ser incentivada. A utilização destas pautas para ajudar na tramitação de projetos de lei que modifiquem a regulação do setor do petróleo também parece justificável, uma vez que os interesses são alegadamente ideológicos. O que parece realmente equivocada é a postura do governo frente a questão. Se o debate é sobre a Petrobrás e sobre a corrupção, as duas frentes devem ser exploradas. As medidas sobre a corrupção são bem-vindas, mas não são o tema central. O autismo se resume em achar que o debate é sobre a corrupção. Trata-se de um bom momento para tentar aprovar medidas sobre o tema, que sejam consistentes. Mesmo assim o ataque não vai parar, porque não é o foco do debate! É preciso fazer uma defesa efetiva da estatal brasileira e colocar o debate sobre a exploração do pré-sal publicamente e não deixar que os interesses privados (internacionais) controlem o debate de maneira enviesada.

Referências:

1 BUCCI, Eugênio. Alguns amigos que eu tenho (e de como o capital aprendeu a falar). Revista Praga, nº 3, São Paulo, 1997.

2 http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/partido-novo-de-ideias-liberais-quer-tirar-sindicatos-e-partidos-das-ruas.html

3 O nosso grupo de desenvolvimentistas que o diga!

4 A relação entre o PSDB e a mídia paulista é, aparentemente, equivalente.

5 http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/03/quem-esta-por-tras-do-protesto-pro-impeachment/

6 http://www.plantaobrasil.com.br/news.asp?nID=84854 e http://www.pt.org.br/serra-apresenta-projeto-para-enfraquecer-petrobras/

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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.

A comunicação do governo quer sabotar a presidenta?

Por Rennan Martins | Vila Velha, 18/03/2015

Hoje (18) a blogosfera e portais de notícias repercutem um documento de cinco páginas redigido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Trata-se de um mea culpa que sintetiza e reconhece diversos problemas já diagnosticados pela imprensa alternativa como se fossem novos, adicionando ainda o demérito de não propor sequer uma medida efetiva de combate a narrativa tendenciosa da mídia hegemônica.

O autor inicia o texto dizendo ser lugar-comum acusar a política de comunicação primeiramente sempre que se instala uma crise política, talvez a fim de disfarçar a total ineficácia da gestão. Depois da ressalva, admite falhas e omissões, mas fazendo questão de dividir o ônus com o restante do governo, o que fica claro no trecho:

“A comunicação é o mordomo das crises. Em qualquer caos político, há sempre um que aponte “a culpa é da comunicação. Desta vez, não há dúvidas de que a comunicação foi errada e errática. Mas a crise é maior que isso.”

Após o autodesagravo inicia-se uma longa e dispensável exposição do histórico das redes sociais e seu envolvimento com a disputa política, apontando que as forças da oposição possuem mais orçamento e que esse fator é fundamental em termos de alcance da população, que acaba mais suscetível ao discurso oposicionista pois além disso ainda temos o bombardeio habitual da grande mídia.

O curioso dessa constatação é que a Secretaria de Comunicação é a responsável pela condução da política de publicidade estatal e mesmo assinalando que os veículos de oposição possuem mais envergadura financeira e concentram majoritariamente os anúncios, ainda assim a mudança óbvia não é sugerida. A distribuição estratégica dos recursos de forma a estimular as iniciativas de linha editorial progressista, estas que foram cruciais na reeleição e permanecem sem seu devido reconhecimento, passa longe do documento.

Em seguida a presidenta é informada que a nomeação do banqueiro Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda desmobilizou drasticamente os movimentos que defendiam o governo, dizendo que estes não “compreenderam” a importância do ajuste fiscal. Ora, é justamente por compreender o que significa o senhor Levy na Fazenda que o desânimo tomou conta da militância. Não adianta tapar o sol com a peneira, a promessa eram “Mais Mudanças” e o que veio foi o ajuste fiscal empunhado pela oposição, que oportunista como sempre, ainda se aproveitou pra falar de estelionato eleitoral.

A campanha das denúncias de corrupção também é citada, porém, é crucial lembrar que os ataques lacerdistas dos barões da mídia sonegadora sempre estiveram aí e que nenhuma medida foi tomada da parte do governo para fazer frente a esse jornalismo de esgoto. Muito pelo contrário, a verba publicitária está lá financiando a maior parte deles, a despeito da queda vertiginosa que a internet lhes trouxe em termos de mercado e audiência.

Por fim, mesmo com o óbvio desastre comunicacional do governo, a Secom candidamente defende que se deve fazer mais do mesmo, fortalecendo a Voz do Brasil, o twitter, o facebook, e pasmem, sustentando até mesmo que investir na TV aberta, a mesma que lidera o golpe, é o caminho para “virar o jogo”. A possibilidade de desconcentrar minimamente o orçamento publicitário investindo na imprensa progressista passa longe das “soluções”.

Essa autocrítica pífia, que nada traz de novo e nem ao menos ousa dar uma solução real, é fruto de alguém que não sabe o que está fazendo ou que deseja deixar a crise se perpetuar. Nos dois casos, passou da hora de uma mudança brusca. Como diria Einstein: “Fazer, todos os dias, as mesmas coisas e esperar resultados diferentes é a maior prova de insanidade.”

Uma interpretação do descontrole cambial

Por Heldo Siqueira

O aviso de Mário Henrique Simonsen, de que a inflação aleija mas o câmbio mata, é sempre atual quando tratamos de desenvolvimento macroeconômico. Os economistas do novo desenvolvimentistas também destacam o papel do “câmbio industrial” em neutralizar a doença holandesa e estimular as exportações[1]. O debate torna-se particularmente importante na medida em que vivemos um ciclo de desvalorização do real. O período que se deu entre fevereiro de 2013 e o início março de 2015 o dólar passou de R$ 1,97 para R$ 2,86, em uma desvalorização de 45,1%[2]. Esse cenário recrudesceu-se desde o início do ano, quando a proporção de reais para a moeda americana ainda era de R$ 2,65.

Mesmo assim, segundo o Ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, não há crise cambial[3]. Essa afirmação parece estar ancorada na percepção de que há uma tendência de desvalorização de várias moedas em relação ao Dólar e o Real está acompanhando a tendência. A moeda da comunidade europeia, por exemplo, desvalorizou-se 21,4% entre junho de 2014 e março de 2015. No caso do Real, esse valor chegou a 30,1%.

Uma vez que a moeda americana segue é o parâmetro para a conversão de outras é necessário estabelecer outro indicador, além de outras moedas, para tentar entender sua trajetória. Um indicador particularmente interessante é o preço do petróleo. O gráfico 1 mostra a uma comparação entre a trajetória do barril tipo Brent de petróleo frente ao Dólar entre 2002 e 2015 e o Real.

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Observa-se que a trajetória da moeda brasileira frente o indicador de trajetória do petróleo em Dólares tem uma tendência aproximada. Na crise de 2008 houve uma apreciação do Real, dada a abrupta perda desvalorização do petróleo, que dissipa. O final do ano de 2014 também marca uma nova desvalorização da commodity. Trata-se de uma indicação de que o Dólar está se valorizando frente ao preço do petróleo! A mesma análise pode ser feita para o Euro.Heldo2

Mesmo tendo uma trajetória de desvalorização menos acentuada durante a crise de 2008, o que explica em parte a penúria econômica de alguns dos países que o utilizam frente a crise, observa-se que o Euro também seguiu a trajetória de desvalorização frente ao Dólar que ocorreu no final de 2014. A última comparação que deve ser feita é a do Real com o Euro frente.Heldo3

Nesse caso, pode-se observar ainda outras tendências. Uma desvalorização relativa do Real, entre 2002 e 2005, revertida até a crise econômica de 2008. Posteriormente uma nova apreciação do real que se reverte desde meados de 2013. Mesmo assim, a desvalorização experimentada pela moeda brasileira parece ser equivalente a do Euro. Nesse sentido, a prática de defender a manutenção das taxas de câmbio, apesar de populares em termos políticos, pode ser realmente artificial, como mencionava o Ministro da Fazenda Joaquim Levy em Janeiro[5].

Referências:

[1] https://jlcoreiro.wordpress.com/2015/03/13/os-descalabros-de-edward-amadeo

[2] Os dados são do Ipeadata e do Banco Central, do último dia útil de cada mês até 02/03/2015.

[3] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/03/depreciacao-do-real-nao-mostra-descontrole-cambial-diz-barbosa.html

[4] Mais especificamente: (1/Brent)x50 . A multiplicação por 50 permitiu melhorar a escala de visualização.

[5] http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/01/levy-diz-nao-ter-intencao-de-manter-cambio-artificialmente-valorizado.html

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Heldo Siqueira é gremista e apreciador de uma boa feijoada regada a cerveja, também mestre em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, professor da Cândido Mendes e Economista do Idaf-ES.