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Justiça eleitoral paulista rejeita contas da campanha eleitoral de Alckmin

Via RBA

Campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) deixou de registrar quase R$ 10 milhões nas duas primeiras prestações de contas.

Rejeição definitiva das contas pode impugnar a candidatura de Alckmin e de seu vice, Marcio França (PSB)

São Paulo – O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo rejeitou hoje (10) as contas da campanha eleitoral do governador reeleito de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Por cinco votos a um, o tribunal considerou que houve falhas graves na prestação de contas do tucano.

Segundo a decisão, a campanha de Alckmin deixou de registrar cerca de R$ 900 mil na primeira prestação de contas. Na segunda, o valor foi maior: R$ 9 milhões. Os valores só foram incluídos na declaração final. Nesta eleição, os candidatos tiveram de prestar contas três vezes. Uma em agosto, outra em setembro e a última em novembro, após o segundo turno.

A falha não impede Alckmin de ser diplomado e tomar posse em 1º de janeiro, pois ainda cabe recurso da decisão ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No entanto, a Justiça Eleitoral paulista considerou o erro um “vício insanável”, pois omitiu a entrada de recursos e a contratação de serviços realizados antes do prazo para as prestações de conta parciais.

Ainda hoje, as 19h, o TSE vai julgar a prestação de contas da presidenta reeleita Dilma Rousseff (PT). Apesar da tensão gerada pela orientação de rejeição das contas pelo corpo técnico do tribunal, a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) emitiu parecer recomendando a aprovação das contas “com ressalvas”, considerando que a análise “pautou-se por um excessivo rigor formal, considerando irregularidades graves, (o que são apenas) falhas de natureza meramente formal”, segundo informações do site Jornal GGN.

Brasil, excelente para os rentistas

Por Carlos Drummond | Via Carta Capital

Manifestantes indignados com a mudança na meta fiscal

O estardalhaço da oposição e da mídia contra o projeto de lei 36, que permite aumentar o teto para abatimento de despesas do governo e assim viabilizar a meta de superávit primário de 116 bilhões de reais, volta-se contra um tipo de procedimento legal e rotineiro adotado desde o segundo governo FHC. Ele foi o primeiro presidente a lançar mão de medida análoga para modificar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, entre 2000 e 2001, período em que Aécio Neves, um dos críticos mais ferozes do pl 36, foi líder do governo, depois presidente da Câmara e defendeu a alteração da LDO encaminhada por Fernando Henrique.

O texto aprovado na sexta-feira 5 autoriza o governo a utilizar, além do limite atual de abatimento, de 67 bilhões de reais, os gastos de 2014 do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de 51,5 bilhões até outubro mais as desonerações tributárias concedidas neste ano, de 75,1 bilhões de reais até setembro. Somados, os abatimentos permitirão atingir com folga aquela meta. O resultado primário da União deriva das receitas não financeiras subtraídas das despesas não financeiras e é utilizado essencialmente para o pagamento dos juros da dívida pública.

Fernando Henrique, Lula e a presidenta fizeram basicamente o mesmo: procuraram atenuar o impacto do superávit primário sobre as contas e a economia e em seguida compareceram ao guichê para entregá-lo aos credores da dívida interna. O total desse desembolso em 2014 atingirá quase metade dos recursos da União, segundo alguns cálculos. Significa que o Brasil, no que se refere ao papel crucial do Estado na economia, trabalhará à meia-força.

Mais de 90% da bolada entregue por conta da dívida pública serão endereçados ao sistema financeiro, como mostram os números da organização Auditoria Cidadã da Dívida. Dos beneficiários, 62% são os bancos nacionais e estrangeiros, os investidores estrangeiros e as seguradoras, muitas delas pertencentes aos conglomerados dos bancos. Os fundos de investimento (vários deles ligados aos mesmos conglomerados), dominados por grandes investidores, detêm 18% da dívida e os fundos de pensão, de distribuição mais pulverizada de rendimentos, 13% do total. O chamado Tesouro Direto, forma de aplicação de pessoas físicas em títulos do governo, responde por apenas 0,36% do estoque da dívida Interna. Todos eles, pessoas jurídicas e pessoas físicas, enquadram-se na definição de rentistas, aqueles que vivem de uma renda fixa (tanto a proveniente de juros quanto a derivada da renda da propriedade).

Zeloso no atendimento dos interesses do rentismo, o Brasil figurará, pelo quinto ano consecutivo, entre os cinco países com maiores superávits primários do mundo, segundo as estimativas disponíveis. Acrescente-se a maior taxa de juros real do mundo, de 4,68% ao ano, após a alta da Selic na terça-feira, dia 2, para 11,75% (a Rússia vem em segundo lugar, com 3% reais), e se terá o paraíso terrestre dos rentistas.

O País procura seguir à risca a prescrição feita pelas instituições financeiras, agências de classificação de risco e (tradicionalmente) pelo FMI, de obtenção de superávits fiscais significativos, em torno de 2% do PIB (há economistas brasileiros defensores de porcentuais muito maiores, de quase 5%), independentemente da situação da economia. Diante da estagnação mundial e brasileira de 2014, elas se darão por satisfeitas com 1,2% em 2015, patamar defendido em papers de alguns bancos privados há meses e agora ratificado pelo novo ministro da Fazenda, o ex-diretor-superintendente do Bradesco Asset Management, Joaquim Levy.

Entretanto, desde 2008 há um questionamento intenso dos parâmetros econômicos dominantes, entre economistas do próprio FMI, do Banco de Compensações Internacionais, de conglomerados privados como o Citigroup e de universidades de primeira linha. O Brasil, alheio ao debate, corre o risco do anacronismo. Países melhor informados e menos submissos à lógica financeira dominante preocupam-se mais em investir, principalmente em infraestrutura, do que em formar uma poupança drenada no ritmo determinado pelos seus credores.

A aprovação da lei 36 ajuda o governo Dilma a manter o compromisso com investimentos e baixo nível de desemprego e faz sentido diante de uma crise mundial ainda não debelada. Se houve, como alega a oposição, irresponsabilidade fiscal, ela é extensiva aos mandatos precedentes, inclusive o segundo de FHC, mas, lá e cá, a questão central permanece ao largo. O País precisa, em algum momento, questionar a lógica do endereçamento automático dos superávits primários ao rentismo. Isso passa pela contestação da característica central da dívida pública, de “sistema de transferência de recursos públicos para o mercado financeiro”, na definição de Cristiano Moreira, da organização Auditoria Cidadã da Dívida.

“O problema essencial, no Brasil, é como desestimular o comportamento rentista dos agentes (bancos, firmas e famílias), que faz com que aufiram boa parte de sua receita a partir de ganhos financeiros favorecidos por juros elevados em contexto de títulos de curto prazo. Sair do rentismo para o produtivismo é o desafio a ser ainda enfrentado”, escreveu o economista Luiz Fernando de Paula, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

O modelo não para em pé

Por Silvio Caccia Bava | Via Le Monde Diplomatique

Toda vez que o PT ganha as eleições acontece o mesmo. Sob pressão dos interesses do mercado, ele cede à oposição conservadora, desaponta seu eleitorado, abre mão das propostas mais arrojadas, escolhe ministros que satisfazem o mercado e incorpora uma parte das proposições que estão no programa eleitoral que perdeu.

Cornelius Castoriadis, já no final do século XX, assinalava que os políticos, sejam quais forem, são impotentes para mudar as coisas. O que lhes resta é seguir a corrente, isto é, aplicar as políticas neoliberais do interesse das oligarquias e das empresas, que, afinal, financiam sua eleição.1

Essas contradições mostram a precariedade de nossa democracia. Nas eleições, um candidato progressista pode até ganhar, mas não leva. Tem de compor, tem de ceder, para garantir sua capacidade de governar. É a arquitetura do sistema político que leva a isso.

No primeiro ano de seu primeiro governo, Lula foi mais realista que o rei e arrochou a classe trabalhadora para tranquilizar o mercado, desarmar as pressões da oposição e garantir a governabilidade. Depois, progressivamente, o governo foi adotando políticas que melhoraram efetivamente a vida de muitos brasileiros. O modelo praticado então não limitava a rentabilidade do capital; era de um reformismo moderado, socorrendo os mais pobres e aumentando gradualmente a renda do trabalho. Foi uma tentativa de atender a todos os interesses, mesmo que contraditórios. Tentou-se assim evitar o confronto com os interesses do capital e as ameaças de desestabilização do governo, que vinham de dentro e de fora do país.

No entanto, a conjuntura mudou, estamos em tempos de vacas magras e não dá para repetir a dose. Não há recursos para distribuir para todos. E mesmo que houvesse, é hora de discutir publicamente a questão da desigualdade. O modelo do financiamento público tem de mudar. O modelo atual, que onera os mais pobres e isenta os ricos, não para mais em pé. Sua permanência será fonte de conflitos sociais crescentes, e mesmo o mercado precisa de estabilidade política para operar.

As ameaças da oposição conservadora estão sempre presentes. Pode ser a impugnação da prestação de contas da campanha eleitoral, pode ser a acusação de corrupção no mais alto nível de governo, pode ser o não cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, enfim, são acusações que poderiam servir muito bem para os acusadores, mas são usadas com o objetivo de buscar encurralar o governo eleito, colocá-lo como refém dessas ameaças.

O que quer a oposição conservadora? O rentismo quer continuar recebendo algo como 5% do PIB para o pagamento do serviço da dívida pública interna (cerca de R$ 230 bilhões em 2013) e quer continuar impondo juros extorsivos aos consumidores e empresas. O agronegócio quer continuar abrindo novas fronteiras para o gado e as plantações, degradando o meio ambiente, destruindo as florestas, contaminando as águas com os agrotóxicos, expulsando a agricultura familiar. As mineradoras querem entrar nas reservas indígenas e explorar de maneira predatória os recursos minerais do país. As grandes empreiteiras querem mega obras de bilhões de reais, que depois serão sobrefaturadas para auferir maiores lucros e azeitar as relações com os dirigentes dos órgãos contratantes. E os empresários exportadores, principalmente de commodities, querem ferrovias, portos, energia, melhores condições que alavanquem seus negócios, tudo isso financiado pelo dinheiro público. Querem a chamada “liberdade de mercado” para a atuação dos cartéis que oligopolizam a economia brasileira, querem novas isenções, não querem pagar impostos. Querem também a redução do “custo Brasil”, com a precarização do trabalho, da seguridade social, e o rebaixamento dos salários reais.

Essa disputa entre políticas redistributivas e concentradoras tem uma grande importância em qualquer parte. Aqui no Brasil ela afeta a maioria da população, pois os brasileiros são pobres: 66% da população tem renda individual mensal igual ou menor a R$ 21/dia.2 Contrastando com essa pobreza, 1% dos proprietários rurais detém 50% das terras cultiváveis, e os 10% mais ricos ficam com 73,3% da riqueza nacional.3 A questão social e política da produção e reprodução da desigualdade precisa ser enfrentada. Ela é um entrave para o desenvolvimento e o bem-estar coletivo.

Dito de forma direta, a crise atual é a do pacto distributivo. Reduzir a desigualdade exige aumentar a renda do trabalho (salários, pensões, aposentadorias), investir fortemente em políticas públicas, e reduzir a renda do capital (lucros, juros, aluguéis, renda da terra). Essa tendência já vem se afirmando nos últimos anos. Em 2003, a participação dos salários no PIB era de 39%; em 2013, ela foi de 47%.4 É, sem dúvida, uma melhora, mas a realidade é que ainda hoje a pobreza está presente em mais de 70% dos lares brasileiros.

O caminho das reformas é o caminho de uma transição negociada numa perspectiva de progressividade, gradualismo. Para isso é necessário reforçar democraticamente o papel do Estado como regulador do processo distributivo e como agente direto executor de políticas públicas de garantia de direitos. O Estado deve garantir a oferta de bens públicos como educação, saúde, transportes coletivos, saneamento básico, entre outros, mas não pode mais apresentar a conta para essa maioria pobre, pela via da cobrança de tarifas, ou embutindo impostos nos produtos de consumo, por exemplo. Esses serviços públicos devem ser pagos pelo conjunto dos impostos, por meio de novas políticas tributárias que incidam sobre as grandes fortunas, as heranças, as transações financeiras, os imóveis nas zonas nobres da cidade, a propriedade da terra.

Referências:

1 Cornelius Castoriadis, “Stopper la montée de l’insignifiance” [Parar a escalada da insignificância], Le Monde Diplomatique, ago. 1998.

2 Datafolha, nov. 2013.

3 Crédit Suisse, Global Wealth Report 2014.

4 Marcio Pochmann, “Seu país, as eleições e os rumos da democracia”, Rede Brasil Atual, n.97, jun. 2014.

*- Silvio Caccia Bava é diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil.

Vovô não gosta

Por Marcelo Zero

Parece que nem Tancredo se agradaria da postura de seu neto, Aécio. EBC/Reprodução

Tancredo Neves foi um político conservador. Fez carreira no PSD e, durante a ditadura militar, foi um dos líderes dos moderados do MDB/PMDB. Nunca se aproximou do socialismo e admirava muito mais Max Weber que Karl Marx.

No entanto, não há quem negue que Tancredo, embora limitado pelas circunstâncias de sua época, era um democrata e, em linhas gerais, progressista.

Quando jovem, fez oposição a Arthur Bernardes e simpatizava com a Aliança Liberal de Getúlio Vargas. Mais tarde, fez oposição à UDN direitista de Milton Campos e Carlos Lacerda. Articulou-se com Juscelino e Getúlio, tendo sido ministro da Justiça deste último. Na ditadura, teve papel de destaque como um dos principais líderes da oposição, especialmente durante o período de transição para a democracia, na primeira metade dos anos 1980. Teve papel fundamental para que essa transição ocorresse sem maiores traumas.

Ninguém nega também que Tancredo era um político ponderado, um mestre da articulação e da conciliação. Convivia bem com as diferenças e tinha fácil diálogo com todas as tendências políticas. Homem cartesiano, tinha horror às posições extremadas.

Ao morrer, primeiro presidente civil pós-ditadura, Tancredo apontou o neto, Aécio Neves, como seu herdeiro político.

Pois bem, é muito provável que, lá de São João Del Rey, o avô não esteja mais reconhecendo o neto e seu legado político. Na realidade, ninguém está.

Com efeito, Aécio Neves parece cada vez mais afastado da imagem do seu avô e perigosamente perto de uma imitação barata e artificial de Carlos Lacerda, grande rival de Tancredo e de Getúlio.

A distância é tanto no conteúdo quanto na forma.

No forma, no estilo, vemos um Aécio raivoso, agressivo, desrespeitoso, arrogante e incapaz de aceitar democraticamente as decisões legítimas das urnas. O palanque subiu-lhe à cabeça e a disputa eleitoral incrustou-se no seu fígado.

No conteúdo, na política, o que se vê é uma aposta desesperada e irracional num neoudenismo tardio e caricato. Uma aposta perigosa e antidemocrática na ingovernabilidade, que tem evidentes nuances golpistas.

Tenta-se reviver, com o conluio de um setor da imprensa comprometido historicamente com o autoritarismo, o “mar de lama” que vitimou Getúlio e seu ministro da Justiça. Tenta-se de tudo para deslegitimar as instituições democráticas. Durante as eleições, o próprio FHC questionou a legitimidade dos votos dados ao PT, diminuindo o intelecto de nordestinos e pobres. Após as eleições, questionou-se, sem nenhum motivo real, o nosso sistema de votação, elogiado por sua lisura e eficiência no mundo inteiro. Agora, Aécio questiona a legitimidade do governo recém-eleito, afirmando que perdeu o pleito para uma “organização criminosa”.

Assentada em mentiras, distorções e em vazamentos cuidadosamente seletivos de corruptos em desespero, essa afirmação absurda de Aécio revela total falta de compostura. Falta de compostura ética que se combina com a falta de compostura política revelada com sua crescente proximidade dos setores mais raivosos da extrema direita brasileira, esse amontoado de homofóbicos, racistas e saudosos da ditadura. Ditadura que Tancredo deu a própria vida para encerrar.

A afirmação e o comportamento que a anima revelam, sobretudo, falta de compreensão do seu papel no momento histórico que vive o Brasil. Revela, para usar um eufemismo, uma visão política curta.

As lutas políticas no Brasil sempre foram resolvidas democraticamente, em última instância, pela disputa do centro moderado do espectro político, onde passeava Tancredo. Lula só conseguiu chegar ao poder quando virou o “Lulinha paz e amor”. Será que Aécio, FHC e outros líderes acham que obterão grandes vantagens com essa adesão à direita mais caricata e ao golpismo mais desavergonhado? Será que acham que o Brasil pode se transformar numa grande Venezuela?

Se acham, já se perderam.

Aécio parece cada vez menos com Aécio Neves. Parece uma máscara grotesca de Aécio Lacerda, de Aécio López, ou ainda de Aécio Bolsonaro.

Seu avô dizia que se é radical não é mineiro, se é mineiro não é radical. Talvez por ser mais carioca que mineiro, Aécio esteja abandonando esses ensinamentos. Ninguém sabe.

Intui-se, no entanto, que à noite, lá em São João Del Rey, já se escuta o murmúrio: não faz assim que o vovô não gosta.

Tudo como dantes no quartel de Abrantes

Por Rennan Martins | Brasília 04/12/2014

DCM/Reprodução

A Veja, Globo e cia deitaram e rolaram nas eleições. Cobriram os fatos da forma mais enviesada possível, fizeram narrativa amplamente favorável aos candidatos à direita de Dilma.

Continuam manipulando a opinião pública fazendo blindagem do claro envolvimento da oposição no propinoduto da Petrobras. Querem mesmo que acreditemos que as empreiteiras que se criaram nas asas do regime militar só passaram a articular o esquema de corrupção após a chegada do PT ao poder.

Na iminência de ser derrotada por Aécio Neves e a imprensa amiga, a campanha petista resolve guinar à esquerda e falar de regulamentação dos meios de comunicação. Esta medida tem o potencial de democratizar a imprensa abrindo espaço pra outras vozes e linhas editoriais que não as de nossa mídia tradicional, historicamente afeita as oligarquias nacionais e internacionais.

Eis que, após ser reeleita – com apoio decisivo dos movimentos sociais e da esquerda orgânica – o que nossa presidenta fez?

Escalou um homem de mercado no Ministério da Fazenda e agora a pasta das Comunicações tem como nome mais cotado Jaques Vagner, moderado demais pra peitar uma distribuição justa da verba publicitária estatal.

Ontem um dos donos da Rede Globo, João Roberto Marinho, encontrou-se com Dilma no fim da tarde. Algumas horas depois o Jornal Nacional veiculou matéria em que destacava trecho em que Paulo Roberto Costa – ex-diretor de nossa estatal e atual delator – deixava claro que não possui base pra afirmar que Dilma e Lula sabiam dos mal-feitos.

Esse verdadeiro pedido de desculpas teve um preço altíssimo: a manutenção das generosíssimas verbas públicas de publicidade para a Globo.

Posso estar errado e espero que o esteja, mas tudo indica que outra vez o PT virou as costas pra bandeira urgente da democratização dos meios de comunicação. Ter a mídia concentrada nas mãos de meia dúzia de famílias bilionárias em conluio com políticos que retransmitem regionalmente é um absurdo e distorce sobremaneira o debate público.

O lulismo não possui condições de enfrentar as concentrações de poder arcaicas que perpetuam um país ainda excludente como o nosso. O esquema de amplas concessões esgotou-se e sem enfrentar abertamente os privilégios de alguns não lograremos avanços reais.

Lei de Meios, democratização da publicidade oficial e visita de João Roberto Marinho à Dilma

Por Fábio Lau | Via Conexão Jornalismo

Dilma Rousseff encheu-se de arroubos e indignação quando a Veja quase a derrubou do trono de presidenta. Disse, entre outras coisas, que o país corria perigo na sua ordem democrática enquanto a mídia partidária se arvorasse detentora do poder de mentir e interferir no processo eleitoral. Por sorte, naquele momento, véspera das eleições no seu segundo turno, outras empresas e concessionárias não fizeram coro com a Veja.

A presidenta disse que tudo mudaria a partir de então. Tudo? Que o Brasil faria valer a sua Constituição, promulgada em 1988, e que garante a pluralidade da Comunicação e a proibição da propriedade cruzada – aquela que permite a um concessionário possuir TV, rádio, jornal, revista e etc.

Dilma, indignada que estava, pareceu finalmente disposta a legislar, neste campo, para todos. Não apenas para os meios tradicionais e corporativos que abocanham sozinhos a verba publicitária da União enquanto reduzem o quadro de funcionários a números jamais vistos. Só no Rio de Janeiro foram demitidos mais de 2 mil jornalistas em dois anos, segundo dados do Sindicato dos Jornalistas do Rio e do Sindicato dos Radialistas.

Eles atuavam em empresas consolidadas – como a TV Globo, Folha de São Paulo e o próprio grupo Abril, por exemplo – que anunciam lucros estratosféricos a cada ano – para a felicidade dos acionistas. Os lucros vêm da publicidade privada, que chega depois de estimulada pelo pagamento antecipado de bônus de valor, além de verba que desembarca dos governos municipal, estadual e federal.

Estes recursos chegam através de publicidade e também do pagamento de assinaturas de revistas, jornais e TVs a cabo. Pelo menos 40% da revista Veja são comprados via assinaturas pagas pelo governo do Estado de São Paulo – razão pela qual problemas administrativos e escândalos são solenemente ignorados pelas publicações.

Para se ter uma ideia, só no primeiro semestre de 2011, a Globo Comunicação e Participações S.A., responsável pela TV Globo, rádios, revistas, jornais e sites ligados à emissora, abocanhou quase um terço da verba aplicada pela Presidência da República entre janeiro e julho daquele ano: R$ 52 milhões. É importante frisar que o valor da publicidade aumenta na proporção inversa do número de sua audiência ou leitores. Enquanto a Internet cresce e reduz a audiência da TV aberta, por exemplo, o custo da publicidade nas plataformas decadentes só faz crescer. E o país inteiro paga a conta.

Este valor aumenta ano a ano e neste período estima-se que tenha chegado perto de R$ 600 milhões. Nesta quarta-feira (03) Dilma recebe no Palácio do Planalto um dos presidentes do Grupo Globo. Em pauta? Um pedido de desculpas pelas manchetes negativas contra a presidenta, outro para que ela não insista na Lei de Meios e que não interrompa, reduza ou mesmo pulverize recursos da publicidade oficial. Esta agenda, claro, não foi divulgada. É apenas o livre pensar de um jornalista acostumado com o tempero empregado pela velha mídia nas suas relações com o poder.

No Rio, por iniciativa do vereador Reimont Otoni, do PT, a Câmara Municipal se abriu para que parte da verba publicitária chegue também às mídias alternativas. Embora não contemple ainda diretamente a mídia digital, ela é um respiro para um setor que vive sua maior asfixia. A Assembleia Legislativa do Rio também caminha nesta direção e haverá reunião na próxima semana para tratar do tema. Os executivos do Rio, na sua prefeitura da capital e governo do estado, permanecem reféns do Grupo Globo e não acenam com nenhuma mudança.

Dilma, por conta do ataque que sofreu e o risco impingido contra a democracia, perpetrado por Veja, teria todas as razões para iniciar o processo em Brasília. Ainda não o fez ou mesmo acenou para isso. Afastou do seu círculo o jornalista Franklin Martins, que tem projeto nesta área, e ameaça convocar para o Ministério das Comunicações o governador da Bahia, Jacques Wagner – que, pelo perfil moderado, não comprará briga com as grandes corporações da mídia. E o vereador Reimont Otoni falou com muita precisão sobre isso em entrevista esta semana em Conexão Jornalismo – não será possível mexer nesta estrutura viciada sem se ferir no espinho.

E assim, caso se confirme a batida que assistimos daqui, jornalistas continuarão sendo enxotados das grandes empresas, não conseguirão ser absorvidos pelas novas mídias (carentes de recursos por conta de um preconceito ainda presente que parte dos governos e mesmo das agências privadas), e especialmente leitores e internautas continuarão reféns de um modelo de mídia e informação viciada que resiste em dar pluralidade de opinião à população – em completo descompasso com o mundo moderno e evidente desprezo à inteligência nacional.

Aécio será internado para tratamento?

Por Altamiro Borges, em seu blog

O cambaleante Aécio Neves ainda não se conforma com a dupla derrota que sofreu nas eleições de outubro: perdeu na disputa presidencial e foi desalojado do governo de Minas Gerais – que tratava como um latifúndio há doze anos, com direito a “aecioporto” e a outras regalias ainda não reveladas. Temendo ser descartado por outros grão-tucanos, principalmente por Geraldo Alckmin, ele resolveu ocupar o posto de líder supremo da extrema-direita tupiniquim. O senador mineiro-carioca está a cada dia mais histérico, gerando surpresa até em que o conhecia como herdeiro do conciliador Tancredo Neves. Seguindo nesta toada, ele precisará ser internado urgentemente para tratamento… psiquiátrico!

Após a derrota no segundo turno, Aécio Neves colocou em dúvida a lisura do pleito e pediu recontagem dos votos. Com isto, ele estimulou alguns grupelhos fascistas a ocuparem as ruas berrando pela impugnação da eleição e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Na sequência, mais hidrófobo ainda, ele afirmou ao jornalista Roberto D´Ávila, da GloboNews, que não perdeu a eleição para um partido político, mas sim para uma “organização criminosa”. Nesta semana, durante a votação do projeto de ajuste das metas fiscais, o parlamentar – que quase nem aparece no Senado – deu apoio as fascistóides que invadiram o Congresso Nacional e comentaram um atentado contra a democracia brasileira.

A postura alucinada do cambaleante Aécio Neves já gerou as primeiras reações. O PT finalmente decidiu entrar na Justiça contra suas “infâmias”. Segundo o presidente nacional da legenda, deputado estadual Rui Falcão, “estamos interpelando judicialmente o senador mineiro derrotado. Em seguida, processo crime no STF. O PT não leva recado para casa”. Já o líder do PT no Senado, Humberto Costa, ironizou a conduta tresloucada do tucano. “O quixotesco perdedor das eleições continua lutando contra imaginários moinhos de vento. Já estamos em dezembro. Não é possível que, mais de um mês depois do pleito, ele ainda esteja num mundo à parte”. Para ele, Aécio Neves “é um caso inusitado em que a derrota subiu à cabeça”.

Já alguns eleitores de Dilma Rousseff – entre eles o ator José de Abreu – estudam ingressar na Justiça contra o tucano. Eles afirmam que foram desrespeitados em seu voto. Nesta terça-feira (2), o jornalista Janio de Freitas, da Folha, até apresentou argumentos favoráveis à proposta tendo como base as provocações de Aécio Neves na GloboNews. “De fato, ele não perdeu para um partido político. Perdeu para os eleitores, petistas, peemedebistas e nada disso, que lhe negaram o voto e o deram a Dilma. Qualquer deles agora habilitado, desde que capaz de alguma prova de sua adesão a Dilma, a mover uma ação criminal contra Aécio por difamação, calúnia e injúria, e cobrar-lhe uma indenização por danos morais”.

Estas e outras iniciativas podem não dar em nada. Mas não custa estudar a possibilidade de solicitar a imediata internação do cambaleante Aécio Neves para tratamento… psiquiátrico!