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205 milhões de brasileiros nas mãos de um psicopata

Por Mareu Soares | Via Conversa Afiada

Cunha não é um sujeito “eticamente desqualificado”. Para tal, precisaria ser um sujeito normal, com plena consciência do que é ético e do que não é ético, para poder ser considerado antiético o seu ato.

Cunha é, na realidade, um doente. Cunha é um doente mental. O caso de Cunha é qualificado pelo Código Internacional de Doenças (CID 10) com o código F60-2, chamado de Transtorno de Personalidade Dissocial. E, o mais dramático, essa patologia não tem até hoje possibilidade de cura.  É um transtorno da personalidade, uma psicopatia, também conhecida como Sociopatia. Popularizando, é o 171, ou o estelionatário. Um doente, de acordo com os conhecimentos psicológicos e psiquiátricos.

Essa doença tem várias características. Uma muito importante é a ausência de empatia, falta de interesse pelo bem-estar dos outros (pode excepcionalmente interessar-se por membros de sua família, e só), o que causa prejuízos aos que convivem com ele. Essas pessoas são interesseiras, egoístas e manipuladoras. Há um desvio entre o comportamento e as normas sociais estabelecidas. E esse comportamento não se modifica nem por situações adversas. Há baixa tolerância às frustrações. Tendência comum a culpar os outros ou fornecer racionalizações plausíveis para explicar condutas anormais. Há um egocentrismo patológico, incapacidade para a lealdade e para sentimentos de afeição ou amor. É extremamente comum a prática de calúnias, omissões ou distorções de fatos. As características dos sociopatas incluem o desprezo pelas obrigações sociais e leis. Suas emoções são superficiais, teatrais e falsas. O controle da impulsividade é muito baixo. São, porém, pessoas sedutoras, cínicas e manipuladoras. Mentem exageradamente, sem constrangimento ou vergonha. Ao narrar fatos costumam utilizar contextos fundamentados em acontecimentos reais, mas manipulados de acordo com seus interesses, que podem torná-lo convincente. Causam inúmeros transtornos a quem está ao seu redor. Seduzem seus parceiros para convencê-los a fazer algo em seu lugar, evitando assim prejuízos a si mesmos. Dessa forma os sociopatas dificilmente aprendem com punições ou modificam suas atitudes. Jamais sentem culpa. Fingem ter comportamentos éticos para se infiltrarem em grupos sociais ou religiosos, onde procuram esconder suas verdadeiras personalidades.

Robert Hare desenvolveu um famoso teste psicológico no qual analisa vários fatores da personalidade humana para detectar o grau de psicopatia. No fator da afetividade ressalta um narcisismo agressivo, e lista:

- personalidade sedutora/charme superficial
- grandioso senso de autoestima/egocêntrico
- mentiras patológicas
- esperteza/manipulação
- falta de remorso ou culpa
- superficialidade emocional
- insensibilidade/falta de empatia
- falha em aceitar a responsabilidade por ações próprias.

Logo, não adianta absolutamente nada tentar convencer um sociopata de que ele está errado, ou que sua conduta é antiética. Ele tem certeza de que age corretamente. Para ele as suas ações são permitidas dentro da lógica que impera na sua personalidade.

De acordo com a teoria ortodoxa de Freud sobre a nossa vida mental, a mais aceita na psicologia e na psicanálise, falta a esses doentes a terceira parte da estrutura da personalidade, que Freud chamou de superego. Essa parte se desenvolve desde o início da vida, quando a criança assimila as regras de comportamento ensinadas pelos pais ou responsáveis mediante sistemas de recompensa ou punições, seguindo-se na vida social precoce e na vida escolar. Tanto o comportamento inaceitável quanto aquele aceitável (ego-ideal), para os pais, familiares e o grupo social, fica gravado. Formado o superego, é o próprio indivíduo que passa a administrar suas recompensas ou punições. O superego representa a moralidade. É o quarto gigante da alma, segundo Mira y Lopez. Freud descreveu-o como “o defensor da luta em busca da perfeição”.

A solução para casos de sociopatia é difícil. Todavia uma atitude fundamental é certa: jamais dar condição de mando a esse tipo de doente. Os estragos que são capazes de fazer são quase inimagináveis. Cunha chegou a uma posição ímpar, valendo-se de todas as características de sua patologia. Uma nação inteira poderá ser gravemente prejudicada no seu status democrático, tão arduamente conquistado e que é ainda débil e recente, pelas ações de Cunha, que podem ser previstas de acordo com o seu passado e presente.

Um sociopata no governo seria o enterro de todas as aspirações nacionalistas de um povo. Com a palavra, urgentemente, aqueles que no congresso nacional pretendem ser os representantes do povo e guardiões da democracia.

Fora com o Cunha, urgente.

Situação das mulheres presas no Brasil pode ser mais grave do que apontam dados oficiais

Por Ana Clara Jovino | Via Adital

Foi publicado recentemente, pelo Departamento Penitenciário Nacional/Ministério da Justiça, um relatório sobre a situação das mulheres que estão privadas de liberdade, no Brasil. O documento foi elaborado com base no Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), de junho de 2014.

No relatório, consta que, em 2014, o Brasil aparecia como o quinto país com maior população penitenciária feminina do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (205.400 detentas); da China (103.766 detentas); da Rússia (53.304 detentas) e da Tailândia (44.751 detentas).

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Além disso, os dados apontam que o Brasil tem uma população penitenciária de 579.781 pessoas, sendo 542.401 homens e 37.380 mulheres. Nos últimos 15 anos, entre 2000 e 2014, a população penitenciária feminina aumentou de 5.601 para 37.380, ou seja, um crescimento de 567% de mulheres presas. Uma taxa superior ao crescimento da população encarcerada em geral, que aumentou 119% no mesmo período.

Outro dado importante do relatório é o motivo das detenções das mulheres, 68% delas foram presas por causa de crimes relacionados ao tráfico de drogas. Raquel da Cruz Lima, coordenadora de pesquisa do Programa Justiça sem Muros, do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), acredita que esta é justamente a principal explicação para o crescimento do número da população carcerária feminina. “As mulheres são as que estão em posições mais baixas, são menos remuneradas, elas são recrutadas para atividades mais expostas, pois são substituídas facilmente”, explica em entrevista à Adital Raquel, sobre a posição da mulher nos crimes relacionados às drogas.

A pesquisa também mostra que, em relação à estrutura, nos estabelecimentos femininos, apenas 34% dispõem de cela ou dormitório adequados para gestantes. Quando se trata de estabelecimentos mistos, a taxa cai, somente 6% das unidades contam com estrutura adequada para gestantes. Quanto à quantidade de berçários ou centros de referência materno-infantil, 32% das unidades femininas contam com esses espaços e 5% têm creches. Já nas unidades mistas, nenhuma conta com creches e apenas 3% têm berçários ou centros de referência. “As prisões contam com uma estrutura muito precária, em relação à maternidade e às necessidades biológicas do corpo feminino, é um absurdo”, afirma Raquel.

A coordenadora de pesquisa do Programa Justiça sem Muros do ITTC ainda ressalta que se surpreendeu com alguns dados que estão faltando no relatório, como o número de gestantes presas, pois, segundo ela, este dado já foi produzido. “É difícil entender porque alguns dados não estão no relatório. Na minha visão, acredito que foi um relatório feito às pressas, para dar uma satisfação, pois a sociedade civil fez críticas ao levantamento que foi feito. Alguns números estão diferentes, não se sabe como são produzidos esses dados no Brasil”, afirma Raquel, se referindo ao Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), elaborado em junho de 2014.

Veja o levantamento completo aqui.

Democracia fiscal e tributária para financiar saúde popular irrita burguesia especuladora

Por César Fonseca | Via Independência Sul-Americana

A burguesia financeira e industrial brasileira teme e reage radicalmente à cobrança de imposto sobre movimentação financeira, como é o caso da extinta CPMF(Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), a ser ressuscitada em forma de CIS(Contribuição Intefederativa para Saúde), porque ela introduziria no sistema tributário nacional o conceito de justiça tributária como fator fundamental de combate à desigualdade social.

Pagaria mais imposto quem mais realiza movimentação financeira; pagaria menos quem movimenta menos.

Lógica cartesiana.

Essa movimentação, por sua vez, introduz, no sistema tributário, simplificação completa de procedimentos.

Assim que o imposto é arrecadado, imediatamente é repassado ao tesouro nacional, que, por sua vez, realiza sua transferência, também, automática, para os demais entes federativos, de acordo com regras institucionais.

Aumenta, extraordinariamente, a relação transparente entre governo e contribuinte, fortalecendo mútua confiança e credibilidade da sociedade nos poderes públicos.

A administração da arrecadação ficaria muito mais barata com introdução da simplificação tributária e consequente eliminação da burocracia, contribuindo, para redução de déficits públicos.

Tudo fica mais explícito, fortalecendo confiança nas instituições democráticas do Estado de Direito.
Ao pagar o tributo, o contribuinte estará fazendo sua própria declaração de imposto.

Pagou, declarou.

Configura-se relação de responsabilidade entre fisco e contribuinte.

Da mesma forma, abertura e fechamento de negócios se tornam simplificados ao extremo.

Ao abrir uma empresa, o empresário já estará pagando e declarando imposto.

Torna-se impossível a sonegação.

Ao fechá-la, devido a circunstâncias variadas, não estará, igualmente, em débito com o fisco, nem sujeito aos trâmites burocráticos, que implicam despesas com multas, juros, mora etc, se existem débitos etc.

Se se paga e se declara automaticamente não há resto a pagar nem a declarar.

A relação contribuinte-receita é, em última análise, dada, apenas, pela movimentação financeira.
Cairia por terra tremenda injustiça tributária caracterizada pela regressividade tributária existente hoje no Brasil.

A regressividade, expressão genuína da injustiça tributária, promove, substancialmente, a desigualdade social: são mais altos os impostos cobrados sobre os produtos consumidos pelos mais pobres do que sobre aqueles adquiridos pelos mais ricos.

Da mesma forma, os mais ricos pagam menos impostos do que os mais pobres, porque dispõem de dinheiro para pagamento de advocacia tributária, por meio da qual exercitam, à larga, o instituto da elisão fiscal, que reduz tributos a pagar.

Uma sonegação disfarçada de legalidade.

Um Lázaro Brandão, dono do Bradesco, por exemplo, paga menos imposto do que um assalariado, que trabalha no caixa do supermercado SuperMaia.

O pobre paga, por dentro, o imposto alto incidente sobre o arroz e feijão que come; já o rico paga tributo insignificante sobre comidas e bebidas caras, importadas que o dinheiro da riqueza lhe faculta etc.

Entretanto, se muda o critério de cobrança, em que Lázaro, que ganha mais, paga mais, e o José, do caixa do armazém, que ganha menos, paga menos, todos, portanto, pagam de acordo com suas possibilidades.

O resultado lógico desse sistema universal de cobrança de imposto sobre movimentação financeira é, naturalmente, ampliação da base de arrecadação.

A nova CPMF/CIS representa decisão de tirar dos agiotas para dar aos mais pobres que não têm na saúde os recursos suficientes para serem atendidos pelo SUS. O mesmo acontece com os setores da educação, transporte, infraestrutura, indústria, cultura, saneamento desporto, lazer previdência etc, etc. Os interesses dos bancos garantidos pela Constituição em seu artigo 166 predominam sobre todos os demais interesses sociais. Trata-se, portanto, de mais um capítulo da luta de classes em marcha no Brasil, marcado pela extrema desigualdade social que o mapa acima preparado pela Auditoria Cidadã da Dívida comprova à larga.

Se todos pagam, numa base de arrecadação maior, aumenta o ingresso de tributos no caixa do tesouro em obediência à maior justiça tributária e à menor desigualdade social.

Mais justiça tributária, combatente da desigualdade social, representaria, por sua vez, poderoso estímulo ao empreendedorismo, graças à vantagem simplificadora e transparente tanto para abrir como para fechar empresas, sem burocracia, sem despesas e sem pendências e complicações fiscais.

A relação governo-estados ganharia outro conteúdo: o resultado da arrecadação ficaria no destino das mercadorias e não na origem delas.

Haveria maior e melhor distribuição espacial da renda, pondo fim, portanto, à guerra fiscal.

A ressurreição da CPMF/CIS – com a qual o governo pretende arrecadar R$ 80 bilhões – poderia não apenas representar solução para a saúde como oportunidade fundamental para promover democracia fiscal e tributária desenvolvimentista.

Bastaria permitir ao contribuinte pessoa jurídicada direito de escolha para pagamento de imposto, livremente, negociado entre contribuinte e receita federal.

A experiência poderia começar pelas micro e pequenas empresas(95% sobre o total do universo econômico nacional, responsável por 45% da arrecadação), com cobrança de alíquota de 5% sobre todas as transações financeiras realizadas por elas.

Por que não dar ao empresário direito de escolha na questão tributária, pagando com uma só alíquota a totalidade do débito fiscal, livrando-o dos demais recolhimentos contidos no cipoal tributário esquizofrênico e antieconômico, inviabilizador da competitividade nacional no plano global?

Quem quiser ficar submetido ao sistema tributário atual, complicado, burocrático, regressivo, injusto etc, tudo bem; quem não desejar, que possa optar, negociando com a Secretaria da Receita Federal alíquota única de impostos, eliminadas todas as demais, a partir da celebração de acordo.

Resultado positivo eventual dessa experiência poderia representar efeito demonstração para ser ampliado às demais empresas, médias e grandes, no médio e longo prazo.

No ambiente da modernização completa das atividades produtivas pautadas pela universalização do dinheiro eletrônico como moeda de troca, as possibilidades de cobrança de imposto único sobre transações financeiras vão se tornando não apenas necessárias, mas absolutamente indispensáveis.

Trata-se de tendência irrefreável do controle econômico e social democrático em nome do interesse público.

A predominância do interesse público, tornado imperativo categórico pelas próprias circunstâncias econômicas, decorrentes da modernização das relações de troca, seria a motivação maior democraticamente estabelecida.

Em nome da justiça tributária, do combate à desigualdade social, a cobrança do imposto sobre circulação financeira fixa predominância do interesse público sobre o interesse privado.

É esse interesse privado – expresso numa minoria de meia dúzia de grandes bancos(Itaú, Bradesco, Santander, HSBC, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e outros), responsáveis por movimentar, segundo pesquisa do BC, R$ 1,7 trilhão de depósitos, em regime de oligopólio bancário – que resiste à cobrança da nova CPMF/CIS.

Eis a expressão genuína da nova luta de classes em cena com a decisão da presidenta Dilma Rousseff de ressuscitar nova CPMF/CIS.

Governo quer derrubar a PEC 451, de Cunha, que destruiria o SUS

Via Hoje em Dia

O Ministro da Saúde, Arthur Chioro, disse nesta quarta-feira (28) que o governo vai se esforçar ao máximo para derrubar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 451. Segundo ele, o texto favorece interesses econômicos contrários aos da maioria da sociedade brasileira. A PEC, que obriga empregadores a pagar planos de saúde a todos os empregados, é de autoria do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e está na Comissão de Constituição e Justiça.

“Nós lutaremos como toda força para que a PEC 451, que faz um verdadeiro retrocesso em relação às conquistas que nós tivemos, ao afirmar que a saúde é um direito de todos e dever do Estado”, disse Chioro, durante a abertura do 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ontem (28). Ele ressaltou que o governo vai mobilizar todas as forças para que a proposta não passe na Câmara.

O projeto de Cunha altera o Artigo 7º da Constituição Federal, obrigando os empregadores a pagar planos de saúde privados a todos funcionários, urbanos, rurais, domésticos ou não. Para justificar a proposta, o autor usa o artigo da constituição que diz que a saúde é direito de todos.

Para Chioro, mesmo que o Artigo 196 da Constituição continue determinando que a saúde é direito de todos e dever do Estado, a aprovação do projeto leva a população a “perder a conquista que significou o sistema universal de saúde”.

O diretor da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Luis Eugenio de Souza, relembrou que, antes da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), quem tinha emprego formal pagava a Previdência e tinha direito à assistência pelo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps). “Quem não tinha trabalho formal usava o sistema filantrópico, outras alternativas. Os SUS acabou com isso.”

“[Com a proposta], acaba o SUS”, concluiu Jarbas Barbosa, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que foi por cerca de oito anos secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

A PEC 451 foi um dos temas em discussão no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, conhecido como Abrascão, que ocorre em Goiânia até o próximo sábado (1º). O debate é promovido a cada três anos e sedia a assembleia geral da Abrasco. Financiamento do SUS, humanização dos partos, o Programa Mais Médicos e saúde do idoso estão entre os assuntos a serem abordados.

Este ano a Universidade Federal de Goiás (UFG) recebe o evento. O Abrascão reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros e autoridades em atividades sobre diversos temas, propostas e acontecimentos relacionados à saúde, ciência, tecnologia e inovação, educação e sociedade.

Indústria alemã deve mais à Europa que a Grécia

Por Stéphane Foucart | Via Uol

Só desta vez, diante dos últimos acontecimentos, aqui falaremos de Grécia, Alemanha e dívidas. Não se preocupem, as linhas que se seguem não acrescentarão em nada à inflação dos comentários recentes sobre a desgraça helênica. Todos sabem que Atenas deve a seus credores uma soma de quase 320 bilhões de euros (R$ 1,1 trilhão); todos sabem que ela deu calote no FMI; por fim, todos sabem que os gregos rejeitaram em massa, no domingo (5), as exigências de seus credores.

Disso, todos sabem. Um fato mais discreto é que a virtuosa e intransigente Alemanha também arrasta dívidas pendentes, que possivelmente ultrapassam de longe a conta grega. E não estamos falando aqui da Alemanha exaurida do pós-guerra. Estamos falando é da Alemanha de hoje, com sua poderosa indústria, seu orçamento impecável etc.

Para entender a natureza dessa “dívida” alemã, é preciso se debruçar sobre um número recente do “Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism” (JCEM). Em abril, a revista publicou uma série de estudos conduzidos por cerca de vinte pesquisadores internacionais e coordenados por Leonardo Trasande, especialista em saúde das populações e professor na Universidade de Nova York. O objetivo deles era avaliar o custo econômico dos danos para a saúde causados pela contaminação química na União Europeia. Usando o ano de 2010 como referência, a estimativa deles avalia o valor médio desses danos em 1,3% do PIB dos 28 Estados-membros da UE. Ou seja, 157 bilhões de euros (R$ 550 bilhões) por ano, em gastos com saúde e tratamento de certos distúrbios, em perda de produtividade dos funcionários etc. E isso é somente um valor médio: a parte superior da margem ultrapassa os 260 bilhões de euros (R$ 911 bilhões) anuais.

E qual seria a relação com nossos vizinhos alemães? Simples. Na Europa, a indústria química é representada pela Alemanha. O país domina de longe o setor, com gigantes como a Bayer e a BASF, e é muito claro que grande parte desses 157 bilhões de euros são responsabilidade dela. A Alemanha teria muito a perder, caso as medidas adequadas fossem aplicadas para evitar esses danos colaterais. Berlim sabe perfeitamente disso. Através de uma de suas agências de segurança sanitária, a Alemanha sempre procurou entravar a implantação de novas regulamentações europeias destinadas a regular os produtos mais problemáticos, os chamados disruptores endócrinos.

Se nos ativermos à última década, esses custos colaterais ocultos –-as chamadas “externalidades negativas”, segundo os economistas-– associados à indústria química provavelmente custaram pelo menos 1,57 trilhão de euros (R$ 5,5 trilhões) à economia europeia. Nessa década, a dívida grega passou dos 195 bilhões (R$ 685 bilhões) para 320 bilhões de euros (R$ 1,1 trilhão), ou seja, um crescimento de 125 bilhões de euros (R$ 440 bilhões). Dez vezes menos que as externalidades negativas dos químicos no mesmo período, e certamente muito, muito menos que a dos gigantes alemães do setor.

E seriam confiáveis esses estudos? É inegável que se trata de uma tarefa delicada. “O impacto dos poluentes químicos no ambiente sobre a saúde pode parecer elusivo e é um conceito difícil de entender”, escreve Tracey Woodruff, professora da Universidade da Califórnia em San Francisco, a quem o “JCEM” confiou seu editorial de abril. “Faltam-nos dados exaustivos sobre a maneira como as substâncias químicas presentes em nossa vida cotidiana –-na alimentação, na água, no ar e nos produtos de uso corrente-– afetam nossa saúde.”

“Verdadeiro fardo”

Diante dessa falta de dados, Trasande e seus coautores focaram, de acordo com Woodruff, “nos efeitos de somente sete produtos e famílias químicas –-pesticidas organofosforados, plastificantes etc.–, em três categorias de distúrbios (problemas no sistema reprodutor masculino, distúrbios neuro-comportamentais, obesidade e diabetes)”. Os autores, portanto, só levaram em conta o custo dos efeitos quantificáveis sobre a saúde, graças aos estudos epidemiológicos sérios disponíveis, assim como às medições de impregnação da população. Todo o resto, tudo aquilo que é suspeito mas não suficientemente estudado, foi ignorado.

Não somente não é possível estimar todos os efeitos sobre a saúde, como a indústria química também produz outras externalidades sustentadas pela coletividade: fontes de água potável contaminadas por resíduos de pesticidas, perda de biodiversidade e serviços associados (polinização, preservação da fertilidade dos solos etc.). “O que é preciso entender”, diz Woodruff, “é que esse cálculo de 157 bilhões de euros só representa a parte visível do verdadeiro fardo que se pode atribuir aos poluentes químicos do meio ambiente.”

Essa “dívida” não revolta a ninguém. No entanto, ela é bem mais tangível que a dívida grega: além de enormidade de seu peso econômico, ela interfere em nossa biologia e degrada a saúde das populações, altera os ecossistemas e modifica as paisagens.

Essas constatações pertencem a uma ciência consensual, convencional e citada como tal pelo Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente. O fato é que a indústria química só se desenvolve às custas de externalidades gigantescas, assumidas pelos países, pelas coletividades, pelos sistemas de saúde e por outros setores econômicos. É claro, uma externalidade não é uma dívida stricto sensu. “A primeira pode ser vista como uma dívida moral, enquanto a segunda é contratual”, diz o economista Alain Grandjean. Pode ser, mas tudo isso nós já pagamos, estamos pagando ou vamos pagar de uma maneira ou de outra.

Sem saber, estamos dando bem mais pela prosperidade da orgulhosa Alemanha do que para ajudar a pequena Grécia.

Cuba é o primeiro país a eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho

Por Silvia Ayuso | Via El País Brasil

OMS diz que ilha conseguiu feito inédito de erradicar a transmissão do vírus e o da sífilis.

Uma enfermeira do Exército de Salvação em Johanesburgo segura a uma criança infectada por HIV, em uma foto de arquivo. / REUTERS

Todo ano, cerca de 1,4 milhão de mulheres com HIV engravidam. Se não recebem tratamento, as chances de que transmitam o vírus ao bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação variam entre 15% e 45%. Portanto, é um grande desafio conseguir romper esse círculo vicioso que favorece a perpetuação de um vírus combatido há décadas sem uma cura efetiva. E é justamente isso o que Cuba fez, tal como reconheceu oficialmente a Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta terça-feira.

Em cerimônia na sede da Organização Panamericana da Saúde (OPS, o escritório regional da OMS) em Washington, a OMS entregou a Cuba a primeira certificação do mundo que estabelece que um país cumpriu o duplo desafio de eliminar a transmissão do HIV de mãe para filho, bem como da sífilis congênita.

“Foi vencida uma grande batalha na luta contra a aids”, afirmou a diretora da OPS, Carissa Etienne. Eliminar a transmissão vertical do HIV “representa um grande passo para Cuba rumo a uma geração livre de aids”, completou.

“A eliminação da transmissão do vírus é uma das maiores conquistas possíveis no campo da saúde”, disse a diretora geral da OMS, Margaret Chan, em comunicado.

 

A possibilidade de 15-45% de transmissão do HIV de mãe para filho cai para apenas 1% se tanto a mãe como o filho recebem retrovirais durante todas as fases em que pode ocorrer a transmissão. Segundo a OMS, o número de crianças que nascem a cada ano com HIV foi reduzido quase pela metade desde 2009, passando de 400.000 a 240.000 em 2013.

Mas a cifra ainda está muito longe da meta prevista para 2015: uma redução para menos de 40.000.

A batalha contra a transmissão materno-infantil da sífilis também tem ainda muitos desafios pela frente: todo ano, quase 1 milhão de mulheres grávidas são contagiadas com esse vírus, que pode provocar de morte fetal ou perinatal a infecções neonatais graves. Tudo isso, diz a OMS, quando existem “opções simples e relativamente acessíveis de detecção e tratamento durante a gravidez”, como a penicilina, que podem eliminar a maior parte dessas complicações.

Em Washington, numa cerimônia junto ao ministro cubado da Saúde, Roberto Morales Ojeda, a diretora da OPS destacou o ponto essencial da façanha cubana: “O sucesso de Cuba demonstra que é possível um acesso universal à saúde e que, de fato, ele é fundamental para o êxito da luta contra desafios tão preocupantes como o HIV”, afirmou Etienne.

Cuba conta com um serviço público de saúde “gratuito, acessível, regionalizado, integral e sem discriminação, baseado nos cuidados primários de saúde”, segundo o ministro Ojeda, que também atribuiu essa conquista a uma “vontade política” fundamental e à participação das comunidades nos programas de atendimento e prevenção.

No continente americano, a OMS-OPS tem trabalhado desde 2010 numa iniciativa regional para eliminar a transmissão materno-infantil do HIV e da sífilis.

Cuba é o primeiro país a receber o certificado oficial, mas há outros seis países e territórios que também poderiam ter eliminado a transmissão do HIV de mãe para filho: as ilhas britânicas caribenhas de Anguila e Montserrat, Barbados, Canadá, Estados Unidos e Porto Rico. Outros 14 conseguiram, supostamente, eliminar a sífilis congênita.

A OMS considera que um país eliminou a transmissão materno-infantil do HIV quando registra menos de dois bebês infectados para cada 100 nascidos de mães portadores do vírus. No caso da sífilis, é menos de um caso para cada 2.000 nascimentos vivos.

No âmbito da iniciativa da OPS, Cuba implementou nos últimos anos medidas como a assistência pré-natal precoce e exames de HIV e sífilis tanto para as mulheres grávidas como para os pais. Também oferece tratamento às mulheres cujo teste dá positivo e a seus bebês, além de fomentar medidas de prevenção, como o uso de preservativos.

Como resultado, refletido agora na certificação oficial da OMS, Cuba registrou em 2014 apenas os casos de dois bebês que nasceram com HIV e outros cinco com sífilis congênita, números inferiores aos mínimos para que se considere realizado o objetivo de eliminar a transmissão materno-infantil dessas doenças.

Urgência nas discussões sobre a água

Por Júlio Ottoboni | Via Envolverde

Um dos maiores especialistas em sensoriamento remoto do país e chefe do departamento de distribuição de imagens de satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Paulo Roberto Martini, alerta para o agravamento da crise hídrica e a necessidade premente de água voltar as agendas em todos os setores da sociedade, principalmente dos poderes públicos.

“Toda abordagem feita até agora é que entraremos num quadro mais agudo, é preciso voltar o tema para as agendas e tomar decisões sem desvios políticos ou econômicos”, observou o pesquisador.

Martini é geógrafo por formação acadêmica, além de ter especialização em Remote Sensing Technology pela Remote Sensing Technology Center Of Japan Restec, em Política e Planejamento Estratégico pela Escola Superior de Guerra e mestrado em Sensoriamento Remoto pelo Inpe. Além de ser um dos mais antigos funcionários do instituto e coordenador do projeto Panamazônia.

Qualificação não lhe falta fazer uma série de alertas, já que acompanha com grande interesse a escassez de chuvas no sudeste do país, em particular na região de São Paulo. Segundo ele, as imagens de satélites mostram que o volume de água está diminuindo há alguns anos, inclusive a cor da água, que é um indicativo para os especialistas na leitura e interpretação das imagens.

“Quando o reservatório está cheio, a cor da água aparece preta na imagem. Mas quando está mais rasa a cor predominante é azul turquesa, agora quando surge completamente branca é que a água está completamente poluída”, explicou.

Atualmente as represas estão divididas, pelas imagens de satélites, entre brancas e azuis. As águas se tornam esbranquiçadas nas imagens de satélites pela presença de um espécie de planta monofilética, que se espalha com uma velocidade muito grande em águas poluídas. Martini lembra que o declínio da qualidade da água da represa Billings ocorreu no começo dos anos 2000, quando sua superfície ficou totalmente clara.

“É preciso repensar esse processo todo da água, mas num regime de urgência, não temos mais tempo para postergações”, observou o pesquisador, que há exatos 20 anos efetuou uma série imensa de cálculos para estabelecer que o Rio Amazonas era o maior em extensão em todo mundo. E foi além, que o derretimento das neves eternas naCordilheira dos Andes poderia ser um indicativo que o complexo do Amazonas estava em seu apogeu hídrico.

O pesquisador do Inpe pede não só atenção para a questão do aquecimento global, já que cerca de 80% da população mundial se diz “muito preocupada” com os efeitos da mudança climática. De acordo com pesquisas recém divulgadas, embora esse alerta tenha chegado até as pessoas, menos da metade delas apoia um imposto sobre o carbono para diminuir as emissões.

O levantamento realizado em 79 países de forma simultânea teve seus resultados publicados no site da “World Wide Views on Climate and Energy”.

Aquecimento das águas atlânticas

Martini também apresenta um situação que tem afligido os meteorologistas e climatologistas. A formação, até o momento inexplicável, de grandes piscinas de água quente na porção mais ao sul do Oceano Atlântico. Essa alteração no gradiente térmico da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) tem impedido a chegada das frentes frias até o continente, que são responsável por grande parte das chuvas em São Paulo.

“Eu tento pegar indicadores geológicos como esses aquecimentos do Atlântico Sul, como depósitos aluvionares marinhos com mais de 12 mil anos e mais novos, entre 8 e 7 mil anos, quando o mar cobriu a enseada de Santos e grande parte do litoral, até Marajó”, comentou sobre um possível estudo sobre um possível ocorrência histórica.

Essa subida dos níveis dos mares se deu pelo aquecimento global, queda no volume das calotas polares e consequência aumento da água liquefeita, além da expansão física da água aquecida. Os estudos iniciais nos aluviões nas áreas costeiras não apresentam ainda correlação com a mudança no regime de chuvas e, consequentemente, o nível das represas atuais, embora isso possa ser comprovado com pesquisas mais aprofundadas.

“Esses aquecimentos anormais do Atlântico precisam ser estudados, pois a estiagem que ocorreu se deu também por esse fenômeno. As massas de ar frio não conseguem chegar até a porção continental, onde acaba encontrando um gradiente térmico mais quente e provoca as chuvas. Essas piscinas de água quente estão bloqueando a entrada das frentes e com isso ocorre a estiagem. Mas é cedo ainda para termos qualquer prognóstico sobre esse fenômeno”, afirmou Martini.

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Júlio Ottoboni é jornalista e especialista em jornalismo científico.