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Lixo: matéria-prima do futuro

Por Deutsche Welle na Carta Capital

No decorrer da vida, uma pessoa joga muita coisa fora. Cada habitante da Alemanha produz em média cerca de meia tonelada de lixo por ano, quase 1,4 quilos por dia. Os campões, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, na sigla em inglês), são os Estados Unidos, com 730 quilos de lixo por pessoas ao ano.

O que fazer com tanto resíduo? Enquanto houver espaço, ele irá para aterros sanitários. Entretanto, o lixo prejudica não só a paisagem, mas também o meio ambiente e a saúde da população. Além disso, muitos recursos valiosos são perdidos. Especialistas consideram o lixo a matéria-prima do futuro.

Foto: Wilson Dias/ABr

Foto: Wilson Dias/ABr

Reciclagem e incineração

O primeiro passo dessa transformação é a reciclagem. Através dela, recursos como plástico, vidro e papel são separados e reaproveitados. O resto do lixo é incinerado, produzindo dessa maneira energia e calor.

Lixo como fonte de energia

Lixo como fonte de energia. Foto: CC/jorchr

Muitos países emergentes e em desenvolvimento já reconheceram o potencial do reaproveitamento do lixo. Günther Wehenpohl, da Agência Alemã para Cooperação Internacional (GIZ, na sigla em alemão) trabalha na Costa Rica em um projeto que visa a melhorar a economia de resíduos. E ele já observa os primeiros resultados.

“Antigamente garrafas plásticas eram exportadas para a Ásia, onde seriam reaproveitadas na produção têxtil. Hoje, elas são recicladas aqui mesmo e viram garrafas novas. Esse processo é muito mais eficiente”, explica Wehenpohl. A consciência ecológica já existe. Novas leis se encarregam de estimular o reaproveitamento do material reciclavél.

Em outros países, resíduos orgânicos são reaproveitados como adubo, por exemplo na ilha indonésia de Bali. Os cem habitantes da vila Temesi resolveram não só o problema do lixo como também o do meio ambiente. As montanhas de lixo produzem metano, um gás do efeito estufa mais nocivo que o dióxido de carbono. Wehenpohl lembra que a reciclagem é importante para o clima e para a produção de recursos.

Sucata eletrônica: uma mina de ouro
Segundo especialistas, há um potencial enorme na reciclagem de aparelhos eletrônicos. Cerca de 40 milhões de toneladas de lixo eletrônico são produzidas por ano, conforme dados das Nações Unidas (ONU). Dessa maneira, muitos metais preciosos, como ouro, prata e cobre, vão parar nos aterros sanitários, e bilhões de euros são jogados fora.

Para muitos, lixo é única fonte de renda. Foto:

Para muitos, lixo é única fonte de renda. Foto: UN Photo/ Shehzad Ndorani

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), 40 celulares possuem a mesma quantidade de ouro que uma tonelada de minério. Somente na China são desperdiçados por ano quatro toneladas de ouro, seis de cobre e 28 de prata.

O lixo como ciência
Muitos cientistas pesquisam uma maneira eficiente de reaproveitar esse tesouro oculto. Stefan Gäth, da Universidade de Gießen, trabalha em uma pesquisa financiada pelo ministério alemão do Meio Ambiente e por alguns municípios. Os locais de trabalho de Gäth são três depósitos de lixo do estado de Hessen e Baden-Württemberg. Ele estima que só no aterro sanitário da cidade de Reiskirchen, em Hessen, estão enterrados recursos no valor de até 120 milhões de euros.

“Apesar disso, a reciclagem desses recursos ainda não é uma atividade lucrativa”, diz Gäth. As principais razões são a falta de tecnologia e, principalmente, o preço das matérias-primas. Mesmo com o alto valor pago pelo mercado, os custos para recuperar esses metais não são cobertos.

Reconhecer o lixo como matéria-prima
O pesquisador reconhece o potencial do Urban Mining, ou seja, o garimpo nas montanhas de lixo nas cidades. Entretanto, a população ainda precisa descobrir o valor dos recursos escondidos nos produtos. “Por exemplo, aspessoas precisam saber quanto ouro, cobre ou prata possuiu o seu celular. Assim como já existe para o dióxido, cada matéria-prima deveria ter uma impressão digital”, explica Gäth.

Milhares de metais preciosos são jogados fora todo ano

Milhares de metais preciosos são jogados fora todo ano

Nesse contexto, Gäth defende um sistema de depósito de dinheiro na compra de produtos eletrônicos. Assim, após o uso, esses aparelhos seriam devolvidos aos fabricantes que poderiam reciclá-los. Wehenpohl pensa da mesma maneira: “A reciclagem desse materiais deve ser incentivadas.”

Gäth vai mais adiante e sugere um depósito para armazenar aparelhos que não são mais usados. “Assim, quando o preço da matéria-prima subir, valerá a pena reciclá-los.” Entretanto, em alguns casos a reciclagem não é uma atividade lucrativa, diz Wehenpohl. Mas no geral, muitos países podem lucrar muito “como o tesouro escondido nos sacos de lixo.”

Presidente do Equador defende exploração de recursos naturais em nome de desenvolvimento

Correa defende exploração de recursos naturais para o desenvolvimento do Equador
Por Leandra Felipe* na Agência Brasil/EBC

Bogotá – O presidente do Equador, Rafael Correa, reeleito domingo (17), defendeu hoje (20) a exploração de recursos naturais para o desenvolvimento regional. Durante conversa com jornalistas estrangeiros, em Quito, capital equatoriana, Correa disse que muita gente costuma atribuir à esquerda uma ideia contrária à exploração dos recursos naturais.

“Esse discurso faria fracassar qualquer projeto de esquerda, porque para superar a pobreza no curto prazo, precisamos usar responsavelmente os nossos recursos naturais”, disse.

O Brasil também esteve na pauta da conversa do presidente equatoriano com a imprensa. Rafael Correa elogiou o país vizinho. Ele classificou o Brasil como “chave na arbitragem regional, assim como em uma nova arquitetura financeira”. Ele parabenizou o PT pelos dez anos no comando do país. “A chegada de Lula à Presidência foi a consolidação de uma mudança de época na América Latina”, ressaltou.

Correa revelou que a presidenta Dilma aceitou o seu convite para visitar o Equador, embora ainda não exista uma data estipulada. Segundo o presidente equatoriano, a integração regional estará na agenda do encontro.

Ele defendeu a integração da América Latina e do Caribe para proteger a região do que qualificou de “abuso de empresas multinacionais na região”, citando como exemplos a atuação de empresas como a Chevron e a Oxy. Na opinião de Rafael Correa, que governará o Equador até 2017, a América Latina deve reagir às condições que as multinacionais vêm impondo aos países da região.

O presidente equatoriano disse ainda que a sua primeira gestão se caracterizou por reconstruir a confiança social, na área da educação, saúde, habitação e na qualidade do trabalho. ”Tudo era um desastre. Antes se pagava por educação de má qualidade. Agora não pagam nada e recebem livros, uniformes e merenda escolar”.

Correa argumentou, no entanto, que “não existe política social sem uma boa base material”, por isso defendeu que no próximo mandato deverá aumentar a gestão para os recursos estratégicos, como o petróleo, a mineração, as telecomunicações, a telefonia e internet.

Sobre a área de comunicação, ele declarou que é preciso democratizar a comunicação e dar espaços aos meios públicos e comunitários.

*Com informações da TV Estatal Telesur

Edição: Aécio Amado

Economia Verde será financiada em 7 países em desenvolvimento

Governos de países em desenvolvimento terão recursos para desenvolver economia verde<

Por Carolina Gonçalves na Repórter da Agência Brasil

Brasília – Nos próximos dois anos, os governos de sete países em desenvolvimento vão receber orientações e recursos para desenvolver estratégias de economia verde em seus territórios. A parceria firmada por quatro agências das Nações Unidas em Nairobi, no Quênia, foi anunciada durante a sessão universal do Conselho Administrativo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) que está ocorrendo no Continente Africano desde o último dia 18.

Pela primeira vez, as quatro principais agências internacionais das Nações Unidas ligadas ao meio ambiente, ao trabalho, ao desenvolvimento industrial e à pesquisa vão trabalhar juntas para garantir a implementação de políticas sustentáveis como as de tecnologias limpas e de erradicação da pobreza. Os países ainda não foram selecionados, mas a expectativa é que sejam definidos nos próximos meses e sirvam como projeto experimental.

A partir dessa experiência, os representantes do Pnuma, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e do Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa (Unitar) vão ampliar o apoio para mais 23 países. A implementação das estratégias deve ocorrer até 2020 nas 30 economias.

A proposta é que a Parceria para Ação pela Economia Verde (Page, na sigla em inglês) estimule os investimentos em ativos econômicos verdes, incluindo tecnologias limpas, o uso eficiente de recursos, a conservação de ecossistemas, a formação de mão de obra qualificada para empregos verdes e a boa governança nesses territórios. A expectativa é que com a medida sejam criados novos empregos e áreas de atuação dentro de uma nova configuração de desenvolvimento.

Pelos dados apresentados pela OIT, metade da força de trabalho global – cerca de 1,5 bilhão de pessoas – pode ser favorecida em uma transição para a economia verde. Países como Barbados, o México, Nepal e a África do Sul foram citados pelos representantes da organização por terem estruturado iniciativas verdes em seus territórios. Os governos da Alemanha, do Quênia e da Coreia do Sul conseguiram, segundo a OIT, fazer “mudanças radicais” em suas políticas energéticas, favorecendo fontes renováveis.

Os representantes da Unido destacaram ainda, durante a reunião, que o desenvolvimento de indústrias limpas e o apoio para que esses negócios se tornem mais eficientes é um dos focos da medida conjunta.

A proposta está entre os pontos acordados no documento final da Rio+20 – O Futuro Que Queremos. Assinado por líderes de mais de 190 países em junho do ano passado, no Rio de Janeiro, o texto destaca a economia verde como um dos motores do desenvolvimento sustentável,  da erradicação da pobreza e uma responsabilidade da comunidade internacional.

Edição: Graça Adjuto

Escassez pauta nova geopolítica dos alimentos

Por Lester Brown

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O mundo transita de uma era de abundância de alimentos para uma de escassez. Na última década, as reservas mundiais de grãos diminuíram um terço. Os preços internacionais dos alimentos cresceram mais que o dobro, disparando uma febre pela terra e dando lugar a uma nova geopolítica alimentar. Os alimentos são o novo petróleo. A terra é o novo ouro.

Esta nova era se caracteriza pela carestia dos alimentos e pela propagação da fome. Do lado da demanda, o aumento demográfico, uma crescente prosperidade e a conversão de alimentos em combustível para automóveis se combinam para elevar o consumo a um grau sem precedentes.

Do lado da oferta, a extrema erosão do solo, o aumento da escassez hídrica e temperaturas cada vez mais altas fazem com que seja mais difícil expandir a produção. A menos que se possa reverter essas tendências, os preços dos alimentos continuarão subindo e a fome continuará se espalhando, derrubando o atual sistema social.

É possível reverter essas tendências a tempo? Ou os alimentos são o elo frágil da civilização do começo do século 21, em boa parte como o foi em civilizações anteriores, cujos vestígios arqueológicos agora são estudados?

Essa redução no fornecimento de alimentos no mundo contrasta drasticamente com a segunda metade do século 20, quando os problemas dominantes na agricultura eram a superprodução, os enormes excedentes de grãos e o acesso aos mercados por parte dos exportadores desses produtos.

Nesse tempo, o mundo tinha duas reservas estratégicas: grandes sobras de grãos (com uma quantidade no lixo ao começar a nova colheita) e ampla superfície de terras de cultivo não utilizadas, no contexto de programas agrícolas norte-americanos para evitar superprodução. Quando as colheitas mundiais eram boas, os Estados Unidos faziam com que mais terras estivessem ociosas. Quando eram inferiores ao esperado, voltava a colocar as terras para produzirem.

A capacidade de produção excessiva foi usada para manter a estabilidade nos mercados mundiais de grãos. As grandes reservas de grãos amortizavam a escassez de cultivos no planeta. Quando a monção não chegou à Índia em 1965, por exemplo, os Estados Unidos enviaram um quinto de sua colheita de trigo para esse país, para evitar uma fome de potencial catastrófico. E graças às abundantes reservas, isto teve pouco impacto sobre o preço mundial dos grãos.

Ao começar este período de abundância alimentar, o mundo tinha 2,5 bilhões de pessoas. Atualmente tem sete bilhões.

Entre 1950 e 2000, houve ocasionais altas no preço dos grãos, devido a eventos como uma seca severa na Rússia ou uma intensa onda de calor no Meio-Oeste norte-americano. Mas seus efeitos sobre o preço tiveram vida curta. No prazo de um ano as coisas voltaram à normalidade. A combinação de reservas abundantes e terras de cultivo ociosas converteu esse período em um dos quais houve maior segurança alimentar na história.

Contudo, isso não duraria. Em 1986, o constante aumento da demanda mundial de grãos e o custo orçamentário inaceitavelmente alto levaram à eliminação do programa norte-americano de reservas de terras agrícolas.

Atualmente, os Estados Unidos têm algumas terras ociosas no contexto de seu Programa de Reserva para a Conservação, mas são solos muito suscetíveis à erosão. Acabaram-se os dias em que havia terras com potencial produtivo prontas para serem cultivadas rapidamente em caso de necessidade.

Agora o mundo vive com o olhar voltado apenas para o ano seguinte, sempre esperando produzir o suficiente para cobrir o aumento da demanda. Os agricultores de todas as partes realizam enormes esforços para acompanhar esse acelerado crescimento da demanda, mas têm dificuldades para consegui-lo.

A escassez de alimentos conspirou contra civilizações anteriores. As dos sumérios e maias foram apenas duas das muitas cujo declínio, aparentemente, se deveu à incursão por um caminho agrícola que era ambientalmente insustentável.

No caso dos sumérios, o aumento da salinidade do solo em consequência de um defeito em seu sistema de irrigação, que a não ser por isso estava bem planejado, acabou devastando seu sistema alimentar e, por fim, sua civilização. Quanto aos maias, a erosão do solo foi uma das chaves de seu desmoronamento, como o foi para tantas outras civilizações antigas.

Fazendeiros bloqueiam estrada na Grécia em protesto por melhores condições de produção, na segunda-feira 11. Foto: Sakis Mitrolidis / AFP

A nossa também está nesse caminho. Mas, ao contrário dos sumérios, o que a agricultura moderna sofre é o aumento dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera. E, como os maias, também está manejando mal a terra e gerando perdas sem precedentes de solo a partir da erosão.

Atualmente, também enfrentamos tendências mais novas, como o esgotamento dos aquíferos, a paralisação dos rendimentos dos grãos nos países mais avançados do ponto de vista agrícola e o aumento da temperatura. Neste contexto, não surpreende que a Organização das Nações Unidas (ONU) informe que agora os preços dos alimentos duplicaram em relação ao período 2002-2004.

Para a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos, que gasta, em média, 9% de sua renda em alimentos, este não é o maior problema. Mas, para os consumidores que gastam entre 50% e 70% de sua renda com comida, duplicar os preços é um assunto muito sério.

Estreitamente ligada à redução das reservas de grãos e ao aumento do preço dos alimentos está a propagação da fome. Nas últimas décadas do século passado, o número de famintos no mundo caiu, chegando a 792 milhões em 1997. Depois começou a aumentar, chegando a um bilhão. Lamentavelmente, se as coisas continuam sendo feitas como de costume, as filas dos famintos continuarão crescendo.

O resultado é que para os agricultores do mundo está ficando cada vez mais difícil ajustar a produção à crescente demanda por grãos. As existências mundiais de grãos diminuíram há uma década e não foi possível recompô-las. Se isso não for feito, a previsão é que, com a próxima má colheita, os alimentos encareçam, a fome se intensifique e se propaguem os distúrbios vinculados à alimentação.

O mundo está entrando em uma era de escassez alimentar crônica, que leva a uma intensa competição pelo controle da terra e dos recursos hídricos. Em outras palavras, está começando uma nova geopolítica dos alimentos. Envolverde/IPS

Lester Brown preside o Earth Policy Institute e é autor de Full Planet, Empty Plates: The New Geopolitics of Food Scarcity (Planeta Cheio, Pratos Vazios: a Nova Geopolítica da Escassez Alimentar), W.W. Norton: Outubro de 2012.

Artigo publicado originalmente no Envolverde

Novas tecnologias levam turbinas eólicas para o alto mar

turbina-eólicaNa Carta Capital

Construir um moinho de vento no meio do oceano é uma tarefa complicada e exige tempo e dinheiro. A torre tem de estar bem ancorada no fundo do mar, para garantir sua estabilidade e suportar as variações extremas dos ventos e das ondas. Sendo assim, os projetos só se tornam viáveis em profundidades inferiores a 50 metros.

No entanto, uma nova geração de turbinas eólicas não apresenta essas dificuldades. Montadas sobre pontões ligados ao fundo do mar por longos cabos de aço, as turbinas eólicas flutuantes são a grande novidade no mundo da energia renovável. Os primeiros protótipos já estão sendo testados, porém, alguns problemas ainda persistem.

Foto: C. G. P. Grey/Flickr

Especialistas buscam soluções para instalar turbinas eólicas flutuantes, hoje limitadas apenas às águas rasas. Dois protótipos já estão em teste. Foto: C. G. P. Grey/Flickr

 

Desde 2009, o protótipo de turbina de energia eólica mais avançada do mundo se encontra no Mar do Norte, na costa da Noruega. A turbina gigante é chamada de Hywind e tem o formato de uma enorme garrafa flutuante. No topo da torre, sobressaem as pás que formam o rotor. O “corpo” da garrafa se aprofunda no mar e é preenchido com cimento pesado, o que dá a turbina a estabilidade para se manter na posição vertical, mesmo com o mau tempo.

Mas essa não é a única maneira de se produzir uma turbina eólica flutuante. Partindo do mesmo princípio que a Hywind, a alternativa é a ilha flutuante. O protótipo Wildfloat está em funcionamento desde 2011 no litoral português. Trata-se de uma turbina montada sobre uma grande base triangular, em que cada uma das três pontas têm pontões flutuantes independentes.

A companhia sueca Hexicon planeja desenvolver um pontão com meio quilômetro de comprimento, capaz de suportar 24 turbinas. Seria um completo parque gerador de energia eólica flutuante.

Ancoradas com segurança

Para o sistema ter a estabilidade necessária, os pontões têm que ser amarrados a enormes blocos de concreto no fundo do oceano. As empresas envolvidas no desenvolvimento dos projetos acreditam que o sistema pode funcionam em águas com até 700 metros de profundidade.

Frank Sander, engenheiro da Universidade de Stuttgart, acredita que a nova tecnologia tem um grande potencial. “Diversos países têm regiões costeiras bastante íngremes”, disse o engenheiro à DW. “Turbinas eólicas flutuantes seriam a única chance de aproveitarem o vento do oceano.”

Outra vantagem dos parques flutuantes é o custo. As pás do rotor podem ser montadas em terra firme, antes da instalação da torre. Isso evita o caro trabalho de construção feito em alto mar.

Mas há também desvantagens. Como um navio, as turbinas flutuantes balançam com as ondas. A princípio a solução desse problema é simples: deixar o dispositivo mais pesado, menos suscetível as ondas. Mas isso exige uma quantidade muito grande de material, disse Sander. “Com o preço atual do aço, sairia muito caro.”

Engenheiros estão trabalhando em soluções para reduzir o custo extra de material. Uma das ideias é o sistema inteligente que bombeia água de um tanque para o outro, estabilizando a turbina. Outra estratégia é regular a tensão dos cabos para estabilizar a estrutura quando o mar estiver agitado.

Balanço constante

Não importa quantos truques os engenheiros usem, nunca será possível estabilizar as turbinas flutuantes ao ponto de ficarem completamente fixas. Elas vão sempre balançar.

“Na ondulação do mar, as instalações podem inclinar até 15 graus”, explica Andreas Heege, diretor da LMS Samtech, empresa com base em Barcelona que produz software para turbinas eólicas. Ele acrescenta que as hélices das turbinas eólicas no mercado não são feitas para funcionar nessas condições.

Expostas a movimentos constantes, as turbinas eólicas flutuantes têm um desgaste muito maior do que as instalações em terra firme. O balanço também interfere na geração de energia. Quando a bobina é atingida pelo vento e existe uma variação de intensidade no momento seguinte, ela balança para o lado oposto. “O resultado é uma geração irregular de energia que tem que ser equilibrada com o ajuste cuidadoso das hélices”, explica Heege.

Uma coisa é clara: simplesmente montar uma turbina eólica comum sobre um pontão no mar não vai dar certo. Os engenheiros precisão desenvolver novos rotores, adequados a essas condições.

As duas tecnologias estão sendo testadas, mas ainda é cedo para saber quem vai ganhar essa competição. Ambos os protótipos tiveram bons resultados, disse Frank Sandner. “Ainda não se tornou aparente qual conceito é superior.”

Em ambos os casos, a questão mais importante é a viabilidade comercial. Qual das duas turbinas pode produzir energia de maneira mais eficiente e confiável e com o menor custo. Os especialistas calculam que as estruturas terão que ser produzidas de maneira mais enxuta, utilizando menos material – o que, por outro lado, compromete a estabilidade.

Para Heege, a questão é justamente achar o ponto de equilíbrio. “A fim de criarmos algo economicamente viável, teremos que ir além do possível.”

Jorge Souto Maior: Assentamento Milton Santos e a antirreforma agrária

Jorge Souto Maior: As 68 famílias foram instaladas legalmente, não têm qualquer culpa pela situação. Foto:Rede Brasil Atual 

por Jorge Luiz Souto Maior, especial para o Viomundo

Quando, em 2011, a sociedade brasileira se viu aturdida com o desfecho que foi dado ao caso Pinheirinho, em São José dos Campos, muita discussão se produziu a respeito dos fundamentos jurídicos da decisão judicial, que determinou a reintegração de posse do terreno onde estava instalada a comunidade, e da legalidade da ação policial que se seguiu, incluindo os métodos de ação.

Sem retomar todos os aspectos do debate, já bastante difundido, um argumento que insta retomar, para tratar do caso Milton Santos, é o de que o direito de propriedade, para ser preservado, não deve justificar atos de violência, promovidos pelo Estado contra o cidadão, pois cumpre ao Estado, igualmente, defender o direito à vida e a integridade de todos os cidadãos, constituindo, por si, uma violência retirar, à força, pessoas de suas residências, deixando-as ao relento e sem condições de uma sobrevivência digna, violência esta que se efetivaria para tentar reverter, de forma abrupta, uma situação fática constituída ao longo de anos, restituindo “limpa” a propriedade a seu dono.

Lembre-se, ainda, que a propriedade, juridicamente considerada, deve cumprir uma função social. Não se trata de negar o direito de propriedade, mas de compreender que do ponto de vista do direito a propriedade não se justifica em si, mas pela função social que cumpre, e que ao Estado democrático de direito social cabe, também, garantir a todos os cidadãos, por ações afirmativas, a dignidade (inciso III, do art. 1º., da CF), tendo sido relacionados, no artigo 6º da Constituição Federal brasileira, como Direitos Fundamentais, os seguintes valores: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados.

Em termos constitucionais, a própria ordem econômica, que deve ser fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: da função social da propriedade; da redução das desigualdades regionais e sociais; e da busca do pleno emprego (art. 170, caput, incisos II, III e VIII).

Não há como negar, portanto, que a ordem jurídica nacional esteja pautada pelos preceitos do Direito Social, cujos objetivos são: construir a justiça social e efetivar a democracia. Impera a concepção de um regramento que tem por conseqüência a melhoria da posição econômica e social de todos e a preservação da dignidade do sentido da elevação da condição humana.

No Direito Social, ao se fixar a prevalência da solução dos problemas postos pela questão social, que é abertamente reconhecida como tal, o postulado da justiça social aparece como condição de sustentabilidade de todo o sistema.
A função do Direito Social é distribuir a riqueza coletivamente produzida, para fins não apenas de eliminar, por benevolência, a pobreza, mas de integrar todos ao projeto de uma sociedade na qual todos possam, efetivamente, adquirir, em sua concepção plena, a cidadania, experimentando a beleza da condição humana, sendo certo que um dos maiores sentimentos que agridem o ser é a injustiça.

A defesa concreta da dignidade humana é a expressão máxima do Direito Social, na medida em que vislumbra a formalização das bases existenciais necessárias para que esses valores humanos sejam efetivados, sendo de se destacar que a maior relevância do Direito neste assunto diz respeito às pessoas que estão em posição inferiorizada na sociedade dos pontos de vistas político, cultural, social e econômico. A racionalidade imposta pelo Direito Social deve permitir que se vislumbrem as angústias, as dificuldades e as restrições que atingem todas as pessoas que integram a sociedade, sobretudo, as que são mais vulneráveis economicamente, incentivando a prática de atos voltados à efetiva defesa dos seus direitos.

No contexto enunciado, a Reforma Agrária apresenta-se como instrumento relevante tanto para que o Estado efetive suas obrigações jurídicas no campo social quanto para garantir que a propriedade, no âmbito rural, cumpra a sua função social, muito embora, ao longo de décadas, as forças políticas brasileiras tenham feito vistas grossas ao tema.

Juridicamente, se os proprietários têm o direito de defender seu patrimônio, não se pode olvidar que esta defesa se faz por intermédio do direito e é evidente que o direito se integra ao problema como um todo e não parcialmente, no limite restrito de um interesse. Assim, por aplicação do próprio direito, há de se verificar se a propriedade cumpre sua função social e em se tratando de uma propriedade rural, há de ser verificado o aspecto pertinente à produtividade (conjugação dos incisos XXII e XXIII, do artigo 5o., da CF e incisos II e III, do art. 170, CF, e conforme expressamente previsto no art. 184, da CF), gerando, como efeito jurídico possível, na hipótese de ser improdutiva, a desapropriação, mediante indenização prévia e justa (art. 184). Os incisos III e IV do art. 186 da Constituição Federal, além disso, condicionam o cumprimento da função social da propriedade agrária ao respeito das disposições que regulam as relações de trabalho e à exploração que favoreça ao bem-estar do trabalhador rural.

Pois bem, somando-se todos esses preceitos, não pode passar despercebido à sociedade brasileira o problema que envolve os moradores do assentamento Milton Santos, em Americana/SP. Neste caso, os moradores foram assentados no local, com a ciência do INCRA, em 2006, após o Presidente da República, Luís Inácio da Silva, ter assinado termo de concessão do terreno (sítio Boa Vista), para fins de reforma agrária, sendo que a perda da posse do terreno, pelos proprietários, estava ligada a dívidas trabalhistas e previdenciárias.

Após isso, o assentamento Milton Santos se instituiu, abrigando várias famílias, que passaram a conferir às terras uma função social relevante, inclusive no aspecto da produção de alimentos sem o uso de agrotóxicos. A comunidade ali instalada hoje é responsável pelo fornecimento de mais de 300 toneladas de alimentos para a região metropolitana de Campinas.

No final de 2012, no entanto, veio a notícia de que o direito à posse do terreno foi restituído aos proprietários na ação judicial, em razão de ter havido o pagamento da dívida da qual originou o ato processual expropriatório, tendo havido, na seqüência, a publicação de decisão judicial, determinando a desocupação.

Mas, a situação consolidada no local, que envolve a sobrevivência de várias pessoas e mesmo os projetos de vida que tiveram início com o apoio institucional do próprio Estado, não pode ser simplesmente revertida como se nada tivesse ocorrido. Afinal a situação presente envolve uma enorme gama de valores jurídicos, que não podem ser “apagados”, como se nunca tivessem vindo à tona.

A não visualização desse feixe de relações, aliás, é o que mais impressiona quando se trata, na nossa tradição cultural, de conferir validade a um valor: a propriedade. Ainda que se visualize o fundamento para restituir a posse, vez que a dívida, que pendia sobre o bem, foi quitada, não dá para, simplesmente, apagar da história todos os fatos que decorreram desde então, que fizeram incidir vários outros direitos de diversas outras pessoas, direitos estes igualmente garantidos pelo Estado e muitos deles inseridos na órbita dos direitos fundamentais. Não se pode esquecer, igualmente, que a ocorrência desses fatos se deu por responsabilidade dos proprietários, que detinham, à época, dívidas socialmente relevantes. Pagar, posteriormente, as dívidas não é ato suficiente para restituir os fatos ao estado em que antes se encontravam.

Nesse meio tempo, principalmente nos últimos seis anos, 68 famílias foram licitamente instaladas no local, investiram na produção, firmaram compromissos e estabeleceram seus projetos de vida. Devolver a posse das terras aos proprietários representa, ao mesmo tempo, interferir nessas outras esferas jurídicas, retirando dessas pessoas parte de suas vidas. Destaque-se que não se pode debitar a essas famílias, em nenhum aspecto, qualquer parcela de culpa pela situação, muito pelo contrário.

Então, cabe ao Estado cumprir a sua função política e jurídica de estabilizar a situação, conferindo a essas pessoas a titularidade da posse, com base nos preceitos jurídicos atinentes à Reforma Agrária, indenizando, de forma justa, os proprietários, até porque, em não o fazendo, estaria o governo agindo na contramão de sua obrigação, instituindo uma espécie de “antirreforma Agrária”, representada pela destruição de um assentamento, onde várias pessoas, coletivamente, vivem e produzem, promovendo-se, assim, a destruição de inúmeros valores sociais e humanos em favor de apenas um, a propriedade, desvinculada, inclusive, de qualquer motivação social.

Ainda que por absurdo se considere a possibilidade disso ocorrer, esse ato reverso da função social do Estado teria que ser, no mínimo, precedido do pagamento de indenizações, decorrentes dos prejuízos morais e materiais experimentados, a todos que se viram envolvidos numa situação que, hoje, apareceria como um engodo, patrocinado pelo INCRA e pelo então Presidente da República, Luís Inácio da Silva, sendo certo que o recebimento dessa indenização, diante da natureza alimentar que a integra, não pode ser submetido às iniciativas individuais de se recorrer ao Judiciário. As indenizações, ademais, precisam ser acompanhadas das obrigações de fazer pertinentes à moradia e demais meios de subsistência, como acesso à escola, ao trabalho etc.

Assim, na hipótese de se querer ir adiante com o processo de reversão do assentamento, o prejuízo mínimo necessário seria o do juiz, no próprio processo em que se discute a posse do bem, fixasse as obrigações que decorreriam ao Estado, que é parte no processo, vez que um dos interessados é o INSS, condicionando o cumprimento da reintegração à efetivação das medidas correspondentes, fixando desde já o valor das indenizações e o conteúdo das obrigações de fazer, com prazo específico, sob pena de, não sendo atendidas, declarar a expropriação do bem, fixando o valor a ser pago pelo Estado, a título de indenização, aos proprietários.

De todo modo, até por conta das muitas objeções de ordem processual que se podem vislumbrar com relação às proposições supra destinadas à imediata efetivação de indenizações aos assentados, o ideal é a preservação do assentamento e das relações jurídicas já consolidadas, levando adiante a desapropriação, para fins de Reforma Agrária, já iniciada.

Considerando o feixe de relações jurídicas envolvidas, o único efeito impossível de ocorrer é o que se anuncia da mera reintegração de posse, mediante ação policial, para retirada das 68 (sessenta e oito) famílias do local, afastando-as de seu sustento, conduzindo-as ao relento e negando-lhes a própria condição humana, com esquecimento de todos os fatos que as conduziram até o local e ao momento presente.

O desafio, no entanto, não está em encontrar fundamentos jurídicos para preservar os interesses envolvidos. O desafio é o de conseguir visualizar exatamente a ocorrência dessa contraposição jurídica de interesses, como se o direito de propriedade fosse o único valor a ser preservado, sobrepondo-se a qualquer outro interesse que, assim, nem jurídico seria.

A dificuldade é mais sociológica que jurídica. O que provoca nebulosidade na questão, turvando a vista, talvez seja o “medo” do que os exemplos das ações coletivas, iniciados por um processo de Reforma Agrária, produzam em termos multiplicadores, incentivando novas ações. Nesta perspectiva, importa muito mais destruir o assentamento do que, propriamente, defender a propriedade, até porque, conforme se anuncia, aos proprietários do terreno, onde se situa, ironicamente, o Sítio Boa Vista, propriedade é que não falta.

São Paulo, 30 de janeiro de 2013.

Jorge Luiz Souto Maior é professor livre-docente da Faculdade de Direito da USP

ONGs em excesso na Amazônia podem causar desperdício de dinheiro

Por Thiago Foresti na Carta Capital

Há quase tantas ONGs na Amazônia quanto permite a biodiversidade da maior floresta do planeta. Segundo o ­IBGE, são 27,9 mil fundações privadas e associações sem fins lucrativos em atuação no bioma. Juntas, empregam por volta de 110 mil funcionários. Tanta gente empenhada em proteger a floresta, seus animais e habitantes leva a supor que os brasileiros e o restante dos habitantes da Terra podem dormir sossegados. Não é bem assim.

O charme de apoiar ações socioambientais na Amazônia levou centenas de organismos financeiros e fundos internacionais a despejar bilhões de dólares na região nas últimas décadas, mas boa parte desses recursos tem sido aplicada sem planejamento. As consequências? Desperdício de dinheiro em projetos de resultados duvidosos e informações perdidas no espaço.

Sozinhas, muitas instituições não conseguem dinheiro ou disseminar as informações e iniciativas. Foto: Vanderlei Almeida/AFP

Sozinhas, muitas instituições não conseguem dinheiro ou disseminar as informações e iniciativas. Foto: Vanderlei Almeida/AFP

A oferta de dólares (e euros) alimenta a proliferação de organizações. Há desde pequenas estruturas, mal-ajambradas e sem projetos consistentes, até as chamadas King ONGs, com capacidade de geração de caixa de fazer inveja a grandes empresas comerciais. De um lado ou de outro, são poucas, porém, aquelas que conseguem realmente disseminar suas ações e modificar o ambiente no qual atuam. “Podemos contar nos dedos quem produz informação qualificada e consegue difundir isso”, diz Marcia Soares, gestora de informação do Fundo Vale.

Para complicar, assuntos polêmicos dividem a opinião de quem trabalha com o tema ambiental na Amazônia. O principal deles é o REDD+, um mecanismo que pretende levar nações desenvolvidas a pagar pela manutenção da floresta em pé e que coloca, de um lado, ONGs que são contra a “mercantilização da natureza” e, do outro, as que acreditam numa “solução econômica” para a floresta.

“É um debate acalorado, com visões bem diferenciadas, mas serão as experiências concretas de REDD+ que vão fazer a discussão e as compreensões avançarem. O consenso num tema como esse nem é desejável”, diz Sergio Guimarães, coordenador da Articulación Regional da Amazonía (ARA), rede de 51 organizações formada pelos países sul-americanos alcançados pela floresta.

A ARA é um exemplo de rede formada para unir o trabalho de entidades. Criada com o apoio da Fundação Avina em 2007, a rede promove ações voltadas ao desenvolvimento sustentável e à conservação da floresta. Em 2011, lançou um relatório inédito sobre a Amazônia e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, um conjunto de oito metas traçadas pelas Nações Unidas. Guimarães acredita que só o trabalho em rede pode suprir o desafio ideológico e financeiro. “É fundamental se unir em redes, graças à dimensão do problema. Não existe organização ou instituição que, sozinha, possa fazer frente aos desafios amazônicos. Daí a necessidade de se trabalhar em conjunto.”

Outra rede mais antiga, de atuação exclusiva no Brasil, é o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), formado em 1992. A organização conta com oito coletivos regionais nos nove estados brasileiros que compõem a Amazônia Legal. São mais de 600 entidades representativas de agricultores, seringueiros, indígenas, quilombolas, pescadores, ribeirinhos e entidades ambientalistas. Com experiência de mais de 20 anos de trabalho na Amazônia, Rubens Gomes, presidente do GTA, diz que o bioma apresenta algumas peculiaridades que devem ser levadas em conta na hora de se analisar o cenário em que as ONGs estão inseridas.

 

Amazõnico. As distâncias e as múltiplas demandas humanas e ambientais dificultam o trabalho. Foto: Kevin Schafer/ Minden Pictures/ LatinStock

Amazõnico. As distâncias e as múltiplas demandas humanas e ambientais dificultam o trabalho. Foto: Kevin Schafer/ Minden Pictures/ LatinStock

 

“As distâncias são muito grandes. Não é como nos grandes centros onde você pega um carro e dirige até uma localidade. Tem lugar aqui que você só chega de barco. Avião é muito puxado, sai mais caro ir de um estado para outro na Amazônia do que pegar um avião de São Paulo à Europa. Isso sem falar nas telecomunicações, celular, telefone e internet, que são um luxo na maioria das comunidades onde atuamos.”

Se, por um lado, as organizações sem fins lucrativos têm dificuldade de se organizar em conjunto para minimizar os impactos ambientais na floresta, as organizações com fins lucrativos avançam cada vez mais sobre a floresta. Enquanto os financiamentos para ONGs estão na casa de dezenas de milhões, obras de infraestrutura superam facilmente centenas de bilhões. Só as 15 hidrelétricas previstas para a região têm um custo estimado de 190 bilhões de reais.

Por enquanto, a nova tendência de trabalho em rede ainda precisa de tempo para se consolidar. Sozinhas, muitas das ONGs têm dificuldades para conseguir financiamento e tocar projetos de grande porte. Prova disso é o problema crônico de liberação de verbas do Fundo Amazônia.

“Nosso gráfico aponta que existe grande concentração no centro, com pontas soltas e informação de difícil circulação”, diz Luiz Bouabci, coordenador do projeto Cartografia da Pan-Amazônia, estudo que mapeou o potencial de sinergia e colaboração no bioma. “Queríamos entender como essas organizações interagem e colaboram dentro desse ambiente e notamos que existe certa cooperação entre elas, mas é uma colaboração mais de interesse do que de confiança.”

O estudo aponta a existência de um excesso de gatekeepers, que na linguagem do estudo de redes são os pontos (pessoas) que conectam outros pontos, mas que controlam o fluxo de informação entre as partes. Ao mesmo tempo faltam hubs, que são os pontos de conexão múltiplos e que contribuem para um alto grau de confiabilidade da rede. “Uma rede altamente colaborativa é sempre repleta de hubs, eles são indispensáveis para a troca de informações”, diz Bouabci.

Atentos ao problema, fundos e financiadores têm procurado investir na consolidação de “redes de organizações”. Para Marcia Soares, do Fundo Vale, investir e participar de redes é uma nova tendência. “Não vamos deixar de financiar e apoiar organizações com trabalho de campo, mas, por outro lado, fortalecer essas redes é fundamental para potencializar e dar escala ao resultado. Senão, acabamos apoiando ações que ficam somente no nível ‘piloto’, ou que servem como experiências locais, sem que haja transferência de informação.”

Soares acredita que o principal produto das redes é a disseminação de conhecimento. “Quando a gente faz uma análise isolada de uma organização A, B ou C, ou de seus projetos, de certa forma não estamos olhando para o contexto. As redes são um ótimo canal de distribuição de boas experiências e disseminação de informação, elas ajudam a dar escala para aquilo que dá certo e criam um ambiente de confiança entre as organizações.”