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Inflação, dependência externa e estagnação econômica têm “pés de barro”

Por Guilherme Costa Delgado, via Brasil de Fato

O sistema dominante nos brinda com um “gigante salvador da pátria” – a exploração intensiva e extensiva dos recursos naturais pela economia do agronegócio, juntamente com outras cadeias exploradoras das vantagens comparativas naturais na mineração, na hidroeletricidade e na extração de petróleo bruto.

Houve uma época na América La­tina, e no Brasil em particular – pe­la criativa contribuição de Celso Furta­do a esse debate –, que a discussão do desenvolvimento, sob o enfoque estru­tural, considerava os constrangimen­tos externos (da Balança de Pagamen­tos), as pressões inflacionárias e as ten­sões por estagnação do sistema eco­nômico como males típicos do subde­senvolvimento. As teses da CEPAL dos anos de 1960 ressaltavam também o papel “atrasado” da estrutura agrária e da concentração da renda social na re­produção deste “modelo”.

Esse enfoque estrutural foi sen­do abandonado à esquerda e à direi­ta ainda nos anos de 1970. O forte cres­cimento econômico dos anos de 1970 convenceu a esquerda no clássico arti­go de Maria da Conceição Tavares e Jo­sé Serra – “Mais Além da Estagnação”, de que o capitalismo brasileiro tinha fôlego para crescer e que a estagnação não era componente endógena do sub­desenvolvimento brasileiro.

Pouco tempo antes, 1969 – toda uma geração de economistas e econo­metristas da USP “provara” a não con­sistência da tese estruturalista da re­lação entre pressões inflacionárias e desempenho da agricultura. E final­mente toda uma estratégia de endivi­damento externo nos anos do milagre (até 1981) aparentemente demonstra­va que o acesso ao mercado interna­cional de capitais seria recurso plena­mente utilizável para resolver o dese­quilíbrio externo.

Em resumo, pela teoria e pela práti­ca das políticas econômicas vigentes no período da industrialização e urbaniza­ção intensivas (final dos anos de 1960 até início dos anos de 1980), pratica­mente se desmontaram as teorias críti­cas do subdesenvolvimento (estrutura­lista) e da dependência (marxista). E ao mesmo tempo a “questão agrária” que era o “pé de barro” do desenvolvimen­to no campo, teria ficado superada pela inauguração no regime militar da “mo­dernização conservadora da agrope­cuária” – um experimento de mudança técnica da agricultura sem mudança na estrutura agrária.

Mas o abandono do pensamento crí­tico em economia, pela esmagadora maioria dos centros de ensino e pesqui­sa do país – seja de corte estrutural, se­ja de corte marxista –, deixou-nos ór­fãos para pensar problemáticas que se repõem e que terminam sendo vividas, mas não refletidas.

Temos na presente conjuntura um relançamento da problemática antiga do subdesenvolvimento, muito embora em contexto histórico completamente diverso. Ficando apenas no “approach” econômico – as evidências do aumen­to da dependência econômica, explici­tamente medidas pelo “déficit na con­ta corrente do Balanço de Pagamentos (desde 2008) são mais do que preocu­pantes. Por sua vez, o recrudescimen­to da estagnação econômica, com desindustrialização é também fenôme­no empiricamente demonstrado desde 1981, com certa interrupção no período 2004-2010; e retomada no último qua­driênio. E finalmente o repique das pressões inflacionárias, com claros vie­ses de contaminação pelos preços dos alimentos, que também nos visitam há várias conjunturas.

Diante desse quadro estrutural de agravamento da dependência nas re­lações comerciais e financeiras externas, de estagnação econômica e desin­dustrialização e de pressões inflacio­nárias, o sistema dominante nos brin­da com um “gigante salvador da pá­tria” – a exploração intensiva e exten­siva dos recursos naturais pela econo­mia do agronegócio, juntamente com outras cadeias exploradoras das vanta­gens comparativas naturais na mine­ração, na hidroeletricidade e na extra­ção de petróleo bruto.

Explorar as vantagens comparati­vas naturais como via de passagem pa­ra uma economia industrial e urbana foi a engenharia econômica construída no pós-guerra. Mas agora é diferente, aparentemente não há qualquer pro­jeto de superação em relação aos pés de barro da estrutura de propriedade, posse e uso da terra e demais recursos naturais que subjaz ao projeto hege­mônico. Veja-se o exemplo muito re­cente do festival de bajulações que os três candidatos à presidência da Re­pública fizeram recentemente às “re­comendações” da CNA-ABAG. E diga­-se de passagem, essas recomendações não tocam no tripé do subdesenvol­vimento, mas insistem com todas as tintas na segurança jurídica da “terra mercadoria”, conceito inexistente no ordenamento constitucional.

Mas o “gigante salvador da pátria”, como na decifração do sonho do Impe­rador Nabucodonosor, segunda o Pro­feta Daniel (Dan 2,29-36), tinha preci­samente nos seus pés de barro o ponto de maior vulnerabilidade ao choque ex­terno. Daí ao desmoronamento comple­to do império a uma estrutura de poder completamente desequilibrada, bastou um pequeno passo.

Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

Desculpas de Israel ridicularizam vira-latas brasileiros

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog

Depois que o próprio Reuven Riulin, o novo presidente de Israel, telefonou para Dilma Rousseff para pedir desculpas, não custa recordar a reação dos adversários do governo brasileiro, que há duas semanas se alinharam com o porta-voz da chancelaria israelense que definiu o Brasil como “anão diplomático.”

Em poucas horas o Brasil foi inundado por vídeos, artigos e comentários de ar grave, palavras duras e retórica pedante, de grande utilidade para encobrir uma postura típica de vira-latas.

Falou-se que era uma definição com “incrível precisão” de nossa diplomacia. Mesmo quem admitiu que a postura do governo brasileiro diante dos ataques do Exército Israelense a Gaza podia estar certa, justificou o “anão diplomático” porque o Itamaraty carece “de credibilidade mesmo quando faz declarações corretas.”

O telefonema de Riulin mostra com precisão realmente incrível o ridículo dessa reação. Para azar de quem levou o “anão diplomático” a sério, a atitude do presidente de Israel deixa claro que era uma definição menor, de um funcionário sem qualificação para emitir conceitos em nome do governo, alguma coisa que se poderia chamar de “gafe” — o que torna ainda mais curioso que tenha sido aceita e divulgada com tanta facilidade.

Riulin deixou claro pelo gesto que o Brasil está longe de desempenhar um papel desprezível na diplomacia do século XXI, para infelicidade daqueles que enxergam o mundo pelo olhar da inferioridade e da submissão.

Mais realistas do que o Rei a quem pretendem servir — estou falando da direita republicana dos EUA, que sustenta Israel de qualquer maneira –, procurando qualquer pretexto para bater no governo Dilma, eles se alinharam com Yigal Palmor, que fala em nome do chanceler Avigdor Lieberman, a mais acabada expressão do fascismo na política israelense.

Principal adversário de toda iniciativa de paz, Lieberman defende a manutenção e ampliação de assentamentos em territórios palestinos. Sustenta uma política de discriminação em relação a população árabe que reside em Israel. Chegou a apresentar um projeto pelo qual ela só teria direito a voto, por exemplo, se fizesse um “juramento de lealdade” ao estado judeu.

Foi desse mundo obscuro, vergonhoso e inaceitável, sem o menor compromisso com a democracia nem com a soberania dos povos, que veio o termo “anão”.

Não é surpreendente que ele tenha sido abraçado por aliados da oposição, capazes de afagar até adversários externos que — mesmo se estivessem corretos em seu ponto de vista — não tinham o direito de faltar com consideração por autoridades legitimamente autorizadas a falar em nome do povo brasileiro. O desrespeito e a agressividade são chocantes, mas não chegam a ser novidade neste repertório.

Fazem parte da tentativa de desmoralizar adversários que não se consegue derrotar democraticamente. Tenta-se corroer sua legitimidade ao partilhar um tratamento grosseiro, chulo, que, a seus olhos, tem mais valor porque vem do estrangeiro.

Convém não esquecer que, há quatro anos, esse mesmo pessoal alinhou-se aos mesmos senhores externos condenar Luiz Inácio Lula da Silva em sua tentativa de construir um acordo de paz com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad.

A viagem de Lula havia sido autorizada e até certo ponto estimulada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que enfrenta tensões com a atual política de Israel, tão radical e extrema que pode tornar-se prejudicial aos interesses norte-americanos.

Mesmo assim, os vira-latas não perdoaram.

Wikileaks: EUA armaram Estado Islâmico e se recusaram a ajudar Síria no combate ao grupo

Por Charles Nisz, via Opera Mundi

Presidente Bashar al-Assad tentou se aproximar de Washington em 2010, mas governo Obama continuou armando seus opositores e grupos islâmicos

Os Estados Unidos se recusaram a ajudar o governo da Síria a combater grupos radicais islâmicos como a Al-Qaeda e o ISIS (Exército Islâmico do Iraque e da Síria, que recentemente mudou de nome para Estado Islâmico). Além disso, segundo revelações feitas pelo site Wikileaks, o governo norte-americano armou grupos como o ISIS. Os quase 3 mil documentos sobre essa questão foram vazados pelo site dirigido por Julian Assange na última sexta-feira (08/08).

Em 18 de fevereiro de 2010, o chefe da inteligência síria, general Ali Mamlouk, apareceu de surpresa em uma reunião entre diplomatas norte-americanos e Faisal a-Miqad, vice-ministro das relações exteriores da Síria. A visita de Mamlouk foi uma decisão pessoal de Bashar al-Assad, presidente sírio, em mostrar empenho no combate ao terrorismo e aos grupos radicais islâmicos no Oriente Médio, assinala o documento.

Neste encontro com Daniel Benjamin, coordenador das ações de contra-terrorismo dos EUA, “o general Mamlouk enfatizou a ligação entre a melhoria das relações EUA-Síria e a cooperação nas áreas de inteligência e segurança”, afirmam os diplomatas norte-americanos em telegrama destinado à CIA, ao Departamento de Estado e às embaixadas dos EUA em Líbano, Jordânia, Arábia Saudita e Inglaterra.

Para Miqad e Mamlouk, essa estratégia passava por três pontos: com o apoio dos EUA, a Síria deveria ter maior papel na região, a política seria um aspecto fundamental para ações de cooperação contra o terrorismo e a população síria deveria ser convencida dessa estratégia com a suspensão dos embargos econômicos contra o país. Para Imad Mustapha, embaixador sírio em Washington, “os EUA deveriam retirar a Síria da lista negra”. Nas palavras de George W. Bush, o país fazia parte do “eixo do mal”, junto com Coreia do Norte e Afeganistão.

Armados pelos EUA, militantes do Estado Islâmico conseguiram lutar em cinco frente concomitantemente. Agência Efe/Reprodução

Apesar da discordância entre EUA e Síria quanto ao apoio de Assad a grupos como Hezbollah e Hamas, os dois países concordavam quanto à necessidade de interromper o fluxo de guerrilheiros estrangeiros para o Iraque e impedir a proliferação de grupos radicais, como a Al-Qaeda, o ISIS e o Junjalat, uma facção palestina com a mesma orientação política. Para Benjamin, as armas chegavam ao Iraque e ao Líbano contrabandeadas pelo território sírio.

Mamlouk reforçou a “experiência síria em combater grupos terorristas”. “Nós não ficamos na teoria, tomamos atitudes práticas”, foram as palavras do chefe de inteligência de Assad. Segundo o general, o governo sírio não mata ou ataca imediatamente esses grupos. “Primeiro, nós nos infiltramos nessas organizações e entendemos o funcionamento delas”. De acordo com Damasco, “essa complexa estratégia impediu centenas de terroristas de entrarem no Iraque”.

Guerra do Iraque e surgimento do Estado Islâmico

No entanto, apesar de afirmarem cooperar com a Síria para combater o terrorismo, os EUA também trabalharam para armar os opositores sírios e isso causaria um problema maior na região: a criação do atual Estado Islâmico. Segundo documentos obtidos pelo jornal britânico Guardian, grande parte do armamento utilizado pelo ISIS (antigo nome do Estado Islâmico) veio de grupos armados pelos EUA e cooptados por Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Califado Islâmico, que hoje controla territórios na Síria e no Iraque.

O ISIS e os interesses geopolíticos: Entrevista com Marcelo Zero

ISIS, ou IS em formação. Eles possuem o hábito de divulgar as atrocidades que cometem para fazer propaganda e espalhar o medo. Telegraph/Reprodução

Por Rennan Martins

E eis que, pouco mais de dois anos após encerrar formalmente a última intervenção no Iraque, os EUA se lançam a mais uma de suas empreitadas sangrentas, dessa vez contra os fundamentalistas sunitas do ISIS (Islamic State of Iraq and Syria {ou Levante}- Estado Islâmico do Iraque e da Síria), ou simplesmente IS. O grupo consolidou seu domínio em um terço do território sírio, e um quarto do iraquiano nos últimos meses, sem encontrar grande resistência. Possuem sob controle diversos poços de petróleo – usados para o financiamento da Jihad – e ainda a maior hidrelétrica do Iraque, que fornece água e eletricidade para uma vasta porção do país.

Mapa que mostra a área sob controle do ISIS, uma grande região do Iraque e da Síria. The Economist/Reprodução

As ofensivas iniciaram na sexta-feira e supostamente são direcionadas a infraestrutura de guerra dos militantes do IS no sentido de deter avanços sobre áreas estratégicas e defender minorias religiosas intoleradas pelos jihadistas. Obama sinalizou que não pretende retomar missões por terra, mas que esta operação é de “longo prazo”, o que levanta dúvidas sobre as reais motivações de Washington.

A BBC informa que no sábado (9) os militares alegaram ter destruído tanques e veículos blindados por meio de bombardeios com caças e drones, e que estes ataques visavam libertar a minoria religiosa Yazidi, a qual estava encurralada nas montanhas próximas a cidade de Sinjar, sem água ou comida.

Considerando o quão complexas são as questões étnicas que envolvem o Oriente Médio e que o jogo de interesses geopolíticos norte-americanos passa ao largo do discurso dos direitos humanos e da democracia, resolvi conversar com o sociólogo e especialista em relações internacionais, Marcelo Zero. Nesta pequena entrevista ele nos esclarece – traçando também um panorama maior – que os aliados dos EUA no Oriente Médio, como por exemplo a Arábia Saudita, financiaram largamente o IS no objetivo de derrubar Assad na Síria, o que indica que estão intervindo agora por terem perdido o controle daqueles que antes serviam a seus propósitos.

Confira:

O que é o ISIS? Que políticas este movimento pretende implantar no Oriente Médio?

O ISIS (Islamic State of Iraq and Syria {ou Levante}- Estado Islâmico do Iraque e da Síria) é uma organização que nasceu, declaradamente, em abril de 2013, na Síria. Esse grupo emergiu como uma dissidência da Al-Qaeda iraquiana e síria. É liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, um iraquiano sunita de aproximadamente 40 anos, nascido em Samarra, norte de Bagdá.

Logo após a invasão dos EUA ao Iraque, em 2003, Baghdadi se juntou aos jihadistas que passaram a combater a invasão e, posteriormente, o governo xiita do primeiro-ministro Al-Maliki, lá colocado pelos EUA.

Ao princípio, Baghdadi e seu grupo permaneceram fiéis à Al-Qaeda. Mas, ao longo da guerra civil na Síria, na qual ele se envolveu intensamente, suas habilidades táticas e militares o fizeram destacar-se. Tais habilidades tornaram a sua liderança mais atraente para os jovens jihadistas que a liderança tradicional da Al-Qaeda iraquiana de Ayman al-Zawahiri, um teólogo islâmico que não tem habilidades militares semelhantes.

Em março de 2013, ele conseguiu tomar a capital provincial de Raqqa, uma importante cidade síria e a primeira capital de província que caiu nas mãos dos rebeldes sírios. Esse notável êxito militar o catapultou como uma grande referência entre os jihadistas. A partir daí, passou a fazer seu voo solo, independente da Al-Qaeda.

A agenda do Estado Islâmico é, como o próprio nome indica, a criação de um estado islâmico no Levante, regido por uma sharia fundamentalista estrita.

Seu objetivo é radical e seus métodos são drásticos. São fundamentalistas sunitas que rejeitam xiitas, curdos, cristãos, yazidis, turcomenos e quaisquer outros grupos religiosos e étnicos que existem no Iraque e na Síria. Em suas regiões ocupadas, exigem a conversão ao sunismo e às suas leis, sob pena de morte. Também não se acanham em executar sumariamente aqueles que opõem alguma resistência ao seu avanço. Gostam de exibir essas execuções na internet, como forma de difundir terror e pânico.

E quanto à guerra civil na Síria. O ISIS está envolvido?

Sim, esteve e está. O ISIS, agora chamado simplesmente de Estado Islâmico, nasceu e se fortaleceu na guerra civil da Síria. Eles, assim como outros grupos de jihadistas, receberam armas e dinheiro de países aliados dos EUA na região, como Qatar, Arábia Saudita e Kuweit. Ademais, em seus avanços na Síria eles capturaram bancos e poços de petróleo no leste do país. Estima-se que, antes de iniciar a sua campanha no centro do Iraque, o Estado Islâmico já tinha ao redor de U$ 900 milhões. Entretanto, depois de capturar Fallujah, Ramadi e, principalmente, Mosul, segunda cidade do Iraque, o Estado Islâmico teria hoje, segundo algumas estimativas, cerca de US$ 2 bilhões para financiar suas atividades. A maior parte desses recursos vem de poços de petróleo por eles dominados.

É possível afirmar que o financiamento dos EUA aos insurgentes na Síria também auxiliou o ISIS?

Apesar de não haver evidências de um envolvimento direto significativo dos EUA no financiamento e apoio aos jihadistas que combatem Al-Assad, é evidente que os países aliados dos EUA que comprovadamente financiam a guerra civil na Síria o fizeram e fazem com a concordância e o apoio dos EUA, que, até pouco tempo, estavam muito empenhados em derrubar o governo sírio alauíta.

Quem atualmente está a frente do governo do Iraque? Como podemos caracterizar este governo?

O Iraque tem hoje o governo do primeiro–ministro Al-Maliki. Ele chegou ao poder em 2006, numa manobra patrocinada pelos EUA. Após as eleições parlamentares de dezembro de 2005, ganhas pela Aliança do Iraque Unido, foi escolhido primeiro-ministro Ibrahim Al-Jaafari, uma grande liderança xiita. Contudo, os EUA consideraram Al-Jaafari muito próximo à Teerã e acabaram forçando, em abril de 2006, a escolha de Al-Maliki, após uma investigação da CIA que teria revelado que ele era suficientemente independente do Irã.

No entanto, Al-Maliki sempre despertou as antipatias de curdos e sunitas e nunca foi capaz de unir o Iraque. Sua fama de corrupto não ajudou.

Os curdos do norte do Iraque acabaram constituindo uma região independente. As tribos sunitas do centro do Iraque também não se submeteram ao domínio de Al-Maliki. Aos poucos, os sunitas que aceitaram participar do governo do Iraque foram se afastando de Al-Maliki, acusando-o de favorecer os xiitas. Além disso, Al-Maliki nunca conseguiu ter uma relação muito boa com Moqtada al-Sadr’s, uma liderança xiita chave do sul do país, chefe da Mahdi Army, um forte grupo de milícias xiitas armadas.

Assim, quando o Estado Islâmico começou a avançar pelo Iraque, os sunitas, inclusive membros de polícias e do exército, acabaram não se opondo. Muitos até aderiram ao jihadistas.

Na realidade, o avanço do Estado Islâmico à Bagdá foi detido fundamentalmente pelas milícias xiitas da Mehdi Army, e não pelo exército regular iraquiano.

Agora, o Estado Islâmico avança sobre os curdos do norte do Iraque e persegue outras minorias como a dos yazidis, grupo que tem uma religião muito própria, mistura de islamismo com zoroastrismo. Turquia e EUA já estão bombardeando essa região, procurando deter os jihadistas.

Porque os EUA pretendem manter o atual governo iraquiano? Que interesses possuem?

Na realidade, os EUA vêm pressionando Al-Maliki a sair. Ele não serve mais aos propósitos dos EUA no país e na região. Uma opção poderia ser Moqtada al-Sadr’s, que tem o apoio do Irã. Ironicamente, o Irã virou um aliado importante para que os EUA mantenham algum controle sobre o Iraque.

O Iraque, riquíssimo em petróleo (tem a terceira reserva mundial de hidrocarbonetos), é, obviamente, um país-chave do grande Oriente Médio. Os EUA precisam controlá-lo, caso contrário não terão mais influência no Levante, que ficará à mercê dos jihadistas sunitas, de um lado, e do Irã, de outro.

Porque Washington intervém em alguns países dizendo ser eles ditaduras, como por exemplo a Síria, enquanto apoiam outros regimes autoritários como o da Arábia Saudita?

Tais intervenções não têm nenhuma relação com os regimes políticos dos países ou com questões relativas a direitos humanos. Isso serve apenas como justificativa. Os EUA apoiam qualquer regime que os favoreça e combatem quaisquer regimes refratários aos seus interesses. Na América Latina, por exemplo, não se acanharam em derrubar regimes democráticos e instituir ditaduras que os favoreciam. No Oriente Médio, combatem algumas ditaduras, como sem dúvida era a de Saddam Hussein, a quem armaram quando queriam que ele combatesse o Irã, mas não se envergonham em apoiar regimes medievais como o da Arábia Saudita, o dos Emirados Árabes ou o do Kuwait, entre vários outros.

É tudo realpolitik. A Pax Americana prescinde de democracia.

Querem ser putas do Tio Sam? Pois paguem!

Por The Saker, via Rede Castor Photo

The Saker

Fiz uma pausa na minha vida no espaço “de carne e osso”, para comentar a grande novidade do dia:

● – A Rússia está proibindo, por 12 meses, todas as importações de carne de boi, de porco, frutas e legumes, carne de frango, pescado, queijos e laticínios em geral, da União Europeia, dos EUA, da Austrália, do Canadá e do Reino da Noruega, para a Rússia.

● − A Rússia também fechou o espaço aéreo para linhas europeias e norte-americanas que sobrevoem [seu] espaço aéreo para o leste da Ásia, a saber, a Região do Pacífico Asiático, e está considerando mudar os pontos chamados de entrada e saída do espaço aéreo russo, para voos europeus, agendados e charter.

Além disso, a Rússia está preparada para modificar as regras de uso das rotas transiberianas e interromperá conversações com autoridades aéreas dos EUA sobre o uso das rotas transiberianas. Finalmente, a começar nesse inverno, podemos revogar direitos adicionais concedidos por autoridades aéreas russas além de acordos prévios.

EUA e União Europeia vs export/import Rússia

É desenvolvimento interessante e importante, que exige análise muito mais sutil que o cálculo estreito do quanto pode custar aos EUA ou à União Europeia. Em vez de tentar cálculo desse tipo, destacarei os seguintes elementos:

Primeiro, é resposta tipicamente russa. Há uma regra básica que todas as crianças russas aprendem na escola, em brigas de rua, no exército e por toda parte: nunca ameace e nunca prometa; aja. Diferente dos políticos ocidentais que passaram meses ameaçando sanções, os russos limitaram-se a dizer vagamente que se reservavam o direito de responder. Então, BANG! Aí está embargo amplo e de grande alcance, o qual, diferente das sanções ocidentais, terá forte impacto no ocidente, mas ainda maior na própria Rússia (mais sobre isso, adiante).

Essa tática de “palavras zero & só ação” é concebida para maximizar a contenção de atos hostis: uma vez que os russos nunca anunciaram antes o que poderiam fazer como retaliação, só Deus sabe o que podem fazer agora, na sequência! :-)

Segundo, as sanções escolheram a dedo os próprios alvos. Os europeus têm agido como prostitutas sem cérebro nem autorrespeito em todo esse assunto; sempre se opuseram às sanções, desde o primeiro momento, mas não tiveram coragem de fazer-saber ao Tio Sam. Por isso, acabaram tendo de render-se total e vergonhosamente. A mensagem dos russos é simples: “Querem ser putas do Tio Sam? Pois paguem o preço!” Esse embargo ferirá especialmente o sul da Europa (Espanha, França, Itália, Grécia) cuja produção agrícola sofrerá muito. São também os países mais fracos na União Europeia. Ao atingi-los, a Rússia está maximizando a inevitável fricção dentro da União Europeia em torno das sanções contra a Rússia.

Terceiro, não é só que as empresas de aviação da União Europeia sofrerão com custos mais altos e tempos de voo mais longos nas importantíssimas rotas da Europa à Ásia: as empresas de aviação asiáticas nada sofrerão, o que assegura às segundas dupla vantagem competitiva. Que tal esse arranjo, para castigar um dos lados e recompensar o outro? A União Europeia criou problemas para uma empresa aérea russa (Dobrolet), por causa de seus voos para a Crimeia, e por isso toda a comunidade das empresas aéreas da União Europeia pagará o preço de tremenda desvantagem em relação às suas contrapartes asiáticas.

Vai desfazer nossa amizade no Facebook?

Quarto, a Rússia usou essas sanções para fazer uma coisa vital para a economia russa. Explico-me: depois do colapso da URSS, a agricultura russa permaneceu em completo desarranjo, e Yeltsin só fez piorar tudo. Os agricultores russos simplesmente não podiam competir contra avançadas empresas de agroindústria, que se beneficiam de grande economia de escala, de pesquisa química e biológica de alta (e caríssima) tecnologia, que controlam toda a cadeia de produção (quase sempre coligadas em imensas empresas holdings) e têm alta capacidade para marketing e qualidade. O setor agrícola russo precisava muito, precisava desesperadamente, de barreiras e tarifas que o protejam contra as gigantes capitalistas ocidentais; mas, em vez disso, a Rússia só fez ordenar-se voluntariamente pelos padrões da OMC; até se tornou membro. Agora, a Rússia está usando esse embargo total para dar à agricultura russa um tempo crucialmente necessário para investir e alcançar fatia muito maior do mercado russo.

Não esqueçam que os produtos russos são LIVRES DE ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS; [20/5/2014, “Rússia prendeu o demônio Monsanto de volta na garrafa”, F. William Engdahl, Global Research, Canadá (em inglês)] que usam muito menos conservantes, antibióticos, corantes, intensificadores de sabor e pesticidas. E, dado que são produção local, não exigem que se usem técnicas desse tipo de refrigeração/preservação que, como todos sabem, fazem todos os produtos ficar com gosto de caixa de papelão. Em outras palavras, os produtos agrícolas russos têm muito melhor sabor e qualidade – o que, como se sabe, não basta para fazer um campeão de mercado. Esse embargo servirá como impulso poderoso para investir, desenvolver, e alcançar melhores fatias de mercado.

Quinto, há 100 países que não votaram com os EUA na questão da Crimeia. Os russos já anunciaram que esses são os países com os quais a Rússia comerciará para obter produtos que não se possam produzir indigenamente. Boa recompensa a quem se levanta contra o Tio Sam.

Sexto, é pouquinho, mas é doce: vocês perceberam que as sanções da União Europeia foram impostas só por três meses e “para posterior revisão”? Ao impor embargo por 12 meses, a Rússia também envia mensagem bem clara: “E agora?! Quem vocês acham que se beneficiará da confusão que vocês armaram?”.

Sétimo, é absolutamente errado calcular que o país X da UE exportava Y milhões de dólares à Rússia, e daí concluir que o embargo russo custará Y milhões de dólares ao país X da UE. Por que está errado? Porque a não venda desse produto criará um excedente que afetará adversamente a demanda ou, se a produção cair, afetará os custos de produção (economias de escala). Na direção inversa, para um hipotético país não-UE Z, um contrato com a Rússia pode significar dinheiro suficiente para investir, modernizar-se e tornar-se mais competitivo, não só na Rússia, mas nos mercados mundiais, inclusive na UE.

Sanções!

Oitavo, os países bálticos desempenharam papel particularmente daninho em todo o caso da Ucrânia, e agora algumas de suas indústrias mais lucrativas (por exemplo, de pescado), que eram 90% dependentes da Rússia, terão de fechar. Aqueles países já estão em terrível confusão, mas agora a coisa piorará muito. Mais uma vez, a mensagem bem simples: “Querem ser putas do Tio Sam? Pois paguem!”

Nono, e esse é tópico realmente importante: o que está acontecendo é que a Rússia vai gradualmente se separando das economias ocidentais. O ocidente rompeu alguns laços financeiros, militares e aeroespaciais; a Rússia rompeu os laços monetários, agrícolas e industriais. Não esqueçam nem por um instante que o mercado EUA/UE é mercado em processo de naufrágio, afetado por profundos problemas sistêmicos e questões sociais gigantescas. Em certo sentido, a comparação perfeita ainda é o Titanic, com a orquestra tocando enquanto o navio afundava. A Rússia é como um passageiro que, naquele momento, recebeu a notícia de que as autoridades do Titanic não o consideravam bem-vindo a bordo e o desembarcariam no próximo porto. Quer dizer… Mas… Que diabo de ameaça é essa?!

Décimo e último, mas de modo algum menos importante, essa guerra comercial, combinada à russofobia histérica do ocidente, está oferecendo a Putin a melhor campanha de Relações Públicas com que o Kremlin poderia sonhar. A propaganda na Rússia só tem de dizer à população a mais absoluta verdade:

Nós russos fizemos tudo certo; fizemos tudo conforme o manual deles; fizemos todo o possível para desescalar essa crise; e, em troca, a única coisa que pedimos foi que, por favor, façam parar o genocídio do nosso povo na Novorrússia… E o que fez o Ocidente? Como respondeu? Com uma campanha insana de ódio, com sanções contra nós e com apoio total aos nazistas genocidas em Kiev.

Além disso, como quem acompanha atenta e cuidadosamente a imprensa-empresa russa, posso dizer a vocês que o que está acontecendo hoje parece muito com coisa já conhecida. Parafraseando Clausewitz, pode-se dizer que o que estamos vendo hoje é “uma continuação da IIª Guerra Mundial, mas por outros meios”. Em outras palavras, uma luta a ser combatida até o fim, entre dois regimes, duas civilizações que não podem conviver no mesmo planeta e que estão atadas uma à outra, em luta de vida e morte. Nessas circunstâncias, o apoio do povo russo ao presidente Putin só fará aumentar ainda mais.

Em outras palavras: em movimento que os judocas conhecem bem, Putin usou a fúria da campanha ocidental anti-Rússia e anti-Putin, mas contra o ocidente e a favor da Rússia e de Putin: a Rússia beneficiar-se-á de tudo isso, economicamente e politicamente. Longe de ser ameaçada por algum tipo de “Maidan nacionalista” no próximo inverno, o regime de Putin será fortalecido pelo modo como gerenciou a crise (os índices de aprovação popular de Putin estão ainda mais altos que antes).

Sim, claro, os EUA já mostraram que têm vasto conjunto de capacidades para ferir a Rússia, sobretudo mediante um sistema de cortes e tribunais de justiça (nos EUA e na UE) que é tão subserviente ao estado profundo dos EUA, quanto as cortes e os tribunais da Coreia do Norte são subservientes ao “Amado Líder” deles, em Piongueangue. E a perda total do mercado ucraniano (de importações e de exportações) também ferirá a Rússia. Temporariamente. No longo prazo, toda essa situação é imensamente proveitosa para a Rússia.

Entrementes, Maidan está novamente em fogo, Andriy Parubiy renunciou, e os Ukies não param de bombardear hospitais e igrejas na Novorrússia. Sem novidades, pois.

Movimento livre na União Europeia

Quanto à Europa, amanheceu furiosamente bombardeada e em choque. Francamente, nessa manhã, minha feia capacidade para sentir prazer ante a desgraça de alguns parece não ter limites. Que aquelas arrogantes não entidades do tipo de Van Rompuy, Catherine Ashton, Angela Merkel ou José Manuel Barroso se afoguem na tempestade de merda que a estupidez deles, a falta de vergonha, de coragem, de espinha dorsal dessa gente, criou.

Nos EUA, Jen Psaki parece viver sob a impressão de que a região de Astrakhan mudou-se durante a noite para a fronteira da Ucrânia, enquanto o Ministério de Defesa da Rússia anuncia que:

(…) abrirá contas especiais nas redes sociais e redes abertas de distribuição de vídeos e filmes, para conseguir fazer chegar ao Departamento de Estado dos EUA e ao Pentágono informação prestável, não errada, sobre as ações do exército russo.

Será que, tudo isso posto, os líderes da UE conseguirão entender que puseram seu dinheiro no cavalo errado?

Tradução: Vila Vudu

O Sionismo, Israel e as políticas genocidas

Israel bombardeia alvos indiscriminadamente em Gaza. Meta é ocupar toda área, a qualquer custo. Malta Today/Reprodução

Por Rennan Martins

O presente artigo tem por finalidade traçar um breve histórico do Sionismo e suas origens, e em seguida analisar a retórica das autoridades israelenses em torno das tensões históricas com o povo palestino na Faixa de Gaza, para então comparar esta com as reais políticas implementadas na localidade.

Sustento nele a tese de que há distorção deliberada da realidade por meio de narrativas favoráveis, primeiramente produzidas pelas autoridades governamentais do Estado de Israel. Estas narrativas são reverberadas acriticamente pelos grandes meios de comunicação ocidentais, principalmente os norte-americanos. A atuação integrada entre os elementos citados fabrica o consenso da opinião internacional acerca da tolerância aos sistemáticos crimes de guerra e de lesa-humanidade praticados por parte do regime sionista.

O Sionismo: histórico e visões

O ensaio de Hanna Braun, datado de 2001 e intitulado A Basic History of Zionism and its Relation to Judaism, traça um histórico esclarecedor do movimento sionista político – o que impulsionou a posterior fundação do Estado de Israel, em 1948. Vejamos algumas informações que nele constam.

Seu fundador foi o jornalista Theodore Herzl (1860 – 1904), judeu nascido em Viena. Herzl foi enviado a Paris em 1894 para cobrir o caso Dreyffus, que trouxe a luz um forte antissemitismo, tanto no alto escalão das Forças Armadas, quanto na imprensa francesa.

Ao se deparar com esta pesada carga de antissemitismo, Herzl chegou a conclusão de que os judeus só teriam paz quando formassem seu próprio Estado, e assim passou a divulgar a causa denominada sionista.

Na época ganhou projeção, o que o aproximou de diversas autoridades e diplomatas. O resultado foi o Império Britânico, maior potência mundial daqueles tempos, oferecendo a Uganda ou a Argentina como possíveis locais para construção de um país judeu.

Porém, já no primeiro Congresso Sionista, realizado em 1897, na cidade de Basle, Herzl deparou-se com a majoritária parte do movimento – a dos judeus ortodoxos do leste europeu – aliados em torno da ideia de não aceitar outra terra que não a de Sião. Esta corrente iniciara a ocupação por meio da compra das terras palestinas e se guiavam mais por valores religiosos do que por um sentimento nacionalista.

Herzl aderiu a tese da volta a Sião antes mesmo do congresso citado, e em seu livro Der Judenstaat (O Estado Judeu) deu o tom, declarando que o futuro país seria “uma trincheira da Europa contra a Ásia, da civilização contra a barbárie”, conclamava ainda que os sionistas deveriam se negar a cooperar e trabalhar com não-judeus após ocupação da Palestina.

Estes princípios norteadores prevaleceram, mesmo sob os protestos das lideranças árabes, que denunciavam as políticas de não contratação e boicote ao comércio que sofriam. Em 1919, o primeiro-ministro britânico, Lord Balfour, assim escreveu: “Na Palestina, nós nem mesmo propomos consultar os habitantes. As propostas e anseios imediatos (dos sionistas) para seu futuro são muito mais importantes que as demandas e prejuízos dos 700.00 árabes que hoje vivem na Palestina.”

Os primeiros levantes palestinos se deram na terceira década do século XX. O pior destes fora o de 1929, quando massacrou-se 65 judeus. Estas revoltas foram alimentadas, principalmente, pelas hostilidades praticadas pelos judeus do leste Europeu que para lá migraram.

A autora, que exilou-se na Palestina em 1937 para escapar da Alemanha Nazista e em 1958 emigrou para a Inglaterra, desiludida com o Estado israelense, prossegue relatando muito do que vivenciou, chegando a alegar que Hitler foi simpático com o sionismo “assim como outros movimentos da direita antissemita”. Concluiu ela que Israel caminha para uma perigosa teocracia “muito parecida com o Talibã”.

Com análises também pertinentes e corroborantes com a visão de Braun, temos Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judia, que na década de 40 diagnosticou diversas contradições da doutrina sionista, estas observáveis ainda hoje.

Arendt considerava impossível a construção da paz em um país que encara seus vizinhos como inimigos, enxergava o nacionalismo sionista como dependente de uma potência estrangeira, considerando que este só conseguia agir pela força bruta.

Em 1944, em seu livro Zionism Reconsidered, alertava: “Judeus que conhecem sua história sabem que esta situação gerará uma nova e inevitável onda de ódio aos judeus; o antissemitismo de amanhã notará que os judeus não somente lucraram com a presença de uma grande potência estrangeira como a premeditaram e, por isso, são culpados das consequências…”

Arendt previu, em 1948, que o futuro de Israel seria algo como a cidade de Esparta, em que a cultura judaica seria desprezada, e o país giraria em torno das estratégias militares.

O conflito em Gaza: retórica e fatos

A mais nova investida israelense na Faixa de Gaza teve início depois do assassinato de três jovens israelenses, que tiveram seus corpos encontrados no dia 30 de junho, em Hebrom. Este crime rapidamente foi retaliado por grupos judeus radicais os quais queimaram vivo um rapaz palestino.

O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se prontificou a imputar a autoria do crime contra seus cidadãos ao Hamas, conseguindo pretexto pra mais uma brutal intervenção militar que já deixou 1865 palestinos mortos, 408 deles crianças. Em meio ao conflito, descobriu-se que o Hamas não tinha parte no crime em questão, mas esse é um mero detalhe para os sionistas.

Por trás da retórica da autodefesa e do combate ao terrorismo, o que se encontra é a intenção de sufocar a existência dos palestinos em Gaza, para assim ocupar todo o território com colonos etnicamente compatíveis a um Estado judeu.

O argumento do combate ao terrorismo é repercutido pela mídia ocidental sem o mínimo de reflexão. Este não se sustenta, tendo em vista que a lei internacional reconhece que a resistência a uma ocupação estrangeira é legítima e não configura terrorismo. Os atos terroristas são isolados se levarmos em conta essa questão.

É também extremamente incompatível com a realidade alegar que Israel pratica autodefesa. Enquanto a imensa maioria dos foguetes do Hamas nem sequer atinge o solo israelense, o que vemos é Israel bombardear 6 escolas da ONU nos últimos ataques, destruindo até mesmo a única usinade energia palestina. Tudo isso com a cumplicidade dos Estados Unidos, que aprovaram nos últimos dias uma ajuda de 225 milhões de dólares, ajuda esta que visa recompor os sistemas de misseis “de defesa”.

Outra distorção que praticam, em conjunto com os meios de comunicação é declararem-se uma democracia contra o autoritarismo dos muçulmanos. Israel não possui nem mesmo constituição, está a mercê de qualquer arbitrariedade das autoridades sionistas. A atuação da imprensa é submetida a censura, que advertiu até mesmo o New York Times no último dia 2. Pouco se fala sobre este extremo autoritarismo, porém, trata-se de autocensura dos veículos favoráveis, pois, quando questionada sobre esta prática, a chefe da polícia federal israelense, Jodi Rudoren, alegou que todos devem submeter-se a ela “assim como as leis de trânsito ou qualquer outra lei do país”.

Temos também a falácia que diz que o Hamas usa civis como “escudo humano”. Esta cai por terra quando constatamos o bombardeio a escolas citado, mas fica ainda mais evidente se lembrarmos do ataque de mísseis que matou 4 crianças palestinas que brincavam numa praia em Gaza, no último dia 15. Este foi testemunhado e relatado pelo correspondente do The Guardian, Peter Beaumont.

Mas, por vezes, os articulistas escalados na promoção e defesa das práticas sionistas pecam pela sinceridade, e acabam nos expondo a verdade. No último dia 1, o Times of Israel publicou artigo intitulado When Genocide is Permissible, no qual o autor Yochanan Gordon defende que em circunstâncias específicas o genocídio não é somente permissível mas necessário. A publicação foi tirada do ar, mas o cache está disponível.

A real razão desta nova investida se dá na histórica aliança entre Fatah e Hamas, que formaram no início do ano uma coalizão governamental. Este ganho de força e representatividade palestina não pode ser tolerado por Israel e suas políticas colonialistas e higienistas.

Israel procura inviabilizar de todas as formas a existência dos palestinos e um dos principais meios para isto é o bloqueio econômico, vigente desde 2006. Qualquer entrada ou saída de mercadoria da Faixa de Gaza está sujeita a primeiramente o arbítrio das autoridades israelenses quanto a pertinência e conveniência da transação, se aprovada, inserem nela ainda os impostos.

O desemprego na região é de 40% e a população local precisa de constante ajuda humanitária. Além disso, Israel controla os recursos hídricos de Gaza, que não tem acesso ao mínimo per capita necessário para uma vida digna.

No último dia 5, a alta comissária das Nações Unidas, Navi Pillay, declarou que Israel tem “a necessidade agora mais do que nunca para que se assumam responsabilidade pelas crescentes evidências de crimes de guerra e um número nunca visto de vítimas civis, incluindo crianças”.

Fidel Castro pronunciou-se em artigo publicado originalmente no Granma, também no dia 5, com uma interessante reflexão: “O genocídio dos nazistas contra os judeus colheu o ódio de todos os povos da terra. Por que acredita o governo desse país que o mundo será insensível a este macabro genocídio que hoje está cometendo contra o povo palestino? Por acaso se espera que ignore quanto há de cumplicidade por parte do império norte-americano neste massacre desavergonhado?”

Israel e EUA mantinham a opinião pública concordante ao massacre em Gaza por meio da censura israelense concomitante ao circo midiático que fabricava o consenso. Passaram a ser derrotados moralmente pela divulgação de informações reais que a massificação das tecnologias de mídia tornou possível. Esse é o início da queda da tirania.

Rússia fecha mercado aos países que lhe impuseram sanções

Via RT

Telegraph/Reprodução

O presidente da Rússia, Vladímir Putin, firmou um decreto o qual proíbe ou restringe, por um ano, a entrada de produtos dos países que estão impondo sanções contra a Rússia.

O decreto que trata “da aplicação de determinadas medidas econômicas especiais, para garantir a segurança da Federação da Rússia”, entrou em vigência ontem (6), segundo o site do Kremlin.

É previsto que as medidas aprovadas vigorem por um ano.

Desde esta quarta (6) está proibida ou restringida a entrada em território russo, de produtos agrícolas, alimentos e matérias-primas originários dos países que se uniram as políticas de sanções de Washington e Bruxelas.

As medidas tomadas por Putin aplicam-se aos Estados que “decidiram impor sanções econômicas contra pessoas jurídicas ou físicas russas, ou se uniram a decisão”, segundo o documento. Desta forma, Rússia fecha seu mercado aos produtos dos EUA, União Europeia, Noruega, Austrália e Canadá.

O presidente russo instruiu ao governo que determine os produtos que não podem ser importados dos países que adotaram sanções contra Moscou. A listagem dos produtos agrícolas e alimentícios cuja entrada será proibida em território russo já está em realização, segundo a porta-voz do primeiro-ministro russo, Natalia Timakova.

O setor agrário russo deve assumir a produção de mercadorias que antes eram importadas

A agroindústria russa tem suficiente capacidade para compensar os produtos que a Rússia proibiu de importar, provenientes dos EUA, UE, Noruega, Austrália e Canadá, países que estão embargados devido a sanções aplicadas contra a Rússia, afirmou a Itar-Tass, o diretor da Associação de Produtores e Provedores de Produtos Alimentares, Maxim Protásov.

Muitas categorias de produtores russos estão dispostos a aumentar a capacidade de produção para atingir este objetivo, assegurou Protásov.

Além disso, o decreto de Putin fomenta indiretamente o consumo de produtos orgânicos do mercado local, segundo o presidente do Comitê da Duma, a Estatal de Questões Agrícolas, Nikolái Pankov.

Ainda segundo o político, as medidas aprovadas pelo presidente russo também estimularão a produtividade da agricultura, atraindo maiores investimentos nas empresas dos ramos agrícolas correspondentes, resultando em aumento dos postos de trabalho no setor agroindustrial.

Na última terça, o chefe do Estado russo transmitiu ao governo instruções no sentido de preparar uma resposta “cautelosa” as sanções do Ocidente. “Devemos atuar com muito cuidado a fim de apoiar aos produtores nacionais e não prejudicar os consumidores”, sublinhou o presidente.

No último dia 29, a União Europeia impôs sanções econômicas a Rússia, estas afetam os setores da indústria petroleira e da Defesa, produtos de duplo uso e tecnologias sensíveis. As sanções entraram em vigor dia 1 de agosto.

Tradução: Rennan Martins