Arquivos da categoria: Mídia

A vingança apocalíptica

Por Rogério Cézar de Cerqueira Leite | Via Aldeia Nago

Estão juntas forças extremas do país, que em tempos mais serenos ficariam em campos opostos. Isso porque elegeram o PT e Dilma como inimigos

Hoje estão em consonância no Brasil forças extremas da sociedade, que em tempos mais serenos ficariam em campos opostos. O PSDB abraça os descontentes chantagistas do PMDB, enquanto o vampiresco Eduardo Cunha e sua horda de zumbis dão beijocas no sanguinário deputado Carlos Sampaio.

Hoje a reacionária alta burguesia paulista faz afagos na pelega Força Sindical, enquanto a elite janota do Rio de Janeiro se aconchega aos plebeus da zona norte.

Hoje dão as mãos o direitista “O Estado de S. Paulo”, a minha querida quase imparcial Folha, o oportunista “O Globo” e a histérica revista “Veja”. Hoje se alinham para panelaços a população alienada e a estudantada militante.

Tudo isso porque elegeram um inimigo comum, o PT, e sua representante mítica, Dilma Rousseff. Ah, como é reconfortante encontrar um bode expiatório, alguém que, como Cristo, acolha todas as culpas, embora a contragosto. Ah, como é gostoso ter um inimigo comum.

É pena que a presidente Dilma Rousseff seja tão obstinada, tão voluntariosa. É pena que seja ela tão patriota, tão irredutivelmente profissional. Pois, o que aconteceria se inopinadamente esse inimigo comum fosse removido?

Apenas por razões de ordem acadêmica, vamos supor que a presidente Dilma decidisse abdicar. Vocês já imaginaram a balbúrdia que se instalaria no Brasil? Sem um inimigo comum, um bode expiatório geral? Como iriam comportar-se esses atores tão individualistas, tão egocêntricos da política nacional?

Imaginemos apenas que, se não para manter sua dignidade, mas apenas por macabra vingança, a presidente Dilma Rousseff resolvesse passar umas longas e merecidas férias em Côte d’Azur, na França.

José Serra mandaria mísseis “exocets” e outros petardos para Belo Horizonte. Eduardo Cunha mandaria seu exército pentecostal aniquilar o estarrecido Michel Temer, que, acossado de todos os lados e sem a têmpera de uma Dilma, não resistiria muito até desmoronar.

A mídia, confusa, já não saberia a quem hostilizar. Eduardo Cunha? José Serra? Fernando Henrique Cardoso? O PMDB, acostumado a aderir ao mais forte, ficaria sem orientação, sem rumo.

Os “pit bulls” da oposição –Rodrigo Maia, Carlos Sampaio, Álvaro Dias, Aloysio Nunes Ferreira–, viciados e sem ter a quem morder, passariam a se mastigar entre si ou passariam a atacar outros aliados? E quem governaria essa Câmara prenhe de cobiças e de extorsões?

FHC disse que é inoportuno o impeachment da presidente Dilma porque não há lideranças adequadas. Talvez o que ele queira dizer é que haja muitos candidatos medíocres para a substituição de Dilma. Com isso, agride seus correligionários Serra e Aécio Neves e outros opositores dos demais partidos, antes mesmo de qualquer processo de impedimento da presidente.

Ah, que pena que Dilma não é vingativa. Que pena, mas que sorte!

***

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, 84, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha.

Zelotes suspeita de repasse de R$ 1,8 mi a Augusto Nardes

Por André Barrocal | Via Carta Capital

Sigilo bancário, telefonemas e e-mails de empresa investigada apontam ministro do TCU beneficiado em anulação fraudulenta de dívida fiscal da RBS.

O ministro do TCU, Augusto Nardes, nega qualquer participação em esquema de corrupção no Carf. Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A acusação de violar a Lei Orgânica da Magistratura na condução do exame das contas de 2014 do governo Dilma Rousseff não é a única razão para o ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU), preocupar-se por estes dias. O avanço da Operação Zelotes reforça as suspeitas de envolvimento dele com o esquema fraudulento de anulação de dívidas fiscais.

No material já recolhido durante as investigações, há indícios a apontar Nardes como destinatário de pagamentos de aproximadamente 1,8 milhões de reais, divididos em três parcelas de cerca de 600 mil reais cada. Os pagamentos são suspeitos por terem na origem uma das principais empresas investigadas, a SGR Consultoria.

As desconfianças sobre Nardes amparam-se em informações obtidas a partir da quebra de sigilo bancário da SGR, de anotações encontradas em escritórios da empresa e de interceptações de telefonemas e e-mails de investigados.

Em alguns telefonemas e e-mails, por exemplo, uma funcionária da SGR tida como responsável por distribuir dinheiro ilícito, chamada Gigliane, recebe orientação para efetutar pagamentos ao “tio” e ao “Ju”. Nardes já foi sócio de um sobrinho advogado, Carlos Juliano Ribeiro Nardes, na empresa Planalto Soluções e Negócios. Os investigadores vêem ligações entre a SGR e a Planalto.

O repasse da SGR seria uma espécie de comissão paga a Nardes por ele colaborar de algum modo com um caso específico na mira da Operação Zelotes: o sumiço de 150 milhões de reais em dívidas da RBS, retransmissora da TV Globo no Rio Grande do Sul, terra do ministro do TCU. Nardes teria usado sua influência em Brasília e no seu antigo partido, o PP, para ajudar o grupo de comunicação.

O cancelamento dos débitos da RBS ocorreu no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão do Ministério da Fazenda em que as fraudes apuradas pela Zelotes se materializavam. Em troca da anulação da dívida, a empresa teria pago 15 milhões de reais a uma série de pessoas. Entre estas, um ex-conselheiro do Carf e sócio da SGR, José Ricardo da Silva, o Zé Ricardo.

Silva e a SGR tinha papel-chave no esquema no Carf. Intermediavam os contatos entre conselheiros do Carf e empresas endividadas dispostas a subornar. E distribuiam o dinheiro entre as partes.

Nenhum cliente fez tantos pagamentos à consultoria quanto a RBS. É o que diz um relatório da Polícia Federal (PF) elaborado a partir da análise de 909 transações financeiras da SGR realizadas entre 2005 e 2013, um total de 115 milhões de reais.

Dos 15 milhões de reais que o grupo teria pago para se safar no Carf, 11,9 milhões foram para a SGR. Foi desta última quantia que a consultoria teria direcionado uma fatia cerca de 1,8 milhão a Nardes.

O ministro do TCU é de uma mesma pequena cidade gaúcha, Santo Ângelo, que um investigado na Operação Zelotes que acabou por virar delator. Paulo Roberto Cortez também já foi conselheiro do Carf e já trabalhou com Zé Ricardo, da SGR. Quando policiais federais e procuradores de Justiça saíram a campo pela segunda vez, em 3 de setembro, Santo Ângelo era um dos alvos.

Há quem veja possível ligação de Nardes com o esquema no Carf também por razões partidárias. Até ser nomeado ministro do TCU, ele era deputado federal pelo PP. A mira da Operação Zelotes já atingiu um conselheiro do Carf, Francisco Maurício Rebelo de Albuquerque e Silva, que é pai de um ex-líder do PP na Câmara dos Deputados, Dudu da Fonte.

CartaCapital procurou Augusto Nardes para pedir esclarecimentos sobre eventuais relações dele com a SGR, José Ricardo da Silva, a Planalto, Paulo Roberto Cortez e indicações de conselheiros do Carf. O ministro respondeu por e-mail.

Sobre a Planalto, disse “que se afastou da Planalto Soluções e Negócios em maio de 2005 e não recebeu nada proveniente ou relacionado a empresa”. Acrescentou ainda “que não participou de nenhuma atividade desta já que dela não mais participava de nenhuma forma”.

Sobre a escolha de conselheiros do Carf, Nardes afirmou que “não tem nem nunca teve qualquer participação seja por indicação ou quaisquer outras questões a isso relacionadas”.

Sobre a SGR, José Ricardo da Silva, o ministro não se pronunciou.

Sobre sua relação com Paulo Cortez, disse que “conheceu o mesmo quando morava em Santo Ângelo, por volta dos anos 80, há mais de 30 anos. Depois desse período não teve mais qualquer relação com o mesmo”.

O aparecimento do nome de Augusto Nardes na Operação Zelotes foi revelado em setembro por CartaCapital. O material sobre ele tem de ser enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Por ser ministro do TCU, Nardes só pode responder a eventuais processos criminais perante o STF. A juíza que cuida do caso na 10 Vara Federal de Brasília, Marianne Borre, volta de férias no dia 8.

A estratégia dos Estados Unidos para a América Latina

Via Carta Maior

Documentos do Wikileaks revelam um plano detalhado para derrubar os governos eleitos dos países latino-americanos e até mesmo o assassinato de Evo Morales.

No recém terminado verão europeu, o mundo viu como a Grécia tentou se opor às chantagens das instituições internacionais que obrigaram o país a aceitar um pacote de novas medidas de austeridade. O endividado Estado grego não pode se negar a cumprir as ordens da Troica conformada pelos credores. Depois do referendo convocado pelo governo de Alexis Tsipras, o Banco Central Europeu privou a economia grega de liquidez, o que intensificou a recessão e transformou o resultado do voto popular numa farsa.

Uma batalha similar pela independência das nações vem sendo travada na América do Sul, durante os últimos 15 anos. Apesar das tentativas de Washington de destruir a “dissidência estatal” em vários países utilizando as mesmas técnicas empregadas contra Atenas, a fortaleza da América Latina vem suportando a pressão. Essa batalha épica vem promovida longe dos olhos dos cidadãos e foi confirmada por documentos do arquivo do Departamento de Estado norte-americano, filtrados pelo WikiLeaks. Alexander Main e Dan Beeton ofereceram uma interessante reconstrução desses acontecimentos em seu livro “WikiLeaks: o mundo segundo o Império Estadunidense”.

Os autores argumentam que o neoliberalismo se impôs na América Latina antes de Berlim e Bruxelas humilharem a democracia na Grécia. Através da coação exercida pelos Chicago Boys – jovens economistas latino-americanos que regressam aos seus países depois de estudar nos Estados Unidos –, Washington conseguiu difundir a austeridade fiscal na América do Sul, entre outros princípios ideológicos: a desregulação, o livre comércio, o sucateamento do setor público e posterior privatização, em processos realizados entre os Anos 80 e 90. O resultado foi similar ao que se viu na Grécia: o estancamento do crescimento, o aumento da pobreza, a deterioração das condições de vida de milhões de pessoas e uma série de novas oportunidades para os investidores internacionais e corporações multinacionais. Porém, como consequência disso, alguns candidatos contrários ao regime neocolonial começaram a ganhar as eleições e a oferecer resistência à política exterior dos Estados Unidos, colocando em prática suas promessas eleitorais de redistribuição social e redução da pobreza.

Entre 1999 e 2008, esses candidatos ganharam eleições na Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Honduras, Equador, Nicarágua e Paraguai. Grande parte dos esforços do governo norte-americano para subverter a ordem democrática desses países e voltar a impor o regime neoliberal são agora de domínio público, graças às filtragens do WikiLeaks, que revelaram a verdade sobre o presidente George W. Bush e o começo do mandato de Obama. Washington deu apoio estratégico e material aos grupos de oposição, alguns deles claramente antidemocráticos e violentos. Os telegramas também revelaram a natureza dos emissários ideológicos estadunidenses da Guerra Fria, que atualmente elaboram estratégias neocoloniais na América do Sul. Os autores do livro afirmam também que os meios de comunicação corporativos são parte da estratégia expansionista.

O caso emblemático de Evo Morales na Bolívia 

No final de 2005, Evo Morales ganhou as eleições presidenciais com a promessa de reformar a Constituição, garantir os direitos dos indígenas e lutar contra a pobreza e o neoliberalismo. No dia 3 de janeiro de 2006, dois dias depois do seu juramento como presidente, ele recebeu o embaixador estadunidense, David N. Greenlee, que explicou a visão que a Casa Branca tinha para o futuro da Bolívia. A assistência multilateral à Bolívia, segundo o embaixador, dependia do “bom comportamento” do governo de Morales. “Ele lembrou da importância crucial das contribuições dos Estados Unidos para instituições financeiras internacionais como o Banco de Desenvolvimento Internacional (BID), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI)”, dos quais a Bolívia dependia. “Quando pensar no BID, você deve lembrar dos Estados Unidos”, disse o embaixador. “Isto não é uma chantagem, é a simples realidade”, comentou.

Contudo, Morales manteve suas promessas eleitorais em matéria de regulação dos mercados de trabalho, nacionalização do gás e do petróleo e a cooperação com Hugo Chávez. Em resposta a essas ações de Morales, Greenlee sugeriu um “menu de opções” para tentar obrigar a Bolívia a se curvar diante da vontade do governo dos Estados Unidos. Algumas dessas medidas eram: vetar todos os empréstimos multilaterais em dólares, postergar o plano de alívio da dívida multilateral, diminuir o financiamento da Corporação do Desafio do Milênio (que pretende acabar com a pobreza extrema) e cortar o “apoio material” às forças de segurança da Bolívia.

Poucas semanas depois de assumir o cargo, Morales anunciou o rompimento de contratos de empréstimo com o FMI. Anos mais tarde, Morales aconselhou a Grécia e outros países europeus endividados a seguir o exemplo da Bolívia e “se livrar economicamente dos caprichos do Fundo Monetário Internacional”. O Departamento de Estado norte-americano reagiu financiando a oposição boliviana. As forças políticas opositoras da região da Meia Lua começaram a receber mais ajuda. Segundo uma mensagem enviada em abril de 2007, a chancelaria dos Estados Unidos considerava que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) “deveria fortalecer os governos regionais, como forma de combater o governo central”.

O informe de 2007 da USAID menciona 101 remessas de dinheiro, com um total de 4,06 milhões de dólares, “para ajudar os governos das províncias a operar estrategicamente”. O dinheiro da Casa Branca também foi destinado aos grupos indígenas locais que fossem “contra a visão das comunidades indígenas defendida por Evo Morales”. Um ano depois, os departamentos da Meia Lua estavam em aberta rebelião contra o governo de Morales e promoviam um referendo sobre a autonomia, num contexto de protestos violentos que acabaram com a vida de ao menos vinte partidários do governo.

Esta tentativa de golpe de Estado fracassou graças à pressão dos presidentes da América do Sul, que emitiram uma declaração conjunta de apoio ao governo constitucional da Bolívia. Mas os Estados Unidos não se deram por vencidos e continuaram em comunicação constante com os líderes do movimento separatista da oposição. Segundo Alexander Main e Dan Beeton, durante os acontecimentos de agosto e setembro de 2008, diferente do que mostravam em sua postura oficial, o Departamento de Estado norte-americano levou a sério a possibilidade de um golpe de Estado na Bolívia, ou até mesmo de assassinato do presidente Evo Morales. “O Comitê de Ação de Emergência, junto com o Comando Sul dos Estados Unidos, desenvolveu um plano de resposta imediata para o caso de uma emergência repentina, que inclui uma tentativa de golpe de Estado e uma operação para matar o presidente Morales”, diz a mensagem da Embaixada dos Estados Unidos em La Paz.

Promoção da democracia

Posteriormente, alguns dos métodos de ingerência implantados na Bolívia se aplicaram em outros países, com governos de esquerda ou forte participação dos movimentos sociais. Por exemplo, depois da volta dos sandinistas ao poder na Nicarágua, em 2007, a embaixada dos Estados Unidos em Manágua lançou um programa de apoio intensivo à Aliança Liberal Nicaraguense (ALN), principal partido da direita opositora.

Ameaça bolivariana

Durante a Guerra Fria, a suposta ameaça da União Soviética e a expansão do comunismo cubano serviram para justificar um grande número de intervenções políticas dos Estados Unidos com o objetivo de eliminar governos de esquerda e implantar regimes militares de direitas. Da mesma forma, as filtragens do WikiLeaks mostram como “o fantasma do bolivarianismo” venezuelano foi utilizado na década passada para justificar a intromissão em temas internos de governos encabeçados por líderes antineoliberais. Assim, Washington se dedicou a uma batalha oculta contra os governos da Bolívia, “que caiu nos braços da Venezuela” e do Equador, que realizava a função de “porta-voz de Chávez”.

***

Tradução: Victor Farinelli

O grande pacto social com as FARC na Colômbia ignorado pela mídia

Por J, Carlos de Assis

O mais importante acontecimento para a América do Sul em sete décadas, o acordo entre o Governo colombiano, considerado de direita, e a guerrilha das FARC, de extrema esquerda, está passando praticamente despercebido da Grande Mídia brasileira, e portanto da sociedade como um todo, a despeito da presença em Bogotá da Presidenta Dilma. É que os governos Lula e Dilma tiveram importante papel no estímulo a esse acordo, que foi coroado agora com a cobertura física da Abimaq-Associação Brasileira da Indústria de Máquinas.

Numa conversa por telefone ontem, o presidente da Abimaq, Carlos Pastoriza, estava exultante. Como parte do acordo, indústria brasileira de máquinas fornecerá os equipamentos necessários para que a antiga guerrilha se transforme em bases de agricultura familiar nos territórios antes sob seu controle. Algo semelhante, no Governo Lula, foi feito com países africanos, numa base subsidiada. No caso colombiano, um país mais rico, os termos se aproximarão mais das condições de mercado em taxas de juros.

É um resultado espetacular da diplomacia presidencial brasileira. Estamos contribuindo para o fim de uma guerrilha de 70 anos, que teve momentos críticos de banho de sangue e que em outros momentos parecia insolúvel. Claro, o presidente Santos desempenhou um papel crucial nisso por desconsiderar o conselho anacrônico dos abutres de seu próprio sistema militar que, sob conselho norte-americano, queriam uma saída exclusivamente militar para o conflito. Diga-se de passagem, saída impossível.

Estive na Colômbia em 2011 a convite de uma universidade da Noruega que teve participação decisiva no equacionamento posterior do conflito armado. Meu tema, para uma plateia de 35 generais das três Armas, era integração da América do Sul. Fiz o discurso óbvio segundo o qual não haveria efetiva integração sul-americana sem solução do conflito das FARC, sendo que, a meu juízo de não especialista, não haveria solução militar para o conflito da guerrilha. Encontrei um público militar surpreendentemente receptivo. Embora, claro, desconfiado de Hugo Chavez, na época, pelo radicalismo que consideravam anticolombiano.

O fato é que o processo de paz progrediu, e temos um resultado espetacular que transcende em muito o acordo de normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos. Neste caso, tivemos um movimento de cúpula no nível diplomático. No caso das FARC, significa um compromisso pelas bases, um desarmamento físico de milhares de guerrilheiros e uma atitude negociadora de suas lideranças dispostas a um acordo de interesse comum com o Governo. Em uma palavra, o pacto social. Só quem não está vendo a dimensão histórica desse acontecimento é a Grande Mídia brasileira. Ela só se emociona quando os EUA estão interessados, e este, como se trata de acordo de paz, e não de guerra, não lhes interessa.
No rápido telefonema que troquei com Pastoriza, concluímos que, para além do acordo de exportação de equipamentos, de interesse objetivo para as FARC e para a indústria brasileira, talvez o significado político maior do que acontece na Colômbia é o exemplo de coroamento de um longo processo negociador que culminou com um grande pacto social entre correntes inicialmente ultra divergentes. Isso é um exemplo para nós, na medida em que, embora sem guerrilha, estamos num estado de pré-convulsão social, no qual as instituições centrais do Estado já não se entendem entre si e se derretem perante o povo, o que exige um esforço de acordo nos níveis mais básicos da sociedade, entre as classes empresariais e de trabalhadores.
Nas discussões que tenho tido com cientistas políticos, economistas políticos, líderes trabalhistas, líderes empresariais, parlamentares, encontro grande convergência com essa análise. O que a Colômbia está ganhando depois de um longo processo de guerra civil, nós podemos ganhar sem guerra civil. No plano teórico, essa análise é muito bem aceita. No plano emocional, ainda não. A maioria das pessoas, independentemente do nível social, acredita no surgimento de um avatar, um salvador da pátria que venha no resgatar do caos institucional em que vivemos. É uma ilusão. Quando esse derretimento institucional geral descer para o nível das classes sociais, em luta direta entre si e desconfiada uma da outra inicialmente, só restarão duas saídas: ou o pacto social entre elas, reordenando o Estado, ou uma convulsão social que levará à guerra civil, à volta dos militares e à ditadura.

P.S. Voltarei ao tema crucial da moeda e do controle de capitais oportunamente.

***

*José Carlos de Assis é jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor, entre outros livros de economia política, de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

Reaprender a ler notícias

Por Carlos Castilho, via Observatório da Imprensa

Para a maioria das pessoas uma afirmação como esta soa fora de propósito. Afinal ler notícias é um hábito já incorporado à nossa rotina e aparentemente nada mudou a tal ponto que tenhamos que passar por uma re-alfabetização informativa. Mas por incrível que pareça é justamente isto o que muitos começam a descobrir, quando entramos cada vez mais fundo na era da internet.

Não dá mais para ler um jornal, revista ou assistir um telejornal da mesma forma que fazíamos até o surgimento da rede mundial de computadores. O Observatório da Imprensa antecipou isto lá nos idos de 1996 quando cunhou o slogan “Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”. De fato, hoje já não basta mais ler o que está escrito ou falado para estar bem informado. É preciso conhecer as entrelinhas e saber que não há objetividade e nem isenção absolutas, porque cada ser humano vê o mundo de uma forma diferente.

Até o advento da internet, a leitura de um jornal era um procedimento linear regido por conceitos absolutos: certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto, legal ou ilegal. Não havia meio termo, e quando havia, eram poucas as opções intermediarias. Além disso, éramos movidos por umaconfiança quase absoluta nos jornais, revistas e telejornais de nossa preferência. Assumíamos as opiniões do veículo como se fossem nossas.

O reaprendizado a leitura de jornais tornou-se uma necessidade porque a produção de uma notícia é cada vez mais um procedimento de alta complexidade. Quando se trata de um assunto importante, um exército de especialistas entra em campo para influir nos mínimos detalhes sobre como o tema será formatado pelos marqueteiros, publicitários e jornalistas; apresentado por programadores visuais, redatores, fotógrafos, cinegrafistas, designers e ilustradores; e finalmente discutido pelos formadores de opinião, especialistas, políticos e governantes.

Todas estas pessoas interferem, com maior ou menor intensidade, naquilo que vamos ler ouvir ou ver na TV. É muita gente, com muitos interesses e com muito preparo técnico para tentarcondicionar nossas percepções e opiniões. Só por isto já dá para ver que só uma boa dose de ingenuidade pode justificar uma atitude passiva diante de tudo o que sai publicado na imprensa.

A disparada do dólar no mercado de câmbio nacional, por exemplo, é uma notícia que pode ser lida de muitas maneiras diferentes, gerando percepções e decisões que podem afetar diretamente o nosso modo de vida. Se você se deixar levar pela excitação das manchetes e dos apresentadores de telejornais, pode acabar achando que caminhamos para uma hecatombe financeira. Mas se você conhecer algum agente de câmbio ele vai te dizer que os investidores estão inseguros porque não sabem o que vai acontecer com o ajuste fiscal e na dúvida compram dólares para se garantir.

Se você for um pouco mais persistente descobrirá que entre os agentes de câmbio há muitos que apostam na especulação, ou seja, quando a cotação passar de um determinado limite eles vendem seus dólares para fazer o que o pessoal do ramo chama de “realizar lucros”. Uma coisa fundamental neste mercado de cambio é a informação confidencial, uma informação que só os grandes investidores e doleiros sabem, mas que você ignora totalmente. Sem entrar em muitos detalhes sobre a alquimia cambial é possível perceber que os interesses de doleiros e investidores levam a taxa do dólar a oscilar continuamente, porque sempre haverá alguém sabendo mais que os outros e aproveitando esta informação confidencial para lucrar. Mas você está fora do jogo porque não tem estes dados.

Assim, hoje em dia, a decisão de informar-se parte do pressuposto de que teremos de ir muito além daquilo que está publicado numa revista ou dito num telejornal. Isto implica não tomar a notícia publicada como uma verdade absoluta. A maioria das pessoas já sabe disto, ou pelo menos desconfia, mas no dia a dia acaba sendo influenciada pelas manchetes impressas ou de telejornais.

É a herança de um comportamento histórico que ainda está impregnado em nossas rotinas e que demora a ser alterado. Ter um pé atrás passou a ser a regra básica número um de quem passa os olhos por uma primeira página, capa de revista ou chamadas de um noticiário na TV.

Há uma diferença importante entre desconfiar de tudo e procurar ver o maior número possível de lados de um mesmo fato, dado ou evento. Apenas desconfiar não resolve porque se trata de uma atitude passiva. É claro, tudo começa com a dúvida, mas a partir dela é necessário ser proativo, ou seja, investigar, estudar, procurar os elementos ocultos que sempre existem numa notícia. No começo é um esforço solitário que pode se tornar coletivo, à medida que mais pessoas descobrem sua vulnerabilidade informativa. Mas isto é assunto para uma nova conversa com você, leitor.

Requião cobra retomada do “caso Banestado”, escândalo-mãe da corrupção no Brasil

Via Roberto Requião

O senador Roberto Requião relembrou nesta quarta-feira (30) a “Operação Macuco”, da Polícia Federal e Ministério Público Federal, que desvendou o escândalo do Banestado, quando se apurou o desvio de 124 bilhões de dólares ao exterior, através do então banco estadual do Paraná. Os valores desviados à época, afirmou o senador, somavam muito mais do que as reservas brasileiras na moeda norte-americana. Segundo o senador, a “Operação Macuco”, conduzida pelo delegado José Castilho Netto e pelo procurador Celso Três, foi o ponto de partida para desvendar os métodos e os caminhos da corrupção no país. No entanto, denunciou Requião, a operação foi abafada e desmontada, sem a punição pelos responsávis pelos desvios. A seguir, texto e vídeo do discurso de Requião sobre o “Caso Banestado”.

Segue a transcrição do discurso:

CASO BANESTADO

SENHORAS E SENHORES SENADORES.

QUERO APROVEITAR HOJE ESSE CLIMA JUSTICEIRO QUE FAZ ARDER EM SANTA IRA OS CORAÇÕES DOS QUE LEVANTAM AS BANDEIRAS DO CIVISMO E DA LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO, PARA LEMBRAR O MAIOR ESCÂNDALO, O ESCÂNDALO-MÃE DE TODAS AS VERGONHAS E MALFEITOS RECENTES.

VOU RELEMBRAR AQUI O CASO BANESTADO, DEVASSA FEITA ENTRE OS ANOS 1966 E 2002, ÉPOCA EM QUE, COMO SE SABE, O HOJE TÃO INDIGITADO PARTIDO DOS TRABALHADORES ERA OPOSIÇÃO. E O PSDB,  PMDB, PTB, PFL, AGORA DEM, ERAM  GOVERNO.

A INVESTIGAÇÃO DO CASO BANESTADO, INTITULADA NO  ÂMBITO POLICIAL DE “OPERAÇÃO MACUCO”, FOI A MAIOR INVESTIGAÇÃO CRIMINAL DO PAÍS DE TODOS OS TEMPOS, E A PRECURSSORA DE OUTRAS GRANDES OPERAÇÕES QUE SE SUCEDERAM NAS GESTÕES DOS PRESIDENTES LULA E DILMA.

O CASO BANESTADO COMEÇOU NA DELEGACIA DA POLÍCIA FEDERAL DE FOZ DO IGUAÇU, PARA APURAR O USO IRREGULAR DAS CONTAS CC5 DO BANCO, CONFORME MENÇÃO DO RELATÓRIO FINAL DA CPI DOS PRECATÓRIOS,  TENDO, À ÉPOCA, CONTADO COM O ENTUSIASMO E A COLABORAÇÃO DO PROCURADOR DA REPÚBLICA  CELSO TRÊS.

 

 

 

O INQUÉRITO MÃE ( INQUÉRITO 207/98 – DPF/FOZ DO IGUAÇU) FOI PRESIDIDO PELO DELEGADO FEDERAL  JOSÉ CASTILHO NETO E SUA EQUIPE DE POLICIAIS FEDERAIS, COMPOSTA DENTRE OUTROS PELOS PERITOS CRIMINAISRENATO BARBOSA  E  EURICO MONTENEGRO .

EM DILIGÊNCIAS REALIZADAS EM NOVA IORQUE/ESTADOS UNIDOS, POR QUASE SEIS MESES, COM O AUXÍLIO DO FBI E DO MINISTÉRIO PÚBLICO DISTRITAL LOCAL, FOI QUEBRADO O SIGILO BANCÁRIO DE 137 CONTAS-CORRENTE DA EXTINTA AGÊNCIA DO BANESTADO NAQUELA CIDADE, CONTAS QUE TINHAM COMO PROCURADORES OS PRINCIPAIS  DOLEIROS BRASILEIROS. ESSES MESMOS QUE ESTÃO AÍ ENREDADOS NA OPERAÇÃO LAVA JATO.

COM ISSO,  DESCOBRIU-SE, EM UM PRIMEIRO MOMENTO, O DESVIO E A EVASÃO DE DIVISAS BRASILEIRAS NO MONTANTE DE 30 BILHÕES DE DÓLARES,  O QUE POSSIBILITOU AOS INVESTIGADORES TRAÇAREM O QUE SE CHAMOU “MAPA DA CORRUPÇÃO BRASILEIRA”.

COM O PROSSEGUIMENTO DA INVESTIGAÇÃO, OS DESVIOS DE DINHEIRO E A EVASÃO DE DIVISAS REVELARAM-SE CICLÓPICOS,  CHEGANDO À FANTÁSTICA CIFRA DE 124 BILHÕES DE DÓLARES.

ESSA QUANTIA JAMAIS APURADA  EM QUALQUER OUTRO ESCÂNDALO NACIONAL ENVOLVIA,  COMO BENEFICIÁRIOS FINAIS,  NOMES COINCIDENTES COM OS DE INTEGRANTES DA ALTA CÚPULA DO EMPRESARIADO E DA POLÍTICA NACIONAL À ÉPOCA,  EM ESPECIAL A POLÍTICOS LIGADOS AO PSDB, DENTRE OUTROS.

 

COMO NÃO SE IGNORA, E SE IGNORA É PORQUE A OMISSÃO É SELETIVA E ALTAMENTE CONVENIENTE, O PERÍODO DA INVESTIGAÇÃO DA CPI FOI DOS ANOS DE 1966 A 2002.

NO ENTANTO, O DELEGADO CASTILHO, NO INÍCIO DO GOVERNO LULA, POR ORDEM DO MINISTRO DA JUSTIÇA MÁRCIO THOMÁS BASTOS FOI AFASTADO DAS INVESTIGAÇÕES, E OUTRO DELEGADO ASSUMIU A PRESIDÊNCIA DO INQUÉRITO.

     COM ISSO, O RASTREAMENTO  DO DINHEIRO NO EXTERIOR FOI INTERROMPIDO E NUNCA MAIS RETOMADO.

EM CONSEQUÊNCIA,  A PROVA CRIMINAL FICOU PREJUDICADA, POIS NO CRIME FINANCEIRO A MATERIALIDADE DELITIVA É O DINHEIRO E  O SEU RASTRO, SEM  O QUE NÃO HÁ PROVA HÁBIL À CONDENAÇÃO .

AO INVÉS DE PROSSEGUIR O  RASTREAMENTO DO DINHEIRO EVADIDO PARA CHEGAR AOS VERDADERIOS PROTAGONISTAS DO ESQUEMA CRIMINOSO, ESTRANHAMENTE, O NOVO DELEGADO, COM O AVAL DO DIRETOR GERAL DA POLÍCIA FEDERAL, OPTOU POR APENAS INVESTIGAR EM TERRITÓRIO NACIONAL,  ATRAVÉS DA OPERAÇÃO POLICIAL INTITULADA “FAROL DA COLINA”, OS DOLEIROS RESPONSÁVEIS PELA EVASÃO.

SETENTA DOLEIROS FORAM PRESOS, COM ALTA REPERCUSSÃO MIDIÁTICA, INCLUSIVE ALBERTO YOUSSEF. MAS SEM QUALQUER EFEITO PRÁTICO, POIS TAIS CRIMES CONTINUARAM A SEREM PRATICADOS,   COMO SE HÁ DE VER NOS ESCÂNDALOS POSTERIOES .

OS PROCESSOS FORAM EM SUA MAIORIA PRESIDIDOS PELO JUIZ SÉRGIO MORO DA JUSTIÇA FEDERAL DE CURITIBA. NO ENTANTO, OU GERARAM ABSOLVIÇÃO POR FALTA DE PROVAS OU PRESCREVERAM POR INÉRCIADA POLÍCIA FEDERAL E DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL.

NOS INQUÉRITOS DO CASO BANESTADO, O DOLEIRO ALBERTO YOUSSEF FOI INDICIADO AO MENOS CINCO VEZES, TENDO SIDO CONDENADO EM UM DELES.

O BANCO DE DADOS COM INDÍCIOS CRIMINAIS, ELABORADO À ÉPOCA,  SERVIU DE BASE DURANTE OS DEZ ANOS SUBSEQUENTES PARA O FOMENTO DE TODAS AS GRANDES INVESTIGAÇÕES DE CRIME FINANCEIRO NO PAÍS, INCLUINDO A OPERAÇÃO “LAVA JATO”.

     ESSE O GRANDE LEGADO DO TRABALHO DO DELEGADO CASTILHO E DO PROMOTOR CELSO TRÊS E SUAS EQUIPES.

     O LEGADO DO BANCO DE DADOS, O DESVENDAMENTO DO CAMINHO DO DINHEIRO, DO MODUS OPERANDI, A REVELAÇÃO DOS NOMES E SOBRENOMES DOS NOTÁVEIS QUE DESVIARAM, A VALORES DA ÉPOCA, 124 BILHÕES DE DÓLARES, MUITO MAIS QUE AS RESERVAS CAMBIAIS DO BRASIL ENTÃO.

ESPECULOU-SE MUITO PORQUE O FALECIDO MINISTRO E ADVOGADO DE TANTAS CAUSAS MÁRCIO THOMAS BASTOS, QUE EFETIVAMENTE MANDAVA NA POLÍCIA FEDERAL,  MUDOU O DELEGADO QUE PRESIDIA O INQUÉRITO E OS RUMOS DA INVESTIGAÇÃO.

 

O EX-MINISTRO NÃO ESTÁ MAIS ENTRE NÓS, DEIXEMOS DE LADO AS PERGUNTAS SEM RESPOSTAS.

SENHORAS E SENHORES SENADORES.

COM TODA CERTEZA, SE O INQUÉRITO PRESIDIDO PELO DELEGADO CASTILHO E ACOMPANHADO DE PERTO PELO PROCURADOR CELSO TRÊS TIVESSE SE COMPLETADO, COM O RASTREAMENTO DO DINHEIRO NO EXTERIOR, NÃO TERÍAMOS OS ESCÂNDALOS QUE SE SUCEDEM ININTERRUPTAMENTE NA ÚLTIMA DÉCADA.

POR QUE O INQUÉRITO-MÃE, O PONTO DE PARTIDA PARA DESVENDAR TODA A TRAMA DA CORRUPÇÃO NO PAÍS FOI ABANDONADO?

      POR QUE NUNCA SE SEGUIU O RASTRO DOS 124 BILHÕES DE DÓLARES DESVIADOS PARA O EXTERIOR?

COMO INVESTIGAR OS DESVIOS DE HOJE SEM RETOMAR AS INVESTIGAÇÕES DO DELEGADO CASTILHO E DO PROCURADOR CELSO TRÊS?

LÁ ESTÃO OS FIOS DA MEADA. LÁ ESTÃO OS NOMES, TODOS OS NOMES. A NOMENKLATURA TODA. LÁ ESTÁ A TECNOLOGIA DA  CORRUPÇÃO, DA FRAUDE, DO ROUBO,  DA SONEGAÇÃO, DA MALVERSAÇÃO, DA PROPRINA, DOS TRAMBIQUES, DAS CONCORRÊNCIAS E COMPRAS VICIADAS, SUPERFATURADAS.

LÁ ESTÃO ALBERTO YOUSSEF E OS SETENTA DOLEIROS. LÁ ESTÃO AS DELAÇÕES  PREMIADAS, QUE LOGO EM SEGUIDA FORAM TRAÍDAS PELOS DELATORES.

NADA, POR MAIS ESPANTOSO QUE SE APURE HOJE É NOVIDADE FRENTE ÀQUELA DESDITOSA INVESTIGAÇÃO.

TENHO A CONVICÇÃO QUE ENQUANTO A “OPERAÇÃO MACUCO” NÃO FOR RETOMADA, CONTINUAREMOS ESSE CANSATIVO E INÚTIL TRABALHO DE CARREGAR PEDRAS ATÉ O TOPO DA MONTANHA, PARA VÊ-LAS EM SEGUIDA DESPENCAR. E TUDO RECOMEÇAR,

POR FIM, UMA NOTÍCIA QUE CONFIRMA A SELETIVIDADE DE DETERMINADAS OPERAÇÕES DE COMBATE À CORRUPÇÃO.

O JORNAL GAZETA DO POVO, DE CURITIBA, NOTICIOU NOS DIAS 27 E 28, DOMINGO E SEGUNDA PASSADOS, QUE A DELAÇÃO, DEVIDAMENTE PREMIADA, DE ALBERTO YOUSSEF SOBRE  CORRUPÇÃO NO GOVERNO DE JAIME LERNER, SUMIU DO PROCESSO.  ESCAFEDEU, EVAPOROU-SE, CRIOU ASAS, NINGUÉM SABE, NINGUÉM VIU.

TÃO SIMPLES ASSIM: A  DELAÇÃO DE ALBERTO YOUSSEF NO CASO COPEL/OLVEPAR, ONDE OS MELIANTES LEVARAM MAIS DE 150 MILHÕES DE REAIS DA EMPRESA PARANAENSE DE ENERGIA, ENVOLVENDO FIGURAS DE PROA DO ENTÃO GOVERNO ESTADUAL, SUMIU DO INQUÉRITO.

NOTICIA A GAZETA QUE A DURAS PENAS TENTA-SE RECONSTRUIR A DELAÇÃO DO DOLEIRO.

MESMO QUE QUISESSE, NÃO ENCONTRARIA UM EPÍLOGO À ALTURA DO DESMONTE DAS INVESTIGAÇÕES DO BANESTADO QUE ESSA INFORMAÇÃO SOBRE O DESAPARECIMENTO DA DENÚNCIA DE YOUSSEF NO ESCÃNDALO COPEL/OLVEPAR.

E ESPERO QUE TODOS OS QUE SE LEVANTAM CONTRA A CORRUPÇÃO E OS CORRUPTOS FIQUEM INDIGNADOS COMO EU, DIANTE DA IMPUNIDADE DO CASO BANESTADO E DIANTE DO SUMIÇO DA DELAÇÃO DESSE TÃO FAMOSO E ATÉ MESMO CULTUADO PERSONAGEM CHAMADO ALBERTO YOUSSEF.

POR FIM, AO DELEGADO CASTILHO, AOS PERITOS CRIMINAIS RENATO BARBOSA E EURICO MONTENEGRO E AO PROCURADOR CELSO TRÊS MINHAS HOMENAGENS PELO PIONEIRISMO DAS INVESTIGAÇÕES DE LAVAGEM DE DINHEIRO, FRAUDES FINANCEIRAS, FRAUDES FISCAIS, CORRUPÇÃO.

“OPERAÇÃO MACUCO”, FOI LÁ QUE TUDO COMEÇOU.

ALIÁS, UM PERGUNTA PARA O MINISTRO CARDOZO E PARA A POLÍCIA FEDERAL: POR ONDE ANDA O DELEGADO JOSÉ CASTILHO NETTO?

Eduardo Cunha: ruiu o império

Por Jean Wyllis | Via Carta Capital

Ele faz um cínico silêncio, seus cúmplices mantêm-se calados e a presidência da Câmara usa estrutura pública para a defesa de alguém em vias de virar réu.

Vossa excelência tem ou não tem contas na Suíça? Lula Marques/Agência PT

Leonardo Meirelles, Alberto Youssef, Fernando Soares Baiano, Julio Camargo, João Augusto Henriques e Eduardo Musa… Já são seis os delatores daOperação Lava Jato que apontam seus indicadores para Eduardo Cunha(PMDB/RJ), o atual presidente da Câmara dos Deputados, e afirmam em uníssono: o deputado também se locupletou com o esquema de corrupção que sangrou a Petrobras por tantos anos.

Ontem foi a vez de o Ministério Público da Suíça repassar ao Ministério Público Federal do Brasil mais informações sobre a existência de contas secretas em instituições financeiras daquele país, todas no nome do deputado e no de familiares, com dinheiro que se suspeita proveniente desses e de outros esquemas investigados pela Justiça estrangeira desde abril deste ano.

A grande imprensa, obcecada em implicar a presidente Dilma Rousseff na Lava Jato, deu (com exceção do Estado de S. Paulo e da Folha de S.Paulo) a notícia em capas dos principais veículos. Mas, surpresa! Um silêncio enervante tomou conta do Plenário nesta quinta-feira, quando o meu companheiro Chico Alencar, líder da bancada do PSOL, perguntou na tribuna:

- É simples assim: presidente Eduardo Cunha, vossa excelência tem ou não tem contas na Suíça?

Silêncio ensurdecedor.

Acuado a cada hora que passa, Eduardo Cunha recorreu à habitual arrogância para se manter em silêncio, como se tivesse esse direito diante da pergunta, que é de toda a sociedade brasileira.

Esse comportamento desnuda o (mau) caráter desse homem que, enquanto se envolve em esquemas de corrupção e intimida potenciais delatores, sustenta um discurso público de “defensor dos valores familiares” e toca uma pauta legislativa que atenta contra os direitos de indígenas, mulheres, população negra pobre e LGBTs – tudo com o apoio de deputados evangélicos e da bancada da bala.

Os indignados da internet, movidos numa atuação já denominada “ativismo de sofá”, e mesmo muitos dos que foram às ruas reclamar da “corrupção do PT” também silenciam providencialmente agora. Quem sabe ficaram sem ter o que dizer das selfies feitas alegre e intimamente ao lado de Cunha há poucos meses?

A indignação desses “revoltados” e “indignados” não é movida a ética, mas a oportunismo político e ódio de classe. Farão boneco inflável de Eduardo Cunha vestido de presidiário? Claro que não! Ora, quem financiou a confecção do boneco de Lula – sobre quem até agora não pesa nenhuma denúncia formal dos órgãos de investigação e da Justiça – comunga no altar do presidente da Câmara.

O Brasil sério entra em compasso de espera por alguma definição.

E, lembremos: não é a primeira denúncia de corrupção que Cunha enfrenta. Em cada cargo público que ocupou, desde a época em que chegou ao poder pelas mãos de PC Farias e Fernando Collor de Melo, ele esteve sempre envolvido em escândalos.

As denúncias se acumulam, Cunha faz um cínico silêncio “tô nem aí”, seus cúmplices entre os parlamentares mantêm-se calados e, pior que isso, a presidência da Câmara usa a estrutura pública para organizar a defesa de um parlamentar em vias de se tornar réu.

De acordo com a Folha de S.Paulo, a Câmara elaborou modelos de requerimento para os parlamentares do PMDB assinarem, em que se solicita a produção de relatórios que, supostamente, teriam alguma serventia na defesa de Cunha – estratégia pífia de seus advogados.

Somos nós, todos os brasileiros, financiando essa defesa obviamente indefensável. A House of Cunha é um teatro dos absurdos.

É o Brasil sendo engolido mais uma vez pela enorme hipocrisia e o jogo retórico fajuto do PMDB, o partido do poder, dos negócios e da chantagem permanente — ao qual o governo Dilma não para de ceder mais e mais, entregando a eles cada dia mais poder e ministérios.

Diferentes discursos que giram em torno da “moralidade” são colocados no centro do debate público. Uma moralidade seletiva, que, quando fala em corrupção, aponta apenas para o PT (ao mesmo tempo em que o chantageia para conseguir o que quer).

Uma visão de moralidade que, quando fala em degeneração, associa esse conceito à sexualidade dos outros (entendida como nas épocas da Inquisição); que quando fala em “bandidos” só enquadra adolescentes jovens e negros vítimas da marginalidade; quando fala em combate ao crime, não entende como crime os milhões de dólares desviados para contas bancárias no exterior, roubados de empresas estatais (embora seja capaz de cuspir num “maconheiro”).

O discurso moralista hipócrita que une as bancadas da bala, do boi, da Bíblia e o baixo clero do PMDB e dos partidos fisiológicos é uma cortina de fumaça para esconder a escandalosa imoralidade: o roubo de dinheiro público e o financiamento da política pelo grande capital.

Cunha tem que cair. A Câmara dos Deputados não pode continuar presidida por um sujeito sobre quem pesam tantas acusações de corrupção – como se seu legado de retrocesso nos direitos humanos e no avanço das políticas sociais já não fosse derrota bastante para o Brasil.

Cunha tem que cair, mas não sozinho. Que leve junto para os desníveis onde em breve se encontrará, graças à ação da Justiça, em que confiamos, todo o sistema hipócrita de ladrões, vendilhões do templo, exploradores da fé alheia, inimigos dos direitos humanos, fascistas, latifundiários opressores de índios e policiais e militares nostálgicos da ditadura que tomaram o parlamento brasileiro.