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Como nos golpes de Estado

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog

Oposição mobiliza arruaceiros para impedir Congresso de exercer sua soberania para debater e votar proposta de Dilma sobre orçamento.

Sem votos para impedir uma provável vitória do governo na proposta de eliminar o superávit primário nas contas de 2014, a oposição produziu ontem uma cena preocupante do ponto de vista da democracia.

Mobilizando arruaceiros profissionais e voluntários da baderna, engajados numa dessas ONGs cujo nome parece inspirado em entidades de exilados cubanos da Flórida, parlamentares oposicionistas criaram um ambiente de violência e tumulto nas galerias do Congresso. No final de uma jornada de tensão, conflito e violência, conseguiram impedir que a maioria dos parlamentares presentes cumprissem seu dever constitucional mais elementar: votar, soberanamente, com os votos recebidos do eleitorado, na proposta que julgassem melhor.

Os brasileiros não têm boa memória daqueles momentos em que deputados e senadores foram impedidos cumprir suas obrigações. Na maioria das vezes, foram cenas que antecederam golpes de Estado.

A diferença é que isso costumava ocorrer com a presença intimidadora de soldados pelo Congresso e arredores, numa paisagem ilustrada por tanques e baionetas. Ontem, a coreografia era outra. Lembrava os clássicos assaltos ao poder, de origem fascista, com vocação para atacar instituições democráticas.

O ataque partiu de civis, “presumivelmente assalariados”, nas palavras de Renan Calheiros, presidente do Senado. Conforme Renan, um grupo de 26 pessoas “instrumentalizadas, provocando o Congresso,” impediu os deputados de tomar uma decisão que, conforme cálculo da quase unanimidade dos observadores, seria favorável ao governo.

A baderna foi organizada como um espetáculo de circo amador. Como se o fim do superávit primário fosse um tema tão popular como a taxa de juros e o aumento da gasolina, cidadãos instalados nas galerias montaram um coro de palavrões, vaias e xingamentos destinado a inviabilizar um debate real entre parlamentares.

Quando Renan determinou que as galerias fossem esvaziadas — medida banal em qualquer Congresso do planeta — os cidadãos que logo seriam promovidos a “representantes da sociedade civil” pelos analistas meios de comunicação resolveram ficar onde se encontravam.

No mesmo instante, quinze parlamentares da oposição correram em seu socorro, formando uma espécie de piquete para impedir que fossem removidos pela polícia legislativa. Equipados para poses fotográficas, logo surgiram cidadãos com mordaças vermelhas com a sigla do PT. Tudo ensaiado e dramatizado.

Presente a casa poucos dias depois de ter afirmado que perdeu a eleição para uma “organização criminosa”, Aécio Neves saiu em defesa da baderna. Disse, conforme relato da Folha de S. Paulo: “A população brasileira acordou. As pessoas estão participando do que está acontecendo no Brasil. E algumas querem vir [ao Congresso]. Nós vamos fechar as galerias?”

Com essa postura, o candidato presidencial do PSDB dá um novo passo para se afastar das instituições democráticas. O primeiro foi a tentativa de criminalizar — diretamente — a vitória de Dilma em 26 de outubro. O segundo foi brindar uma iniciativa que em nada contribui para um debate civilizado sobre as necessidades.

“Eu não estou reconhecendo o Aécio,” disse o governador do Ceará, Cid Gomes, em entrevista ao Espaço Público, ontem, na TV Brasil.

Vários personagens e várias cenas se tornaram irreconhecíveis nos últimos dias.

Da mesma forma que o governo tem o direito de tentar suprimir o superávit primário, a oposição tem o direito de tentar o contrário. Faz parte da democracia. Cenas semelhantes ocorrem periodicamente nos Estados Unidos, sempre que a Casa Branca ameaça ultrapassar seu limite de endividamento.

Não faz parte da democracia, porém, tentar impedir o Congresso de funcionar. Quem age dessa forma pratica o mandamento número 1 de toda intervenção antidemocrática, que consiste em respeitar as regras e leis de um país apenas quando lhe convém. Isso só interessa a quem planeja impedir o funcionamento do regime democrático.

Este é o aspecto preocupante da baderna de ontem.

Aécio ainda não entendeu que perdeu perdendo

Por Paulo Nogueira | Via DCM

E foram felizes para sempre

Há uma coisa estranha em Aécio: passado mais de um mês das eleições, ele está com um discurso de quem ganhou as eleições.

Isso ficou claro na entrevista que ele concedeu a Roberto Risadinha d’Ávila, o homem-Caras do jornalismo brasileiro: sorrisos antes, durante e depois do programa.

Se não se imaginasse vencedor, Aécio não diria que encarnou o “sentimento de mudança” da sociedade brasileira. Porque esta é uma coisa que só quem vence pode dizer, e com moderação – ou passará por arrogante.

Mas Aécio é Aécio: ele consegue ser arrogante na derrota.

Compare sua atitude com a do candidato uruguaio derrotado neste final de semana, Luis Lacalle Pou.

Pou telefonou elegantemente a Tabaré Vázques, o vitorioso, para lhe dar os parabéns pela vitória “legítima” assim que os números mostraram que o resultado estava definido.

Aécio não.

Ainda agora, ele não parece ter aceitado que foi batido. “Perdi ganhando”, disse ele a d’Ávila. Dilma, segundo ele, “ganhou perdendo”. Aécio estava citando não Churchill, não Lincoln, não Napoleão, não de Gaulle. Estava citando Marina, que também reivindicou uma vitória na derrota.

A primeira providência para Aécio retornar ao Planeta Terra é ele entender que perdeu perdendo. Mesmo com toda a ajuda que teve da mídia, mesmo com Marina e a viúva de Eduardo Campos a seu lado, mesmo com os vazamentos seletivos da Polícia Federal – mesmo assim ele conseguiu perder.

Foi uma façanha.

Quando puser os pés nos chãos, Aécio tem que explicar algumas coisas. O aeroporto de Cláudio, por exemplo. Para citar mais um caso, o dinheiro público que sua irmã Andrea colocou nas rádios da família quando ele era governador de Minas.

Demagogo, no sentido clássico, é quem faz coisas na política que acusa os inimigos de fazerem.

Aécio se queixa de ter sido “ofendido” na campanha, mas fez coisas como usar a expressão “mar de lama” para caracterizar o governo de sua adversária.

Repetiu inúmeras vezes que Dilma estava destruindo o Brasil, se valendo para isso de pseudoestatísticas feitas para enganar os leitores.

Luciana Genro também experimentou o veneno de Aécio durante os debates: foi chamada de “leviana” e acusada de comandar um partido que é “linha auxiliar” do PT.

E este é o homem que se declara vítima de “desconstrução”.

No programa de d’Ávila, o construtor Aécio chamou o PT de “organização criminosa” em duas ocasiões — sem que d’Ávila fizesse nada além de sorrir. D’Ávila reagiu como se Aécio estivesse falando sobre o tempo, ou sobre o resultado da última rodada.

Aécio falou em “aparelhamento”, mas como governador ele aparelhou até a mídia mineira com sua política de anunciar apenas em quem não o criticasse.

Aécio condenou o “crime de responsabilidade fiscal” cometido agora por Dilma ao tentar mudar algumas regras relativas ao orçamento.

Mas um momento: como noticiou um insuspeito colunista do G1, FHC fez também uma gambiarra com os mesmos propósitos em 2001.

“O Brasil acordou”, disse uma hora Aécio a d’Ávila.

Eis uma das raras frases em que ele acertou, embora ele tenha se atrasado uma enormidade para perceber o fenômeno.

Foi exatamente por terem acordado que os brasileiros não elegeram Aécio e tudo aquilo que ele representa.

O final ideal para o programa teria sido uma imagem de Aécio e d´Ávila com a seguinte inscrição: “E foram felizes para sempre.”

Kátia Abreu quer um ministério ou uma crise?

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

Não tenho idade para ser um “força cega” e já vivi governos demais para não saber que se tem de formá-los com concessões políticas, mas também que não pode dar certo aquilo que contesta a autoridade legítima do governante eleito e agride frontalmente o partido pelo qual se elegeu.

Por isso, não considero, do ponto de vista da política agrária, um retrocesso a indicação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura, até porque é evidente que ela tem condições de trazer o agronegócio – que ninguém quer atirar ao mar – para próximo ao Governo e garantir-lhe as condições de produzir com respeito ao meio-ambiente e aos assalariados e pequenos produtores rurais, especialmente o de corte familiar.

Não é boa a política que ignora setores produtivos e não lhes oferece a oportunidade de participar do crescimento do país, sem que firam, ou firam menos, num ambiente de diálogo.

Mas diálogo pressupõe boa-vontade, jamais arrogância ou provocação.

Exatamente o que faz hoje, sem nenhum pudor, a senadora Kátia Abreu em seu artigo na Folha.

Não apenas erra, ao dizer que terra indígena é apenas aquela que, no momento da promulgação de 1988 estava ocupada por indígenas – que poderiam, por suposição, terem sido expulsos na véspera, com os métodos mais violentos – embora não passe pela cabeça de ninguém devolver os terrenos do centro do Rio e de São Paulo à Confederação dos Tamoios, como ela sugere se pretenda.

Errar é humano, diz o bordão, e mesmo que se considere possível e necessário dialogar sobre o conceito de terras indígenas, não se pode dialogar com provocação.

Porque não merece outro nome senão o de provocação, ao escrever que é preciso “enfatizar que o ministro Gilmar Mendes é um dos mais sérios juristas deste país, cuja obra ultrapassa nossas fronteiras. No Tribunal, sempre pautou sua posição pela estrita aplicação da lei, não sucumbido a pressões como essas que hoje o acometem. Os que contra ele vociferam são os que não possuem o mínimo respeito pelo Estado Democrático de Direito”.

Quem está na iminência de ser indicada ministra de um governo sistemática e doentiamente combatido por Gilmar Mendes, com ações jurídicas e outras nem tanto, só pode fazer isso se não tem ideia de quem governa e de quem elegeu este governo.

Do qual ela pretende fazer parte, mas certamente sabendo que não será, nele, a dona, nem a capataz.

Para participar dele, como se disse uma vez do próprio Ministro Gilmar Mendes, precisa antes saber que não está falando com seus capangas lá – no caso dela – do Tocantins.

E aprender a ter modos.

Ninguém lhe pediu que esbofetasse o mais figadal inimigo do governo no Judiciário, Gilmar Mendes.

Seria desnecessário pedir-lhe que não esbofeteasse o Governo com escancarados elogios a ele.

A menos que haja algo que não se sabe e possa explicar a manifestação brutal e grosseira.

Ou alguém que lhe explique o velho ditado gaúcho de que a luta não quita a fidalguia.

E que é gado e não criador de gado quem dá coices sem razão.

PS do Desenvolvimentistas: Não concordamos completamente com a visão de Fernando Brito no que se refere a Kátia Abreu ser uma boa opção para a agricultura brasileira que respeita o meio ambiente e os trabalhadores, cremos ainda que o simbolismo em torno desse personagem traz mais prejuízos que benefícios. Este artigo é fundamental por levantar e questionar as intenções de Kátia ao tecer elogios a tão questionável magistrado.

Uruguaios elegem Tabaré Vasquez sucessor de Mujica

Por Monica Yanakiew | Via Agência Brasil

Os uruguaios elegeram nesse domingo (30) o sucessor do presidente José Pepe Mujica: no dia 1º de março, o médico socialista Tabaré Vasquez será reconduzido ao cargo, que ocupou de 2005 a 2010. Este vai ser o terceiro governo consecutivo da coligação de partidos de esquerda, Frente Ampla.

No discurso em que festejou a vitória, Tabaré convocou a oposição a um diálogo. “Convoco todos os uruguaios, não para que me sigam, mas para que me guiem e me acompanhem”, disse. Ao mesmo tempo prometeu que seu retorno ao poder não representará “mais do mesmo” porque o país que vai presidir nos próximos cinco anos “não é o mesmo de 2005 nem de 2010”.

Tabaré Vasquez disputou o segundo turno das eleições presidenciais com o candidato do tradicional Partido Nacional (ou Blanco), Luis Lacalle Pou. Ele obteve 53,6% dos votos, enquanto seu adversário ficou com 41,1%. A Frente Ampla ainda assegurou a maioria no Congresso, no primeiro turno das eleições, em outubro passado.

No Uruguai, o Congresso é totalmente renovado a cada troca de governo. E os eleitores são obrigados a escolher candidatos a presidente, à Câmara dos Deputados e ao Senado do mesmo partido. Todos têm mandatos de cinco anos e o presidente não pode ter dois mandatos consecutivos.

A legislação, no entanto, não impede que uma pessoa dispute o cargo de presidente e uma vaga no Congresso, em uma mesma eleição, ou que o presidente em exercício se candidate ao Senado. Por isso, no dia 1º de marco, Lacalle Pou (que foi derrotado na eleição presidencial, mas obteve votos suficientes na eleição legislativa) assumirá como senador do Partido Nacional. José Pepe Mujica vai liderar a bancada da Frente Ampla no Senado.

Em entrevista à Agência Brasil, Mujica disse que quer impulsionar uma reforma constitucional e criar mecanismos para evitar a corrupção politica. A primeira-dama, a senadora Lucia Topolanski, foi reeleita em outubro e vai integrar a bancada governista junto com o marido.

Segundo Victor Rossi, que foi ministro de Transporte e Obras Públicas na primeira gestão de Tabaré Vasquez, o novo governo vai manter a politica de redistribuição da riqueza dos últimos dez anos, que deu bons resultados: a redução da pobreza de 39% a 11% e a queda do desemprego. “Mas existem novos desafios porque os uruguaios hoje estão mais exigentes do que em 2005 e em 2010”, disse Rossi.

Responsável por conduzir a Frente Ampla ao poder, rompendo com a hegemonia dos partidos Nacional e Colorado (ambos com mais de 170 anos de historia), Tabaré Vasquez obteve votação histórica. Ele ganhou as eleições com a maior margem de diferença em relação ao segundo colocado desde 1996.

Apesar de Tabaré ser um político popular, foi seu sucessor – o ex-guerrilheiro José Pepe Mujica, preso durante 14 anos – que colocou o pequeno país no mapa, graças ao seu jeito simples de ser. Ele foi manchete da imprensa local e internacional porque continua vivendo na mesma chácara e dirigindo o mesmo fusca velho (que um xeque árabe quis comprar por US$ 1 milhão e que ele se recusou a vender).

Mujica também ganhou fama de ser o “presidente mais pobre do mundo” porque doa 90% de seu salario para financiar projetos sociais. Na gestão dele, o Uruguai legalizou o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a produção e venda da maconha.

Mais realistas que o rei

Por Rennan Martins | Brasília, 27/11/2014

O governo anunciou, ou melhor, deixou vazar os integrantes da nova equipe econômica, a saber: Joaquim Levy na Fazenda, Nelson Barbosa no Planejamento e Alexandre Tombini permanecendo no BACEN. De quebra teremos ainda Kátia Abreu na pasta da Agricultura.

Após toda a campanha eleitoral denunciar os partidários do arrocho e amigos da oligarquia, parece que Dilma aposta que integrá-los na gestão pode aplacar a sanha golpista de nossa direita sempre propensa ao autoritarismo.

A política institucional é largamente corrompida pelo poder econômico e por lá nossa democracia representativa insere, em sua maioria, defensores dos interesses de banqueiros, empreiteiras e latifundiários.

Soma-se a isso o cenário de relativa estagnação das atividades produtivas que recrudesce os interesses das classes dominantes e o que temos são as forças progressistas acuadas.

Ocorre que a negociação deve se dar sem abrir mão dos princípios, da agenda. Ao entregar o núcleo duro que é a política econômica a um homem de mercado o que parece é que houve uma rendição as forças do atraso.

O simbolismo da dobradinha Joaquim Levy – Kátia Abreu é decepcionante e ainda faz parecer que Dilma subestima as forças populares, maiores responsáveis por levá-la ao segundo mandato.

Não defendendo aqui que haja ruptura completa, entendo que os cálculos de correlação de forças devem ser feitos, mas as novas medidas do governo são mais realistas que o rei.

A aposta que o PT fez mais uma vez na desmobilização e baixa intensidade de embate pode não dar certo dessa vez, a configuração política atual tenderá a desembocar numa perda de apoio dos setores populares, o que deixaria o governo numa situação de isolamento.

O que parece é que os próximos dois anos serão de um ajuste fiscal ortodoxo para que os dois finais voltem a ser de um keynesianismo envergonhado.

As últimas decisões de Dilma demonstram que a alta cúpula petista nada aprendeu com esta que foi a eleição mais acirrada e barulhenta de nossa história.

Se for mantida a política de generosíssimas concessões a oligarquia aliada a péssima comunicação e quase nula disputa ideológica, o Partido dos Trabalhadores tende a se juntar aos Partidos Socialistas Europeus, que não mais possuem força para representar uma alternativa ao neoliberalismo.

Justiça bloqueia R$ 100 milhões nas contas de investigados na Lava Jato

Por André Richter | Via Agência Brasil

A Justiça Federal em Curitiba contabiliza cerca de R$ 100 milhões bloqueados das contas-correntes e fundos de investimentos de investigados na Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Na semana passada, o juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações, determinou o bloqueio das contas dos investigados e empresas ligadas ao esquema.

Nesta terça-feira (25), o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal informaram à Justiça que conseguiram bloquear cerca de R$19 milhões nas contas de Ildefonso Colares Filho e Othon Zanóide de Moraes, ligados a empresa OAS, e de Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras. Até momento, somados os valores bloqueados, desde a semana passada, nas contas-correntes pelo Banco Central ou diretamente nas instituições, no caso de fundos de investimentos, chegam a cerca de R$ 100 milhões. Os valores serão transferidos para uma conta da Justiça Federal.

O vice-presidente da Camargo Correa, Eduardo Leite, que está preso na Superintendência da PF em Curitiba, pediu hoje à Justiça o desbloqueio de suas contas. Ele alega que sua mulher e duas filhas são dependentes dele e precisam dos recursos para sobreviver. A defesa do executivo alega que o saldo de R$ 463 mil tem origem legal.

‘Prisioneiro da base parlamentar, governo tende a caminhar para mais do mesmo’ diz Chico Alencar

Por Gabriel Brito e Valéria Nader | Via Correio da Cidadania

JB/Reprodução

Após a tensa disputa eleitoral que deu novo mandato presidencial a Dilma Rousseff, o país começa a olhar para frente e vislumbrar as novas correlações de forças. Ante um Congresso altamente conservador que assumirá o legislativo, diversos atores e analistas políticos vêm afirmando a necessidade de se aumentarem as pressões das ruas nos governos. Sobre este novo período, o Correio da Cidadania conversou com o deputado federal Chico Alencar.

“Parece-me que a política institucional brasileira vive crise similar à do nosso futebol. Isso se fortaleceu em mim depois de assistir a este último ‘Fla x Flu’, no estádio/estúdio da Globo. Os conflitos sociais, o papel do Estado na sociedade, e ao longo das etapas do desenvolvimento brasileiro, passaram longe. As divergências na campanha foram muito mais retóricas do que reais”, afirmou.

Para Alencar, é evidente que o novo governo Dilma tem tudo para aprofundar a fórmula de governabilidade dos últimos anos, afirmação que faz elencando uma série de pautas políticas relevantes que ficaram praticamente excluídas dos debates, inclusive do segundo turno. Em sua visão, fica claro para os movimentos e setores à esquerda (importantes na vitória petista) que não há a mínima condição para ilusões.

“Ao falar de referendo, Dilma faz, indiretamente, um chamamento para que a sociedade e as instâncias de representação debatam a profunda crise da representação, o patrimonialismo, o clientelismo, a subrepresentação das classes trabalhadoras e as formas que reproduzem um modelo desgastado. A democratização dos meios de comunicação não apareceu na campanha porque as forças hegemônicas, no governo e na oposição conservadora, não têm interesse”, concluiu.

A entrevista completa com Chico Alencar pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Primeiramente, como você analisa a vitória de Dilma neste domingo, com a margem de votos mais estreita dos últimos tempos?

Chico Alencar: Parece-me que a política institucional brasileira vive crise similar à do nosso futebol. Isso se fortaleceu em mim depois de assistir a este último ‘Fla X Flu’, no estádio/estúdio da Globo. Os ‘craques’ Dilma e Aécio perderam vários ‘gols feitos’, talvez por orientação dos ‘técnicos’ – os marqueteiros, sempre mais voltados a ‘vender o produto/candidato para o consumidor/eleitor’.

Em nenhum momento do debate houve menção à estrutura de classes e à desigualdade social estrutural – que até o badalado e atualíssimo livro “O capital no século XXI”, de Thomas Piketty, tanto destaca. As referências históricas, que considero sempre importantes, restringiram-se à comparação entre governos tucanos e petistas, por Dilma, e ao elogio laudatório ao avô, por Aécio.

Os conflitos sociais, o papel do Estado na sociedade, e ao longo das etapas do desenvolvimento brasileiro, passaram longe. As divergências na campanha foram muito mais retóricas do que reais.

Correio da Cidadania: Faz algum sentido os setores e partidos que se colocam à esquerda do PT, muitos dos quais apoiaram o voto crítico em Dilma no segundo turno, esperarem uma guinada à esquerda do partido e alguma possibilidade de parcerias políticas?

Chico Alencar: Só se for esperar no sentido ‘paulofreiriano’, mais para ‘esperançar’, que é esperança que se constrói na luta. Esperar só de expectativa é outra coisa, mais passiva, advinda de um novo mandato que tem de reavaliar caminhos, até pelo progressivo enfraquecimento eleitoral do PT.

As opções de Dilma, infelizmente, tendem a caminhar para mais do mesmo, ‘acalmando o mercado’ financeiro, e não apostando nas forças sociais de mudança. Evidentemente, todas as propostas do governo que atenderem aos interesses das maiorias que vivem à margem dos direitos merecerão nosso apoio, como aconteceu no caso do Sistema Nacional de Participação Social, o decreto que a mídia grande deturpou como o que ‘criava Conselhos Populares’ e o reacionarismo parlamentar derrubou.

O PSOL já apresentou um Projeto de Lei recriando o Sistema, que articula essas instâncias de participação.

Correio da Cidadania: O que podemos esperar do quarto mandato petista no Planalto, ao olhar para a nova configuração do Congresso e para a atual conjuntura econômica nacional e internacional? Como ficarão as pautas associadas aos movimentos populares e progressistas nesse próximo período?

Chico Alencar: Mesmo sem avaliar em profundidade o novo Congresso – todos dizem que, apesar de 49% de novos nomes, ficará mais ‘velho’ ainda -, é possível inferir grandes dificuldades para o governo tocar as pautas populares. Até porque, reconheçamos, não se comprometeu decididamente com muitas delas.

Alguns exemplos: o questionamento ao fator previdenciário não incorporou qualquer abordagem do caráter superavitário da Seguridade Social e do desvio dos seus recursos; o enfoque ao tráfico de drogas ilícitas e à violência limitou-se ao aspecto meramente repressivo, não sendo enfatizado o fracasso mundial da política da ‘guerra às drogas’ e do proibicionismo; na educação, o ensino de tempo integral, a educação de jovens e adultos, a implementação efetiva de planos da carreira e piso salarial nacional para os profissionais da área, a democratização da gestão e as responsabilidades compartilhadas dos entes federativos ficaram secundarizados; sobre a crise hídrica, não se considerou a questão ambiental, o combate ao desmatamento, a recuperação dos rios (ativando seus comitês de bacias) e a garantia legal dos riquíssimos e maltratados biomas brasileiros.

Na política de garantia do emprego, que obviamente tem a ver com o modelo econômico, não se fez qualquer questionamento ao tripé da macroeconomia (superávit primário, juros altos e câmbio flutuante), nem defesa da auditoria da dívida e de uma Reforma Tributária com taxação das grandes fortunas; as menções à agricultura omitiram a Reforma Agrária, o fluxo dos produtos agrícolas, a concentração fundiária e os riscos da absolutização dos agrotóxicos;.

Na política internacional, o ‘embate’ restringiu-se aos investimentos do BNDES em Cuba (que, ressalte-se, o governo FHC também fez, correta e solidariamente); o unânime e óbvio repúdio à corrupção – que é sistêmica – tornou-se uma ‘olimpíada’ para destacar quem foi mais conivente com ela, em seus respectivos governos e práticas partidárias; quando se discutiu moradia, limitada a quantas casas populares são necessárias ou foram feitas, faltaram propostas sobre especulação do solo urbano, função social da propriedade, cumprimento do Estatuto das Cidades e (i)mobilidade nas regiões metropolitanas, isto é, transporte de massas.

Correio da Cidadania: E quanto à representação política e contestação do monopólio midiático, assuntos que talvez se possa relacionar mais aos protestos de junho, o que você tem a dizer?

Chico Alencar: Sobre a importantíssima Reforma Política, ressalto que Dilma defendeu a Iniciativa Popular de Lei da OAB/CNBB com suas listas com alternância de gênero e o fim do financiamento empresarial das campanhas – isso é positivo. Ao falar de plebiscito e, agora, de referendo, faz, indiretamente, um chamamento para que a sociedade e as instâncias de representação debatam a profunda crise da representação, o patrimonialismo, o clientelismo, a subrepresentação das classes trabalhadoras e as formas vigentes do fazer político, que reproduzem um modelo dominante e desgastado.

Política Cultural, demarcação de terras indígenas e quilombolas, impactos das grandes obras e avanço nas lutas contras todas as formas de discriminação (com reafirmação da laicidade do Estado) também estão na ordem do dia, e tanto o Executivo quanto o Legislativo – e, em certas situações, o Judiciário – terão que se posicionar sobre essas agendas. A democratização dos meios de comunicação (há Iniciativa Popular de Lei a respeito, a da Mídia Democrática) não apareceu na campanha porque as forças hegemônicas, no governo e na oposição conservadora, não têm interesse nisso.

Correio da Cidadania: Vê no horizonte alguma possibilidade e/ou necessidade de união das esquerdas para enfrentar o próximo período?

Chico Alencar: Vejo essa necessidade, e quero me empenhar para que ela estimule a possibilidade. Dilma está eleita e essas questões CENTRAIS para o país têm que ser enfrentadas. Só que sem mobilização popular não serão! Para não ser mais do mesmo, o governo Dilma II precisa se aproximar dos movimentos sociais. E, estes, dinamizarem sua atuação, apesar das enormes dificuldades.

Se Dilma ficar prisioneira da base parlamentar, não haverá avanço algum. Há o risco de passarmos o ano de 2015 sob a égide das apurações do ‘petrolão’, que deve fazer muitas cabeças coroadas, de diversos partidos, rolarem…

O papel das esquerdas, além de ressignificar o ideário socialista, que também vive uma crise de sentido, é estabelecer um ‘programa mínimo’ de lutas comuns, em torno das questões concretas que abordei acima.