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O retorno de Orwell: a guerra contra a Palestina, a Ucrânia e a verdade

Por John Pilger, via Resistir

Na noite passada assisti à peça “1984″, de George Orwell, encenada num teatro de Londres. Embora clamasse por uma interpretação contemporânea, a advertência de Orwell acerca do futuro foi apresentada como uma peça datada: remota, não ameaçadora, quase reconfortante. Era como se Edward Snowden nada houvesse revelado, como se o Big Brother não fosse agora um espião digital e como se o próprio Orwell nunca houvesse dito: “Para ser corrompido pelo totalitarismo, basta ter de viver num país totalitário”.

Aplaudida pelos críticos, a produção cuidadosa foi uma medida dos nossos tempos culturais e políticos. Quando a luzes acenderam, as pessoas já estavam a sair. Pareciam impassíveis, ou talvez outras distracções as chamassem. “Que mindfuck “, disse uma jovem, a ligar seu telemóvel.

Quando sociedades avançadas são despolitizadas, as mudanças são tanto subtis como espectaculares. No discurso diário, a linguagem política é activida na sua cabeça, tal como Orwell profetizou em “1984″. “Democracia” é agora um dispositivo retórico. Paz é “guerra perpétua”. “Global” é imperial. O outrora esperançoso conceito de “reforma” agora significa regressão, mesmo destruição. “Austeridade” é a imposição do capitalismo extremo sobre os pobres e a prenda do socialismo para os ricos: um sistema engenhoso sob o qual a maioria serve as dívidas dos poucos.

Nas artes, a hostilidade a dizer a verdade é um artigo de fé burguês. “O período vermelho de Picasso”, diz uma manchete do Observer, “e porque política não faz boa arte”. Considere isto num jornal que promoveu o banho de sangue no Iraque como uma cruzada liberal. A oposição de Picasso ao fascismo é uma nota de rodapé, assim como o radicalismo de Orwell desvaneceu-se do prémio que se apropriou do seu nome.

Há alguns anos, Terry Eagleton, então professor de literatura inglesa na Universidade de Manchester, calculou que “pela primeira vez em dois séculos, não há qualquer poeta eminente, dramaturgo ou romancista britânico preparado para questionar os fundamentos do modo de vida ocidental”. Nenhum Shelley que fale pelos pobres, nenhum Blake para sonhos utópicos, nenhum Byron a amaldiçoar a corrupção da classe dominante, nenhum Thomas Carlyle e John Ruskin a revelarem o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, HG Wells, George Bernard Shaw não têm hoje equivalentes. Harold Pinter foi o último a levantar sua voz. Dentre as vozes insistentes do feminismo consumidor, nenhuma ecoa Virginia Woolf, que descreveu “as artes de dominar outras pessoas… de governar, de matar, de adquirir terra e capital”.

No National Theatre, uma nova peça, “Great Britain”, satiriza o escândalo das escutas telefónicas que viu jornalistas julgados e condenados, incluindo um ex-editor do New of the World, de Rupert Murdoch. Descrito como uma “farsa com dentes caninos [que] coloca toda a cultura incestuosa [dos media] em causa e sujeita-os a um ridículo impiedoso”, os alvos da peça são as personalidades “abençoadamente divertidas” da imprensa tablóide britânica. Isso está muito bem e soa familiar. Mas o que dizer dos media não tablóides que se consideram sérios e críveis, mas exerce um serviço paralelo como braço do estado e do poder corporativo, como na promoção de guerras ilegais?

O inquérito Leveson sobre escutas telefónicas considerou isto como não mencionável. Tony Blair estava a depor, queixando-se a Sua Senhoria acerca do assédio dos tablóides a sua esposa, quando foi interrompido por uma voz da galeria do público. David Lawley-Wakelin, um realizador de filmes, exigiu a prisão de Blair e que fosse processado por crimes de guerra. Houve uma longa pausa: o choque da verdade. Lord Leveson saltou sobre os seus pés e ordenou a expulsão do que dizia a verdade e desculpou-se junto ao criminoso de guerra. Lawley-Wakelin foi processado, Blair ficou livre.

Os cúmplices permanentes de Blair são mais respeitáveis do que os hackers das escutas. Quando a apresentadora de artes da BBC, Kirsty Wark, o entrevistou sobre o décimo aniversário da invasão do Iraque, ela prendou-o com um momento com que ele sonhava: permitiu-lhe atormentar-se sobre a sua “difícil” decisão sobre o Iraque ao invés de chamá-lo a prestar contas pelo seu crime gigantesco. Isto evocou o cortejo fúnebre de jornalistas da BBC o quais em 2003 declaravam que Blair podia sentir-se “justificado” e as subsequente séries “seminais” da BBC, “Os anos Blair”, para a qual foi escolhido David Aaronovitch autor, apresentador e entrevistador. Um servidor de Murdoch que fez campanha a favor de ataques militares ao Iraque, à Líbia e à Síria, Aaranovitch bajulava com perícia.

Desde a invasão do Iraque – o exemplo de um acto de agressão não provocada que o promotor de Nuremberg, Robert Jackson, classificou como “o supremo crime internacional diferente dos outros crimes de guerra apenas por conter em si próprio mal acumulado do todo” – a Blair e seu porta-voz e cúmplice principal, Alastair Campbell, tem sido concedido um espaço generoso no Guardian para reabilitarem suas reputações. Descrito como a “estrela” do Partido Trabalhista, Campbell tem procurado a simpatia dos leitores pela sua depressão e manifestou seus interesses, embora sua tarefa actual não seja de conselheiro, com Blair, quanto à tirania militar egípcia.

Quando o Iraque é desmembrado em consequência da invasão Blair/Bush, uma manchete do Guardian declara: “Derrubar Saddam estava certo, mas retirámo-nos demasiado cedo”. Isto encontra-se num artigo destacado de 13 de Junho de um antigo funcionário de Blair, John McTernan, que também serviu o ditador instalado pela CIA no Iraque, Iyad Allawi. Ao apelar à repetição da invasão de um país que o seu antigo mestre ajudou a destruir, ele não faz qualquer referência às mortes de pelo menos 700 mil pessoas, a fuga de quatro milhões de refugiados e a tempestade sectária numa nação que outrora orgulhava-se da sua tolerância conjunta.

“Blair corporifica a corrupção e a guerra”, escreveu em 2 de Julho o radical colunista do Guardian, Seumas Milne, numa peça inspirada. Isto é o que se conhece no comércio como “equilíbrio”. No dia seguinte o jornal publicou um anúncio de página interna de um bombardeiro furtivo americano. Sobre uma imagem ameaçadora do bombardeiro constavam as palavras: “O F-35. Bom para a Grã-Bretanha”. Esta outra corporificação da “corrupção e da guerra” custará aos contribuintes britânicos £1,3 mil milhões [€1,64 mil milhões], tendo os seus antecessores modelo F massacrado povos por toda a parte no mundo em desenvolvimento.

Numa aldeia do Afeganistão, habitada pelos mais pobres dos pobres, filmei Orifa, ajoelhada nos túmulos do seu marido, Gul Ahmed, um tecelão de tapetes, e de sete outros membros da sua família, incluindo seis crianças, e duas crianças que foram mortas na casa adjacente. Uma bomba de “precisão” com 500 libras [226,5 kg] caiu directamente sobre a sua pequena casa de barro, pedra e palha, deixando uma cratera com 50 pés [15,2 m] de largura. A Lockheed Martin, o fabricante do avião, tinha lugar de destaque no anúncio do Guardian.

A antiga secretária de Estado e aspirante à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton, foi recentemente à “Women’s Hour” da BBC, a quinta-essência da respeitabilidade nos media. A apresentadora, Jenni Murray, considerou Clinton como um farol do êxito feminino. Ela não recordou aos seus ouvintes acerca da abominação de Clinton que invadiu o Afeganistão para “libertar” mulheres como Orifa. Ela nada perguntou a Clinton acerca da sua campanha de terror utilizando drones para matar mulheres, homens e crianças. Não houve menção à ameaça ociosa de Clinton, enquanto em campanha para ser a primeira mulher presidente, de “eliminar” o Irão. Tão pouco acerca do seu apoio à vigilância ilegal em massa e à perseguição de denunciantes.

Murray perguntou-lhe uma questão delicada. Clinton havia perdoado Monica Lewinsky por ter um caso com o seu marido? “Perdoar é uma opção”, disse Clinto, “para mim, era absolutamente a opção certa”. Isto rememorou a década de 1990 e os anos gastos com o “escândalo” Lewinsky. O presidente Bill Clinton estava então a invadir o Haiti e a bombardear os Balcãs, a África e o Iraque. Ele estava também a destruir vidas de crianças iraquianas; a UNICEF relatou a morte de meio milhão de crianças iraquianas com menos de cinco anos em consequência do embargo efectuados pelos EUA e a Grã-Bretanha.

As crianças foram ignoradas pelos media, assim como as vítimas de Hillary Clinton nas invasões que ela apoiou e promoveu – Afeganistão, Iraque, Iémen, Somália – são ignoradas pelos media. Murray não lhes fez referência. Uma fotografia dela e da sua distinta convidada, radiante, aparece no sítio web da BBC.

Na política, tal como no jornalismo e nas artes, parece que a discordância outrora tolerada nos media “de referência” regrediu para dissidência: uma clandestinidade metafórica. Quando comecei minha carreira na Fleet Street na Grã-Bretanha, na década de 1960, era aceitável criticar o poder ocidental como uma força predadora. Ler as celebradas reportagens de James Cameron sobre a bomba de hidrogénio no Atol de Bikini, a bárbara guerra na Coreia e o bombardeamento americano do Vietname do Norte. A grande ilusão de hoje é de uma era da informação quando, na verdade, vivemos numa era dos media na qual a propaganda corporativa incessante é insidiosa, contagiosa, eficaz e liberal.

No seu ensaio “On Liberty”, de 1859, ao qual os liberais modernos prestam homenagem, John Stuart Mill escreveu: “Despotismo é um modo legítimo de governo ao tratar com bárbaros, desde que o objectivo seja o seu aperfeiçoamento e os meios justificados pelos que realmente actuam para aquele fim”. Os “bárbaros” eram vastas parcelas da humanidade da qual era exigida “implícita obediência”. “É um mito bonito e conveniente o de que os liberais são pacifistas e os conservadores belicosos”, escreveu o historiador Hywel Williams em 2001, “mas o imperialismo pelo caminho liberal pode ser mais perigoso por causa da sua natureza ilimitada: sua convicção de que representa uma forma de vida superior”. Ele tinha em mente um discurso de Blair no qual o então primeiro-ministro prometia “reordenar o mundo em torno de nós” de acordo com os seus “valores morais”.

Richard Falk, respeitada autoridade sobre direito internacional e Relator Especial da ONU sobre a Palestina, certa vez descreveu “um quadro legal/moral farisaico, unilateral, com imagens positiva dos valores ocidentais e de inocência retratada como ameaçada, validando uma campanha de violência política irrestrita”. Isto é “tão amplamente aceite ao ponto de ser virtualmente indiscutível”.

Os guardiões são premiados com estabilidade e patrocínio. Na Radio 4 da BBC, Razia Iqbal entrevistou Toni Morrison, a afro-americana laureada com o Nobel. Morrison perguntou porque o povo estava “tão irado” com Barack Obama, que era “óptimo” (“cool”) e desejava construir uma “economia forte e cuidados de saúde”. Morrison estava orgulhosa por ter conversado ao telefone com o seu herói, o qual havia lido um dos seus livros e convidara-a para a sua posse.

Nem ela nem sua entrevistadora mencionaram os sete anos de guerra de Obama, incluindo sua campanha de terror através de drones, na qual famílias inteiras, equipes de resgate e parentes enlutados foram assassinados. O que parecia importar era que um homem de cor que “falava com elegância” havia ascendido ao comando nas alturas do poder. Em “Os condenados da terra”, Frantiz Fanon escreveu que a “missão histórica” do colonizado era servir como uma “linha de transmissão” àqueles que dominavam e oprimiam. Na era moderna, o emprego da diferença étnica nas potências ocidentais e seus sistema de propaganda é agora considerada como essencial. Obama sintetiza isto, embora o gabinete de George W. Bush – sua clique belicosa – fosse o mais multi rácico da história presidencial.

Quando a cidade iraquiana de Mossul caiu nas mãos dos jihadistas do ISIS, Obama disse: “O povo americano fez enormes investimentos e sacrifícios a fim de dar aos iraquianos a oportunidade de traçar um melhor destino”. Quão “cool” é aquela mentira? Quão “elegante” foi o discurso de Obama na academia militar de West Point em 28 de Maio. Ao apresentar o seu discurso dos “estado do mundo” na cerimónia de graduação daqueles que “levarão a liderança americana” através do mundo, Obama disse: “Os Estados Unidos utilizarão força militar, unilateralmente se necessário, quando nossos interesses essenciais o exigirem. A opinião internacional importa, mas a América nunca pedirá permissão…”

Ao repudiar o direito internacional e os direitos de nações independentes, o presidente americano afirma uma divindade baseada no poder da sua “nação indispensável”. É uma mensagem familiar de impunidade imperial, embora sempre reforçada a fim ser ouvida. Evocando a ascensão do fascismo na década de 1930, Obama disse: “Acredito no excepcionalismo americano com toda a fibra do meu ser”. O historiador Norman Pollack escreveu: “Para os incondicionais (goose-steppers), substitui a aparentemente mais inócua militarização da cultura total. E para o líder bombástico, temos o reformador falhado, a trabalhar alegremente para planear e executar assassinatos, a sorrir o tempo todo”.

Em Fevereiro, os EUA montaram um dos seus golpes “coloridos” contra o governo eleito da Ucrânia, explorando protestos genuínos contra a corrupção em Kiev. A secretária de Estado assistente, Victoria Nuland, seleccionou pessoalmente o líder de um “governo interino”. Ela alcunhou-o como “Yats”. O vice-presidente Joe Biden veio a Kiev, tal como o director da CIA John Brennan. As tropas de choque do seu putsch foram fascistas ucranianas.

Pela primeira vez desde 1945 um partido neo-nazi, abertamente anti-semita, controla áreas chave do poder de estado numa capital europeia. Nenhum líder europeu ocidental condenou esta ressurreição do fascismo na fronteira através da qual invasores nazis ceifaram milhões de vidas russas. Eles foram apoiados pelo Ukrainian Insurgent Army (UPA), responsável pelo massacre de judeus e russos a quem chamam “insectos”. O UPA é a inspiração histórica nos dias de hoje do Partido Svoboda e seus companheiros de viagem do Right Sector. O líder do Svoboda, Oleg Tyahnybok, conclamou a um expurgo da “mafia moscovita-judaica” e “outra escória”, incluindo gays, feministas e aqueles na esquerda política.

Desde o colapso da União Soviética, os Estados Unidos têm cercado a Rússia com bases militares, aviões de guerra e mísseis nucleares, no âmbito do seu Projecto de Ampliação da NATO. Renegando uma promessa feita em 1990 ao presidente soviético Mikhail Gorbachev de que a NATO não se expandia “nem uma polegada para Leste”, a NATO efectivamente ocupou militarmente a Europa do Leste. No antigo Cáucaso soviético, a expansão da NATO constitui a maior acumulação militar desde a Segunda Guerra Mundial.

Um Plano de Acção para a pertença à NATO é a prenda de Washington para o regime golpista de Kiev. Em Agosto, a “Operação Tridente Rápido” colocará tropas americanas e britânicas na fronteira russa da Ucrânia e a operação “Brisa Marítima” enviará navios de guerra estado-unidenses frente a portos russos. Imagine a resposta se estes actos de provocação, ou intimidação, fossem executados nas fronteiras da América.

Ao recuperar a Crimeia – a qual Nikita Kruschev ilegalmente destacara da Rússia em 1954 – os russos defenderam-se como haviam feito durante quase um século. Mais de 90 por cento da população da Crimeia votou pelo retorno do território à Rússia. A Crimeia é a base da Frota da Mar Negro e sua perda significaria a vida ou a morte da Armada Russa e um prémio para a NATO. Confundindo os partidos da guerra em Washington e Kiev, Vladimir Putin retirou tropas da fronteira ucraniana e instou russos étnicos no Leste da Ucrânia a abandonarem o separatismo.

Em modo orwelliano, isto foi invertido no Ocidente para a “ameaça russa”. Hillary Clinton comparou Putin com Hitler. Sem ironia, comentadores alemães de direita disseram o mesmo. Nos media, os neo-nazis ucranianos são tornados aceitáveis como “nacionalistas” ou “ultra-nacionalistas”. O que eles temem é que Putin está habilmente a procurar uma solução diplomática – e pode ter êxito. Em 17 de Junho, respondendo à mais recente proposta acomodatícia de Putin – seu pedido ao Parlamento russo para revogar legislação que lhe dava o poder para intervir em prol de russos étnicos na Ucrânia – o secretário de Estado John Kerry emitiu outro dos seus ultimatos. A Rússia deve “actuar dentro das próximas horas, literalmente” para acabar com a revolta no Leste da Ucrânia. Apesar de Kerry ser amplamente reconhecido como um bufão, o objectivo grave destas “advertências” é conferir o estatuto de pária à Rússia e suprimir notícias da guerra do regime de Kiev ao seu próprio povo.

Um terço da população da Ucrânia é de falantes do russo e bilingues. Eles têm desde há muito procurado uma federação democrática que reflicta a diversidade étnica da Ucrânia e seja autónoma e independente de Moscovo. A maior parte não é nem “separatista” nem “rebelde” mas cidadãos que querem viver com segurança na sua pátria. O separatismo é uma reacção aos ataques da junta de Kiev sobre eles, causando a fuga de 110 mil (estimativa da ONU) para a Rússia através da fronteira. Tipicamente, são mulheres e crianças traumatizadas.

Tal como as crianças do Iraque sob embargo e as mulheres e meninas do Afeganistão “libertado”, aterrorizadas pelos senhores da guerra da CIA, este povo de etnia russa da Ucrânia é ignorado pelos media do ocidente, o seu sofrimento e as atrocidades contra ele cometidas são minimizadas ou silenciadas. Nenhum sentido da escala do assalto do regime é reflectido nos media de referência ocidentais. Isto não é sem precedentes. Relendo a obra magistral de Philip Knighteley, ” The First Casualty: the war correspondent as hero, propagandist and mythmaker”, reitero minha admiração pelo Morgan Philips Price do Manchester Guardian, o único repórter ocidental a permanecer na Rússia durante a revolução de 1917 e a relatar a verdade de uma invasão devastadora pelos aliados ocidentais. Sem preconceitos e corajoso, só Philips Price perturbou o que Knightley chamou de um “escuro silêncio” anti-russo no ocidente.

No dia 2 de Maio, em Odessa, 41 russos étnicos foram queimados vivos na casa dos sindicatos com a polícia a assistir. Há horrendas provas em vídeo. O líder do Right Sector, Dmytro Yarosh, louvo o massacre como “mais um dia brilhante na nossa história nacional”. Nos media americanos e britânicos, isto foi relatado como uma “tragédia obscura” resultante de “choques” entre “nacionalistas” (neo-nazis) e “separatistas” (pessoas a colherem assinatura para um referendo sobre uma Ucrânia federal). O New York Times enterrou o assunto, tendo descartado como propaganda russa advertências acerca das políticas fascista e anti-semita dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal amaldiçoou as vítimas – “Incêndio fatal na Ucrânia provavelmente ateado pelos rebeldes, diz o governo”. Obama congratulou a junta pela sua “contenção”.

Em 28 de Junho, o Guardian dedicou quase toda uma página a declarações do “presidente” do regime de Kiev, o oligarca Petro Poroshenko. Mais uma vez, a regra da inversão de Orwell foi aplicada. Não houve putsch, nenhuma guerra contra a minoria da Ucrânia; os russos eram culpados por tudo. “Queremos modernizar meu país”, disse Poroshenko. “Queremos introduzir liberdade, democracia e valores europeus. Alguém não gosta disso. Alguém não gosta de nós por isso”.

Nesta reportagem, o entrevistador do Guardian, Luke Harding, não desafiou estas afirmações, ou mencionou a atrocidade de Odessa, os ataques aéreos e de artilharia do regime contra áreas residenciais, a morte e sequestro de jornalistas, o ataque com bombas incendiárias a um jornal da oposição e a sua ameaça de “libertar a Ucrânia de excrementos e parasitas”. O inimigo são “rebeldes, “militantes”, “insurgentes”, “terroristas” e sequazes do Kremlin. A actual campanha para culpar o governo russo pelo derrube do avião malaio faz parte desta propaganda. Na verdade, o crime do derrube daquele avião civil é um resultado directo do putsch de Obama na Ucrânia. Evoca da história os fantasmas do Vietname, Chile, Timor Leste, África do Sul, Iraque. Observa-se a reprodução das mesmas etiquetas, as mesmas falsas bandeiras. A Palestina é imã deste logro constante. A seguir à última carnificina de Israel em Gaza, com equipamento americano, de mais de 800 palestinos – incluindo 120 crianças – um general israelense escreve no Guardian: “Uma demonstração de força necessária”.

Na década de 1970 encontrei Leni Riefenstahl e perguntei-lhe acerca dos seus filmes que glorificavam os nazis. Utilizando técnicas de câmera e de iluminação revolucionárias, ela produziu uma forma documentário que hipnotizou os alemães. Foi o seu “O triunfo da vontade”, que segundo se crê lançou o discurso de Hitler. Perguntei-lhe acerca da propaganda em sociedades que se imaginavam superiores. Ela respondeu que as “mensagens” nos seus filmes estavam dependentes não de “ordens de cima” mas de um “vazio submisso” na população alemã. “Isso incluía a burguesia liberal e educada?”, perguntei-lhe. “Toda a gente”, respondeu, “e naturalmente a intelligentsia”.

Israel começa a perder a guerra

Por Alípio Freire, via Brasil de Fato

Enquanto o teatro Ocidental demoniza a Rússia sem nada provar, Israel promove uma limpeza étnica em Gaza, com apoio financeiro e militar dos EUA e o silêncio subserviente da União Europeia. Desinformémonos/Reprodução

A oposição pro­gressista e de esquerda em Israel, que sempre tem se ma­nifestado contra os sucessivos genocídios dos governos do seu país contra os palestinos, desta vez, deu um salto de qualidade, ganhou nova dimensão: 56 homens e mulhe­res da reserva militar assinaram um manifesto em que se recusam a combater no atual confronto. A esse gesto, dá-se o nome de desobediência civil.

A votação das Nações Unidas contra a ação de Isra­el em Gaza, na qual os Estados Unidos ficaram totalmen­te isolados, e as subsequentes iniciativas desse organismo internacional foram – sem sombra de dúvida – graves derrotas diplomáticas do governo de Jerusalém.

No entanto, há um aspecto mais grave: a oposição progressista e de esquerda em Israel, que sempre tem se ma­nifestado contra os sucessivos genocídios dos governos do seu país contra os palestinos, desta vez, deu um salto de qualidade, ganhou nova dimensão: 56 homens e mulhe­res da reserva militar assinaram um manifesto em que se recusam a combater no atual confronto.

A esse gesto, dá-se o nome de desobediência civil.

Embora em qualquer ramo das ciências humanas, não possamos (nem devamos) estabelecer “leis” exatas ou previsões definitivas, não é exagerado lembrarmos que foi exatamente com a desobediência civil dos jo­vens convocados pelo governo de Washington para lu­tar no Vietnã, que rasgavam em manifestações públicas as convocações.

Ou seja, quando o agredido consegue levar a guerra pa­ra o interior das fronteiras do agressor, construindo no seu território uma força aliada – a partir das contradições internas à própria sociedade dos agressores – os sinos do império devem começar a tocar seu próprio réquiem.

Aliás, lembramos que em editoriais deste jornal, e di­versas vezes nesta nossa coluna, temos afirmado que a so­lução política definitiva dos conflitos na região passa – necessária e fundamentalmente – pela ação dessas forças progressistas e de esquerda no interior de Israel, seu cres­cimento e organização.

Quanto ao incidente diplomático criado pelo porta-voz do governo de Jerusalém, Yiagal Palmor, referindo-se ao Brasil como “anão diplomático” e outras tolas agressões do mesmo gênero, concordamos com a reação do minis­tro Marco Aurélio Garcia: o senhor Palmor “é o sub, do sub, do sub, do sub…” O que equivale à expressão usa­da por uma senhora portuguesa que conhecemos ainda crianças: o senhor Palmor “é uma gota de m – - – - solta no espaço e não sujeita às leis de atração”.

A maior economista heterodoxa no Brasil aderiu ao neoliberalismo

Por Bruno Galvão

A Conceição é um dos maiores expoentes da escola cepalina. E o principal fundamento dessa escola era criticar a ideia de que cabia à América Latina, na divisão internacional do trabalho, a produção e exportação de produtos primários. Segundo reportagem no blog do Nassif, Conceição defende que a divisão internacional do trabalho mudou e “não há maneira de recuperar o espaço da indústria brasileira no mundo nem na economia brasileira”. Teríamos, então, que nos contentar com as exportações agrícolas. Um ponto que ela destaca é a importância de deslanchar o setor de petróleo, o que reforça a estratégia primário-exportador da Conceição.

A adesão dela ao modelo primário-exportador não se deve ao fato de que ela virou uma economista ortodoxa, mas ao fato que o mundo teria mudado. O principal argumento é que a Ásia tornou-se muito competitiva e seria impossível concorrer com a Ásia em manufaturas e que a democracia social impediria a queda do salário do trabalhador. Esse é um ponto importante que a Conceição coloca e que realmente foi deixado em segundo plano durante a era desenvolvimentista no Brasil. Ainda bem que vivemos em uma democracia onde não é possível que o governo defenda a redução do poder de compra dos trabalhadores.

Contudo, parece equivocado atribuir a falta de competitividade da indústria brasileira a altos salários no Brasil. Países com salários bem maiores que o Brasil, como Cingapura, Alemanha, Suécia, Suiça, são muito competitivos na exportação de manufaturas. Se fosse pelos salários super baixos, a África seria uma plataforma de exportações de manufaturas, o que não é e nem será. Países asiáticos, como Filipinas, com salários muito baixos (e bem menores que o da China) não estão conseguindo competir e vêm perdendo rapidamente participação nas exportações mundiais de manufaturas. De acordo com essa perspectiva de que o Brasil não conseguirá competir com a China em manufaturas porque é uma democracia social; há uma notícia boa e outra ruim. A boa é que daqui alguns anos o salário do operário na China será maior do que no Brasil. A ruim é que isso não irá alterar o fosso da competitividade entre o Brasil e a China.

Outro ponto importante da Cepal que está sendo atacado pela Tavares é a importância da indústria para o desenvolvimento da economia brasileira. Segundo ela, no Brasil, como em toda economia industrial madura, o único espaço para crescer seria por meio de serviços. Talvez para a Conceição, países, como os EUA e a Alemanha, devem ser economias industriais imaturas, dado os esforços dos dois governos em fortalecer suas indústrias. Falando sério, é risível atualmente alguém definir o Brasil como uma economia industrial madura. É o atraso da indústria brasileira que é a maior explicação para a indústria brasileira não conseguir competir fora das fronteiras do Mercosul. Países que pagam salários bem mais alto do que o Brasil conseguem ser bem mais competitivos em manufaturas que o Brasil exatamente porque, diferente do nosso país, tem uma indústria desenvolvida.

Sem querer ensinar padre a rezar, mas, como a Cepal sempre enfatizou, as receitas com importações têm que ser proporcionais às exportações e que a disponibilidade de recursos naturais está dada. Dessa forma, industrialização é a maneira de aumentar a economia dos países para além de seus recursos naturais. Para os padrões ocidentais que nossa sociedade almeja, a renda per capita do Brasil é muito baixa. Quando discutimos de saúde pública, pensamos nos exemplos da Suécia e da Inglaterra. Queremos ter a qualidade dos serviços de transporte público desses países; almejamos seus níveis de poder de compra; sua qualidade de serviços públicos e proteção social. Acredito que o que a democracia social do Brasil pede é a combinação de desenvolvimentismo com Estado do bem-estar social. Não será com a renúncia a industrialização que será possível atender ao padrão de vida que a população almeja, pois esse padrão de vida requereria um nível de importações muito maior do que a capacidade brasileira de exportações de matérias-primas. Esse modelo primário-exportador com padrão de vida ocidental só seria possível se o Brasil tivesse a população da Austrália (25 milhões de habitantes) ou se queremos continuar a excluir a maior parte da população ao mercado consumidor. Deve-se observar que a disponibilidade de recursos naturais do Brasil é mais ou menos equivalente a da Austrália.

Por último, é incrível como uma economista cepalina venha a usar argumentos, como desindustrialização inevitável e será impossível competir com a Ásia. Se uma coisa que a história mundial mostra é que é geralmente equivocado tratar fenômenos como inevitável, inexorável, impossível. No caso específico da desindustrialização brasileira e da competição com a Ásia, essas afirmações são ainda mais absurdas. A Europa e os EUA são e continuarão sendo bem mais competitivos do que a “Ásia” em diversos setores industriais. Claramente, a Conceição está superestimando a atual e futura competitividade da “Ásia”. Ponho a Ásia entre aspas porque a Conceição equivocadamente está misturando países e fenômenos muito distintos. Com exceção do Vietnã, o Sudeste Asiático não está conseguindo competir com a China e vem apresentando uma tendência de queda ou de estagnação da participação nas exportações industriais no mundo. Falar em baixos salários, quando se fala em Tigres Asiáticos e Japão, é ignorância. E a importância desses países é muito maior do que todo o resto da Ásia, com exceção da China. Era melhor falar em China e Vietnã e não em Ásia.

Em relação ao Brasil, como se pode falar que um país com tantas condições favoráveis ao desenvolvimento industrial está fadado à desindustrialização. O Brasil tem condições de ter um custo de produção e de processamento de matérias-primas muito baixo a nível internacional. Aço, por exemplo, ainda é a base da indústria mundial. Também temos a condição de produzir alimentos a preço muito barato. Pode-se utilizar o grande mercado consumidor para termos escalas competitivas a nível internacional. E a grande disponibilidade de matérias-primas permite ao Brasil ter divisas suficientes para as exigências do desenvolvimento industrial. Nem é impossível entrar no setor de tecnologia de informação, nem é dependente de salários baixíssimos.

A conclusão desse texto é que a adesão da Conceição às teses combatidas pela Cepal não é uma evidência de que o mundo mudou e que, no contexto atual, a estratégia desenvolvimentista está equivocada. É apenas a opinião de uma economista que teve importantes contribuição ao pensamento brasileiro e coerente com a ideia, muito difundida na década de 1990, de que a globalização impediria o sucesso de estratégias nacionais de desenvolvimento. Felizmente, a China veio demonstrar que a globalização pode, inclusive, ser favorável a estratégias desenvolvimentistas. Tudo isso pode ser útil para nós, heterodoxos, entendermos o prejuízo intelectual de respeitarmos demais “vacas sagradas”.

Em São Paulo, todo o mundo vai virar um pouco palestino

Por Marcelo Zero, via facebook

Portal IG/Reprodução

A Sabesp, a mesma que deixou faltar água em São Paulo, assinou, em 2009, um Memorando de Entendimento com a Mekorot israelense para fornecimento de expertise na redução de perda de águas. Detalhe: sem licitação. A Mekorot, empresa pública de fornecimento de água de Israel, é acusada, com razão, de promover um apartheid hídrico na Palestina.

De acordo com as informações dos ativistas de direitos humanos, inclusive de Israel, que combatem o genocídio palestinos, a Mekorot tem sido responsável por violações e discriminações no direito à água, desde a década de 1950, quando construiu a rede nacional de água israelense, que está a desviar o rio Jordão da Cisjordânia para servir às comunidades israelenses. Ao mesmo tempo, priva as comunidades palestinas da possibilidade de acederem à água.

O consumo palestino nos territórios ocupados é de cerca de 70 litros diários por pessoa – bem abaixo dos 100 litros per capita diários recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – enquanto o consumo diário per capita israelense, de cerca de 300 litros, é quatro vezes mais elevado.

A Mekorot se recusou a fornecer água às comunidades palestinas dentro de Israel, apesar da decisão judicial de um tribunal superior israelense ter reconhecido o seu direito à água.

A Mekorot é um suporte vital para o empreendimento ilegal da colonização: O apoio da empresa à ocupação colonial tem continuado desde a ocupação da Cisjordânia, Gaza e Montes Golã em 1967. Monopolizou o controlo sobre as fontes de água nos territórios ocupados, implementando políticas que reforçam os colonatos israelenses à custa das comunidades palestinas.

O relatório das Nações Unidas sobre as implicações dos colonatos israelenses nos direitos do povo palestino denuncia o papel da Mekorot na expansão dos colonatos.

Assim, qualquer cooperação com a empresa israelense beneficia automaticamente e contribui para a criação ilegal das colônias no território palestino.

A Mekorot participa no crime internacional de pilhagem dos recursos naturais e de destruição gratuita da infraestrutura de água: A empresa faz funcionar mais de quarenta poços na Cisjordânia, sobretudo na região do Vale do Jordão, que abastecem essencialmente aos colonatos israelenses.

A Mekorot trabalha em estreita parceria com o exército israelita, confiscando tubos de irrigação dos agricultores palestinos e destruindo as fontes de água que abastecem as comunidades palestinas. Só em 2012, o exército israelense demoliu 60 estruturas de água e de saneamento pertencentes a palestinos.

A Mekorot nega aos palestinos o direito humano à água como um instrumento para a política israelense de deslocação de populações: No verão, a empresa, escoltada pelo exército, fecha a torneira nas comunidades palestinas da Cisjordânia, deixando-as a seco. É um parceiro orgulhoso do plano “Negev Blueprint” do Jewish National Found, que verá 40.000 beduínos palestinos, cidadãos de Israel, expulsos de suas casas e levados para reservas, sendo sua terra utilizada para um colonato exclusivo de judeus no Negev.

Pelo visto, essa parceria com a empresa do apartheid hídrico não produziu efeitos positivos para a Sabesp. Em São Paulo, do ponto de vista hídrico, todo o mundo vai virar palestino.

Aparentemente,a Sabesp já rompeu o contrato com a Mekorot. Espero que sim.

Queda do voo MH17 na Ucrânia: 16 questões centrais que não podem ser ignoradas

Por Julie Lévesque, via Global Research

IB times/Reprodução

Quando tentamos estabelecer quem está por trás do abate ao voo MH17, temos algumas questões centrais e evidências factuais as quais não podem ser ignoradas:

1. A Malaysia Airlines confirmou que o piloto foi instruído a voar a uma altitude mais baixa pela torre de controle de Kiev, quando entrou em espaço aéreo da Ucrânia (Malaysian Airlines MH17 Was Ordered to Fly over the East Ukraine Warzone)

2. A rota do voo foi modificada. Ainda não se sabe de quem partiu esta ordem, mas já se sabe que não foi a Eurocontrol:

O MH17 foi deslocado de sua rota usual a qual passa pela região sudeste, acima do mar de Azov, e então sobrevoou a região de Donetsk. Oblast. (The Flight Path of MH17 Was Changed. July 17 Plane Route was over the Ukraine Warzone)

De acordo com a Malaysia Airlines “A rota de voo usual (acima do mar de Azov) foi declarada segura horas antes pela Organização Internacional de Aviação Civil. A Associação Internacional de Transporte Aéreo também informou que aquele espaço aéreo não estava sujeito à restrições.”

A rota regular do MH17 (e outros voos internacionais) passou mais a sudeste, por cima do mar de Azov, durante um período de 10 dias antes do 17 de julho (dia do desastre). É sabido que a ordem pra mudança da rota não partiu do controle aéreo europeu, o Eurocontrol, enquanto isto, a gravação das comunicações entre o MH17 e a torre de controle de Kiev foi confiscada pelo governo da Ucrânia. A ordem de mudança da rota partiu da torre de controle de Kiev? O piloto foi instruído tomar outra rota? (Malaysian Airlines MH17 Was Ordered to Fly over the East Ukraine Warzone)

3. A presença de uma aeronave militar a jato ucraniana foi confirmada pelo controlador de tráfico aéreo espanhol “Carlos” no aeroporto Borispol, em Kiev, logo após o boeing 777 ter sido abatido, testemunhas locais de Donetsk também confirmaram a informação. (How American Propaganda Works: “Guilt By Insinuation”, Spanish Air Controller @ Kiev Borispol Airport: Ukraine Military Shot Down Boeing MH#17)

O controlador aéreo espanhol usou o twitter pra relatar os acontecimentos em tempo real. Em sua versão, a tragédia não se tratou de acidente, ele afirma que as autoridades ucranianas abateram o MH17 e queriam fazer parecer um ataque dos “separatistas pró-Rússia”. Sua conta do twitter foi derrubada logo em seguida a tragédia. Ainda que as informações por ele prestadas carecem de averiguação, algumas declarações foram confirmadas pela Malaysia Airlines e as autoridades russas.

Houve relatos de que os relatos do controlador espanhol eram falsos e que a conta do twitter residia em Londres. Mesmo com estas informações desencontradas, “Carlos” prestou diversas entrevistas nos últimos 2 a 3 meses, confira a que ele prestou ao RT (Spanish Air Controller @ Kiev Borispol Airport: Ukraine Military Shot Down Boeing MH#17)

4. A Rússia tornou públicas as imagens de satélite e evidências que possui. Estas sugerem que:

a) A junta de Kiev movimentou sistemas antiaéreo Buk em Donetsk e nas regiões próximas a do atentado;

b) Um avião de guerra ucraniano SU-25 voou próximo ao MH17;

c) O relatório apontou a possibilidade de um ataque ar-ar ao MH17;

d) Este relatório apontou ainda inconsistências por parte dos relatos da torre de controle da Ucrânia;

As autoridades russas não chegaram a uma conclusão no tocante a culpa pelo abate da aeronave. (MH17 Show & Tell: It’s the West’s Turn – Russian Satellites and Radars Contradict West’s Baseless Claims)

5. Os EUA, a despeito de seu aparato global de espionagem, não mostrou nenhuma imagem de radar ou satélite a fim de corroborar com suas acusações de que a Rússia, apoiando a oposição do leste ucraniano, foram os responsáveis pelo atentado ao MH17.

Estão os EUA simplesmente lendo blogs? Ou são estes blogs os norteadores da inteligência norte-americana? Ou esses blogs são fabricação da inteligência de Washington para tentar culpar a Rússia? Um deles em particular, o “Ukraine at War”, não passa de uma coleção de informação manipulada e propaganda viciada. As informações por lá veiculadas parecem preceder as declarações da “inteligência norte-americana”. (Assigning Blame to East Ukraine Rebels: US Appeals to “Law of the Jungle” in MH17 Case)

6. “O Ministro da Defesa russo confirmou que no momento do abate ao MH17 havia um satélite dos EUA sobrevoando a área”:

O governo russo apela à Washington que divulgue as fotos e dados capturados pelo seu satélite. (How American Propaganda Works: “Guilt By Insinuation”)

7. Uma fonte da inteligência norte-americana afirma que “Nossas agências de inteligência possuem imagens de satélite que expõem em detalhes a bateria antiaérea que disparou o míssil, porém o sistema parece ter sido operado por tropas do governo ucraniano, vestidos no que parecem ser uniformes ucranianos”. Estas imagens poderiam confirmar as evidências apresentadas pela Rússia as quais mostram a movimentação de sistemas antiaéreos ucranianos na região de Donetsk e proximidades, local da queda do MH17. (Fact number 4, Whistleblower: U.S. Satellite Images Show Ukrainian Troops Shooting Down MH17)

8. A Rússia defendeu a formação de uma equipe de especialistas independes para investigação:

O presidente Putin declarou reiteradas vezes que o trabalho de investigação requer “um grupo representativo de especialistas respondendo as instruções da Organização Internacional da Aviação Civil (ICAO)”. Os pedidos de uma investigação independente especializada, coordenada pela ICAO não demonstram alguém que tenha algo a esconder. (How American Propaganda Works: “Guilt By Insinuation”)

9. Os EUA afirma, sem prova alguma, mas “com confiança”, o envolvimento da Rússia:

No dia 20 de julho, o secretário de Estado John Kerry confirmou que os separatistas pró-Rússia estão envolvidos no atentado a aeronave da Malaysia Airlines, dizendo também que estava “bem clara” a parte da Rússia no caso. Estas são as palavras que usou: “Está bem claro que o sistema (antiaéreo) foi transferido da Rússia para os separatistas. Sabemos disso confiantemente. Sabemos com confiança, com confiança, que os ucranianos não possuíam este sistema nas proximidades, então, obviamente que o dedo aponta para os separatistas.” (Ibid.)

10. As declarações do secretário de Estado John Kerry as quais alegam envolvimento da Rússia no atentado são contraditas por diversas fotos de satélite e testemunhas locais. (Ibid.)

11. Os oficiais de inteligência norte-americanos indicam que não há evidências de que o governo russo envolveu-se no atentado. (US Intelligence on Malaysian Flight MH17: Russia Didn’t Do It. “US Satellite Photos do not Support Obama’s Lies”, O autor refere-se a esta reportagem da Associated Press: US INTELLIGENCE: No ‘Direct’ Russian Involvement In Downing Of MH17)

12. Algumas horas após a queda, as autoridades de Kiev apresentaram um vídeo no qual os separatistas admitem o abate da aeronave, este foi submetido a análise de especialistas os quais concluíram ser o material uma fabricação:

“O segundo fragmento da fita é apresentado como se fosse único, porém, na realidade trata-se de uma emenda de três peças. Uma análise espectral e temporal demonstrou que o diálogo consistiu de cortes de fragmentos unidos. A fita possui algumas pausas curtas que indicam a manipulação: o arquivo de áudio consistiu na gravação de diversos diálogos diferentes”. (Ibid.)

A codificação do vídeo indica que o arquivo foi criado no dia 16 de julho, um dia antes da aeronave ser abatida. Essa informação precisa de maiores confirmações, mas, se mostrar-se acurada, indicaria claramente que as autoridades ucranianas realizaram o atentado e fabricaram as evidências a fim de culpar a oposição. (Did Ukraine Fabricate Evidence to Frame Russia for MH17 Shoot Down?)

13. John Kerry “referiu-se a um vídeo que os ucranianos tornaram público o qual expõe uma unidade SA-11 se dirigindo de volta à Rússia após a queda do boeing 777”. O vídeo foi “postado via facebook na conta do Ministro do Interior da Ucrânia”.

Um outro vídeo do “Buk russo” disponibilizado sugere que os ucranianos estariam exibindo equipamento próprio. (Key Piece of Video “Evidence” for Russian Responsibility for Malaysian Plane Shootdown Debunked)

14. O Promotor Geral da Ucrânia Vitaly Yarema afirmou que os separatistas não possuem sistemas antiaéreos Buk:

“O Ministro do Interior Anton Gerashchenko declarou no dia 17 de julho que o boeing 777 da Malaysia Airlines foi abatido por um sistema de mísseis Buk… Enquanto o Promotor Geral Vitaly Yarema disse, na sexta, ao jornal ucraniano Pravda que: “Após o abate do avião de passageiros, os militares reportaram que os terroristas não possuem sistemas de defesa antiaéreos Buk e os S-300… Estes armamentos não nos foram roubados” (Militias Do Not Have Ukrainian Buk Missile System — Ukraine General Prosecutor)

15. O MH17 está sendo usado para atacar a Rússia economicamente. Ocorreu um aumento nas sanções a despeito da ausência de evidências que culpem o país. Estas medidas objetivam enfraquecer a moeda russa (rublo) e desestabilizar o sistema monetário russo. (The Malaysian Airlines MH17 Crash: Financial Warfare –against Russia, Multibillion Dollar Bonanza for Wall Street)

16. Em 1962, o órgão executivo norte-americano denominado Joint Chief of Staff planejou a Operação Northwoods, que tratou-se de uma missão secreta de “operação de falsa bandeira” na qual uma aeronave civil seria abatida no intuito de culpar o governo cubano. Esta operação objetivava fabricar pretexto pra declarar guerra contra Cuba. (A Implementação desta trapaça foi vetada pelo Presidente John F. Kennedy)

A queda do voo MH17 e as reações das autoridades dos EUA e da grande mídia são fortemente similares ao cenário projetado pela Operação Northwoods. De acordo com o escritor R. Teichmann:

“Entre outras coisas, os documentos apontam o seguinte. Eu (Teichmann) inseri comentários entre parênteses para ilustrar porque o incidente com o MH17 pode ser uma reformulação da proposta da Operação Northwoods:

É possível criar um incidente o qual demonstrará convincentemente que os armamentos cubanos (ou um sistema antiaéreo de mísseis Buk fornecido pela Rússia aos separatistas) atacaram e abateram uma aeronave civil (ou o voo MH17 malaio) em rota, proveniente dos EUA, em direção à Jamaica, Guatemala, Panamá ou Venezuela (ou, atualmente, para Kuala Lumpur).

É possível que criemos um incidente o qual parecerá que os comunistas cubanos (ou dos separatistas do leste ucraniano) tenham abatido um avião civil norte-americano (ou o boeing 777 malaio) em região de águas internacionais (no leste da Ucrânia), que será retratado como um ataque sem motivação. (Framing Russia? Fabricating a Pretext to Wage War: Flight MH-17 and “Operation Northwoods”)

Tradução: Rennan Martins

Brasil: Impossível pensar o futuro sem discutir a geopolítica mundial. Entrevista especial com Carlos Lessa

Por Patricia Fachin, via IHU

Uol/Reprodução

“Há muitos anos eu já disse que nós caminhávamos imensuravelmente para a desaceleração da economia, e infelizmente tudo que imaginei aconteceu. Hoje o Brasil está tendo dificuldades imensas de manter se movendo como estava se movendo”, assinala o economista.

“A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo.” A declaração é do economista Carlos Lessa à IHU On-Line, ao comentar as razões de ainda haver tantas desigualdades sociais no mundo. Segundo ele, “o que a história está mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o comando da economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento – BNDES menciona a dívida da Argentina como um exemplo que diz “respeito à saúde do mundo como um todo; (…) ela é uma espécie de preliminar das dificuldades que estão à frente”. E alfineta: “Se 93% aceitaram a proposta argentina e estão recebendo segundo essa proposta, como 7% podem derrubar tudo?”.

Lessa também comenta a criação do banco do BRICs como uma possibilidade de “restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas dos países do BRICs”. Entretanto, enfatiza, “se ele fizer isso, já está introduzindo uma dimensão importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer, ou não vão fazer? É a sério, ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de reduzir o peso do dólar; e eu não vejo como os americanos concordam com isso tranquilamente”. E cutuca: “A presidenta Dilma foi à última reunião de Davos dizer que o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do Consenso de Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as moedas dos BRICs não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio brasileiro com respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo muito encabulado e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei, e a pessoa (Dilma) para mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato”.

Segundo ele, apesar de a população ter melhorado o padrão de vida nos governos Lula e Dilma, especialmente no que se refere à distribuição da renda, “o governo do PT não usou esse ‘oxigênio’ que o Brasil teve para dar sustentabilidade no longo prazo à melhoria”. Na avaliação dele, “para frente, o Brasil vai se confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do patrimônio das empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos bancos brasileiros e das famílias ricas, está apoiado na dívida das famílias pobres que se endividaram para comprar automóvel, geladeira e mobiliário, então, terá uma queda de braço para frente no país”.

Defensor de um projeto nacional, Carlos Lessa é categórico quanto ao assunto: “Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro. (…) Nós fomos achando que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é complicado”. E conclui: “Pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos nacionais claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum”.

Carlos Lessa é formado em Ciências Econômicas pela antiga Universidade do Brasil e doutor em Ciências Humanas pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp). Em 2002, foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Ele também foi presidente do Bndes.

Confira a entrevista.

Uol/Reprodução

IHU On-Line – Como, na Economia, se define e se entende o conceito de “desigualdade”?

Carlos Lessa – Colocando-se a ideia de renda, a desigualdade se mede por diversos coeficientes, que medem a dispersão das extremidades em relação ao valor médio. Isso são estudos de distribuição de renda, desenvolvidos há muito tempo, em 30, 40 países do mundo.

Agora, o que não se faz — e essa é a dimensão que está sendo levantada para discussão — é a distribuição do patrimônio, ou seja, tudo aquilo que representa a chamada riqueza do indivíduo. Nesse sentido, a riqueza do indivíduo pode ir desde a sua casa própria e o que está nela, até participações percentuais nas empresas — que são as participações societárias — e participações da dívida que outros têm, e esses outros podem ser famílias, empresas e Estados nacionais. Então, essa dívida também faz parte da riqueza.

Estudos recentes demonstraram que, embora a distribuição de renda tenha melhorado em diversos países — principalmente nos chamados de primeiro mundo —, a distribuição do patrimônio não melhorou. Ou seja, apesar de uma quantidade crescente de famílias do primeiro mundo possuir casa própria, há um crescimento enorme da dívida das famílias, das empresas e dos Estados nacionais, e essa nova dívida, que faz parte do patrimônio, cresce em uma velocidade tal, que o patrimônio se mantém praticamente o mesmo.

IHU On-Line – E como o senhor vê essa má distribuição do patrimônio?

Carlos Lessa – A verdade é que se houvesse uma redução significativa do valor da dívida das famílias, das empresas e dos Estados nacionais, haveria naturalmente, sem grande trauma, uma mudança no perfil de retração da riqueza do mundo. Agora, o que a história está mostrando é que os comandos desse sistema financeiro assumiram o comando da economia mundial, porque é muito difícil mexer no valor dessa dívida. Por exemplo, o que está acontecendo com a Argentina, hoje, é uma tentativa de forçá-la a pagar por uma dívida que foi contraída no passado. Porque, na verdade, no momento em que se diz que a dívida pode não ser paga, se retira dela o valor patrimonial que ela tem. Essa questão da Argentina diz respeito à saúde do mundo como um todo; não acho que ela vá definir o futuro da humanidade, mas é uma espécie de preliminar das dificuldades que estão à frente.

IHU On-Line – Nesse sentido, o valor que está sendo cobrado da dívida da Argentina é equivocado?

Carlos Lessa – É totalmente equivocado; estou do lado da posição argentina. A Argentina negociou uma redução da dívida numa situação em que está fracamente destruída como país, e essa negociação foi aceita por 93% dos diretores; 7% não opinaram porque os fundos abutres compraram. A Justiça norte-americana diz que a Argentina deve pagar a dívida integralmente, e com prioridade para esses 7%. Isso é algo absolutamente espantoso, porque se 93% aceitaram a proposta argentina e estão recebendo segundo essa proposta, como 7% podem derrubar tudo? Então, por isso, uma das coisas mais interessantes que aconteceram nas últimas semanas foi o fato de os países latino-americanos da Organização dos Estados Americanos – OEA terem votado a favor da Argentina e depois repetirem o gesto quando houve esse encontro dos BRICs em Fortaleza. Trata-se de um recado dizendo para ter cuidado, porque o tamanho dessa dívida colossal faz com que necessariamente um pedaço dela seja desvalorizado.

IHU On-Line – Como vê a criação do banco do BRICs?

Carlos Lessa – Estou cheio de dúvidas a respeito. Em uma primeira aproximação, a ideia do BRICs é uma ideia geopolítica de criar uma terceira interlocução em nível mundial. Então, por esse lado, o BRICs tem importância geopolítica para o Brasil. Agora, se vai ter importância econômica, tenho minhas dúvidas. O que o banco do BRICs pode fazer é restabelecer liquidações compensatórias de dinheiro entre as moedas dos países do BRICs. Se ele fizer isso, já está introduzindo uma dimensão importante no jogo financeiro mundial. E minha pergunta é: Vão fazer, ou não vão fazer? É a sério, ou não é a sério? Porque isso já é uma tentativa de reduzir o peso do dólar; e eu não vejo como os americanos concordam com isso tranquilamente.

IHU On-Line – Mas fala-se também que o banco tem o objetivo de financiar projetos de infraestrutura entre os países.

Carlos Lessa – Esse é o pretexto que está por trás da ideia de criar um sistema de compensações monetárias que não esteja baseado no dólar. Agora o pretexto para criar o banco é o pretexto que pode financiar projetos de infraestrutura no longo prazo sem lançar mão de reserva de dólar. Isso reduz o peso do dólar e é um efeito político ou geopolítico importante para um banco. Contudo, quero ver se ele é real mesmo; não é que eu queira ser São Tomé (ver para crer), eu só quero ver como isso vai se desdobrar, porque, por exemplo, a presidente Dilma foi à última reunião de Davos dizer que o Brasil está inteiramente consciente e subordinado à ideia do Consenso de Washington, mas aí esse sistema de compensações monetárias entre as moedas dos BRICs não é o que Washington quer; por outro lado, o silêncio brasileiro com respeito à questão argentina — o nosso comportamento está sendo muito encabulado e retraído — é o que Washington quer. Então, eu não sei, e a pessoa (Dilma) para mim também não sabe, apesar de estar perdendo o campeonato.

IHU On-Line – Qual é o papel do Brics na arquitetura financeira internacional?

Carlos Lessa – Ainda não tem, mas se ele montar esse sistema de compensações bilaterais, passará a ter. Quer dizer, tem um lado aí que achei muito interessante nesse encontro do Brics, o de sair um financiamento para a Argentina. Outra ação interessante — e há tempo gosto muito do que a diplomacia brasileira faz — foi, na reunião da União de Nações Sul-Americanas – UNASUL e do Mercado Comum do Sul – MERCOSUL, colocar os países sul-americanos e seus presidentes junto aos presidentes do BRICs. Isso foi um gesto político muito bonito e muito importante, porque marcou certa posição, mas por enquanto estamos na retórica.

IHU On-Line – O senhor leu o livro “Capital in the Twenty-First Century” [O capital no século XXI] de Thomas Piketty? Quais suas impressões?

Carlos Lessa – Li alguns trechos. Não li todo, pois estou com descolamento da retina. Piketty fez diversos exercícios lançando mão das informações disponíveis para demonstrar isso que eu disse a você, ou seja, que a destruição da riqueza do patrimônio não se modificou, apesar de haver melhorias na distribuição de renda.

IHU On-Line – Quais são as principais dificuldades do Brasil em relação às desigualdades?

Carlos Lessa – Os programas que o governo do PT implantou desde 2002, desde o primeiro mandato do Lula, do segundo mandato dele e do início do mandato da presidente Dilma, tiveram um efeito importante do ponto de vista de distribuição de renda, somente isso. Como o Brasil teve uma melhoria espetacular na sua relação de trocas com o mundo, porque os produtos que o Brasil vendia para o mundo se valorizaram — tecnicamente nós dizemos que a relação de troca foi extremamente favorável para o Brasil até 2008, 2009 —, os governos do PT aproveitaram para tocar para frente uma política de distribuição. Ou seja, melhoraram muito significativamente o salário mínimo real, que é a chave da disfunção de renda para a baixa renda do Brasil, que é o indexador geral de todos que têm ou não carteira assinada, e criou alguns programas de assistência social, como o Programa Bolsa Família, e isso melhorou a base da população brasileira.

É impressionante como as pessoas melhoraram o seu padrão de vida. Só que o problema é o seguinte: o governo do PT não usou esse “oxigênio” que o Brasil teve para dar sustentabilidade no longo prazo à melhoria. Agora, para a frente, o Brasil vai se confrontar com um problema muito sério: um pedaço enorme do patrimônio das empresas brasileiras, das empresas que estão no Brasil, dos bancos brasileiros e das famílias ricas, está apoiado na dívida das famílias pobres que se endividaram para comprar automóvel, geladeira e mobiliário, então, terá uma queda de braço para frente no país. Mas o que acho engraçado é que a disputa eleitoral brasileira nem tocou nesse assunto. Sou muito simpático que a universidade esteja preocupada em discutir isso, porque a universidade tem de criar uma geração que saiba pensar e saiba pensar o Brasil, um Brasil no mundo e um Brasil voltado aos brasileiros. Essa discussão é fundamental.

IHU On-Line – O senhor é um defensor do desenvolvimento de um projeto nacional. Em que medida esse projeto pode ter implicações na superação das desigualdades? E em relação a isso, existe no Brasil algum projeto nacional?

Carlos Lessa – Não. Nós estamos órfãos de um projeto nacional. Agora, é evidente que qualquer projeto nacional começa por projetar o Brasil do futuro, o Brasil utópico, o Brasil que nós sonhamos. Eu sonho com um Brasil em que as desigualdades sociais sejam relativamente pequenas, com um Brasil em que todos os brasileiros tenham acesso à casa própria, tenham uma educação de qualidade, acesso à saúde, possibilidade de utilizar o seu tempo para absorver os bens culturais ou simplesmente ao lazer. Eu sonho com um Brasil que seja justo para os brasileiros, e não acho que o Brasil é justo com os brasileiros. O país vai ter de discutir isso, só que essa discussão nem sequer começou.

Há muitos anos eu já disse que nós caminhávamos imensuravelmente para a desaceleração da economia, e infelizmente tudo que imaginei aconteceu. Hoje o Brasil está tendo dificuldades imensas de manter se movendo como estava se movendo. Talvez isso tenha um lado muito ruim, porque gera uma perplexidade, uma angústia, uma interrogação forte para as pessoas, uma insegurança das pessoas em relação ao seu “estar no mundo”, mas, por outro lado, pode ser que force as pessoas a discutir que futuro se pensa para o Brasil, porque até agora essa discussão não existe.

IHU On-Line – Esse é um problema do Brasil ou há um limite de se ter um projeto nacional em tempo de globalização?

Carlos Lessa – Isso não é verdade, porque existem muitos países que estão na globalização e estão perseguindo projetos nacionais. O exemplo principal é a China, mas diria que de certa maneira a Índia e a Rússia também têm projetos nacionais. Então, pelo menos três dos grandes países periféricos do mundo têm projetos nacionais claros, enquanto o Brasil não tem nenhum. Nós nem sequer discutimos a geopolítica mundial; nós não temos posicionamento nenhum. Por exemplo, qual é o posicionamento dos brasileiros com respeito ao que vem acontecendo na Argentina? A impressão que eu tenho é de que nenhum — apesar de vocês estarem aí no Rio Grande do Sul. Qual é o posicionamento dos brasileiros a respeito do que vem acontecendo na Ucrânia? Zero; nem se debate. Quem está discutindo no Brasil o projeto eurasiano que Vladimir Putin está desenvolvendo? Ninguém. Só que esse projeto vai levar a Rússia a se aliar ao Japão, por um lado, e à China, por outro, colocando a Europa na dependência total da Rússia. Nós estamos discutindo isso? Não. A rota dos navios que liga o Japão com a Europa vai agora passar a ser pelo Ártico, porque com o degelo e as frotas de quebra-gelo russas isso se torna possível. Só que essa rota, que é ótima para o Japão, que encolhe sete mil léguas submarinas a distância entre o Japão e a Europa, é péssima para o Brasil, porque nos desloca mais para a periferia do mundo. Estão discutindo isso? Não. Nós fomos achando que é possível tocar o futuro sem discutir o futuro, então é complicado.

IHU On-Line – Pode dar outros exemplos dos projetos nacionais desses países?

Carlos Lessa – Claro. O projeto da China é óbvio: quer voltar a ser o império asiático e mundial. Para isso, combina três dimensões: procurar ter supremacia no comércio mundial, exportando produtos industrializados e importando matérias-primas de alimentos; quer estar na vanguarda tecnológica do mundo, usando os poderes que dispõe para empurrar a tecnologia para frente; e quer, de maneira muito clara, dominar totalmente a esfera asiática. E nós não temos nenhum projeto, nem com respeito às relações com a Argentina nós temos um projeto claro.

IHU On-Line – O senhor é bastante getulista…

Carlos Lessa – Total. Mas nós não podemos fazer invocações de fantasmas, pois nenhum fantasma se materializa. Getúlio foi uma liderança inquestionável para esse país. Eu gosto de dizer que com Getúlio, contra Getúlio e sem Getúlio, o Brasil se moveu 50 anos para perseguir a industrialização. E, a partir do governo de Collor de Mello, o Brasil não persegue nada.

IHU On-Line – Depois dele, quais presidentes pensaram em um projeto de nação?

Carlos Lessa – Ele foi o presidente brasileiro mais consistente e coerente nisso. Eu diria que o Rodrigues Alves [1], de certa maneira, e o mineiro Arthur Bernardes [2] tinham visões claras da necessidade de um projeto nacional. Mas, quem adotou integralmente e foi fiel ao projeto nacional, foi Getúlio.

IHU On-Line – Alguns tentam comparar ou fazer alguma aproximação entre Lula e Getúlio. Como vê essa tentativa?

Carlos Lessa – Essa comparação não dá certo e é complicada por uma razão: o PT tentou se criar “anti-Getúlio”. Eu lembro do Lula dizendo a seguinte frase: “A Consolidação das Leis do Trabalho – CLT é o AI-5 dos trabalhadores”. Ou seja, para ele, a CLT impediria qualquer ingerência dos trabalhadores em seu futuro. O PT era antigetulista, e depois começou a diminuir um pouco isso, mas ao mesmo tempo pegou do pragmatismo de Getúlio a pior de todas as dimensões, porque Getúlio era pragmático nas alianças que fazia, mas apesar das alianças ele nunca permitiu dissolver os objetivos nacionais. Enquanto isso, o PT vende o petróleo no leilão de Libra. Getúlio nunca permitiu que a privatização fosse um elemento pragmático a ser negociado; soberania nacional sempre foi fundamental para Getúlio. E esse conceito nem existe no governo Lula.

Eu não estou querendo polemizar com o PT; minha preocupação é outra. Minha preocupação é que os estudantes da universidade, os gaúchos, que são a vanguarda do pensamento nacional brasileiro, voltem a discutir o projeto Brasil, mesmo que vocês troquem desaforos entre vocês, são obrigados a explicitar os debates.

O Brasil quer ser uma Porto Rico enorme do Atlântico Sul? Ou o país quer ter uma grande importância na formação de um continente sul-americano unificado? Se for isso, nós temos de cuidar a visão da Argentina que o Brasil tem. Eu fico encabulado em ver o Chile assumindo mais defesa da Argentina hoje do que o Brasil. Nesse sentido, os gaúchos são a grande fronteira de nacionalismo do Brasil.

IHU On-Line – Como o senhor vê as campanhas à Presidência da República? Algum candidato apresenta ou tem em perspectiva um projeto de nação?

Carlos Lessa – Não. Uma das minhas angústias é que o desdobramento da campanha presidencial não está absolutamente politizando o Brasil no bom sentido. O que está acontecendo agora é uma competição para saber quem é cúmplice do mensalão, para descobrir algo sobre o aeroporto do Aécio, algo contra o Eduardo, amanhã talvez apareça algo contra a Dilma, e vai ficar nisso. Isso não é absolutamente uma discussão política; é uma discussão que não explicita as escolhas que o Brasil tem de fazer. E se a opinião pública mantiver a posição, como está hoje, de que os políticos são a mesma coisa e que os partidos políticos não servem para nada, eu não sei o que vai acontecer; vamos numa conjuntura internacional muito difícil.

NOTAS

[1] Francisco de Paula Rodrigues Alves (Guaratinguetá, 7 de julho de 1848 – Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 1919): advogado, político brasileiro, Conselheiro do Império, presidente da província de São Paulo, presidente do estado, ministro da fazenda e quinto presidente do Brasil.

Governou São Paulo por três mandatos: 1887-1888, como presidente da província; como quinto presidente do estado, de 1900 a 1902; e como nono presidente do estado, de 1912 a 1916.

Rodrigues Alves foi o último paulista a tomar posse como presidente do Brasil. Foi eleito duas vezes, cumpriu integralmente o primeiro mandato (1902 a 1906), mas faleceu antes de assumir o segundo mandato (que deveria se estender de 1918 a 1922).

[2] Artur da Silva Bernardes (Viçosa, 8 de agosto de 1875 – Rio de Janeiro, 23 de março de 1955): advogado e político brasileiro, presidente de Minas Gerais de 1918 a 1922 e presidente do Brasil entre 15 de novembro de 1922 e 15 de novembro de 1926.

Brasil anuncia que Mercosul negocia antecipar fim de tarifas comerciais com Chile, Colômbia e Peru

Por Luciana Taddeo, via Opera Mundi

Chanceler Luiz Alberto Figueiredo também disse que países do bloco estão prontos para apresentar oferta de acordo à UE

Os países do Mercosul negociam a antecipação dos prazos de eliminação das tarifas comerciais do bloco com Chile, Colômbia e Peru. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (28/07) pelo ministro brasileiro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, na véspera da cúpula presidencial que será realizada amanhã.

”Da nossa parte já está muito avançado”, disse Figueiredo, afirmando que há boa vontade no Mercosul de adiantar os prazos, idealizados inicialmente para 2019. “Agora o que é necessário é uma conversa com Chile, Colômbia e Peru para combinar essa desgravação, essa antecipação dos prazos”, explicou brevemente a jornalistas brasileiros.

Figueiredo disse que no caso do comércio com o Chile, no final do ano já se deve chegar à “tarifa zero” em quase todas as linhas tarifárias. “A ideia é ampliar nosso comércio com os demais países da região, e isso faz sentido porque o Mercosul não é exclusivista, ele é uma plataforma para que se comercie com outras regiões do mundo.”

Além das travas comerciais, reunião de chanceleres também abordou problemas econômicos da Argentina. Agência Efe/Reprodução

Ainda de acordo com o ministro, o benefício para o Brasil seria grande: “A liberalização comercial garante fluxos mais equilibrados, colocação dos nossos produtos em novos mercados. Enfim, essa diversificação do comércio internacional é fundamental para nós”, expressou.

Durante a reunião de chanceleres, o ministro sugeriu uma reflexão sobre os rumos e prioridades da agenda externa do bloco, correspondendo às expectativas dos interesses produtivos. “O Brasil sempre viu no Mercosul uma plataforma fundamental para a projeção dos interesses da região e em particular para a negociação comercial com outros países”, disse.

Sobre as negociações entre o Mercosul e a União Europeia, Figueiredo afirmou que o Brasil “mantém firme seu interesse na conclusão de um acordo”. “Sobre isso todos os sócios já alcançaram, ao longo de nossas negociações intra-Mercosul, ofertas compatíveis com os compromissos assumidos pelos chefes de Estado no relançamento das negociações”.

O chanceler da Argentina, Héctor Timerman, por sua vez, disse que é necessário impulsionar o diálogo com outros blocos da região. “Ainda que cada um tenha seu próprio enfoque, está claro que todos coincidem com o objetivo único de aprofundar o integracionismo econômico, político e social entre seus membros”.

Fundos Abutres

Sobre o problema de seu país, que entrará em estado de default (calote técnico) se não fizer um pagamento até a próxima quarta-feira (30/07) aos “fundos abutres”, credores que não aceitaram reestruturar a dívida arrastada e ampliada desde 2001, Timerman qualificou como uma “grave situação” e agradeceu o respaldo do bloco. Soube-se que o assunto foi discutido na reunião fechada dos chanceleres, mas não seus possíveis efeitos.

O chanceler argentino afirmou ser fundamental que o bloco assuma “conjuntamente a liderança necessária para impulsionar” uma reforma no sistema financeiro internacional. Segundo ele, o sistema atual responde a regras que não cabem no objetivo de desenvolvimento econômico com inclusão social.

“Essa ação dos fundos abutres deve nos mobilizar a todos para trabalhar de maneira decidida, conjunta e coordenada numa profunda reforma. (…) Necessitamos promover regras mais justas e equitativas para que os processos de reestruturação de dívidas soberanas impeçam a ação dos fundos abutres”, disse Timerman.

O paraguaio Eladio Loizaga, por sua vez, lembrou que o tema da reforma no sistema financeiro internacional vem sendo discutido na ONU. “Acreditamos que uma minoria não pode gerar esse tipo de descalabro em um esquema já acordado com os maiores detentores de bônus. Logicamente o Mercosul está dentro de um esquema muito menor, mas quer sobretudo que haja um respeito e acompanhamos a Argentina, que está pagando sua dívida e explicou que vai continuar fazendo isso dentro dos marcos legais”, explicou.

Quando questionando sobre um possível “default”, disse que a Argentina depositou o dinheiro equivalente aos pagamentos e que isso deveria ser levado em conta pela Justiça norte-americana. “Não deveriam sofrer essas consequências”, acredita.

Sobre a Venezuela passar a presidência pro-tempore do bloco para a Argentina – em vez de ser transmitida ao Paraguai, como um gesto político que chegou a se cogitar -, o chanceler afirmou que seu país quer “que o Mercosul seja institucional” e, por isso, defendeu que a ordem de precedência alfabética seja respeitada.