Arquivos da categoria: Meio Ambiente

América Latina realiza primeira cúpula de Investimentos Climáticos

Via Portal Vermelho

O Cantareira, um dos símbolos do que pode fazer as mudanças climáticas. Último Segundo/Reprodução

Começou nesta terça-feira (24), na Jamaica, a primeira cúpula dos Fundos de Investimentos Climáticos (CIF, sigla em inglês) na América Latina e no Caribe, na qual os atores da região, onde a luta contra a mudança climática está ligada ao modelo de desenvolvimento, avaliam estratégias para não repetir os erros dos países desenvolvidos.

“A mudança climática nos países em desenvolvimento é um tema de desenvolvimento. Há uma tendência de pensar que a luta contra a mudança climática é responsabilidade dos países mais ricos e dos que mais poluem, entretanto, a escolha do modelo sobre o qual uma nação vai crescer é crucial”, disse em entrevista à EFE, Claudio Alatorre, especialista em mudança climática do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

“Todas as decisões contam. Em desenvolvimento urbano, planejamos cidades densas ou mais espalhadas? Construímos mais infraestruturas como estradas ou damos mais ênfase no transporte coletivo e nas ciclovias? Há opções para se escolher e muitas são de políticas e investimentos”, acrescentou.

O BID é a organização multilateral com a qual o CIF organiza seu fórum este ano, um encontro realizado a cada 18 meses e que reúne governos, setor privado, comunidades indígenas, organizações de desenvolvimento e pesquisadores.

Brasil, Bolívia, México, Chile, Colômbia, Peru, Honduras e as nações caribenhas são os “países piloto” da região que participam dos CIF, fundos criados em 2008 como um compromisso dos países desenvolvidos para fornecer recursos para projetos sustentáveis nas nações em desenvolvimento.

Com informações da EFE

Suape: promessas não cumpridas (2)

Porto de Suape. Angular Aero Foto/Reprodução

Por Heitor Scalambrini Costa*

O Complexo Industrial Portuário de Suape (CIPS), chamado por segmentos da sociedade pernambucana de “joia da coroa”, “locomotiva do desenvolvimento”, “poupança do povo”, “redenção do Nordeste”, e “Eldorado”, entre outros, vive momentos de desnudamento de uma realidade cruel.

Movimentos sociais, ao longo dos anos, têm denunciado questões referentes à ação da empresa Suape – como a imoralidade dos procedimentos judiciais que tramitam na Vara Privativa da Fazenda Pública da Comarca do Cabo de Santo Agostinho; o desvio de verbas públicas, através do ajuizamento de ações judiciais e simulação de audiências não realizadas nessa mesma Vara da Fazenda; os danos ambientais e sociais causados pela empresa; a continuada violação de direitos humanos; o tráfico de influência no Poder Judiciário de Pernambuco; a ausência do Ministério Público nos procedimentos de remoção/expulsão de milhares de famílias da área; e a falta de legitimidade da empresa Suape como proprietária das terras que hoje abrigam o Complexo.

Com a atração de inúmeras empresas, como refinaria, estaleiros, termoelétricas, siderúrgica e petroquímica, o que se verifica há alguns anos é o completo desrespeito às leis vigentes por parte da empresa gestora do Complexo; é a falta de responsabilidade social das empresas que lá se instalaram; e, principalmente, a visão anacrônica do governo estadual, responsável pela degradação ambiental daquele território. Os reflexos desta política obstinada, que considera a natureza um entrave ao crescimento econômico, inclui a interrupção drástica e dramática dos modos de vida da população local – ferindo direitos adquiridos de pescadores, marisqueiras e agricultores familiares, expulsos de suas moradias, abandonados sem condições de trabalho ou qualquer assistência social digna desse nome.

O mantra mais utilizado pelo governo estadual em suas ações de marketing político, que o tem projetado nacionalmente, é a geração de empregos e o aumento da renda proporcionado pela implantação desse Complexo Portuário e Industrial. Sem dúvida, cresceu muito o emprego de baixa qualidade, temporário, com salários irrisórios, devido às obras de construção dos empreendimentos, atraindo tanto trabalhadores pernambucanos como de outras regiões do país. Todavia, agora, com o término desta etapa de construção civil, os responsáveis se vangloriaram e manipularam a opinião pública, “lavam as mãos” perante o comportamento de empresas que não cumprem suas responsabilidades sociais e trabalhistas para com os seus empregados. Um comportamento no mínimo irresponsável.

A promessa de emprego abundante, usada na propaganda política, se tornou um verdadeiro calvário para os trabalhadores. O Ministério Público do Trabalho (MPT) estima que as empresas do Complexo vão demitir mais de 50 mil trabalhadores entre 2014 e 2016, em particular, aqueles que trabalharam na construção da Refinaria e de outras obras da Petrobrás.

Na tentativa de fazer valer os direitos legítimos daqueles que com sua força física ajudaram na construção de Suape, e preocupado com o desemprego em massa, o MPT criou, em dezembro de 2013, o Fórum para Recolocação da Mão de Obra de Suape (REMOS), tentando assim minimizar o que já estava acontecendo: demissões em larga escala, calotes das empresas, como o não pagamento de salários, um total desrespeito a direitos básicos da classe trabalhadora.

O que se verifica atualmente no território de Suape é a barbárie nas relações entre o capital e o trabalho, com a omissão do governo do Estado e da Empresa Suape. Sem tirar, obviamente, a responsabilidade da Petrobrás que contratou os consórcios de empresas para a realização das obras. Os responsáveis pelo descalabro existente não se manifestam diante da gravidade da situação. Fazem de conta que não é com eles.

A situação é explosiva e muito tensa. Diante da falta de cooperação das empresas que insistem nas irregularidades, o Fórum REMOS foi desfeito no inicio do mês (4/6) pelo MPT. Os trabalhadores, devido à falta de pagamentos dos salários e das garantias que lhes concede as leis trabalhistas, estão sendo despejados de onde vivem, não tendo sequer dinheiro para suprir suas necessidades materiais de sobrevivência. São relatadas situações em que famílias perderam o direito ao plano de saúde, com todas as consequências que isto implica.

Revoltados com a demora no atendimento de seus legítimos direitos, as vias de acesso ao Complexo têm sido tomadas por estes trabalhadores, que denunciam o abandono a que estão submetidos. Os órgãos de repressão, chamados para “garantir a ordem”, espancam e prendem trabalhadores em violentos e injustificados embates.

Promessas de trabalho. Promessas de vida melhor. Promessas e mais promessas, agora desmascaradas, desnudam a realidade da “gestão moderna e eficiente” do governo de Pernambuco, cuja propaganda cínica segue à risca a Lei de Ricupero: “No governo é assim: o que é bom à gente mostra; o que é ruim a gente esconde”.

*- Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco e Coordenador Geral do Fórum Suape – Espaço Socioambiental

 

Petrobras foi a única grande operadora de petróleo a crescer produção nos últimos 6 anos, diz estudo

Via Opera Mundi

Sede da Petrobras, no Rio; empresa foi a única entre as grandes a registrar aumento de produção de barris de petróleo nos últimos 6 anos. Jim Killock/Flickr

Produção subiu da média de 1,918 milhão de barris de petróleo por dia em 2007 para 2,059 milhões em 2013, de acordo com consultoria britânica

A Petrobras foi a única empresa entre as grandes do setor a registrar aumento de produção de barris de petróleo nos últimos seis anos, de acordo com um estudo da consultoria britânica Evaluate Energy. O dado foi divulgado pela companhia no último sábado (14/06).

De acordo com o levantamento, a produção de petróleo da Petrobras subiu da média de 1,918 milhão de barris por dia em 2007 para 2,059 milhões em 2013. Isso representa um aumento de cerca de 140 mil barris por dia, se forem levados em conta os campos operados dentro e fora do Brasil.

A companhia também prevê chegar ao final de 2014 com crescimento de 7,5% em relação a 2013 (com este número podendo variar 1 ponto percentual para mais ou para menos).

A produção na província do pré-sal tem acompanhado essa tendência de crescimento, informou a Petrobras. Segundo a companhia, a produção nesta província já ultrapassou a marca de 480 mil barris diários nos campos das bacias de Campos e Santos.

O número, que é recorde, se deve à entrada em operação do poço CRT-49, que interligado à plataforma P-48, no campo de Caratinga – localizado, por sua vez, na bacia de Campos.

Somos todos ambientalistas

Por Heitor Scalambrini Costa

Persiste entre formadores de opinião, o uso pejorativo do termo “ambientalista”, visando depreciar os cidadãos que lutam pela causa ambiental, além de tentar esconder outras intenções, menos ingênuas, como fazer o jogo dos poderosos, dos poluidores, que têm seus interesses contrariados pela persistência daqueles que defendem a preservação do meio ambiente e das condições de vida no planeta.

Os últimos relatórios dos grupos de trabalho do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostram inquestionavelmente que a ação humana é a principal causa da elevação da temperatura média da Terra, ou aquecimento global. Mesmo assim, interesses poderosos das industrias de combustíveis fósseis e nucleares, da agroindústria, dentre outros, continuam a negar este fato, financiando campanhas que atacam aqueles que propõem mudanças no atual estilo de vida perdulário, no consumo e na produção de matérias primas e energia.

O crescimento sempre foi um objetivo da política econômica. Acreditava-se que o aumento da renda de um país fosse suficiente para proporcionar uma vida melhor a seus habitantes. Portanto, a partir de uma análise simplificada, geralmente utilizando o Produto Interno Bruto (PIB) como indicador base, bastava o anúncio de seu aumento, para que se aceitasse que os indicadores de bem estar o estavam acompanhando. Isto de fato não acontece.

Já há alguns anos, verificam-se os danos causados pela atividade econômica sobre o planeta. Em nome do crescimento a qualquer preço, tudo é permitido, inclusive a destruição do meio ambiente. São incontestes as evidencias de que não é mais possível crescer e enriquecer para melhorar a qualidade de vida da maioria da população. Ou seja, manter os padrões atuais de produção e consumo esbarra nos limites físicos do nosso planeta.

Estamos recebendo sinais de reação da Terra à quantidade excessiva de gases emitidos, que geram o denominado “efeito estufa”, em particular devido ao CO2 (dióxido de carbono), pelo uso massivo dos combustíveis fósseis. A Terra reage também ao desmatamento desenfreado das florestas para diferentes finalidades, ao desperdício e poluição das fontes de água doce, reduzindo assim sua disponibilidade pelo uso irracional desse bem fundamental para a vida.

O IPCC, através de seus relatórios e pareceres, traz conclusões científicas irrefutáveis sobre o aquecimento global, que provoca um aumento significativo na frequência e na intensidade dos “desastres naturais”. A concentração de CO2 na tênue atmosfera que nos protege atingiu, em abril de 2014, 400 ppm (partes por milhão), superando o limite histórico. Valor emblemático, pois este é valor considerado pelos cientistas como limite para evitar os piores cenários do clima. Segundo o IPCC, acima de 400 ppm de CO2 a temperatura média do planeta poderá subir entre 2 a 5 graus centígrados até o final deste século, e isto poderá provocar a aceleração do degelo, tempestades mais violentas, graves impactos sobre a biodiversidade, com a inevitável extinção de espécies, e milhões de refugiados ambientais, os quais terão de buscar outros lugares para viver.

No entanto, mesmo com todas as catástrofes recentes, em todo o mundo, e com os claros alertas científicos do IPCC, continuamos sem dar a devida atenção ao maior desafio de nosso tempo: as mudanças climáticas. Elas estão entre nós e estão se acelerando.

Precisamos, pois, entender que todos os que lutam pela vida no planeta Terra – que lutam por um mundo melhor, por uma sociedade mais igualitária, e socialmente mais justa – são também, responsáveis pela preservação ambiental. Ou seja, com exceção daqueles que lutam apenas para manter os seus privilégios, somos todos ambientalistas!

*- Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco

 

Monsanto, a semente do diabo

A história da Monsanto “é a história da sacarina e o aspartame, do PBC, do agente laranja, dos transgênicos. Todos fabricados, ao longo dos anos, por esta empresa. Uma história de terror”, escreve a jornalista e ativista política e social Esther Vivas, em artigo publicado pelo jornal espanhol Público

Por Esther Vivas

Publicado no jornal Público, via Brasil de Fato

Tradução do Cepat

“A semente do diabo”. Foi assim que o popular apresentador do canal estadunidense HBO, Bill Maher, em um de seus programas e em referência ao debate sobre os Organismos Geneticamente Modificados, batizou a multinacional Monsanto. Por quê? Trata-se de uma afirmação exagerada? O que esconde esta grande empresa da indústria das sementes? No último domingo, justamente, foi o dia mundial de luta contra a Monsanto. Milhares de pessoas em todo o planeta se manifestaram contra as políticas da companhia.

A Monsanto é uma das maiores empresas do mundo e a número um em sementes transgênicas. No mundo, 90% dos cultivos modificados geneticamente contam com seus traços biotecnológicos. Um poder total e absoluto. A Monsanto está na liderança da comercialização de sementes e controla 26% do mercado. Mais longe, vem a DuPont Pioneer, com 18%, e Syngenta, com 9%. Somente estas três empresas dominam mais da metade do mercado, com 53% das sementes que são compradas e vendidas em escala mundial. As dez maiores controlam 75% do mercado, segundo dados do Grupo ETC. O que lhes proporciona um poder enorme na hora de impor o que se cultiva e, consequentemente, o que se come. Uma concentração empresarial que aumentou nos últimos anos e que corrói a segurança alimentar.

A ganância destas empresas não tem limites e seu objetivo é acabar com variedades de sementes locais e antigas, ainda hoje com um peso muito significativo, especialmente nas comunidades rurais dos países do Sul. Algumas sementes nativas representam uma ameaça para as híbridas e transgênicas das multinacionais, que privatizam a vida e impedem ao campesinato de obter suas próprias sementes, convertendo-os em “escravos” das companhias privadas, sem contar o seu negativo impacto ambiental, com a contaminação de outras plantações, e na saúde das pessoas.

A Monsanto não poupou recursos para acabar com as sementes camponesas: ações legais contra agricultores que tentam conservá-las, patentes de monopólio, desenvolvimento de tecnologia de esterilização genética de sementes, etc. Trata-se de controlar a essência dos alimentos e, assim, aumentar sua cota de mercado.

A introdução nos países do Sul, em especial naqueles com vastas comunidades camponesas ainda capazes de contar com suas próprias sementes, é uma prioridade para estas companhias. Deste modo, as multinacionais da semente intensificaram as aquisições e alianças com empresas do setor, principalmente na África e na Índia. Apostaram em cultivos destinados aos mercados do Sul Global e promoveram políticas para desestimular a reserva de sementes. A Monsanto, como reconhece sua principal rival DuPont Pioneer, é a “guardiã única” do mercado de sementes, controlando, por exemplo, 98% da comercialização de soja transgênica tolerante a herbicidas e 79% do milho, como retrata o relatório “Quem controla os insumos agrícolas?”. Isso lhe dá suficiente poder para determinar o preço das sementes, independente de seus competidores.

Das sementes aos agrotóxicos

No entanto, como a Monsanto não tem condições suficientes para controlar as sementes, para fechar o círculo, também procura dominar o que se aplica em seu cultivo: os agrotóxicos. A Monsanto é a quinta empresa agroquímica mundial e controla 7% do mercado de inseticidas, herbicidas, fungicidas, etc., atrás de outras empresas, por sua vez, líderes no mercado das sementes, como Syngenta, que domina 23% do negócio dos agrotóxicos, Bayer, 17%, BASF, 12%, e Dow Agrosciences, quase 10%. Assim, cinco empresas controlam 69% dos pesticidas químicos sintéticos que são aplicados nas plantações em escala mundial. Os mesmos que vendem ao campesinato as sementes híbridas e transgênicas, também fornecem os pesticidas para aplicar. Negócio redondo.

O impacto ambiental e na saúde das pessoas é dramático. Apesar das empresas destacarem o caráter “amigável” destes produtos com a natureza, a realidade é totalmente o contrário. No momento atual, após anos de fornecimento do herbicida da Monsanto, Roundup Ready, a base de glifosato, que já em 1976 foi o herbicida mais vendido do mundo, segundo dados da própria companhia, e que se aplica às sementes da Monsanto modificadas geneticamente para tolerar dito herbicida, sabe-se que ao mesmo tempo em que este acaba com a erva daninha, várias outras tem desenvolvido resistências. Estima-se que somente nos Estados Unidos já surgiram cerca de 130 ervas daninhas resistentes a herbicidas, em 4,45 milhões de hectares de plantações, de acordo com dados do Grupo ETC. Isso levou a um aumento do uso de agrotóxicos, com aplicações mais frequentes e doses mais elevadas para combatê-las, com a conseguinte contaminação ambiental do entorno.

As denúncias de camponeses e comunidades afetadas pelo uso sistemático de pesticidas químicos sintéticos é uma constante. Na França, inclusive, o Parkinson é considerado uma enfermidade do trabalho agrícola, causado pelo uso de agrotóxicos, depois que o camponês Paul François venceu a batalha judicial contra a Monsanto, no Tribunal de última instância de Lyon, em 2012, e conseguiu demonstrar que seu herbicida Lasso era o responsável por intoxicá-lo e deixá-lo inválido. Uma sentença histórica, que permitiu um avanço na jurisprudência.

O caso das Mães de Ituzaingó, um bairro das redondezas da cidade argentina de Córdoba, rodeada de campos de soja, em luta contra as fumigações é outro exemplo. Após dez anos de denúncia, e depois de observar como o número de enfermos de câncer e crianças com malformações no bairro não parava, mas, sim, aumentava – de cinco mil habitantes, duas centenas tinham câncer -, conseguiram demonstrar a ligação entre estas enfermidades e os agroquímicos aplicados nas plantações de soja em seus arredores (endosulfan de DuPont e glifosato de Roundup Ready da Monsanto). A Justiça proibiu, graças à mobilização, a fumigação com agrotóxicos perto de áreas urbanas. Estes são apenas dois casos dos muitos que podemos encontrar em todo o planeta.

Agora, os países do Sul são o novo objetivo das empresas de agroquímicos. Enquanto as vendas globais de pesticidas caíram nos anos 2009 e 2010, seu uso nos países da periferia aumentou. Em Bangladesh, por exemplo, a aplicação de pesticidas cresceu 328% nos anos 2000, com o consecutivo impacto na saúde dos camponeses. Entre 2004 e 2009, a África e o Oriente Médio tiveram o maior consumo de pesticidas. E na América Central e do Sul se espera um aumento do consumo nos próximos anos. Na China, a produção de agroquímicos alcançou, em 2009, dois milhões de toneladas, mais do que o dobro de 2005, segundo informa o relatório “Quem controlará a economia verde?”. Business as usual.

Uma história de terror

Porém, de onde surge esta empresa? A Monsanto foi fundada em 1901 pelo químico John Francis Queeny, proveniente da indústria farmacêutica. Sua história é a história da sacarina e o aspartame, do PBC, do agente laranja, dos transgênicos. Todos fabricados, ao longo dos anos, por esta empresa. Uma história de terror.

A Monsanto se constituiu como uma empresa química e, em suas origens, seu produto estrela era a sacarina, que distribuía para a indústria alimentar, em especial, para a Coca-Cola, que foi uma de seus principais provedores. Com os anos, expandiu seu negócio à química industrial, tornando-se, nos anos 1920, um dos maiores fabricantes de ácido sulfúrico. Em 1935, absorveu a empresa que comercializava policloreto de bifenila (PCB), utilizado nos transformadores da indústria elétrica. Nos anos 1940, a Monsanto centrou sua produção nos plásticos e nas fibras sintéticas e, em 1944, começou a produzir químicos agrícolas como o pesticida DDT.

Nos anos 1960, junto com outras empresas do setor, como Dow Chemical, foi contratada pelo governo dos Estados Unidos para produzir o herbicida agente laranja, que foi utilizado na guerra do Vietnã. Neste período, juntou-se, também, com a empresa Searla, que descobriu o adoçante não calórico aspartame. A Monsanto também foi produtora do hormônio sintético de crescimento bovino somatotropina bovina. Nos anos 1980 e 1990, a Monsanto apostou na indústria agroquímica e transgênica, até chegar a se tornar a número um indiscutível das sementes modificadas geneticamente.

Atualmente, muitos dos produtos made by Monsanto foram proibidos, como o PBC, o agente laranja ou o DDT, acusados de provocar graves danos à saúde humana e ao meio ambiente. O agente laranja, na guerra do Vietnã, foi responsável por dezenas de milhares de mortos e mutilados, assim como pelo nascimento de crianças com malformações. A somatotropina bovina também está vetada no Canadá, União Europeia, Japão, Austrália e Nova Zelândia, apesar de ser permitida nos Estados Unidos. O mesmo ocorre com o cultivo de transgênicos, onipresente na América do Norte, mas proibido na maioria dos países europeus, exceto, por exemplo, pelo Estado espanhol.

A Monsanto se movimenta como peixe na água no cenário de poder. Isso ficou claro por Wikileaks, quando filtrou mais de 900 mensagens que mostravam como a administração dos Estados Unidos gastou grandiosos recursos públicos para promover a Monsanto e os transgênicos em muitíssimos países, por meio de suas embaixadas, seu Departamento de Agricultura e sua agência de desenvolvimento USAID. A estratégia consistia em conferências “técnicas”, desinformando jornalistas, funcionários e formadores de opinião, bem como pressões bilaterais para adotar legislações favoráveis e abrir mercado às empresas do setor, etc. Na Europa, o governo espanhol é o principal aliado dos Estados Unidos nesta matéria.

Enfrentamento

Diante de todo este despropósito, muitos não calam e enfrentam. Milhares são as resistências contra a Monsanto em todo o mundo. A data de 25 de maio foi declarada o dia mundial contra esta companhia e centenas de manifestações e ações de protesto foram realizados, neste dia, ao redor do globo. Em 2013, realizou-se a primeira convocação, milhares de pessoas saíram às ruas em várias cidades de 52 diferentes países, desde Hungria até Chile, passando por Holanda, pelo Estado espanhol, Bélgica, França, África do Sul, Estados Unidos, entre outros, para mostrar a profunda rejeição às políticas da multinacional. No domingo passado, dia 25, a segunda convocação, menos concorrida, contou com ações em 49 países.

A América Latina é, neste momento, uma dos principais frentes de luta contra a companhia. No Chile, a mobilização conseguiu, em março de 2014, a retirada da conhecida Lei Monsanto, que pretendia facilitar a privatização das sementes locais e deixá-las nas mãos da indústria. Outra grande vitória foi na Colômbia, um ano antes, quando a massiva paralisação agrária, em agosto de 2013, conseguiu a suspensão da Resolução 970, que obrigava os camponeses a usar exclusivamente sementes privadas, compradas de empresas do agronegócio, e impedia que guardassem suas próprias sementes. Na Argentina, os movimentos sociais também estão em pé contra outra Lei Monsanto, que se pretende aprovar no país e subordinar a política nacional de sementes às exigências das empresas transnacionais. Mais de 100.000 argentinos já assinaram contra esta lei, no marco da campanha “Não à Privatização das Sementes”.

Na Europa, a Monsanto agora quer aproveitar a fenda que se abre nas negociações do Tratado de Livre Comércio União Europeia – Estados Unidos (TTIP), para pressionar em função de seus interesses particulares e poder legislar acima da vontade dos países membros, a maioria contrária à indústria transgênica. Esperamos que não demorem as resistências na Europa contra o TTIP.

A Monsanto é a semente do diabo, sem sombra de dúvidas.

Frustrado o sonho de independência energética dos EUA

Reuters/Reprodução

Via RT

Os EUA receberam um duro e inesperado golpe com a descoberta de que a quantidade de petróleo recuperável de um de seus depósitos de xisto reduziu-se em 96%. Com isto, o sonho de tornar-se independente energeticamente se vai.

Em 2011 uma empresa independente contratada por Washington realizou uma estimativa errônea do petróleo tecnicamente recuperável da maior reserva betuminosa do país, localizada em Monterey, California, que contém em torno de dois terços das reservas de petróleo de xisto da nação. Segundo aquela estimativa, poderiam se obter cerca de 13,7 bilhões de barris de petróleo na área. Não obstante, o mais recente informe esclarece que a quantidade real não será maior que 600 milhões de barris, uma quantidade 96% menor da esperada.

Esta estimativa equivocada de 2011 foi esperançosamente levada em conta no planejamento do país que visava reduzir importações de petróleo, segundo o diário “The Angeles Times”. E eis que agora a quantidade disponível se mostra insignificante levando-se em conta que só podem suprir as necessidades energéticas norte-americanas por 33 dias.

Os sonhos das autoridades californianas que se comprometeram com o projeto não se materializaram, somado a queda drástica da disponibilidade temos também que a geração de empregos caiu de 2,8 milhões para 112.000, e a receita de 24,6 bilhões para 984 milhões. “As estimativas de produção do petróleo, combinadas com conhecimento insuficiente das diferenças geológicas nos campos examinados levaram a predições e estimativas erradas”, explicou John Staub, analista de exploração e produção de petróleo que dirigiu a recente pesquisa da Administração de Informação de Energia dos EUA.

Ademais, a análise anterior desencadeou um “boom” de especulações entre as companhias petroleiras que agora fazem grande esforço para esvaziar o projeto, como a Ocidental Petróleo.

Tradução: Rennan Martins

Diálogos Desenvolvimentistas: A indústria e o meio ambiente

Meramente ilustrativa (Sobre boas ideias/Reprodução)

Edição por Rennan Martins

O artigo anteriormente replicado aqui mesmo no blog intitulado “A Política Econômica do Governo Dilma“, de autoria conjunta de Ricardo Musse e Carlos Pissardo repercutiu bem tanto nas redes, se tornando por um tempo o mais lido em nosso portal, quanto internamente na associação, gerando um debate interessante.

O texto original critica as políticas fiscais de incentivo à indústria, que segundo os autores, se daria de forma confusa, causando problemas urbanos e ambientais. Sustentam também que as indústrias aqui residentes sempre pedem por mais incentivos mesmo sem responder à altura a estes.

Quanto a este dilema que envolve a indústria e o meio ambiente, apresentaram suas ideias os colaboradores Gustavo Santos, funcionário do BNDES e doutor em economia e Ceci Juruá, doutora em políticas públicas e membro do conselho consultivo da CNTU.

Confira as colocações:

Gustavo Santos – Esses autores são progressistas de fato, acreditam no keynesianismo. Estão do nosso lado. As propostas, porém, não são consistentes.

Para manter um mínimo de resgate de soberania econômico, precisamos ter um saldo comercial de no mínimo uns 60 bilhões de dólares por ano.

A proposta deles é boa, mas isolada, sem incentivo à indústria e às exportações, só vai ajudar o país a estar preparado para afundar em uma grande crise, porque tirar o apoio à indústria só fará com que o saldo comercial amplie.

Mas se o objetivo deles é promover uma revolução popular decorrente de uma crise econômica, talvez funcione.

Ceci Juruá – Quando Celso Furtado, Prebish e outros latino-americanos, basicamente mexicanos e argentinos, elaboraram nosso “modelo de desenvolvimento”, expresso teoricamente na obra de Celso Furtado, eles estavam fundamentados em determinadas experiências históricas e no contexto em que viviam, marcado pela Revolução Soviética e pelos avanços propiciados pelo progresso técnico canalizado para a indústria. Enfatizo particularmente as novas teorias econômicas tendo como referência a macro e não a microeconomia destacando-se aí Marx e seus seguidores e Keynes e seus seguidores. Faziam parte igualmente do contexto a Grande Depressão de 1930 e a descolonização.

Terminados os efeitos do contexto – particularmente na política, isto é a descolonização e a revolução soviética – a economia deu uma guinada e resgatou os princípios doutrinários do liberalismo. A descolonização também foi esquecida e surgiram ou ressurgiram revigoradas outras formas de dominação. Conta-se que os grandes banqueiros costumam pensar: deem-me o controle da moeda e não preciso de leis. Por tudo isto, não tenho firme convicção de que nossas passadas utopias e referências conceituais tenham aplicação prática hoje. Não digo nem que sim nem que não. Defendo apenas que é hora de voltar a ser livre pensador, procurando reconstituir utopias e referências doutrinárias a partir dos anseios dos povos e das nações. Na nossa América Latina, por exemplo, tenho muita esperança nos desdobramentos dos eventos bolivianos, isto é, nos fundamentos que se elaboram sobre o Bem Viver. E há também a questão do meio ambiente e da Pacha Mama. Provavelmente o momento é mais propício à busca do desenvolvimento sustentável do que ao “simples” desenvolvimento. E não é a mesma coisa.

Gustavo Santos – Não tenho nada contra o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável e não sou nada fã do nosso estilo de vida ocidental.

Não entendo as relações entre o que você disse sobre o que eu havia dito antes ou eng relação aos autores que eu havia criticado.

Tem um negócio chato no sistema internacional e em todas relações humanas que se chama poder.

É algo que a grande maioria das pessoas preferem desconsiderar porque considera lo em suas teorias significa aceitar, naturalizar e até recomendar o pecado.

Sem pecado não há como sobreviver no sistema internacional. Sem exportações também não. Já que elas são necessárias ao menos que sejam de manufaturas.

O mundo não mudou a ponto disso não ser mais verdade.

Ceci Juruá – Tampouco eu quis contradizê-lo. Apenas complementar. Quando à manufatura/indústria, é necessário refletir muito. Pois há grande desperdício e a preferência, no consumo diário, por produtos descartáveis. Esse é o problema.

Gustavo Santos – Sim. Mas é um problema civilizacional que não pode ser resolvido por um país isoladamente.

E resolvê-lo não muda nossas obrigações frente ao poder internacional.