Arquivos da categoria: Meio Ambiente

Diálogos Desenvolvimentistas: A estiagem e a energia

Rio São Francisco enfrenta uma de suas mais severas estiagens. Uol/Reprodução

No último dia 10 o colunista do Valor Econômico, Sergio Leo, publicou artigo intitulado São Pedro exige apoio no ministério de Dilma. Nele constatamos que a estiagem que o Brasil enfrenta este ano já cobra uma alta fatura também nas questões energéticas. O quadro é o de um setor que precisa recorrer cada vez mais a ativação das caras e poluidoras termelétricas e a empréstimos, tomados para que a geração de energia prevista nos contratos seja cumprida.

A perspectiva para o próximo ano é negativa caso as chuvas não venham. É possível que falte energia para atividades produtivas e isso contribua para mais desaquecimento econômico.

Diante desse quadro os economistas Gustavo Santos e Luís Otávio Reiff, funcionários do BNDES, debateram com o engenheiro eletricista Roberto D’Araújo, diretor do Instituto Ilumina, onde escreve regularmente sobre o setor energético brasileiro.

Confira:

Gustavo Santos – Dilma terá de fazer racionamento e isso vai reduzir a taxa já medíocre de crescimento. Sem falar que não poderá colocar a culpa em ninguém porque ela foi a ministra que montou esse modelo. Não é um desastre que aleijaria o país, mas para a imagem e moral política dela será.

Luís Otávio – Por que não importamos gás natural/petróleo do oriente médio e da Rússia? Na verdade, podemos trocar carne, soja, milho por petróleo russo. Seria uma forma de “tomar” mercado da Europa e EUA lá. Creio que há muita miopia na discussão sobre energia do país.

Gustavo Santos – Isso não muda nada:

1) Este é um problema de falta de capacidade de geração de energia elétrica (se faltar água), não tem ligação com oferta de combustíveis;

2) Ainda que houvesse capacidade de geração de energia as termoelétricas têm contratos de fornecimento de eletricidade que independem dos fornecedores deles;

3) Se dependesse, isso não mudaria quase nada;

4) Se mudasse um pouquinho ainda dependeria de comprar combustível mais barato, o que os russos não nos possibilitarão.

Luís Otávio – O Japão está há 3 anos com racionamento de 20% e mesmo assim a economia não está em recessão. É possível importar gás natural, energia da Itaipu do Paraguai e várias outras formas de geração de energia elétrica. Basta pensar um pouco.

Gustavo Santos – Podemos fazer racionamento sem grandes inconvenientes como em 2001, mas dizer que isso não teria impacto sobre o PIB é exagero. É possível crescer com racionamento (basta que setores pouco intensivos em energia cresçam de forma que mais do que compensem a queda dos setores intensivos em energia), Porém o impacto sobre o PIB e a inflação é inevitável. Importar gás natural não resolve. Há falta de capacidade de produção das termoelétricas para suprir a escassez de água nas hidroelétricas. Além do mais, já consumimos todo o excedente do Paraguai, não há como importar mais.

Luís Otávio – Meus pontos principais são os seguintes:

1. Não existe um modelo de energia capaz de garantir um suprimento continuo e a preços razoáveis indefinidamente. Todos os modelos são falhos. Portanto, a falta de energia é um dado da realidade e deveria ser colocada no planejamento. Ou seja, a cada 10-15 anos teremos uma crise. A história, brasileira (crise de 1993, 2001e 2014) e mundial demonstram isso.

2. A crise brasileira atual, comparada com as anteriores e com as crises mundiais, particularmente, a japonesa (48 usinas nucleares desligadas e perda de 30% da capacidade; seria como uma bomba tivesse destruído Itaipu e o sistema chesf ao mesmo tempo), não é representativa. Portanto, se a gente fica desesperado com uma crise dessa, o que aconteceria se tivéssemos uma crise à la Japão? Assistiríamos um Harakiri coletivo? Há soluções emergenciais de suprimento de energia elétrica: termoelétricas a carvão, a diesel, geradores isolados. etc.

3. Mais que um racionamento, precisamos de um programa de eficiência energética.

Roberto D’Araújo – Claro que não existe estabilidade de preços em prazos indefinidos, mas o Brasil conseguiu se afastar dos sistemas que tinham alguma possibilidade de manter os níveis de preço razoáveis, que tínhamos antes de 1995. Segundo dados da ANEEL, a tarifa residencial é 80% real mais cara da praticada em 1995. A industrial do mercado cativo (pequena indústria) é 108% mais cara. Alguém já viu alguém do governo dar alguma explicação sobre essa mudança estrutural? O prejuízo totalizado do setor já atinge R$ 100 bilhões e, apesar disso, parece que faz parte da paisagem de horrores do país.

Apesar de termos um sistema físico totalmente diverso das experiências mundiais de mercantilização da energia, o Brasil entrou de cabeça nessa aventura. Ao contrário do que muita gente pensa, o modelo “neoliberal” imaginado pelo governo FHC foi efetivamente implantado no governo Lula-Dilma. Fortemente agravado com a destruição da Eletrobras, sacrificada para fornecer energia gratuita para compensar os altos custos decorrentes do modelo adotado pelo governo.

Basta dar uma olhada nos diversos estados americanos para ver que aqueles que permaneceram sob o regime de serviço pelo custo (return rate regulation) têm tarifas mais baixas. Os sistemas mais parecidos com o brasileiro são os das províncias canadenses de Quebec e British Columbia (grandes reservatórios e longas linhas). Montreal tem uma tarifa 2,5 vezes mais barata que a brasileira. As empresas são estatais e, a não ser o Gustavo, não conheço ninguém que veja algum indício de que esse caminho seja viável no Brasil.

A crise brasileira é grave porque é difícil desmontar o colonialismo de mentes que toma conta do setor elétrico. No fundo, todos os técnicos experientes do setor sabem que o que está implantado no Brasil é uma gambiarra mal feita, mas a crença fundamentalista que “o mercado resolve” é imensamente forte. Muitos deles simplesmente aguardam a aposentadoria.

Hoje temos um sistema que avalia a segurança de forma otimista e não pode alterar nada porque emitiram certificados fixos de energia por usina e, se fossem alterar, o setor privado reclamaria muito. Como se sabe, quando eles reclamam, o governo aumenta os tiros no pé.

A crise é extremamente grave pelo seu custo e por ter um horizonte de grandes conflitos.

A crise hídrica na cidade mais atingida, Itu-SP: Entrevista com Mário Giannetti

Por Rennan Martins | Brasília, 04/11/2014

A população de Itu está numa situação caótica e não há perspectivas de solução para a falta d’água. (Itu Vai Parar/Reprodução)

Nós, brasileiros, aprendemos desde cedo que somos a terra da abundância. Varrer a calçada com água corrente da mangueira, banhos longos e nenhuma preocupação com vazamentos é ainda a tônica cultural de muito cidadãos. Aliado a isso temos uma economia predatória que faz uso de tecnologias ineficientes que geram desperdícios de grande escala.

É nesse contexto que assistimos, perplexos, a crise hídrica mais séria da história. Num cenário em que a imprensa, comprometida por interesses partidários, sonega informações sobre o real quadro da escassez, cabe a iniciativas independentes a missão de retratar o quadro a sociedade.

E é por isso que entrei em contato com o arquiteto e ativista Mário André Giannetti, ele é morador de Itu, a cidade mais atingida pela escassez hídrica. Envolvido nos movimentos Itu Vai Parar e Conselho Popular de Itu – Água, Giannetti nos traz informações impressionantes de uma cidade que já não tem água nas torneiras há muito. A situação é calamitosa e serve de alerta a toda a população.

Confira a íntegra:

Há quanto tempo Itu passa por essa escassez de água?

A água sempre foi notícia em Itu, temos problemas com o abastecimento há pelo menos 40 anos. Existe um estudo que prova que esse problema deve-se única e exclusivamente à má gestão do sistema e desvios de dinheiro. Nessa atual estiagem temos relatos de racionamento desde o ano passado, 14/12/2013. Esse racionamento passou a ser mais sistemático a partir de fevereiro desse ano com racionamento todas as noites; ficou mais intenso em maio, quando a água vinha dia sim e dia não; ficou crítico em julho quando a água passou a vir a cada 3 ou 4 dias; até chegarmos na atual fase de desabastecimento total que se iniciou em outubro e permanecemos até hoje sem uma gota de água nas torneiras.

Qual é a rotina do racionamento? Como fazem pra ter acesso a água?

Todos temos que nos virar para arrumar água. Pela cidade existem algumas bicas com água de poços artesianos que estão bastante disputadas chegando a 2 horas de fila. Outros sortudos conhecem alguém que tem poço artesiano. Maior dificuldade passam os mais carentes que chegam a coletar água suja de córregos com garrafas pets e a transportar água com carrinho de mão.

E quanto aos conflitos por conta da água. Tem ocorrido? A população está conseguindo se adaptar?

Os conflitos d’água começam a ficar cada vez piores como furtos de galões d’agua nas bicas, roubam a água de dentro da caixa d’agua de quem comprou; roubos e sequestros de caminhões-pipa para abastecer determinadas ruas; população revoltada sem saber o que fazer devido ao silêncio das instituições que não estão dando respostas adequadas, colocam fogo em pneus e lixeiras como forma de protesto.

Que medidas a prefeitura e o governo do estado têm implementado pra combater essa crise? Elas são efetivas?

A prefeitura de Itu foi e está sendo omissa até o presente momento. Cidades que não estão em estado tão crítico já decretaram Estado de Calamidade Pública. Suspeita-se que aqui isso não ocorra devido às irregularidades no contrato de concessão da antiga autarquia do SAAE para a empresa Águas de Itu. Pedimos para ver esse contrato já fazem 7 meses e até hoje não apareceu, lembrando que pela Lei da Transparência ele deveria ser entregue em 15 dias.

Por conta disso pedimos a intervenção do governo do estado mas esse muito pouco fez: disponibilizou um pouco de dinheiro, alguns caminhões pipa e caixas d’agua.

No momento as medidas que a prefeitura está tomando são: transportar e distribuir de maneira nada transparente 3 milhões de litros d’agua por dia em caminhões pipa sendo que a demanda da cidade é de 20 milhões de litros e, começaram a duas semanas, à pedido da sociedade organizada, a espalhar caixas d’agua de 20.000L pela cidade para aumentar o número de pontos de coleta.

A imprensa passou a cobrir este problema somente após as eleições. Você considera que houve um silenciamento deliberado por parte dos jornais? Há influência política na abordagem do tema?

Com certeza há muita influência política sobre o tema. Para se ter uma ideia o CQC veio fazer uma matéria sobre o problema na cidade. A matéria iria ao ar na segunda feira da semana das eleições e não foi. Acredito que não foi porque um dos principais responsáveis pela crise, o ex-prefeito que fez a concessão, estava se candidatando a uma vaga de Deputado Federal e seria impossível fazer a matéria sem apontar os culpados. Deixaram para soltar a matéria somente duas semanas após ter passado as eleições.

Outro exemplo está acontecendo na cidade de São Paulo, aonde o governador reeleito se negou a fazer o racionamento até passar as eleições, uma irresponsabilidade assustadora para uma cidade com 16 milhões de habitantes que correm o risco de ficar sem água.

Existe perspectiva de abastecimento a longo prazo? O enfrentamento do problema vai além do paliativo?

Existem muitos projetos que podem ser postos em prática mas a prefeitura não pode fazer nada porque o setor foi entregue a uma empresa privada. Nesse momento a empresa Águas de Itu está colocando em prática um projeto de canalização de água do Rio Mombaça, um projeto ruim, muito mal estudado e superfaturado. Uma coisa que essa empresa poderia fazer e não o faz é o desassoreamento dos reservatórios, agora que está tudo seco seria o melhor momento, mas, por motivos que ninguém entende isso não está sendo feito.

A crônica de um fracasso

Por Heitor Scalambrini Costa

Governos têm sucesso quando executam políticas públicas que respondem aos desafios apresentados, e criam assim condições para um futuro melhor. No caso do que se convencionou chamar da crise de desabastecimento de água em São Paulo, algumas características deste evento foram sendo delineadas, e hoje estão bem definidas.

O sistema Cantareira, que abastece 364 municípios paulistas, de um total de 645, atendendo 27,7 milhões de pessoas que respondem por 73% da receita da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo detém 50,26% das ações da companhia, e os outros 49,74% estão nas mãos de acionistas privados), poderá deixar 6,5 milhões de paulistanos sem água em suas torneiras.

A culpa é menos de São Pedro do que do governo de São Paulo que administra a Sabesp, e que subestimou os impactos das mudanças climáticas, da extração desordenada e descontrolada de recursos hídricos, da falta de conservação e proteção dos mananciais, e, não menos relevante, da poluição.

Faltaram planejamento estratégico na gestão integrada e compartilhada dos recursos hídricos, e os investimentos necessários em obras que poderiam ter amenizado o racionamento existente (sobre o qual o presidente da Sabesp demonstrou descaso ao dizer que “Não existe racionamento, existe uma administração da disponibilidade de água”).

Em 2004, uma série de seminários com especialistas debateram a crise de 2003 do sistema Cantareira, e apontaram para a necessidade de ampliar a disponibilidade de água do sistema, indicando que o melhor caminho para isso era buscar água no Vale do Ribeira através de uma obra que demoraria aproximadamente 10 anos para ser estudada, projetada e concluída, mas que, caso tivesse sido realizada, provavelmente não haveria problema de escassez de água como ocorre atualmente.

E a falta de transparência ficou evidenciada, mais do que nunca, quando foi tornado público um relatório de 2012 da própria Sabesp, revelando o risco de desabastecimento no sistema Cantareira, e alertando investidores da Bolsa de Valores de Nova York para a estiagem prevista e seus impactos nas finanças da empresa. Somente encarou o problema a partir do inicio de 2014, quando criou um bônus para quem economizasse água.

A irresponsabilidade técnica e gerencial da empresa merece ser destacada. O plano enviado a ANA (Agência Nacional de Águas) para operar o sistema Cantareira até abril de 2015 não tem amparo adequado na realidade.

A probabilidade de recuperação do sistema é altamente arriscada, com um cenário traçado que já não se confirma neste mês de outubro (2014).

A arrogância e soberba dos gestores da água em São Paulo levaram a Justiça Federal a proibir a captação da segunda cota do volume morto do sistema Cantareira, já que a empresa vinha captando mais água que o autorizado.

Tudo se faz para não decretar oficialmente o racionamento, nem prejudicar o valor de suas ações na bolsa. A água é tratada como um mero “negócio”, não como um bem coletivo.

Apesar dos problemas verificados nos anos 2000, o que se constatou foi um aprofundamento ainda maior da política da água como mercadoria, e da empresa a serviço do mercado e de interesses políticos escusos, com diretorias indicadas por estes interesses inconfessos, sem nenhuma abertura para um planejamento técnico sério, vinculado às necessidades da população.

Prova disso é o quadro funcional da Sabesp, reduzido de 21 mil trabalhadores para 14 mil. Em particular, o setor de engenharia e operação foi diminuído a ponto de, atualmente, várias unidades terem um quadro de técnicos capacitados abaixo da necessidade para a atividade fim da companhia.

Por outro lado, no último balanço divulgado foi comemorado um lucro de 1,9 bilhões de reais da companhia, mostrando que do ponto de vista mercadológico a empresa vai bem.

O centro da questão está na malfadada gestão dos recursos hídricos de responsabilidade do governo do estado de São Paulo.

Não por acaso o Ministério Público possui, segundo a Promotoria de Justiça do Grupo de Atuação Especial do Meio Ambiente, 50 investigações sobre a gestão da água feita pela Sabesp.

A mercantilização de um bem essencial a vida, cujo lucro, ao invés de usar na realização de obras, paga dividendos a acionistas e especuladores é que tem provocado uma crise de tal dimensão, e consequentemente o sofrimento da população paulista.

Heitor Scalambrini Costa é professor da Universidade Federal de Pernambuco

O governo acerta na política de preços da Petrobras?

Via Brasil Debate

O governo tem sido duramente criticado por manter o preço da gasolina abaixo das cotações do derivado do petróleo no mercado internacional.

É conhecido o fato de que a Petrobras tem como política estabelecer o preço dos seus produtos de acordo com a tendência de longo prazo dos preços do petróleo e derivados no mercado internacional.

O gráfico abaixo ilustra tal preço (em reais) e o IPA-DI de derivados do petróleo, captando os preços brasileiros.

Dois aspectos são notáveis. O primeiro é que os preços dos derivados no Brasil têm seguido rigorosamente, desde 2003, a tendência do preço (convertido para reais) do petróleo no mercado internacional.

Em alguns momentos, como de julho de 2004 a setembro de 2008, os preços internos cresceram menos do que os preços em real do petróleo, com um breve interregno em meados de 2006.

Isso significa que naquele momento havia defasagem no preço dos combustíveis, ou seja, que a Petrobras deveria cobrar mais caro pela gasolina e demais derivados se quisesse maximizar seu lucro momentâneo.

Em outros, como após a crise de 2008, o preço do combustível não caiu tanto quanto o preço do combustível fóssil no mercado internacional. De fato, de setembro de 2008 até meados de 2013, os preços poderiam ter sido menores se a Petrobras vinculasse os reajustes do combustível aos preços externos.

Como há movimento para os dois lados, de desalinhamento para mais e para menos, o lucro da estatal não é prejudicado no longo prazo, pois os movimentos tendem a se compensar.

O segundo aspecto é que, atuando dessa forma, a empresa consegue reduzir substancialmente a volatilidade dos preços de combustível no País, sem prejudicar seu lucro de longo prazo.

Isso contribui para uma menor variabilidade da taxa de inflação, bem como para a redução das incertezas de setores ligados ao transporte.

De fato, o Valor Econômico do dia 15/10/2014 noticia, na capa do jornal impresso, que a queda recente dos preços do petróleo no mercado internacional (ver gráfico abaixo) puseram fim à defasagem da gasolina. A situação não está mais desfavorável à Petrobras.

Portanto, as recorrentes críticas à defasagem no preço dos derivados do petróleo no Brasil não fazem sentido quando consideramos que a política de preços da Petrobras é de longo prazo.

Tal crítica só se justificaria se observasse que a empresa está se desviando da trajetória de longo prazo dos preços internacionais consistentemente. E não é este o caso.

A falta de água e a imprensa

Por Altamiro Borges | Via Brasil de Fato

Pesquisa Datafolha realizada em agosto, mas que teve pouco destaque nos jornalões e nas emissoras de rádio e tevê, evidenciou que a crise no setor não tem nada de “pontual”: 46% dos entrevistados relata­ram ao menos um corte de água nos 30 dias anteriores; em maio, 35% dos paulistas já tinham denunciado problemas.

A falta de água em São Paulo já atinge graus extre­mos, colocando em risco a própria saúde pública. Mes­mo assim, a midiazona paulista não faz alarde sobre es­ta tragédia. A omissão é um verdadeiro estelionato elei­toral, mais um crime da velha imprensa. Ela visa livrar a cara do governador reeleito Geraldo Alckmin, do PSDB e, em especial, do cambaleante Aécio Neves. A Folha tucana publicou dia 12 uma notinha, bem minúscula, informan­do que as torneiras já secaram até nos restaurantes de Pi­nheiros, bairro nobre da capital paulista.

Se a midiazona fosse menos partidarizada e seletiva, os relatos da falta de água já teriam resultado em man­chetes nos jornalões e em críticas nos telejornais. Na se­mana passada, a própria presidenta da Companhia de Saneamento Básico (Sabesp), Dilma Pena, admitiu pe­la primeira fez que “existe, sim, falta de água”. Em de­poimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal, ele confessou que o problema de­corre da queda dos reservatórios do Sistema Cantarei­ra, que abastece 8,8 milhões de pessoas na região me­tropolitana de São Paulo. Ela só fez essa confissão três dias após a votação do primeiro turno, em mais uma pro­va do estelionato eleitoral que enganou tantos paulistas.

Numa afronta à inteligência dos paulistas, a presidenta da Sabesp ainda tentou justificar a tragédia. Ela disse que “não existe racionamento, mas administração da disponi­bilidade da água”. Ela “tucanou” a falta de água e garantiu que o problema é pontual. Pesquisa Datafolha realizada em agosto, mas que teve pouco destaque nos jornalões e nas emissoras de rádio e tevê, evidenciou que a crise no setor não tem nada de “pontual”: 46% dos entrevistados relata­ram ao menos um corte de água nos 30 dias anteriores; em maio, 35% dos paulistas já tinham denunciado problemas.

A presidenta da Sabesp havia sido convocada para depor na CPI em setembro. Mas fugiu para evitar respingos –sem água – nas eleições. A mídia tucana, que adora pro­mover a escandalização da política – mas sempre de for­ma seletiva –, não fez qualquer pressão sobre o governo Alckmin. Da mesma forma, ela segue evitando dar desta­que ao assunto. Possivelmente, só vai tratar do tema com mais responsabilidade, tentando se apresentar com neu­tra, após o segundo turno das eleições presidenciais. E ainda tem gente que acredita na midiazona. É preciso ser muito tapado!

Eleições, Petrobras e propostas divergentes

Por Rennan Martins | Brasília 09/10/2014

Chegamos em um ponto crucial do futuro do Brasil, restando 16 dias para o segundo turno.

A grande mídia tem, como previsto, feito um bombardeio sobre a Petrobras. Denunciam incessantemente os supostos crimes baseados em depoimentos de delação premiada, sem destacar o caráter duvidoso desse recurso. Já que o réu, numa situação difícil, pode dizer o que for para livrar-se de alguns anos de pena.

O problema sério da corrupção, diferente do que tentam nos ensinar, é muito antigo e deve ser combatido seguindo rigorosamente o devido processo legal. Discursos inflamados não passam de oportunismo eleitoreiro. Há de se punir também, além dos políticos corruptos, o alto empresariado corruptor.

Quem pretende, sinceramente, coibir esta prática defende uma reforma que diminua a influência do dinheiro sobre o sistema político. A esfera pública e a privada precisam de delineações mais condizentes a república, que evitem relações promíscuas como as que estamos vendo há muito.

Porém, muito mais importante para a decisão do voto é o debate programático, e é para este que passo. Examinemos então, que propostas tem PT e PSDB para a Petrobras, a nossa mais importante empresa.

São diferenças cruciais que se baseiam em visões divergentes da missão do Estado na economia.

O PT defende que o único operador dos poços seja a Petrobras, garantindo que tenhamos controle sobre o quanto se tira de nossos recursos.

O PSDB propõe a abertura de mercado, a terceirização. Isso significa iniciativas estrangeiras extraindo nosso petróleo da forma que lhes convir.

O atual governo pretende que a exploração do pré-sal sirva como fomentador ao desenvolvimento tecnológico local, promove uma política de compras nacionais que empurra a diante nossas indústrias.

A oposição julga que a política de compras locais emperra o dinamismo do mercado, sempre ele, e por isso, precisamos importar pagando caro, tecnologia estrangeira.

O PT crê que os recursos do pré-sal precisam estar vinculados a uma estratégia de investimentos em educação e saúde, que a atividade econômica deve estar ligada a ganhos de bem-estar da população.

O PSDB prega que a integração as “cadeias globais de produção” é a melhor opção, que isto dinamizará as atividades produtivas e os ganhos se darão em efeito cascata.

Aécio e seus assessores acham que a inserção subserviente nos mercados é o melhor que podemos obter, que a divisão internacional do trabalho destinou ao Brasil a eterna condição colonial de exportador de commodities.

Dilma e sua equipe entendem que o Estado precisa ser parte ativa do desenvolvimento do país, que a Petrobras e suas riquezas devem contribuir diretamente para a qualidade de vida dos cidadãos.

Para além de denúncias oportunistas, essas são as distinções relevantes que todo brasileiro precisa saber.

Santayana: A água e a sede

Por Mauro Santayana | Via Mauro Santayana

(Hoje em Dia) – O Brasil comemorou, no primeiro dia da Cúpula do Clima, na ONU, nos EUA, a redução em 79%, nos últimos 10 anos, do desmatamento. E o fato, ocorrido entre 2010 e 2013, de termos deixado de lançar na atmosfera, em média, a cada ano, 650 milhões de toneladas de substâncias que intensificam o efeito estufa, como o gás carbônico.

Lembrando que a maioria dos países desenvolvidos cresceram com base em economias sustentadas por altas emissões de poluentes – como o carvão e o petróleo – o discurso do governo brasileiro destacou também que, embora os países em desenvolvimento não queiram “repetir esse modelo”, eles não podem renunciar à luta pela melhoria das condições de vida de sua população, principalmente porque o avanço social não é incompatível com a preservação do meio ambiente.

Enquanto isso, no mesmo dia, em Itu – município com mais de 25 mil reais de renda per capita e alto Índice de Desenvolvimento Humano, situado no estado mais rico da Federação – moradores, em sua maioria de classe média, saíram ás ruas para protestar contra racionamento de água, que já dura seis meses, e foram cercados e atingidos com balas de borracha, por uma tropa de choque da PM, depois de tentar invadir a sede do Legislativo Municipal.

Segunda-feira, a Primavera começou oficialmente, mas, segundo técnicos de organizações como o Instituto Nacional de Meteorologia e da Universidade de São Paulo, o aumento da pressão atmosférica – que inibe a formação de nuvens – diminuirá a oferta pluviométrica e aumentará a evaporação, evitando a recuperação dos mananciais e dos níveis das represas e reservatórios da Região Sudeste até o próximo ano.

A questão da água, em nosso país, é complexa, e até os animais – que não podem protestar, como os habitantes de Itu e de outras dezenas de cidades – sabem que a culpa não é só do clima, mas, principalmente, da ação do homem.

Desde a Descoberta, temos bebido a água da bica, e usado o rio como esgoto, como se ambos, bica e rio, não fizessem, como os lagos e os mares, parte de um mesmo sistema.

Onde haja um curso de água, desde que já esteja correndo dentro de nossas fronteiras, nele continuamos atirando impunemente nosso lixo e dejetos, humanos, agrícolas ou industriais; derrubando as árvores e a vegetação em suas margens; arrancando com jatos de água seus barrancos, no garimpo, na maior parte do tempo, infrutífero, de ouro, diamantes e outros minerais; assoreando o seu leito e envenenando suas águas com mercúrio e com agrotóxicos, a maioria deles já proibidos em outros países.

Precisamos, municípios, estados, União, combater a destruição de nossos rios com a mesma energia e determinação com que se está tentando lutar contra o desmatamento. Ou quando ficarem prontas as grandes obras de irrigação que estão em curso, não haverá mais água para passar por elas.