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Chuvas de verão

3a1_chuvas_de_verapso_23 a 1 entrevista Ministro da Integração Nacional a respeito dos transtornos causados pela chuva

Desmoronamentos, enchentes e alagamentos causados pelas chuvas de verão se repetem ano após ano em cidades brasileiras. O 3 a 1 desta semana discute as causas e as consequências das chuvas e o que é preciso ser feito para que as tragédias não mais se repitam.

O programa entrevista o Ministro da Integração NacionalFernando Bezerra, que responde a perguntas dos jornalistas Luiz Carlos Azedo eCarolina Gonçalves, repórter da Agência Brasil, e do engenheiro e professor da Universidade de BrasíliaDikran Berberian.

De acordo com o Ministro, o governo tem investido mais em prevenção de desastres naturais. Ele defende mudanças na legislação que flexibilizem as exigências para obras de emergência.

O 3 a 1 ouve a opinião da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o Direito à Moradia Adequada. A arquiteta defende a necessidade de planejamento urbano e ocupação do solo. Para ela, o Estado tem a obrigação de ajudar os desabrigados, ou seja, fornecer moradia adequada, educação, transporte e oportunidades de emprego.

Maria Maeno: “É preciso pensar no desenvolvimento do trabalhador enquanto cidadão”

Luciano Máximono Valor

Nos últimos três anos, a média de  gastos   da  Previdência  Social com problemas de saúde  gerados no próprio ambiente de trabalho cresceu acima das despesas com os afastamentos previdenciários gerais. O elevado  número de registros  de doenças mentais que  podem ser associadas a um cotidiano profissional insalubre, como estresse, depressão, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico  e até dependência de drogas  e álcool, é um indicativo para a expansão mais firme das despesas com os chamados benefícios acidentários — quando um trabalhador é afastado por causa de doença comprovadamente adquirida em  função do  emprego ou  acidente sofrido durante a jornada de trabalho.previdencia-brasileira-moderniza-vida-dos-cidadaos

Segundo o Ministério da  Previdência Social, o pagamento de benefícios de afastamentos previdenciários (por  causa de doença adquirida ou acidente sofrido sem relação direta com o emprego) registrou elevação anual média  de  7,5% entre 2008  e 2011, para R$ 13,47  bilhões —  de  janeiro a novembro de 2012,  o Instituto Nacional de  Segurida- de Social (INSS) desembolsou R$
13,69  bilhões com  essas obrigações.  Já os gastos com  auxílios-doença  acidentários  passaram de R$ 1,51 bilhão em 2008  para R$ 2,11  bilhões em 2011,  apon- tando crescimento médio anual de   12%  —   no   acumulado  de
2012,  até novembro, o valor pago chega a R$ 2,02 bilhões.

Os casos de aposentadoria por invalidez  (por motivações diversas) também têm crescido dois dígitos. Entre janeiro e novembro de 2012, o INSS bancou R$ 30,86 bilhões   para   apoiar  profissionais que  nunca mais  poderão exercer suas atividades normalmente.

De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a jornada semanal média dos trabalhadores brasileiros não aumentou ao longo desses quatro anos, mantendo-se em 39,9 horas semanais. Para o pesquisador Eric Calderoni,  doutor em  psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica  de São Paulo  (PUC-SP) e Columbia University,  de  Nova York, a rotina do trabalhador é que se tornou mais estressante.

“Sofrimento no  ambiente profissional  não  é só ritmo e tempo, mas sobretudo organização do trabalho: ordens contraditórias, assédio, metas, questões éticas, autonomia, senso de dever bem cumprido,  estabilidade no emprego, clima”, pondera Calderoni.

Os auxílios-doença, previdenciários  e acidentários, concedidos a trabalhadores por causa de depressão ou transtornos depressivos recorrentes cresceram a uma  média de  5% nos  últimos cinco  anos,  superando 82 mil ocorrências anuais. Esse quadro preocupa o governo e tem mobilizado sindicatos e empresas a criar novas práticas laborais com o objetivo de evitar  as chamadas doenças da modernidade.

Em resposta a questionamentos da reportagem, a área  técnica do  Ministério da  Previdência Social  reconhece que  o problema “chama atenção de formuladores de políticas públicas” e informa que  tem  feito estudos e avaliações sobre a evolução desses números a fim de investir em processos preventivos. Para o ministério, os últimos anos  desfavoráveis para a economia global e de baixo crescimento interno impactaram negativamente a saúde do trabalhador.

A médica  do trabalho Maria Maeno, diretora da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), entidade ligada ao Ministério do Trabalho, concorda com a visão governamental, mas avalia que respostas de empresas e governos para  enfrentar a situação são ineficazes.

“Não há política  bem definida de reabilitação profissional que  coloque pessoas  de volta no mercado, o que explica maiores gastos  com  benefícios.   Também não há espaços dentro das empresas para analisar a condição do trabalhador e eventualmente encaminhar o tratamento do problema ou mudá-lo de área”, diz Maeno.

Ela acrescenta ainda que há um grupo  de  acidentados  que   não consegue o  benefício do  INSS e acaba perdendo o emprego. O Ministério da Previdência informou que em 2013 vai reformular o Programa de Reabilitação Profissional (PRP),  com   a   implantação  de ações-piloto em diferentes setores.

Maria Maeno  também pondera que o Sistema  Único de Saúde (SUS), para onde vai a maior parte dos trabalhadores acidentados, e a perícia médica do INSS, responsável   pelo    diagnóstico que determinará o benefício previdenciário, sofrem de falta de empenho na resolução de casos. “O ideal é o SUS trabalhar de forma preventiva, cumprindo o papel de vigilante das condições de saúde no ambiente de trabalho”, sugere a  médica, para quem o problema central é estrutural.

“Principalmente para minimizar transtornos mentais, Estado e capital privado não  incorporaram  o ser humano dentro da equação de sustentabilidade. Diante da  competitividade exacerbada, falta de solidariedade — uma vez que cada um quer salvar seu emprego — e ameaças de enxugamento e demissão, é preciso pensar no desenvolvimento do trabalhador enquanto cidadão, deixar de lado  a visão economicista excessiva”, opina Maria.

Ela cita o exemplo das “práticas” recentemente acordadas por  empresas,  sindicatos e governo  para melhorar a qualidade de vida do cortador de  cana:  “Determinam que o trabalhador precisa se hidratar  e fazer  ginástica laboral. Alguém precisa me falar que eu preciso tomar água? Que fundamento científico atesta que a ginástica laboral  vai diminuir a penosidade do trabalho do cortador. Não me parece algo sério”, critica a médica.

Outro  setor  onde  as discussões sobre  saúde  no trabalho são bastante acaloradas é o bancário. Sindicalistas   reclamam,   principalmente,  das  cobranças por  metas exageradas, constrangimentos  e atitudes autoritárias de superiores e associam esses problemas ao desenvolvimento  de   mazelas   por parte  dos trabalhadores, com ênfase aos transtornos mentais, como estresse e depressão.

Walcir  Previtale,  secretário nacional de saúde do trabalhador da Confederação Nacional dos Trabalhadores do  Ramo Financeiro  da Central Única dos Trabalhadores (Contraf-CUT), conta que questões ligadas à saúde e às pressões psicológicas  no  ambiente de trabalho têm  ganho cada  vez mais espaço na pauta de reivindicações sindicais no setor financeiro.

Em 2012, bancários e banqueiros entraram em acordo para incluir três itens sobre saúde e segurança do trabalho no dissídio coletivo da categoria. Um deles garante antecipação salarial se o trabalhador precisar se afastar.  Os outros dois  sistematizam procedimentos para dar mais agilidade no encaminhamento de acidentes de trabalho.

“Leva tempo para o profissio nal receber o benefício do INSS, tem que agendar a perícia e esperar o resultado. Nesse ínterim ele continuará recebendo do banco e quando os benefícios começarem a entrar, ele devolve o valor à empresa”, explica Previtale.

Magnus  Ribas, diretor de relações do trabalho da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), pondera que é “cientificamente” difícil estabelecer correlação entre doenças mentais e trabalho e que o setor bancário é o único que fornece plano de saúde  para seus mais de 500 mil trabalhadores e familiares.

Segundo ele, recentemente os dez maiores bancos  brasileiros criaram uma comissão  para  tratar da saúde laboral. O objetivo é criar 20 diretrizes para  melhorar a qualidade de vida no trabalho.

Sobre o problema relacionado a pressões  e constrangimentos nas agências, o executivo conta que os maiores bancos  do país criaram uma espécie de “disque-denúncia”, um canal de comunicação do bancário com uma área neutra do departamento de recursos  humanos ou da ouvidoria para o registro anonimamente ocorrências. De acordo  com levantamento da Febraban, no primeiro semestre de 2012 foram  registradas 132 denúncias de bancários

Hospital francês testa em fevereiro vacina para tratamento da Aids

na Agência Brasil

No próximo mês, quase 50 pacientes voluntários do hospital de Marselha, no sul da França, vão receber uma vacina que foi desenvolvida no país para o tratamento da aids. A vacina, que ainda está em estudo, é pesquisada há mais de 15 anos.

Foto: tonrulkens/Flickr

Foto: tonrulkens/Flickr

De acordo com as equipes responsáveis, os testes feitos em macacos nesse período mostraram resultados positivos: o HIV deixou de ser detectado pelos exames depois de dois meses de tratamento. Os resultados motivaram a Agência Francesa de Segurança de Remédios a autorizar o início dos testes em humanos.

Os voluntários vão receber, durante quatro meses, doses com porcentagens variáveis da vacina desenvolvida pela equipe do professor Erwann Lorett. Se o resultado for positivo nesses casos, mais 80 pacientes também serão vacinados.

Mesmo diante da notícia, especialistas recomendam prudência. Os pesquisadores lembram que a nova esperança para os portadores do HIV não é diretamente combater o vírus, mas reforçar o sistema imunológico, substituindo os pesados tratamentos com o coquetel de remédios contra a aids, que tem muitos efeitos colaterais.

Representantes da Agência Francesa de Pesquisa contra a aids e da associações de luta contra a doença adotaram um tom de cautela diante da notícia, ao lembrar que atualmente existem cerca de 25 vacinas contra a Aids sendo testadas no mundo. Segundo essas instituições, se a eficiência das vacinas for comprovada, os soropositivos vão poder, na melhor das hipóteses, controlar o vírus, mas não eliminá-lo do organismo.

*Com informações da Rádio França Internacional

*Matéria originalmente publicada na Agência Brasil

Brasil: 37º em ranking de qualidade de vida

Brasil está apenas na 37ª posição em ranking de qualidade de vida

Apesar dos avanços econômicos dos últimos anos, o país não consegue obter uma classificação melhor

Por Rosana Hessel no Correio Braziliense

Esgoto a céu aberto na Cidade Estrutural: metade dos brasileiros não tem saneamento (Adauto Cruz/CB/D.A Press. )Nos últimos anos, o Brasil ganhou o status de potência econômica mundial. Em 2012, com um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,42 trilhões, ocupou a posição de sétima maior economia do mundo, depois de ter figurado momentaneamente, no ano anterior, em sexto lugar, à frente do Reino Unido. O país tem avançado também em outros aspectos, como melhoria de renda das classes mais baixas. Tudo isso, no entanto, ainda não foi suficiente colocar o país na linha de frente das nações em que a população desfruta de boa qualidade de vida. Nesse campo, estamos muito atrasados e em situação pior da existente em países muito mais pobres ou que atravessam crises gravíssimas, como a Grécia.

Ao longo desta semana, em uma série de reportagens, o Correio mostrou a vida difícil dos brasileiros que vivem na periferia dos grandes centros ou em locais distantes do interior, abandonados pelo poder público. Nessas regiões, faltam serviços essenciais, como fornecimento de água, saneamento básico, hospitais, salas de aula, bancos, correios e até luz elétrica. Esse retrato dramático das carências nacionais, que ainda sujeita mais da metade dos brasileiros a viver sem coleta de esgotos, por exemplo, se reflete em estatísticas e estudos que procuram avaliar não apenas o PIB, mas a efetiva qualidade de vida da população.

Uma pesquisa da consultoria britânica Economist Intelligence Unit (EIU), divulgada no fim do ano passado, é um exemplo de quanto ainda precisamos evoluir. No levantamento, apesar de ter uma das 10 maiores economias do planeta, o país não é um dos 10 melhores lugares do mundo para se nascer — ocupa a 37ª posição de um ranking liderado pela Suíça, com a Nigéria em 80º e último lugar. A Argentina ficou no 40° posto, mas à frente do Brasil estão Chile (23º), República Tcheca (28º), Costa Rica (30°), Polônia (33º) e Grécia (34º). O estudo leva em conta variáveis como renda, taxa de criminalidade, igualdade entre homens e mulheres, qualidade da vida familiar e comunitária, expectativa de vida, liberdade política e transparência e eficiência do governo.

“O Brasil ainda é muito desigual de origem e, tendo em vista que só há pouco começamos a combater a pobreza, isso nos deixa atrás desses países citados”, avaliou o professor de relações internacionais da Universidade Católica de Brasília Creomar de Souza. “Acredito que temos melhorado, mas a questão primordial é a baixa velocidade das mudanças”, completou. Esse ritmo lento é o que explica por que o país, apesar dos ganhos registrados nas últimas décadas, perdeu terreno no ranking dos que oferecem boa qualidade de vida. Em termos simplificados, outras nações se desenvolveram mais rápido.

Perdendo terreno
Em 1988, levantamento semelhante da EIU trazia o Brasil na 30º colocação e os Estados Unidos na liderança. A Grécia estava em 27º, a Argentina, em 21º, e o Chile nem aparecia na lista. O economista responsável pela pesquisa atual, Laza Kekic, não se sentiu à vontade para comparar os dois estudos. “As metodologias são diferentes, por isso eles não são comparáveis”, afirmou.

Especialistas ouvidos pelo Correio, no entanto, explicam que, para entender a perda de posição brasileira, basta olhar para duas referências fundamentais quando o assunto é nível de vida: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), e o Índice de Percepção da Corrupção (CPI, na sigla em inglês), da Transparência Internacional (TI). Neles, o Brasil aparece na 84º e na 69ª colocações, respectivamente. “O avanço da renda do brasileiro não é suficiente para garantir a ele boa qualidade de vida”, disse Otto Nogami, professor de Economia do Insper. “Ainda há muito a ser melhorado em áreas como transporte urbano, saúde e educação.”

O IDH é elaborado com base em dados sobre o nível educacional da população, renda per capita e expectativa de vida ao nascer. O país avançou nesses três itens, mas não tanto quanto necessário. A expectativa de vida chegou a 73,4 anos, a renda per capita mais que dobrou entre 1988 e 2012, alcançando a US$ 12,02 mil, mas a educação ficou para trás. “O aumento da renda do brasileiro foi focado no consumo, e o salto de classe social não sofreu ganhos qualitativos. Priorizou-se a cultura do ter, e não se agregaram valores que só se obtêm com educação em um nível mais elevado. É com ela que conseguiremos dar um salto mais expressivo nesses outros rankings”, afirmou a psicóloga e diretora executiva do CPM Research, Oriana Monarca White.

Na década de 1970, a Coreia do Sul — que tem população um pouco maior do que do estado de São Paulo e dimensões semelhantes às de Santa Catarina — tinha um PIB inferior ao do Brasil. Mas priorizou a educação e iniciou uma arrancada que a levou a ostentar, hoje, a 15ª colocação do IDH. Dos 49,7 milhões de habitantes, 99% são alfabetizados e têm acesso ao que há de mais moderno em matéria de tecnologia. Em termos de qualidade do sistema educacional, o Brasil ficou em penúltimo lugar em um ranking de 40 países em outro estudo encomendado pela EIU. A Coreia do Sul foi a vice-líder, atrás da Finlândia.

Violência

Na avaliação de Oriana, a valorização do consumo pode ter ajudado a estimular a economia nos últimos anos, mas gerou animosidade entre os que têm menos ou poucos bens. Isso explicaria, em parte, o aumento da violência nos grandes centros urbanos e o uso de drogas, por exemplo. Ela cita também o aumento na percepção de corrupção na esfera pública, devido, especialmente, ao maior acesso à informação. No geral, países mais corruptos são os que têm piores indicadores sociais, já que recursos públicos que poderiam ser empregados em programas para beneficiar toda a população são desviados em nome de grupos que se aproveitam das fragilidades no controle das finanças do governo.

O diretor do escritório brasileiro da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), Carlos Mussi, pondera que é difícil comparar os dois estudos da EIU, mas reconhece que a desigualdade ainda é evidente no Brasil, apesar de o país ser admirado pelos nossos vizinhos latino-americanos mais pobres. “A qualidade de vida para a maior parte da população melhorou em termos de emprego e renda, mas o desafio, em geral, é a qualidade dos serviços públicos e da infraestrutura do país. Eles não acompanharam o crescimento”, pontuou.

Nogami, do Insper, também ressalta as diferenças entre os dois estudos da EIU e lembra que a pesquisa, além de considerar fatores empíricos, a exemplo de indicadores econômicos, políticos e sociais, também leva em conta elementos subjetivos. “Não podemos interpretar tudo o que mostra o estudo, mas uma leitura superficial aponta o abismo social que ainda existe no Brasil e a necessidade de melhorar a infraestrutura, especialmente em relação à saúde pública e ao saneamento básico”, ressaltou. Para Creomar Souza, é preciso ainda “definir um modelo educacional consistente, que prepare as futuras gerações para os desafios de uma economia global cada vez mais complexa”. Além disso, pondera, “os serviços públicos precisam estar focados no atendimento ao público e não no conforto do servidor”.

>» Reformas
necessárias

Os especialistas observam que além de melhorar a educação e a infraestrutura, é preciso realizar as reformas estratégicas, como a tributária. “Uma empresa quebra aqui de tanto imposto que tem de pagar”, critica Oriana White, da CPM Research. Otto Nogami, do Insper, adverte que o país subiu no ranking econômico não apenas devido ao próprio crescimento, mas porque outras economias encolheram. “Quando a Europa sair da crise, o Brasil, se ficar parado, pode não se sustentar entre as 10 maiores economias”, comenta.

Temporão: “modelo híbrido público e privado gera descontrole de gastos”

Equação insustentável
Por Rodrigo Martins na Carta Capítal

Uma bomba-relógio ameaça a saúde brasileira. Até 2030, haverá mais cidadãos acima de 60 anos do que entre 18 e 49 anos. Com o envelhecimento da população, o número de portadores de doenças crônicas deve aumentar, com inevitável impacto nas contas do SUS. As despesas médicas da rede pública podem crescer até 149% nos próximos 20 anos. Quadro que deve se agravar com a manutenção da atual tendência. O País passa por um processo de “americanização” de seu sistema de saúde, com a perda de controle dos gastos causada pela hiperespecialização médica, pela pressão da indústria para o custeio de tecnologias de eficácia duvidosa e a falta de regulamentação do mercado privado.

Diagnóstico. O modelo híbrido público e privado gera descontrole de gastos, avalia o ex-ministro. Foto: Adriana Lorete

Diagnóstico. O modelo híbrido público e privado gera descontrole de gastos, avalia o ex-ministro. Foto: Adriana Lorete

O sombrio diagnóstico é do sanitarista José Gomes Temporão, ex-ministro de Lula e coordenador-executivo do Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde (Isags), criado há dois anos pela Unasul. “Além de ampliar os recursos para a saúde pública, é preciso acabar com os subsídios do governo ao mercado, incluído o abatimento de despesas médicas do Imposto de Renda”, propõe, em entrevista aCartaCapital. “Hoje, estima-se que a soma das isenções fiscais e dos gastos do governo com planos privados para funcionários públicos chegue a 15 bilhões de reais por ano. É muita coisa, diante do sufoco financeiro da rede pública.”

CartaCapital: Durante a sua gestão, o Ministério da Saúde deu grande ênfase ao Programa Saúde da Família. Por quê?
José Gomes Temporão: Há um consenso entre os especialistas de que não é possível ter um sistema de saúde universal, equitativo e sustentável sem uma grande base de atenção primária. A classe média imagina que um sistema bom é aquele no qual ela pode escolher seus especialistas por conta própria. O cidadão sente uma palpitação e procura um cardiologista, sem antes passar por um clínico geral. Só que talvez o problema não seja cardíaco, então o paciente transita entre vários especialistas até acertar o diagnóstico, com um custo elevadíssimo para o sistema.

CC: A atenção primária evita o desperdício?
JGT: Os clínicos gerais funcionam como uma espécie de filtro antes de o paciente ser encaminhado aos níveis mais especializados. No Brasil, é comum um paciente não saber qual é o seu médico. Pelo Programa Saúde da Família (PSF), cada equipe fica responsável por um conjunto de pessoas que passam a ser monitoradas pelo mesmo médico. Por acompanhá-los há muito tempo, o profissional não pede exames desnecessários, sabe se o paciente tem diabetes ou hipertensão, quando é necessário um especialista. O PSF cobre 55% da população. Mas, grosso modo, ainda está restrito aos pequenos e médios municípios.

CC: Alguma explicação para esse fenômeno?
JGT: Primeiro, as faculdades não formam médicos preparados para essa visão. Há uma hiperespecialização precoce. No Canadá, as bolsas e vagas para residência médica são definidas pelo governo. Em 2012, a grande maioria das vagas disponíveis era para clínicos gerais. Em número bem menor, havia vagas para cardiologistas, neurologistas e outras especialidades. Há também uma visão ideológica, alimentada pelo lobby da indústria, de que o importante são as inovações tecnológicas, o aparelho mais moderno de ressonância magnética. Precisamos nos decidir. Vamos seguir o caminho trilhado pelo Canadá ou o modelo dos EUA, esse laissez-faire que leva à perda de controle dos gastos?

CC: Hoje o SUS atende 75% da população. Mas o mercado de planos de saúde cobre 48 milhões de brasileiros. Esse modelo híbrido, público e privado, não ameaça a equidade?
JGT: Esse é o ponto central da discussão: o risco de americanização do sistema de saúde brasileiro. A partir do mesmo momento que a Constituição garantiu a saúde como um direito de todos, os sucessivos governos negaram os recursos necessários para garanti-lo. Isso começa no início dos anos 1990, quando o então ministro da Previdência, Antônio Britto, retira a saúde da Seguridade Social e joga para o Orçamento fiscal da União.

CC: A Constituição ampliou o acesso à saúde para todos. Mas os recursos da Previdência deixaram de financiar o setor.
JGT: Sim, e os trabalhadores que antes contribuíam para o extinto Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) migraram para os planos privados. Aí vem o Adib Jatene na briga pela aprovação da CPMF. O ministro consegue aprovar o novo tributo, mas boa parte da arrecadação é desviada para outros setores. A regulamentação da Emenda 29 estabelece cotas de investimento em saúde para estados e municípios, mas a regra não vale para a União. O gasto porcentual do governo federal está em queda. Além disso, há uma série de iniciativas que sugam recursos do SUS, como a autorização para abater despesas com saúde privada no Imposto de Renda da classe média. Hoje, estima-se que a soma das isenções e dos gastos do governo com planos privados para funcionários públicos chega a 15 bilhões de reais por ano. É muita coisa, diante do sufoco da rede pública.

CC: Mas os planos de saúde não desafogam o SUS?
JGT: É um processo idêntico ao que aconteceu com a escola pública. Amplia-se o acesso à educação, falta dinheiro e a qualidade do ensino cai. A classe média foge para as escolas privadas, que são sustentadas com uma série de renúncias fiscais. O processo de fragilização do sistema público tem sido construído ao longo de décadas. Na Inglaterra, 85% do gasto em saúde é público, no Brasil, cerca de 60% é privado.

CC: E qual é a solução?
JGT: Convém analisar os grandes números do Orçamento fiscal da União. Do total da arrecadação, superior a 1 trilhão de reais no ano passado, 46% foi usado para honrar os compromissos da dívida interna. Depois, há as despesas fixas, como pagamento da máquina pública e os gastos da Previdência Social. Para a saúde, sobram apenas 4%. Precisamos de um novo imposto? Acho que não. Há recursos suficientes, só que é necessária uma mudança política de apropriação e distribuição dos recursos gerados pelos cidadãos.

CC: O senhor puxou essa discussão dentro do governo?
JGT: Sim, mas há uma visão muito presente, sobretudo na área econômica do governo, de que a saúde já tem muito dinheiro, mas o sistema é ineficiente. Todos defendem o SUS no discurso, mas a burocracia estatal tem planos privados custeados pelos nossos impostos. É simbólico ver o presidente Lula, ao adoecer, procurar o melhor hospital particular do País, e não um da rede pública.

CC: O que pode ser feito?
JGT: Além de ampliar os recursos para a saúde pública, é preciso acabar com os subsídios do governo ao mercado, incluído o abatimento de despesas médicas no Imposto de Renda. Hoje, se a dona Maria, moradora de Copacabana, acordar um dia, olhar para o espelho e achar que o seu busto precisa ser aumentado, ela faz uma cirurgia estética e abate 100% do valor devido no Imposto de Renda. Depois, vem o Congresso e aprova uma lei que obriga iniciar o tratamento do paciente com câncer em até 60 dias…

“Nos próximos anos, aumentará o número de pessoas com doenças crônicas e os gastos do sistema”, avalia Temporão. Foto: Raul Spinassé/ Agência A Tarde/ Estadão Conteúdo.

“Nos próximos anos, aumentará o número de pessoas com doenças crônicas e os gastos do sistema”, avalia Temporão. Foto: Raul Spinassé/ Agência A Tarde/ Estadão Conteúdo.

CC: Não é uma boa medida?
JGT: É uma lei carregada de boas intenções. Mas o mesmo Parlamento que aprovou essa lei é aquele que nega ao SUS recursos para que ela seja cumprida. Para que todos os pacientes diagnosticados com câncer tenham o seu tratamento iniciado imediatamente, precisamos dobrar ou triplicar a capacidade instalada, o número de hospitais e centros de tratamento.

CC: Muitos pacientes tentam fazer valer seus direitos na Justiça, quando um tratamento de alto custo é negado pelo SUS.
JGT: A questão é: esse tratamento é necessário? Hoje é muito comum o cidadão se consultar com o Dr. Google. Ele acorda de manhã, entra na internet, descobre a sua doença e vai ao médico cobrar uma providência. Muitas vezes o que está manifestado nos processos judiciais é um desejo do paciente, e não uma necessidade. Trata-se de um desejo fabricado pelas campanhas de marketing, pelas reportagens que anunciam curas milagrosas, pela cultura moderna de ter acesso ao medicamento mais moderno, mesmo que a eficácia dele não tenha sido comprovada.

CC: O que fazer?
JGT: A presidenta Dilma Rousseff sancionou uma lei importante, que cria a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias em Saúde (Conitec). A partir de agora, esse comitê determinará se uma tecnologia será incorporada ao SUS ou não. Antes disso, serão realizados estudos de custo-efetividade. É preciso ter uma estrutura de regulação, com critérios rígidos, para que essas tecnologias atendam todos, e não somente uma parcela da população.

CC: O Brasil está preparado para a transição demográfica pela qual estamos passando?
JGT: Em 2030, vamos ter mais brasileiros acima de 60 anos do que entre 18 e 49 anos. A população envelhece de maneira muito rápida. O que levou um século para acontecer na França, demorou 50 anos para ocorrer no Brasil. Hoje, os casais têm poucos filhos, as pessoas tendem a viver mais tempo. Aumentará o número de pessoas com doenças crônicas e os custos do sistema.

CC: Segundo o Instituto de Estudos sobre Saúde Suplementar (IESS), os custos do SUS aumentarão 149% até 2030.
JGT: Esse novo perfil demográfico vai exigir uma profunda mudança na organização do sistema de saúde. A Organização Mundial da Saúde estima que, nos próximos 20 anos, demências senis, Alzheimer, depressão e distúrbios neuropsíquicos serão as doenças que mais vão impactar os sistemas de saúde. A assistência médica no Brasil ainda é muito focada no atendimento de casos agudos, urgência e emergência. Precisaremos nos reorganizar.

CC: E o Brasil ainda é um grande consumidor de tecnologia estrangeira, não?
JGT: Sim, e felizmente o governo deu continuidade a um projeto iniciado na minha gestão, o fortalecimento do complexo industrial da saúde. Tivemos a ampliação do mercado de genéricos, as parcerias público-privadas para a internalização da produção de medicamentos e outras tecnologias. Nos próximos cinco anos, o Brasil vai incorporar 50 novos equipamentos de radioterapia. Tradicionalmente, seria feita uma licitação internacional. O País compra os equipamentos, instala e opera. Como está sendo feito? O Brasil chama a multinacional, mas exige a construção de uma planta em seu território, a transferência de tecnologia.

CC: As políticas de redistribuição de renda tiveram algum impacto na saúde?
JGT: Veja o exemplo da redução da mortalidade infantil. É evidente que o PSF, o acesso ao pré-natal e o programa nacional de imunização tiveram um impacto significativo. Mas também a mudança no acesso à alimentação, a ampliação da rede de saneamento, o maior grau de escolaridade da mãe e o Bolsa Família. Uma vida mais saudável não depende só de um bom sistema de atenção médica. É preciso olhar para as causas das doenças. E muitas delas residem na distribuição da riqueza, no acesso à educação, ao saneamento, à segurança pública.

CC: Cerca de 50 mil brasileiros morrem anualmente por causas violentas, homicídios, sobretudo.
JGT: O Brasil sofre o que chamamos de tríplice carga sobre a mortalidade. Morremos de moléstias do mundo desenvolvido, como problemas cardiovasculares e câncer. Mas ainda há muitas mortes causadas por doenças tropicais, como tuberculose, dengue, malária, hanseníase. A terceira carga é a violência. Homicídios, agressões interpessoais. É preciso introduzir políticas públicas para famílias em situação de vulnerabilidade social, para garantir o pleno desenvolvimento da criança ao lado da mãe. É o que chamamos de cuidados com a primeira infância. Recentemente, a presidenta Dilma ampliou o programa Brasileirinhos e Brasileirinhas Saudáveis. Nasceu como uma coisa pequena em minha gestão, e agora ganhou dimensão nacional. É um caminho virtuoso, pois a criança abandonada está mais vulnerável à violência.

CC: Como o senhor avalia o trabalho do seu sucessor no Ministério da Saúde?
JGT: Percebo grande grau de continuidade, com as marcas do governo Lula, que foram a implantação do Samu, da Farmácia Popular, do Programa Saúde da Família, o fortalecimento do complexo industrial da saúde. Mas há novidades, a começar pela maior ênfase na gestão. Houve, por exemplo, a regulamentação de um dos artigos da lei do SUS que cria a possibilidade de contratos de gestão entre União, estados e municípios, para a implantação de redes integradas de atenção. Pela primeira vez, será possível fazer uma espécie de contratualização de metas e recursos entre os entes públicos. Padilha também conseguiu avançar na criação de um ranking para avaliar o desempenho de estados e municípios.

CC: No que consiste o seu trabalho na Unasul?
JGT: A Unasul surgiu em 2009, com o objetivo de promover a integração dos países da América do Sul na área econômica, de defesa, comunicações, transporte. E, desde o início, a saúde colocou-se de maneira muito forte. Aprovamos um plano com cinco prioridades: determinantes sociais da saúde, sistemas universais, vigilância sanitária e epidemiológica, acesso a medicamentos e formação de recursos humanos. A proposta é colocar à disposição dos governos as melhores evidências para resolver problemas práticos, formar quadros, coordenar estudos e pesquisas.

CC: Algum resultado prático?
JGT: Em 2011, durante a Conferência Internacional sobre Determinantes Sociais na Saúde, a Unasul apresentou uma posição conjunta diante de 160 países. Houve também o caso de uma carga para a produção de genérico no Brasil que foi retida em um porto na Holanda ilegalmente, sob a desculpa de que era produto falsificado. A Unasul apresentou uma queixa na Organização Mundial do Comércio. Há muitos projetos em andamento, como o esforço para estruturar organismos de vigilância sanitária na América do Sul. O Brasil está avançado e pretende ajudar os seus vizinhos com a experiência da Anvisa. 

Nem comunidades, nem terapêuticas

Entidades privadas e grupos religiosos usam verbas do governo para atuar no lugar do Estado, com métodos terapêuticos questionáveis.

Por Gabriela Moncau na Caros Amigos

A van branca chegou, seguida por um carro. Se alguns acharam o movimento suspeito, já que no vale do Anhangabaú não é permitida a circulação de carros, os moradores de rua, em sua maioria usuários de crack, agiram com naturalidade e assim que a avistaram se aproximaram ansiosos. Naquele domingo chuvoso, um pouco de comida para os que passam as noites embaixo do Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, era bem vinda. O motorista e um homem que parecia ser um segurança particular permaneceram dentro do carro, observando a família bem vestida que descia da van e se enfileirava na frente dos alimentos. Os moradores de rua, mostrando que já conheciam o ritual, manejavam a paciência que o estômago vazio os permitia ter, e esperavam calados. Não houve conversa, nem cumprimentos. Somente depois de uma longa pregação religiosa, tiveram direito ao pão francês puro e um copo de leite. A família rapidamente entrou na van de vidro fumê e partiu.

ComunidadeTarapeuticaChargeA complexa relação entre as igrejas e os cuidados que em teoria deveriam ser assegurados pelo Estado enquanto direitos mínimos tem tomado outra dimensão nos últimos meses, ao menos no campo da saúde mental. Apesar de não ser a droga mais consumida nem a que causa maior número de mortes, o crack dominou o debate acerca de consumo de psicoativos e uma suposta epidemia que estaria se espalhando pelo Brasil – mesmo sem que a comprovem – vem embasando uma série de políticas governamentais. Não à toa a presidenta Dilma Rousseff lançou ao final do ano passado o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e outras drogas, no qual investirá R$ 4 bilhões. Sob o slogan “Crack, é possível vencer”, o plano não traz grandes novidades no que diz respeito à repressão, fomentando maior militarização e treinamento de policiais. O que chamou a atenção de muitos, no entanto, foi o modo como o dinheiro público será usado nas políticas de tratamento: se por um lado haverá aplicação de verba na rede intersetorial de atenção psicossocial do SUS, como os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), por outro, foi oficializado o financiamento público de comunidades terapêuticas, centros privados de tratamento para dependentes químicos, majoritariamente ligados a grupos religiosos.

De nada adiantou o posicionamento de rechaço ao financiamento das comunidades terapêuticas da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, tampouco da XIV Conferência Nacional de Saúde, que reuniu cerca de 50 mil pessoas: poucos dias depois o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apresentava o plano e as parcerias com a rede de serviços “do terceiro setor”, que trabalham com “abordagens terapêuticas as mais variadas possíveis”.

De acordo com o secretário nacional de Atenção à Saúde, Helvécio Magalhães, o total de recursos que o Ministério da Saúde está destinando até 2014 para CAPS AD 24h, Unidades de Acolhimento adulto e infantojuvenil, Consultórios na Rua e leitos psiquiátricos em Hospital Geral é de R$ 1,56 bilhão. As comunidades terapêuticas receberão R$ 300 milhões no mesmo período, sem contar investimentos na portaria de financiamento de vagas de acolhimento nessas instituições, que ainda não tem previsão de gasto. Magalhães explica que “o Ministério da Saúde mantém um diálogo com essas entidades, aproveitando as experiências positivas e regulando o setor”. “Veja que a constituição já garante que as instituições privadas poderão participar de forma complementar do SUS”, diz, e argumenta que “é necessário oferecer uma variedade de opções que atendam à diversidade de necessidades e contextos em que se instala a dependência às drogas”. Vejamos melhor como funciona essa forma de tratamento que, com dinheiro estatal, correrá em paralelo aos equipamentos do Sistema Único de Saúde (SUS).

Princípios

Paulo Amarante, psiquiatra, pesquisador da Fiocruz, presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME) e diretor do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), no artigo “Política anticrack – epidemia do desespero ou do mercado antidroga?”, descreve a diferença entre os princípios da comunidade terapêutica no mundo e as cerca de 3 mil existentes hoje no Brasil, que atendem aproximadamente 80% da demanda de tratamento por uso de drogas. Conta que conheceu a ideia das comunidades terapêuticas a partir de um de seus idealizadoras, Maxwell Jones, um psiquiatra inglês do pós guerra “que demonstrou, antes mesmo do advento dos psicofármacos, que o envolvimento dos pacientes psiquiátricos em seu próprio tratamento pode ser um dos principais princípios terapêuticos”.

Já das comunidades brasileiras, ouviu falar pela primeira fez em um encontro com o jornalista Tim Lopes, que lhe mostrou fotos e vídeos que havia pesquisado: “Cenas de violências e maus tratos, de extorsão de familiares, de inúmeros constrangimentos. Ele me confidenciou, inclusive, que estava assustado por haver recebido ameaças”, relata, concluindo: “Além do tom de fraude que o uso de tal terminologia implica (comunidade terapêutica), pude constatar que a fraude encobria algo absolutamente oposto aos ideais de Maxwell Jones”.

Essas instituições no Brasil, em sua maioria, funcionam em algum sítio afastado do centro urbano, por serem orientadas por uma lógica da imposição da abstinência e separação do sujeito de qualquer contato com a sociedade (para não interromper o tratamento ou ter acesso facilitado à droga). “Foram surgindo na iniciativa privada, especialmente por setores religiosos que se interessaram por criar comunidades – que não são serviços de saúde e nunca foram – com caráter de uma instituição mais de abrigamento. Defendem em sua maioria a cura pela conversão religiosa”, define Humberto Verona, presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP). Para ele, “a função da comunidade terapêutica passou a ser ocupar um espaço que não vinha sendo ocupado pela política pública”. “E aí cada um se desenvolveu dentro da sua lógica. A maioria delas tem no seu método os pressupostos das religiões que as sustentam”, afirma.

Fábio Mesquita, médico pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em saúde pública pela USP, foi um dos pioneiros da política de redução de danos (conjunto de políticas e práticas cujo objetivo é reduzir os danos associados ao uso de drogas psicoativas em pessoas que não podem ou não querem parar de usar drogas) na América Latina, quando coordenava o programa de AIDS em Santos, em 1989. Trabalha na Ásia há 7 anos e atualmente coordena o programa de AIDS da Organização Mundial da Saúde (OMS) no Vietnã. “A OMS trabalha com propostas na área de saúde que são baseadas em evidência científica. Não há evidência científica que o tratamento de dependência química funcione com a abordagem destas instituições”, salienta. “Além disto, o isolamento do doente da sociedade é uma medida atrasada, violenta, artificial e não reabilitadora. O modelo psiquiátrico manicomial foi derrotado no Brasil na reforma psiquiátrica”, opina. Ao contar de uma intervenção a qual participou em 1989 em Santos, no manicômio Casa de Saúde Anchieta, quando defendeu o tratamento ambulatorial para os que sofriam de transtornos mentais, apontou que “os psiquiatras conservadores que viviam financeiramente do desespero das famílias e faziam fortunas com as clínicas de internação resistiram o quanto puderam ao fim do manicômio”. “Agora me parece que acharam outro nicho”, analisa.

Cárcere privado

A Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia fez uma grande inspeção ao final do ano passado, visitando simultaneamente 68 comunidades terapêuticas em 25 unidades federativas do país, a partir da percepção de que o tema das drogas muitas vezes “insiste em vincular ‘tratamento’ à noção de castigos ou penas advindos de um ideal normativo que não suporta a transgressão como parte de um devir humano, reduzindo à condição de objeto e privado da cidadania os sujeitos-alvos das ações impostas”. As denúncias de violações de direitos humanos trazidas pelo relatório, divulgado recentemente e entregue ao Ministério Público e à ouvidoria dos direitos humanos, evidenciam um paradigma preocupante das instituições que agora foram institucionalizadas como modelo de tratamento pelo governo federal.

Para citar alguns exemplos:

- Clínica Terapêutica Divina Misericórdia, Alagoas. Sustentada financeiramente por pagamento de mensalidade e seguindo preceitos do catolicismo, recebe usuários encaminhados pela promotoria pública para internação compulsória, entre outros. Os internos podem se comunicar com o mundo externo somente por carta, uma vez por semana, dependendo do comportamento, sendo que todas as correspondências são lidas pelos psicólogos. Não podem fumar cigarro nem receber visita íntima, seus objetos pessoais e documentos são guardados pela direção da instituição. Existe um quarto com duas camas de alvenaria e grade na porta, trata-se de um espaço “utilizado para resguardar o usuário”, de acordo com entrevistados pelos inspetores. Após a terceira advertência, o interno é preso nesse quarto por 24h. Segundo a comunidade terapêutica, a prática é ótima, pois o interno “fica refletindo o ocorrido”. Foi confirmado, ainda, que pessoas portadoras de HIV não recebem medicação e cuidado adequado.

- Casa de Recuperação Valentes de Gideão, Bahia. Os responsáveis pela instituição não souberam informar o valor da mensalidade, dizendo ainda que o pagamento é opcional. Os internos, no entanto, afirmaram que o pagamento é obrigatório, cerca de R$ 300, e que frequentemente o dono fica com o cartão de benefício de prestação continuada ou do Programa Bolsa Família. Sem prontuário médico ou descrição da doença do paciente, a técnica de enfermagem não soube dizer a proposta metodológica da unidade, mas afirmou que não funcionam segundo nenhuma religião. Curiosamente, o dono da comunidade terapêutica é um pastor, há uma igreja dentro das dependências da instituição e alguns de seus funcionários são da Igreja Neopentecostal. As crises de abstinência são vistas como possessões demoníacas e um funcionário expôs que nesse caso, a estratégia é a oração. Em conversa com os pacientes, muitos internados contra a vontade, o relato unânime foi de que o tratamento é “na porrada”: ficaram evidentes locais de isolamento com trancas, a unidade apresenta histórico de denúncias de prática de espancamento (em 2009 e 2011) encaminhadas ao Ministério Público Estadual e recentes casos de fugas.

Além da superlotação (com 16 pessoas a mais que a capacidade máxima), a unidade tem um galpão cujo acesso era restrito, com grade e cadeado, escondido por muros, onde há internos. As condições são absolutamente insalubres, com fezes e urinas pelos cantos, banheiro descoberto e sem vasos sanitários, dois chuveiros sem aquecimento, esgoto a céu aberto, quartos sem janelas, camas de cimento e madeira muitas vezes sem colchões, lençóis ou travesseiros. “A maioria dos internos estava descalço, sem evidências de possuir algum calçado, muitos seminus, sem higiene”, diz o relatório, que chama atenção ainda para o fato de que havia um paciente com tuberculose em decorrência do frio e da umidade e que presenciou um interno com deficiência física que se arrastava no chão para se locomover, sem ter acesso a nenhum tipo de auxílio que lhe facilitasse o deslocamento. Funcionários disseram que o período de internação normalmente é de 3 a 4 meses, mas internos afirmaram estar de 4 a 5 anos na comunidade terapêutica. “Há funcionários que exercem a função de vigia, usando colete de segurança, enfatizando a função de encarceramento dos internos”, descreve o relatório.

- Portal do Renascer, Rio de Janeiro. A ONG, filiada à Fundação para a Infância e Adolescência (FIA), permite visitas depois de duas semanas de internação, aos sábados, durante 1h e meia, na qual os parentes são revistados e só podem entrar quatro adultos por dia de visita. A fiscalização identificou medicamentação excessiva, encontrando adolescentes dopados. Muitos disseram que fazem uso de mais de uma substância por dia e que se ficam agitados ou “perturbam”, a dose é aumentada. O pátio abriga um mural com fotos de alguns internos “destaques do mês”, onde se lê “Homenagem aos garotos com bom comportamento (sem fuga). No próximo mês, queremos ver as fotos de todos”. “Um dos conselheiros afirmou que há um menino que precisa ficar em quarto separado dos demais por causa do ‘problema de homossexualidade’”, narram os relatores. Quanto às várias fugas dos últimos meses, o coordenador classificou como um “modismo passageiro”. De acordo com os adolescentes, quando fogem e são pegos, podem ficar até 5 dias presos no quarto sem sair. Recebem alimentação, mas a água é da pia.

- Clínica Gratidão, São Paulo. A mensalidade é de R$ 700 a R$ 1000 e, segundo o diretor, quando a família pede para tirar o filho da unidade por não ter dinheiro, ele parafraseia o Padre Haroldo, de Campinas: “Venda sua geladeira, seu botijão de gás e o que mais você tiver em casa para pagar o tratamento de seu familiar, porque se ele sair daqui vai vender isso tudo para comprar drogas”. A direção afirmou trabalhar a “espiritualidade” e não uma religião específica, mas há um pastor evangélico e culto todos os dias, com participação obrigatória dos internos. Um paciente espírita disse, ainda, que seu livro do Allan Kardec lhe foi retirado e queimado. O não cumprimento das regras enseja punições como proibição de fumar cigarro, impedimento de contato com a família, escrita reiterada do Salmo 119 da Bíblia, isolamento em um quarto, obrigatoriedade de cavar um buraco das dimensões de seu corpo “para que a pessoa veja que quando não obedece, está cavando a própria cova” e agressões físicas. Foi relatada, inclusive, a existência de um pedaço de madeira usado para bater nos internos, onde estaria escrita a palavra “Gratidão”.

A abstinência sexual é estimulada para “não desviar o tratamento espiritual”. “Muitos se consideram presos e desejam deixar a internação, mas são impedidos. Mesmo internos que ingressaram na unidade voluntariamente questionam o acesso limitado aos profissionais – psicólogo e psiquiatra apenas uma vez por semana – e a proibição de saída e de contato com a família”, apresenta o relatório. “Foi relatado que algumas pessoas são levadas, à noite, para agressão no campo. Os cachorros são utilizados como ameaças, principalmente em casos de fuga”, completa. A comissão de direitos humanos verificou que todos os internos usavam chinelo de dedo. Os coordenadores da comunidade alegaram que a exigência é para evitar roubo de tênis para trocar por drogas, mas os internos afirmam que é para dificultar a fuga. A direção diz não praticar o isolamento, mas os quartos têm grades e os internos afirmaram que são trancados em um dormitório por até 3 dias.

Os pacientes reclamaram também de atendimento médico negligenciado, exemplificando com um caso de picada de escorpião, dor de ouvido, gripe e obrigatoriedade de trabalho manual (sem remuneração) mesmo quando as mãos estão machucadas. Expuseram, ainda, que os funcionários debocham da orientação sexual de uma interna travesti. A queixa a respeito de constantes ofensas e humilhações foi confirmada pelo próprio diretor, ao afirmar que como incentivo usa frases como “você não é malandrão, é um bandido fracassado”. Caso os internos tenham respeitado as regras da casa, e os familiares comprovem que estão participando de atividades de programas como o “Amor
exigente”, que orienta familiares de dependentes químicos seguindo preceitos dos “doze passos”, as visitas são permitidas depois de 45 dias de internação. Correspondências e comidas são vistoriadas, entregues de acordo com o comportamento da pessoa, e as ligações telefônicas são monitoradas, por vezes feitas com viva-voz. Jornais, revistas, internet e TV são proibidos por “prejudicarem o desenvolvimento do tratamento”.

Manicômio

“Por cargas d’água, quando coloquei o joelho no chão, papai do céu ajuda. Pensei ‘meu deus, o que estão fazendo comigo? Não é isso que eu quero para mim, isso eu tenho certeza’”. Sebastião Aparecido, de 56 anos, é usuário de crack e vive na rua, na região da Luz, na chamada “cracolândia”, há 3 anos. Em meio à correria e repressão que tem enfrentado desde o início da operação militar implementada dia 3 de janeiro por Alckmin (PSDB) e Kassab (PSD), Tião aceitou sentar e contar um pedaço de sua trajetória. “Minha família me enfiou em um manicômio e isso não é perdoável. O pessoal de lá tratava a gente bem, mas era capela 24h por dia”, conta.

Não foi informado para onde estava sendo levado, “só sei que fica para aquele canto de quem vai para Ibiúna, no meio do mato”. Fez uma longa pausa e já sem o sorriso simpático que mostrava a falta de alguns dentes, afirmou: “Menina, eu fiz 6 meses de teologia, mas quando eu quis. Não por ser obrigado. Você não tem a sua livre espontânea vontade? Pois eu também tenho a minha. Cada um procura o que acha que é melhor para si”.

Tião conseguiu fugir do lugar onde foi internado, mas foi capturado logo depois que deu um jeito de comprar um maço de cigarros na estrada. “Lá dentro distribuí cigarro para todo mundo. Não está certo ajudar um camarada que está querendo fumar um cigarro faz 4 meses? Aí eles ficaram bravos e me expulsaram, para mim foi ótimo”. Quanto à liberdade de crença, disse que não era permitido se recusar a rezar. “Se alguém não quer, é castigo. Não pode assistir televisão, nem saber o que está acontecendo no mundo. Isso é uma coisa que eu acho muito importante, sempre passo na banca para pelo menos ler a primeira página do jornal e saber o que está acontecendo”, comentou. Ao ser perguntado sobre a abordagem de instituições religiosas aos usuários de crack e a possibilidade de internação compulsória, respondeu rapidamente: “O ser humano, quando quer fazer alguma coisa, ele faz. Se ele não quiser, não vai fazer. Não adianta pegar esse povo, do jeito que está sendo feito o negócio, e querer dominá-lo”.

Laborterapia

A conclusão do relatório do CFP aponta que “o modo de tratar ou a proposta de cuidado visa forjar − como efeito ou cura da dependência − a construção de uma identidade culpada e inferior. Isto é, substitui-se a dependência química pela submissão a um ideal, mantendo submissos e inferiorizados os sujeitos tratados. Esta é a cura almejada”. Ainda a respeito dos maus-tratos e humilhações que foram constatados, como internos enterrados até o pescoço, castigo de ter de beber água do vaso sanitário ou refeições com alimentos estragados, é citado um caso de uma comunidade terapêutica feminina. E o de uma mulher que decide interromper a internação e seu filho é dado, pela instituição, para adoção.

Outro aspecto que se confirmou como regra da prática das instituições visitadas foi o trabalho forçado e não remunerado que recebe, na justificativa das direções das comunidades terapêuticas, a mesma nomeação utilizada nos hospícios: laborterapia. Sob a justificativa de trabalhar o corpo para manter a mente ocupada, a realização das tarefas que mantém a estrutura física de muitas das instituições – como o preparo das refeições, a limpeza do espaço, a lavagem das roupas – é feita inteiramente pelos internos, de modo que a contratação de funcionários para realizar esse serviço é dispensada. “Trabalha-se para combater o ócio, para limitar a liberdade e submeter à ordem. Mas, também, trabalha-se para gerar lucro para outrem”, avalia o relatório.

Para Fábio Mesquita, a política do governo federal é “esquizofrênica”: “O Brasil carece de uma política pública sobre drogas há bastante tempo e há sempre uma luta política interna entre os repressores e os mais razoáveis, mas neste governo em particular se esperava mais”. “Agora parece que a reforma psiquiátrica vale para psicótico, mas seus princípios não se aplicam aos usuários de drogas”, avalia. Mesquita diz se incomodar também com a “passividade do governo federal com medidas como as tomadas pelo prefeito do Rio de Janeiro com internações compulsórias ou como as tomadas pelo governador de São Paulo na cracolândia na ‘operação sufoco’”.

Humberto Verona também salienta mudança brusca na política de saúde mental do governo Lula para Dilma. “A gente vinha acompanhando a construção de uma proposta dentro da Coordenação Nacional de Saúde Mental. Aí entra o governo Dilma e na discussão do plano para o enfrentamento desse problema, vai mudando o rumo que vinha sendo discutido com os profissionais e os movimentos sociais, que era de trazer os princípios construídos até então para a política pública”, diagnostica.

“O princípio do SUS é da liberdade, da autonomia do usuário, do respeito”, define Verona. Para ele, o conceito de autonomia é fundamental por se contrapor ao conceito de tutela, muito presente nas políticas das comunidades terapêuticas: “O sujeito é tutelado nesses ambientes porque tem os voluntários ou os técnicos que estão no lugar de quem sabe o que é melhor para ele”. “Você pode fazer isso, não pode fazer aquilo, tem que fazer isso a tal hora, tem que rezar”, exemplifica, dizendo que o conjunto de regras “tira do sujeito a autonomia e a vontade própria”. Humberto avalia que a partir do momento em que “você acha que o outro tem que seguir rigorosamente a sua verdade para ele ficar livre do problema que você acha que ele tem, não há limites”. “O conceito do SUS é de trabalhar com o sujeito a incorporação do autocuidado, que ele tenha uma responsabilidade consigo próprio e que ele possa ser o autor da sua própria condição de vida. Não é o profissional da saúde que sabe o que é melhor e vai dar a receita para aquele sujeito seguir”, explica. O presidente do CFP critica também o fato de a presidenta da República já ter feito uma série de reuniões com as federações e associações nacionais das comunidades terapêuticas e nunca ter recebido o movimento social e os profissionais que vêm debatendo a questão da saúde mental.

Verona frisa a incompatibilidade das duas diferentes propostas de cuidado no mesmo sistema de saúde pública. “Como é que podemos fazer conviver no mesmo sistema a ideia das comunidades terapêuticas com uma proposta que trabalha autonomia, responsabilização do sujeito por seus atos, na perspectiva da redução de danos?”, questiona. “Acreditamos que a droga em si não é o demônio, é uma substância que tem efeitos, uso histórico na humanidade e precisa ser tratada com a complexidade da relação humana com substância psicoativa”, afirma, chamando atenção para o fato de que “o conceito moral sobre a substância não compete à política pública”. “Esperávamos que o Plano de Enfrentamento ao Crack trouxesse todo o recurso para investir em cuidado para a política pública do SUS, em CAPS AD 24h em todas as regiões do país, consultórios de rua etc”, critica, ao dizer que a demanda que recebem é muito maior que os recursos permitem oferecer.

Motivações políticas

A decisão de institucionalizar o financiamento público às comunidades terapêuticas é, para Fábio Mesquita, “um profundo equívoco político e um erro técnico crasso”. “A medida parece ter sido tomada por pressão de bancadas religiosas do Congresso somada a setores da psiquiatria que são alinhados com a antirreforma psiquiátrica porque perderam poder e benefícios com as mudanças na área de saúde mental”, critica.

“Não podemos afirmar nada, temos suposições”, introduz Humberto Verona: “Pelo tamanho do investimento, pela insistência em não escutar os argumentos apresentadas por várias entidades da sociedade civil, eu acho que há aí premissas de campanha, outros interesses políticos de governabilidade e jogo que estão fazendo com que a política nacional se renda a esse tipo de coisa”. “Do ponto de vista da lógica da construção da política, não tem nada que justifique essa escolha”, conclui.

No final do ano passado, a Rede Nacional de Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA) soltou uma carta pública a respeito da possibilidade de as comunidades terapêuticas serem incorporadas como um recurso do SUS. “Identificamos como ponto de sustentação das propostas apresentadas pelo governo federal, a articulação existente entre a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, setores religiosos que se expressam no Congresso Nacional e as Federações das comunidades terapêuticas que são patrocinadoras do projeto político da ministra, senadora eleita pelo Paraná”, denunciam. Gleisi, de família religiosa, já chegou a pensar em ser freira antes de entrar no PT em 1989. A ministra foi nomeada por Dilma Rousseff como a liderança do grupo de trabalho que preparou a legislação que incluiu as comunidades terapêuticas no financiamento público.

“O risco que estamos correndo é de perdermos a reforma psiquiátrica no Brasil. O raciocínio que vai chegar inevitavelmente é ‘se internar no modelo de isolamento é bom para tratar quem usa droga, então é bom para quem tem transtorno mental também’”, alerta Verona. “Ficamos a um passo de desmontar a luta antimanicomial”.

Gabriela Moncau é jornalista.

O mês das ideias exóticas para a cracolândia

Por Mauricio Antonio Ribeiro Lopes*  na Carta Capital

Janeiro é um mês fértil em ideias exóticas no governo estadual para a Cracolândia. Há um ano, a desastrada e desastrosa operação militar, substituindo jalecos e aventais por fardas e tonfas, distribuiu violência em doses cínicas e protagonizou a infamante procissão dos crackeiros que a Justiça paulista, em ação do Ministério Público, logo proibiu.

Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A secretária de Justiça, proveniente do Ministério Público, estranhamente representou pela prática de crime de violação de sigilo profissional contra quatro promotores de Justiça por divulgarem essa decisão judicial, que naturalmente desde sempre fora pública, qual houvesse possibilidade jurídica de sentença secreta.

Agora, ensaia-se outra farsa no teatro do absurdo do Pátio do Colégio: a da internação compulsória de usuários a pretexto de ser a única saída para “mães aflitas que buscam a proteção do Estado para seus filhos que estão mergulhados no submundo das drogas”.

Sobre o tema, especialistas ouvidos no inquérito civil do Ministério Público evidenciaram duas conclusões: a eficiência de qualquer tratamento a usuários de droga está enraizada na adesão voluntária como premissa; as situações-limite que ensejam a internação compulsória (art. 6º, Lei n. 10.216/01), são em média 1% dos casos dentro da população alvo.

Segundo os números da Secretaria de Justiça, se forem verdadeiros, seriam agora apenas 400 os usuários em circulação na região da Luz contra 2 mil no passado. Portanto, apenas cerca de quatro casos restariam no espectro da internação compulsória.

O promotor Mauricio Antonio Ribeiro Lopes. Foto: Ministério Público de São Paulo

Por que tanto alarde, falando-se mesmo em criação “de mecanismos para facilitar as internações não voluntárias de dependentes de crack” para tão pouco resultado? Porque a ideia do governo estadual é fazer da internação compulsória instrumento central de sua política para a questão. Crônica de novo desastre se anuncia.

De Pirandello a Ionesco, o drama dos usuários só piora a cada ato urdido no governo estadual.

Às pessoas a quem o Poder Público só prestou histórico abandono a única alternativa à frente que se enxerga é a internação compulsória. Seria apenas ridículo como política pública, não fosse desumano. O catatonismo da política social não se rompe pelo histrionismo higienista. Novas tentativas que levem a sacrifícios de direitos fundamentais serão coibidas com as armas da lei: de liminares à improbidade “e tudo o que houver nesta vida” e nos tribunais.

É passada a hora da política de Segurança Pública e Justiça ceder espaço às pastas de Assistência e Desenvolvimento Social, Saúde, Trabalho e Habitação, que deverão assumir o protagonismo no enfrentamento do tema. Só assim, poderá haver solução e não factóides.

Antes da internação, o Ministério Público e a sociedade civil que no dia 7 de janeiro de 2013 reuniram-se por horas na Cúria Metropolitana com outros secretários (de estado e Município) querem ver habitação, saúde, trabalho, promoção social e dignidade compulsórias. E logo.

*Mauricio Antonio Ribeiro Lopes é promotor de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital.