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A corrupção legitimada do cartel financeiro

Por Rennan Martins | Vila Velha, 01/12/2015

Passa despercebido da opinião pública – e publicada – brasileira este que é um dos maiores escândalos financeiros já revelados, o do cartel internacional do câmbio. O esquema está sendo investigado no Brasil, Suíça e Reino Unido. Nos EUA os processos tiveram desfecho com o reconhecimento de culpa e pagamentos que somam U$ 5,6 bilhões por parte dos bancos Barclays, Citigroup, JP Morgan, Royal Bank of Scotland e UBS.

No Brasil a querela corre, sob sigilo, em processo administrativo (PA 08700.004633/2015-4) no Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica, desde o dia dois de julho do presente ano, e abrange não só as instituições financeiras supracitadas, mas também os bancos Standard de Investimentos, Tokyo-Mitsubishi, UFJ, Credit Suisse, Deutsche Bank, HSBC, Chase, Merril Lynch, Morgan Stanley, Nomura, Royal Bank of Canada, Standard Chatered, e ainda mais trinta pessoas físicas. Sua abertura se deu após um dos bancos envolvidos, o suíço UBS, assinar um acordo de leniência no qual se compromete a apresentar provas dos crimes em troca da imunidade relativa a eventuais punições.

Denominados “o cartel” ou “a máfia”, o grupo teria usado o serviço de chat da Bloomberg, pelo menos entre 2007 a 2013, para, nas palavras do Valor Econômico:

(…) fixar níveis de preços (spread cambial); coordenar compra e venda de moedas e propostas de preços para clientes; além de dificultar e/ou impedir a atuação de outros operadores no mercado de câmbio envolvendo a moeda brasileira. Ainda de acordo com o Cade, as instituições financeiras acusadas teriam se coordenado para influenciar índices de referência dos mercados cambiais, por meio do alinhamento de suas compras e vendas de moeda.”

Se condenados os bancos arcarão com multas entre 0,1% a 20% do seu faturamento no setor relativo ao ano anterior à instauração do processo administrativo, enquanto as pessoas físicas estão sujeitas a multa de 1% a 20%, se administradores, e entre R$ 50 mil a R$ 2 bilhões, no caso dos não administradores. O presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior, José Augusto de Castro, estima os prejuízos em US$ 50 bilhões nas vendas de manufaturados e dois milhões de empregos não criados.

Hegemonia e ideologia

A oligopolização do capital financeiro e seu domínio sobre todos os outros setores teve início com a desregulação e liberalização iniciada com a onda neoliberal que varre a economia global a partir da década de 80. Ao contrário do postulado e até hoje repetido, o processo não desconcentrou nem “democratizou” o mercado, mas o restringiu a um conglomerado restrito altamente interconectado que, evidentemente, ignora os preceitos da Mão Invisível sempre que isso se traduz em “lucros” exorbitantes.

É o que diagnostica com maestria o economista Andrea Fumagalli, em entrevista ao IHU:

O pensamento neoliberal fundamenta-se no conceito de neutralidade da moeda e na suposição da perfeita competição nos mercados financeiros. Na verdade, os mercados financeiros não são imparciais e neutros, mas expressão de uma hierarquia bem precisa: longe de serem concorrenciais, escondem uma pirâmide que vê, na parte superior, poucos operadores financeiros controlando mais de 65% de fluxos globais e, na base, uma miríade de pequenos investidores e operadores desempenhando uma função passiva. Tal estrutura permite que poucas empresas tenham capacidade de atingir e afetar a dinâmica do mercado. As agências de rating (amiúde em conluio com as financeiras) ratificam, de modo instrumental, decisões oligárquicas, tomadas de tempos em tempos.

Com tal farsa, o pensamento neoliberal tenta fazer passar como objetiva, neutra e naturalmente dada, uma estrutura de poder que, ao contrário, objetiva favorecer uma distribuição que vai dos mais pobres para os mais ricos.”

Considerando a duração, escala e magnitude dos roubos praticados por este cartel transnacional, é forçoso constatar um elemento fundamental na equação, aquele que torna estes crimes socialmente aceitos. Falo do conceito de hegemonia. Apesar de teorizada pelo comunista Antonio Gramsci, a hegemonia é muito melhor trabalhada pelos capitalistas.

Por meio de uma imprensa cooptada e um aparelho industrial de cultura massiva são incutidos na sociedade e até mesmo no Estado, os valores condizentes aos interesses do 1%. O consumismo, o individualismo e a alienação são propagados de forma a anestesiar e confundir a sociedade, legitimando a agenda desta oligarquia. A “intelectualidade” mainstream evita tratar de fios desencapados como o cartel do câmbio, mas quando o faz desvia o foco, como é possível ver no artigo publicado no Blog do Noblat, onde o título “Só o BC não viu” dá a entender que o problema é de governo, escondendo a natureza estrutural da problemática.

É também desta forma que se imprime diretrizes políticas a um determinado país. Vejam o exemplo da Operação Lava Jato. Uma investigação que se propunha a desmantelar um cartel de empreiteiras se torna um escândalo que transcende seu âmbito original, tornando-se um espetáculo onde todo um Estado, governo e instituições são submetidos. A conveniência política da Lava Jato é o único fator que expõe o porque se transforma uma junta de juízes e procuradores em estrelas, inflando-lhes o ego a cada arroubo punitivista. Ou outra coisa explicaria a completa desatenção da justiça e sociedade com certos casos de corrupção e o horror frente a outros? Onde estão os vazamentos, colativas de autoridades e manchetes bombásticas, quando o assunto é o cartel transnacional do câmbio?

A corrupção, portanto, não passa de sintoma num sistema onde o valor maior é a acumulação, estando suas elites livres para usarem de seu poder econômico para conseguir mais poder político e assim impôr suas regras. Não serão heróis nem justiceiros que darão conta desta questão urgente, mas uma profunda mudança de valores no sentido da cooperação e solidariedade.

A longa marcha nacional da insensatez

Por Luis Nassif | Via Jornal GGN

Nunca foi tão difícil prever cenários para o país como agora.

Em geral montam-se cenários identificando duas ou três variáveis-chave e um duas possibilidades, no máximo três para cada uma.

Hoje em dia, a quantidade de variáveis indefinidas é inédita.

  1. Quanto tempo mais perdurará a crise política e quais seus efeitos sobre as tentativas de impeachment?

  2. A Comissão de Justiça da Câmara dará ou não aval para o julgamento de Eduardo Cunha pela casa? Dando, haverá votação aberta ou fechada? Sendo fechada, ele será condenado ou absolvido?

  3. Sendo condenado ou absolvido qual será o encaminhamento que dará aos pedidos de impeachment da Presidente?

  4. Com a prisão de Delcídio Amaral, qual será a solução de continuidade das articulações do governo?

  5. No festival de delações em curso, por quanto tempo ainda serão blindadas as lideranças da oposição? Se Aécio Neves e José Serra forem engolfados pelas delações, como ficará a oposição?

  6. Quais os desdobramentos para a situação – e para Lula – de uma eventual delação de Delcídio Amaral?

  7. Que outros políticos ou Ministros do STF foram mencionados por Delcídio nos demais grampos que ainda não foram divulgados?

  8. Saindo o pacote fiscal, em quanto tempo se recompõem as finanças públicas?

  9. Não saindo, como estará a situação dos estados a partir de abril, quando cessam os efeitos da arrecadação do IPVA?

  10. O fator Dilma: qual o seu fôlego para recompor a governabilidade em caso de aumentou ou redução da crise política?

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Desse conjunto vasto de alternativas têm que emergir duas saídas para a crise:

  1. Recomposição da base de apoio político permitindo aprovar uma saída fiscal.

  2. Dilma Rousseff começar a governar.

Essa barafunda de alternativas mostra nitidamente o tamanho da crise institucional.

O Congresso converteu-se em um arquipélago de grupos sem rumo e sem liderança. O mesmo ocorre com os diversos partidos políticos, alguns na defensiva, outros na ofensiva, mas todos prisioneiros de interesses imediatos e paroquiais.

A exposição das vísceras do presidencialismo de coalisão não poupa ninguém, nem governo nem oposição.

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Por outro lado, todo o aparato judicial – Ministério Público, Polícia Federal e tribunais em geral – não parecem dispostos a nenhum tipo de trégua, alguns claramente aliados com a mídia, outros inibidos pelo chamado clamor das ruas.

O destempero da Ministra Carmen Lucia, do STF, é uma demonstração clamorosa de que o show midiático penetrou em todos os poros do poder.

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Daqui para a frente, há que se aguardar e iniciar a contagem regressiva para dois eventos.

O primeiro, é a calmaria de fim de ano, com o recesso parlamentar. A segunda são  os efeitos do vácuo fiscal em 2016.

Os estados conseguem garantir o primeiro trimestre com a arrecadação do IPVA. A partir de abril, a crise fiscal pode bater pesado nos estados e municípios. Muitos deles serão incapazes de pagar a própria folha.

Se não se conseguir virar o ano com perspectivas otimistas mínimas, as comportas do desemprego serão abertas.

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Não se sabe o que poderá interromper essa marcha da insensatez. Uma hora cairá a ficha geral para interromper essa marcha da insensatez. A incógnita é quanto mais a crise terá que se aprofundar para se chegar ao bom senso.

Desastre social teria sido menor sem espetáculo para a televisão

Por J. Carlos de Assis

Foto: Colégio Web

As investigações da Lava Jato revelaram, por trás da corrupção real, a corrupção de caráter de seus próprios autores que, por vaidade ou presunção, atropelam com prisões ilegais princípios mais elementares de Justiça e direitos consagrados dos cidadãos, como habeas corpus, presunção de inocência e julgamento com o devido processo legal. Estamos na mais aberrante situação de ditadura do Judiciário, tão detestável quanto a ditadura militar, e pior que ela pois fica sob o véu da legalidade.

Não é legítimo o poder invocado pelo Judiciário do Paraná, sob cobertura do Supremo, para criar legislação tópica no lugar de seguir a lei geral. Seus executores se superpõem ao Legislativo e ao Executivo quando, por exemplo, usam de subterfúgios para justificar prisões por tempo indeterminado com óbvio propósito de arrancar dos moralmente torturados alguma forma de delação. Isso não é Justiça. É arbítrio. Em qualquer país civilizado chama-se ditadura. Ou justiça do Cádi, como ensinou Max Weber.

Já escrevi que quem decreta prisão em flagrante de suspeito por ter apontado em declarações gravadas ilegalmente sua intenção de corromper quatro ministros do Supremo teria de tê-lo tratado ou como louco fanfarrão sem crédito, ou como potencial colaborador numa delação premiada. Por caminhos tortuosos, os ministros suspeitos deram crédito apenas à parte da gravação que falava numa fuga rocambolesca, cobrindo a si mesmos como a toga dos novos intocáveis e se escondendo por trás da situação de autoridade.

Justiça do Cádi, segundo Weber, “não conhece qualquer julgamento racional”. É a matriz do direito consuetudinário anglo-saxônico, diferente de nossa matriz romana, racional. Atende apenas ao arbítrio do juiz, não raro sob influência da opinião pública. Isso é particularmente assustador numa democracia de massas. Nesta, “a opinião pública é a conduta social nascida de ´sentimentos´ irracionais. Normalmente, ela é encenada, ou dirigida, pelos líderes partidários e pela imprensa”. No nosso caso, podemos dizer pela imprensa, a serviço de uma certa ala do poder político.

Deixo muito claro que aplaudo a parte criminal legal da Operação Lava Jato. Mas não posso concordar com a virtual paralisação da Petrobrás e da cadeia de petróleo, com a destruição de grandes construtoras brasileiras e de centenas de milhares de empregos, e com o comprometimento de toda a economia brasileira, lançada numa contração este ano que pode chegar a 5%. Se tivesse sido feita com maior discrição, sem a conotação de investigação-espetáculo, a operação poderia chegar aos mesmos resultados criminais, sem prejudicar a economia e sem atropelar a legalidade.

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José Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”, Ed. Textonovo, SP.

PGR pede abertura de inquéritos contra Renan, Delcídio e Jader

Por Wilson Lima | Via Fato Online

Delcídio e Renan são alvos de novos pedidos de inquéritos pela PGR. Joel Rodrigues/ObritoNews/Fato Online

A PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu, nesta segunda-feira (30), ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Teori Zavascki, a abertura de inquéritos contra os senadores Delcídio do Amaral (PT/MS), Jader Barbalho (PMDB/PA) e Renan Calheiros (PMDB/AL), presidente do Senado. Os pedidos de investigação querem apurar crimes como lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

As petições estão em segredo de Justiça mas são baseadas, principalmente, nas delações premiadas do lobista Fernando Soares, o Baiano, tido como o operador do PMDB no esquema de desvios de recursos da Petrobras, investigado pela Operação Lava-Jato e nas informações prestadas pelo ex-diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró. Cerveró firmou delação premiada na terceira semana de novembro, mas ela ainda não foi homologada pelo ministro Teori Zavascki.

Segundo investigações da Lava-Jato, Jader, Renan e Delcídio são apontados como beneficiários do pagamento de propina após a compra da refinaria de Pasadena, pela Petrobras. A força-tarefa da Lava-Jato aponta que, somente em Pasadena, foram pagos de US$ 15 milhões a agentes políticos para facilitar a concretização do negócio. Os senadores também teria recebido recursos desviados fruto de contratos firmados pela Sete Brasil na operação de navios sondas para Petrobras. Nos contratos de Navios Sondas, conforme as delações de Fernando Baiano, houve um repasse de US$ 6 milhões para Renan, Jader e para o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau.

Na semana passada, Delcídio foi preso acusado de atrapalhar as investigações da Polícia Federal e do MPF no âmbito da Lava-Jato. Uma gravação feita pelo filho de Cerveró, Bernardo, revelou um plano de fuga para Cerveró, que foi arquitetado pelo petista. Após a prisão do parlamentar, o STF instaurou inquérito para apurar a conduta de Delcídio.

 

Renan já é alvo de quatro inquérito relacionados à Lava-Jato e Jader Barbalho, apesar de ter sido constantemente citado, até o momento não era alvo de um pedido de investigação. Atualmente, existem 31 inquéritos instaurados no Supremo apurando condutas de parlamentares envolvidos na Lava-Jato. São 13 senadores investigados. Desde o início das investigações, Jáder, Renan e Silas, sempre negaram qualquer tipo de envolvimento no esquema da Lava-Jato.

Outro Lado

Ao tomar conhecimento, no final da tarde desta segunda-feira (30), do pedido do  procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para abertura de dois novos inquéritos contra ele, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), divulgou nota na qual afirma que “suas relações com as empresas públicas nunca ultrapassaram os limites institucionais”.

Renan disse ainda já prestou os esclarecimentos necessários, mas se colocou à disposição para novas informações. O presidente do Senado declarou que “nunca autorizou, credenciou ou consentiu que seu nome fosse utilizado por terceiros”.

Já o senador Jáder Barbalho (PMDB-PA), também incluído no novo pedido de inquérito do procurador, disse desconhecer os termos do pedido. “Não posso me manifestar sobre isso. O que vou dizer a respeito de algo que não conheço?”

O porrete e o vira-lata

Por Mauro Santayana | Via Brasil 247

Todo dia acordo no lado errado do capitalismo. Foto: Street Art

No momento em que se levantam, novamente, as vozes do neoliberalismo tupiniquim, exigindo uma rápida abertura comercial do Brasil para o exterior, e o PMDB inclui, em seu documento Uma Ponte para o Futuro, a necessidade do Brasil estabelecer acordos comerciais com a Europa e os EUA, lembrando a iminência e a imposição “histórica” do Acordo Transpacífico, e em que mídia tradicional segue com sua insistência em defender como modelo a ridícula Aliança do Pacífico, a União Européia – depois de enrolar, durante anos, nas negociações com o MERCOSUL – parece que vai simplesmente “congelar” as negociações entre os dois blocos nesta sexta-feira.

A razão é clara.

Por mais que se esforcem os vira-latas tupiniquins, fazendo tudo que os gringos querem, oferecendo quase 90% de liberação de produtos, os protecionistas europeus simplesmente se recusam a concorrer com o Mercosul na área agrícola – justamente onde somos mais competitivos.

E, além disso, como se não bastasse, a UE como um todo, para dificultar, hipocritamente, ainda mais o fechamento de um acordo, exige o equivalente a uma rendição total da nossa parte:

A liberação de quase 100% dos produtos e livre acesso, para suas empresas, como se nacionais fossem, a setores como serviços de engenharia e advocacia e ao gigantesco mercado de compras governamentais brasileiro, de dezenas de bilhões de dólares.

O recado é óbvio:

Não adianta ficar ganindo e mendigando com olhar pidão, para ter atenção ou uma migalha, porque não vamos ceder um centímetro, e, mesmo que vocês façam tudo, tudo o que queremos, poderão não ganhar nada em troca, está claro?

Como lembramos outro dia, grandes potências impõem acordos comerciais, e os pequenos países os assinam.

Nações que não tem uma indústria tão desenvolvida como a nossa, como a Argentina, ou outras, que, com salários miseráveis, se transformaram em mera linha de maquila, tendo prejuízos no comércio exterior, apesar de trabalharem como burros de carga montando produtos destinados a terceiros mercados, como o México (vide O México e a América do Sul), não tem outra saída a não ser se associar a outros países (esse é o projeto do Brasil para a América do Sul, por meio do Mercosul e da UNASUL) ou assinar acordos comerciais desvantajosos, para se integrar, subalternamente, à economia mundial.

Países maiores, com grandes mercados consumidores reais ou potenciais, como a China, preferem fechar suas economias durante anos, dedicando-se a desenvolver seu mercado interno, a indústria e a tecnologia, abrindo seletivamente seu território a empresas estrangeiras e cobrando um alto preço para quem quisesse ter acesso a ele, para depois se impor, comercialmente, ao mundo.

A pergunta é a seguinte:

Vamos nos atrelar, como um mero vagão de commodities, ao trem puxado pela Europa e os Estados Unidos, onde sempre seremos tratados, apesar de nossos eventuais progressos, como um povo de segunda classe, ou, em nossa condição de oitava economia do planeta, vamos tentar estabelecer um projeto próprio e soberano, de longo prazo, como fazem outras potências intermediárias do nosso tipo, como a China, a Rússia e a Índia, que, aliás, não têm – nenhuma delas – acordos de livre comércio com a Europa ou os EUA?

Tentar emular, abjetamente os outros, e lamber o sapato alheio é fácil.
Difícil é trabalhar para erguer – assumindo a missão e o sacrifício – no quinto maior território do mundo – uma nação justa, forte, e independente, e legá-la, como fizeram em outros países que muitos no Brasil admiram e “copiam”, como um estandarte de honra e de prosperidade, para os nossos filhos.

 

Congresso decide futuro de Delcídio, Cunha e do governo

Por Gabriela Salcedo | Via Congresso em Foco

Governo aposta na aprovação da revisão da meta fiscal para não entrar em colapso. No Senado, oposição prepara representação contra petista. Na Câmara, Cunha tenta barrar sua cassação.

A bancada vazia do senador Delcídio do Amaral no Senado. Oposição articula representação contra o ex-líder do governo. Antônio Cruz/ABr

A semana promete ser decisiva para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e para o governo. Os dois parlamentares podem ficar mais perto da cassação do mandato. Já o Executivo, que anuncia nesta segunda-feira (30), um corte de R$ 10,7 bilhões no orçamento, corre contra o relógio para que o Congresso Nacional aprove a revisão da meta fiscal para 2015. Do contrário, poderá agravar a crise que afeta suas contas.

Partidos de oposição pretendem entrar com pedido de cassação do mandato de Delcídio no Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. Receosos de o pedido não partir da Mesa, uma vez que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também é investigado no Supremo Tribunal Federal pela Operação Lava Jato, o PPS, o PSDB, o DEM e a Rede se movimentam para entrar com representação nesta terça-feira (1º) contra o ex-líder do governo. O presidente do Senado, no entanto, tem dado sinais de resistência à instalação do Conselho de Ética.

Na Câmara, a promessa também é de dias agitados. Nesta terça-feira o Conselho de Ética se reunirá para votar o parecer preliminar de Fausto Pinato (PRB-SP). O deputado já se manifestou pelo prosseguimento da ação contra o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Segundo ele, a representação apresentada pela Rede e pelo Psol traz indícios que podem ser considerados como quebra de decoro parlamentar do peemedebista, o que o fez redigir parecer pela admissibilidade do caso. Os integrantes do conselho deverão votar agora pela continuidade ou não do processo. Entre outras coisas, Cunha é acusado de ter mentido à CPI da Petrobras ao negar a existência de contas na Suíça.

Antes de a batata assar para o seu lado, Cunha pretende acender outra fogueira. Ele anunciou que pretende decidir, no início desta semana, sobre todos os sete pedidos de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, que ainda estão pendentes de decisão. No Conselho de Ética, o deputado fluminense depende do voto de três petistas para impedir o avanço de seu processo de cassação.

Meta fiscal

Quanto às votações, a sessão conjunta para decidir sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2016 e o projeto de lei (PLN 5/15) que define a nova meta fiscal a ser cumprida em 2015. Prevista para a última semana, a votação foi adiada para esta terça devido à prisão de Delcídio. Uma vez aprovada a revisão da meta deste ano, o governo fica autorizado a cumprir déficit primário de até R$ 119,9 bilhões.

O relatório do projeto da LDO 2016 que será apreciado contraria a vontade do governo. A equipe econômica de Dilma tentou aprovar redução de pelo menos R$ 20 bilhões na meta. No entanto, a Comissão Mista de Orçamento não autorizou. Com isso, a proposição estabelece que a União e seus entes federados apresentem resultado fiscal de R$ 43,8 bilhões no próximo ano.

Uma missão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s desembarca no Brasil para uma nova análise do quadro político e econômico do país, como informa o jornal O Estado de S.Paulo. A chegada dos analistas da S&P surpreendeu negativamente o mercado financeiro. Há menos de dois meses a agência retirou o grau de investimento – o selo de bom pagador – e colocou a nota do Brasil em grau especulativo para os investidores. O receio dos analistas e do governo é que novo rebaixamento esteja em curso com o agravamento das crises política e econômica.

Supersalários

A pauta do Plenário da Câmara está trancada com proposição que também pode gerar muitos dissabores aos planos fiscais do governo. Será apreciado em plenário substitutivo ao Projeto de Lei 3.123/15, do poder Executivo, que desfigura o texto do governo para regulamentar o teto do funcionalismo. Pela nova versão, os servidores poderão receber até mais que o dobro do atual teto, que é de R$ 33,7 mil, ou seja, mais de R$ 67,5 mil.

Já o Senado deverá decidir sobre a Medida Provisória 697/15, que abre crédito extraordinário de R$ 950 milhões em favor dos Ministérios da Justiça, das Relações Exteriores, dos Transportes, da Defesa e da Integração Nacional.

Entre as despesas previstas com o montante, o Ministério da Integração Nacional receberá R$ 610 milhões para atender as populações vítimas de desastres naturais. A medida destina também R$ 300 milhões para o Ministério das Relações Exteriores, que devem ser utilizados no pagamento de aluguéis de imóveis, salários de auxiliares locais e auxílio-moradia de servidores de 227 representações diplomáticas no exterior (embaixadas, consulados e escritórios).

Riscos diferentes do Brasil, da Argentina e da Venezuela

Por J. Carlos de Assis

A extrema divisão interna da sociedade está encaminhando a Argentina e a Venezuela para a tragédia de uma revolução social. Nós também corremos o mesmo risco, porém com uma atenuante: aqui, depois do fim da Guerra Fria, as divisões ideológicas são menos acentuadas, e as divergências políticas nas elites dirigentes são superficiais. Com isso, é muito difícil identificar uma diferença essencial entre seguidores de Lula e de Fernando Henrique. Há diferenças, sim, mas fundamentalmente no campo emocional, como torcidas de futebol.

Antes que haja uma contestação, é bom lembrar que o principal ministro de Dilma, Joaquim Levy, na área central da administração pública, saiu das hostes tucanas. Então como dizer que há diferenças inconciliáveis entre as elites petistas e tucanas no terreno concreto da economia? Obviamente que há petistas indignados com a entrega a Levy do principal posto do Governo mas eles não contam como elite dirigente. Diante do fato, a única saída dos inconformados é estimular ações das bases contra o Ministro de forma puramente emocional.

Essa situação foi criada não por Dilma, mas por Lula, com seu espírito de conciliação. Por diferentes razões isso funcionou com ele. Por diferentes razões isso já não funciona com ela. Dois fatores nos empurraram para o estado de pré-ruptura que nos aproxima de Argentina e Venezuela: a não aceitação por Aécio Neves, sem qualquer base jurídica ou política, de sua derrota eleitoral, e as consequências econômicas da Lava Jato, que empurrou o país para uma recessão a que se somou ao ajuste Levy. O resultado é uma contração que ameaça chegar a 5%  este ano, já se anunciando oficialmente mais 2% de contração no próximo.

Se o risco de ruptura na Argentina e na Venezuela se deve a divisões ideológicas e políticas, no Brasil o problema é de outra natureza: caminhamos para uma das crises econômicas e sociais mais agudas de nossa história, o que afeta interesses reais, não propriamente ideológicos e políticos, de milhões de pessoas desempregadas ou ameaçadas de desemprego e de queda de renda real. Essa base social, na medida em que tomar consciência de que não lhe oferecem esperança, pode explodir, não contra o PT ou contra o PSDB, mas contra toda a classe dominante e dirigente, por seu fracasso na condução da economia.

A mídia tem papel decisivo no processo de gerar combustão social. A máquina de magnificação de escândalos da Rede Globo, totalmente partidarizada, está criando condições emocionais para a explosão da crise na medida em que martela a opinião pública com denúncias ainda em fase de investigação tomadas como verdadeiras (veja o caso do filho do Lula). Acontece aí o que escrevi em “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”: a grande imprensa reproduz, como verdade, toda declaração da polícia, da promotoria ou do juiz a fim de explorar, de forma muitas vezes injusta, a emoção de cada caso..

Essa situação extrema requer soluções extremas. Ninguém tem dúvida de quão difícil é arquitetar um pacto social. Mas isso vem sendo tentado e teremos notícias em breve do compromisso que está sendo costurado em torno do DIEESE juntando trabalhadores e patrões. No próximo dia 3 será anunciado um acordo. Mesmo que não seja o ideal, nem completo, será o primeiro passo para a construção do que estou chamando de Grande Acordo Social em torno do objetivo comum de mudar a política econômica no rumo da recuperação e preservação do emprego, e da retomada imediata do crescimento econômico.

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José Carlos de Assis é jornalista e economista, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de “Os Sete Mandamentos do Jornalismo Investigativo”,  Ed. Textonovo, SP.