Arquivos da categoria: Eleições

Terceiro turno: A tentativa de enfiar o “mercado” goela abaixo de Dilma

Via Viomundo

Sugerido pelo FrancoAtirador, a partir de entrevista da presidenta reeleita ao Jornal da Record

Sobre a crise econômica que a mídia brasileira turbinou nos meses que antecederam a eleição:

Ô Adriana, a situação é completamente diferente [de 2002]. Quando o presidente Lula, em 2002, foi eleito e tomou posse em 2003, nós tinhamos no Brasil uma taxa de desemprego de 11,4 milhões pessoas. O salário vinha de uma trajetória de queda. Hoje nós temos uma situação de elevado emprego e os salários estão com ganhos reais.

O que eu acredito é o seguinte: nós temos de tomar algumas medidas. Agora, não são daquele tipo [corte de gastos, contingenciamento]. A situação conjuntural, econômica e política é outra, completamente diferente.

Nós temos 376 bilhões de dólares de reserva, naquela época a nossa situação de fragilidade era muito grande, extremamente elevada a fragilidade, porque a gente tinha 37 bilhões de dólares de reserva, qualquer flutuação do dólar nós não teríamos como honrar nosso compromisso porque nossa dívida era maior que a quantidade de reserva que possuíamos.

Hoje nós temos 77 bilhões além do necessário, ou seja, somos credores. Além disso, outra situação caracteriza o Brasil, ao mesmo tempo em que está havendo este processo que você descreveu [queda da Bovespa], nós temos uma das maiores entradas de investimento direto externo, em torno de 65 bilhões de reais, se você computar toda e entrada de capitais, chegamos a 77 bilhões.

Sobre o terceiro turno via investigação da Petrobras:

Não acredito em terceiro turno porque quem tentar estará fazendo um desserviço ao País. Uma eleição num País democrático ganha quem conquista a maioria. No que se refere ao escândalo da Petrobras, eu vou investigar, eu vou me empenhar, doa a quem doer, não vai ficar pedra sobre pedra, e eu quero todas as questões relativas aos casos de corrupção às claras.

Eu tenho uma indignaçao com o que fizeram nesta última semana de campanha. Eu sou uma pessoa com uma trajetória política e uma integral dedicação à coisa pública. Jamais em toda minha vida houve uma única acusação.

Eu não vou deixar esta acusação ser… passada a eleição você esquecer as acusações. Eu não. Eu vou me empenhar ainda mais pra que isso seja revelado, entendido e que fique claro quem são os responsáveis, doa a quem doer. Antes de quererem investigar, eu quero investigar, eu quero saber.

Sobre a mídia ter ‘esquecido’ a crise da água em São Paulo:

Você sabe que eu fico pensando como é que é possivel a gente ficar olhando só detalhes desta eleição [a derrota por 7 milhões de votos em São Paulo]. Você poderia me perguntar também porque eu tive 11 milhoes de votos de diferença no Nordeste.

Eu acredito que essa eleição mostra algumas características do Brasil muito instigantes. Eu acho que houve uma grande transformação no Brasil nos últimos 12 anos. Eu não atribuo minha eleição apenas ao fato de que pessoas melhoraram de vida, pessoas cresceram, pessoas tiveram pela primeira vez chance.

Igual ao motorista que subiu ao teto do ônibus [no Recife] e gritava: eu consegui fazer o Prouni. Ele estava no último ano de Direito. Ele gritava, ia virar advogado. De motorista a advogado. Eu acho que isso explica uma parte. Mas, por exemplo em São Paulo nós estamos enfrentando a maior crise de água do Brasil.

Até as vésperas do primeiro turno ninguém tocava nesse assunto, com exceção dos candidatos de oposição. Se fosse com qualquer governo da situação, nos seríamos criticados diuturnamente.

Me explica como e porque uma crise daquela proporção não se reflete numa campanha eleitoral? Eu não compreendo, tenho muita dificuldade de compreender. Posso atribuir ao fato dela não ter sido iluminada. Os refletores não foram colocados na crise.

Pela mídia?

Por mim é que não foi. Acho que não houve uma informação correta pra população de São Paulo.

PS do Viomundo: Os derrotados de 2014 começam a plantar nomes de futuros ministros da Fazenda. Primeiro, na GloboNews. Depois, na Folha. É o terceiro turno em andamento. A direita quer porque quer emplacar alguém no segundo cargo mais importante do Executivo.

A vitória de Severina e Maria das Dores

Por Mino Carta | Via Carta Capital

Poupa na corda, de Heitor dos Prazeres

Conto uma história singela. Minha doméstica se chama Severina da Silva e está comigo desde 1981. É da minha família. Casada, 61 anos, casa própria, dois filhos formados engenheiros pela USP e muito bem empregados. Nasceu no Recife, onde vivem a mãe, lúcida aos 97, e a irmã Maria das Dores. E esta liga na segunda-feira 20, e informa: “Votei na Dilma e domingo volto a votar”.

Todos os nossos Silva estão com Dilma, no Recife e em São Paulo. “Deus me livre do Aécio ganhar – diz Maria das Dores –, quero realizar o sonho de visitar vocês de avião.” Severina já foi ao Recife três vezes, logo mais virá a irmã. Ambas de avião.

Enredo rigorosamente verdadeiro e altamente simbólico, chave do mais claro entendimento da vitória que Dilma Rousseff colhe ao se reeleger para a Presidência da República. Neste mesmo espaço na edição de 24 de setembro passado eu me atirava “a um vaticínio que muitos reputarão prematuro”. Ou seja, previa que a nação saberia “evitar o risco” de eleger quem representa o regresso.

Aí está o sentido do apoio de CartaCapital à permanência da presidenta Dilma. Sua vitória é a garantia da continuidade da política social e da política exterior independente executadas nos últimos 12 anos. Ganhamos agora a certeza de que o neoliberalismo não vingará, que o salário mínimo não será cortado, que a Petrobras não será privatizada, que o pré-sal não será loteado.

CartaCapital nunca deixou de manifestar a sua decepção com o PT que vi fundar e que por muito tempo na oposição desempenhou a contento o inédito papel de verdadeiro partido para, no poder, imitar os demais. Partidos se declaram, impropriamente. Inegável é, porém, que o governo, por cima e às vezes à revelia da maioria parlamentar, privilegiou os interesses do País.

Verifica-se, assim, uma estranha discrepância de comportamentos. É como se o PT tivesse perdido a sua identidade enquanto o governo mantinha a fé inicial. Dizia um sábio: quem perde a ideologia torna-se contemplativo. Sim, a gente sabe, não faltam aqueles que decretam o enterro das ideologias. De algumas, sim, contingentes, varridas pelo fracasso. Outras as substituem, coerentes com o tempo que passa. E uma ideia não morre, a da igualdade, tanto mais no nosso Brasil ainda tão desigual.

Nesta eleição, até pareceu só ter valor a ideologia reacionária e golpista. Já a alternância no poder se aplicaria somente no plano federal. No estadual, caberia analisar caso a caso. Em São Paulo, por exemplo, a alternância não se recomenda, de sorte a permitir que o governo tucano prossiga no seu caminho de desmandos e desastres.

Está claro que se o PSDB vencesse não se daria apenas a frustração de Maria das Dores. Voltariam, antes de mais nada, as ideologias professadas à sombra de Fernando Henrique Cardoso. Contra Aécio Neves nada tenho na esfera pessoal. Conheço-o, como esclareci em outras oportunidades, há mais de 30 anos, desde quando carregava a pasta do avô Tancredo. Ao longo da campanha, deu-se quanto antecipamos. Foi tragado pelo apoio da mídia nativa e se entregou ao golpismo separatista de São Paulo, sobretudo.

Textos foram publicados, e falas proferidas, de puro humorismo no decorrer do percurso. Não me refiro, obviamente, a quem viu no Brasil um país rachado em dois. FHC incumbe-se de exibir a fratura e se torna valioso cabo eleitoral de Dilma. Se bem entendi, ele faz a diferença entre ricos cultos e pobres desinformados. De verdade, o Brasil sempre esteve a pagar por três séculos e meio de escravidão e a manter de pé casa-grande e senzala. De um lado, a minoria que pretende deixar as coisas como estão. Surge, porém, do outro, quem gostaria de enterrar de vez a herança maldita. A bem de todos.

Aquela acredita viver em Dubai no topo da pirâmide, ou em patamar inferior, sonha em chegar lá. Felizmente, na maioria figuram cidadãs como Severina e Maria das Dores. Elas percebem o que lhes convém.

Nós perdemos, mas exigimos ganhar, entende?

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

Curiosíssima a arrogância do mercado hoje, na Folha, exigindo uma guinada na política econômica do Governo com a reeleição de Dilma Rousseff.

A democracia, para eles, funciona assim: não importa quem o eleja, o Governo do país deve obedecer-nos.

Pois, senhores, tirem o cavalinho da chuva.

É óbvio que Dilma vai buscar o diálogo até, provavelmente, nomeando para o Ministério da Fazenda alguém com origem no mercado e que, por isso, facilite e distensione a interlocução do governo.

Mas quem nomeia é ela, não o “mercado” e é por isso que, ontem, ela negou-se a dar pistas sobre uma decisão que, a esta altura, provavelmente já está tomada.

Este é, provavelmente, o primeiro “teste de fidelidade” de seu novo Ministro da Fazenda: a discrição com que se move e faz consultas.

É bom que o “mercado” lembre: foi Dilma e não ele quem ganhou as eleições.

E como Aécio já se apresentou guarnecido por seu “xerife da Fazenda”, Armínio Fraga, o eleitor brasileiro rejeitou uma política econômica recessiva, lesiva ao emprego e ao salário.

Simples e democrático assim, pois não?

Dilma, uma mineira agauchada, certamente se lembra da frase de Pinheiro Machado ao cocheiro, no Império: “vá, mas nem tão depressa que pareça fugga, nem tão devagar que pareça afronta”.

Aliás, o resto é marola e jogada para enganar trouxas, como os que saíram se desfazendo de ações ontem no “terremoto” da Bolsa que deu xabu e terminou o dia amansando, como amansará hoje. Os espertos compraram, levantando as mãos para o céu, Petrobras a R$ 14, o que é quase bilhete premiado de loteria. Vão ganhar mais que o tal diretor Paulo Roberto Costa.

Siga a Bolsa, hoje, e veja só.

Os índices de preços, embora ainda possam revelar números maiores pelo período acumulado, vão começar a acusar quedas, seja por causa do reinício das chuvas, seja porque a “animação inflacionária” do período eleitoral ficou para trás.

A palavra de ordem no Governo, agora, é “muita calma nessa hora”.

Lembrar, sem arroubos autoritários, que foi a situação – e sua política desenvolvimentista – quem ganhou a eleição.

E lembrar-se, como disse ontem a Presidenta Dilma, que o povo sinalizou claramente que quer mudanças nela.

Mas para melhor.

Jornadas de Junho, eleições e “mudanças”

Por Rennan Martins | Brasília, 28/10/2014

A coisa mais absurda que tenho visto é a leitura das Jornadas de Junho como uma demanda conservadora, um sinal de que a juventude sinalizava o desejo de eleger para o executivo alguém à direita de Dilma. Isso é uma tentativa de apropriação do significado ainda não totalmente desvendado do evento.

Façamos uma revisão dos acontecimentos a fim de entender que a pauta de junho de 2013 era essencialmente progressista, só tendo sido manobrada posteriormente pela imprensa.

A prefeitura de São Paulo havia aumentado de R$ 3,00 para R$ 3,20 a tarifa do transporte público na cidade. Isso levou o Movimento Passe Livre às ruas para deter esta medida e pedir a estatização do serviço e a tarifa zero.

O que se observou em seguida foi a polícia de Alckmin agir com a brutalidade habitual. Em conjunto, tentou-se pintar o quadro do movimento como de vândalos, rebeldes sem causa, tanto o é que o crápula do Jabor desprezou o movimento e disse que era “só por vinte centavos”.

A tentativa de desmoralizar o MPL e creditar a eles a culpa pela repressão deu errado por conta da contra-narrativa feita pela mídia alternativa da internet. As transmissões em streaming, relatos e fotos deixaram óbvio que a PM estava descendo o cacete nos manifestantes.

E foi ao reparar tamanha brutalidade estatal que a juventude de outras localidades solidarizou-se com os paulistas. Fomos às ruas indignados com a violência gratuita das forças de “segurança”. Fato ilustrativo disso é que aqui em Brasília falava-se em “revolta do vinagre”. O vinagre, por sua vez, servia pra respirar entre o lacrimogêneo. Os vidros do produto estavam sendo confiscados pela polícia, como se isso fosse “subversivo”.

Após o alastre irresistível dessa indignação e a esquerda nas ruas demandando melhorias no transporte público e o fim da violência da PM, a grande mídia notou que não havia mais como esconder os acontecimentos. Resolveram então se aproveitar do quadro.

Nossa imprensa é historicamente ligada as forças mais conservadoras do país. A Globo, Folha, Estadão e cia se criaram nas asas da ditadura. E o que fizeram foi retratar as manifestações como uma juventude indignada “contra a corrupção” e a”roubalheira”. O objetivo era esvaziar a pauta real, factível e transformar o evento numa “festa cívica” e”patriótica”, algo como os Caras Pintadas.

Não existe ninguém abertamente favorável a corrupção, o que existe é gente que só é contra ela no discurso, sem nada propor para coibi-la. Esses são os oportunistas. Quem é honestamente contra a corrupção sabe que ela é sistêmica e quer medidas práticas para combatê-la, como por exemplo o fim do financiamento de campanhas políticas por empresas.

Dessa forma, um movimento que era abertamente de esquerda, que exigia a estatização do transporte público e depois protestava contra a violência policial, tornou-se algo vazio, e foi somente aí que o anti-petismo entrou em cena.

É simplesmente impossível conceber que o MPL e a massa que se levantou contra a repressão desmedida queria eleger um partidário do governador responsável pela polícia mais assassina do país.

As Jornadas de Junho, originalmente, clamavam por melhorias nos serviços públicos, por infraestrutura, por acesso à cidade. Isso não tem ligação alguma com os partidários do PSDB que gritaram “Viva a PM!” na revolução da Lacoste conclamada pelo príncipe FHC nos últimos dias.

Ninguém consciente foi às ruas ano passado querendo um neocoronel no Palácio do Planalto.

Lições do direito de resposta imposto à Revista Veja

Por Jacques Távora Alfonsin | Via IHU

“Ao sofrer derrota humilhante – de ter de oferecer o mesmo espaço utilizado pela sua publicação à resposta do PT, aí se verificando o mau uso que ela faz da sua concessão pública – a Veja demonstrou o quanto de prejuízo sofre qualquer pessoa e toda a sociedade, quando a liberdade é exercida sem responsabilidade”, escreve Jacques Távora Alfonsin, advogado.

Eis o artigo.

O mandado judicial expedido por um ministro do Superior Tribunal Eleitoral contra à revista Veja, determinando publicasse direito de resposta do PT à uma notícia tendente a influir no resultado das eleições – pela gravidade da denúncia por ela veiculada sobre a conduta da presidenta agora eleita – reacende o debate sobre questões fundamentais para a democracia.

A primeira, sobre as garantias devidas, num Estado democrático de direito, à ”plena liberdade de informação jornalística” prevista no parágrafo primeiro do art. 220 da Constituição Federal; depois, ao pressuposto de o exercício dessa liberdade estar condicionado à uma concessão pública, conforme dispõe o art. 223 da mesma Constituição; em seguida e, principalmente, ao direito de o povo não ser enganado por qualquer abuso dessa mesma liberdade, o que pode ser depreendido da possibilidade de a concessão pública não ser renovada ou, até, cancelada, como prevêem tanto os parágrafos segundo e quarto do art. 223 da Constituição, como disposições do próprio Código Civil:

Art. 186: Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito ou causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa fé ou pelos bons costumes.

Dos aspectos penais possivelmente envolvidos no caso, indiciando ou não a Veja, nem vai se cogitar aqui porque as melhores lições a serem retiradas do caso podem ser colhidas no próprio despacho do ministro Admar Gonzaga do Superior Tribunal Eleitoral, concedendo ao PT, em decisão liminar, direito de resposta contra a revista, inclusive com parecer favorável da Procuradoria da República, conforme pode-se ler no site da Carta Capital do sábado, 25 deste outubro:

“Fácil perceber que a revista Veja desbordou do seu direito de bem informar para, de forma ofensiva e sem qualquer cautela, transmitir ao seu grande público, em tom de certeza, acusação de que Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva tinham ciência de fato criminoso sobre um dos badalados temas desta campanha presidencial”, afirmou na liminar.

Por conta disso, a revista Veja fica obrigada a veicular, de forma imediata, o direito de resposta do PT no site da publicação “no mesmo lugar e tamanho em que exibida a capa do periódico, bem como com a utilização de caracteres que permitam a ocupação de todo o espaço indicado”. A Procuradoria Geral da República já havia havia emitido parecer que aconselhava a concessão do direito de resposta.

Mais cedo, o mesmo ministro decidiu atender outra liminar que proíbe a Editora Abril, responsável pela publicação da revista Veja, de veicular publicidade da última edição em rádio, televisão, outdoor e propaganda paga na internet. “Tendo em vista que a Representada (revista Veja) antecipou em dois dias a publicidade da revista, entendo que a propagação da capa, ou do conteúdo em análise, poderá transformar a veiculação em verdadeiro panfletário de campanha, o que, a toda evidência, desborda do direito/dever de informação e da liberdade de expressão”, justificou Gonzaga.

Ao tentar, pois, convencer todo o eleitorado do país, que a então candidata Dilma Rousseff era indigna de ser eleita, em plena semana na qual as eleições seriam realizadas, com fundamento em uma delação premiada, sem qualquer chance de prova contrária e respeito ao princípio do contraditório, a Veja tentou violar, de forma inconstitucional, ilegal e abusiva, tanto jurídica como eticamente, um dos mais importantes direitos da/o eleitor/a brasileiro, o de votar em quem lhe forme convicção de ser a/ o melhor candidata/o, sem interferência de quem lhe pretenda impingir preferência, fundada em notícia falsa ou fato não comprovado.

Ao sofrer essa derrota humilhante – de ter de oferecer o mesmo espaço utilizado pela sua publicação à resposta do PT, aí se verificando o mau uso que ela faz da sua concessão pública – a Veja demonstrou o quanto de prejuízo sofre qualquer pessoa e toda a sociedade, quando a liberdade é exercida sem responsabilidade.

A revista foi infiel à democracia, à liberdade de expressão e à comunicação social. Ela confirmou o mal que faz a midiocracia, ou seja, aquela parte da mídia auto-outorgada do poder de privatizar a opinião alheia, impondo a própria como a única verdadeira e imune a qualquer contestação.

Essa é uma das mais disfarçadas, mas uma das piores ditaduras, tão poderosa como a de outro conhecido abuso, parceiro fiel desse domínio espúrio de consciências, o da liberdade de iniciativa econômica, quando esquece a sua função social.

Para felicidade da sociedade brasileira, a irresponsabilidade da Veja não alcançou efeito. A lição que ela queria dar ao povo, esse deu a ela.

Quem desconstruiu implacavelmente Aécio foi o próprio Aécio

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Ninguém a quem culpar senão ele próprio

Uma das palavras da moda nestas eleições é “descontrução”.

Ela tem sido usada pelos colunistas VPs, em tom de pretensa indignação, para definir o que o PT teria feito com Marina, no primeiro turno, e Aécio, no segundo.

Ah, sim: entenda, por VPs, as Vozes dos Patrões.

Marina é história. Tratemos da “desconstrução” de Aécio.

Desconstruir implica torcer fatos, manipular informações, inventar coisas que prejudiquem determinada pessoa.

Nada, absolutamente nada disso foi feito com Aécio.

Examinemos alguns dados da alegada “desconstrução”.

O aeroporto de Cláudio, por exemplo. Ele existe, ele custou cerca de 12 milhões, ele está situado num terreno que pertencia ao tio de Aécio e ele, embora pretensamente público, era usado privadamente por Aécio e uns poucos.

Desde que o caso apareceu, Aécio não conseguiu dar uma única explicação que fizesse sentido. Porque não há como defender o que é moralmente indefensável.

Construir o aeroporto de Cláudio acabou por desconstruir Aécio. Como quem construiu foi ele, podemos dizer que ele se desconstruiu.

A partir dali, falar em decência e em ética, pregar sobre o uso de dinheiro público, bradar contra a corrupção – tudo isso soou farisaico, cínico, mentiroso em Aécio.

Consideremos agora os familiares e agregados empregados por Aécio. Para quem fala compulsivamente em “meritocracia” e “aparelhamento”, praticar o nepotismo é particularmente acintoso.

A expressão maior do nepotismo de Aécio é sua irmã, Andrea Neves. Em seu governo em Minas, Andrea controlou as verbas de publicidade, uma atividade vital para o exercício de uma censura branca.

Você premia, com dinheiro, quem dá boas notícias sobre você. Pune, fechando as torneiras das verbas, quem faz jornalismo verdadeiro.

É uma situação que desconstrói quem quer que esteja no comando dela. Quem deu poderes a Andrea Neves? Foi Aécio.Não fui eu, não foi você, não foi o papa, não foi FHC.

Logo, também aqui, ele próprio se desconstruiu.

Não deve ser subestimado um fato, neste capítulo, que agrava as coisas. A família de Aécio tem pelo menos três rádios e um jornal em Minas, e para tudo isso foi destinado dinheiro público em forma de publicidade.

É, em si, uma indecência. Mas, para quem se apresente como guardião da moral, é pior ainda.

Ainda no capítulo do nepotismo, a trajetória de Aécio é o exato oposto da “meritocracia” de que ele fala abusivamente.

Aos 17 anos, o pai deputado federal lhe deu um emprego na Câmara, em Brasília. Só que, com esta idade, ele se mudara para o Rio para estudar.

Aos 25, um parente o nomeou diretor da Caixa Econômica Federal.

Isto não é desconstrução: é verdade. É biografia real. A verdade só descontrói quando o objeto dela fez coisas que merecem desconstrução.

Aécio era uma desconstrução à espera do momento em que luzes clareassem as sombras que sempre o acompanharam. Este momento veio quando ele se tornou candidato à presidência.

Não bastassem os fatos, em si, houve as atitudes nos debates. A grosseria primeiro com Luciana Genro e depois com Dilma, o riso cínico e debochado: assim se desconstruiu a imagem de “bom moço”.

Mas de novo: Aécio não tem ninguém a quem culpar, também aí, senão a si próprio.

Aécio, ao longo da campanha, promoveu uma minuciosa autodesconstrução.

Ganhou a sociedade. Quem votar nele sabe em quem está votando.

PS do Desenvolvimentistas: Este artigo foi escrito durante as eleições, porém, como possui um caráter esclarecedor no tocante a derrota do tucano, publicamos nesta data.

Uruguai rejeita redução de maioridade penal e terá segundo turno entre Vázquez e Lacalle Pou

Via Opera Mundi

Vázquez (à direita) discursa após vencer o primeiro turno; próximo presidente do país será escolhido em 30 de novembro. Agência Efe

Segundo turno para Presidência uruguaia ocorrerá no dia 30 de novembro; terceiro colocado já anunciou apoio a opositor contra governista.

Os dados iniciais da apuração oficial das eleições deste domingo (26/10) no Uruguai confirmam que os candidatos Tabaré Vázquez e Luis Alberto Lacalle Pou definirão a Presidência do país em segundo turno, marcado para o dia 30 de novembro. Em plebiscito que também foi realizado ontem, 53% dos uruguaios rejeitaram a redução da maioridade penal.

Até o momento, com 82,1% das urnas apuradas pela Corte Eleitoral, Vázquez, ex-presidente e líder do partido governista, Frente Ampla, tem 45,8% dos votos, enquanto o opositor Lacalle Pou conquistou 31,5%. Na terceira colocação está o candidato do Partido Colorado, Pedro Bordaberry, com 13,3% das preferências.

“Amanhã começa uma nova etapa, os uruguaios falaram e o povo uruguaio sabe se expressar com clareza. É nosso papel interpretar o que o povo diz. Teremos que ir para um novo embate. Encararemos a nova etapa na busca da Presidência no diálogo, no respeito a outras forças. E além das maiorias, o caminho será buscar o diálogo e respeito, e conhecer as opiniões de outras forças e buscar seu apoio em políticas”, disse Vázquez em discurso após a divulgação das pesquisas de boca de urna.

Bordaberry já anunciou que, no segundo turno, apoiará Lacalle Pou, do Partido Nacional. “O Uruguai precisa de mudanças, especialmente em segurança pública e educação, e estou convencido de que Lacalle Pou é o melhor dos dois candidatos que passaram para o segundo turno para encará-los”, afirmou o colorado.

De acordo com pesquisas de opinião, Vázquez e Lacalle Pou começarão a nova campanha tecnicamente empatados. Os resultados completos da apuração só devem ser conhecidos na tarde desta segunda-feira.

Redução da maioridade

Contrariando os levantamentos de intenção de voto, a população uruguaia rejeitou a redução da maioridade penal. Durante a campanha, a manutenção dos 18 anos como idade para responsabilidade penal chegou a estar perdendo por mais de 20 pontos percentuais, mas a proposta de diminuição acabou rejeitada por 53%.

“Isso é simplesmente um sinal de que não aceitaremos decisões simplistas. Não significa que não queiramos melhoras e que não queiramos que o Uruguai olhe com seriedade o que o preocupa, como, por exemplo, o tema da segurança”, afirmou Fabiana Goyeneche, líder da campanha pela manutenção dos 18 anos como idade de responsabilidade penal.