Por Rennan Martins | Brasília, 08/10/2014
O primeiro turno das eleições brasileiras bateu recorde em votos nulos, brancos e abstenções. Estes votos somados representam 27% do total, ou 38,7 milhões de cidadãos descontentes, desinteressados da política brasileira. Essa massa possui grande poder de influência no país, pois, até mesmo o segundo colocado na corrida presidencial, Aécio Neves, ficou atrás na contagem dos votos. É a vocês que me dirijo nesta carta.
Antes de tudo, é preciso reconhecer que vocês estão certos, possuem razão em desacreditar do sistema político brasileiro. A nossa democracia, da maneira que está configurada, está cada vez mais desconectada das vontades da população. Há uma crise de representatividade séria. Sintoma claro foram as Jornadas de Junho do ano passado, que levaram às ruas milhões de pessoas.
Porém, é necessário que façamos distinções. A essa altura da corrida eleitoral o país se divide em dois projetos bastante discordantes e gostaria de esclarecê-los a fim de que reflitam. Como vocês sabem, a disputa se dará entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Analisemos suas propostas.
Aécio Neves é o candidato identificado com as vontades do poder financeiro, com o mercado e os investidores internacionais. Sua plataforma dá prioridade a estabilidade macroeconômica, alegando ele que assim haverão mais condições de crescimento. Trata-se do famigerado neoliberalismo. As entrelinhas de como isso se dará é o que importam, por isso exponho-as.
Seu eventual ministro da Fazenda já foi anunciado em pleno debate eleitoral, e será o economista Armínio Fraga, ex-ministro de FHC. Fraga já fez algumas declarações que revelam a receita de como pretende seguir os “fundamentos macroeconômicos”. Segundo ele, o salário-mínimo nacional cresceu muito e isso causa inflação. Ele também crê que o pleno emprego pressiona demais os preços internos.
Percebem a receita que este senhor pretende nos passar para “voltar a crescer”? A estabilidade econômica de Aécio prevê aumento do desemprego e estagnação salarial. Ora, lhes pergunto então, pra quem seria essa estabilidade?
Você, eleitor insatisfeito, talvez se lembre agora dos noticiários que retratam um Brasil em crise econômica, com inflação e baixo crescimento. Gostaria de esclarecer que a inflação tem dado sinais de arrefecimento. Quanto ao baixo crescimento, este se deu justamente porque tivemos de subir os juros pra conter os preços.
O que a imprensa não lhe esclarece em relação a economia é que quando combatemos com muita energia a inflação acontece um desaquecimento exagerado nas atividades produtivas e isso causa desemprego. Caro leitor, lembre-se sempre disso, tentar conter a inflação a todo custo desemprega os cidadãos.
É por isso que a abordagem de Dilma é criticada, porque ela quer manter o nível alto de emprego, não pretende sacrificar os trabalhadores em nome da “estabilidade” da “macroeconomia” e da “confiança”. Atualmente, estamos com irrisórios 5% de desemprego, que condiz com pleno emprego. Nos últimos 12 anos, o salário-mínimo teve crescimento real acima dos 70%.
A atual presidente possui uma visão social-desenvolvimentista, que visa conciliar crescimento e desenvolvimento com o bem-estar da população. Afinal, de que adianta crescermos muito como a China, mas com os trabalhadores ganhando tão pouco?
A tão criticada gestão econômica dos últimos 12 anos tirou o Brasil do mapa da fome, segundo a ONU. Isto é uma notícia sensacional, comentada em todo o mundo, menos aqui. Parece que nossa imprensa não se importa com problemas tão simplórios quanto a fome.
E é neste ponto que insiro outro acontecimento ignorado. Entre os dias 1 a 7 de setembro ocorreu em todo o país, um Plebiscito de iniciativa popular o qual perguntou a população se esta desejava uma constituinte exclusiva do Sistema Político. A grande mídia mais uma vez manteve silêncio sepulcral em torno do assunto, mas, mesmo assim, conseguimos 7,7 milhões de votos favoráveis.
Aécio é contra reformar a política, prefere deixar do jeito que está, um sistema que desagrada quase 30% de todos os eleitores. Dilma, pelo contrário, inclusive votou sim neste plebiscito. No tocante a probidade, integridade dos políticos, Aécio é réu num processo onde sumiram R$ 4,3 bilhões da saúde de MG, Dilma tem trabalhado pela investigação e prisão dos envolvidos em mal feitos na Petrobras.
Perceberam estas distinções fundamentais entre os candidatos? Nosso atual sistema político precisa ser reformado a fim de incluir as demandas de vocês, pra que sintam que as coisas podem mudar, pra que sejam representados de fato. Com Dilma existe a possibilidade, Aécio nem mesmo a cogita.
E é por isso que encerro esta carta convidando você, eleitor desiludido, insatisfeito e indeciso a votar em Dilma. Mas sem passar um cheque em branco. Devemos impedir o candidato comprometido com o desemprego e o arrocho salarial de chegar ao poder, e em seguida fazer política nas ruas, nas redes sociais, em todo lugar. Lutemos nas ruas e nas urnas, continuemos com um governo que tenha certo compromisso popular e trabalhemos pra aprofundar a democracia.






