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Além de desertificação, São Paulo tem água de subsolo contaminada

Por Júlio Ottoboni | Via Envolverde

Região Sudeste sofre severa estiagem, decorrente de desmatamento na Amazônia, e pior, reservas de aquíferos subterrâneos enfrentam poluição. Foto: UN Photo/Martine Perret

São Paulo e parte dos Estados do Sul e Sudeste do país podem entrar tanto num ciclo de desertificação como de extermínio de suas reservas hídricas existentes no subsolo. A influência das queimadas e do desmatamento amazônico no ciclo das chuvas nas porções mais ao sul do país alarma tanto os cientistas tanto quanto aos níveis de contaminação das águas potáveis existentes.

Com o volume de águas de superfície em diminuição considerável, as reservas subterrâneas estão em boa parte comprometidas. Seja por contaminação por esgoto, pesticidas ou mesmo pela falta de potabilidade. Há estudos sobre o uso a exaustão desses recursos em regiões onde o aquífero tem uma distribuição demasiadamente irregular. Desde 1998, pesquisadores da USP e outras entidades alertam para a exploração demasiada e sem critérios das águas subterrâneas, principalmente na agricultura.

No trecho paulista, o Aquífero Guarani é explorado por mais de 1000 poços e isso ocorre numa faixa no sentido sudoeste-nordeste. Já a área de recarga ocupa cerca de 17.000 Km², onde se encontram a maior parte dos poços e grande parte dos problemas de contaminação.

Há 13 anos um grupo de cientistas do Centro de Pesquisas de Água Subterrânea (Cepas) do Instituto de Geociências da USP pesquisa quanto a presença de Nitrato nas águas subterrâneas. Os estudos mostram uma crescente contaminação por esgoto urbano em diversas cidades paulistas. Esse elemento químico surge em processos de decomposição bacteriológica de matéria orgânica presente nos dejetos.

“Em locais onde não há saneamento, a contaminação ocorre pelas fossas sépticas e negras, já nas áreas com redes de esgoto o problema são os vazamentos. As redes são antigas e não passam por manutenção periódica. A presença do nitrato em áreas urbanas com rede de esgoto não era esperada de forma tão intensa”, afirma o professor da USP Ricardo Hirata.

O nitrato é cancerígeno e pode desenvolver diversas doenças, principalmente síndromes em crianças. São Paulo tem uma grande dependência da água subterrânea. Segundo a pesquisa da USP, cerca de 75% das cidades paulistas têm o abastecimento público total ou parcial feito por águas de aquíferos.

“No Estado de São Paulo, quase 60% dos poços tubulares são ilegais, ou seja, não têm controle por parte do estado, com possibilidades de terem problemas de qualidade de suas águas. Isso significa que a população pode estar ingerindo água degradada por nitrato ou outros contaminantes e não saber”, alerta o professor da USP.

Além do problema da recarga, dificultado pela falta de chuvas, descontaminar a água com nitrato é algo caro e algumas situações inviável. Para agravar o quadro, há uma redução drástica da água de subsolo em diversas regiões. A supressão das matas ciliares que recobrem as bacias tem forte impacto sobre a qualidade da água, encarecendo em cerca de 100 vezes o seu tratamento.

O alerta para as péssimas condições das águas, tanto de superfície como de subsolo, foi feito também pelo pesquisador José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia (IIE). Segundo ele, em áreas com floresta contígua a cursos d’água que estão protegida, com algumas gotas de cloro por litro se tem água para consumo humano.

“Já em locais com vegetação degradada é preciso usar coagulantes, corretores de pH, flúor, oxidantes, desinfetantes, algicidas e substâncias para remover o gosto e o odor. Todo o serviço de filtragem prestado pela floresta precisa ser substituído por um sistema artificial e o custo passa de R$ 2 a R$ 3 a cada mil metros cúbicos para R$ 200 a R$ 300. Essa conta precisa ser relacionada com os custos do desmatamento”, afirmou.

Quando a cobertura vegetal na bacia hidrográfica é adequada existe uma quantidade maior de água, por processos naturais, essa retorna para a atmosfera e favorece a precipitação. O escoamento da água das chuvas é mais lento, favorecendo a recarga e minimiza a erosão. Os A vegetação funciona como um filtro natural e ajuda a infiltrar a água no solo.

“Em solos desnudos, o processo de drenagem da água da chuva ocorre de forma muito mais rápida e há uma perda considerável da superfície do solo, que tem como destino os corpos d’água. Essa matéria orgânica em suspensão altera completamente as características químicas da água, tanto a de superfície como a subterrânea”, explicou Tundisi.

* Júlio Ottoboni é jornalista diplomado e pós-graduado em jornalismo científico.

A Petrobras, o setor de petróleo e a eleição

Por Paulo Metri | Via Correio da Cidadania

Todas as falcatruas recém-denunciadas que bandidos de dentro da Petrobras teriam feito para agradar políticos corruptos e empresários corruptores, e para obter benefícios para si próprios, devem ser apuradas rigorosamente. Se as denúncias forem comprovadas, todos os corruptos e corruptores devem ser julgados, e as penas previstas em lei aplicadas.

No entanto, a roubalheira comprovada, desta ou de outras estatais, não se trata de um defeito intrínseco das mesmas. Entretanto, se houver vacilo na fiscalização, a probabilidade de roubos aumentará. Por isto, é preciso estar sempre alerta, porque os corruptores nunca desistirão de buscar um fraco de espírito para comprar. Cabe lembrar que empresas privadas também podem roubar recursos da sociedade. Por exemplo, quando sonegam impostos ou seus representantes subornam servidores públicos para ganhar obras superfaturadas do Estado.

Candidatos a presidente da direita, com apoio da grande mídia (1), sua aliada e claramente tendenciosa, usam os possíveis maus feitos de bandidos, que infelizmente ocuparam cargos na Petrobras, para crescerem perante o eleitorado, recriminando a presidente que tenta a reeleição. Esta postura pode ser muito prejudicial para a nossa sociedade, que pode cair na arapuca desta mídia, armada para a presente eleição.

Primeiramente, a presidente não está incentivando corrupção alguma. Quem de sã consciência acha que Dilma é corrupta? O efeito colateral deste ardil eleitoral é que a sociedade passa a acreditar que empresa estatal é o mesmo que um antro de corrupção. Este pensamento não verdadeiro facilita muito a compra de nossas estatais pelo capital externo em leilões de privatização, para poder remeter nossas riquezas para o exterior, em detrimento do povo.

Aliás, a grande mídia, tão preocupada em mostrar quem lesa o erário, deveria mostrar a lista dos devedores de tributos ao Estado feita pela Receita Federal. São basicamente empresas privadas e, inclusive, algumas são da própria mídia. Esta mídia, que não informa corretamente estes fatos, depois, posa de guardiã da moral e dos bons costumes! Além disso, será que ela não promove os candidatos que prometeram arrumar um jeito de o Estado perdoar suas dívidas, se forem eleitos?

Quando o Pré-Sal foi anunciado para a sociedade, em 2006, o editor Cesar Benjamim, em um dos primeiros artigos que apareceu, pregou que, com a grandeza da descoberta, o Brasil não deveria perder a chance de fazer um novo plano nacional de desenvolvimento. Foi a primeira vez que alguém me alertou para o fato de que o Pré-Sal era muito maior que a quantidade de óleo que carregava.

Posteriormente, constatei que, pela possível quantidade de óleo contido na área, pelo nível de compras e contratações de bens e serviços para a exploração e o desenvolvimento do Pré-Sal, pela expansão de indústrias locais resultante de política de compras locais, pelo requerimento de desenvolvimentos tecnológicos indispensáveis, pela logística a ser demandada, pela arquitetura financeira a ser acordada, enfim, por tudo a ser feito, ele tinha razão. Poucos países do mundo têm uma alavanca tão poderosa para sustentar o seu desenvolvimento. No entanto, se o povo brasileiro não votar conscientemente agora, todas estas forças indutoras do desenvolvimento serão aniquiladas.

Um próximo presidente poderá, primeiramente, aprovar uma nova lei para o Pré-Sal, revogando a dos contratos de partilha, aprovada em 2010, durante o mandato do presidente Lula. Em substituição, retornaria o uso da lei das concessões da era FHC para a área do Pré-Sal, a qual entrega o petróleo para quem o descobre. Este presidente provavelmente faria vários leilões de entrega de blocos, muitos dos quais contendo comprovadamente petróleo, com uma velocidade acima da capacidade financeira da Petrobras de arrematá-los. Então, as empresas estrangeiras levariam nosso petróleo, não comprariam quase nada aqui, trariam tecnologia do exterior, mas deixariam a miséria no país.

Uma alternativa de próximo presidente ao já descrito, pelo que se pode deduzir das suas confusas declarações, deixaria o petróleo do Pré-Sal no subsolo, pois ele não é uma energia renovável – apesar de, neste caso específico, ser não renovável, mas abundante. Segundo a mesma alternativa de presidente, o petróleo é poluidor e, portanto, é necessário investir em energias limpas como a eólica e a solar. Seria uma maravilhosa opção, em primeiro lugar, se existisse um meio de transporte movido a energia eólica ou solar. O principal uso dos derivados de petróleo é no transporte.

Em segundo lugar, seria maravilhoso se estas duas opções trouxessem para o país tanta divisa em moeda forte, royalties e parcelas para o Fundo Social quanto é obtido com a exportação de petróleo através dos contratos de partilha. Esta alternativa de presidente esquece que o brasileiro faz parte do nosso meio ambiente e é a principal espécime deste ambiente. As divisas, os royalties e as parcelas do Fundo Social podem salvar vidas brasileiras e, também, transformar outras vidas para melhor.

E tudo isto não se pode fazer com uma Petrobras difamada, como ela está sendo. Homens corruptos devem ser denunciados, mas denunciar a empresa só interessa a grupos estrangeiros.

Nota:

(1) Se algum leitor não sabe quem faz parte da “grande mídia”, seus componentes são os principais jornais do país, as revistas semanais, com exceção da Carta Capital, os canais abertos de televisão e muitas estações de rádio. Eles têm enorme influência na formação de opinião da sociedade, inclusive durante as campanhas eleitorais, e são subordinados ao grande capital, principalmente o estrangeiro. Assim, eles são instrumentos de dominação da sociedade a serviço do capital.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania. Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br/

Obras financiadas pelo Banco Mundial têm histórico de violações contra povos indígenas

Por Natasha Pitts | Via Adital

O Banco Mundial (Bird) tem um longo histórico de financiamento a obras que vulneram os direitos dos povos indígenas no mundo todo e, na Guatemala a situação não é diferente. A Organização Fraternal Negra Hondurenha (Ofraneh) está divulgando um comunicado rememorando os projetos financiados pelo Bird que ameaçaram e ainda ameaçam a existência dos povos indígenas, em nome de um “desenvolvimento neocolonialista”.

Entre os fatos recentes, no último dia 30 de julho, o Banco descartou as sugestões de organizações sociais acerca de sua nova política, denominada Standard Ambiental e Social (ESS7). A salvaguarda ESS7, avalia a Ofraneh, representa um retrocesso de décadas de negociações, pois permite aos Estados-nações descartarem sua aplicação em situações em que “a identificação como povos indígenas poderá exacerbar as tensões étnicas ,ou seja, incompatível com as disposições da Constituição nacional”. Assim, o Banco Mundial se esquiva de suas obrigações referentes aos povos indígenas e ao direito internacional, como indica o ponto 9 da salvaguarda ESS7.

“A diluída aplicação do direito à Consulta-Consentimento, Prévio, Libre e Informado (CPLI) se converte em uma das maiores ameaças para os povos indígenas ante as inconsistências em matéria de direito humanos que assolam a maioria dos Estados-nações, aquelas que recusam, em várias ocasiões, reconhecer os direitos dos povos indígenas, apesar de terem ratificado o Convênio 169, da OIT, e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas”, alerta a Ofraneh.

Retrocedendo alguns anos, a Organização lembra que o ano de 1984 marcou um capítulo nefasto da história da Guatemala. Naquele ano, o Exército guatemalteco exterminou a população maya-achi do Rio Negro, em Baja Verapaz. Nos massacres de Rio Negro, Aldea Xococ, Pacoxom, Los Encuentros e Agua Fría, cerca de 400 indígenas foram assassinados e 3.445 foram deslocados forçadamente. O etnocídio foi fruto da construção da represa do Chixoy, financiada pelo Banco Mundial e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Apesar das denúncias apresentadas contra o Governo da Guatemala e dos chamados efetuados junto ao Bird e ao BID, a construção da represa continuou e foi finalizada em 1985. Em 2012, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), emitiu uma sentença condenando o Estado da Guatemala, no entanto, até agora, nada foi feito.

Mesmo após o massacre de Chixoy e ciente das violações aos povos indígenas, o Banco Mundial concedeu um empréstimo de mais de 450 milhões de dólares para a construção da represa de Sardar Sarovar, no rio Narmada, India, que afetou o povo Adivasi, deslocando mais de 200 mil pessoas.

A Ofraneh também recorda que o Bird respaldou, entre 1979 e 1988, no Paraguai, a ditadura de Alfredo Stroessner, com a construção da mega-represa do Yacireta. O montante do valor aplicado na obra superou os 11 bilhões de dólares e deslocou mais de 100 mil indígenas e camponeses, que nunca foram compensados pelos danos.

Há o temor de que o Banco Mundial inicie uma nova etapa de desrespeito sistemático aos direitos dos povos indígenas e sejam revividos momentos, como o do massacre de Chixoy. A Ofraneh aponta que o Bird possui um fundo de 60 bilhões de dólares voltado para o financiamento de megaprojetos, muitos deles relacionados à construção de represas e hidrelétricas, situação que poderá se transformar em um “holocausto para os povos indígenas”.

São Pedro? Relatora da ONU diz que governo de SP é culpado pela falta de água

Via SpressoSP

Portuguesa Catarina de Albuquerque acha “inconcebível” que as perdas hídricas estejam em torno de 40% no estado de São Paulo

Ainda que insista na tese de que a crise de abastecimento de água em São Paulo seja derivada unicamente de fatores climáticos, o governo do estado tem sido contestado por diversos especialistas. Agora, foi a vez da relatora da Organização das Nações Unidas (ONU) para a questão da água, a portuguesa Catarina de Albuquerque, apontar que a atual situação é responsabilidade da gestão governamental, e não de São Pedro.

“Admito que uma parte da gravidade poderia não ser previsível, mas a seca, em si, era. Tinha que ter combatido as perdas de água. É inconcebível que estejam quase em 40%”, disse a relatora em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

As declarações de Albuquerque foram dadas na semana passada na cidade de Campinas, ocasião em que participou de um evento a respeito da crise hídrica no estado. “Temos de nos planejar em tempos de abundância para os tempos de escassez. E olhar para a água como um bem precioso, indispensável à sobrevivência humana”, afirmou.

Ex-Marina defende interromper exploração do pré-sal. Sabe o que significa?

Por Renato Rovai | Via Revista Fórum

Cenário Tocantins/Reprodução

O Globo de hoje anuncia em primeira página que a candidata do PSB, Marina Silva, planeja reduzir a importância do pré-sal na produção de combustíveis. Num encontro com produtores de etanol, na Feira Internacional de Teconologia Sucroenergética (Fenasucro), em Sertãozinho, Marina, para foi ovacionada quando disse: “temos que sair da idade do petróleo”. E também quando prometeu disse vai revigorar o álcool, dando incentivo para os produtores do setor.

O governo estima que em dez anos o Brasil extrairá US$ 112,5 bilhões em recursos para a área de saúde e educação com o pré-sal. E que em pouco tempo o país se tornará um exportador de petróleo.

Isso significará não apenas a nossa auto-suficiência energética, mas o Brasil também se tornará um país mais importante do ponto de vista geopolítico.

É isso que está em jogo e que incomoda profundamente os falcões americanos. Eles não querem o desenvolvimento do Brasil e muito menos o nosso fortalecimento internacional.

Um Brasil forte não interessa aos EUA. Desde sempre.

E por isso, sempre houve pressão para que a extração nas camadas de pré-sal fosse entregue a grandes empresas privadas, se possível americanas. E não fosse realizada pela Petrobras.

Os gringos querem o pré-sal para eles.

Mas como a campanha de Marina vai lidar com o assunto, segundo o Globo. Ela vai criar um grupo de especialistas para avaliar os riscos envolvidos na exploração do pré-sal e vai apresentá-los à sociedade.

Que especialistas, cara-pálida? A turma do Eduardo Gianetti da Fonseca, que defende a cobrança de mensalidade para “estudantes que podem pagar” nas universidades públicas.

O Globo procurou um especialista que pelo jeito não é da turma do Gianetti e a resposta à consulta foi óbvia. Nivaldo de Castro, coordenador do setor Elétrico da UFRJ disse que “seria uma decisão estratégica que alteraria substancialmente a capacidade de investimentos do país em duas áreas fundamentais para o Brasil entrar numa rota de desenvolvimento social, a Educação e a Saúde”.

Castro ainda acrescenta que diminuir investimento não seria uma boa estratégia porque o país perderia a liderança tecnológica na exploração da camada do pré-sal.

Mas aí vem a pergunta. Não seria uma boa estratégia para quem interromper os investimentos da Petrobras no pré-sal para o Brasil perder a liderança tecnológica neste setor?

Só não seria uma boa estratégia para o Brasil, os brasileiros e a Petrobras. Para os EUA e para suas empresas de exploração, como a Exxon isso seria lindo e maravilhoso.

Mesmo que depois de interromper a exploração por um determinado tempo o Brasil decidisse voltar a explorar o pré-sal, já estaríamos defasados tecnologicamente. E superados. E aí teríamos de terceirizar a exploração.

É um jogo absolutamente bruto que está por trás dessa decisão. Em nome de uma causa em tese ecológica, vamos entregar nossas reservas e abrir mão do nosso futuro.

Ao mesmo tempo que promete interromper o pré-sal para discutir as consequências da exploração, Marina diz que nunca foi contra os transgênicos.

E ainda está se comprometendo a priorizar acordos bilaterais em detrimento do Mercosul.

Marina está virando ex-Marina. É muita mudança em pouquíssimo tempo.

PS: A defesa do Banco Central independente e da interrupção da exploração do pré-sal vão ajudar muito a campanha do PSB a arrecadar. Por isso o tesoureiro Márcio França já disse que não tem essa de não aceitar recursos de empresas de armas ou qualquer outra área. Vale tudo, desde que seja legal, segundo ele. Vai chover dinheiro na hortinha do PSB com esses novos compromissos que passam a a ser assumidos agora. Não vai ser necessário nem usar semente transgênica para multiplicar os recursos.

Chico Mendes, Marina Silva e a rede de ONGs

Por Patricia Faermann | Via Jornal GGN

Jornal GGN – Em entrevista ao Jornal Nacional, nesta quarta-feira (27), a candidata à presidência Marina Silva (PSB) ressuscitou a “turma de Chico Mendes”, base que usou para construir suas principais relações políticas e das causas ao meio ambiente.

“Eu venho de uma trajetória política que, desde os meus 17 anos, eu tive que confrontar muitos interesses no meu estado do Acre ao lado de Chico Mendes, ao lado de pessoas que se posicionaram ao lado da Justiça, da defesa dos índios, dos seringueiros, da ética na política”, disse Marina.

Mas esse lado leva a um histórico de relações de Marina que vai além da luta pelos seringueiros ou dos índios. O emaranhado de relações de Marina Silva com ONGs remete à uma complexidade que se confunde com a própria história de relações políticas, que a trazem hoje ao palanque da candidatura.

Chico Mendes era ícone da luta dos seringueiros – principal fator que estreitou a relação com Marina Silva, então professora de história e sindicalista, ligada às Comunidades Eclesiais de Base, importantes para a resistência dos seringueiros. Participaram, juntos, da criação da CUT e do PT no Acre.

A partir de então, a rede com lideranças ativistas do meio ambiente e ONGs se propagou. Chico Mendes lhe apresentou a antropóloga Mary Allegretti, que posteriormente ajudou na criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, e Steve Schwartzman, antropólogo norte-americano, ligado à ONG Environmental Defense Fund (EDF).

Os objetivos de mudanças políticas que guiaram a trajetória de Chico Mendes foram, aos poucos, se alterando, com ápice na sua morte. Esses atores políticos dissociaram o seu nome das lutas sindical e pela reforma agrária, e demais reivindicações com forte cunho na teoria marxista.

Por sua vez, Mary Allegretti estabeleceu relações e construiu carreira como consultora de projetos para a Amazônia financiados por instituições e agências internacionais. Interlocutora nas negociações para implantação do PPG7 (Programa Piloto do G7, com foco na proteção das florestas tropicais do Brasil, gerido pelo Banco Mundial e orientou várias políticas do Ministério do Meio Ambiente) e ajudou a articular o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), um grupo de ONGs que acompanharia os projetos do PPG7.

O Grupo de Trabalho Amazônico foi criado em 1993 e teve, três anos depois, como secretário-executivo Fábio Vaz de Lima, marido de Marina Silva, até 1999.

Assim que Chico Mendes foi assassinado, grupos de esquerda do Acre fizeram alianças e tornaram a principal liderança do PT Jorge Viana, de família de tradição aliada à ditadura militar e filho de Wildy Vianna – deputado estadual pela ARENA, entre 1967 e 1979, e deputado federal de 1979 a 1987. Foi Jorge Viana que conseguiu ajudar a eleger Marina Silva ao Senado em 1994. Viana foi prefeito de Rio Branco em 1992.

Em 1998, Marina comemorou a chegada da Frente Popular, uma aliança de 12 partidos, incluindo o PSDB, ao governo do Acre, com a eleição de Viana. O marido de Marina assessorava os irmãos, Jorge e Tião, e ocupou cargos de confiança na gestão dos governadores.

“Foi-se o tempo em que a ‘turma do Chico Mendes’ e empresários – principalmente madeireiros – eram como água e óleo. As coisas amadureceram nos últimos 15 anos, o mundo girou, o Acre está mudando, a ‘turma do Chico’ chegou ao poder e pôde concretizar suas ideias. Aplacaram-se radicalismos. Viu-se que é possível negociar diferentes interesses com ética e conhecimento técnico. (…) Por incrível que pareça, há madeireiros, pecuaristas e petistas sentados à mesma mesa”, disse um dos materiais de divulgação do gabinete da senadora, em 2001.

Marina Silva comemorava o governo de Jorge Viana.

Assumiu o Ministério do Meio Ambiente em 2003, durante o governo Lula. O espaço não era novo. Mary Allegretti já ocupava a Secretaria de Coordenação da Amazônia na pasta durante o governo FHC.

Nesse período, três figuras fortes apareceram na rede de Marina: Carlos Antônio Vicente, Tasso Azevedo e João Paulo Capobianco.

Vicente foi Secretário de Florestas e Extrativismo do estado do Acre, no governo de Jorge Viana, e trabalhou para a promoção do manejo madeireiro nas florestas acrianas. Virou assessor direto de Marina e acompanhou-a na sua volta ao Senado, e na campanha eleitoral pelo PV, em 2010. Tem ligação com a ONG IMAZON (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), promotora do manejo madeireiro na Amazônia.

Azevedo foi diretor executivo do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA) e ajudou a pressionar o Congresso para aprovar a polêmica Lei de Gestão de Florestas Públicas, que autoriza a concessão para exploração pelo setor privado e cria o Serviço Florestal Brasileiro, do qual foi diretor geral. Também tem relação com a ONG IMAZON.

Capobianco foi Secretário de Biodiversidade e Florestas e, depois, Secretário Executivo do Ministério. João Paulo Capobianco é uma das cabeças da separação do IBAMA, com a criação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO). Alguns servidores do IBAMA chegaram a acusar Marina e Capobianco de sucatearem a fiscalização ambiental no Brasil.

Ele também presidiu a ONG Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), da qual Marina também faz parte; do conselho consultivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e do conselho de administração da Bovespa Social; pesquisador associado do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), que defende o sistema de vendas de serviços ambientais na Amazônia, como o mercado de créditos de carbono.

Marina também fez parte do Conselho Consultivo do IPAM, ao lado de Steve Schwartzman, vice-presidente do conselho deliberativo.

Com informações do Centro de Memória das Lutas e Movimentos Sociais da Amazônia.

A crise hídrica em São Paulo

Rodo News/Reprodução

Por Heitor Scalambrini Costa*

Contra fatos não há argumentos. O que acontece atualmente com relação ao desabastecimento de água em São Paulo se enquadra na retórica de que uma mentira repetida muitas vezes acaba virando verdade.

O governo paulista insiste em negar que se as obras necessárias tivessem sido realizadas poderia ser menos dramática a atual situação. E insiste ainda em responsabilizar São Pedro pelo caos evidente. A culpa não é da seca! A seca é parte do problema, pois desde sempre se soube que ela poderia vir.

Os gestores públicos também negam que existe racionamento, afirmando que o abastecimento de água está garantido até março de 2015, apesar de, na prática, o racionamento existir oficialmente em dezenas de municípios.

Em visita ao interior de São Paulo, no inicio de agosto, pude constatar uma situação que ainda não tinha me dado conta. A gravidade da crise hídrica atinge não apenas a região metropolitana da capital, como a imprensa dá a entender ao enfatizar o colapso do sistema Cantareira, mas atinge todo o Estado mais rico da União.

Dos 645 municípios paulistas, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo) é responsável por fornecer água a 364, quem somam um total de 27,7 milhões de pessoas. Nos outros 281 municípios (não abastecidos pela Companhia), o abastecimento de água a 16 milhões de pessoas fica a cargo das próprias prefeituras ou de empresas por elas contratadas.

Se, por um lado, a companhia estadual de abastecimento nega haver adotado rodízio de água em qualquer um dos municípios atendidos por ela, inclusive na capital, tal afirmação é logo desmentida pelos usuários que relatam interrupções no abastecimento, principalmente à noite.

Nos municípios não atendidos pela Sabesp, medidas restritivas estão sendo tomadas por centenas de empresas e gestores locais devido à crise. Em Guarulhos, na grande São Paulo, o abastecimento de 1,3 milhões de moradores é atendido por um serviço municipal, o SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), e seus moradores passam sem água um em cada dois dias.

Em 18 municípios, cerca de 2,1 milhões de pessoas estão submetidas ao racionamento oficial no estado de São Paulo, correspondendo a 5% da população total, segundo levantamento do jornal Folha de São Paulo (11/Ago). Além do racionamento, medidas de incentivo à economia de água têm sido adotadas, indo desde multas para reprimir o desperdício a campanhas com rifas de carro e TV para quem poupar e reduzir o consumo voluntariamente.

O que chama a atenção de todos, além da dimensão estadual da crise hídrica em São Paulo, é a insistência dos gestores em negar a existência do racionamento na área de atuação da Sabesp – mesmo contestados pelos moradores, que sofrem na prática com o rodízio provocado pela companhia, com cortes crescentes no fornecimento de água.

A contrapartida do poder é a ação responsável. E o governo paulista tem se mostrado irresponsável com o seu povo, além de incompetente e medíocre para resolver questões básicas para a sua população. É hora de assumir a gravidade da situação e dos erros cometidos, e, naturalmente, fazer as obras urgentes e necessárias para garantir o fornecimento seguro deste bem fundamental à vida.

Chega de hipocrisia, chega de culpar São Pedro que não pode se defender.

*- Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco