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Pepe Escobar: Balé da energia, Irã, Rússia e o “Oleogasodutostão”

Por Pepe Escobar, via Rede Castor Photo e RT

 

Usina nuclear de Bushehr, sul do Irã. (fornecida pela Rússia)

Um fascinante balé nuclear/de-energia envolvendo Irã, Rússia, EUA e a União Europeia está a ponto de decidir grande parte do que acontecerá adiante, no novo grande jogo na Eurásia.

Comecemos pelo que está acontecendo com o dossiê nuclear iraniano.

Conselheiro para assuntos de lei do Ministério de Relações Exteriores do Irã, Jamshid Momtaz, foi forçado a esclarecer que o acordo provisório assinado pelo Irã e os países do P5+1 em novembro de 2013 não é – ainda – acordo internacional.

No ponto em que estamos, a ravina que separa EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e Alemanha de um lado, e o Irã do outro lado, permanece muito larga. Na essência a ravina que realmente conta é entre Washington e Teerã. E isso infelizmente se traduz em alguns meses a mais, para que uma vasta brigada de sabotadores – de neoconservadores norte-americanos a sortimento variado de fazedores-de-guerra israelenses e da Casa de Saud – empurre o acordo na direção do colapso total.

Um dos mantras da sabotagem a partir de Washington é a tal “breakout capability” [aproximadamente, “capacidade para converter (qualquer coisa) em arma”] [1]; é conceito esquivo, impalpável, que se resume à possibilidade de centrífugas serem “adaptadas” de modo a adquirirem capacidade para produzir urânio enriquecido em quantidade suficiente para uma única bomba. Por causa dessa possibilidade, os EUA concluem que seria necessário impor uma limitação arbitrária sobre toda a capacidade de o Irã enriquecer urânio.

O outro mantra da sabotagem força o Irã a pôr fim a todo o seu programa de enriquecimento de urânio e, como se não bastasse, a abrir mão também dos seus mísseis. É ridículo: todos os exércitos do mundo têm mísseis, que são item de todas as forças armadas convencionais. Então, Washington muda de assunto e passa a falar só de mísseis que possam transportar ogivas nucleares que o Irã não possui. Por isso, todos os mísseis teriam de ser banidos.

Moscou e Pequim veem a tal “capacidade para converter (qualquer coisa) em arma” (“breakout capability”) pelo que a coisa é: problema inventado. Enquanto Washington só diz que quer algum acordo, Moscou e Pequim realmente querem um acordo – e afirmam que terá de ser respeitado, mediante monitoramento estrito.

(Da esq. p/ a dir.) Pres. Vladimir Putin da Rússia; PM Narendra Modi, da Índia; Pres. Dilma Rousseff, do Brasil: Pres. Xi Jinping da China em Fortaleza (BRICS – 2014)

O Supremo Líder Aiatolá Khamenei já demarcou publicamente a própria linha vermelha, para que não haja mal-entendidos: o acordo nuclear final terá necessariamente de preservar o direito de enriquecer urânio, que é direito legítimo de Teerã – e em escala industrial – como parte de uma política de energia de longo prazo. É o que os negociadores iranianos dizem desde o início. Assim sendo, impor como “condição inicial” que o Irã extinga seu programa de enriquecimento de urânio não é condição inicial de coisa alguma: é condição para que nada aconteça.

“Me sancione”, baby, outra vez, outra vez

O enriquecimento de urânio, como se podia prever, é a chave do problema. No ponto em que estão as coisas hoje, Teerã mantém mais de 19 mil centrífugas de enriquecimento instaladas. Washington quer reduzir esse número a umas poucas mil. Desnecessário acrescentar que Israel – que tem mais de 200 ogivas nucleares e os necessários mísseis de transporte para bombardear o Irã, e a coisa toda comprada e montada em negócios ilegais de compra de armas e muita ação clandestina de espionagem – insiste na cláusula de “enriquecimento zero”.

Numa corrente subterrânea simultânea, operam os “especialistas” norte-americanos/ israelenses que vivem de prever que o Irã pode produzir uma bomba em dois, três meses, ao mesmo tempo em que acusam Teerã por criar “obstáculos” em defesa de seu programa nuclear “ilegal”. Pelo menos por hora, afinal, a Conselheira de Segurança Nacional dos EUA, Susan Rice, calou a boca.

Outro ponto crítico de desacordo é o reator de água pesada de Arak, para pesquisas. Washington quer vê-lo por terra – ou convertido em usina hidrelétrica. Teerã rejeita e argumenta que o reator só produz isótopos para finalidades médicas e usos na agricultura.

E há também a histeria das sanções. A ONU e os EUA vêm surfando uma maré de sanções desde 2006. Teerã, no início, quis que aquelas pesadas sanções, que equivalem a guerra econômica total, fossem imediatamente levantadas; depois passou a preferir uma abordagem escalonada. Obama talvez até consiga levantar algumas das sanções – mas um Congresso dos EUA comandado de Telavive por controle-remoto tentará manter outras, por toda a eternidade.

Neste documento do NIAC (National Iranian American Council), a ser abordado com as devidas cautelas, há uma defesa bem detalhada da alternativa de assinar um bom acordo, em comparação com a alternativa de uma trilha apocalíptica rumo à guerra.

Supondo-se que venha a haver algum acordo, ponto crucialmente importante é a duração, a vigência do acordo. Washington quer acordo para duas décadas. Teerã, para cinco anos – e então o Irã passaria a ser tratado como qualquer outro dos 189 países signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear – que permite que estados que não tenham armas nucleares desenvolvam programas de energia nuclear para finalidades civis. Para conhecer uma perspectiva iraniana civilizada e bem informada, leiam “Negociações devem ser baseadas em realidades, não em ilusões: notas sobre as complexidades do caso nuclear do Irã”, Gholamali Khoshroo, 20/5/2014, Iranian Review (ing.).

De fato, é uma tragicomédia. Washington faz-se de The Great Pretender [“O grande fingidor”, The Platters, 1956; também, ótimo, Fred Mercury (NTs)], fingindo em tempo integral que Israel não tem armas nucleares, ao mesmo tempo em que tenta convencer todo o planeta de que Israel teria direito de armazenar quantas armas atômicas queira, enquanto o Irã não teria direito, nem aos meios convencionais para a própria defesa. Isso, sem dizer que Israel, armada com bombas atômicas, já ameaçou invadir e invadiu praticamente todos os países à sua volta, e o Irã nunca invadiu nada.

Dance no balé da energia

Duras que sejam, como realmente são, as sanções não forçaram Teerã a ajoelhar-se e render-se. Khamenei disse repetidas vezes que não era otimista quanto à possibilidade de efetivo acordo nuclear. O que realmente quer, muito mais que algum acordo, é economia melhorada. Agora, com as sanções começando a ruir, depois do acordo inicial de Genebra, há luz no fim do túnel.

Entram em cena as negociações super turbinadas entre Rússia e Irã. Incluem um negócio de energia de mais de US$ 10 bilhões, com novas usinas térmicas e hidrelétricas e uma rede de transmissão.

E, claro, o negócio de troca [ing. swap] pelo qual a Rússia pode comprar 500 mil barris de petróleo iraniano por dia. Detalhes serão finalizados no início de setembro. Não surpreende que Washington esteja em fúria; esse negócio eleva as exportações do Irã para mais de um milhão de barris/dia, questão que já havia sido acertada desde anteriormente, em Genebra.

Com a Rússia agora também sob sanções dos EUA e da União Europeia, Teerã previsivelmente teve de começar a fazer a corte à Europa como fonte alternativa ideal de gás natural. Escrevo há anos sobre isso. A Europa quer desesperadamente livrar-se da dependência da Gazprom russa. O Irã tem tudo para vender gás à Europa, transportando-o especialmente através da Turquia. Mas há muitos bloqueios políticos e logísticos – a começar pela necessidade de um acordo nuclear final – o que faz desse um cenário de longuíssimo prazo, na melhor das hipóteses.

Estação de bombeamento da Gazprom – Gás para a Europa

O balé da energia em que bailam Irã, Rússia, a União Europeia e os EUA é digno de um neo-Stravinsky geopolítico. Teerã cuida para não antagonizar Moscou – o maior fornecedor de gás natural para a Europa. Mas Teerã também sabe que, com EUA-Irã iniciando uma possível détente, a União Europeia fará absolutamente qualquer negócio, custe o que custar, para conseguir seduzir o Irã e investir no Irã.

O Vice-Ministro do Petróleo para Negócios Internacionais e de Comércio do Irã, Ali Majedi, com certeza já viu claramente de onde sopra o vento. Já fala de três diferentes rotas que Teerã pode usar para suas exportações de energia para o ocidente.

Segundo a Revista Estatística do Mundo da Energia da British Petroleum [orig. BP Statistical Review of World Energy], as reservas comprovadas de gás natural do Irã alcançam enormes-gigantescos 33,6 trilhões de metros cúbicos; as da Rússia estão em 32,9 trilhões de metros cúbicos. São duas usinas-monstro.

O problema é que o Irã está muito atrasado em relação à Rússia, nos quesitos investimentos e produção. Há poucos anos, em Teerã, especialistas em energia estimaram, a meu pedido, em cerca de US$ 200 bilhões o investimento necessário para modernizar a indústria iraniana e investir em infraestrutura doméstica de transporte e exportação.

Assim sendo, em termos realistas, a Rússia permanecerá como fornecedor-chave de gás para a União Europeia no futuro previsível, predominando sobre o valor estratégico do gás do Irã e da Ásia Central. E isso inclui o fato de que muitas das nações da União Europeia, apesar das futricas produzidas em tempo integral em Bruxelas, apoiam a construção do gasoduto Ramo Sul [orig. South Stream] que a Rússia escolheu.

Mas, agora, Teerã está no jogo – já atraindo um enxame de investidores estrangeiros poderosos e interessados, que chegam da Europa e da Ásia. Recente exposição internacional de produtos petroquímicos, petróleo, gás e refino, montada em Teerã, atraiu nada menos que 600 empresas estrangeiras, de 32 países.

O Supremo Líder já cobriu todas as trilhas

Majid Takht Ravanchi, Vice-Ministro de Relações Estrangeiras do Irã – e membro da equipe de negociadores do acordo nuclear – anda absolutamente em êxtase:

Naturalmente, Irã e Europa podem trabalhar em cooperação muito melhor no campo da economia, comércio e energia. Acreditamos que há espaço para melhorar muito.

Mas quem deu passo gigante à frente foi o Vice-Ministro do Petróleo do Irã, Ali Mejidi – ao ressuscitar o moribundo gasoduto Nabucco:

Com Nabucco, o Irã pode abastecer de gás a Europa. Somos a melhor alternativa à Rússia.

Nabucco, saga do “Oleogasodutostão” é questão que acompanhei já em detalhe, a história de um gasoduto que chegaria à Europa atravessando Turquia, Bulgária, Romênia, Hungria e Áustria carregando gás às vezes do Azerbaijão às vezes do Iraque, antes de naufragar espetacularmente por falta de investimentos.

Significa que o Irã estaria abrindo uma guerra de energia contra a Rússia. De fato, não. Nabucco é um gigantesco “se”, caríssimo, projeto para muito, muito longo prazo. E o gasoduto South Stream, embora esteja momentaneamente empacado, está pronto para funcionar.

Bulgária (próximo de Rasovo) – Soldando gasoduto South Stream da Gazprom (31/10/2013)

O que aconteceu nas sombras é que Washington levou ao conhecimento de Teerã que, se desistisse do projeto de gasoduto de US$ 10 bilhões Irã-Iraque-Síria, as sanções seriam “aliviadas”, e o Irã poderia ser autorizado a reviver o projeto Nabucco, obsessão europeia apoiada pelos EUA, concebida para rivalizar com o Ramo Sul.

Falar é fácil. No pé em que estão as coisas, é maior a probabilidade de o gasoduto Irã-Iraque-Síria conseguir financiamento nos próximos dois, três anos, que o Nabucco.

Paralelamente, por mais que as sanções de EUA e União Europeia contra a Rússia fortaleçam o Irã nas conversações nucleares, sobretudo em relação aos europeus, não significa que Teerã vá descartar a carta russa. Assim como os iranianos tiram proveito máximo da mais recente virada na trama, toda a política iraniana, de fato, já costura laços bilaterais muito mais íntimos com Moscou, para neutralizar “por bem” aquelas sanções contra o Irã.

E se Washington decidir manter as sanções para sempre, já há à mão um Plano B: cooperação ainda mais íntima com ambos, Rússia e China. Não por acaso, o Presidente Rouhani do Irã já descartou qualquer alvoroço sobre dificuldades nas relações Irã-Rússia:

Fortes laços políticos nos domínios de relações bilaterais, regionais e internacionais, além de firmes laços econômicos entre os dois países, demarcam o cenário para promovermos a paz e a estabilidade.

Isso recobre tudo, desde todos usarem o sistema paralelo do Banco da China para pagar pela energia iraniana que comprem, até as trocas acertadas só entre Irã-Rússia.

Em vários sentidos que se sobrepõem, o dossiê nuclear iraniano é agora como um salão de espelhos. Reflete um sonho nunca declarado de Washington: acesso absolutamente desimpedido, garantido às corporações norte-americanas, a um mercado virgem de 77 milhões de pessoas, inclusive uma jovem população urbana finamente educada, além de bonanza de energia para o “Big Oil” dos EUA.

Mas naquele mesmo salão de espelhos, vê-se também uma imagem iraniana: o Irã vai realizando seu destino como a maior das superpotências geopolíticas do Sudeste Asiático, a última encruzilhada entre Oriente e Ocidente.

Assim, em certo sentido, pode-se dizer que o Supremo Líder já cobriu todas as trilhas. Se Rouhani brilhar e acontecer um acordo nuclear final, o cenário econômico melhorará muito, especialmente mediante massivos investimentos europeus. Se Washington abortar o acordo, pressionada pelos lobbies corriqueiros, Teerã sempre poderá exercitar toda a sua “flexibilidade heroica”, [2] e seguir adiante – em integração cada vez mais próxima e mais completa com ambos, Rússia e China.

Tradução: Vila Vudu

Notas dos Tradutores:

[1] “Breakout capacity” [de CIA Glossary (aqui traduzido): aprox. “capacidade básica para conversão”]: “Conhecimento, infraestrutura e material que comumente permanecem abaixo do nível de tornarem-se suspeitos, mas que podem ser rapidamente adaptados ou reorganizados para permitir que o mesmo processo seja usado para produzir armas. Essa capacidade exige recursos previamente organizados e frequentemente se serve de tecnologia, equipamento ou conhecimento de duplo uso”.

[2] 19/9/2013, redecastorphoto, Pepe Escobar, “Obama-Rouhani: luz, câmera, ação”, Asia Times Online:

Khamenei avalizou plenamente a ofensiva diplomática de Rouhani, enfatizando – muito clara e explicitamente – dois conceitos: a “flexibilidade do herói”, como o lutador que cede, num momento ou noutro, por interesse tático, mas que jamais desvia os olhos e mantém o rival sempre à vista; e a “leniência do campeão” – que é o subtítulo sutilíssimo de um livro que o próprio Khamenei traduziu do árabe, sobre como o segundo Imã xiita, Hasan ibn Ali, conseguiu evitar uma guerra no século 7º, mostrando flexibilidade na relação com o inimigo.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire, Counterpunch e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.

Livros:

Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007.

Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.

Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

Porque a grande mídia parou de falar sobre o voo MH17, abatido na Ucrânia?

Por Niles Williamson, via Resistir

O silêncio ensurdecedor da grande mídia e do governo dos EUA acerca da investigação do abate ao voo MH17 da Malaysian Airlines, há um mês, dá sinais de encobrimento.

Nas horas e dias que se seguiram ao crash, sem uma única sombra de evidência, responsáveis dos EUA alegaram que o jacto de passageiros fora derrubado por um míssil terra-ar SA-22 disparado do território mantido por separatistas pró russo no Leste da Ucrânia. Eles lançaram uma campanha política a fim de obter duras sanções económicas contra a Rússia e fortalecer a posição militar da NATO na Europa do Leste.

Capa da ‘Der Spiegel’, 28/Julho/14. Apanhando a pista, os cães de ataque da CIA nos media estado-unidenses e europeus acusaram sem rodeios o presidente russo Vladimir Putin pelo crash. A capa da edição de 28 de Julho da revista alemã Der Spiegel mostrava as imagens das vítimas do MH17 circundando grossas letras vermelhas com o texto “Stoppt Putin Jetzt!” (Travem Putin agora!). Um editorial de 26 de Julho de The Economist declarava Putin como autor da destruição do MH17, enquanto a capa da revista morbidamente sobrepunha a cara de Putin a uma teia de aranha, denunciando a “teia de mentiras” de Putin.

Alguém que comparasse a demonização de Putin pelos media com o tratamento que deram a Saddam Hussein ou Muammar Gadafi tem de concluir que Washington estava a lançar uma campanha pela mudança de regime na Rússia tal como aquelas que executaram na Líbia e no Iraque – desta vez, loucamente, empurrando os Estados Unidos rumo à guerra com uma potência nuclear armada, a Rússia.

Contudo, depois de terem transformado o crash num casus belli contra a Rússia, os media dos EUA subitamente deixaram completamente de falar no assunto. O New York Times não considerou apropriado imprimir nem uma palavra sobre o crash do MH17 desde 7 de Agosto.

Não há qualquer explicação inocente para o súbito desaparecimento do MH17 dos media e da atenção política. A caixa negra do avião esteve durante semanas na Grã-Bretanha para exames e os satélites e radares militares estado-unidenses e russos estiveram a esquadrinhar intensamente o Leste da Ucrânia no momento do crash. A afirmação de que Washington não tem conhecimento pormenorizado das circunstâncias do crash e das várias forças envolvidas não é crível.

Se a evidência que está nas mãos de Washington incriminasse a Rússia e as forças apoiadas pela Rússia, ela teria sido divulgada para alimentar o furor dos media contra Putin. Se não foi divulgada, isto é porque a evidência aponta para o envolvimento do regime ucraniano de Kiev e dos seus apoiantes em Washington e nas capitais europeias.

Desde o princípio, a administração Obama nunca apresentou evidência para apoiar as acusações incendiárias de que Putin fora responsável pelo crash do MH17. No seu comunicado à imprensa de 18 de Julho, no dia seguinte ao crash, o presidente Obama declarou que ainda era “demasiado cedo para sermos capazes de imaginar que intenções tiveram aqueles que podem ter lançado este míssil superfície-ar”.

Apesar de cinicamente explorar o crash para pressionar e ameaçar a Rússia, Obama advertia que “provavelmente haverá desinformação” na cobertura do crash. Num reconhecimento indirecto de que não tinha provas para apoiar suas afirmações, ele disse: “Em termos de identificação específica de que indivíduos ou grupo de indivíduos ou pessoal ordenaram o ataque, como aquilo aconteceu, são coisas que penso estarem ainda sujeitas a informação adicional que estamos a reunir”.

Neste evento, a desinformação sobre o crash do MH18 veio da própria administração Obama. O secretário de Estado John Kerry prosseguiu em 20 de Julho num ataque nos media, argumentando que os separatistas pró russos e o governo russo eram responsáveis pelo derrube.

A única evidência que ele apresentou foram uns poucos dúbios “registos nos media sociais” postados na Internet. Ele apresentou registos áudio não autenticados de separatistas a falaram de um crash de avião, áudio editado e divulgado pela agência de inteligência SBU da Ucrânia, a qual trabalha estreitamente com a CIA; vídeo clips do YouTub a mostrar um camião a transportar equipamento militar não identificado ao longo de uma estrada; e uma desmentida declaração em media social a afirmar que a responsabilidade do derrube do avião atribuía-se ao líder separatista Igor Strelkov.

Muito rapidamente, a narrativa do governo dos EUA sobre o MH17 começou a entrar em colapso. Num comunicado de imprensa de 21 de Julho, a porta-voz do Departamento de Estado e antiga analista da CIA para o Médio Oriente, Marie Harf, declarou que as conclusões da administração Obama quanto ao derrube do avião foram “baseadas em informação aberta a qual é basicamente de senso comum”. Desafiada por repórteres a proporcionar evidência, ela admitiu que não podia: “Sei que é frustrante. Acreditem-me, tentámos obter tanto quanto era possível. E por alguma razão, por vezes não podemos”.

Depois de um mês, durante o qual Washington fracassou em apresentar evidência para apoiar suas acusações contra Putin, está claro que a ofensiva política dos governos NATO e a histeria dos media contra Putin eram baseadas em mentiras.

Se separatistas pró russos dispararam um míssil solo-ar, como afirma o governo dos EUA, a Força Aérea teria imagens na sua posse confirmando isso sem sombra de dúvida. O Defense Support Program da US Air Force utiliza satélites com sensores infra-vermelhos para detectar lançamentos de mísseis em qualquer lugar sobre o planeta e os postos de radar estado-unidenses na Europa teriam rastreado o míssil quando ele atravessava o céu. Estes dados de satélite e radar não foram divulgados, porque seja o que for que mostrem não se ajusta à narrativa cozinhada pelo governo dos EUA e os media.

O que aflorou, ao invés, foi uma série de evidências a apontarem para o papel do regime de Kiev apoiado pelos EUA no derrube do MH17. No dia seguinte ao de Kerry ter feito suas observações, os militares russos apresentaram dados de radar e de satélite indicando que um caça a jacto SU-25 ucraniano estava na vizinhança imediata e ascendia em direcção ao MH17 quando ele foi derrubado. A afirmação não foi corrigido e muito menos refutada pelo governo americano.

O denunciante da NSA William Binney e outros agentes aposentados da inteligência americana emitiram uma declaração no fim de Julho pondo em causa os dados dos media sociais apresentados por Kerry e pedindo a publicação de imagens de satélite do lançamento do míssil. Eles acrescentaram: “Estamos a ouvir indirectamente de alguns dos nossos antigos colegas que o que o secretário Kerry está a apregoar não se enquadra com a inteligência real”.

Em 9 de Agosto, o New Straits Times, da Malásia, publicou um artigo acusando o regime de Kiev pelo derrube do MH17. Declarava que a evidência do sítio do crash indicava que o avião fora derrubado por um caça ucraniano com um míssil seguido por fogo pesado de metralhadora.

Se bem que seja demasiado cedo para dizer conclusivamente como o MH17 foi derrubado, a preponderâncias das evidências aponta directamente para o regime ucraniano e, para além dele, o governo americano e as potências europeias. Eles criaram as condições para a destruição do MH17, apoiando o golpe dirigido por fascistas em Kiev no mês de Fevereiro que levou ao poder o actual regime pró ocidental. Os media ocidentais portanto apoiaram a guerra do regime de Kiev no Leste da Ucrânia para eliminar a oposição ao putsh, transformando a região na zona de guerra em que foi abatido o MH17.

Após o assassínio das 298 pessoas a bordo do MH17, no qual desempenharam um papel importante ainda que por explicar, os governos e as agências de inteligência ocidentais aproveitaram a tragédia numa manobra precipitada e sinistra para escalar ameaças de guerra contra o regime Putin. O silêncio indica consentimento e o silêncio ensurdecedor dos media ocidentais sobre a questão do envolvimento de Kiev no crash do MH17 atesta a criminalização não só da política externa do establishment como também dos seus lacaios dos media e de toda a classe dominante.

Fausto e o moralismo

Por Luiz Gonzaga Belluzzo, via Carta Capital

O neoliberalismo é também um projeto de retorno a uma ordem alicerçada exclusivamente em fundamentos econômicos

Fausto vendeu-se ao demônio. Para adquirir poder e dinheiro entre os mortais, hipotecou a alma pela eternidade. Tamanha era a força da sua cupidez, a fome da riqueza abstrata, que, diante dela, a eternidade parecia durar apenas um segundo.

Vai pela casa da tonelada a quantidade de tinta gasta para deplorar o poder do dinheiro, a sua força para corromper as consciências, desfigurar as almas e os sentimentos. Contra esse poder e essa força, lançaram-se poetas, filósofos, teólogos e até os moralistas de folhetim.

George Simmel, em seu livro A Filosofia do Dinheiro, mostra que o sujeito atacado pelo amor “doentio” ao dinheiro não é uma aberração moral, mas o representante autêntico do indivíduo criado pela sociedade argentária. As qualidades dos bens e o gozo de suas utilidades tornam-se absolutamente indiferentes para ele. Suas preferências, sentimentos, desejos, são totalmente absorvidos pelo impulso de acumular riqueza monetária.

É curioso observar como a sociedade argentária, ao transformar violentamente os indivíduos e suas subjetividades em simples coágulos monetários, pretenda ao mesmo tempo colocar barreiras, ensinando-lhes as virtudes da moderação, da frugalidade, da solidariedade. Então, como podemos falar de sentimentos como honradez, dignidade, autorrespeito numa sociedade em que todos os critérios de sucesso ou insucesso são determinados pela quantidade de riqueza monetária que cada um consegue acumular?

É difícil escapar da sensação de que a contenção desse impulso é impossível sem a coação e a intimidação crescentes. As leis devem se tornar cada vez mais duras e especializadas na tentativa de coibir o enriquecimento “sem causa” e a qualquer custo. Verdade? A experiência contemporânea parece demonstrar que os circuitos de enriquecimento ilícito – apesar do grande número de prisões e condenações – não fazem outra coisa senão aumentar, multiplicando-se mundo afora. As drogas e seus sistemas de produção e comercialização, a espionagem industrial e tecnológica, a corrupção política, a compra e venda de informações e de “desinformação” da opinião pública formam uma rede formidável e em rápido crescimento de circulação de dinheiro “sujo”.

Esse dinheiro transita e é “esquentado” e “esfriado” nos mercados financeiros liberalizados. Negócios legais são muitas vezes fachadas para “branquear” dinheiro de origem ilícita. Os sistemas fiscais – diante dos circuitos financeiros que permitem a livre movimentação de capitais – perdem o seu caráter progressivo e passam a depender cada vez mais dos impostos indiretos e da taxação dos assalariados.

Daí o enfraquecimento sem precedentes da esfera pública, a desmoralização dos poderes do Estado, a crescente onda de moralismo que revela, aliás, mais impotência do que indignação. Os perdedores desse jogo entregam-se a lamentações e ondas de protesto que se esgotam rapidamente entre o escândalo do momento e o próximo. Sem tempo para raciocinar, entregam-se ao consumo de fatos sensacionais e escabrosos.

Nessas situações crescem os clamores por medidas “salvacionistas”, apoiadas na invocação da própria santidade, honestidade ou bons propósitos. Em geral, esses movimentos de opinião voltam-se contra o “formalismo” dos procedimentos legais. Os grandes pensadores da modernidade encaravam com horror a possibilidade de vitória dos grupos que veem no direito e na formalidade do processo judicial obstáculos ao exercício da moral. Para eles, tais protestos não são apenas errôneos, mas revelam apego malsão à sua própria particularidade, desfrutada narcisisticamente sob o disfarce da moralidade.

No capitalismo realmente existente são os negócios que invadem a esfera estatal. A concorrência entre as grandes empresas impõe a presença do Estado nos negócios e envolve a disputa por sua capacidade reguladora e por recursos fiscais. Isso significou abrir as portas para a invasão do privatismo nos negócios do Estado.

O neoliberalismo também pode ser entendido como um projeto de retorno a uma ordem jurídica alicerçada exclusivamente em fundamentos econômicos. Para tanto, é obrigado a atropelar e estropiar, entre outras conquistas da dita civilização, as exigências de universalidade da norma jurídica. No mundo da nova concorrência e da utilização do Estado pelos poderes privados, a exceção é a regra. Tal estado de excepcionalidade corresponde à codificação da razão do mais forte, encoberta pelo véu da legalidade.

Seria uma insanidade, no mundo moderno e complexo, tentar substituir os preceitos e a força da lei pela presunção de virtude autoalegada por qualquer grupo social ou, pior ainda, por aqueles que ocupam circunstancialmente o poder.

A aparente contradição do setor financeiro

Por Rennan Martins | Brasília, 20/08/2014

Ao observarmos a imprensa econômica tradicional – porta-voz do setor financeiro e suas necessidades – notamos que no Brasil e em outros países da América Latina ela exerce uma forte pressão no sentido da ortodoxia, da austeridade. Enquanto na Europa, o que se assiste é esta mesma imprensa clamar por intervenção estatal, por políticas expansionistas.

O Valor Econômico do dia 13/08 publicou reportagem assinada por Ribamar Oliveira, intitulada Agosto e setembro serão cruciais para o superavit. A palavra “crucial” já indica o quanto valorizam esta questão, mas outros sinais também são dados. O artigo menciona que o caixa acumulado no primeiro semestre foi baixo, e que neste o esforço tem sido maior, explicando ainda que o governo precisa de “R$ 65,4 bilhões para alcançar a meta, ou R$ 10,9 bilhões de superavit primário por mês de julho a dezembro.” A meta de superavit foi definida em 1,9% do PIB, ou 80,8 bilhões de reais. Há espaço também para uma chantagem, quando lemos que “A eventual frustração da meta e sua repercussão junto aos agentes do mercado poderá resvalar no debate da eleição presidencial.”

O Financial Times, por sua vez, publicou artigo de título Europe now needs full-blown QE no último dia 14. Este foi traduzido pelo Valor no dia seguinte. Podemos notar, novamente, o grau de relevância da questão já no título, pois a necessidade dos Quantitative Easing – ou afrouxamento quantitativo – é tida como imediata, imperativa. O texto inicia taxando de não funcionais as políticas liberalizantes/austeras tomadas após a crise de 2008, aponta queda de 0,2% na economia alemã no segundo trimestre e reclama que os rendimentos dos títulos de dez anos do país foram abaixo de 1% pela primeira vez na história.

Passa pela França nos informando que a redução do deficit público não alcançará sua meta de 3,8%, nos explicando que há três trimestres a economia por lá não dá “sinais vitais”, chegando a Itália pra mencionar que a recessão já é realidade. A narrativa segue, julgando os programas liberalizantes “politicamente dolorosos”, para em seguida profetizar que o Banco Central Europeu “será obrigado, a certa altura, a adotar o afrouxamento quantitativo para salvar a economia real.”

Considerando que, segundo o portal Trading Economics, a razão dívida/PIB do Brasil é de 56,8%, a da Alemanha de 78,4%, a da França 91,8% e a da Itália de 132,6%, porque por aqui a responsabilidade fiscal é tão valorizada, enquanto na Europa – muito mais endividada – o setor financeiro quer mais gastos estatais?

Mais ainda, porque a liberalização – tão exaltada pela grande mídia brasileira – e praticada pela União Europeia não criou um cenário de investimentos atraente a iniciativa privada? Porque o empresariado internacional pede agora por injeção de dinheiro público?

A razão que leva os investidores, e consequentemente seus grupos de mídia, a adotar uma postura que aparenta contradição pro Brasil e pra Europa não possui ligação alguma com compromisso público e saúde da economia real. A financeirização da economia – posta em prática após a onda neoliberal que varreu o mundo – é a explicação para este fenômeno.

No Brasil, a Internacional do Capital Financeiro exige o superavit primário com tanta veemência simplesmente porque por aqui conseguem extrair muito bons dividendos comprando títulos da dívida pública de juros altíssimos. Um superavit cada vez maior, portanto, só aumenta seus rendimentos.

Já na Europa – onde os juros são de ínfimos 0,15% – o capital financeiro também não quer investir, quer “afrouxamento quantitativo pleno”. Esta expressão eufemista se traduz no pagamento de dívidas bancárias privadas com dinheiro público.

A resposta para este estranho comportamento é encontrada quando notamos para onde vai o dinheiro do superavit e do afrouxamento quantitativo. Vão para os mesmos bolsos de sempre. O dos banqueiros.

A financeirização da economia habituou a iniciativa privada, a Internacional do Capital Financeiro, a obter altos rendimentos sem correr riscos. Eles não mais pretendem investir em atividades produtivas, geradoras de emprego e renda. Seja aqui ou na Europa, usam de todo o seu lobby corruptor pra se manter as custas do dinheiro público dos Estados subservientes.

Rússia busca alternativas ao petrodólar

Por Heloísa Villela, via Brasil Econômico

Vários autores e analistas já dão como certo o fim do sistema implantado nos anos 70 e que tanto lucro deu até agora aos Estados Unidos

Com mais de 1.000 mortos nas regiões de Donetsk e Lugansk, a Ucrânia marcha em direção ao caos. Nem mesmo um comboio de ajuda humanitária, enviada pela Rússia, tem permissão de Kiev para chegar à zona do conflito. A imprensa ocidental não se cansa de dizer que Putin se prepara para jogar o exército russo na crise fomentada pelos Estados Unidos e pela Europa. Me parece que dessa vez Washington comprou uma briga na qual já tem derrota garantida. Tudo é uma questão de tempo. A briga não é exclusivamente com a Rússia mas Moscou pode dar o empurrão decisivo.

Vários autores e analistas já dão como certo o fim do sistema implantado nos anos 70 e que tanto lucro deu até agora aos Estados Unidos. A hegemonia do dólar tem os dias contados, dizem eles. Resta saber apenas por quanto tempo ele ainda vai se manter como a moeda referência para a maior parte das transações mundiais.

Foi nos anos 70, sob a liderança de Richard Nixon e do estrategista Henry Kissinger, que os Estados Unidos romperam com a equivalência entre dólar e ouro que balizava os valores das moedas mundiais. Encurralados quando a economia sangrava por conta dos gastos com a guerra do Vietnã e o mundo correu para converter dólares em ouro para se garantir, Nixon deu um basta. Cortou a ligação entre metal precioso e verdinhas. Deixou o dólar flutuar. Mas se preveniu. Ele precisava alimentar a demanda por dólares no mundo. Por isso, fechou um acordo com a Arábia Saudita. Em troca de armas e da promessa de defesa eterna, conseguiu que os sauditas passassem a fechar contratos de exportação de petróleo exlusivamente em dólares. Assim, todos os clientes dos sauditas teriam que comprar a moeda americana para adquirir o combustível. Fechado o acordo, em 1974 ele já estava em pleno funcionamento. No ano seguinte, os demais produtores de petróleo aderiram. Nascia o chamado petrodólar.

Mas e a Rússia com isso?

A Rússia de Putin ameaça Washington porque tem feito de tudo para fugir do domínio do dólar na economia mundial. Fechou acordo com a China para aumentar o percentual das trocas comerciais entre os dois países realizadas em rublos ou yuans. Nada de dólar. Fechou com os BRICS a criação de um banco de desenvolvimento que vai livrar os países membros das condições catastróficas impostas pelo FMI toda vez que faz um pacote de ajuda financeira. E as operações não terão como base o dólar e sim algo como o ouro ou a energia. Na contra-ofensiva das sanções impostas a Moscou por conta da Ucrânia, que a União Europeia se viu coagida a seguir, a Rússia respondeu: suspendeu a compra de alimentos dos países que aderiram e já está ampliando o comércio com outros parceiros, como o Brasil, para substituir o que comprava da Europa. Que o digam os produtores brasileiros de carne e de frango.

No fim, as sanções contra a Rússia já estão surtindo efeitos negativos… na Europa. Na quinta-feira da semana passada saiu a notícia: pela primeira vez em um ano, a economia da Alemanha encolheu e isso paralisou a fraca recuperação econômica que a União Europeia vinha experimentando. A Alemanha é a maior parceira comercial da Rússia na UE e é a principal economia do grupo. Se a Alemanha sofre, arrasta com ela toda a Europa. Até onde vai a crença política da Europa na necessidade de isolar a Rússia enquanto a interligação econômica entre eles é cada vez maior e mais vital? Enquanto isso, os Estados Unidos espionam Angela Merkel e acusam a Rússia, sem provas, de estar por trás da queda do voo da Malaysian Airlines na Ucrânia… Me parece que os Europeus estão acumulando uma pilha de motivos para confiar cada vez menos no grande parceiro norte-americano.

Porém, o medo é grande já que os Estados Unidos deram demonstração de força inequívoca contra o último aventureiro que tentou enfrentar abertamente o domínio econômico dos petrodólares. É o que hoje alguns jornalistas e escritores apontam como a verdadeira causa da invasão do Iraque depois dos atentados do 11 de setembro. No livro “Petrodollar Warfare” (poderia ser traduzido como “A Guerra do Petrodólar”), William Clark diz que no dia 24 de setembro de 2000 Saddam Hussein saiu de uma reunião de gabinete e anunciou que ia abandonar o dólar em favor do euro nas exportações de petróleo. De fato, até o ano 2002 ele fez a conversão completa. Em 2003, o país foi invadido, Saddam fugiu, se escondeu em um buraco e acabou enforcado. No dia 5 de junho de 2003 o jornal Financial Times anunciava a volta do Iraque ao mercado internacional de petróleo fechando os contratos, como manda o figurino, em dólares novamente. A conclusão do autor, e de outros analistas, é de que o Iraque serviu de exemplo para quem tentar abandonar a moeda americana. Mas Irã, Síria, Venezuela e Coreia do Norte fizeram o mesmo. E são os grandes inimigos de Washington.

Energia e dólares estão na base de grandes disputas e conflitos. A maior reserva mundial de gás natural foi descoberta em uma área que liga Qatar e Irã. O governo iraniano fechou acordo com Iraque e Síria para construir um gasoduto e levar o combustível à Europa. O gasoduto da amizade, para uns, ou o gasoduto islâmico, para outros. Submetido a um embargo econômico desde 2002, o Irã precisa de uma saída para vender o gás que até recentemente trocava por ouro como forma de fugir das sanções. Mas Washington eliminou essa saída também barrando as trocas com metais preciosos.

A saída do Irã é se juntar aos vizinhos e para isso tem o apoio da Rússia e da China. Dois países que têm todo o interesse de criar alternativas aos domínio econômico dos Estados Unidos. Putin, me parece, está bem mais investido nesta guerra do que no conflito armado na Ucrânia.

Equador “não pedirá permissão” a ninguém para fazer negócios com a Rússia

Via RT

O presidente do Equador, Rafael Correa, assegurou que “não pedirá permissão” a ninguém para vender alimentos a “países amigos”, se referindo ao esforço que a União Europeia vem fazendo no sentido de impedir que países latino-americanos se aproveitem do embargo russo a produtos europeus.

Interpelado numa coletiva de imprensa sobre o eventual mal-estar que poderia gerar a postura do Equador frente a União Europeia, Correa disse não estar ciente de queixas das instituições europeias sobre o tema, pontuando que, caso ocorram, receberam a resposta oportuna. “Até onde sei a América Latina não é parte, ao menos até hoje, da União Europeia”, assinalou.

Essa semana a Financial Times publicou, citando alguém do alto escalão da União Europeia, que a possibilidade da América Latina tomar o lugar da União Europeia no mercado de alimentos da Rússia causa preocupação a Bruxelas, que planeja manter negociações políticas para dissuadir a algum dos países latino-americanos de aumentar suas exportações a Rússia.

O ministro equatoriano do Comércio Exterior, Francisco Rivadeneira, considera que seu país tem uma grande oportunidade de aumentar suas exportações para a Rússia depois que Moscou tomou a “decisão de comprar da América Latina”. Nesse sentido, o funcionário adiantou que quito pode oferecer a Moscou hortaliças, frutas e produtos marinhos, e que a lista específica das possíveis propostas se encontra em estudo.

A Rússia proibiu por um ano a importação de carnes de boi, porco e aves, verduras, hortaliças, frutas, pescado, queijos, leite e produtos lácteos provenientes dos EUA, da União Europeia, Austrália, Canadá e Noruega, em resposta as sanções que estes países lhe impuseram.

Tradução: Rennan Martins

América Latina recebe pressão da União Europeia para não exportar alimentos para a Rússia

Via Pátria Latina

A União Europeia planeja manter conversações com vários países da América Latina, em particular – Brasil e Chile, durante as quais vai tentar dissuadi-los de exportar seus produtos agrícolas para a Rússia. Quem escreve é o Financial Times, citando um alto funcionário da UE.

Segundo a publicação, o Brasil solicitou a cerca de 90 novas fábricas de embalagem de carne começar imediatamente a exportação de carne de frango, bovina e suína para a Rússia. O Chile espera obter um grande benefício do embargo russo em peixes da União Europeia. Tal entusiasmo no setor agrícola desses países “causou preocupação em Bruxelas”, disse o jornal.

“Vamos negociar com os países que potencialmente poderiam substituir as nossas exportações para o mercado russo. Esperamos que eles se abstenham de tirar vantagem injusta da situação atual,”- disse o oficial da UE.

Ele admitiu que algumas empresas podem assinar novos contratos com a Rússia, no entanto, disse ele, seria difícil encontrar uma justificação para os países que se aproveitam da situação e tentam tirar as cadeiras vagas da UE, dos EUA, Noruega e Austrália.

7 de agosto, em resposta às sanções que o Ocidente impôs contra a Rússia por causa dos acontecimentos na Ucrânia, Moscou anunciou uma proibição total da oferta de carne bovina, carne de porco, legumes, frutas, aves, peixe, queijo, leite e produtos lácteos da UE, À Austrália Canadá, Noruega e EUA. Estas restrições terão validade por um período de um ano. Embargo aos produtos não afetam comida para bebé.

O presidente russo Vladimir Putin assinou um decreto proibindo a importação de produtos agrícolas, matérias-primas e alimentos provenientes de países que impuseram sanções contra a Rússia.