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Dilma repetirá os erros de 2011?

Por Helio Silveira

Em meados/fim de 2010, parecia que a crise mundial de 2008 tinha acabado, as commodities (principalmente alimentos) retomaram o caminho da alta provocando nos países do oriente médio o episódio da “Primavera Árabe” onde desempregados se manifestavam contra o aumento do custo de vida/alimentação, findando na derrubada de governos.

Em 2011, no Brasil, o recém eleito governo Dilma não percebeu a instabilidade da conjuntura mundial, e querendo paz com o “mercado” após os embates eleitorais, começou seu mandato subindo os juros da Selic.

Nós da Associação dos Funcionários do BNDES – AFBNDES, disparamos o Ensaios sobre a loucura (econômica), da Série BNDES:

E alertávamos que a subida dos juros poderia, diante de uma conjuntura mundial errática, retrair nosso crescimento dos 7% de 2010 para algo em tono de 3,5%.

Sobre o país, comentamos no artigo:

Brasil

Após um crescimento de 7,5% em 2010, parece que tudo se fará para voltarmos à paz dos cemitérios. Ao invés de metas de crescimento de 7% a.a., menor que as taxas históricas de mais de duas décadas do I e do C dos BRIC’s, perseguiremos metas de inflação de 4,5% a.a. (até 2012) e crescimento de 3,5% a.a.

Diante de uma conjuntura em que os países tentam de todas as formas manter suas moedas depreciadas, a nossa taxa de câmbio, já extremamente apreciada, é mais uma vez fortalecida, haja vista que em duas rodadas o COPOM manteve nossa taxa de juros na posição de maior do mundo – para a alegria dos rentistas daqui e do exterior.

Se confirmado o momento Ponzi, não poderemos presenciar o mesmo quadro acontecido em 2008, em que diante da eclosão da crise demoramos a reduzir a taxa de juros? Não poderemos presenciar uma nova depreciação cambial explosiva e a fuga dos capitais velocistas? Estamos diante de uma situação preocupante? Que medidas tomar?

E recomendávamos:

Planejar é preciso

Por outro lado, vivemos uma situação paradoxal, uma conjuntura mundial difícil, mas um calendário de eventos esportivos até 2016, além da exploração do Pré-Sal! E a partir dessa constatação, surgem várias interrogações: Conseguiremos superar o curto prazo e partirmos para planejar os próximos anos favoráveis?

Não será necessário retomar as práticas do planejamento estratégico para atacarmos nossas dívidas sociais e recuperarmos nossas estruturas urbanas, municipais e regionais? Não temos de buscar o pleno emprego e desenvolver nossas potencialidades dentro dos princípios da preservação ambiental e da sustentabilidade?

Não temos que planejar o desenvolvimento de nossa matriz energética limpa e logística, e através dela agregarmos valor ao nosso setor industrial, atualmente debilitado pelo câmbio e pelas elevadas taxas de juros?

Não temos que planejar e desenvolver a exploração do petróleo do Pré-Sal de forma a só exportar o excedente com maior valor agregado? Não temos que levantar o real dimensionamento das reservas para servir de lastro para as necessidades cambiais que financiarão a aquisição dos bens de capital iniciais necessários à recuperação do parque de equipamentos nacional para a exploração petrolífera? O excedente também não poderá financiar um novo processo de industrialização autônomo?

Não temos que ficar alertas diante das nações amigas que oferecem seus excessos de liquidez e suas instalações e equipamentos ociosos para financiar nossas necessidades presentes em troca do comprometimento de cotas futuras de petróleo cru?

Em 2012, após todos os acontecimentos, com a crise da Grécia e o lançamento dos afrouxamentos quantitativos nos EUA, confirmaram-se nossos receios de enfraquecimento econômico global, erramos na previsão do nosso crescimento, não foi 3,5%, foi 2,7%. Então publicamos o Erramos, foi pior.

Agora, a história se repete e temos um agravamento da crise mundial, com a recessão/deflação se espalhando pelo mundo, e o recém-reeleito Governo Dilma preocupado com a inflação e atendendo aos ditames do “mercado”, elevando a Selic.

Deixo aqui uma pesquisa da Bloomberg com investidores internacionais mostrando a preocupação relativa ao espalhamento da crise mundial.

A rica campanha de Eduardo Cunha

Por André Barrocal | Via Carta Capital

Líder do PMDB e candidato a presidente da Câmara gastou 6,4 milhões de reais para reeleger-se. Empresas de setores defendidos por ele estão entre principais financiadores.

Eduardo Cunha é forte candidato para presidir a Câmara

Corre nos corredores da Câmara dos Deputados a lenda de que o líder do PMDB, Eduardo Cunha, do Rio, prestou ajuda financeira a algumas dezenas de colegas na recente eleição. A montagem de uma bancada própria seria um dos motores da ambição dele de assumir a Presidência da Casa no início da próxima legislatura, em fevereiro. A lenda pode ser só fofoca de rivais do peemedebista. Mas uma coisa é certa. Cunha tem uma incrível capacidade de arrecadar fundos em eleições.

O deputado conquistou o quarto mandato seguido com uma das mais caras campanhas do País. Declarou ao Tribunal Superior Eleitoral ter gasto 6,4 milhões de reais, cerca de 50% a mais do que na disputa de 2010. As despesas foram custeadas quase na íntegra com o dinheiro de empresas. Cunha declarou ao TSE ter arrecadado 6,8 milhões de reais.

A maior doação ao candidato, no valor de um milhão de reais, partiu da Rima Industrial, um conglomerado atuante em vários setores, como o mineral. Por meio da controlada Mineração Corumbaense Reunida, a Vale, líder do ramo, repassou outros 700 mil reais.

Da indústria de bebidas, Cunha obteve 1,25 milhão de reais: um milhão da CRBS, controlada da Ambev a dividir com a Rima o posto de maior doadora, e 250 mil da Recofarma, fabricante da Coca-Cola. Em bancos, ele arranjou 1,35 milhão de reais: 500 mil do Bradesco, 500 mil do BTG Pactual, 300 mil do Santander e 50 mil do Safra.

A Telemont, do setor de telecomunicações, deu 900 mil reais ao peemedebista. A Líder Táxi Aéreo, 700 mil. A rede de shoppings Iguatemi, 500 mil. A Rio de Janeiro Refrescos, 300 mil. O restante da conta foi pago com recursos do comitê financeiro do PMDB fluminense.

A performance de Cunha no mandato prestes a terminar chama a atenção para algumas doações. O peemedebista foi o principal inimigo do governo na longa tramitação do Marco Civil da Internet. A lei foi aprovada com dispositivos contrários aos interesses do setor de telecomunicações, como a proibição à cobrança pelas operadoras de telefonia de um pedágio para facilitar ou dificultar o acesso a certos conteúdos web. A Telemont é operadora de sistemas de internet banda larga.

Na condição de líder do PMDB, Cunha escalou o relator da proposta de um novo Código da Mineração, enviada pelo governo ao Congresso com o objetivo de cobrar mais impostos do setor e condicionar a exploração do solo brasileiro a licitações prévias. Não é uma lei dos sonhos da Vale e da Rima. O texto está parado há mais de um ano na Câmara, graças ao relator indicado por Cunha, Leonardo Quintão, do PMDB de Minas, ele mesmo financiado por diversas mineradores na eleição.

Cunha, na definição de um colega da bancada peemedebista, age como lobista do setor privado na Câmara. Talvez seja esta a explicação para o sucesso dele na hora de arrecadar fundos de campanha e para ser é um ardoroso defensor das doações eleitorais feitas por empresas, uma autorização que a reforma política pregada por Dilma Rousseff pretende extinguir.

Ato em São Paulo reúne 20 mil em defesa das reformas e contra golpismo

Por Rodrigo Gomes | Via RBA

Manifestantes de diversos movimentos e entidades tomaram a avenida Paulista pacificamente. RBA/Reprodução

Entidades ‘contra a direita, por mais direitos’ mandam recado de apoio, ao mesmo tempo que cobram de Dilma ações para mudanças consideradas essenciais.

São Paulo – Ao som de Racionais MCs e Luiz Gonzaga, 20 mil pessoas ligadas a movimentos sociais, partidos e sindicatos realizaram ontem (13) uma manifestação na avenida Paulista, região central da cidade, em defesa de reformas estruturais e em apoio a proposta da presidenta Dilma Rousseff (PT) de realizar um plebiscito para consultar a população sobre como efetivar a reforma política. O ato também foi um rechaço contra a ação realizada no último dia 1º, em que cerca de duas mil pessoas pediram o impeachment da presidenta e intervenção militar no país.

O tema central do ato, considerado prioritário para os movimentos é a política. Com financiamento público de campanhas para acabar com a interferência do poder econômico nas eleições, maior participação popular nas decisões e isonomia para que os partidos concorram em igualdade de condições nos pleitos.

Em junho do ano passado, Dilma propôs um plebiscito para consultar a população sobre quais mudanças devem ser feitas no sistema eleitoral. No entanto, houve resistência no Congresso, que travou a medida. Ainda hoje os parlamentares resistem à proposta, mesmo nos partidos que compõem a base aliada da presidenta, como PMDB.

O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, avalia que é grande a disposição dos movimentos e organizações para apoiar a presidenta Dilma na condução dos processos. “Ela ganhou para colocar as reformas em pauta e nós estaremos nas ruas para apoiar. O mercado financeiro e a direita não podem pautar o governo dela, porque eles perderam a eleição. Quem venceu foi a agenda progressista”, afirmou.

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, uma das entidades que promoveram a manifestação.”Hoje temos aqui o povo brasileiro. Não é a meia dúzia de ‘playboyzinhos’ que ficou bravinha com a derrota do seu candidato [Aécio Neves (PSDB)]. Aqui também queremos intervenção. Mas do povo nos rumos da política”, afirmou.

Boulos ressaltou a importância do plebiscito constituinte para tentar evitar que a reforma política não fique nas mãos de deputados e senadores. “Na eleição se falou muito em mudança. Isso é com a reforma política. Mas o Congresso hoje é 90% formado por empresários, banqueiros e latifundiários. É ilusão acreditar que eles vão fazer a reforma, sendo financiados pela Friboi, pela Odebrecht”, disse, ilustrando a necessidade de suprimir definitivamente o financiamento de campanhas eleitorais por empresas.

Freitas defendeu também a democratização das comunicações, considerada por ele como parte da reforma política. “Hoje não há democracia nas comunicações, mas sim uma ditadura controlada por seis famílias”, disse, dialogando com a candidata derrota na última eleição presidencial Luciana Genro (Psol), que ele considerou prejudicada pela seleção feita por parte da imprensa sobre quem pode ou não aparecer nos jornais e debates. “Nem todos têm espaço e isso deve ser corrigido”, completou.

Luciana afirmou que a direita não quer que o povo lute por melhores condições de vida e são incapazes de aceitar o mínimo avanço das políticas sociais. “Nós vamos enfrentar quem for para garantir os direitos dos trabalhadores, dos jovens, das mulheres, dos LGBT. A maioria do nosso povo quer democracia real e não essa ditadura do mercado financeiro”, afirmou, também defendendo a reforma política.

Estruturais

Entre as demais propostas também tratadas no ato estão as reformas agrária e urbana, que garantam acesso à terra para todos, com apoio à produção familiar no campo e regras para a fixação dos valores de aluguel, sobretudo o residencial, nas cidades. Destacou-se também a desmilitarização da segurança pública, unificando as polícias e estabelecendo controle social orientado para a atuação cidadã.

Uma reforma tributária, que garanta a progressividade dos impostos para deixar de onerar mais pesadamente os pobres, também está na pauta dos movimentos. Esse é um dos temas mais difíceis de solucionar, que se arrasta desde os anos 1960 no Congresso. “Não é possível o trabalhador ser taxado no salário e nos alimentos básicos, enquanto as grandes fortunas e os itens de luxo, como helicópteros ou lanchas, não terem qualquer imposto”, protestou Freitas.

Para os movimentos, no entanto, é preciso que a presidenta Dilma sinalize interesse em “guinar à esquerda”. Queremos que ela receba os movimentos e entidades que foram para a rua e atuaram para garantir a reeleição dela. O compromisso desse governo deve ser com o povo e não com o mercado financeiro”, disse Freitas.

“Se a presidenta cortar investimentos sociais, o ano que vem será marcado por ocupações, greves e lutas. Vá cortar no lucro dos bancos, vá democratizar os meios de comunicação, vá fazer auditoria na dívida pública”, afirmou Boulos.

Mobilização

A militante Paola Estrada, da Secretaria Operativa Nacional do Plebiscito Popular da Constituinte, ressaltou que não apenas a grande participação na marcha como também o número de movimentos participantes, que chegaram a 500 organizações.

“Há 30 anos não vemos uma campanha tão ampla. Mas temos que ficar atentos porque a grande imprensa tenta dissimular até mesmo a fala da presidenta Dilma quando cria a falsa polêmica entre plebiscito e referendo”.

Em paz

Apesar da forte chuva que atingiu a região central de São Paulo no fim da tarde, os manifestantes não desanimaram e marcharam pelo bairro dos Jardins, indo até a praça Roosevelt. No caminho, dançaram forró em frente ao hotel Renaissance e questionaram a xenofobia expressada contra os nordestinos após o resultado das eleições.

“A juventude tem outro método para tomar as ruas, com alegria e a luta do povo”, falou a representante do Levante Popular da Juventude, Beatriz Lourenço.

A Polícia Militar (PM), que acompanhou o ato sem equipamentos ostensivos, mantinha em frente ao hotel – para defendê-lo da manifestação – um grupamento com cinco viaturas e quinze policiais com escudos e armaduras, além de armas de bala de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Não houve confrontos.

Dali, os manifestantes seguiram pela rua da Consolação até a praça Roosevelt, onde um homem identificado apenas como Osmar teve uma convulsão e foi socorrido pelos participantes do ato e pelo coordenador do MTST, Josué Rocha, que é médico. Osmar foi levado para a Santa Casa de Misericórdia desacordado e não houve novas informações até o fechamento da reportagem.

Debate sobre comunicação pós-eleições é oportuno, destaca Jandira

Por Márcia Xavier | Via Portal Vermelho

Jandira foi muito aplaudida quando disse que fica “perplexa que ainda tenhamos rádios comunitárias com processos judiciais e a (Editora) Abril que circula livremente”. Agência Câmara/Reprodução

Para discutir a organização, a mobilização e as negociações pela regulamentação da comunicação pública, entidades e parlamentares ligados ao setor se reuniram nesta quinta-feira (13), na abertura do Fórum Brasil de Comunicação Pública 2014, que prossegue até sexta-feira (14), na Câmara dos Deputados, em Brasília. Para a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que abriu o evento, a data é oportuna, após o embate eleitoral.

“Oportuna a data no contexto político, depois do grande embate eleitoral, onde houve cisão clara sobre o que é a mídia comercial e como ela entra nas decisões políticas do povo brasileiro; e as outras formas, que se comportaram de maneira diversa”, avaliou a parlamentar, que se disse “perplexa que ainda tenhamos rádios comunitárias com processos judiciais e a (Editora) Abril que circula livremente”. A fala de Jandira Feghali recebeu muitos aplausos em manifestação clara da plateia contrária a parcialidade da mídia comercial na campanha eleitoral.

A parlamentar, líder do PCdoB na Câmara, substitui a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), coordenadora da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação (FrenteCom), que não pode participar do evento por problemas de doença.

Jandira elogiou a realização do evento, comemorou a união das entidades da sociedade civil e cobrou do Parlamento a aprovação de diversos projetos que podem contribuir com o avanço no processo de democratização da comunicação no país.

A parlamentar também manifestou o desejo de que do evento derivem propostas concretas para esse nível de decisão política (o Parlamento), mas também direcionado ao governo e à sociedade civil.

Ela admite que a responsabilidade do Poder Legislativo é grande, porque é onde tramitam muitas matérias que podem ajudar na luta pela democratização da comunicação, citando como exemplo o projeto de regionalização da programação, que tramita há 24 anos no Parlamento, e de financiamento das mídias alternativas, proposta pela deputada Luciana Santos (PCdoB-PE).

Reforma estruturante

Para Jandira Feghali, o tema da democratização da comunicação é tão importante e estruturante para o Brasil quando a reforma política, e exige um projeto de iniciativa popular para chegar com força no Parlamento. Ela destacou ainda que para poder avançar nessa luta é preciso que haja decisão política na superestrutura desse país. Que a democratização da comunicação seja, para o governo federal, prioridade, garantindo regulamentação, financiamento das mídias alternativas e valorização dos recursos humanos.

Ela também falou sobre os obstáculos que devem ser enfrentados para se garantir “o desejo de todos nós que é o acesso de todos os brasileiros à comunicação com controle social, com pluralidade e diversidade”.

“Pelo tamanho e objetivo estratégico que tem esse debate e pelo tamanho da rede privada e parlamentares donos de meios de comunicação existe muita dificuldade dessa pauta tramitar nessa Casa, mas temos que superar isso. E com fóruns como esses nos poderemos ter nova articulação política para superar os obstáculo”, avaliou a deputada, para quem é preciso “coragem e ousadia” no embate.

Fortalecer comunicação pública

Rosane Bertotti, coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), declarou, em sua fala de abertura, que “é essencial sair daqui com o fortalecimento do sistema público, que passa por algumas questões que vamos debater ao longo do evento e pela mobilização social”.

Ela defendeu a regulação das rádios e TVs comunitárias, que precisam garantir seus espaços no espectro digital no processo de transição do analógico, que precisa de autonomia e precisa de recursos. Ele comemorou a sinalização da presidenta reeleita Dilma Rousseff de regulamentação econômica da mídia, mas destacou que é preciso lutar pelo fim do monopólio, contra a propriedade cruzada e pela liberdade de expressão.

“Todo o processo exige empenho e construção. Nos debates, nas negociações, nas mobilizações”, afirmou, enfatizando que a luta é pela liberdade de expressão como um direito de todos os brasileiros, rechaçando a pecha de censura que a grande mídia quer fazer parecer ao debate da democratização.

“Carinho e cuidado”

Os demais oradores da solenidade de abertura do evento, como Otávio Penna, representante do Ministério das Comunicações; Nelson Breve, diretor presidente da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC); e Ana Fleck, do Conselho Curador EBC, foram unânimes sobre a importância do debate e a necessidade de avanços para o setor.

Ana Fleck diz que vê com bons olhos o anuncio da presidenta reeleita de dar um passo na regulação da comunicação, manifestando esperança de que ela promova a democratização e que não volte atrás nessa decisão. “E que tenha mais carinho e cuidado com a EBC. Ainda estamos muito carentes”, avaliou, sob aplausos dos manifestantes que carregavam faixas e cartazes exigindo melhorias nas condições de trabalho na empresa.

Mauricismo X Bolivarianismo, uma tendência

Por Cynara Menezes | Via Socialista Morena

À esquerda, o mauricinho presidenciável Lacalle Pou, do Uruguai. Foto: divulgação

Tive a antevisão dessa ofensiva tempos atrás, no início dos anos 2000, quando assisti os mauricinhos abandonarem suas trincheiras na Vila Olímpia, bairro coxinha por excelência, e invadirem a Vila Madalena, tradicional bairro boêmio e alternativo de São Paulo. Naquele momento, pressenti e temi que algum dia eles quisessem ir além e decidissem tomar o poder. A ideia de uma revolução mauricinha me deu calafrios. Pronunciei mentalmente um “no pasarán” apaziguador e fui afogar as mágoas tomando umas cervejas no Empanadas. Mais de dez anos depois, porém, para meu desgosto, a profecia se cumpriu.

Mauricinhos, playbas, coxinhas. Chamem-nos como quiserem: trata-se do mesmo personagem de corte de cabelo impecável e com uma preferência indesculpável pelo mocassim. Hugo Chávez os chamava “esquálidos”. Na Argentina e Uruguai, são apelidados “chetos”. No Chile os chamam “cuicos”. Em comum, em primeiro lugar, o fato de serem homens jovens, brancos e bem-nascidos, uma espécie de versão sul-americana dos WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant). Nem tão brancos, portanto, e católicos. Para quem acha que foi o PT quem inventou a luta de classes, não deixa de ser curioso observar que a disputa entre a esquerda e os filhos da elite política, econômica e midiática é, na verdade, uma tendência no continente.

O figurino coxinha pode até ser emulado por wannabes de várias classes sociais, mas só o legítimo mauricinho tem berço: descende de famílias poderosas há gerações e trilha o mais atapetado dos caminhos para chegar lá. Boas escolas, boas relações, bons empregos –sobretudo no aconchego das empresas da família. Self-made men são raríssimos no seleto clube dos maurícios, onde o sobrenome é tão imprescindível quanto as camisetas gola pólo ou as camisas de algodão azul clarinho no guarda-roupa. O mais gozado disso tudo é que, com uma vida tão facilitada pela família, todos eles adoram defender a “meritocracia”.

Graças ao apoio ostensivo da mídia, os mauricinhos vêm se tornando, nos últimos anos, os principais rivais dos governos de esquerda na América do Sul. Eles são a antítese dos ditos “bolivarianos” em tudo. Falam inglês, ao contrário de Lula; estudaram nos melhores colégios, em contraste com a falta de polidez de Chávez ou Nicolás Maduro; se vestem de maneira elegante, em contraponto ao estilo mal-ajambrado de Pepe Mujica ou Dilma Rousseff; e são jovens contra coroas de esquerda como Mujica, Dilma, Lula ou Tabaré Vázquez.

O precursor dos playbas anti-bolivarianos foi, sem dúvida, Henrique Capriles, na Venezuela. Herdeiro de empresas de comunicação, imobiliárias e indústrias por parte de pai, e de uma cadeia de cinemas por parte de mãe, o advogado Capriles, de 42 anos, elegeu-se deputado pela primeira vez aos 26, em 1998. Em 2013, deu muito trabalho a Chávez na disputa pela presidência e mais ainda a Nicolás Maduro, que substituiu o comandante em nova eleição após a morte deste.

Os mauricinhos venezuelanos Henrique Capriles e Leopoldo López

Apesar de ter perdido o pleito por uma diferença de pouco mais de um ponto percentual, Capriles só não se tornou o grande nome da oposição venezuelana porque passou a travar uma disputa, digamos, mauricida com um companheiro da própria MUD (Mesa da Unidade Democrática), Leopoldo López. Aos 43 anos, López é descendente do primeiro presidente da Venezuela, de ministros, médicos famosos, e, garante, do próprio Simón Bolívar (Capriles, aliás, diz o mesmo). Sua mãe foi uma importante diretora da PDVSA antes da estatização promovida por Chávez. Formou-se em economia nos Estados Unidos e, aos 29 anos, tornou-se prefeito de Chacao, um dos municípios que formam a área metropolitana de Caracas.

No Brasil, confesso que cheguei a temer que o rei dos coxinhas em pessoa, Luciano Huck, resolvesse se candidatar à presidência ou a vice de algum candidato este ano. Mas quem se lançou foi seu amigo Aécio Neves, do PSDB, com perfil em tudo similar ao dos venezuelanos. Neto de Tancredo Neves, Aécio conseguiu cargos públicos ainda bastante jovem e sem maior esforço. Foi diretor de loterias da Caixa Econômica aos 25 anos, nomeado pelo presidente José Sarney, e em seguida se elegeu deputado federal com uma votação esmagadora, alavancado pelo sobrenome de peso.

O mauricinho brasileiro Aécio Neves e seus bons companheiros Luciano Huck e Ronaldo

Aécio pode ser considerado um pioneiro do movimento mauricista, porque é mais velho do que seus congêneres sul-americanos: todos eles em geral estão entrando nos 40 anos, enquanto o mineiro tem 54, conservadíssimos pelo estilo de vida jovial de quem passou boa parte da vida na zona sul do Rio de Janeiro. No entanto, é inegável que o grande patrono do fenômeno dos maurícios entre nós é o hoje senador da base governista (!) Fernando Collor de Mello.

Eleito para a presidência da República em 1989, aos 40 anos, Collor exibiu todas as características de um mauricinho no poder. Bons restaurantes, bons vinhos, carros velozes, jet-skis e até marcas de caneta (Montblanc) e relógio (Breitling) viraram símbolo de sua era. Na economia, cercou-se de jovens como ele, economistas liberais capitaneados por Zélia Cardoso de Mello, de 37 anos –a equipe que iria tungar a poupança dos brasileiros em 1990. Seu governo, sem apoio no Congresso, terminaria em impeachment.

Collor, um pioneiro do mauricismo na política, e seu jet-ski

Aécio, como todos os demais mauricinhos anti-bolivarianos, não assume o neoliberalismo do pensamento econômico tucano e se diz preocupado também com o social. Depois de uma disputa voto a voto com Dilma Rousseff, do PT, pode-se dizer sem chance de errar que o neto de Tancredo se tornou o maior expoente do mauricismo pátrio –não à toa, tem a seu lado nomes de peso da tendência, como o já citado Huck, o baiano ACM Neto ou Ronaldo, o Fenômeno. Mas será que a mauricidade de Aécio resiste até 2018, quando terá 58 anos e a cabeça toda branca? Ou será substituído por um maurício mais jovem, como… Huck? Argh.

Atualmente, a novidade mais quente entre os mauricinhos da política do Cone Sul é o uruguaio Lacalle Pou, que irá enfrentar o esquerdista Tabaré Vázquez no próximo dia 30 de novembro, no segundo turno das eleições para a presidência do Uruguai. O advogado de 41 anos é tão bem-nascido que tem até nome de nobre: Luis Alberto Aparicio Alejandro Lacalle Pou de Herrera. Um verdadeiro príncipe. Seu pai, Luis Alberto Lacalle, foi presidente do país entre 1990 e 1995, e foi derrotado por Tabaré em sua tentativa de voltar ao cargo, em 1999. Em 2009, se lançou à presidência novamente e perdeu para Mujica.

Lacalle Pou estudou na British School, a mais seleta escola de Montevidéu, e, como todos os mauricinhos anti-bolivarianos, entrou cedo na política, com o empurrãozinho do sobrenome paterno e também materno, de longa tradição entre os “blancos” (Partido Nacional). Aos 27 anos, em 2000, se elegeu deputado. Agora, se tornou a grande surpresa da eleição ao levar a disputa no país para o segundo turno. A mãe do candidato, Julita Pou, também foi senadora, e, segundo diz a imprensa uruguaia, é a grande financiadora da campanha do filho, o que ele nega.

Em agosto, o candidato causou polêmica ao “desafiar” Tabaré, de 74 anos, a repetir uma estripulia física chamada “bandeira” com um poste, o que lhe rendeu o apelido de “Lacalle Pole” e muita gozação na internet, além de críticas por zombar do adversário por ser “velho”.

O pai de Lacalle Pou foi um presidente em cujo governo se acentuou a desigualdade social no Uruguai e que se notabilizou pela privatização de empresas e pelas denúncias de corrupção. Lacallito rejeita para si o epíteto de neoliberal ou de “Chicago Boy” (os economistas responsáveis pelo “milagre” chileno durante a ditadura de Pinochet que anteciparam o neoliberalismo). Pelo contrário, elogia as conquistas da Frente Ampla de Mujica e Tabaré e diz que irá mantê-las. Quem nunca viu este filme antes?

Se ganhar a eleição, Lacalle Pou será o primeiro dos mauricinhos anti-bolivarianos a conseguir derrotar um esquerdista e chegar ao poder. Felizmente, ao contrário do que fez Chávez na Venezuela, são remotas as chances de, eleito, mudar o nome do país para República Maurícia do Uruguai –ou República “Cheta” do Uruguai. Pelo sim, pelo não, melhor preparar a camiseta pólo e o mocassim para a posse.

Santayana: Os pilares da estupidez

Por Mauro Santayana, em seu blog

Charge de Vitor Teixeira

Está em curso, há anos, nas “redes sociais” insidiosa campanha de agressão à democracia e crescentes ataques às instituições.

Quem cala, consente. Os governos do PT têm feito, em todo esse período, cara de paisagem. Nem mesmo quando diretamente insultados, ou caluniados, os dirigentes do partido tomaram qualquer providência contra quem os atacava, ou atacava as instituições, esquecendo-se de que, ao se omitirem, a primeira vítima foi a democracia. Nisso, sejamos francos, foram precedidos por todos os governos anteriores, que chegaram ao poder depois da redemocratização do país.

Mergulhados na luta política e na administração cotidiana dos problemas nacionais, nenhum deles percebeu que o primeiro dever que tínhamos, nesta nação, depois do fim do período autoritário, era regar e proteger a frágil flor da Liberdade, ensinando sua importância e virtudes às novas gerações, para que sua chama não se apagasse no coração dos brasileiros. Se, naquele momento, o da batalha pela reconquista do Estado de Direito, cantávamos em letras de rock que queríamos votar para presidente, hoje parece que os polos da razão foram trocados, e que vivemos sob a égide da insânia e da vilania.

Em absoluta inversão de valores, da ética, da informação, da própria história, retorna a velha balela anticomunista de que Jango — um latifundiário liberal ligado ao trabalhismo — ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil, ou que algumas dezenas de estudantes poderiam derrubar, quatro anos depois, um regime autoritário fortemente armado, quando não havia nenhuma condição interna ou externa para isso.

Agora, para muitos que se manifestam pela internet, quem combatia pela democracia virou terrorista, os torturadores são incensados e defendidos, e prega-se abertamente o fim do Estado de Direito, como se o fascismo e o autoritarismo fossem solução para alguma coisa, ou o Brasil não fosse ficar, política e economicamente, imediata e absolutamente, isolado do resto do mundo, caso fosse rompida a normalidade constitucional.

Ora, os mesmos internautas que insultam, hoje, o Judiciário, sem serem incomodados — afirmando que o ministro Toffoli fraudou as eleições — já atacaram pesadamente Aécio Neves e sua família, quando ele disputava a indicação como candidato à Presidência pelo PSDB em 2010. São eles os mesmos que agridem os comandantes militares, acusando-os de serem “frouxos” e estarem controlados pelos comunistas, e deixam claro seu desprezo pelas instituições brasileiras, incluindo as Forças Armadas, pedindo em petição pública à Casa Branca uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil, como se fôssemos reles quintal dos EUA, quando são eles os que se comportam como abjetos vira-latas, em sua patética submissão ao estrangeiro.

São eles os que defendem o extermínio dos nordestinos e a divisão do país, como se apenas naquela região a candidata da situação tivesse obtido maioria, e não estivéssemos todos misturados, ou nos fosse proibida a travessia das fronteiras dos estados.

São eles que inventam generais de araque, supostos autores de manifestos igualmente falsos, e usam, sem autorização, o nome de oficiais da reserva, em documentos delirantes, tentando manipular, a todo momento, a base das Forças Armadas e as forças de segurança, dando a impressão de que existem sediciosos no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, quando as três forças se encontram unidas, na execução de projetos como o comando das Operações de Paz da ONU no Haiti e no Líbano; as Operações Ágata, em nossas fronteiras; o novo Jato Cargueiro Militar KC-390 da Embraer; o novo Sistema de Mísseis Astros 2020 da Avibras; ou o novo submarino nuclear brasileiro, no cumprimento, com louvor, de sua missão constitucional.

O site SRZD, do jornalista Sérgio Rezende, entrou em contato com oficiais militares da reserva, que supostamente teriam “assinado” um manifesto, que circula, há algum tempo, na internet. O texto se refere a “overdose de covardia, cumplicidade e omissão dos comandantes militares” e afirma que, como não há possibilidade de tirar o PT do poder pelas urnas, é preciso dar um golpe militar, antes que o Brasil se transforme em uma “Cuba Continental”.

Segundo o SRZD, todos os oficiais entrevistados, incluindo alguns generais, negaram peremptoriamente terem assinado esse “manifesto” e afirmaram já ter entrado em contato com o Ministério do Exército, denunciando tratar-se o e-mail que divulgava a mensagem de uma farsa e desmentindo sua participação no suposto movimento.

Por mais que queiram os novos hitlernautas, os militares brasileiros sabem que o governo atual não é comunista e que o Brasil não está, como apregoam os “aloprados” de extrema direita que tomaram conta da internet, ameaçado pelo comunismo internacional.

Como dizer que é comunista, um país em que os bancos lucram bilhões, todos os trimestres; em que qualquer um — prerrogativa maior da livre iniciativa — pode montar uma empresa a qualquer hora, até mesmo com apoio do governo e de instituições como o Sebrae; no qual investidores de todo o mundo aplicam mais de 60 bilhões de dólares, a cada 12 meses, em Investimento Estrangeiro Direto; onde dezenas de empresas multinacionais se instalam, todos os anos, junto às milhares já existentes, e mandam, sem nenhuma restrição, a cada fim de exercício, bilhões e bilhões de dólares e euros em remessa de lucro para e exterior?

Como taxar de comunista um país que importa tecnologia ocidental para seus armamentos, tanques, belonaves e aeronaves, cooperando, nesse sentido, com nações como a França, a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos? Que participa de manobras militares com os próprios EUA, com países democráticos da América do Sul e com democracias emergentes, como a Índia e a África do Sul?

Baboso, atrasado, furibundo, ignorante, permanentemente alimentado e realimentado por mitos e mentiras espatafúrdias, que medram como fungos nos esgotos mais sombrios da Rede Mundial, o anticomunista de teclado brasileiro é sobretudo hipócrita e mendaz.

Ele acredita “piamente” que Dilma Rousseff assaltou bancos e matou pessoas e que José Genoíno esquartejou pessoalmente um jovem, começando sadicamente pelas orelhas, quando não existe nesse sentido nenhum documento da ditadura militar.

Ele vê em um site uma foto da Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq, situada em Piracicaba, e acredita, também, “piamente”, que é uma foto da mansão do “Lulinha”, que teria virado o maior fazendeiro do país, junto com seu pai, sem que exista uma única escritura, ou o depoimento — até mesmo eventualmente comprado — de um simples peão de fazenda ou de um funcionário de cartório, que aponte para alguma prova ou indício disso, como de outras “lendas urbanas”, como a participação da família do ex-presidente da República na propriedade de um grande frigorífico nacional.

Ele crê, piamente, e divulga isso, todo o tempo, que todos os 600 mil presos brasileiros têm direito a auxílio-reclusão quando quase 50% deles sequer foram julgados, e menos de 7% recebem esse benefício, e mesmo assim porque contribuíram normalmente, antes de serem presos, para a Previdência, durante anos, como qualquer trabalhador comum.

Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição. Nesse sentido, o senhor Jair Bolsonaro presta um serviço à democracia quando diz que falta, no Brasil, um partido com essa orientação ideológica, e já se declara candidato à Presidência, por essa provável agremiação, ou por essa parcela do eleitorado, no pleito de 2018.

Os mesmos internautas que pensam que Cuba é uma ditadura contagiosa e sanguinária, da qual o Brasil não pode se aproximar, ligam para os amigos para se gabar de seu novo smartphone ou do último gadget da moda, Made in República Popular da China, que acabaram de comprar.

Eles são os mesmos que leem os textos escritos, com toda a liberdade, pela opositora cubana Yoami Sanchez — já convenientemente traduzidos por “voluntários” para 18 diferentes idiomas — e não se perguntam, por que, sendo Cuba uma ditadura, ela está escrevendo de seu confortabilíssimo, para os padrões locais, apartamento de Havana, e não pendurada em um pau de arara, ou tomando choques e sendo espancada na prisão.

Mas fingem ignorar que 188 países condenaram, há alguns dias, em votação de Resolução da ONU, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, exigindo o fim do bloqueio.

Ou que os EUA elogiaram e agradeceram a dedicação, qualidade e profissionalismo de centenas de médicos cubanos enviados pelo governo de Havana para colaborar, na África, com os Estados Unidos, no combate à pandemia e tratamento das milhares de vítimas do ebola.

Ou que a Espanha direitista de Mariano Rajoy, e não a Coreia do Norte, por exemplo, é o maior sócio comercial de Cuba.

Ou que há poucos dias acabou em Havana a XXXIII FIHAV, uma feira internacional de negócios com 4.500 expositores de mais de 60 países — aproximadamente 90% deles ocidentais — com a apresentação, pelo governo cubano, a ávidos investidores estrangeiros, como os italianos, canadenses e chineses, de 271 diferentes projetos de infraestrutura, com investimento previsto de mais de 8 bilhões de dólares.

Radical, anacrônica, desinformada e mais realista que o rei, a minoria antidemocrática que vai, eventualmente, para as ruas e se manifesta raivosamente na internet querendo falar em nome do país e do PSDB, pedindo o impeachment da presidente da República e uma intervenção militar, ou dizendo que é preciso se armar para uma guerra civil, baseia-se na fantasia de que a nação está dividida em duas e que houve fraude nas urnas, mas se esquece, no entanto, de um “pequeno” detalhe: quase um terço dos eleitores, ou mais de 31 milhões de brasileiros, ausentes ou donos de votos brancos e nulos, não votaram nem em Dilma nem em Aécio, e não podem ser ignorados, como se não existissem, quando se fala do futuro do país.

Cautelosa e consciente da existência de certos limites intransponíveis, impostos pelo pudor e pela razão, a oposição tem se recusado a meter a mão nessa cumbuca, fazendo questão de manter razoável distância desse pessoal.

Guindado, pelo voto, à posição de líder inconteste da oposição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, por ocasião de seu primeiro discurso depois do pleito, no Congresso, disse que respeita a democracia permanentemente e que “qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político”.

Antes dele, atacado por internautas, por ter classificado de “antidemocráticas” as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma e a volta do autoritarismo, o agrônomo e assessor de marketing Xico Graziano, também do PSDB, já tinha afirmado que “a truculência dessa cambada fascista que me atacou passa de qualquer limite civilizado. No fundo, eles provaram que eu estava certo: não são democratas. Pelo contrário, disfarçam-se na liberdade para esconder seu autoritarismo”.

E o vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, também negou, no dia primeiro, em São Paulo, que o partido ou a campanha de Aécio Neves estivessem por trás ou apoiassem — classificando-as de “irresponsáveis” — as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

É extremamente louvável a iniciativa do presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Côelho, de pedir a investigação e o indiciamento, que já estão em curso, pela Polícia Federal, com base na Lei do Racismo por procedência, dos internautas responsáveis pela campanha contra os nordestinos, lançada logo após a divulgação do resultado da eleição.

Mas, se essa campanha é grave, mais grave ainda, para toda a sociedade brasileira, tem sido a pregação constante, que já ocorre há anos, pelos mesmos internautas, da realização de um Golpe de Estado, do assassinato e da tortura de políticos e intelectuais de esquerda, e de “políticos” de modo geral, além do apelo à mobilização para uma guerra civil, incluindo até mesmo a sugestão da compra de armas para a derrubada das instituições.

Cabe ao STF, ao Ministério Público, ao TSE, e aos tribunais eleitorais dos estados, que estão diretamente afeitos ao assunto, e à OAB, por meio de seus dirigentes, pedir, como está ocorrendo nos casos de racismo, a imediata investigação, e responsabilização, criminal, dos autores desses comentários, cada vez mais rançosos e afoitos, devido à impunidade, e o estabelecimento de multas para os veículos de comunicação, que os reproduzem, já que na maioria deles existem mecanismos de “moderação” que não têm sido corretamente aplicados nesses casos.

A Lei 7.170 é clara, e define como “crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito”.

Há mais de 30 anos, pelas mãos de Tancredo Neves e de Ulisses Guimarães — em uma luta da qual Aécio também participou — e de milhões de cidadãos brasileiros, que foram às ruas, para exigir o fim do arbítrio e a volta do Estado de Direito, o Brasil reconquistou a democracia, pela qual havia lutado, antes, a geração de Dilma Rousseff, José Dirceu, José Serra e Aluísio Nunes, entre outros.

Por mais que se enfrentem, agora, essas lideranças, não dá para apagar, de suas biografias, que todos tiveram seu batismo político nas mesmas trincheiras, enfrentando o autoritarismo.

Cabe a eles, principalmente os que ocupam, neste momento, alguns dos mais altos cargos da República, assumir de uma vez por todas sua responsabilidade na defesa e proteção da democracia, para que a Liberdade e o bom-senso não esmoreçam, nem desapareçam, imolados no altar da imbecilidade.

Jornalistas, meios de comunicação, Judiciário, militares, Ministério Público, Congresso, Governo e Oposição, precisamos, todos, derrubar os pilares da estupidez, erguidos com o barro pisado, diuturnamente, pelas patas do ódio e da ignorância, antes que eles ameacem a estabilidade e a sobrevivência da nação, e da democracia.

Golpe em curso

Por Paulo Metri | Via Correio da Cidadania

Os que querem a derrubada do governo

Não conheço todos que trabalham para derrubar nosso governo, mas tenho conhecimento de algumas pessoas, organizações e países que estão trabalhando com afinco para derrubá-lo. O capital internacional, mais representado pelas empresas petrolíferas, que queriam ficar com a maior parte do petróleo do Pré-sal, desejariam ver um governo capacho tomando o poder. São os capitais que se sentem prejudicados com a assinatura de acordos pelo Brasil com a China, Rússia, Índia, África do Sul, países do Mercosul, outros países da América Latina, países da África e do Oriente Médio, enfim, com os novos parceiros do Brasil. São os Estados Unidos da América, uma vez que o planejamento da evolução das forças armadas deste país, segundo o seu próprio Departamento de Defesa, dentre outros objetivos, visa tolher o aparecimento de outros hegemones.

Está interessada na derrubada do nosso governo, por mais incrível que possa parecer, uma parcela do capital nacional, que se contenta em ser um proxeneta do internacional. Políticos, que se aliam a grupos estrangeiros para prejuízo do nosso povo também aderiram ao golpe. Políticos corruptos e seus corruptores nacionais querem derrubar, de qualquer forma, o atual governo, porque este tem liberado a Polícia Federal, a CGU e o Ministério Público para investigarem qualquer denúncia que apareça. Os atuais herdeiros dos antigos “donos de engenho”, que trocam a felicidade do povo pelo acúmulo de riqueza para eles próprios, não querem ver “peões” como beneficiados pelo poder.

Toda vez que a sociedade brasileira evolui, no sentido de aumentar seu nível de conscientização política e de desenvolvimento social, uma parcela pequena da população, contudo possuidora da mídia comercial e de muitos recursos, que representa interesses estrangeiros, busca barrar a evolução. Foi assim nos governos Vargas e Jango.

Em todas as situações, a derrubada começa com mentiras descaradas sobre o governo, transmitidas para a população exaustivamente por uma mídia corrupta, como se fossem verdades. Em seguida, vários poderes, políticos e lideranças criam obstáculos sistemáticos para quem foi democraticamente eleito.

Esta minoria quer o poder para continuar a exploração dos indefesos da sociedade e, com isso, continuar concentrando a renda em suas mãos. Quer também entregar riquezas nacionais a estrangeiros, que financiaram suas campanhas políticas, o atual golpe e ainda prometem umas migalhas para o futuro. Os governos Lula e Dilma representaram uma inflexão desta tendência. Registre-se que os benefícios para os mais desprotegidos, ocorridos nos citados governos, não foram subvencionados com recursos retirados ou que iriam para a classe média – portanto, não há razão para ela se opor a estes benefícios. No entanto, ela é muito influenciada pela mídia do capital.

Congresso fisiológico e conservador

O Congresso nacional é formado por uma grande bancada fisiológica e uma menor bancada ideológica. Os fisiológicos foram eleitos com auxílio de recursos bancados por apoiadores de campanha, não só o que é permitido pela legislação, como através de caixa dois. Assim, seus mandatos não são seus, nem dos eleitores que os elegeram. São dos seus apoiadores de campanhas, que têm interesses bem diferentes da presidente Dilma. Portanto, ela terá razoável dificuldade para conseguir ter qualquer assunto aprovado no Congresso.

Esporadicamente, o interesse público prevalece no Congresso, mas quase sempre é patrocinado por congressistas ideológicos. Os fisiológicos só querem “usufruir” de seus mandatos, pois passam a ter algum poder, que pode ser traduzido em dinheiro. Assim, para eles, o Congresso nada mais é que um balcão de negócios. Mas algumas decisões não dependem unicamente deles, mas também da presidente. Assim, quando ela precisa da aprovação, por parte deles, de outros temas, chantageiam-na com a aprovação dos pontos que representarão dinheiro para eles.

O presidente que não fizer um mínimo de concessões não irá governar. As alternativas seriam, em primeiro lugar, buscar o apoio popular para destituir os maus políticos dos seus cargos, o que é impossível de acontecer, dado o estágio atual da nossa conscientização política. Pode-se também denunciar este esquema diretamente para a sociedade, através da requisição de tempo na TV aberta e em cadeia de rádio, e do uso intensivo das TVs Brasil e NBR. Este seria o mínimo contraponto que a presidência sitiada poderia utilizar, mas iriam dizer que está sendo cerceada a liberdade de imprensa.

Quando um congressista diz que a reforma política tem que ser originada no Congresso é porque eles querem que passe a reforma que preserve seus poderes. Por isso, o projeto de lei de iniciativa popular da reforma política é extremamente importante. O decreto da presidente sobre conselhos populares para a participação social, derrubado pela Câmara recentemente, nunca iria ser aprovado pelo Congresso. Apesar das recomendações destes conselhos não terem que ser obrigatoriamente aceitas, se forem contrárias aos interesses do Legislativo, eles dificultarão as decisões de interesse dos congressistas. Outra ingenuidade é pensar que uma nova Lei dos Meios de Comunicação, útil para a sociedade, poderá ser aprovada pelo Congresso que saiu recentemente da eleição e é considerado pior que o atual.

O ministro do STF, a oposição e a mídia

Mas não é só o Congresso que busca golpear o próximo governo de Dilma. O ministro do STF Gilmar Mendes, em uma única afirmação deselegante, ofendeu a todos os juízes nomeados por Lula e Dilma. Inclusive, ele ofendeu o ministro Joaquim Barbosa, que, em muitas questões, teve opiniões concordantes. Ele esquece que, durante anos, o STF foi bastante conservador, mais parecendo conter onze Gilmar Mendes.

A posição do PSDB, depois da eleição, é socialmente reprovável. Discursos de ódio de muitos dos seus mais altos membros, como Aécio Neves e Aloysio Nunes Ferreira, demonstram a desvinculação da base mínima para um possível convívio político. Mesmo Fernando Henrique Cardoso, em artigo, deixa claro também suas radicalizações. Tudo isto com a reverberação máxima da mídia do capital. Eles não querem construir uma sociedade fraterna, mas uma sociedade de castas. É importante deixar claro que, nesta eleição, há ódio de classes.

O nível de radicalismo da oposição é inusitado, pois não reconhecem que perderam com cerca de 3,6 milhões de votos de diferença entre o vencedor e o perdedor. Querer que o vencedor não governe é um achincalhe ao desejo popular. Aécio deveria seguir o exemplo de John McCain, candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano em 2008, tendo como adversário o candidato democrata Barak Obama. McCain acabou derrotado por Obama e, no discurso reconhecendo a derrota, disse: “Obama era meu adversário. Agora é meu presidente”.

Querer o impeachment da presidente devido à denúncia não comprovada de um bandido é uma afronta a qualquer pessoa de bem e que deseja a construção de uma sociedade justa. A oposição se valeu desta denúncia inconfiável, que não deveria ser divulgada no meio do processo eleitoral, para amealhar votos para seu candidato.

Raciocinando com a hipótese de que o Aécio ganhasse a eleição, só para mostrar o absurdo que foi esta divulgação. Claramente, ela teria influenciado o resultado. Depois que Aécio tomasse posse e não se comprovasse que Dilma sabia das falcatruas dos senhores Costa e Youssef, o que se faria, pois se teria dado posse ao presidente errado?

O que ocorreu possivelmente foi que esta denúncia causou danos ao total de votos da presidente, mas, por sorte, ela tinha uma razoável quantidade deles em excesso aos do adversário e, por isso, ela ainda continuou ganhando.

O PSDB requereu ao TSE uma auditoria independente sobre a votação através das urnas eletrônicas, conseguindo não só agredir ao TSE, mas também a todos os técnicos do setor público responsáveis pela eleição. Outra divagação para mostrar o momento inusitado em que vivemos: imagine que o Aécio ganhasse a eleição e os simpatizantes de Dilma começassem a declarar, antes de completar uma semana da eleição, que as urnas eletrônicas foram fraudadas e a pedir impeachment do presidente eleito? Toda a mídia do capital diria que os simpatizantes de Dilma são antidemocráticos e querem desrespeitar a vontade popular.

Golpe em curso?

Em uma manifestação da direita em São Paulo, onde o PSDB se fazia representar, pediram até o retorno da ditadura. Este pedido é incrível, porque próceres deste partido, como Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, sofreram na ditadura e não houve repúdio à proposta. Contudo, uma voz com a razão finalmente apareceu, pois Xico Graziano, que é do PSDB, repudiou a volta da ditadura. Repito, sobre este ponto, seus colegas de partido se calaram. Será que para tirar o PT do poder até uma ditadura é bem-vinda? Lembre-se que, para tirar Jango do poder, a direita aceitou uma ditadura.

Por esta pequena amostra, pode-se concluir que o mandato que ainda não iniciou irá sofrer crises ininterruptas, propositadamente criadas pela direita, aliada a interesses estrangeiros. Tudo com o beneplácito de um Congresso de maioria fisiológica. Este não terá espírito público e passará quatro anos criando “dificuldades” para ganhar “facilidades” nos seus pleitos para a presidente. As reformas política e da mídia, primordiais para a consolidação da democracia brasileira, dificilmente ocorrerão a contento porque os próprios congressistas têm interesses diferentes dos da população, com relação ao sistema político e à regulamentação da mídia. Serão mentiras e acusações constantes, com repercussão máxima na mídia, para sequestrar os votos dados pelo povo à presidente.

É possível compreender a angústia atual de muitos dos militantes e quadros do PSDB e da direita, afinal de contas estão longe do poder há 12 anos; com mais quatro deste segundo governo Dilma, estarão 16 anos longe do poder. Se for somado mais quatro anos de um potencial terceiro mandato de Lula, chegar-se-á a 20 anos do PSDB e da direita longe do poder. A solução para eles é um golpe ou o impeachment.

A esperança maior reside no povo, que não foi manipulado nesta eleição pela mídia, e precisa, de novo, não ser enganado pelo que a mídia disser para forçar o golpe. A presidente é combativa, mas precisa do apoio popular. A libertação de nosso povo, que não quer ser mais explorado por inimigos externos e internos, precisa ser conquistada. O golpe está em curso, mas pode ser revertido, principalmente se existir apoio popular para a presidente poder governar.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania. Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br/