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Diálogos Desenvolvimentistas: O panelaço, suas causas e efeitos (II)

Brasil de Fato

Semana passada o panelaço que ocorreu durante o pronunciamento da presidente gerou uma boa discussão disponível aqui. Ela prosseguiu enriquecedora e por isso fizemos mais este post.

Tania Faillace – Acho que o pessoal ainda não entendeu que não há um governo unificado com uma diretriz (boa ou má) integrada. A coalizão feita e acertada ainda no início dos 2000 não buscou a convergência ideológica ou política, mas juntar votos.

Desse erro básico, fundamental, decorrem todos os outros, inclusive as contradições. E o único remédio para isso, seria proibir definitiva e taxativamente as coalizões a qualquer nível.

A comunicação nem sempre resolve, a menos que ela tenha características de transparência. No mais das vezes, a comunicação do Executivo é uma comunicação de propaganda ou autojustificativas.

Falta TRANSPARÊNCIA e INTERAÇÃO.

Quanto aos think thanks vocês pensam nos norte-americanos. Graças a Deus não temos nada parecido por aqui. Os think thanks são máquinas de manipulação das mentes para fins específicos. Até para aprovar guerras e barbarismos, como todo a campanha desenvolvida a partir das Torres Gêmeas para suspender os direitos civis dos cidadãos, e a tortura rotineira das pessoas.

Nada de think thanks, porque nem os intelectuais (e eu sou uma) nem os cientistas são à prova de corrupção e mau caratismo. A comunicação necessária é bem simples: relatar fielmente as reuniões do governo, quem disse isso e quem disse aquilo, e o que foi votado. Sabendo disso, o cidadão saberá se não estão usando erradamente os impostos, ou quem e porquê está trancando decisões que lhe pareçam importante.

Sem think thanks. Atas simplificadas, cortando o palavreado que sabemos dos discursos de tribuna. Assim: ministro X pede verbas para controle da Aids em tal região, onde há tantos infectados, representando tantos por cento da população… ministro tal propõe uma superponte e uma superestrada para a Festa do Pepino.

São exemplos cômicos até. O objetivo foi mostrar como deve ser a informação útil para a população – se ela se preparar para fiscalizar devidamente o governo que elegeu. Com o tempo saberá se a super-ponte é necessária, ou se trata de um conchavão com empreiteiros, e se as informações sobre o avanço da Aids em tal região são verdadeiras ou se destinam a favorecer a compras de um determinado laboratório, quando, na verdade o problema maior da região é a falta de saneamento básico. E assim por diante.

Sem think thanks. A educação político-ideológica de um povo não cabe a um governo mas às instâncias de organização popular; sindicatos, partidos, associações, e até igrejas.

Não precisamos de sofisticação. Precisamos de FRANQUEZA e TRANSPARÊNCIA. e possibilidade de diálogo com o poder público em todos os níveis. Só assim iremos construindo uma democracia substantiva e não apenas representativa.

André Luís – O que você falou tem várias causas que está ligado a reforma política, na verdade desde a redemocratização do país na década de 80, passando pela constituição não conseguimos montar um modelo político que escape desta teia de aranha.

Quando o PT ganhou a eleição em 2002 (pode escrever PSDB em 1994, Collor em 1990 e até Sarney), foi necessário para governar ter um apoio do congresso para suas propostas (para bem ou para mal do país) e é isso que causa todas estas crises os quais nenhum governo conseguiu sair (talvez o que tenha se saído melhor foi o de Itamar Franco, mas por questões da conjuntura daquela época).

Temos também problemas estruturais e históricos pelo modo como foi formado o país (partidos fracos, falta de comunicação entre eleito e eleitores, sistema político viciado etc.), vários governos tentaram ultrapassar esses obstáculos e os que conseguiram melhor foram os que mais avançaram o país.

Houve desde a república diversas tentativas de se montar um sistema político no país e todos fracassaram redondamente, já tentaram não ter partidos nacionais, não ter partido nenhum, ter partidos contra e a favor, ter bipartidarismo estilo anglosaxão e multipartidarismo. Todos os sistemas partidários faliram. Temos que pensar o estrutural e não o conjuntural.

Por isso defendo o voto distrital com parlamentarismo.

Tania Faillace – Eu não tenho opinião firmada sobre o modelo institucional mais adequado, mas observei que nossa história tem seguido ciclos. Ora seu rumo é em direção à soberania; ora é de volta à dependência quase colonial.

Em 1961, houve o movimento para impedir a posse do vice Jango, que era um trabalhista notório, quando houve o episódio da Legalidade, etc.

Jango tinha menos dotes políticos e de estadista que Brizola. No governo aceitava idéias generosas – algumas mirabolantes – mas não tinha condições executivas nem de articulação. Era uma boa pessoa, com boas intenções. Certamente Brizola, em seu lugar, teria alcançado algum resultado.

De todo o jeito, as idéias generosas mas fantasiosas que eram anunciadas todos os dias, mas não executadas, serviram de pretexto para armar a direita e desencadear o golpe, que foi arquitetado pelos gringos – como já tinha acontecido em 1954.

A direita veio com uma fachada conservadora (nada de coxinhas, nem liberação sexual, como agora), mas o objetivo final era o desmonte de nossas estruturas estatais e econômicas.

Apenas que os militares, na época, estavam interessados em perseguir os socialistas, os comunistas, os obreiristas, os trabalhadores, mas não tinham intenção de se submeter aos apetites dos gringos. Em sua gestão, as estatais brasileiras atingiram um desenvolvimento extraordinário, e a dependência estabeleceu-se em termos do endividamento para o “Brasil Grande”, mas não em termos de entrega de patrimônio e recursos naturais aos gringos, com exceção daquelas primeiras fazendas na Amazônia, muitas delas griladas com violência pelos terratenentes de várias origens.

Assim que os gringos perderam a paciência e resolver mudar o jogo. Apoiaram a democratização, desde que sem eleição direta, para escolherem o candidato. Os militares aceitaram, porque não tinham opção, não eram populares e certamente não enfrentariam o Tio Sam. O objetivo era implantar o neoliberalismo entreguista de uma vez por todas. Sarney, Collor, FHC, a estrela máxima.

Porque os governos da frente popular não mudaram o roteiro, o script? Porque só tinham o cabeça de proa, não tinham o timão, o governo em si, cuja maioria não queria mudança alguma. Não foi só o congresso que resistiu a mudanças expressivas, que fossem além do assistencialismo, os partidos da coalizão não eram do campo popular, e estavam na coalizão exatamente para impedir que ele se tornasse instrumento popular.

Mais, os partidos da coalizão tinham (e têm) feudos definidos, ministérios definidos onde pintam-e-bordam, fora do alcance do titular do Executivo.

Como é que isso aconteceu?

Resta descobrir.

Atualmente, o próprio PT não tem influência alguma sobre a coalizão. E a nomeação de Levy, Wagner e Ana Amélia, são até cômicas, sem relação alguma com o que se chamaria governo popular. Isto é, a força popular ofereceu apenas a porta-bandeira, mas as demais alas estão sob controle absoluto das outras forças, estas não-populares.

Essa é a caixa preta: que ocorreu para que os partidos que eram de oposição abrissem mão de seus projetos concorrendo e legitimando o processo neoliberal que já corria? A birra contra a Dilma é por conta de algumas rebeldias dela aqui e ali. Inclusive sua determinação de investigar os crimes cometidos contra a área pública.

Querem vê-la morta. O bullying midiático objetiva obrigá-la a deixar de investigar e livrar a cara dos garotos. E nós, o povo, não sabemos o que está acontecendo lá, dentro do Palácio, e quais são as condições que emudecem a presidente, que a impedem de imitar a Cristina argentina, que já levou pancada na cabeça, e mil grilos de saúde (provocados) , mas que, com suas denúncias, conseguiu aglutinar o povo em torno de si (menos os sionistas, seus grandes opositores, representantes dos gringos de sempre).

Por que Dilma não fala? Não conta qual é a arma que tem contra o pescoço?

É por aí.

Ronaldo Abreu – Há uma necessidade de se mostrar via propaganda mesmo na TV várias questões. Por ex: o projeto de cabo no atlântico de fibra ótica até Portugal. O povo não sabe disso. Se souber e enxergar os benefícios, vai apoiar e defender dos interesses externos. Mas o governo ajuda a alienar mais ainda a massa. A Dilma estava inaugurando o Minha Casa Minha Vida na Bahia com o bicho pegando em tudo quanto é lugar. Ora, parece que só quer saber do público que ela entende como eleitor dela. Assim, o panelaço fica cada vez mais raivoso. Vide o caso das domésticas. Ok, formalizar o trabalho doméstico é bom, mas deixa as pessoas abaterem do IR. Todo mundo ganha. Mas não, ficou apontando o dedo acusando de classe média escravocrata. Assim não se chega a lugar algum. Bota na conta dos ricos, tributando dividendos e aumentando IOF de empréstimos intercompanhias que é uma distribuição de lucros disfarçada entre matriz e filial. Se não equilibrar estas questões só vai acirrar a disputa.

Tania Faillace – Você já está querendo falar da sintonia fina do discurso. Estamos muito longe disso. Precisamos saber antes de tudo, quais são os compromissos e acertos da coalizão, e porque a presidente não tem liberdade para chamar os ministros que bem entender.

É evidente que, por seu gosto, ela não chamaria nem o Levy, nem o Wagner, nem a Ana Amélia, que é oposição ao PT em seu estado (RS), e não só por isso, mas porque é representante do Agronegócio – e é realmente de um humor kafkiano designá-la para Reforma agrária.

O Levy é homem do FMI, com quem o Brasil tem diversas diatribes, e sabe muito bem como essa instituição usurária altera juros como bem entende, na hora que bem entende, e impõe condições também quando bem entende (e que sua atual presidente, a Lagarde, armou uma armadilha sexual contra o ex-presidente para defenestrá-lo do cargo e tomar seu lugar). E a nossa presidente não teria escolhido por gosto o Wagner, que faz uns dois anos esteve envolvido numa história que não lembro direito, mas em que foi acusado de fazer o jogo do Pentágono na América.

São três inimigos explícitos do campo popular.

Por que estão lá?

Qual é o acerto?

Temos que ir atrás e investigar.

Que é que você faz? Economista? Advogado? Engenheiro? Aposentado? Filósofo? Jornalista? Militar? Como pode usar suas habilidades e boas relações para saber o que se comenta a respeito do ministério, e como os partidos da coalizão se garantem seus privilégios de mandar totalmente em seus feudos? E isso não de agora. Nas gestões do Lula ocorria igual.

O inimigo está dentro de casa. É preciso identificá-lo. Lembrem que, na Argentina, o Kirchner teve uma morte duvidosa, e a Cristina volta e meia sumia num hospital (?) com males não revelados. Que Chávez denunciou ter sido envenenado com substância radioativa (como Fidel Castro) – numa imitação do homicídio contra o agente da KGB alguns anos antes, lembra? Que Lula, Cristina, Lugo, Chavez, Dilma, todos ficaram doentes ao mesmo tempo?

Nem os filmes de James Bond apresentavam tanto suspense.

Quem vai lá e tenta saber o que vem acontecendo dentro das embaixadas norte-americanas por toda esta nossa América Latina?

Ronaldo Abreu – Mas a massa tem que saber de alguns pontos essenciais para ajudar a pelo menos brecar uns ataques. Mas o que vejo (inclusive com os blogueiros pró Dilma) uma visão romântica do brasileiro. E isto é oba oba. Brasileiro por motivos históricos tem no consciente coletivo que o Estado tem dinheiro infinito, que não tem que ter deveres, somente direitos, etc i isto pela desinformação da midia, politicos, sistema educacional e ao meu ver por que temos ainda a cultura do doutor, ou seja, eu não chego a doutor mas quero uma forra. Não se desenvolve com este tipo de mentalidade coletiva. Como ninguém sabe o que seremos ou queremos ser daqui a 10, 15 anos, vira farinha pouca meu pirão primeiro.

O governo adorou este pseudo pleno emprego mas a maioria dos postos de trabalho são de baixa qualificação. Propaganda oba oba. E o bônus demográfico está indo embora… Por exemplo: soube que a kodak fabrica um scanner especial que poderia ser fabricado aqui segundo eles se tivéssemos escala. Ok, o setor público usa papel aos montes e pelo menos poderia digitalizá-los e e gerar arquivos eletrônicos com assinatura eletrônica acessível a qualquer computador. Mas e o reacionarismo cartorial que ainda temos a cultura do papel? Poderíamos ter uma fabricação caseira de qualidade. Outro ex: com um litoral deste só temos indústria naval para o petróleo. E o frete que é todo estrangeiro? Porque não nos especializamos em alguns tipos de embarcações e fazemos uma empresa estatal de frete marítimo?

Ficar discutindo politica macro, filosofias esquerda x direita etc não dá resultado prático. Já ouvi de pessoas bem de direita que por ex, o Kissinger não é nem direita nem esquerda, é pragmático em prol dos interesses dos EUA conforme a conveniência. Os militares eram considerados de direita, mas na economia criaram várias estatais (algo de governo socialista).

Precisamos menos oba-oba e retóricas e mais ações inteligentes e práticas.

Tania Faillace – Acho os assuntos todos muito interessantes, mas para outro momento. Un dois meses atrás, se falava disso, promover talvez um evento, do qual resultariam um ou vários grupos de trabalho para discutir e desenvolver propostas de políticas estruturais, desenvolvimentista, industriais, ou o que seja – e criar um canal de comunicação com o governo federal (em sua área tecnológica, no quadro de efetivos concursados, há bons técnicos – e provocar uma discussão e um intercambio sociedade civil/instâncias federais, num trânsito de duas mãos para a retomada de um desenvolvimento autônomo e independente (como poderíamos ter tido, se o Bautista Vidal tivesse maior presença na União que o Delfim Neto).

Agora, porém, estamos numa situação emergencial.

Haverá invasão na Venezuela ou não?

Haverá atentados nos demais países da AL (inclusive o nosso), ou não?

Teremos personalidades de destaque atingidos por drones especiais, ou não?

Haverá insurreição de marginais e coxinhas no Brasil e na Argentina e na Venezuela, ou não?

As informações agora necessárias referem-se à segurança nacional. Quem é quem, e quem é o cabo Anselmo.

E tomem nota que o Narcotráfico está enfiado nisso até suas mimosas orelhas, assim como seus dignos amigos nas altas camadas da sociedade.

Sem democracia na mídia, mulher continuará sendo tratada como objeto

Por Tiago Pereira | Via RBA

Especialista da representação feminina na mídia, Rachel Moreno, acusa impactos na autoestima da mulher por imposição de padrões estéticos que atendem apenas aos interesses do mercado.

Mobilizações por todo o país marcaram a luta por igualdade no Dia Internacional da Mulher, ontem (8)

São Paulo – A psicóloga e coordenadora do Observatório da Mulher, Rachel Moreno, afirma que para mudar a representação feminina na mídia, quebrando com estereótipos e pondo fim à exploração sexual da imagem da mulher, é preciso democratizar os meios de comunicação. Para ela, não basta escalar repórteres mulheres para apresentar os principais jornais da maior emissora do país, na véspera e no Dia Internacional da Mulher (8 de março).

Rachel, que também é autora dos livros A Beleza do Impossível e A Imagem da Mulher na Mídia, ressalta que a atual forma de representação da mulher, em um cenário de concentração da mídia, é “absolutamente estreita”, e que falta “diversidade e pluralidade”.

“A mulher é sempre representada como branca, jovem, magra, cabelos lisos etc quando, na verdade, a mulher brasileira é branca, negra, jovem, velha, magra, gorda, de uma diversidade que, simplesmente, não se veem representadas.”

A psicóloga afirma que a perpetuação de tais estereótipos estabelecem padrões de beleza inatingíveis, que atende aos interesses da indústria, do comércio e das cirurgias plásticas, com irremediável prejuízo à autoestima da mulher.

Para Rachel, a mídia concentrada atende, basicamente, a dois interesses fundamentais: marcar posição, contra ou a favor, em relação ao governo vigente e produzir consumidores.

“No caso da sexualização das mulheres, inclusive da erotização precoce das crianças e do bombardeio a respeito de modelos de felicidade e valores, acaba justamente acontecendo para produzir consumidores para os anunciantes. Isso é muito pouco. Os nossos problemas do dia a dia não são discutidos, a realidade vivida pelas mulheres não é discutida, as novas questões e demandas também não são discutidas”, diz, acrescentando que é muito pouco fazer uma vez por ano matérias especiais que homenageiam o Dia Internacional da Mulher.

Rachel ressalta que, mesmo veículos de imprensa “mais sérios”, quando buscam fugir da objetivação e ultrasexualização da mulher, nunca as representam como especialistas, detentoras de opinião e conhecimentos relevantes, mas apenas como “vítimas ou testemunhas”.

Para alterar tal panorama, Rachel Moreno cobra, primeiramente, compromisso, por parte da grande imprensa, que, segundo ela, é “educadora informal poderosíssima”, mas que colabora na banalização e naturalização da violência contra a mulher.

A psicóloga diz não acreditar nos mecanismos de autorregulação defendidos pelas redes de comunicação e agências de publicidade e ressalta que o Conselho Nacional de Autorregulamentação (Conar) demora para agir, chega atrasado – quando anúncios denunciados por abuso já saíram do ar – e, na maioria das vezes, toma partido dos anunciantes. Ela defende a criação de normas e regras para o setor e um órgão independente que fiscalize implementação destas.

“A Constituição garante o direito de comunicação, e comunicação é uma via de duas mãos. Como é que estamos falando na existência de democracia na comunicação se nós temos seis famílias que detêm todos os meios, neste país. Eles definem o que nós vamos ver, e o que não vamos ver, e o que nós vamos pensar sobre o que eles decidem que vão nos mostrar. Isso não é democracia.”

Rachel defende também a reforma política com participação da sociedade civil para aumentar a representação da mulher no parlamento, com o fim do financiamento privado de campanha, pois, segundo ela, “as mulheres acabam sendo mais pobres e resistem mais a recorrer aos recursos das empresas”. Cobra também voto em lista alternada, que garanta a paridade entre homens e mulheres.

Para além das reformas, na mídia e na política, a coordenadora do Observatório da Mulher espera uma mudança de costumes: “As mulheres não participam da política porque são sobrecarregadas, têm dupla jornada de trabalho. Está na hora de dividir o trabalho doméstico entre homens e mulheres. Mostrar nas novelas o homem chegando em casa mais cedo e preparando o jantar e, quando a mulher chega, a mesa está posta para naturalizar uma nova divisão das tarefas domésticas, Além disso, desnaturalizar a violência de gênero, discutir seriamente a sexualidade e cuidados necessários, enfim, exercer com responsabilidade social a sua função de educadora informal e de concessão. E repensar a distribuição do espectro eletromagnético, e dos recursos governamentais para a mídia”.

O estranho mundo dos midiotas

Por Luciano Martins Costa | Via Observatório da Imprensa

Se você lê jornais e assiste ao noticiário televisivo, e além disso leva em conta os comentários dos especialistas em generalidades que proliferam nas emissoras de rádio e acompanha sofregamente tudo que circula nas redes sociais digitais, pode estar certo de que você está incurso no arco de seres humanos que estão sendo estudados pelos especialistas em comunicação de algumas das melhores universidades do mundo. Esse espectro vai do indivíduo profundamente elaborado, que é capaz de filosofar sobre o mundo midiatizado, ao perfeito midiota.

O contexto teórico considerado por esses estudiosos tem como objeto o que em língua inglesa se chama “media literacy” e que, em português, é chamado, principalmente no núcleo de estudos específicos da Universidade de São Paulo, como Educomunicação. Trata, como se pode depreender, de uma educação especial que habilita o indivíduo a entender o conteúdo da mídia e formular sua própria opinião a respeito dos assuntos abordados. O pressuposto de tal disciplina é que a mídia tem uma função social que vai muito além da tecnologia e dos recursos financeiros usados para fazer com que aconteça a comunicação.

O professor Thomas Bauer, responsável pela cadeira de Cultura da Mídia e Educação pela Mídia na Universidade de Viena, observa que essa função dos meios deve extrapolar o conceito de troca de informações passando por um filtro (mediação), para o propósito de contribuir para a construção de uma ordem social baseada na diversidade. Além de balizar a organização da ordem social, juntamente com outras instituições e entidades formais ou informais, a mídia deve participar das negociações entre os indivíduos, isoladamente ou em grupos, e entre si, para que se obtenha uma sociedade sustentável.

Uma proposta de educação que considere o papel da mídia como tal deve, segundo Bauer, apontar para a conquista da competência de distinção do significado de diferentes situações, em termos de ética, estética e benefício potencial. Numa circunstância ideal, a sociedade sustentável conta com pessoas capazes e responsáveis pelo uso da mídia como meio de comunicação e conexão social, e não apenas como clientes a serem convencidos disto ou daquilo.

Uns e outros

Como no “vidiota” do romance de Jerzy Kosinski que inspirou o filme intitulado Muito além do jardim, a intensa exposição à mídia, sem o contraponto do senso crítico, pode ser uma prática perigosa. O indivíduo habilitado para interpretar a narrativa e o discurso propostos pela mídia nesse papel é também capaz de questionar o sentido que a mídia propõe para os acontecimentos do cotidiano.

Um grande contingente de cidadãos em condições de distinguir os vários significados das situações que a imprensa lhes apresenta será mais senhor de seu destino e se tornará menos vulnerável a discursos manipuladores e demagógicos.

O dilema está no fato de que esse benefício depende em grande parte de uma determinação da mídia hegemônica de usar seus recursos eticamente e com grande empenho estético. O problema se complica quando a própria imprensa faz escolhas contrárias à ética, esteticamente inadequadas e fora do propósito do bem, com o objetivo de usar a conectividade social que lhe é atribuída para arregimentar adeptos a um modo de vida simbólico que contraria o interesse coletivo.

Claro que tudo isso pressupõe a existência de interesses coletivos em meio a idiossincrasias individuais, mas o problema se resolve com a observação segundo a qual a sociedade se forma por meio da comunicação, produtora de sentido – portanto, criadora de cultura.

Uma maneira simples de avaliar se determinado meio contribui para este ou aquele tipo de sociedade é observar se suas mensagens estimulam, por exemplo, uma cultura de paz ou a violência; se propõe uma visão tolerante das diferenças ou se investe no confronto.

É da modernidade supor que o indivíduo se torna responsável por suas escolhas, ou, em outra acepção, no uso de suas vontades fortes ou fracas. Portanto, parte da responsabilidade pelo que se processa no ecossistema midiático compete à mídia, mas o arbítrio ainda é do cidadão.

Quando dizemos que “você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”, estamos apostando que, exercitando a observação crítica da imprensa, o indivíduo se educa para a mídia. Essa distinção de habilidades é o que faz, de uns, midialiteratos e, de outros, no ponto extremo do que acreditam em tudo que leem, midiotas.

Metas da educação crítica

Por Frei Betto | Via Correio da Cidadania

Uma educação crítica e libertadora deve ter em vista construir uma civilização solidária, livre de opressão e desigualdade social.

Vivemos todos sob a hegemonia do pensamento único neoliberal e da economia capitalista centrada na apropriação privada da riqueza. O neoliberalismo, como vírus que se dissemina quase imperceptivelmente, se introduz nos métodos pedagógicos e nas teorias científicas; enfim, em todos os ramos do conhecimento humano. Assim, instaura progressivamente ideias e atitudes que fundamentam a ética (ou a falta de ética) das relações entre seres humanos e dos seres humanos com a natureza.

Na lógica neoliberal, a inclusão do indivíduo como ser social é medida por sua inserção no mercado como produtor e consumidor. As relações humanas são determinadas pela posse de mercadorias revestidas de valor. É o fetiche denunciado por Marx.

Essa inversão relacional – segundo a qual a mercadoria possui mais valor que a pessoa humana, e a pessoa humana é valorizada na medida em que ostenta mercadorias de valor – contamina todo o organismo social, inclusive a educação e a religião, conforme denunciou o papa Francisco a 22 de dezembro de 2014, ao apontar as “15 enfermidades” que corroem a Cúria Romana.

Disso decorre uma ética perversa, que sublinha como valores a competitividade, o poder de consumo, os símbolos de riqueza e poder, a suposta mão invisível do mercado.

Tal perversão ética debilita os organismos de fortalecimento da sociedade civil, como movimentos sociais, sindicatos, associações de bairro, ONGs, partidos políticos etc. O padrão a ser adotado já não é o da alteridade e da solidariedade, mas o do consumismo narcísico e da competitividade.

Como superar, hoje, esse padrão de vida capitalista que, se não vigora em nosso status social, muitas vezes predomina em nossa mentalidade? Nisso a educação exerce papel preponderante para que as novas gerações não se sintam obrigadas a adaptar-se ao novo “determinismo histórico”: a hegemonia do mercado.

Hoje, uma das poderosas armas de superação do neoliberalismo é a educação crítica e cooperativa, capaz de criar novos parâmetros de conhecimento e suscitar novas práxis emancipatórias. Sobretudo quando ela se vincula a movimentos sociais de defesa dos direitos humanos e de aprimoramento da democracia.

É através da educação que se moldam as subjetividades que imprimem significado aos fenômenos sociais. Acontece, com frequência, de se viver um antagonismo entre o microssocial (pautado pela subjetividade) e o macrossocial (pautado pelas estruturas). Professamos uma ética que não praticamos e uma democracia que não admitimos ao ocupar função de poder.

Bons exemplos de coerência entre o microssocial e o macrossocial são Gandhi, Luther King e Chico Mendes: a partir de seus ideais específicos – luta contra o imperialismo britânico, a discriminação racial e a degradação ambiental –, lograram modificar estruturas e implantar novos parâmetros éticos nas relações pessoais e sociais.

Greve de professores do Paraná lota estádio de futebol

Por Pedro Carrano e Camilla Hoshino | Via Brasil de Fato

A paralisação seguirá por tempo indeterminado e já alcança 18 dias letivos e quase um mês de mobilizações e enfrentamentos.

Professores e funcionários de escolas estaduais, organizados na APP-Sindicato, levaram 20 mil pessoas ao estádio Durival de Britto, em um movimento ao mesmo tempo inédito e histórico. Com as arquibancadas lotadas, o magistério votou, por unanimidade, pela continuidade da greve.

A paralisação, que seguirá por tempo indeterminado, alcança 18 dias letivos e quase um mês de mobilizações e enfrentamentos. A entidade sindical defende que há pendências entre os itens de pauta discutidos com o governo Richa, entre os quais estão o pagamento de terço de férias, convocatória pendente de concursados, entre outros pontos.

A judicialização já havia sido acionada pelo governo de Beto Richa (PSDB) e se consumou na tarde do dia 4, quando o desembargador Luiz Mateus de Lima, do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), fixou o retorno de professores e de funcionários às escolas, com multa diária de R$ 20 mil em caso de descumprimento.

Queda de Richa

O governador Beto Richa (PSDB) teve maior queda na popularidade do que a presidenta Dilma Rousseff (PT), de acordo com levantamento da Paraná Pesquisas, divulgado nesta quinta (5) pelo jornal Gazeta do Povo.

Em dezembro do ano passado, o governador do PSDB tinha a administração aprovada por 65% dos paranaenses. A Paraná Pesquisas revelou que Richa só é aprovado por 19,9% e é reprovado por 76,1% dos eleitores.

Um resultado de um mês de enfrentamentos teve ontem uma conquista importante. Depois da assembleia realizada pela manhã, os professores paranaenses saíram em passeata até a Assembleia Legislativa (Alep), onde será votada ainda hoje a extinção da comissão geral. A comissão geral é o dispositivo regimental que possibilitou durante os últimos anos a implementação do chamado “tratoraço”, por meio do qual o Executivo impôs ao Legislativo paranaense uma série de medidas com pouco ou nenhum debate com a sociedade.

Dilma elege a educação como “a prioridade das prioridades” do segundo mandato

Via Agência Brasil

Dilma diz que educação será a “prioridade das prioridades” no segundo mandatoAntonio Cruz/Agência Brasil

A presidenta Dilma Rousseff disse na cerimônia de posse no Congresso Nacional, que o lema do novo governo será “Brasil: pátria educadora”. Ela caracterizou o lema como simples, direto e que reflete com clareza qual será a prioridade do governo, além de sinalizar o setor para o qual devem convergir os esforços de todas as suas áreas.

“Estamos dizendo que a educação será a prioridade das prioridades, mas também que devemos buscar em todas as ações do governo um sentido formador, uma prática cidadã”, explicou, ao acrescentar que só a educação liberta um povo e abre portas para o futuro.

Dilma defendeu um ensino de qualidade em todos os níveis de formação e para todos os segmentos da sociedade. A presidenta destacou que a expectativa é que, ao longo deste novo mandato, o setor comece a receber volumes mais expressivos de recursos oriundos dos royalties do petróleo e da exploração da camada pré-sal.

“Buscaremos, em parceria com os estados, efetivar mudanças curriculares e aprimorar a formação dos professores” disse, ao avaliar ser esta uma área frágil no sistema educacional brasileiro. A presidenta prometeu dar atenção especial ao Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e ao Programa Jovem Aprendiz. “O Brasil vai continuar como país líder no mundo em políticas sociais transformadoras”.

Reinvenção da direita anima política

Por Breno Altman, em seu blog

Não são poucos aqueles que tratam de classificar como doidivanas o atual comportamento da oposição conservadora.

O senador Aécio Neves e seus seguidores são vistos, por observadores de distintas origens, como se estivessem fora da casinha.

A trupe pode ser acusada de representar os mais reacionários interesses políticos e de classe. Também resplandece o caráter antidemocrático e adverso à soberania popular de suas aleivosias.

Mas não é um bando de loucos.

Animados pela forte polarização da campanha eleitoral, oposicionistas de barricada estão rasgando fantasias e disputando a sociedade com um discurso sem maquiagem.

Deram-se conta que parte importante do país, da qual brotam votos e apoios à coalizão política chefiada pelo PSDB, não deseja mais orbitar no campo de gravidade do centro político, cenário que se impôs desde a transição pactuada da ditadura para a democracia.

Este setor quer ver suas aspirações, ideias, valores e emoções defendidos sem rapapés. Constitui-se de frações políticas e sociais que estão desembarcando da normalização implícita aos regimes democráticos liberais.

Sua atitude passou a ter novos paradigmas, baseados em confrontação programática, ocupação de espaços públicos, tensão institucional e mobilização militante.

Relevantes meios de comunicação funcionam como banda de música desta dança conservadora, além de fornecer bardos e menestréis para o minueto.

São as vias de reinvenção da direita brasileira.

Mudança de equação

Obviamente este segmento sempre se manteve vivo e dinâmico, mas desde os anos noventa escondia-se sob as saias do discurso centrista, às vezes vestindo trajes íntimos de preocupação progressista.

Desmoralizado pela longa ditadura e a queda de Fernando Collor, o conservadorismo foi buscar na aliança com o PSDB, nas eleições de 1994, a reanimação da hegemonia burguesa sobre a sociedade e o Estado.

O reacionarismo converteu-se majoritariamente a um enredo modernizador, liderado por Fernando Henrique Cardoso, capaz de neutralizar atrativos de uma esquerda às voltas com o colapso do socialismo real.

Agora está mudando a equação.

Os doze anos de governos petistas, com programas que melhoraram amplamente as condições de vida e trabalho de milhões, criaram poderosa base de massas para a esquerda.

A desconstrução desta identidade, dos pobres da cidade e do campo com o petismo, passou a depender de crescente antagonismo, no afã de solapar a credibilidade e a confiança no projeto liderado por Lula.

Os liberais-democratas, que antes preferiam ser tratados como sociais-democratas, movem-se em direção à velha direita, para construir um bloco neoconservador, radicalizando a vida política do país.

Este é o fenômeno que estamos vivendo.

A direita resolveu bater lata, estabelecendo contraposição frontal ao gradualismo petista. Não apenas seus grupos extremistas, mas também frações expressivas de correntes moderadas e egressas da resistência à ditadura militar.

Há lógica nesta loucura, no entanto.

Nova estratégia

O congestionamento no meio-campo, se antes era funcional para deter a esquerda, pois diluía o programa neoliberal, vem perdendo vigor para essa tarefa.

De muitas maneiras, foi o petismo que passou a se beneficiar do pântano, tão característico da política nacional.

As reformas conduzidas por Lula e Dilma, sem a marca de mudanças estruturais, encontraram na baixa densidade político-ideológica um clima positivo e de menor resistência.

Os corvos resolveram apostar, porém, desde o desfecho das eleições presidenciais, em outra política.

Deslizaram para estratégia de ataque pela ponta, no limite flertando com o golpismo.

Imaginam, assim, ampliar a capacidade de estigmatizar a esquerda, pressionar centristas mais recalcitrantes e retirar o PT da zona de conforto.

O modelo guarda certas semelhanças com experiências internacionais, tais como o Tea Party nos Estados Unidos e a Frente Nacional francesa.

Mesmo minoritários e isolados, estes agrupamentos se converteram em polos dinâmicos, impondo agendas e forçando amplo deslocamento conservador ao longo do tempo, arrastando a correlação de forças para a direita.

Além da estagnação econômica e o pânico social, que servem como pano de fundo, o principal ativo desta orientação está na confrontação contra políticas que reforçam o Estado contra o mercado e o indivíduo, identificando-as como predadoras das camadas médias e das etnias nacionais hegemônicas.

Racismo, chauvinismo e moralismo são expressões condensadoras deste movimento.

As enormes concessões do Partido Socialista francês e do Partido Democrata norte-americano a esse ideário reacionário, tentando impedir a fuga do centro para a direita, também facilitam o enraizamento da narrativa neoconservadora, que não encontra contraposição à altura e pode usufruir de vantagens inerentes ao controle da iniciativa política.

Apesar das evidentes diferenças com a situação brasileira, o novo perfil da direita nativa não é alucinação de maus perdedores, ainda que numerosos de seus integrantes sejam alucinados e maus perdedores.

Há uma alteração estratégica em curso, que talvez devesse merecer reflexões urgentes entre os líderes petistas e de esquerda, antes que seja tarde para a ação.