Arquivos da categoria: Meio Ambiente

Com credibilidade indo pelo ralo, Sabesp apela para o emocional na TV

SPRESSOSP/Reprodução

Por Igor Carvalho

Em comercial, a empresa mais uma vez se esquiva de responsabilidade, culpa a chuva, mostra população que ri apesar da crise e afirma que “paulista é aquele que nasceu para vencer, faça chuva ou faça sol”

Tem uma música bonitinha, muita gente sorrindo, belas imagens da cidade e uma narração serena. Assim é o novo comercial veiculado da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) na TV. O apelo emocional da publicidade é repleto de frases motivacionais e termina afirmando: “Paulista é aquele que nasceu para vencer, faça chuva ou faça sol.”

Durante o minuto que dura o comercial, tudo parece estar bem, o problema é que “agora um novo desafio surgiu” porque “a chuva não veio”, afirma a Sabesp, se esquivando, novamente, de qualquer responsabilidade na crise hídrica enfrentada pelo estado.

Mas tudo bem, “os paulistas vão mostrar mais uma vez que são maiores do que qualquer crise. Pode faltar chuva, mas não vai existir escassez de solidariedade. Pode não vir água do céu, mas com a colaboração de todos ela vai continuar vindo pela torneira. Porque não importa o tamanho do desafio. Paulista é aquele que nasceu para vencer, faça chuva ou faça sol”, afirma a Sabesp.

A empresa já havia apelado à “solidariedade” paulista quando lançou campanhas premiando a economia de água.

Recentemente, o pré-candidato petista ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, afirmou que a Sabesp foi “irresponsável” e lembrou que a empresa lucrou R$ 2 bilhões em 2013, mas “não fez investimentos em obras que deveriam ser feitas.”

O Ministério Público está investigando a Sabesp por descumprir uma série de exigências estabelecidas em 2004 para a outorga de captação de água nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Entre elas, a falta justamente de um plano de emergência para épocas de seca.

Veja o comercial:

 

 

Diálogos Desenvolvimentistas: O Cantareira, as más decisões e a política

IG

Em pleno ano eleitoral, São Paulo está passando por uma crise sem precedentes em seu abastecimento hídrico. Hoje, o reservatório Cantareira, principal responsável pelo abastecimento da Grande São Paulo, atingiu 8% de sua capacidade. A capital paulista precisará recorrer ao volume morto do reservatório. Uma água de qualidade duvidosa. E ainda sem vislumbre de uma solução para esta questão crucial.

A mídia por sua vez, complacente com seus aliados, pouco fala sobre este problema. Mais interessante é produzir escândalo para seus inimigos.

É neste ponto que se insere as colocações de nossos colaboradores. Analisando o cenário político, midiático e ambiental, André Cavalcante, Carlos Penna e Eduardo Kaplan contribuíram com suas reflexões para este assunto amplo e complexo.

Confira:

André Cavalcante – Os moradores de São Paulo podem ficar sem água em suas torneiras em breve.

E a culpa será de quem?

Com certeza será da Dilma, do PT, dos mensaleiros do PT (porque não há mensalão tucano e nem trensalão tucano) e principalmente do santo da chuva São Pedro, que não mandou chuva para o Estado de São Paulo. Estas serão as verdades divulgadas pelos jornais, revistas e redes de televisão.

Agora eu acredito mesmo que a culpa será atribuída ao ex-ministro Padilha que implantou o Mais Médicos e ainda teve a petulância de trazer médicos (as) cubanos (as) para o Brasil. Que absurdo!

Ainda dependendo da situação, a culpa também será atribuída ao ex-governador Eduardo Campos, afinal ele se mudou para São Paulo.

Querem saber a solução para a falta de água em São Paulo que será divulgada pelos jornais, revistas e redes de televisão?

O choque de gestão tucano de máxima eficiência capitaneado pelo atual governador Geraldo Alckmim, que precisará ser reeleito para corrigir esse “errinho” momentâneo do abastecimento de água do Estado de São Paulo. O Alckmin de fato não tem culpa nenhuma nesta situação. Com certeza o atual governador Alckmin será apresentado com a única a solução.

Estão serão as verdades verdadeiras divulgadas pelos jornais, revistas e redes de televisão.

É isso aí. Acredite se quiser.

Carlos Penna – Há mais de 20 anos as cabeceiras dos rios de todos os sistemas hídricos de São paulo estão sendo desmatadas para lavouras de alta intensidade. Em geral cana-de-açúcar. E em geral, para produzir álcool para a frota de veículos que cresce mais do que brasileiros nascem: 40 milhões de carros de 2000 a 2014 contra 25 milhões de nascimentos entre 2000 e 2014.

Os governos do estado de São Paulo (Tucanos) e Federal (Tucanos-PMDB e Petistas-PMDB) têm apoiado à indústria automobilística e a lavoura canavieira.

Isso com todos os relatórios e estudos que mostravam a necessidade trens, metrôs e vlts. movidos à eletricidade em lugar de veículos para transporte individual.

A responsabilidade das secas e do esvaziamento dos reservatórios é tanto de responsabilidade dos governo PSDB como PT-PMDB. Ambos continuaram a política irresponsável de destruição das cabeceiras dos rios, de incentivo à indústria automobilística, de impermeabilização do solo urbano etc. Etc.

Eduardo Kaplan – Não há como negar a incompetência e descaso do governo tucano que está há mais de 20 anos no poder e não construiu uma obra sequer para garantir o abastecimento hídrico da metrópole.

E a cana-de-açúcar, apesar de vários malefícios ecológicos, não está associada à presente crise no abastecimento de SP. Repare como a área de cultivo de cana está em bacia hidrográfica diferente da área de captação do sistema cantareira.

Edição: Rennan Martins

TCU afirma que segurança energética está em xeque – Valor

Via Ilumina

O ILUMINA parabeniza o TCU por explicitar publicamente o que consideramos um dos grandes problemas do setor elétrico brasileiro, a superavaliação da garantia física do sistema. Finalmente um órgão público reconhece o que o ILUMINA vem apontando há mais de 5 anos.

Para ilustrar o sistema vigente, que apresenta características de “loop”, observe a figura abaixo:

 

Ilumina

No singular sistema brasileiro, o plano de expansão não é ajustado pelo aumento da capacidade instalada. Estima-se uma participação das fontes que depende de uma simulação da operação e, consequentemente, de um critério de operação. Por sua vez, o critério depende de alterações no mundo físico, que, obviamente é afetado pelo plano de expansão. Entre essas alterações destacam-se o mix de fontes energéticas e a dinâmica da reserva em relação à carga.

Além disso, a operação pode sofrer mudanças de critérios por alteração de parâmetros internos tais como custo do déficit e taxa de desconto do futuro. Também é preciso considerar que o plano pode ser distinto do resultante dos leilões, o que faz o sistema operar um parque diverso do imaginado.

Todo esse sistema em loop gera os certificados de garantia física, que, obviamente, deveriam ser ajustados, já que dependem de tantos acoplamentos variáveis. Entretanto, por mais óbvio que seja, no atual modelo os certificados são mantidos constantes por afetar interesses comerciais.

Enquanto o sistema tinha reserva hídrica próxima à carga, essas interdependências ficavam oclusas. Agora, é preciso reconhecer que algo profundo precisa ser alterado. Vamos aguardar para ver se vamos ao “DNA” do modelo ou seguimos adotando os remédios sintomáticos.

————————————————————————————————————————–

Uma auditoria que acaba de ser concluída pelo Tribunal de Contas da União (TCU) apontou “fortes indícios” de que a atual capacidade de geração de energia elétrica no país é “estruturalmente insuficiente para garantir a segurança energética. No levantamento, o tribunal aponta quatro problemas no setor: falhas no planejamento da expansão da capacidade de geração, superavaliação da garantia física das usinas, indisponibilidade de parte do parque de geração termelétrica e atraso na entrega de obras de geração e transmissão de energia elétrica.

“O efeito cumulativo de tais causas pode atingir montantes expressivos, superiores a 10% da capacidade estrutural total de geração de energia elétrica”, declarou, em seu voto, o ministro-relator Augusto Sherman Cavalcanti.

O TCU deu prazo de 90 dias ao Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Ibama para que elaborem um plano de trabalho e cronograma, que não ultrapasse 12 meses, com o propósito identificar custos e benefícios econômicos e socioambientais da utilização de cada tecnologia de geração de energia elétrica (hidrelétrica, termonuclear, térmica convencional e eólica). Entre as várias determinações, o tribunal cobrou a elaboração de uma política pública para inserção do gás natural na matriz energética, por conta da expectativa de aumento na produção com o pré-sal.

Em prazo menor, de 60 dias, determinou ao MME que apresente um plano de ação para estudos que subsidiem a revisão das garantias físicas das usinas, além da possibilidade e as vantagens de repotenciação e modernização de hidrelétricas. Ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), deu prazo de 30 dias para informar as razões e eventuais medidas adotadas para afastar as diferenças entre as capacidades instaladas e as disponibilidades efetivas das usinas térmicas do Sistema Interligado Nacional (SIN). Para o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o tribunal determinou que, em 30 dias, se manifeste “conclusiva e fundamentadamente sobre a adequação, em termos estruturais, da capacidade de geração de energia elétrica à sua disposição para atendimento à demanda atual e prevista para o exercício de 2014″.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) terá um mês para demonstrar como considera, em seus planejamentos, as diferenças entre as garantias físicas e as capacidades efetivas de geração de energia, a inoperabilidade de usinas térmicas convencionais e o atraso na conclusão de obras de geração e transmissão contratadas.

“Não obstante a aparente coerência, robustez e segurança do modelo idealizado e efetivamente construído, o cenário atual vem indicando a existência de possíveis inconsistências no sistema elétrico brasileiro”, afirmou Augusto Sherman Cavalcanti. “No meu entender existem claros indícios no sentido de que a capacidade de geração de energia elétrica no país configura-se insuficiente, em termos estruturais, para garantir a segurança energética dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Cavalcanti chama a atenção para a falta de estudos sobre custo/benefício econômico e socioambiental em relação à utilização de diferentes fontes de geração, o que prejudica o planejamento da expansão do parque elétrico.

 

 

 

“Sou financiado sim pela mineração”, admite relator de marco regulatório

Outras Palavras

Por Igor Carvalho, via Revista Fórum

Em dezembro de 2013, durante reunião de comissão, deputado federal Leonardo Quintão (PMDB-MG) afirmou que defende os interesses do setor e o parlamentar é acusado por entidades civis por quebra de decoro. Para jurista, “ele deve ser impedido de exercer tal função”

O relator do Marco Regulatório da Mineração, o deputado federal Leonardo Quintão (PMDB-MG), afirmou, em dezembro de 2013, que é financiado pelo setor mineral e que o defende. “Quero dizer a todos os representantes e ambientalistas que eu sou parlamentar, sou financiado sim pela mineração, legalmente”, afirmou. A fala do deputado foi dita em uma audiência pública promovida pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados (veja o vídeo no final da matéria).

O parlamentar é acusado pelo Comitê Nacional em Defesa dos Territórios, grupo formado por diversas entidades civis, por quebra de decoro, uma vez que o deputado é relator de um projeto que é de interesse direto de empresas que financiaram sua campanha. “Alguns ambientalistas já falaram: ‘Ah, você não pode ser relator porque você é financiado pela mineração’. De forma alguma, a legislação brasileira respeita o financiamento de campanha”, afirma Quintão.

Porém, para o jurista Dalmo Dallari, há um equívoco na defesa do parlamentar. “O dispositivo é muito claro e esse caso se enquadra perfeitamente no que diz o código. Dessa forma, ele deve ser impedido de exercer tal função”, afirma o professor aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

O dispositivo citado por Dallari é o inciso VIII do Artigo 5 do Código de Ética e Decoro Parlamentar, que define como quebra de decoro o ato de “relatar matéria submetida à apreciação da Câmara dos Deputados, de interesse específico de pessoa física ou jurídica que tenha contribuído para o financiamento de sua campanha eleitoral.”

Ainda durante sua fala, na audiência pública, Quintão reforçou seu compromisso com os empresários da mineração. “Eu não tenho nenhuma vergonha de dentro da lei brasileira ser financiado por mineradoras… Eu defendo sim o setor mineral, respeitando as leis brasileiras”, finaliza o parlamentar.

O “susto” dos paulistas: vai faltar água?

Ao fundo, um eleitor paulista procura água: mas o problema não era na Petrobrax?

Por Rodrigo Vianna, via escrevinhador

Depois de ver meu time chegar à liderança do Brasileirão, eu tomava aquele lanche preguiçoso com meus filhos – já quase adultos – no fim de domingo. Um deles anunciou que ia tomar banho antes de dormir. Brinquei com ele: “aproveita enquanto há água”. E ele: “pai, não exagera, situação da água não está tão grave”. O mais velho então emendou: “não está grave, então por que na casa de uma cliente onde presto serviço já falta água há quase um mês?”

Começou um debate entre eles sobre a água. Apresentei aos dois os números desesperadores do Sistema Cantareira (caiu para 10% da capacidade, isso no momento em que teremos que enfrentar 4 meses absolutamente sem chuva). Meus filhos ficaram ressabiados: “se a situação é tão grave porque ninguém fala claramente sobre isso?”

Pois é… Esperteza demais costuma liquidar o esperto. A imprensa velha brasileira fala sem parar na “crise da Petrobras”. Acontece que não há qualquer risco de faltar gasolina, ou de a Petrobras pedir concordata. Nada disso.

Sobre a falta de água, quase não há manchetes. Os repórteres até produzem seus textos. Mas a mídia velhaca acha que pode controlar a realidade. Tira a seca do Sistema Cantareira das manchetes. E quando o assunto ganha espaço, não há qualquer cobrança ao governador tucano.

A situação é desesperadora. Não para Alckmin apenas, mas para os paulistas. Sobre isso, leia o texto de Altamiro Borges.

Especialistas calculam que lá para julho ou agosto o Sistema Cantareira (que abastece 9 milhões de pessoas na Grande São Paulo, além de outros tantos no interior do Estado) vai entrar em colapso. Antes disso, já começará a se ampliar o “rodízio disfarçado” de água.

A mídia não fala no assunto. Nos questionários de pesquisas eleitorais velhacas o tema não entra em pauta. Mas a realidade é traiçoeira… E o assunto surge nas conversas informais. Nas ruas, nas casas, na mesa do lanche no domingo. Não se trata de conversa sobre política. É a realidade cotidiana. Gente que não consegue tomar banho na zona norte. Outros que já precisam programar horário de lavar a roupa na região de Cotia (Grande São Paulo).

Quando a ficha cair, em larga escala, o susto vai ser gigantesco. Vai ser parecido com o olhar de meu filho hoje, na hora do lanche: “mas vai faltar água e ninguém nos avisa?”

O público, os cidadãos, os eleitores vão-se sentir enganados quando descobrirem que a falta de água em São Paulo não é um assunto “controlado”. E nem um “fenômeno” climático. Mas que foi provocada por falhas graves de gestão.

E aí o eleitor vai se perguntar: quem me enganou?

Se o assunto fosse tratado de forma honesta pelo governo paulista, o tombo seria muito menor. Alckmin talvez tenha sido convencido pelos auxiliares que é possível evitar o racionamento, e passar “raspando” por outubro, sobrevivendo à seca das torneiras (mais ou menos como o FHC fez em 98 – fingindo que não havia uma crise cambial gravíssima batendo à porta).

Alguém enganou o governador. E ele passou o engodo adiante – enganando o povo paulista.

Vai ter Copa. A Petrobrás não vai quebrar. Mas as torneiras, infelizmente, vão secar em São Paulo; em algum momento, entre julho e outubro, isso vai ficar claro.

E aí Alckmin não terá defesa. Não há manchete mentirosa que explique a torneira seca. Não há mídia velhaca que salve os tucanos paulistas dessa mentira.

===

Falando em mídia velhaca, o jornalista Eduardo Nunomura fez um exercício curioso – tentando mostrar como a imprensa trataria a crise de falta de água em São Paulo se o Estado fosse administrado pelo PT…

por Eduardo Nunomura, no facebook

Maio de 2014. Alexandre Padilha é governador de São Paulo. Crise de abastecimento de água. O Estado está a poucos dias de ver o índice ficar abaixo de 10% no Cantareira.

Folha consegue vídeo exclusivo com a faxineira da casa do governador lavando a calçada. Globo usa o helicóptero para filmar a piscina cheia da “mansão”. Estadão revela uma escuta com a mulher de Padilha em que ela comenta tomar do…is banhos por dia.

O site da Veja denuncia que um caminhão-pipa teria estacionado em algum horário de alguma madrugada de algum dia qualquer na casa do líder do PT na Assembleia Legislativa. Noblat afirma que pode mostrar a fita comprovando o fato a qualquer momento.

O Congresso convoca a CPI da Água, e afirma que Dilma assinou acordos com verbas da União para beneficiar o Estado mais rico da Federação. Manchete em todos os veículos. Mas contratos lesivos de gestões anteriores que mostram que a Sabesp deixou de planejar o abastecimento são ignorados pela imprensa.

Lula teria trocado a cachaça e passou a beber altas doses de água Perrier, denuncia Larry Rohter, do NYTimes.

Essa é uma obra de ficção. Qualquer coincidência com as prioridades do jornalismo brasileiro atual é pura invencione.

Fazendeiro é condenado pela morte de sindicalista, mas permanecerá em liberdade

Via Brasil de Fato

Décio José Barroso Nunes foi condenado a 12 anos de prisão pelo assassinato de Dezinho, em 2000; Defesa recorrerá da decisão e o acusado deve ficar em liberdade até novo julgamento

Da Redação

O fazendeiro Décio José Barros Nunes, mais conhecido como Delsão, foi condenado na noite desta terça-feira (29) a 12 anos de prisão pelo assassinato do líder sindical José Dutra da Costa, o Dezinho, em novembro de 2000.

O réu já havia sido preso na época do assassinato, mas foi posto em liberdade. Segundo a defesa, ele vai recorrer da decisão. Sendo assim, Delsão permanecerá em liberdade até o julgamento do caso em todas as instâncias.

Este é o terceiro julgamento do assassinato do sindicalista. O acusado Wellington de Jesus da Silva foi preso logo após o crime e condenado a 27 anos de prisão em 2006. No entanto, ele fugiu da prisão em 2007 e segue foragido. Já em outubro de 2013, outros dois acusados, Domínio de Souza Neto e Lourival de Souza Costa, foram absolvidos.

Dezinho era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará e lutava pela reforma agrária na região. De acordo com entidades ligadas aos direitos humanos ele foi assassinado após denunciar práticas de trabalho escravo por fazendeiros da cidade.

 

 

A Declaração da Reunião de Mulheres da América Latina e Caribe pela Soberania Alimentar

Reprodução/MPA Brasil

Por Rennan Martins

Nos últimos dias 2 e 3 de maio ocorreu a IV Conferência Especial para a Soberania Alimentar, convocada pela Aliança pela Soberania Alimentar dos Povos da América Latina e do Caribe, em Santiago do Chile. Esta conferência tem por fundamentos a defesa das sementes e espécies nativas, territórios, rios e mares, reivindica também uma reforma agrária integral e a dignificação dos trabalhadores e trabalhadoras do campo visando garantir o direito humano a alimentação.

Neste evento ocorreu o encontro de 70 delegadas denominado Reunião das Mulheres da América Latina e Caribe.

Reproduzo a tradução da Declaração da Reunião das Mulheres da América Latina e Caribe, por sua relevância em termos de elaboração de políticas públicas que visam a manutenção da segurança alimentar, a sustentabilidade e o respeito aos trabalhadores, camponeses e indígenas, e por último mas não menos importante, as mulheres.

Declaração da Reunião das Mulheres da América Latina e Caribe na IV Conferência Especial da Aliança pela Soberania Alimentar dos Povos da América Latina e Caribe

Em Santiago do Chile, no dia 2 de maio, reunidas as mulheres campesinas, rurais, pescadoras, pastoras, assalariadas agrícolas e indígenas na Conferência Especial da Soberania Alimentar da América Latina e Caribe declaramos que:

Ratificamos os esforços políticos pela soberania alimentar como um princípio. Valorizamos e reconhecemos os esforços anteriores realizados nesta Conferência, cujo processo se dá desde a realização da Conferência Mundial sobre alimentação realizada em Mali sob o nome da mulher Nyeleni, de onde nossas propostas incidem no reconhecimento dos direitos para construir e socializar com um enfoque de gênero.

Da mesma forma, consideramos os avanços nestes processos de mais de 20 anos de construção da agenda para a defesa da soberania alimentar dos povos, a constituição desta aliança e seu documento fundador devem seguir avançando para que este e outros documentos se transformem em políticas públicas.

Destacamos o trabalho das mulheres do campo e da pesca artesanal e da aquicultura, maricultura em todos os âmbitos: produtivo, reprodutivo, do cuidado pelas pessoal, pelos bens comuns e pela natureza. As mulheres são historicamente transmissoras da cultura, através dos valores, as resistências culturais, a defesa do idioma, línguas, vestuário, costumes ancestrais e comunitários.

Ratificamos a importância da mobilização social como ferramenta da ação e posicionamento político das incidências e resistências, porque os povos possuem o direito de decidir livremente sobre os modos de vida, produção, comercialização e intercâmbio que queremos em oposição ao modelo agroindustrial, extrativista e de concentração que afeta principalmente as mulheres em suas condições de trabalho, de vida e tem impacto nas funções produtivas, reprodutivas e nas condições do cuidado pela vida e natureza. O trabalho flexível e precário impacta com maior intensidade as mulheres.

Denunciamos que mesmo havendo convenções internacionais que proíbem o trabalho das crianças, segue-se violando este direito dos meninos e meninas na agroindústria, privando-os de viver uma infância plena e feliz com educação e saúde garantidas pelos Estados.

Exigimos dos governos da América Latina e do Caribe e a FAO: que adotem o enfoque dos bens coletivos para se referir aos nossos territórios, terra, água, ecossistemas e biodiversidade.

Os governos devem assegurar a todos os povos o acessos aos bens coletivos e garantir sua proteção. Respeitar as normas definidas pelos instrumentos e convenções internacionais, como a CEDAW (Convenção Internacional contra todo tipo de descriminação contra as mulheres). Neste sentido declaramos campanha permanente contra a violência que atinge as mulheres, em todas as suas formas (sexual, psicológica, econômica, intrafamiliar e institucional).

Exigimos dos Estados e órgãos internacionais que garantam o cumprimento dos direitos legítimos das mulheres.

Exigimos o cumprimento efetivo do Convênio de 169 da OIT e a Declaração das Nações Unidas sobre o direito dos povos indígenas e o respeito aos direitos consuetudinários. Fazer efetivo o mecanismo da consulta prévia e livre e informada sobre tudo o que afeta aos nossos territórios. Fomentar a certeza jurídica da defesa da terra, para que as mulheres defendam este direito inalienável e não embargável.

O reconhecimento da cosmovisão dos povos indígenas, a solidariedade, reciprocidade e complementaridade.

A valorização, reconhecimento e respeito aos saberes das mulheres e homens produtores que garantem a soberania alimentar dos povos, através da Reforma Agrária Integral.

A incorporação nas políticas públicas da economia solidária, que fomenta a associatividade, fortalecendo o abastecimento e comercialização regidas por outras formas de intercâmbio próprias dos territórios.

A não permissão da privatização dos bens comuns, nem o patenteamento de toda forma de vida. Nos opomos a lei de obtentores vegetais, a propriedade intelectual de sementes, das ervas medicinais e a intervenção genética que rompe com o ciclo ecológico da natureza.

O fortalecimento do papel fiscalizador dos parlamentos para fazer avançar as políticas de soberania alimentar.

O reconhecimento da Aliança pela Soberania Alimentar como contraparte nas discussões e decisões perante os países e a FAO.

Nós, mulheres representantes insistimos as nossas organizações no comprometimento com:

A valorização do papel das mulheres na preservação, conservação e desenvolvimento de nossas culturas.

O fortalecimento da formação política das mulheres para a soberania alimentar e avanço na criação de um programa regional de formação.

A socialização da informação acerca do ano da Agricultura Familiar Campesina e Indígena e sua importância para alimentar o mundo e cuidar do planeta.

O fortalecimento e ampliação de nossas organizações, nos articulando em ações comuns.

A realização, continuação e avalização dos governos da América Latina do Caribe e da FAO, para a implementação dos acordos compromissos alcançados. Estaremos atentas aos diversos processos políticos e trabalharemos juntas para que os movimentos sociais avancem nos objetivos.

Não permitiremos a manipulação e instrumentalização da soberania alimentar.

Seguiremos construindo alianças com as mulheres das cidades, suas organizações e outros setores para manutenção de relações equilibradas entre a produção e comercialização dos alimentos.

“Resistência e rebeldia, as sementes pela vida”