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Eleições: o desmanche dos candidatos de laboratório

Por FC Leite Filho | Via Café na Política

As eleições são democráticas não propriamente pelo que produzem, mas pelo que revelam. Examinemos o caso deste político mineiro ungido como rapaz maravilha e defensor da moralidade e da ética, e o da líder ecológica paladina da nova política. Apenas alguns dias de debates na TV, de horário eleitoral e de interação nas redes sociais foram suficientes para que eles mesmos se desnudassem diante de um eleitorado estarrecido e indignado.

O primeiro admitiu ter sido funcionário fantasma desde quando mal tinha saído da adolescência e, já como governador de seu Estado, ter construído aeroportos nas terras de parentes, onde costuma passar férias. A segunda, que costuma alardear sua origem sofrida no Acre, não conseguiu explicar porque não declarou ao Imposto de Renda os financiamentos internacionais que recebeu para as suas ONGs e sua conta bancária, nem que tipo de neopolítica é essa que a levou a fazer acordos com o que há de mais retrógrado na política brasileira.

E dizer que nossos filhos costumam surfar nessas ondas midiáticas. Pequena dose de reflexão é suficiente para entender a gênese desses fenômenos que surgem a cada eleição presidencial. Beneficiados com gordos espaços nos meios de comunicação, sobretudo de TV, esses tipos se infiltram no imaginário popular como portadores de poderes mágicos capazes de acabar com a corrupção, a criminalidade e a inflação, males crônicos que todos abominamos.

Ninguém até há pouco podia questioná-los, porque todas as TVs, rádios e jornais, proclamam em uníssono suas qualidades, enquanto desmontam eventuais adversários com doses cavalares de denúncias de corrupção, mal feitos e até de falta de honradez pessoal. Como esses adversários jamais conseguiriam espaços para projetar-se defender-se da ubíqua mídia, eles logo tendem a cair na descrença e na má vontade da grande maioria das pessoas. Já os elegidos pelos deuses se arvoram em líderes impolutos, com assento garantido nos primeiros lugares das pesquisas de opinião, outro aparato midiático de igual característica manipulatória.

Aécio Neves e Marina Silva tendiam a repetir com êxito o papel de seus antecessores na nossa história política. Antigamente, o monopólio da informação exercido pelos grandes veículos conseguia derrubar presidentes em pleno exercício do mandato constitucional (casos de Getúlio, em 1954, e de Jango, em 1964), pelo golpe armado, ou ou por manobras legais e eleitorais, impingindo a bel prazer seus candidatos. Getúlio foi levado ao suicídio, no último ano de governo, em 1954, devido a uma campanha de desmoralização liderada pelo jornalista Carlos Lacerda, tendo como sustentáculo as grandes cadeias de comunicação da época – Diários Associados, O Globo e O Estado de S. Paulo. O mesmo Lacerda, os mesmos veículos de comunicação e a mesma mensagem reacionária depuseram João Goulart, no meio do governo, e instauraram uma ditadura cívico-militar de 22 anos.

Mais recentemente, tivemos os golpes eleitorais que propulsionaram Fernando Collor (1989) e Fernando Henrique Cardoso, o FHC, este último ganhando duas vezes a presidência de virada a eleição de primeiro turno, em 1994 e 1998. Na rabeira ficavam os candidatos autênticos de movimentos populares e nacionalistas Leonel Brizola e Luís Inácio Lula da Silva.

Nesta eleição de 2014, contudo, as novas ferramentas de comunicação tiveram um papel mais decisivo. Elas propiciaram o revigoramento do horário eleitoral em cadeia nacional de rádio e televisão, com os partidos políticos recebendo espaço proporcional às suas forças no Congresso, e o desenvolvimento das redes sociais na internet. Dessa forma, os candidatos não bafejados pela mídia tiveram algum espaço de comunicação para, não só apresentar seus programas alternativos de governo, como mostrar a face verdadeira de seus adversários. E também forçaram as grandes redes de TV, pelo receio de perder audiência, a fazer debates mais equitativos.

Tudo dentro das regras da transparência, com o saudável confronto de ideias, currículos e vida pregressa, com cada lado tendo igual espaço e tempo para defender-se. A mídia hegemônica, por ter perdido seu poder absoluto de monopólio da verdade e da opinião, tenta agora rotular de “baixaria” e “jogo de vale-tudo” a saudável prática, quando viu de repente desmontadas suas manobras de desinformação e de manipulação, no seu afã de continuar mandando e ditando regras para os três poderes da República.

Se a verdade eleitoral prevalecer e não for vítima da reedição de um escândalo Proconsult, como ocorreu em 1982, poderemos ter as primeiras eleições verdadeiramente democráticas no Brasil, desde 1950. Mas o perigo da fraude da urna eletrônica ainda persiste, sobretudo porque conhecemos a história de eleições roubadas com o maior descaramento no México e mesmo nos Estados Unidos. De qualquer maneira, valeu a experiência de fazer prevalecer a verdade sobre os novos fariseus.

Petrobras: empresa estatal é menos corrupta do que empresa privada

Por Regis Mesquita | Via Psicologia Racional

Um diretor da Petrobras montou um esquema de corrupção com o apoio de partidos políticos.

Algumas pessoas começaram a dizer que deve-se privatizar a empresa para diminuir a corrupção.

Será que é verdade esta afirmação?

Não, não é verdade.

Reproduzo abaixo a opinião de um funcionário da Petrobras.

Antes de passar no concurso público e trabalhar na estatal, ele trabalhou muitos anos em empresas privadas do setor químico.

1 – A Petrobras não corrompe fiscais de trabalho, de impostos, de meio ambiente, de prefeituras, dos governos estaduais, etc.

Diz ele que nas empresas privadas que trabalhou era rotina dar propina para fiscais corruptos.

Esta informação não é novidade para ninguém. Basta ver quantas vezes as pessoas oferecem propinas quando são paradas por guardas rodoviários.

O mesmo acontece em grande parte das empresas privadas: oferecem dinheiro para agentes públicos.

Segundo esta pessoa, a Petrobras não oferece NENHUMA propina para estas pessoas.

2 – A Petrobras não adultera produtos para aumentar seus lucros.

Diz esta pessoa que era muito comum nas empresas em que ele trabalhou usarem produtos de baixa qualidade ou falsificações piores para aumentar a lucratividade.

Os executivos destas empresas ganham bônus para aumentar a lucratividade e não existam em usar recursos desonestos.

É uma grande cadeia de desonestidade. O produto de baixa qualidade ou falsificado geralmente não pode ser comprado com nota fiscal. Ou usa-se notas ficais erradas, falsificadas, etc.

Laudos de conformidade e de qualidade também devem ser falsificados.

O informante descreveu várias cadeias de ilegalidades. Ou seja, uma ilegalidade gera outra ilegalidade, que gera outra ilegalidade. O conjunto destas ilegalidades contamina dezenas de empresas.

Cada uma destas empresas constituem suas próprias redes de ilegalidade.

Imagine a seguinte situação: a empresa que mistura solvente na gasolina não pode deixar rastro da sua compra. Portanto, o vendedor do solvente também tem que esconder que vendeu a mercadoria. Os contadores tem que administrar o caixa dois da bandidagem. E assim por diante…

O que você acha que estas pessoas fazem quando chega a fiscalização, o ministério público ou a justiça?

Tentam corromper e/ou procuram políticos para ajuda-las.

Empresas privadas são as primeiras a procurar políticos para ajudá-las em sua IMPUNIDADE.

3 – A Petrobras não sonega impostos.

Quem quer vender ou comprar da Petrobras sabe que será tudo dentro a legislação fiscal.

Uma empresa química que produz plástico a partir de uma matéria prima da Petrobras não tem como esconder a origem e a quantidade da matéria prima comprada. Ela terá muita dificuldade para esconder parte da produção e vender a diferença no mercado informal da criminalidade fiscal.

Observe: é uma sequência de empresas que usam o produto uma da outra, e todas possuem lastro nas vendas da Petrobras.

Explico: se o empresário comprou uma quantidade de produto que dá para fazer 5 milhões de quilos de plástico, ele não pode declarar que fez e vendeu apenas 1 milhão de quilos. Fica na “cara” que tem algo muito errado.

4 – A Petrobras não interfere na feitura das leis e nem nas interpretações que os juízes fazem delas.

Imagina que você é um empresário que desvia o dinheiro do INSS dos seus funcionários.

O congresso vai votar uma lei que prevê prisão imediata para este tipo de crime, sem criar nenhum critério de exclusão.

O que você faria?

a) Mudaria sua conduta e seria uma pessoa honesta.

b) Procuraria um político e ofereceria uma grana para ele tornar a lei completamente INOPERANTE.

A história do Brasil mostra que é mais comum a opção “B”.

Empresários e executivos tentam manipular as leis para que haja tanta confusão e “desculpas” na sua aplicação que na prática ela não funciona. Estes sujeitos podem ficar tranquilos com o desvio dos recursos do INSS.

Se, por um acaso, a justiça entrar em ação, sempre haverá a possibilidade de influenciar a decisão da justiça de modo honesto ou desonesto.

A verdade é que todos sabem que ter muito dinheiro “faz milagres”.

Naturalmente , nem todo agente público é corrupto. Existem pessoas muito honestas em todas as áreas.

Mas, com certeza, é uma tentação o dinheiro fácil e volumoso.

Em casos piores, a empresa privada usa de meios violentos para influenciar aplicação das leis.

A ação trambiqueira da maioria das empresas privadas não é novidade para ninguém.

O QUE TODOS SE ESQUECEM É DO LADO BOM DAS EMPRESAS ESTATAIS.

Esquecem que:

A Petrobras não corrompe fiscais de trabalho, de impostos, de meio ambiente, de prefeituras, dos governos estaduais, etc.

A Petrobras não adultera produtos para aumentar seus lucros.

A Petrobras não sonega impostos.

A Petrobras não interfere na feitura das leis e nem nas interpretações que os juízes fazem delas.

Este lado positivo deve ser valorizado.

O que é negativo deve ser divulgado, punir os culpados exemplarmente.

Mas, o lado positivo deve ser muito valorizado.

Achei sensata esta explicação, por isto compartilho com vocês.

Caso queiram comentar educadamente, será bem vindo.

Me interesso por pessoas que tenham real experiência dentro das empresas estatais.

PS: existem empresas privadas 100% corretas. Infelizmente é a minoria. Estas empresas 100% corretas são exemplos que deveriam ser seguidos.

Datafolha: Maioria acredita que Dilma é candidata dos pobres e Aécio, dos ricos

Via Revista Fórum

Pesquisa mostrou que 57% dos entrevistados afirmam que, dos dois candidatos, Dilma Rousseff (PT) é quem defenderá os mais pobres. Quando perguntados sobre quem defenderá os interesses da parcela mais rica da população, 56% citaram Aécio Neves (PSDB).

De acordo com a pesquisa Datafolha divulgada na segunda-feira (20), 57% dos entrevistados dizem que a presidenta e candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) é quem defenderá os mais pobres, contra 26% que apontaram o tucano Aécio Neves. Cerca de 3% afirmam que os dois defenderão os mais pobres e 8% disseram que nenhum dos dois. Os indecisos somam 6%.

Quando a pergunta é sobre qual dos dois defenderá os mais ricos, 56% acreditam que será o candidato Aécio Neves, contra 17% que citaram a petista. Outros 7% disseram que os dois defenderão os mais ricos e 7% que nenhum dos dois. Os indecisos chegam a 12%.

Quanto às intenções de voto, o Datafolha mostrou que Dilma Rousseff tem 52% dos votos válidos e Aécio Neves possui 48%.

A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal Folha de S.Paulo. O Datafolha ouviu 4.389 eleitores no dia 20 de outubro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-01140/2014.

“Aécio planta inflação pra colher juros”, diz Dilma em ato na PUC

Via Vermelho

Com o auditório do Teatro Tuca, na PUC de São Paulo, completamente lotado e com uma multidão do lado de fora, apesar da garoa e do frio, a presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição, recebeu o apoio de artistas, intelectuais, estudantes, de ONGs e entidades ligadas aos movimentos negro e LGBT de São Paulo, além de políticos de partidos aliados.

“Este ato coroa um momento especial de uma campanha que teve momentos extremamente tensos e diferenciados. Mas agora ao se encaminhar para a fase final ela colocou mais clareza no cenário [eleitoral]. O cenário estava um pouco cheio de nuvens. Mas agora é muito claro o que está em questão”, afirmou a presidenta Dilma, enfatizando que existem dois projetos distintos para o Brasil neste segundo turno das eleições.

Entre os artistas presentes estavam o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina, o escritor e jornalista Fernando Morais, o escritor Raduam Nassar e a compositora e deputada estadual reeleita Leci Brandão (PCdoB-SP). Um vídeo com o depoimento do cantor e compositor Chico Buarque foi exibido durante o evento.

“Não podemos deixar que volte o tipo de política que olha para o país de forma irresponsável. De hoje até dia 26, vamos virar cada voto, e vamos ganhar essas eleições nas urnas”, destacou Dilma, afirmando que o projeto do tucano Aécio Neves (PSDB) “planta inflação pra colher juros” e põe em risco a geração de emprego.

Empregabilidade

“Eles inventaram o termo ‘empregabilidade’, como se tivesse gente mais ‘empregável’. Em 2002, eram 11,5 milhões de desempregados. O Brasil só perdia para a Índia em número de desempregados no mundo”, enfatizou.

O ex-presidente Lula também participou do evento e afirmou que Dilma foi agredida mais que ele quando disputou a Presidência da República. “Esse rapaz [Aécio Neves] deve ter um problema que eu não vou explicar qual é, porque eu não sei. Eu jamais teria a coragem de chamar, não é de uma mulher, não, mas na frente de um homem que ocupasse a Presidência, jamais teria petulância de chamá-la de leviana ou mentirosa”, argumentou Lula.

Ele disse que jamais poderia imaginar que um candidato pudesse se referir à presidenta da República com palavras tão agressivas como fez Aécio Neves nos debates. “Não é possível que esse rapaz não tenha tido educação e berço. Ele foi incapaz de respeitar uma senhora, uma mãe, uma avó”, asseverou Lula.

O ex-presidente também questionou se Aécio teria se comportado da mesma forma, se estivesse em disputa com um homem, ao invés de uma mulher. “Tem gente que só sabe ser durão contra mulher. Nós nunca dirigimos a eles metade das grosserias que eles usam”, afirmou. E completou: “A resposta que a gente vai dar a eles é a vitória de Dilma”.

Ódio tucano

Dilma também falou do tom agressivo da campanha e atribuiu essa situação à tentativa sistemática dos tucanos de pregarem inverdades a respeito de seu governo. “Nós enfrentamos uma guerra da comunicação contra aquilo que é a verdade dos fatos”, pontuou a presidenta.

Ela também lembrou que a gestão dos tucanos é responsável pelas crises de abastecimento de energia e, agora, de água. “Aqui em São Paulo mais uma vez se mostram as consequências da visão que é contra o planejamento, o investimento planejado e que não tem responsabilidade pública com o abastecimento da população. A energia elétrica é um caso e a água é outro”, destacou Dilma, que frisou que tanto o apagão de energia como a crise hídrica em São Paulo se devem à “incapacidade de gestão” do PSDB.

Amplo apoio

Representante da luta pelas minorias no Congresso Nacional, o deputado do Psol Jean Wyllys reafirmou seu apoio à candidata. Ele disse que Dilma representa um melhor projeto por proporcionar avanços na sociedade brasileira, mantendo sempre o diálogo com as minorias, ao contrário do PSDB.

“Eu tenho memória e lembro que era o único que pegava ônibus e não tinha negros na minha faculdade. Hoje há a negros, há mulheres, há gente da periferia”, justificou Wyllys.

O secretário nacional da Juventude do PT, Jefferson Lima, ressaltou que esse momento é importante para que haja a engajamento de cada militante. Para o secretário de juventude do Movimento Sem Terra (MST), Raul Amorim, o importante é investir no diálogo com os eleitores indecisos. “É momento de chegar no vizinho, no amigo ou naquele que está indeciso e conversar sobre o projeto que está em jogo neste país”, disse ele.

Participaram ainda do ato o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, o senador Eduardo Suplicy, o coordenador da campanha Miguel Rossetto, o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, o ex-ministro Luis Carlos Bresser Pereira, o jurista Celso Antonio Bandeira de Mello, o sociólogo Chico de Oliveira, Bruna Caran, Sérgio Mamberti, José Celso Martinez, Gilberto Maringoni, o presidente estadual do PCdoB e deputado federal eleito Orlando Silva e a representante da UJS Carina Vitral.

Não é só o Brasil

Por Marcelo Zero

As eleições no Brasil terão impacto decisivo nos rumos do país. Afinal, não se trata de uma eleição qualquer. Estão em disputa dois modelos muito distintos.

De um lado, o já velho e fracassado modelo neoliberal, ou mais apropriadamente paleoliberal, que tende a concentrar renda, a erodir as base do nosso incipiente Estado do Bem Estar, a privatizar patrimônio público e a privilegiar os interesses do grande capital, particularmente do capital financeiro desregulado, em detrimento da população. Foi assim no Brasil do PSDB e é assim em muitos países do mundo. Piketty e outros já o demostraram.

De outro lado, o modelo assentado na dinamização do mercado interno de massa, na eliminação da pobreza extrema, na redução das desigualdades e na ampliação das oportunidades, que vem mostrando notável êxito e protegendo a população dos efeitos da pior crise internacional desde 1929.

A depender do modelo escolhido, a situação interna do país sofrerá mudanças profundas. Se voltarmos ao paleoliberalismo e às medidas impopulares, haverá, com toda certeza, regressão social e a fragilização econômica que marcou o Brasil na década de 1990.

Mas as consequências não ficarão restritas ao Brasil. Haverá também consequências para a geopolítica regional e internacional.

Aécio já se comprometeu com a volta da política externa de alinhamento dos interesses do Brasil às potências tradicionais, os EUA, em particular. Seu plano regressivo inclui, entre outras diretrizes, a extinção da união aduaneira do Mercosul, a célere celebração de assimétricos acordos de livre comércio com as grandes potencia econômicas tradicionais e a revisão da cooperação Sul-Sul.

No plano regional, a decisão de extinguir a união aduaneira do Mercosul implica, na realidade, a extinção do bloco. O Mercosul se transformaria, como sempre quiseram os conservadores, em mera área de livre comércio, sem nenhum elemento estratégico e político. Com efeito, a redução do bloco a simples área de livre comércio inviabilizaria não apenas a negociação conjunta de acordos e a coordenação de políticas macroeconômicas, mas também a própria continuidade das instituições supranacionais do Mercosul, como seu Parlamento, e a constituição de um mercado comum com livre circulação de trabalhadores. Todo o esforço, feito pelos governos do PT, de aprofundar a integração e constituir um Mercosul social seria jogado no lixo.

Entretanto, o golpe mortal no Mercosul, afetaria também a Unasul, a Celac e todo o processo de integração da América do Sul e da América Latina. Frise-se que o programa do PSDB sequer cita essas instituições. Sem o Mercosul, que pretende criar um verdadeiro mercado comum na região, esses processos perdem consistência estratégica e tendem a tornar-se meros foros de discussão. A Unasul, em particular, que criou um embrião de uma política de defesa conjunta para América do Sul, perderá sua razão de ser.

Na realidade, a extinção do Mercosul significa a renúncia do Brasil de exercer uma liderança estratégica em sua própria região, deixando esse papel para os EUA, como fora em nosso passado recente. Significa também, implicitamente, a retomada do projeto assimétrico da Alca. Uma Alca que talvez venha a ser constituída por acordos bilaterais atomizados. Os EUA já têm esses acordos com o México, o Chile, a Colômbia e outros países.

Se o Brasil, como quer Aécio, firmar um acordo desse tipo, a tendência é que toda a América Latina ceda também. Teremos então uma Alca bilateralizada, mas não menos danosa aos interesses do Brasil e da região. Com efeito, esses acordos bilaterais contêm as mesmas cláusulas relativas a propriedade intelectual, serviços, compras governamentais, proteção de investimentos estrangeiros, etc., que estavam em negociação na Alca e que inviabilizam qualquer projeto autônomo de desenvolvimento.

Se implementados com os EUA ou com a União Europeia, acordos assimétricos com tais cláusulas chutarão a escada do nosso desenvolvimento. Talvez seja por isso que os porta-vozes do sistema financeiro dos países amis desenvolvidos, como a The Economist, torçam tanto pela vitória do PSDB.

Mas as consequências não ficarão apenas no plano regional.

O Brasil investiu muito, nos últimos 12 anos, na cooperação Sul-Sul, na diversificação de suas parcerias estratégicas e na articulação dos interesses dos países em desenvolvimento em todos os foros internacionais. Os resultados foram muito positivos, no campo econômico e comercial. Nos governos do PSDB, acumulamos um déficit comercial de US$ 8,6 bilhões. No governos do PT, multiplicamos nossas exportações e amealhamos um superávit de US$ 315 bilhões, que foi de grande importância para reverter a vulnerabilidade externa da nossa economia.

Porém, os resultados maiores dessas diretrizes foram políticos e estratégicos. O Brasil é hoje um ator internacional de primeira linha, ouvido com respeito nos foros mundiais, e que contribui ativamente para a constituição de um mundo menos assimétrico e mais afinado com o multilateralismo. Hoje, o Brasil projeta, com assertividade e firmeza muito maiores, seus autênticos interesses no plano internacional.

Essa maior projeção dos interesses nacionais no exterior advém do abandono da subalternidade da política externa anterior e se expressa em várias ações muito significativas, como na recente estruturação de mecanismos financeiros alternativos no âmbito dos BRICS e na articulação dos interesses dos países em desenvolvimento na OMC, instituição antes dominada pelos interesses das nações mais industrializadas.

Dessa forma, a maior projeção dos interesses do Brasil no plano externo tem impacto significativo e positivo na própria geopolítica mundial.

Ora, a volta ao status quo ante proposta por Aécio, a volta da política externa frágil de um país fragilizado, terá também um impacto significativo, porém negativo, na geoestratégia mundial. Os BRICS teriam um parceiro menos afinado com a ideia de um mundo mais equilibrado e mais submetido aos caprichos unilaterais da grande potência mundial. Da mesma forma, a OMC e outros foros mundiais perderiam um parceiro firme em sintonia com a luta por um mundo menos assimétrico e mais afeto ao multilateralismo. A ONU não teria mais uma voz importante que se insurge contra as intervenções unilaterais realizadas à margem do sistema de segurança coletiva e que tanta insegurança trazem ao planeta.

O mundo perderia esse Brasil independente e propositivo que todos aprenderam a respeitar e admirar.

Com a volta da política externa de alinhamento à grande potência mundial, o Brasil e, por consequência, a América do Sul e a América Latina, tenderiam a entrar profundamente, de novo, na órbita estratégica dos EUA, com todas as consequências econômicas, comerciais, políticas e mesmo sociais dessa decisão. A desconcentração do poder mundial sofreria uma reviravolta, os EUA recuperariam seu antigo quintal e nos transformaríamos todos num gigantesco México, país que pagou caro por sua inclusão subalterna à economia e à política dos EUA.

Só a título de ilustração, lembramos que, nos últimos 10 anos, a renda per capita do México cresceu a uma taxa de apenas 1,2% ao ano, um número muito inferior ao de outros países da América Latina, como o Brasil, Colômbia, Peru e Uruguai. Pode-se complementar essa informação com o fato de que, nos primeiros 10 anos deste século, o PIB per capita (PPP) do México cresceu apenas 12%, bem abaixo do que cresceu o do Brasil (28%). Na realidade, o México só superou, nesse cômputo, a frágil Guatemala, o país que menos cresceu em toda a América Latina, com base nesse parâmetro específico.

Assim, com a volta da inserção internacional subalterna, pagaríamos um preço econômico e social alto. O Brasil e sua população tenderiam a ficar mais frágeis, mais dependentes e mais pobres.

Mas não só o Brasil.

Bancada mais conservadora no Congresso poderá barrar reformas reivindicadas pelos movimentos sociais

Por Natália Fonteles | Via Adital

A população brasileira elegeu, no ultimo dia 05 de outubro, os senadores e deputados federais que atuarão no Congresso Nacional a partir de 1º de janeiro de 2015, data do inicio da nova legislatura. Os resultados eleitorais mostram que o número de partidos aumentará de 22 para 28 na Câmara dos Deputados, com nova composição do Congresso Nacional apresentando um aumento significativo de representantes da ala conservadora.

O quadro de candidaturas mostra que o PT (Partido dos Trabalhadores), PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) e PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) possuem as maiores bancadas da Câmara e aponta que os parlamentares conservadores avançaram nessas últimas eleições. A bancada do PSDB, por exemplo, ganhou 11 cadeiras na Câmara dos Deputados, passando de 44 para 55, um crescimento significativo de 25%. Já o PT perdeu 20% dos deputados na bancada, passando de 88 para 70.

Nesse contexto da nova formação de bancadas partidárias, com uma representativa presença conservadora no Congresso, surge um questionamento sobre se o resultado da eleição dos representantes da Câmara e do Senado refletiu ou não as manifestações ocorridas em junho de 2013, movimento popular que saiu às ruas de todo o país para reivindicar uma variada agenda de reformas e demandas sociais. Em entrevista ao programa Expressão Nacional, da TV Câmara, José Antônio Moroni, diretor do Instituto de Estudo Econômicos e Sociais (Inesc), afirma que as manifestações foram válidas, porém, por terem abrangido muitas reivindicações, perderam o foco.

Ele avalia que: “em relação às eleições, parece que junho de 2013 não aconteceu. As manifestações tiveram pouco impacto no processo eleitoral. Isso porque, ou nosso sistema político é tão rígido que é impermeável a qualquer tipo de manifestação popular, ou porque foi um momento conjuntural que não tinha uma agenda política clara e não foi capaz de tensionar o sistema político”.

A maioria dos candidatos que defendiam reformas sociais e democráticas não foi eleita, a bancada está mais conservadora. Dessa forma, Moroni teme que as grandes reformas sejam engessadas mais uma vez e aponta que as mobilizações e pressões populares na política serão ainda mais essenciais para o avanço nas pautas sociais.

Para o cientista político Marco Aurélio Nogueira, também durante o programa de TV, a manutenção de PT, PMDB e PSDB com as maiores bancadas talvez não altere o atual jogo político. “Também é preciso ver qual vai ser o real poder de fogo dessas bancadas específicas e mais conservadoras. Até o fim do atual governo, muitas dessas bancadas conservadoras estiveram na base governista, cuja gestão é considerada progressista. Então, pode ser que essas bancadas flutuem um pouco em função da agenda que o Congresso terá de examinar”, afirmou Nogueira.

Os resultados das eleições podem ainda sofrer alterações, caso candidatos com o registro atualmente negado pela Justiça eleitoral consigam reverter as decisões judiciais.

Confira a lista completa dos eleitos aqui.

Perfil dos eleitos

Cerca de 80% (411 candidatos) dos eleitos neste domingo para deputado federal têm nível superior;

Dos 513 deputados eleitos, apenas cinco (1%) sequer terminaram o ensino fundamental;

Dos eleitos, somente 23 candidatos (4,5%) são considerados jovens, com idade até 29 anos;

No grupo com idade entre 30 e 59 anos, o número sobe para 278 representantes eleitos, correspondendo a 73,5%, o maior índice das faixas etárias;

Acima dos 60 anos, a Câmara receberá 112 parlamentares, correspondendo a 22%;

Nascido em 1930, o deputado mais idoso eleito é Bonifácio de Andrada (PSDB-Minas Gerais). Aos 84 anos, ele vai cumprir o seu nono mandato consecutivo na Câmara. Já o deputado mais jovem será Uldurico Junior (Partido Trabalhista Cristão – PTC _ Bahia), de 22 anos. Agricultor, ele foi o parlamentar eleito com menos votos na Bahia;

De acordo com o registro de ocupações do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), 44 candidatos são advogados; 42 empresários; e 29 médicos;

Dos eleitos, 198 assumirão pela primeira vez o cargo de deputado. Outros 25, que não participaram da legislatura atual, mas já tiveram mandato em algum momento, retornarão à casa;

Esses 223 deputados correspondem a uma renovação de 43,5%;

Com a reeleição, o deputado Miro Teixeira (Partido Republicado da Ordem Social – Pros – Rio de Janeiro) se tornará, na próxima legislatura (2015-2019), o parlamentar com maior número de mandatos na Câmara, 11 no total. O parlamentar começou a carreira como deputado federal em 1971. Desde então, só deixou de estar no legislativo federal de 1983 a 1987.

Bancos públicos impediram país de ir à bancarrota, diz Lula

Via Plantão Brasil

Ex-presidente observa papel ‘extraordinário’ de BB, Caixa e BNDES para equilíbrio do mercado, pós 2008. Para professor da Unicamp, ‘visão estreita’ de proposta de Aécio para o setor é preocupante.

Os candidatos à presidência da República que disputam o segundo turno, Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), têm propostas antagônicas para a condução da economia no país. O papel dos bancos públicos é um exemplo. O governo Dilma Rousseff fala em dar continuidade à política de mantê-los como instrumento estrutural da economia e a metas de crescimento do país. Enquanto a redução da importância das instituições financeiras sob controle do Estado é defendida pelo economista Armínio Fraga, porta-voz da área econômica do candidato Aécio Neves.

Em entrevista à edição de outubro da Revista do Brasil, que circula nesta semana, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou que os governos do PSDB queriam privatizar os bancos. No entanto, destacou que essas instituições foram essenciais no enfrentamento da crise de 2008. “Quando estourou a crise em 2008, numa conversa que tive por telefone com o presidente Obama, comecei a mostrar que seria importante que nos Estados Unidos tivesse um sistema financeiro mais ou menos igual ao nosso, que temos bancos públicos fortes, e temos bancos privados fortes. O Banco do Brasil, a Caixa, o BNDES não deixaram este país entrar na bancarrota. Eles querem acabar com eles. Na nossa visão de Estado, os bancos públicos têm um papel extraordinário de equilíbrio no mercado financeiro”, enfatiza Lula.

Lula se refere a uma declaração recente do “candidato a ministro da Fazenda”, Armínio Fraga, de que “essa área precisa de uma correção de rumo” e que “vai chegar (num eventual governo Aécio) num ponto em que talvez eles (os bancos públicos) não tenham tantas funções. Não sei muito bem o que vai sobrar no final da linha, talvez não muito”, conclui.

As diferenças de desempenho dos bancos mencionados entre os anos de governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e os de Lula e Dilma ilustram essas visões distintas. No último ano de FHC, o volume de crédito movimentado por BB e Caixa chegava a R$ 130 bilhões, com queda de 69% nas operações da Caixa e de 6% nas do BB em relação ao seu primeiro ano de governo. No balanços de 2013, somente os dois maiores bancos públicos somaram pouco mais de R$ 1 trilhão em crédito, tendo o BB aumentado em 499% o seu volume e a Caixa, em 1.157%, em relação ao final do governo FHC. Isso sem comprometer o retorno de dividendos ao seu principal controlador, o Estado: os lucros somados do BB e da Caixa saltaram de R$ 6,7 bilhões em 2002 para R$ 22,5 bilhões em 2013. Todos esses valores são atualizados pelo IPCA do período.

Do sistema

Para o economista André Biancarelli, professor do Instituto de Economia da Unicamp, essa sinalização de Armínio Fraga é preocupante: “Delegar as tarefas do financiamento do desenvolvimento às forças de mercado nunca deu certo no Brasil, nem em lugar nenhum do mundo, desenvolvido ou em desenvolvimento”, alertou, em entrevista a Marilu Cabañas na Rádio Brasil Atual.

O professor afirma que “tanto do ponto de vista do crescimento quanto das transformações que aconteceram na economia brasileira, que são ainda insuficientes, é impossível separar isso da atuação do BNDES, da Caixa Federal, do BB e todos os fundos constitucionais de direcionamento de crédito”.

Biancarelli destaca que sem a exigibilidade de que um percentual dos depósitos em caderneta de poupança, em bancos públicos ou privados, seja destinado ao financiamento da habitação, tendo a Caixa como principal organizadora desse sistema, seria muito difícil pensar em um programa do tamanho do Minha Casa, Minha Vida. Ele assinala, ainda, a importância da atuação dos bancos públicos para o financiamento da agricultura familiar, ao assumir riscos que fogem da lógica do capital privado, situação semelhante no financiamento a longo prazo para grandes obras de infraestrutura.

“É impossível pensar em um programa de infraestrutura, do tamanho que o Brasil precisa, sem a atuação do BNDES. Em todos os exemplos, o caráter público, o caráter não guiado pela lógica de ganho de curto prazo, que é a característica do setor privado, é fundamental”, ressalta.

O professor lembra que os bancos públicos foram importantes na estratégia de redução de juros: “Os bancos privados resistiram e o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal foram utilizados como instrumentos de concorrência de política financeira, e obrigaram os banqueiros a reduzir os juros, à margem de lucratividade.”

André Biancarelli considera Armínio Fraga portador de “qualidades como economista, mas um representante do sistema financeiro privado, não esconde de ninguém. São esses os interesses que ele representa”.