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A transparência do Judiciário é a imparcialidade do juiz

Por Antonio Escosteguy Castro e Marthius Sávio Cavalcante Lobato | Via Sul 21

O filósofo francês Jacques Rancière, em seu livro já traduzido para o português “O ódio à democracia”, (Boitempo editorial), afirma que quanto mais o governo for democrático maior a sua crise. Este é o paradoxo da democracia. Para ele “o que provoca a crise de governo democrático nada mais é que a intensidade da vida democrática”. Não por acaso que estamos vivendo uma “crise de governo” atualmente no Brasil.

Nos últimos 12 (doze) anos aprendemos na prática o que se estudava na teoria, o pleno exercício da democracia. A participação popular nas esferas institucionais de decisão foi concretizada.Houve a institucionalização das esferas públicas, permitindo toda e qualquer forma de investigação. E o paradoxo é a tentativa de privatizar as instituições públicas, tornando-as a extensão de um posicionamento egoístico.

Enfrentamos diuturnamente, em todas as esferas, a atuação do Ministério Público e do poder judiciário tendo como objetivo midiático dos procedimentos investigatórios: vazamentos de informações, antecipação de votos e comentários de casos que ainda sequer foram julgados.

Tudo sob o fundamento do exercício da democracia e da transparência. A transparência passou a ser sinônimo de democracia.

Mas, afinal, o que é transparência?

A mais recente “transparência democrática” foi o vazamento das informações da delação premiada do ex- diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. No dia seguinte ao seu depoimento ocorrido por meio de delação premiada, a revista Veja, que tem se destacado como fonte de denúncia da oposição de uma “transparência democrática”, vazou, seletivamente, a informação do depoimento ecitou vários nomes ligados ao governo e aos partidos da base aliada. Não houve nenhum procedimento do Judiciário para proteger o sigilo ferido, nem há noticia de investigação sobre a autoria do vazamento.

Semana passada, novo vazamento do depoimento do mesmo acusado. Desta vez, “com autorização judicial”.

O fundamento é que o processo não é sigiloso e a “transparência democrática” do judiciário autoriza a divulgação.

No caso da delação premiada, a Lei nº 12.850/2013, em seu artigo 6º, § 2º, afirma que o “acesso aos autos será restrito ao juiz, ao Ministério Público e ao delegado de polícia, como forma de garantir o êxito das investigações, assegurando-se ao defensor, no interesse do representado, amplo acesso aos elementos de prova que digam respeito ao exercício do direito de defesa, devidamente precedido de autorização judicial, ressalvados os referentes às diligências em andamento”. Como direito do colaborador/delator, afirma o artigo 5º, ter seu nome, qualificação, imagem e demais informações pessoais preservados e não ter sua identidade revelada pelos meios de comunicação, nem ser fotografado ou filmado, sem sua prévia autorização por escrito. Como sabemos a lei não é o ponto final da interpretação, é o seu início. Somente a partir do contexto da sua aplicação é que podemos interpretá-la. Neste sentido, quando a lei nº 12.850/2013, protege todas as informações prestadas através do sigilo do depoimento, tem como finalidade a proteção não só da pessoa que fez o acordo de delação premiada, como também dos que foram eventualmente citados. Isto porque, a delação coloca em risco uma rede de pessoas envolvidas que podem ser vítimas da própria delação. Logo, o vazamento do depoimento expõem os acusados, retirando-lhes o direito à vida. Como afirma Hannah Arendt, é a dignidade nua, a dignidade sem direitos. A idoneidade é ainda o bem maior a ser protegido. A exposição dos denunciados os criminaliza para a eternidade. Mas também para além da vida, está a pretensão punitiva do Estado. Pretensão esta que somente se tornará eficaz se todos os procedimentos forem devidamente observados, e ao final, a prova robusta com a sentença condenatória.

Portanto, se um procedimento de investigação está sendo realizado a partir da aplicação da Lei nº 12.850/13, da delação premiada, afirmar que o processo não está sob sigilo é, no mínimo, desconhecer a lei, para não utilizar uma expressão mais forte. O sigilo não pode ser definido sob a ótica meramente formal, apenas sobre o processo físico em que houve a delação, mas deve ser entendido sob a ótica material, sobre o que estiver vinculada à matéria da delação ao delator.

O vazamento da informação está colocando em risco o próprio procedimento investigatório, logo, a própria pretensão punitiva do Estado. Poderá gerar a sua nulidade e no mínimo, dificultar a obtenção das provas. É óbvio que quem está vazando as informações têm conhecimento deste fato. Então porque vaza as informações? Segundo o Juiz Sergio Moro, o faz para garantir a “transparência democrática” do Poder Judiciário.

Bom, agora podemos definir o que é transparência. Como sabemos, transparência é aquilo que se pode ver através de, que é evidente ou que se deixa transparecer. Para o caso concreto, é a contraposição ao sigilo das informações, o que não se oculta. Portanto, seguindo o raciocínio do Juiz Sergio Moro, o vazamento dos depoimentos ocorrerão para demonstrar que o Poder Judiciário, neste caso, não está ocultando informação, colocando-a sob sigilo, logo, é transparente. Mas, afinal, a delação premiada, por definição na lei, não é sigilosa? Sendo sigilosa, não é a mesma oculta? Pois bem, neste caso, a transparência democrática é exatamente garantir a ocultação dos depoimentos através do sigilo. O sigilo, como visto, garante tanto a eficácia da investigação como a proteção dos acusados, eis que não se pode garantir, antes das provas, que as acusações sejam verificas.

Mas, então, porque um juiz permite o vazamento da informação se a lei determina o seu sigilo?

Aqui chegamos na parte da privatização do público que mencionamos acima. Há interesses e concepções que estão acima do bem público, que é é a pretensão punitiva do Estado. Utiliza seu poder de magistrado, conquistado arduamente pela sociedade brasileira para termos a ampla democracia, para ver seu nome em standarts da imprensa.

Mas, também não é só. Este caso, vai além de um mero interesse individual. Está umbilicalmente vinculado às pré-concepções políticas daquele que vaza a informação tem do direito.

Constituição e política não podem ser debatidos isoladamente. Problemas constitucionais não podem ser considerados apenas como questões de Poder, como afirmava Ferdinand Lassalle (A essência da Constituição), muito menos problemas exclusivamente jurídicos, afastado de toda e qualquer ideologia política, como afirmava Kelsen em sua teoria pura.O direito não é neutro. São questões a um só tempo jurídicas e políticas.

Para Roberto Lyra Filho, a “neutralidade da interpretação acabacastrando o Direito e, se diz ‘eu não faço politica’, realmente já está fazendo o que nega, inclusive quando troca o Direito pela norma estatal e reduz a liberdade ao que sobra do banquete pantagruélico da dominação”[...] “O ‘neutro’ é um reacionário encabulado e não tem a coragem e a franqueza de confessar que é moço de recados da dominação que mascara”.

Fica evidente que o vazamento do depoimento tem cunho nitidamente eleitoral. Esses vazamentos colocam em risco a pretensão punitiva do Estado.O vazamento seletivo de nomes somente ligados ao governo, de partidos da base aliada e utilizado pela imprensa com nítidos fins eleitorais, expõe criminosamente a dignidade das pessoas citadas. A Súmula Vinculante nº 14 do STF, quando aprovada, o foi para proteger os atos do Estado Policial contra os cidadãos, por isso que afirma, textualmente que “É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa”. Negar o acesso aos depoimentos após terem sido entregues para a imprensa é violar a Constituição.

A transparência do Poder Judiciário somente ocorrerá quando magistratura atuar com imparcialidade. A quebra da imparcialidade acarreta a responsabilização administrativa e criminal gerando, consequentemente, o impedimento daquele que conduz o processo que, na sua essência, por lei, é sigiloso.

E apenas para não esquecermos, nenhuma literatura jurídica permite a subversão de uma ordem constitucional com a condenação sem provas e a imputação ao réu de provar sua inocência.

Este debate serve para refletirmos com Boaventura de Souza Santos que em um Estado Democrático de Direito, não se discute o acesso a justiça, mas sim, qual a justiça que queremos ter acesso.

***

Antonio Escosteguy Castro é Advogado, assessor sindical e diretor da AGETRA.

Marthius Sávio Cavalcante Lobato é Advogado, professor, Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UnB.

Dilma denuncia e dados públicos do TCE contra Aécio somem do site

Via Portal Vermelho

Relatórios técnicos sobre as contas do governo de Minas Gerais de 2006 a 2012, que então disponíveis para consulta no site do Tribunal de Contas de Minas Gerais, foram retirados do ar entre a noite de terça-feira e o início da tarde de ontem.

Os dados em questão foram apresentados pela presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição, durante debate na Band com o adversário Aécio Neves (PSDB), na última terça-feira (14). Dilma apontou que o candidato tucano não cumpriu o mínimo dos repasses na área de Saúde. Ela convidou os telespectadores que acompanhavam o debate a checar na página do TCE.

“No que se refere à Saúde pode-se entrar no site do TCE e lá vai estar claro que o governo de Minas foi obrigado a assinar um termo de ajustamento de gestão e que considerou-se que vocês desviaram em torno de R$ 7,6 bilhões”, denunciou Dilma. O valor corresponderia aos 12% do orçamento que deveria ter sido destinado.

Em nota, o tribunal disse que o site caiu por causa da quantidade de acessos na noite desta terça, mas não confirmou a exclusão de documentos das gestões tucanas.

Aécio usou lei delegada para contratar parentes no governo de Minas

Por Helena Sthephanowitz | Via RBA

Em 2006, o deputado estadual Rogério Correia (PT) apresentou requerimento de informações sobre nepotismo de parentes do então governador Aécio Neves. A lista tinha nove nomes

Em janeiro de 2007, Aécio Neves (PSDB), no início do seu segundo mandato para governador de Minas, utilizou-se de sua maioria na Assembleia Legislativa para obter uma carta branca para criar cargos comissionados e nomear pessoas (a chamada lei delegada). Nesse processo, o diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-MG) usou a legislação para nomear Fernando Quinto Rocha Tolentino, primo de Aécio, em Cláudio, local do polêmico aeroporto construído na fazenda que era do tio.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo a respeito do aeroporto de Cláudio, quem atendeu o repórter e estava com as chaves do local chama-se Fernando Tolentino. Mas essa não foi a primeira nomeação deste primo pelo ex-governador tucano.

Em 2006, o deputado estadual Rogério Correia (PT), da oposição ao governo tucano, apresentou um requerimento de informações sobre nepotismo de parentes do então governador Aécio Neves. A lista tinha nove nomes, inclusive Fernando Quinto Rocha Tolentino:

- Oswaldo Borges da Costa Filho (genro do padrasto do governador), presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico e Minas Gerais;

- Fernando Quinto Rocha Tolentino (primo), assessor do diretor-geral do Departamento de Estradas e Rodagem (DER/MG);

- Guilherme Horta (primo), assessor especial do governador;

- Tânia Guimarães Campos (prima), secretária de agenda do governador;

- Frederico Pacheco de Medeiros (primo), secretário-adjunto de estado de governo;

- Andréia Neves da Cunha (irmã), diretora-presidente do Serviço de Assistência Social de Minas Gerais (Servas);

- Ana Guimarães Campos (prima), servidora do Servas;

- Júnia Guimarães Campos (prima), servidora do Servas;

-Tancredo Augusto Tolentino Neves (tio), diretor da área de apoio do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG).

Heliponto na “Versalhes” (veja documento abaixo)

Fernando Quinto Rocha Tolentino é dono do heliponto na Fazenda da Mata no município de Cláudio, segundo documento da Agência Nacional de Aviação Civil (abaixo). Essa é a fazenda que Aécio disse em uma entrevista ser “sua Versalhes” (palácio suntuoso do rei Luís XIV, da França), um dos lugares onde gosta de passar suas folgas.

Desta vez, pelo menos, o heliponto está registrado na Anac como privado, diferente do aeroporto na mesma cidade construído com dinheiro público. Tem pavimento com capacidade para receber um helicóptero com peso de cinco toneladas, incluindo a carga. Comporta um aparelho bem maior do que o Robinson R22 da família do senador Zezé Perrella (PDT-MG) apreendido no Espírito Santo com meia tonelada de cocaína.

Chique essa “Versalhes” do Aécio, não acham? Quando vai de helicóptero desce direto na fazenda da família. Quando vai de jatinho, não precisa nem descer no aeroporto regional de Divinópolis, a menos de 40 minutos de carro. Desce no aeroporto construído a seis quilômetros de distância da fazenda com dinheiro público de Minas.

Armínio Fraga, os juros e algumas perguntas

Armínio Fraga e George Soros

Por Rennan Martins | Brasília 15/10/2014

Armínio Fraga – virtual ministro da fazenda de Aécio – pertence a nata do capitalismo financeiro desregulado. O mesmo modelo responsável por criar a segunda maior crise do capitalismo da história, a de 2008.

Fraga, como se sabe, foi presidente do Banco Central de FHC, o intelectual da servidão. Antes, foi também braço direito do especulador mor e apelidado de “destruidor de países”, George Soros.

Os tucanos têm falado muito sobre política econômica, inflação e da necessidade de fazer voltar a crescer a nossa economia, que dá sinais de esgotamento de um ciclo baseado na expansão do crédito e do consumo interno.

É necessário esclarecer, botar os pingos nos i’s. O eleitorado precisa ter ciência de que a despeito do tucanato falar tanto em crescimento, o que propõem é o velho “choque de gestão”, de caráter claramente recessivo.

A proposta de Aécio para a economia prevê a retração dos bancos públicos, cortes fiscais e elevação severa das taxas de juros. Armínio, que quando a frente do BACEN conseguira elevar a SELIC a emblemáticos 45%, julga que o “mercado” aloca de forma mais eficiente os recursos.

Leviano, fala que os bancos públicos são capturados por “interesses políticos” e devem, por essa razão, ser reduzidos a não muita coisa. Gostaria que ele explicasse como o BNDES, terceiro maior banco do mundo, consegue uma inadimplência de irrisórios 0,07%, já que é tão ineficiente.

A proposta de ajuste – que já tem sido alardeada pela imprensa como inevitável – é um balde de água fria na economia real. Com juros altos e retração do crédito público, o capital é alocado nas atividades rentistas. O desemprego se alastra, o PIB estagna ou retrai, e a dívida pública cresce.

O crescimento do montante da dívida causado pela subida demasiada dos juros imobiliza o Estado, que se vê obrigado a cortar outras despesas a fim de saciar os bancos. Advinha de que setores costumam retirar os recursos? Isso mesmo, da saúde, educação e da assistência social.

Apesar de a realidade insistir em negar a tese do Consenso de Washington, capitaneada no Brasil pelo PSDB, o que se vê é uma obstinação em torno da proposta.

Peço, por gentileza, ao senhor Armínio que explique. Se as reformas liberalizantes promovem o ambiente propício para o “eficiente” investimento privado, porque na Europa isso não está ocorrendo? Porque vemos o Financial Times – porta-voz do setor financeiro – implorar por afrouxamento quantitativo no velho continente?

Se são as reformas liberalizantes que nos botarão no rumo do crescimento econômico novamente, porque a China – um país de forte controle estatal sobre os investimentos – é o país que mais cresce há anos?

Afinal, Fraga, a que crescimento você se refere, ao da economia brasileira ou ao dos rendimentos do capital financeiro internacional?

A “meritocracia” do garotão de praia Aécio Neves

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

Eu sei que me queixo demais do debate, que deveria não ser uma derrota, mas um massacre da candidatura Aécio Neves.

Porque as coisas, ontem poderiam ter sido colocadas em seus devidos lugares com uma simples pergunta de Dilma Rousseff a Aécio Neves:

Candidato Aécio. O senhor falou diversas vezes em meritocracia. Isso quer dizer que os cargos públicos devem ser ocupado por mérito e aliás nunca se fez tanto concurso público no Brasil. Mas, como o senhor repete isso o tempo todo, eu queria fazer uma pergunta. O senhor podia me informar se foi por mérito que o então presidente Sarney nomeou o senhor aos 25 anos diretor da Caixa Econômica Federal. Era por mérito que o senhor foi assessor da Câmara desde quando vivia naquela vida de garotão no Rio de Janeiro?

Podia gritar, chiar, sapatear que sua hipocrisia ficaria evidente.

Porque se não for assim, se depender da imprensa leniente com tudo o que diz respeito ao tucano, as pessoas não a verão.

Porque os jornais não vão apurar e se limitam a publicar que Aécio “desmente” a informação de que foi contratado pela Câmara em 1977, como consta do site da instituição. Diz que não foi aos 17 anos, mas aos 19…

“O candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, admitiu em nota que foi contratado para trabalhar na Câmara dos Deputados, que fica em Brasília, mesmo enquanto ainda morava no Rio de Janeiro, em 1980. Na época, tinha 19 anos.”, diz a Folha.

E tinha mesmo e estava, confessadamente, vivendo a vida boa de garotão praieiro no Rio, da qual ele costuma dizer que Tancredo Neves o fez abandonar para entrar na política.

Ajudo os coleguinhas jornalistas que não fizeram o óbvio, de ir na Câmara buscar os dados.

Eu fui.

Publico aí em cima os atos de nomeação e dispensa do tucano “meritocrata”, que saiu da Câmara no dia seguinte a Tancredo Neves assumir o governo do Estado, trocando um avô (Aécio Cunha) por outro.

Agora, os repórteres podiam me dar uma folga e ir ao Cade, onde Aécinho teve uma “boca” antes da Câmara e ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais, onde também entrou pela janela.

A meritocracia de Aécio é uma piada.

Em região mais pobre do Brasil, saúde é crítica isolada a gestões do PT

Por João Fellet | Via Uol Eleições

Da esq. para a dir, Francisco Nascimento, o filho Fransoaldo e a mulher, Erismar, no sertão do Piauí

“Esses aí tinham vida dura”, diz o agricultor Francisco dos Santos Nascimento ao apontar para quatro jumentos que repousam na sombra de um cumaru, uma das raras árvores frondosas do Semiárido.

Ali, no povoado Contente, sertão do Piauí, o equídeo costumava passar os dias com cangalhas no lombo carregadas de água ou lenha.

Então a luz elétrica chegou às 47 famílias do povoado. Depois, as cisternas, as motos e os ônibus escolares. A vida em Contente mudou, e os jumentos perderam funções. “Hoje até eles estão mais gordos”.

Como tantas outras histórias da comunidade, a trajetória dos jumentos de Contente tem um antes e um depois. E como nas demais narrativas, a linha divisória costuma ser a chegada do PT à Presidência, em 2003.

Não por acaso, foi no Piauí que Dilma Rousseff obteve seu melhor resultado no primeiro turno: 70,6% dos votos, ante 14% de Marina Silva e 13,8% de Aécio Neves.

No Semiárido, que se estende por nove Estados e onde cerca de 40% da população ainda vive no campo, sua vantagem foi ainda mais folgada. No município de Paulistana, que abriga o povoado Contente, Dilma foi escolhida por 80% dos 11,5 mil eleitores, seguida por Marina, com 13%, e Aécio, com 5%.

“Se falar mal de Dilma aqui, periga apanhar”, brinca a mulher de Francisco, Erismar Celestina dos Santos, de 34 anos. E se Aécio vencer a eleição?

“Não quero nem pensar, me dói o estômago.”

‘Ajuda sagrada’

Em três dias de viagem pelos “interiores”, os povoados rurais da região, a BBC Brasil não topou com qualquer sinal da campanha de Aécio e encontrou um único pôster de Marina.

Já adesivos de apoio a Dilma e ao também petista Wellington Dias, reeleito ao governo piauiense no primeiro turno, eram avistados a cada instante nas portas das casas.

Dilma deve grande parte de sua força ali a seu laço com Luiz Inácio Lula da Silva, cujo governo é tido como um marco na história da região. Nos povoados, cada um tem na ponta da língua os programas federais lançados pelo ex-presidente.

Maior marca de sua gestão, o Bolsa Família costuma ser o primeiro da lista. “É uma ajuda sagrada”, define Erismar, mãe de um filho e que recebe R$ 184 ao mês pelo programa.

A iniciativa, no entanto, é considerada apenas um ponto de partida para várias outras melhorias ocorridas nos anos seguintes.

As mudanças, conta a líder comunitária Jucélia Xavier, se intensificaram a partir de 2007, quando o governo federal reconheceu Contente e várias comunidades vizinhas como áreas remanescentes de quilombos.

Há muito, os mais velhos contavam histórias de antepassados vindos da África, e a comunidade ainda guarda os utensílios que embasaram o reconhecimento: objetos pontiagudos usados para mutilar escravos e fechaduras que, segundo se conta, pertenciam a uma senzala.

Segundo o Ministério da Cultura, há hoje 2,5 mil comunidades quilombolas no país, onde moram 130 mil famílias.

Como comunidades tradicionais e beneficiários do Bolsa Família passaram nos anos Lula a ter prioridade na aplicação de várias políticas públicas, logo os programas começaram a chegar.

Em pouco tempo, o Luz para Todos ligaria o povoado à rede elétrica. Hoje quase todas as casas de Contente têm TV, geladeira e máquina de lavar.

Cada residência também ganhou uma cisterna. Com o equipamento, que armazena a água das chuvas, as famílias garantem seu abastecimento até a estação chuvosa seguinte.

Nas secas mais severas, os reservatórios são reabastecidos pelo Exército, sem a intermediação de políticos locais. A prática golpeou a chamada indústria da seca, pela qual autoridades trocavam favores por votos.

Antes das cisternas, lembra Jucélia, todas as madrugadas as mulheres deixavam suas casas em carroças para buscar água com cabaças. “Tinha de cavar na cacimba com picareta e levar na cabeça”.

Com Lula, contam os moradores, também surgiram os primeiros programas de proteção a agricultores. O mais citado é o Seguro Safra, que em anos de colheita fraca, como este, efetua cinco pagamentos mensais às famílias. Em 2014, eles dizem que as parcelas foram de R$ 170.

Segundo os moradores, Dilma não só manteve os programas de Lula como lançou outras três iniciativas que beneficiaram a comunidade.

Pelo Brasil Sem Miséria, extensão do Bolsa Família, cada família recebeu neste ano a fundo perdido R$ 2.400 para investir em atividades rurais. A maioria das famílias optou por construir nos fundos das casas abrigos para rebanhos ou ampliar suas criações de porcos, ovelhas ou galinhas.

E para garantir a oferta permanente de água para os animais e pequenas lavouras, estão sendo construídas na comunidade 16 cisternas-calçadões. Nesse sistema, grandes placas de cimento canalizam a água para os reservatórios, capazes de armazenar 52 mil litros, três vezes mais que as cisternas comuns.

Segundo Jucélia, antes dessas ações, o agricultor “ia trabalhar nas roças dos outros para conseguir R$ 15 por dia para comprar o leite pro filho”.

“Era o tempo da proteção de Deus e do braço pra cuidar da gente”, lembra Maria de Jesus Nascimento, 76 anos e mãe de 11 filhos. “Era uma escravidão.”

Agora, como os repasses do governo garantem as compras básicas do mês, os agricultores passaram a investir seu tempo nas roças próprias.

Também foi no governo Dilma que as crianças do povoado passaram a ser buscadas na porta de casa por ônibus escolares amarelos, como os usados nos Estados Unidos.

O vaivém dos veículos, entregues às prefeituras pelo programa federal Caminho da Escola, chega a causar pequenos congestionamentos nas cidades da região.

O que não mudou

Apesar dos avanços, moradores dizem que uma das principais vitrines eleitorais de Dilma, o Mais Médicos, não teve qualquer impacto ali. Alguns ouviram falar da chegada de médicos cubanos a municípios próximos, mas não notaram melhorias. Eles dizem que há imensa dificuldade para agendar consultas e exames.

A crítica ao sistema de saúde é o único ponto a unir eleitores de Dilma e os raros apoiadores de Aécio na região, em geral jovens assalariados das áreas urbanas.

Moradora de Paulistana, a garçonete Valdene de Souza, 27 anos, afirma que uma falha médica ameaça deixar sua filha de três anos com sequelas para o resto da vida.

Há três meses, ela levou a menina ao hospital para examinar uma fratura no braço. O médico, diz Valdene, avaliou que não era necessário engessá-lo. Passado um mês, porém, o cotovelo da menina entornou.

Ao levá-la ao hospital regional de Picos, a 120 quilômetros dali, Valdene ouviu que a menina deveria ter sido operada e que o dano talvez não pudesse mais ser revertido.

Ela diz que, em vez de financiar obras de calçamento e a construção de quadras esportivas na cidade, o governo federal deveria ter priorizado os gastos com saúde. “Prefiro andar em buraco a ver minha filha com braço torto pro resto da vida”.

Valdene afirma que votará em Aécio em protesto contra o sistema médico e contra o Bolsa Família, que considera injusto.

Ela diz que, entre os moradores de Paulistana, há “pessoas muito bem de vida” na lista de beneficiários do programa. “Tenho que trabalhar para sobreviver e não quero que no fim do mês 30% do meu salário seja descontado (em impostos) para sustentar os outros”.

Já o governo afirma que fraudes no programa são raríssimas.

Em Contente, a agricultora Maria Aparecida Nascimento Nunes, 40 anos, foi na última quarta-feira ao posto de saúde mais próximo para tratar uma dor na coluna e uma inflamação nos olhos.

Ela esperou pelo único dia da semana em que há atendimento médico no posto – nos outros dias, só há enfermeiros. Mas o médico faltara, e ela perdeu viagem.

“A saúde aqui é péssima”, ela desafaba.

A avaliação, porém, não borra a admiração que Aparecida nutre por Lula e Dilma por causa das ações de seus governos. “Quando eu vejo ela na televisão, eu só me contento quando digo ‘benção, mamãe Dilma’.”

Além de melhorar a vida dos moradores, ela diz que os programas das gestões petistas conscientizaram os moradores do sertão sobre seus direitos. “A gente estava tudo dormindo com o olho aberto. Hoje temos respeito.”

Dilma jantou Aécio com palitinhos no debate da Band

Por Renato Rovai | Via Blog do Rovai

O debate da Band costuma ser o que decide a eleição. Em 2006, Geraldo Alckmin parecia ter ganho o debate de Lula. Este blogueiro foi contra a corrente e disse que achava o contrário. Em 2010, Dilma foi pra cima de Serra quando a sua vantagem diminuía em relação a ele e estava em 4%. A carta do Paulo Preto lhe foi tascada na testa. E Serra tremeu. Hoje, Dilma jantou Aécio. Aeroporto de Cláudio, agressão a mulheres, condenação por não investir o necessário na saúde, entre outras coisas, fizeram o tucano ficar completamente fora do prumo.

O que estava em jogo neste debate da Band não era a massa de eleitores, mas as suas militâncias e o percurso da campanha. Ou seja, se a linha estava correta para os 10 dias que se seguem. Dilma venceu fácil esse desafio.

Aécio fez um discurso do “pois bem telespectador” e do “o Brasil quer mudança”. Dilma foi pra cima na desconstrução da imagem do candidato e na demonstração de que ele não tem o que apresentar para implementar se sair vitorioso.

No primeiro bloco, Aécio empatou com Dilma. Na hora de falar sozinha, sem confronto, Dilma não é tão boa.

Mas Na hora do pau a pau, do confronto cara a cara, deu pena de Aécio. Parecia a disputa entre a mulher que viveu uma vida dura e sabia sair das dificuldades contra o mauricinho do Leblon. O garotão que se acha bom porque sabe mentir na hora certa.

Quando Dilma lhe perguntou sobre a Lei Maria da Penha, Dilma falava da reportagem que Juca Kfouri publicou. Você pode ler aqui. Na época, estupefato, este blogueiro não deu bola para a defesa que um colega de blogosfera fez de Aécio e foi entrevistar Juca. Porque outros amigos haviam lhe confirmado a mesma coisa, que de fato havia tido agressão na festa.

Quando Dilma lhe acusou de não cumprir o orçamento da saúde, Aécio tentou desmentir. Mas o processo continua em aberto. E o candidato do PSDB tentou tirar essa matéria de Fórum do ar via Google, mas não conseguiu.

Foi um massacre. Dilma jantou Aécio com palitinhos. Não precisou nem de garfo e nem de facas. E mais do que isso, lhe enfiou um excelente apelido Aécio Fabulação. No universo de Aécio, ele fez o melhor governo da história de Minas. Mas perdeu a eleição por lá. A máscara de Aécio caiu no debate da Band. E esse debate é o decisivo. Se Dilma abrir vantagem agora, o debate da Globo conta muito pouco e passa a não valer muita coisa.

Aécio foi completamente derrotado. Dilma fez o que precisava. E animou a militância de esquerda que é a que está ao seu lado na sua eleição.