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Carta aberta aos indecisos e desiludidos com a eleição

Por Rennan Martins | Brasília, 08/10/2014

O primeiro turno das eleições brasileiras bateu recorde em votos nulos, brancos e abstenções. Estes votos somados representam 27% do total, ou 38,7 milhões de cidadãos descontentes, desinteressados da política brasileira. Essa massa possui grande poder de influência no país, pois, até mesmo o segundo colocado na corrida presidencial, Aécio Neves, ficou atrás na contagem dos votos. É a vocês que me dirijo nesta carta.

Antes de tudo, é preciso reconhecer que vocês estão certos, possuem razão em desacreditar do sistema político brasileiro. A nossa democracia, da maneira que está configurada, está cada vez mais desconectada das vontades da população. Há uma crise de representatividade séria. Sintoma claro foram as Jornadas de Junho do ano passado, que levaram às ruas milhões de pessoas.

Porém, é necessário que façamos distinções. A essa altura da corrida eleitoral o país se divide em dois projetos bastante discordantes e gostaria de esclarecê-los a fim de que reflitam. Como vocês sabem, a disputa se dará entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Analisemos suas propostas.

Aécio Neves é o candidato identificado com as vontades do poder financeiro, com o mercado e os investidores internacionais. Sua plataforma dá prioridade a estabilidade macroeconômica, alegando ele que assim haverão mais condições de crescimento. Trata-se do famigerado neoliberalismo. As entrelinhas de como isso se dará é o que importam, por isso exponho-as.

Seu eventual ministro da Fazenda já foi anunciado em pleno debate eleitoral, e será o economista Armínio Fraga, ex-ministro de FHC. Fraga já fez algumas declarações que revelam a receita de como pretende seguir os “fundamentos macroeconômicos”. Segundo ele, o salário-mínimo nacional cresceu muito e isso causa inflação. Ele também crê que o pleno emprego pressiona demais os preços internos.

Percebem a receita que este senhor pretende nos passar para “voltar a crescer”? A estabilidade econômica de Aécio prevê aumento do desemprego e estagnação salarial. Ora, lhes pergunto então, pra quem seria essa estabilidade?

Você, eleitor insatisfeito, talvez se lembre agora dos noticiários que retratam um Brasil em crise econômica, com inflação e baixo crescimento. Gostaria de esclarecer que a inflação tem dado sinais de arrefecimento. Quanto ao baixo crescimento, este se deu justamente porque tivemos de subir os juros pra conter os preços.

O que a imprensa não lhe esclarece em relação a economia é que quando combatemos com muita energia a inflação acontece um desaquecimento exagerado nas atividades produtivas e isso causa desemprego. Caro leitor, lembre-se sempre disso, tentar conter a inflação a todo custo desemprega os cidadãos.

É por isso que a abordagem de Dilma é criticada, porque ela quer manter o nível alto de emprego, não pretende sacrificar os trabalhadores em nome da “estabilidade” da “macroeconomia” e da “confiança”. Atualmente, estamos com irrisórios 5% de desemprego, que condiz com pleno emprego. Nos últimos 12 anos, o salário-mínimo teve crescimento real acima dos 70%.

A atual presidente possui uma visão social-desenvolvimentista, que visa conciliar crescimento e desenvolvimento com o bem-estar da população. Afinal, de que adianta crescermos muito como a China, mas com os trabalhadores ganhando tão pouco?

A tão criticada gestão econômica dos últimos 12 anos tirou o Brasil do mapa da fome, segundo a ONU. Isto é uma notícia sensacional, comentada em todo o mundo, menos aqui. Parece que nossa imprensa não se importa com problemas tão simplórios quanto a fome.

E é neste ponto que insiro outro acontecimento ignorado. Entre os dias 1 a 7 de setembro ocorreu em todo o país, um Plebiscito de iniciativa popular o qual perguntou a população se esta desejava uma constituinte exclusiva do Sistema Político. A grande mídia mais uma vez manteve silêncio sepulcral em torno do assunto, mas, mesmo assim, conseguimos 7,7 milhões de votos favoráveis.

Aécio é contra reformar a política, prefere deixar do jeito que está, um sistema que desagrada quase 30% de todos os eleitores. Dilma, pelo contrário, inclusive votou sim neste plebiscito. No tocante a probidade, integridade dos políticos, Aécio é réu num processo onde sumiram R$ 4,3 bilhões da saúde de MG, Dilma tem trabalhado pela investigação e prisão dos envolvidos em mal feitos na Petrobras.

Perceberam estas distinções fundamentais entre os candidatos? Nosso atual sistema político precisa ser reformado a fim de incluir as demandas de vocês, pra que sintam que as coisas podem mudar, pra que sejam representados de fato. Com Dilma existe a possibilidade, Aécio nem mesmo a cogita.

E é por isso que encerro esta carta convidando você, eleitor desiludido, insatisfeito e indeciso a votar em Dilma. Mas sem passar um cheque em branco. Devemos impedir o candidato comprometido com o desemprego e o arrocho salarial de chegar ao poder, e em seguida fazer política nas ruas, nas redes sociais, em todo lugar. Lutemos nas ruas e nas urnas, continuemos com um governo que tenha certo compromisso popular e trabalhemos pra aprofundar a democracia.

Garçom, traz a conta do anti-petismo!

Por Guilherme Tomishiyo | Via Facebook

O famigerado dia 05 de outubro chegou e o Povo fez a sua voz ser ouvida. E a conta saiu cara. O PT perdeu 18 cadeiras na Câmara dos Deputados, teve apenas 3 governadores e 2 senadores, perdendo nomes de peso, como o de Eduardo Suplicy. Talvez as coisas melhorem com os resultados do segundo turno. Mas, nessa parcial, Dilma, se conseguir ser eleita, governará com ainda maiores dificuldades por contar com uma base governista reduzida em relação ao seu primeiro mandato. É dito que o Congresso eleito é o mais conservador desde 1964.

Como chegamos a esse ponto?

Primeiramente, faz-se necessário esclarecer a quem este texto se dirige: falo aqui com eleitores da esquerda; se você é da direita, este texto provavelmente não lhe interessará (e muito menos lhe convencerá), especificamente eleitores da esquerda críticos ao governo PT, adeptos do anti-petismo. Também estou falando com a dita “esquerda reformista”, no sentido da esquerda que crê no processo democrático. Se você acha que mudanças pra melhor são impossíveis via democracia e defende “revolta armada”, bem, este texto também não foi escrito para você. Por fim, estou assumindo que você acredita que, apesar dos pesares, o governo PT tenha trazido avanços em relação a governos anteriores e que seja preferível a uma retomada do PSDB. Se você é o tipo de niilista político que acha que tanto faz PSDB ou PT, eu também não tenho intenções de convencê-lo do contrário.

Falo principalmente com essa esquerda, porque pretendo dizer que, infelizmente, eu acredito que a culpa disso, em partes, é de vocês.

Para abrir meu argumento, gostaria de lembrar a fala da Luciana Genro em um debate, quando ela dizia a um dos candidatos que “política não se faz cedendo”. É exatamente esse o erro: política se faz, sim, cedendo. Essa fala da Luciana Genro foi uma das muitas razões que eu tive para entender que ela não era capacitada para ocupar a presidência e que está fadada a ocupar cargos periféricos eternamente ou “se vender” para conseguir uma posição onde possa fazer mais pelo país.

Política se faz cedendo e sendo sutil. Se faz negociando. As mudanças são lentas, às vezes imperceptíveis. Façamos um pequeno exercício mental: imagine o Brasil, lá pelos idos de 1800 governado por Dom Pedro I. Imagine agora que, ao contrário do Dom Pedro que tivemos, houvesse um governante extremamente progressista e contrário à escravidão. Oras, ele, sabendo-se soberano do Império Brasileiro, decide usar de seus poderes para abolir a escravidão, uma vez que tem a seu dispor todo o aparato do Estado para fazer isso. O que vocês acham que aconteceria? Eu sei dizer com quase certeza: ele sofreria um golpe de Estado e perderia a coroa, e a escravidão voltaria ser o status quo. Por quê? Porque, diferente do que pode parecer, a escravidão não é abolida por decreto. O decreto veio quando esse modo de produção já estava em sérios apuros no âmbito ideológico, ruindo em grande parte do mundo. E, mesmo assim, há quem acredite que abolir a escravidão tenha custado a coroa de Dom Pedro II.

A escravidão não é abolida por decreto, porque há forças maiores do que o decreto e a vontade do monarca em jogo. A sociedade inteira se pautava naquele modelo de produção econômico. Havia vários atores internacionais em relação comercial com o Império Brasileiro (inclusive a militarmente superior metrópole, Portugal), que seriam seriamente lesados pela medida (e que não deixariam isso barato). Havia toda uma estrutura ideológica e valores profundamente ancorados na população brasileira, passando desde a elite até os próprios escravos, que visavam naturalizar e justificar a escravidão. Se Dom Pedro I abolisse a escravidão por decreto, não conseguiria nada além de cometer suicídio político, manter o status quo pró-escravidão e ser substituído por alguém menos ameaçador do ponto de vista econômico.

Sabendo que tentar abolir a escravidão por decreto seria suicídio, deveria o monarca ser conivente com tamanha imoralidade, tolerar o intolerável e permitir tamanha violação de direitos humanos em suas terras? Que tal ser mais inteligente? Esse monarca poderia, por exemplo, sutilmente e na medida do possível MINAR a instituição social da escravidão, fomentando ideologias abolicionistas cá e lá, dando destaque a membros do clero que pregassem contra a prática, aprovando medidas mais discretas e de poder mais limitado que favorecessem os escravos; nomeando magistrados que ele soubesse serem compassivos com a causa para julgar conflitos envolvendo revolta de escravos etc. Essa estratégia soa como conivência à escravidão? Bem, então ele poderia ir lá assinar o decreto, perder a coroa e deixar tudo como estivesse. A melhora que ele fez para a vida dos escravos foi, efetivamente, zero. E ele tinha todos os poderes e condições para fazer melhor.

Se você se enquadra nas assunções que eu enumerei no início do texto, então é seguro eu presumir que você concorda com viver em uma república democrática. Se você concorda com viver em tal estrutura, também concorda com que as coisas devam ser democraticamente resolvidas e decididas. O Estado de Direito deve ser respeitado e os poderes não devem agir de maneira arbitrária. Como, então, você quer que “política não se faz cedendo?” Você acha que 143 milhões de brasileiros tenham as mesmas ideias e o mesmo projeto político que você? Você acha que os representantes desses 143 milhões de brasileiros vão cruzar os braços enquanto você implementa todas as etapas desse plano, sem resistência? Você acha mesmo que, “mostrando o pau na mesa”, vai intimidar todo mundo que pensa diferente? Acho que está na hora de você se lembrar de que a esquerda nesse país sempre foi marginal, até então.

Ou talvez você ache que o melhor é “não se vender” (as aspas, porque como eu espero ter deixado claro, ceder é parte das regras do jogo). Isso é permanecer naquele discurso “contra o capital financeiro e contra as elites” para sempre. É beber na água do pós-estruturalismo e ficar brincando nesse jogo universitário de “oprimido versus opressor”. Sem com isso mover uma palha pra ajudar ninguém. Vocês acham que ideologia enche barriga dos outros? Que discursos bonitos e emocionantes contra o conservadorismo mudam alguma coisa? Se vocês bebem na mesma fonte teórica que eu, deveriam saber que o que move as coisas é botar a mão na massa.

Assim como no exemplo da escravidão, há vastos interesses em jogo no campo político deste país. Não, o PT não conseguiria criminalizar a homofobia, aprovar o casamento gay, legalizar as drogas e o aborto, auditar a dívida pública, proibir financiamento público de campanha, aprovar uma lei de mídia e fazer uma reforma tributária sem sofrer algo de um golpe de Estado para cima. Não há capital político para isso. Se ele tentasse impor na marra qualquer uma dessas coisas, o resultado mais provável seriam uma indisposição e uma paralisação dos outros poderes. Resultaria num impasse entre a presidência e o Congresso. E o resto do país iria continuar pegando fogo. A insistência iria simplesmente resultar no governo mais ineficiente e paralisado da história deste país, ou, em se tratando de uma mídia golpista e mau caráter como nossa, em um processo de impeachment com alguma acusação que ela arrumaria e acharia adequada. Nem mesmo comecei a esboçar considerações sobre o cenário internacional, e visto que o Brasil é a sétima maior economia do mundo, pode ter certeza que tem muito peixe grande de olho nos cavalos que correm aqui na terra do Tupiniquim.

Agora, eu IMPLORO a você para que olhe para o quadro geral.

No geral, não estamos mais próximos de uma agenda de esquerda durante esses anos de governo do PT do que estivemos há 12 anos? Não há menos pessoas miseráveis, mais pessoas estudando e trabalhando, menos desigualdade? Não foram nesses doze anos em que mais universidades foram construídas, em que mais se gastou em programas de inclusão de minorias e dos mais necessitados, onde pobres tiveram maiores oportunidades de acesso ao nível superior? Não caminhamos no sentido de uma sociedade com menor desigualdade de renda, de maior justiça social? O PT não fez nenhum avanço social nesse tempo inteiro? A união estável homoafetiva não foi aprovada sob a égide petista – sim, foi o Judiciário, mas quem foi que indicou aquele corpo de juízes extremamente ativistas, o que mais tarde resultaria em um dano colateral ao PT no julgamento do Mensalão –? Não é este o momento histórico em que a pauta LGBT está em maior evidência na história? Vocês sinceramente acreditam que a Dilma é contra casamento gay e contra o aborto?

É por isso que me deixa muito chateado ler que ” o PT é de direita”, “o PT e o PSDB são a mesma coisa”. Porque eles não partem de pessoas à direita do PT, e sim teoricamente a sua esquerda. Mas são pessoas que, cegas pelo seu purismo ideológico, não conseguiram entender que, para fazer a diferença na sociedade, é preciso ceder ceder sim. Há que se ter algum pragmatismo. Não se vencem todas as batalhas e às vezes temos que escolher as batalhas que nos são mais caras.

Com certeza há muito de questionável em muito do que o PT faz. Ambientalmente, eu até admito o questionamento do espectro político do partido, já que esse se mostrou muito conservador nessa seara. E é importante que as militâncias cobrem sim um posicionamento favorável ao casamento LGBT, à legalização das drogas, à auditoria da dívida pública e aos demais temas. É importante, porque, sem a pressão da sociedade, essas pautas não serão aprovadas nunca. Temos que sinalizar aos nossos representantes que há vontade popular de colocar esses projetos em movimento e que muitas dessas bandeiras são caras. Não quero de modo algum sugerir que as críticas ao PT vindas da esquerda se calem, sou e sempre fui contra esse tipo de estrategema corporativista, quer em movimentos sociais, quer em partidos ou ideologias políticas.

Mas igualar o PT à direita e desmerecer completamente o seu projeto político em consequência disso é, em minha opinião, não enxergar o quadro geral. É confundir a batalha com a guerra. É ser injusto. E é contribuir para o quadro que observamos no Congresso, uma vez que o eleitor, observando que o PT não tem apoio nem na direita e nem em seu berço, a esquerda, cede ao conservadorismo, que é o voto do status quo sem uma identidade, partidária ou de classe.

Eu torço pela presidente Dilma nesse segundo turno e espero que ela saia vitoriosa. Os quatro próximos anos serão difíceis para qualquer presidente, mas principalmente para a Dilma, persona non grata da imprensa e impopular em relação ao mercado. A conta parcial já veio cara, o parlamento está comprometido. Todo o apoio nesses momentos de dificuldade será valioso.

Ou então podemos entregar a presidência ao PSDB de uma vez, já que é tudo a mesma coisa…

Diálogos Desenvolvimentistas: O voto impresso e as falhas de nosso sistema eleitoral

Neste diálogo de alto nível, Adriano Benayon, doutor em economia, e Beto Almeida, jornalista e conselheiro da Telesur, discutem o sistema eleitoral, a necessidade de aprovarmos a impressão de nossos votos e as possibilidades de fraude do atual modelo. Fundamental para aqueles que se interessam em democracia real.

Adriano Benayon - Mas há, pelo menos, duas qualificações importantes.

A primeira é que a despolitização e a desinformação dos brasileiros é um processo que chegou a cúmulos de perfeição, e resultam de mais de 70 anos de intervenções abertas ou veladas do poder mundial anglo americano, que investiu no arrasamento da cultura nacional, na corrupção da mídia e de n outras instituições e indivíduos. Não é produto do acaso, nem deficiência inerente ao caráter dos brasileiros.

A segunda é que, como já relatei a vários correspondentes, verifiquei em eleições anteriores, notadamente em São Paulo – que se tornou feudo tucano, há já muitos decênios – há indícios de fraude nas urnas eletrônicas, no TRE, tão fortes, tão fortes que podem ser considerados provas, mediante o uso do raciocínio lógico.

Provas materiais podem não ter aparecido, ou apareceram só em casos isolados em outros Estados, mas isso decorre da recusa da “Justiça Eleitoral”, de permitir auditoria pública das urnas, em relação às quais o voto impresso nunca foi adotado, devido a, por um lado, que não há maioria favorável aos interesses sociais e nacionais no Congresso, e, por outro lado, as coações e pressões para impedir a aprovação de projeto para o voto impresso, do Senador Roberto Requião.

Serão coincidências as vitórias do PSDB, em primeiro turno, em São Paulo e no Paraná, onde o candidato derrotado foi exatamente Requião?

Será que os votantes desses Estados atribuem os graves problemas somente ao governo federal e nada de errado aos governos estaduais?

Beto Almeida - Prezado Professor Benayon, permita-me recordar que a Lei do Voto impresso, de autoria do Senador Requião, chegou a ser vigente uma vez, e a ideia era sua implantação gradativa. Os setores que querem impedir a democracia real e verdadeira da justiça eleitoral, trabalharam e derrubaram esta lei. Uma nova iniciativa legal, de autoria dos deputados Brizola Netto e Flávio Dino (agora governador eleito no Maranhão), foi aprovada e, logo em seguida, para que não valesse para este pleito de 2014, foi derrubada por uma estranhíssima ADIN promovida pelo Judiciário contra o Legislativo. Um caso muito raro de uso de ADIN pelo Judiciário e contra outro poder de Estado. Assim, ainda votamos às escuras no Brasil.

Adriano Benayon - Após essa observação, pesquisei ter havido, em 06.11.2013, decisão do STF, que este assim divulgou:

“O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a inconstitucionalidade do artigo 5º da Lei 12.034/2009, que cria o voto impresso a partir das eleições de 2014. Na sessão plenária realizada nesta quarta-feira (6), os ministros confirmaram, em definitivo, liminar concedida pela Corte em outubro de 2011, na qual foram suspensos os efeitos do dispositivo questionado pela Procuradoria Geral da República (PGR) na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4543.”

Entre as justificativas da ministra Carmen Lúcia, relatora – cujo voto foi acompanhado unanimemente pelo Pleno -, está esta “pérola”:

“O segredo do voto foi conquista impossível de retroação”, afirmou a ministra. “A quebra desse direito fundamental – posto no sistema constitucional a partir da liberdade de escolha feita pelo cidadão, a partir do artigo 14 – configura afronta à Constituição, e a impressão do voto fere, exatamente, esse direito”. Eventual vulneração do segredo do voto, conforme destacou a ministra, também comprometeria o inciso II do parágrafo 4º do artigo 60 da CF – cláusula pétrea – o qual dispõe que o voto direto, secreto, universal e periódico não pode ser abolido por proposta de emenda constitucional.

Parece um chiste reminiscente da estória que se contava na época da Velha República e durante muito tempo após sua queda, através da Revolução de 1930. Tudo dentro da realidade descrita por Victor Nunes Leal, no livro Coronelismo Enxada e Voto.

A estória, alusiva ao voto de cabresto, é esta. O caboclo recebe do Coronel um papel dobrado dentro de um envelope, para ser depositado na urna de votação, e então pergunta se poderia saber o que está escrito nesse papel. Ao que, o Coronel responde: “não pode não. O voto é secreto! ”

Como há muito tempo, mostram os peritos independentes sobre a urna eletrônica, você sabe em quem votou, mas não sabe para quem foi o seu voto.

Já que estou fazendo um retrospecto histórico, devo recordar que, em 2004, testemunhei ter sido convocada uma reunião de líderes da Câmara dos Deputados, para rejeitar projeto de lei de voto impresso, por voto de liderança, o que foi feito sem resistência. Mais notável foi ter sido essa reunião convocada por iniciativa do então presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, que compareceu a ela, para pressionar e intimidar os líderes dos partidos.

Quem é que, dentre esses líderes de partidos, teria coragem, ou talvez até condições, de enfrentar e afrontar aquele que detinha o poder de condená-los nas numerosas ações de que são alvo no TSE, cuja composição pouco difere da do STF? Sim, o mesmo que, quando Constituinte, fraudou comprovadamente o texto da Carta Magna para tornar livre e fácil a passagem, no Orçamento Federal, das verbas destinadas ao serviço da dívida pública.

Terrível, mas não é aí que começa a esgarçar-se o cada vez mais frágil da suposta democracia instituída com a Constituição de 1988, a qual, entre outras coisas, obriga, na prática, o Tesouro Nacional a emitir títulos para pagar juros absurdos aos bancos, em vez de ele próprio emitir dinheiro (art. 164).

No segundo turno, a disputa será política

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

O único ponto previsível dessa campanha foi a imprevisibilidade.

As ondas se deram entre quatro públicos distintos:

Um segmento centro-esquerda, representado pela candidatura Dilma, que vota nela por convicção..

Um segmento neoliberal, em torno de Aécio, também por convicção.

Os inconformados – os que não conseguem se ver representados em nenhum candidato.

Os indignados, que acreditam que toda política é corrupta e são fundamentalmente antipetistas.

Movimento 1 – a mídia e a construção da corrupção.

O primeiro divisor de água da campanha, transformando o antipetismo na maior força da oposição. Esse sentimento cresceu exponencialmente com a cobertura intensiva do julgamento do mensalão, com o episódio Paulo Roberto Costa e com Pasadeña – que Dilma jogou, de graça, no caldeirão das suspeitas. A grande vitória da mídia foi ter pregado no PT a máscara da corrupção.

Movimento 2 – a busca do sonho.

No início da campanha, Dilma Rousseff representava o establishment. Eduardo Campos e Aécio Neves não representavam nada – por absoluto desconhecimento junto ao eleitor.

A tragédia de Eduardo Campos empurrou os inconformados para Marina Silva, que acabou soçobrando, não por falta de tempo, mas por excesso. Só quando acabou o sonho Marina, aparentemente parte dos inconformados passou a olhar e a descobrir Aécio.

Movimento 3 – o início da politização.

A campanha permitiu, pela primeira vez, que Dilma exercitasse (ao menos no discurso) um início de politização – de explicar um projeto de governo, em vez de enumerar obras -, assim como Aécio Neves.

O segundo turno

Nos últimos debates, Aécio descontraiu e recuperou a imagem do “moço de família” que não havia conseguido no início. Por outro lado, deixará de ser novidade. Haverá quase um mês para que sejam expostas suas vísceras e as diferenças programáticas com Dilma.

Na outra ponta, a visibilidade do horário gratuito reduziu a rejeição a Dilma. Sua arma estará no discurso político, na explicitação das diferenças programáticas.

Nos últimos tempos, a própria Dilma melhorou o discurso, tornando-o mais redondo e substituindo a evocação de projetos pontuais por uma visão mais politizada e abrangente do modelo político que representa.

Aécio cavalgou a última onda dos inconformados. Continuará com os indignados e provavelmente irá ganhar o apoio de parte do eleitorado de Marina. As mágoas de campanha dificultarão a passagem dos eleitores de Marina para Dilma.

Por outro lado a explicitação dos princípios político-econômicos de Aécio farão os inconformados pensar duas vezes antes de pular para seu barco. E, apesar de Aécio não ter a face macilenta e tenebrosa de José Serra, a perspectiva de se jogar fora um projeto de país em que acreditam deverá mobilizar as forças que hoje em dia apoiam Dilma sem entusiasmo.

O desempate programático

Aguardem baixarias dos grupos de mídia e nas redes sociais, menos na campanha propriamente dita. Se Aécio resolver apelar pelas denúncias, ambos os candidatos serão soterrados por um caminhão de denúncias recíprocas.

A partir de agora, o embate será eminentemente programático.

Dilma conseguirá crescer se expuser de forma clara o que o país poderá perder com o abandono das bandeiras social-desenvolvimentistas por um candidato neoliberal.

De seu lado, Aécio explorará o que o país terá a ganhar com a condução mais competente da macroeconomia. Essa ofensiva em cima do ponto mais vulnerável do governo Dilma a obrigará a atitudes firmes para mostrar que efetivamente o segundo governo será composto por ideias novas.

Antes de demonstrar que a política econômica irá mudar, Dilma terá que convencer os recalcitrantes que ELA mudou.

Assim como ninguém esclarecido acreditará que Aécio ganhará sensibilidade social com a campanha, poucos estão acreditando que a pedagogia da campanha mudará o temperamento e o estilo de Dilma.

Ambos terão enormes desafios para reduzir o ceticismo. Terão que explicitar projetos e programas – e serem confrontados com sua história.

Os modelos em jogo

Assim como nas democracias maduras da Europa, há dois modelos em jogo. Um trabalhista ou socialdemocrata, representado por Dilma; outro neoliberal, representado por Aécio.

Ambos estão calçados em diferenças programáticas significativas.

O socialdemocrata – ou desenvolvimentista apud Dilma -, pressupõe prioridade para a construção do estado do bem estar social e para as políticas econômicas proativas. É mais sensível aos pleitos das minorias (está-se falando do governo como um todo, não especificamente da postura pessoal de Dilma) e para o combate à miséria. Menos sensível para a melhoria do ambiente econômico e para reformas institucionais, embora ambos os objetivos nao sejam conflitantes entre si. Aceita a iniciativa privada mas sem abrir mão do protagonismo da presidência. O erro é muito mais na forma autoritária, que no conteúdo. Muitas vezes é descuidado com a gestão macroeconômica.

O neoliberal concede toda prioridade à melhoria do ambiente econômico. É insensível em relação às políticas sociais – com exceção dos períodos eleitorais – e aos reclamos da sociedade como um todo e a formas de coordenação da economia, como as políticas industriais. E mais sensibilidade para a gestão macroeconômica e para a responsabilidade fiscal.

Essas diferenças explodem em dois ambientes preferenciais.

Orçamento

O desenvolvimento de Dilma utilizou o orçamento arbitrariamente, mas tendo como foco o social e o desenvolvimentismo. Avançou muito no combate à miséria mas contaminou o ambiente econômico com sua imprevisibilidade. A melhoria depende apenas da vontade pessoal, não de dogmas ideológicos.

O neoliberalismo de FHC – que está na matriz de Aécio – entrega todo o ouro ao mercado. O ajuste fiscal proposto visa ganhar espaço para o Banco Central praticar políticas de juros sem restrição fiscal. E julga que, abrindo tudo ao mercado e à economia internacional, o progresso virá por si só. Está firmemente amarrado aos princípios ideológicos do neoliberalismo.

Emprego

Dilma preservou o emprego ainda que à custa de sacrificar o ambiente econômico (não por relação direta com o emprego, mas pela pouca eficácia da área econômica). O ajuste de Aécio-Armínio, por mais que negue, é fundamentalmente recessivo e, sem ter que prestar contas aos eleitores, tratará o pleno emprego como ameaça à estabilidade de preços.

O que queremos ser quando crescer

O terceiro campo é dentro da ideia “o que queremos ser quando crescer”.

O último capítulo do meu livro “Os Cabeças de Planilha” foi uma longa entrevista com FHC. Ele não tinha a menor ideia sobre mecanismos de desenvolvimento, papel das pequenas e micro empresas, da inovação, das políticas sociais, da diplomacia, criação de redes econômicas, arranjos produtivos etc. Sua única proposta era turbinar os grandes grupos financeiros, julgando que eles trariam a reboque a modernização do país.

Dilma sabe como crescer. Sua vulnerabilidade está no seu método centralizador de governar.

Os fatores político-midiáticos

Dois episódios poderão influir com maior ou menor intensidade na campanha:

Os escândalos de Paulo Roberto Costa e Yousseff.

Há um acordo de delação premiada. E a informação de que o sigilo dos relatos é protegido por lei. Mas como a lei – ora, a lei -, os vazamentos continuarão sendo praticados, com direito a cada revista colocar o que quiser no texto – e atribuir a fontes anônimas.

O caso da água em São Paulo.

Nos próximos dias a Sabesp terá que encarar, finalmente, a crise de água. Dependendo da abrangência do rodízio, poderá colocar em xeque as promessas de campanha do PSDB.

A imprensa e a Petrobras no segundo turno

Por Rennan Martins | Brasília, 06/10/2014

Deixo registrado o que está por vir em termos de imprensa nesse segundo turno. Nos próximos dias a Veja fará alguma “denúncia” envolvendo a Petrobras, dirão que tiveram acesso a alguns documentos e/ou gravações, escreverão muitas especulações em cima da corrupção que está sendo investigada pela PF. Não darão uma prova sequer aos leitores.

Em seguida, Jornal Nacional e correlatos reverberarão a matéria da revista Veja. Curiosamente os políticos envolvidos serão só do governo. Tucanos, democratas e a fins são incorruptíveis no mundo mágico de nossa imprensa.

Esse bombardeio será ensurdecedor a ponto da maioria da população nem querer saber se houve provas, julgamento ou algo do tipo. Muitos pedirão a cabeça dos envolvidos. Tentarão de todo jeito emplacar o “Fora Corrupção!” no imaginário da população, no objetivo dos votos debandarem para Aécio Neves, o valoroso.

Não importa se o PSDB é o partido com mais barrados pela lei da Ficha Limpa, não se ouvirá falar do escândalo do metrô que já desviou mais de R$ 500 milhões do erário no Tucanistão, quer dizer, São Paulo. Nem mesmo o fato de Aécio ser réu num processo no qual sumiram a bagatela de R$ 4,6 bilhões da saúde mineira é relevante. A imagem que pintarão dele é a de incorruptível, cruzado da justiça.

Dando certo, os articulistas de aluguel entram em cena. Senhores como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e Ricardo Noblat usarão de suas penas pra propaganda privatista. Segundo a mídia – a mesma que apoiou a ditadura e que sonega milhões – a solução pro problema será vender nossa mais valiosa empresa pras petroleiras internacionais.

A difamação e calúnia da Globo, Folha, Veja e cia já é prática antiga. A imprensa brasileira serve a interesses que estão muito longe de ser os do bem público.

No caso da Globo, desde antes da ditadura já se tentava denegrir a Petrobras, usando de todo e qualquer artifício pra desmoralizá-la. Neste artigo compreende-se bem o modus operandi dessa organização. Sugiro darem uma olhada.

Dirigente do PT diz que falta de reformas política e da comunicação explicam eleições

Por Sarah Fernandes | Via RBA

Para Valter Pomar, PT tem dificuldade de angariar votos da juventude trabalhadora por falta de educação política. São Paulo é cenário crítico que pode inviabilizar projetos do partido no longo prazo

Para Pomar, a disputa com Aécio no segundo turno é melhor para o PT do que uma disputa com Marina

São Paulo – Apesar de acreditar na reeleição de Dilma Rousseff (PT) no segundo turno, o integrante da Executiva Nacional do PT Valter Pomar, dirigente da Articulação de Esquerda, avalia que o partido não tem mais conseguido conquistar os votos da juventude trabalhadora, uma parcela da população que historicamente guinaria para a esquerda. A leitura é de que esse descolamento é explicado por falta de educação política e de uma mídia mais democrática. Por isso, ele considera que o PT não pode mais esperar para fazer a reforma do sistema político, nem para democratizar a comunicação.

“Nestes últimos anos a burguesia girou para a direita, mas na classe trabalhadora, que é maioria, não houve um giro total para a esquerda. Se essa nova geração que entrou no mercado de trabalho agora, devido às políticas do PT, tivesse acesso a uma mídia e uma educação mais democrática teria virado para a esquerda. Como isso não ocorreu, o que prevalece é a ideologia dominante, de uma guinada conservadora”, disse. “O partido vai ter que fazer um esforço redobrado de sindicalização e de mudanças nos currículos educacionais. Vamos ter que fazer nos próximos quatro anos o que não fizemos nos últimos 12.”

Mais do que isso: será fundamental fazer a reforma política e concretizar um processo de redemocratização da mídia, bandeiras históricas da esquerda, que não avançaram nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva e no governo de Dilma. “No médio prazo conseguimos gerenciar, mas, se isso não for tratado, virará um problema incontornável”, diz.

“A gente deveria ter feito esforço maior pela reforma política e deveria ter implementado a democratização da mídia. Dava para ter caminhado muito nessas duas áreas mesmo sem o Congresso Nacional aprovar. Temos que fazer isso se não a possibilidade de derrota em 2018 será grande. E teremos que fazer com uma situação menos favorável”, diz. “O fato de não termos feito a reforma política e a democratização da mídia criou uma contradição: a gente continua ganhando a eleição presidencial, mas naquele terreno onde os defeitos da estrutura são mais evidentes, que é no Congresso, a gente começa a ter queda.”

No pleito eleitoral decidido ontem (5), parlamentares conservadores avançaram de maneira representativa no Legislativo Federal. Bancada do PSDB na Câmara ganhou 11 cadeiras, passando de 44 para 55, um crescimento de 25%. Já a bancada do PT perdeu 20% dos seus deputados, passando de 88 para 70. Apesar disso, a ala petista ainda continua sendo a maior.

No Senado, que renovou um terço da Casa, cinco dos novos 27 parlamentares são do PMDB. O PSDB e o PDT têm quatro cada, o PSB elegeu três, mesmo número do DEM, enquanto PT, PTB e PSD conseguiram eleger dois cada. PR e PP fizeram um. A maior bancada a partir de 2015 será a do PMDB, com 19. Em seguida ficam o PT, com 13, e o PSDB, com 10.

Na leitura de Pomar, entre 1994 e 2002 houve um avanço considerável do PT nas eleições para o Congresso e para os governos estaduais. De 2003 a 2010 houve um período de equilíbrio, no qual a bancada federal se manteve, com alguma flutuação, além da presidência da República. “Batemos no teto e quando isso acontece em algum momento você cai.”

Pomar não acredita que um Legislativo mais conservador vá favorecer o candidato à presidência pelo PSDB, Aécio Neves, em um segundo turno. “Ele já foi favorecido nesta votação de ontem, mas não a ponto de ele ganhar as eleições. Tem uma diferença entre o que é conservadorismo político e ideológico e o que é conservadorismo econômico e social.”

“Em termos morais o eleitorado é mais conservador, em principal sobre temas como corrupção. Mas em termos sociais e econômicos ele é mais progressista. As pessoas querem mais salário e mais emprego, que é a nossa pauta”, continua. “Tanto que Aécio e Marina Silva (PSB) foram obrigados a dizer que eram favoráveis ao Bolsa Família. E eles estavam se dirigindo ao eleitorado deles.”

Dentro do esperado

Para Pomar, a disputa com Aécio no segundo turno é melhor para o PT do que uma disputa com Marina. “Desde a eleição de 2012 tínhamos claro que a eleição de 2014 ia ser resolvida no segundo turno e em uma disputa duríssima. Para nós não é surpresa. Mas imaginamos que seria ainda mais duro se fôssemos para o segundo turno com uma candidatura aliada à base do governo.”

“Para mim é melhor que a disputa seja contra o Aécio porque não teremos margem para confusão. Não tem chance das pessoas se iludirem com as propostas de Aécio: ele é um playboy, representante do capital e dos setores da elite. É jogo claro, o que não significa jogo fácil. São dois projetos distintos para o país, que vão se enfrentar pela sétima vez desde 1989”, disse.

O ex-dirigente nacional do PT rechaça a ideia que os votos de Marina irão automaticamente para Aécio. “Ele aproveitou o desmonte da Marina para angariar para si parte do eleitorado que oscilava. Os votos da Marina vão se dividir. O eleitorado dela é composto de vários segmentos: uma parte vem desde 2010, que é de gente que não é tucana mas está insatisfeita com o PT; tem uma parte que ela agregou nessa reta final, que é de gente de direita que viu nela uma chance de derrotar o PT e voltou para o Aécio; e tem uma parte que é progressista e quer mudança.”

São Paulo freia

O avanço conservador em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, não será um empecilho para a vitória de Dilma no segundo turno na opinião de Pomar. Os paulistas elegeram Geraldo Alckmin (PSDB) para governador no primeiro turno, José Serra (PSDB) para senador e levaram para Câmara Federal os deputados federais Celso Russomano (PRB) e Pastor Marco Feliciano (PSC) e o estadual Coronel Telhada (PSDB) na lista dos três mais votados. Na disputa presidencial, Aécio obteve 4,2 milhões de votos a mais que Dilma no principal colégio eleitoral.

“O quadro de São Paulo é muito grave, mas não define a eleição presidencial. Tem um quadro no país interior que nos permite ganhar, mas é preocupante porque revela uma cristalização do voto no PSDB no estado. Tem uma parte do eleitorado aqui que sabe que o governo Alckmin é ruim, mas vota para derrotar o PT”, diz. “Tem que ser feito um trabalho político São Paulo. Vamos ganhar eleição em âmbito nacional mesmo que aqui não consigamos reverter. Mas vamos ter que fazer estudo político para derrotar esse Tucanistão.”

Em São Paulo, a situação tende a ser mais crítica para o PT também porque no estado se concentra uma grande parte da classe trabalhadora que entrou há pouco no mercado de trabalho e tem desconfiança em relação ao partido. “Isso não será decisivo. Vamos ganhar sem desmontar essa equação, mas no médio prazo temos que desmontar porque senão São Paulo será um freio para as mudanças sociais que queremos para o país.”

Na opinião de Pomar, três fatores foram decisivos para endurecer o pleito eleitoral para o PT, que foram aprofundados nas reivindicações de junho de 2013. O primeiro deles é que cresceu o setor da juventude trabalhadora que não tem identidade no voto com Dilma e Lula e que olha o partido com dúvida. “Não é gente de direita, é gente que deveria votar no PT, mas que ao longo de 2013 e 2014 foram se distanciando ou nem chegaram a estar junto, porque começaram a ter vida política agora e não tem memória da classe trabalhadora.”

O segundo fator é que se aprofundou o antipetismo nas camadas médias, uma parcela da população que esteve presente nas manifestações de junho de 2013 e no movimento Não Vai Ter Copa. “É uma mistura de mau humor com ódio de classe, que tem a ver com o fato de que nos nossos governos a classe trabalhadora melhorou de vida e tirou deles o status, que entendem como fundamental. Os pobres estão no aeroporto, eles odeiam isso e opõe a culta no PT.”

Outro fator chave é que o grande capital, representado pelo empresariado, reforçou sua posição anti-PT e anti-Dilma, por conta da política econômica defendida e adotada pelo governo. “O capitalismo aqui é muito dependente dos salários baixos e do desemprego alto e a desigualdade social do país os fortalece. Nós fomos contra isso”, conclui Pomar.

Resumo das eleições: Ganhamos muito, perdemos bastante

Por Emerson César | Via Dragão Urbano

O saldo eleitoral da disputa presidencial corroborou com as previsões que já havíamos discutido em outras oportunidades, que Aécio e não Marina iria para o 2º turno contra Dilma Rousseff. O 2º turno nunca foi uma surpresa para o PT, a surpresa deve ter ficado por conta da discrepância entre os votos de Aécio e Marina, uma vez que as pesquisas indicavam uma disputa mais acirrada entre os dois. Ao que parece, as notórias e sistemáticas contradições da candidata da “nova política” minaram toda sua popularidade conquistada pelo marketing post mortem de Eduardo Campos. Comemoremos que a sonegadora do Itaú, os latifundiários desmatadores do PSB, os fascistas do Clube Militar e o fundamentalismo de Malafaia et carterva ficaram de fora do 2º turno! E comemoremos também que Dilma ainda é a candidata que os brasileiros mais confiam!

Ao analisar o desempenho de cada presidenciável por Estado, notamos claramente que os Estados nos quais as políticas econômicas e sociais do PT e de Dilma mais tiveram impacto e trouxeram incontáveis melhorias para a vida dos mais pobres (ou para aqueles que deixaram de ser), foram justamente os que lhe presentearam com mais votos. Os 12 anos do PT combatendo a fome, a desigualdade social, redistribuindo a renda e dando mais oportunidades aos pobres do Brasil inteiro, mais especialmente aos do norte e nordeste, deixaram naquele povo uma justificada gratidão que ainda perdurará por muitas eleições. Já Aécio obteve maioria nos tradicionais redutos da elite, não por acaso, poleiros dos tucanos como São Paulo. Nada de novo no front.

De verdadeiramente novo é a queda da dinastia tucana em Minas Gerais, com a derrota retumbante de “Chilique da Veiga” ao cargo de Governador. Uma grande vitória do povo mineiro, e uma grande derrota que este mesmo povo tenha elegido o incompetente e mau caráter do ex-governador Anastasia ao Senado Federal. Lamentável e revoltante. Tanto quanto a vitória do líder da privataria tucana, José “Alstom” Serra como Senador pelo Estado de São Paulo, uma vez que como opção os paulistas poderiam ter votado no honesto, competente e comprometido Eduardo Suplicy. Ninguém pode me recriminar quando digo que São Paulo é o Estado brasileiro com maior número de analfabetos políticos. Sem tomar banho devido ao descaso do PSDB com o abastecimento de água, os paulistas foram as urnas no último domingo reeleger no 1º turno o Governador que quebrou a Santa Casa, quebrou a USP, aumentou a violência no Estado e ainda por cima foi um dos denunciados no mega escândalo de corrupção do “Trensalão Tucano”. Um diagnóstico político dos paulistas? Insanidade!

No Rio de Janeiro, contudo, comemoremos que os combativos Marcelo Freixo e Jean Wyllys tenham se elegidos Deputado Estadual e Federal, respectivamente! Grandes vitórias para os fluminenses e para povo brasileiro! Infelizmente, o Rio ainda consagrou nessas eleições o fascista, homofóbico e reacionário do Jair Bolsonaro como o deputado federal mais bem votado do Estado. Mais uma prova de como somos contraditórios e, ao passo que caminhamos rumo ao progresso, também arrastamos fardos de farda que nos prendem ao atraso e a demência política. Já a disputa para Governador naquele Estado chega a ser desesperadora tendo em vista os candidatos que irão disputar o 2º turno, ainda que o calhorda do Garotinho tenha ficado de fora. Penso que qualquer um que vencer essa eleição imputará uma pesada derrota ao povo do Rio de Janeiro.

Ainda que o resultado das urnas tenha gerado uma vasta gama de análises e considerações sobre os rumos da política nacional, encerrarei por ora minhas observações para ouvir/ler as suas. E você, o que achou dessas eleições e do que elas ainda irão nos proporcionar nesse 2º turno?

PS: Parabéns a candidata Luciana Genro pelo expressivo desempenho (mais de 1,5 milhão de votos) em sua primeira disputa presidencial!