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Na falta de De Gaulle, a França busca um Putin

Por FC Leite Filho | Via Café na Política

O governo caiu, nesta segunda-feira, depois de menos de cinco meses de existência. Não, não estamos falando da IV República (1947-1958), quando a queda de 25 gabinetes provocou o golpe branco do general Charles De Gaulle. Herói da guerra e refratário ao domínio da Inglaterra e Estados Unidos, De Gaulle restaurou a dignidade, a soberania e a grandeur da França. Estamos falando dos últimos governos, de esquerda ou de direita, que sucederam o grand général, a partir de 1969, quando uma derrota plebiscitária levou-o à renúncia, em 1969.

Pode-se dizer que De Gaulle morreu de desgosto um ano e meio depois da renúncia de 28 de abril de 1969, aos 80 anos, mas ninguém pode negar que a França começou a desandar a partir de então. Governos fracos, patrocinados, inclusive os de gauche, pelas velhas oligarquias, aderiram sem o menor pejo ao mais sauvage dos neoliberalismos. Privatizaram quase tudo e submeteram o país à hegemonia não mais apenas dos Estados Unidos, mas da Alemanha e do Banco Central Europeu.

O resultado foi o desemprego que não para de crescer, o crescimento negativo e, agora, a deflação. Esta segunda-feira, 25 de agosto, também marcou o fim do verão e a rentrée, a célebre volta das férias para a dura realidade do cotidiano. Os franceses, conhecidos mundialmente pelo seu mau humor, logicamente, não gostaram do que viram e, sem muita opção, passaram a relembrar os tempos gaullistas. Brigitte Bardot, símbolo sexy e rebelde da época, ardente admiradora do général, vira capa de revista, um mês antes de completar 80 anos. Neste ano, também se comemoram os 70 anos da libertação de Paris das garras de Hitler, a primeira grande façanha do velho soldado.

Mas, como nem sempre de nostalgia vive um povo, os franceses começam a cogitar de um homem forte para governá-los, quem sabe um tipo Putin, o ex-agente da KGB, que restaurou a Rússia da debâcle que a levou o fim do comunismo, em 1989. Putin, no momento, reconstitui a influência de seu país, não mais como império, mas como parte de um bloco de poder, junto com a China e os BRICS (Brasil incluído), para fazer face à dominação americana e europeia.

A ideia inclusive partiu de um membro da aristocracia, Phillippe de Villiers, político e empresário, depois de uma entrevista com Vladimir Putin, na Crimeia, quando afirmou: “A gente está precisando de um tipo como o Putin, no lugar de Hollande”. A mídia francesa, compreensivelmente, recebeu com estupor a declaração de Villiers, numa entrevista ao jornal conservador Le Figaro. De todas maneiras, Phillippe de Villiers não é um qualquer e suas posições coincidem com o atual espírito nacional de procurar uma solução para o país fora da velha política. Ele é líder do partido nacionalista Movimento pela França, pelo qual já concorreu duas vezes à presidência e dirige o parque de diversões temáticos de história Puy du Fou, que agora exporta para a Rússia.

Atualmente, o receio maior é que a França entre na mesma depressão da Grécia, Portugal e ultimamente a Itália, nações sufocadas pelas políticas fiscais ditadas pela Alemanha, através do Banco Central Europeu, instrumento dominado não pelos 28 países da União Europeia, mas pelos grandes bancos privados e o FMI. Tais políticas já custaram a esses países a diminuição dos salários, a revogação dos planos sociais e os despejos maciços por causa da bolha imobiliária, enquanto o desemprego se situa acima de 25%.

O descontentamento aumentou depois da guinada do presidente socialista para a direita. Quando foi eleito, em maio de 2012 com uma mensagem em favor da produção e do emprego, François Miterrand despertou algum entusiasmo quanto ao futuro. Dois anos deste novo governo de gauche, após cinco anos da ( direitala droite), de Nicholas Sarcozy, porém, os franceses se sentiram decepcionados, por terem comprado gato por lebre. Hollande, apesar de suas boas intenções e de ter tentado uma política social mais ampla, foi sufocado pelo sistema de mercados que lhe fizeram engolir um homem de sua confiança para chefiar o governo.

Trata-se de Manuel Valls, membro da ala direita do PS e provável candidato à presidência em 2017. Bem falante, autoritário e ex-diretor de comunicação do PS, Valls é um espanhol de alta linhagem (filho de um grande pintor de Barcelona e de mãe suiça, neta de banqueiros, que mudou-se para Paris aos 17 anos, idade com a qual ingressou no partido. Dizendo-se social liberal, o que nos lembra os Democratas brasileiros, envergonhados de se declararem de direita, ele prega uma política fiscal parecida com a adotada pelo tecnocrata banqueiro Mário Monti, na Itália.

Com o apoio generalizado da mídia e do poder econômico, Manuel Valls, de 52 anos, tem massacrado os socialistas mais coerentes que pedem uma linha mais socialista e menos mercadista. Ele foi aliás o grande vencedor da disputa com os chamados frondeurs (rebeldes), quando anunciou a demissão coletiva do gabinete, no dia 26. Com isso, livrou-se de seu principal rival, o ministro da Economia, Arnaud Montebourgh, líder dos rebeldes, e outros três ministros inclusive um do partido verde, impondo no seu lugar um ex-banqueiro da casa de Rotschilde, Emmanuel Macron, de apenas 36 anos de idade. Num encontro com empresários, neste domingo, Manuel Valls, já confirmado como primeiro ministro do novo governo, parecia se sentir em casa naquele evento de negócios: “A França precisa dos empresários e eu amo as empresas, eu amo as empresas (repetido)”, disse ele em tom de desafio.

A busca por um novo De Gaulle ou um tipo Putin parece difícil nas atuais circunstâncias, dada a pobreza das lideranças francesas, um mal que invade todo o velho continente. A esquerda dita mais coerente tem apresentado algumas opções, como Jean-Luc Mélenchon, ex-ministro da Educação de Lionel Jospin. Ele brigou com o PS e formou o Partido de Esquerda, pelo qual concorreu a presidência, ficando em quarto lugar, com 11% dos votos, em 2012. Mas os franceses temem que, eleito, Mélenchon dê marcha-à-ré, como o fizeram Mitterand, Jospin e agora François Hollande. Talvez Dominique de Villepin, de 61 anos, grande chanceler de Jacques Chirac, um dos últimos gaullistas autênticos corresponda ao anseio nacionalista. Admirador confesso de Napoleão, sobre quem escreveu um livro biográfico, em que o considera o vencedor moral da Batalha de Waterloo, a qual “resplandece com uma aura digna da vitória”.

Diplomata de carreira, Villepin, contudo, não tem conseguido se impor na volátil política francesa, tendo sido derrotado pelo furacão Sarkozy entre os gaullistas oficiais, em 2007. Tampouco obteve apoio suficiente para candidatar-se pelo partido que criou, o Movimento República Solidária. Seu nome continua, no entanto a correr a França e o mundo. Seu discurso na ONU, em 2003 se opondo à invasão do Iraque, pelos Estados Unidos, tornou-se uma das peças oratórias que marcaram os primeiros dez anos do século 2000, a ponto de ter aumentado o interesse pela língua francesa em muitos países (reprodução no Youtube). Villepin foi também premier de Chirac, quando apresentou algumas inovações como o programa de primeiro emprego, depois boicotado por Nicolás Sarkozy, então ministro todo poderoso do interior. Como a política dá muitas voltas, nunca se sabe, sobretudo se os políticos de ocasião continuarem a empurrar a França par o abismo (O autor esteve em Paris entre os dias 21 e 27 de agosto de 2014).

Seminário internacional na Argentina reafirma: “Soberania ou abutres”

Por Leonardo Wexell Severo, via Brasil de Fato

Sindicalistas se mobilizam em apoio à decisão da presidenta Cristina Kirchner de enfrentar os abusos e atropelos do capital financeiro. Brasil de Fato/Reprodução

O seminário internacional “O contexto político mundial, a América Latina, o neoliberalismo e os novos cenários a partir da ação dos fundos abutres” reuniu no dia 21, em Buenos Aires, lideranças sindicais de 15 centrais de todo o mundo.

De acordo com Hugo Yasquy, presidente da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), entidade promotora do evento, “esta foi a primeira manifestação de apoio ao governo e ao povo argentino contra a especulação e pela libertação das garras do imperialismo”.

No dia 21, a presidenta Cristina Kirchner anunciou em cadeia de rádio e televisão o envio de um projeto de lei ao Congresso Nacional para reabrir a troca de títulos, trazendo para o país vizinho a jurisdição sobre bônus da dívida que se encontravam em mãos do Banco de Nova Iorque. A expectativa do governo é que a lei entre em vigor já em setembro, quando vence uma nova parcela da dívida de US$ 200 milhões.

Documento assinado pelas centrais denuncia que a decisão do juiz Thomas Griesa, do tribunal de Nova Iorque, permite que cerca de 7% dos portadores de títulos da dívida pública argentina, que não aceitaram a negociação realizada entre 2005 e 2010, agora recebessem as ações com um ágio que sangraria o país. Indicado pelo ex-presidente Richard Nixon, Griesa é vinculado ao “megainvestidor” estadunidense Paul Singer, um dos maiores financiadores do Partido Republicano.

“Esta é uma atitude injusta e irresponsável que privilegia e convalida os desmedidos apetites dos abutres financeiros em detrimento dos interesses soberanos da Argentina e castiga uma nação que desde há uma década, e com muitíssimo esforço, cumpre fielmente com seus compromissos internacionais”, assevera o manifesto das entidades. Desde 2005, a Argentina já desembolsou 190 bilhões de dólares para pagar suas “obrigações”.

Estas atitudes dos tribunais dos EUA, destaca o documento, são, além de tudo, “irresponsáveis”, porque “desprezam os enormes riscos que trazem à ordem mundial”, num contexto de “crise que afeta a muitos países centrais”, para “validar a ambição dos grupos financeiros por cima da soberania argentina e de qualquer outra nação do planeta”.

E mais: “Chegam hoje ao absurdo de impedir que 92,4% dos credores da Argentina possam efetivar a cobrança e receber suas dívidas, quando nosso país já efetuou o pagamento das mesmas através do Banco Correspondente, que retém os fundos, por ordem judicial, descumprindo seus compromissos com nosso país e com quem renegociou bônus”.

Prostíbulos da especulação

Painelista do seminário, o professor Emir Sader saudou “a heroica negociação e o exemplo do povo argentino, que se enfrenta contra a hegemonia imperial do capitalismo financeiro internacional”. “Nosso inimigo central é o capital especulativo”, enfatizou Emir, denunciando que os abutres utilizam os “paraísos fiscais, verdadeiros prostíbulos para o mercado de drogas e de armas”, para se manter à margem da lei.

“Por isso, a Argentina é um mau exemplo para países como a Grécia e a Espanha, que caíram na armadilha do Fundo Monetário Internacional (FMI) e passaram a privatizar o patrimônio e a expropriar os direitos dos trabalhadores”, disse.

“Respondemos com unidade e mobilização aos ataques desses vampiros. A luta da Argentina contra os fundos abutres representa a resistência dos povos de todo o mundo, que não aceitam ser saqueados para enriquecer cada vez mais uma ínfima minoria”, declarou João Antonio Felicio, presidente da Confederação Sindical Internacional (CSI).

A irracionalidade desta lógica, apontou, fica clara quando “vemos que apenas financeiro1% recebe 65 vezes mais do que a metade da população mundial”.

Submetidos à cartilha neoliberal, denunciou João Felicio, “muitos governos, em aliança com os empregadores, fazem reformas para atacar e retirar direitos, agudizando a concentração de renda e de poder”. Exemplo disso, esclareceu, “no grande império, os Estados Unidos, em que a diferença salarial entre os maiores e menores salários era de 30 vezes há 20 anos, hoje é de 300 vezes”.

Mídia manipula e mente

O presidente da CSI também atacou o caráter manipulador da grande mídia, “que mente abertamente em favor do capital internacional, respaldando ações como a do juiz Thomas Griesa contra a soberania e o desenvolvimento das nações”.

Manifestando a “mais ampla e efetiva solidariedade brasileira contra os fundos abutres”, Antônio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), frisou que “o ataque sofrido pela Argentina é feito contra todos os que não se dobram à ingerência externa”.

Roberto Franklin de Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), declarou que chegou o momento de “decisões firmes, de enfrentamento à exploração das altas finanças”.

“Chega de dominação, de colonização, de intromissão. Chega de abutres”, ressaltou. Ao descrever a magnitude da devastação causada pelos fundos especulativos, Paulos Antonopoulos, dirigente da Federação dos Servidores Públicos da Grécia, citou, por sua vez, “o desemprego de 27%, que já chega a 62% entre os jovens gregos, a profunda regressão salarial e de direitos, além da privatização dos portos”, entre outras medidas para atender a Troika (Banco Mundial, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional)”.

Ao final do evento, Hugo Yasky entregou ao ministro de economia da Argentina, Axel Kicillof, uma declaração firmada por todos os delegados internacionais em apoio à luta contra os fundos abutres.

 

Nenhuma das razões para o bombardeio no Iraque é “humanitária”

Por Nazanín Armanian, via Publico.es

Barack Obama não pôde resistir a tentação (ou as pressões de seus adversários) e tornou-se o quarto presidente dos EUA a bombardear o Iraque, utilizando-se dos mesmos pretextos “benevolentes” e com o mesmo objetivo principal: manter o controle norte-americano sobre o petróleo iraquiano. É o que nos revela a cronologia dos acontecimentos, que os terroristas do Estado Islâmico – chamados “rebeldes sírios”, a quem o Ocidente, a Turquia e a Síria financiou –, invadiram o Iraque, semeando pânico e morte entre a população, desde dezembro último. Desde a semana passada, já há algumas respostas a pergunta “Porque Obama não lutou contra a Al Qaeda no Iraque?”.

Vejamos como a inação dos EUA, assim como a atual agressão militar, foram intencionais e bem calculadas:

– No natal de 2013, os jihadistas atentaram contra a Igreja da Virgem Maria de Bagdá, matando 35 cristãos. Washington nada fez.

– Janeiro de 2014, invadem Fallujah e Ramadi, matando centenas de pessoas. EUA não intervém.

– Entre 10 e 29 de junho, o EI tomou controle de várias zonas das províncias de Kirkuk, Saladino, Tikrit, Al Adhim, Tal Afar e de Mosul, e apesar de obrigarem mais de 8.000 cristãos a fugir no evento, o ocidente não lhes socorre, e então o mais novo homem do Pentágono, um tal Abu Bakr al Bagdadi, proclama um califato nos territórios conquistados no Iraque e na Síria.

– 13 de junho. Obama declara que ajudaria a conter os jihadistas sob a condição de renúncia as políticas sectárias por parte de Nuri al Maliki.

– Nos dias 2 e 3 de agosto o EI ocupa as cidades curdas de Sinjar e Zumar, forçando a fuga de centenas de yazidis.

– No dia 7/08 tomam a cidade cristão de Qaraqosh, e só então Obama declara sua disposição em mandar drones para “proteger” os civis encurralados e os americanos residentes.

– 8 de agosto, quando as ações das petroleiras ocidentais passam a cair pelo segundo dia consecutivo, por conta das ameaças dos jihadistas e da evacuação de parte dos funcionários das companhias Afren, Genel Energy e Chevron, as bombas tornam a cair no solo do Iraque, aparentemente para neutralizar o EI, e matando centenas de civis. Os eternos danos colaterais dos interesses infames.

O “casus belli” dos EUA é uma farsa

O governo norte-americano anunciou que iria “resgatar” os 40.000 yazidis refugiados na montanha Sinjar. A farsa se revela quando dias depois anuncia-se que haviam “muito menos refugiados na montanha Sinjar e é muito menos provável que ocorra o resgate”. Na realidade, existiam em torno de mil yazidis nesta montanha que é habitada há séculos por humanos. Obviamente tinham ciência disso, e no caso de não saber, então porque Obama afirma que a agressão militar durará meses? Sem dúvida, estão exagerando o poderio do EI (no caso de que não estejam obedecendo ao Pentágono, operando livremente) como quando mentiram, dizendo que eram necessários 40 países comandados pelos EUA para conter alguns talibãs que não possuíam nem sequer aviões. Tampouco há explicação “humanitária” do porque os piedosos homens dos EUA e União Europeia não movem sequer um dedo para ajudar aos palestinos, os líbios que estão em fogo cruzado depois da intervenção que realizaram, ou as milhares de pessoas que estão morrendo de fome no sul do Sudão. Mas o Iraque eles escancaram para “salvar” a população cristão.

Não há como verificar se realmente o EI roubou 420 milhões de dólares dos bancos de Mosul, nem se controlam sete campos de petróleo e duas refinarias no norte do Iraque, como afirma a imprensa ocidental, justificando assim a envergadura da nova missão bélica.

A macabra estratégia de Obama

A aposta pessoal de Barack Obama em manter a unidade do Iraque e evitar sua balcanização nunca agradou a Irael nem aos republicanos, que optam por desmembrar Estados fortes e criar pequenas colônias controláveis: Iugoslávia e Sudão são o retrato, Síria e Iraque estão no mesmo processo.

Obama, ao formar seu governo, deu ao vice-presidente Joe Biden a missão de pôr ordem no Iraque. Biden, que quando senador defendeu uma confederação de etnias e religiões no país invadido, logo retirou essa proposta, que é respaldada inclusive por setores do Partido Democrata. O último intento de Obama em evitar o fim oficial do Estado iraquiano (porque não quer que seu país seja acusado de desmembrar países do Sul) foi pedir ao primeiro ministro Nuri Al Maliki que forme um que governo que incluísse as minorias étnicas e religiosas. Obama é incapaz de entender que pedir tolerância a uma teocracia – reacionária, sectária, injusta e corrupta – em um país de longa tradição laica, é como pedir uvas e um espinheiro.

Então, Washington elaborou outra estratégia: deixar que o EI arrase o norte do país, matando a centenas de inocentes, chegando a poucos quilômetros de Bagdá, para então intervir e seguir manipulando a política em Bagdá.

Porque Erbil?

O mandatário norte-americano deixou claro: ordenou que os ataques aéreos detivessem o avanço do EI em Erbil, capital do GRK. A cidade de 8.000 anos de história, protegida pela deusa suméria Ishtar (Esther/Estrella em castelhano, Setaré em persa) que chegou a ser parte do Império Persa, sendo conquistada por Alexandre Magno, hoje vive uma autêntica febre do Ouro. Ouro Negro que mancha a atual decisão de Obama, que tem os seguintes objetivos:

Proteger o status quo no Curdistão e sua ampla autonomia. Consolidar o poder nesta região, podendo convertê-la num trampolim para seguir adiante seu plano do Novo Oriente Próximo.

Garantir o domínio de suas petroleiras sobre o óleo curdo – que corresponde a 0.5% da oferta mundial –, e também sobre 89% das reservas de gás natural do Estado que se encontra sob domínio do GRK, onde operam ExxonMobil e Chevron. Os EUA se apossaram do óleo curdo, já que este não era explorado antes da invasão de 2003.

Impedir o corte na produção e refino do petróleo, que afetaria a recuperação econômica do Ocidente.

Segundo os líderes curdos, nas proximidades de Erbil se encontra grande parte da reserva mundial do petróleo. Mais, o gás de Erbil poderia substituir o russo para os europeus.

Deter a subida do preço do petróleo e o pânico nos mercados.

Tirar Israel do cerco de acusações que se encontra em nível mundial, por suas ações em Gaza, com a cortina de fumaça criada no Iraque.

Neutralizar as críticas sobre sua política exterior, e não somente as do Tea Party: Hillary Cliton o acusou publicamente de ser “demasiado prudente”. Já que não se atreveu a “dar uma bofetada militar” na Rússia por conta da Crimeia e a Ucrânia. No Iraque ele desafoga.

Forçar mudanças políticas em Bagdá: eliminado do cenário e sem respeito aos preceitos legais, Nuri Al Maliki, ligado ao Irã, foi quem manobrou a permanência de suas forças no Iraque. Porém, a explosão de uma bomba próximo a sua casa e as recordações das terríveis mortes de Saddam e Gaddafi foram suficientes para que abrisse espaço para Haidar Al Abadi, o novo administrador da colônia.

Assim, Obama atinge o Irã em seus “princípios estratégicos” no Iraque e na Síria. Talvez Washington não esperasse uma entusiasmada declaração de apoio de Teerã ao seu novo homem na capital iraquiana.

Dar uma lição aos jihadistas, como fez Bush com seus sócios da Al Qaeda, Muyahedines e os Talibãs afegãos: que cumpram o que Washington manda, e deixem de atuar por conta própria quando o assunto é poços de petróleo.

Estes pontos somam-se as 23 observações sobre a nova guerra líquida dos EUA no Iraque. Os curdos, principais beneficiários da nova intervenção ocidental, retomaram o controle de várias cidades, receberam muitas armas, se livraram de Al Maliki, e veem Washington mudar de ideia no tocante a permissão de um Estado curdo, ainda que seja usando da retórica de “federalizar o Iraque”, considerada uma opção menos danosa a seus interesses.

França defende sua parte

Outro país que evita a chegada de ajuda humanitária – que não sejam armas – da Rússia aos ucranianos do leste, mas envia armas aos curdos perseguidos pelos islamitas, é a França, que não perde uma oportunidade de reviver sonhos napoleônicos de sua época imperialista. Os pishmargas, serão a bola do canhão dos interesses da companhia Total, que tinha se retirado do Iraque pois só tinha garantido uma pequena participação na exploração do petróleo em Halfaya do sul. A petroleira francesa negocia agora com a Exxon Mobil, para que ela ceda sua licança nos campos de Pulkhana e Taza, disputados pelo governo central e a GRK. Makili ameaçou a Exxon, dizendo que se o fizesse se arriscava a perder o contrato do campo West Qurna-1. Por trás da visita da GRK a Paris, em dezembro do ano passado, está a Total, aspirando ser a principal companhia petroleira do Curdistão iraquiano.

Certo é que os senhores do mundo não podem usurpar a vida de milhares de pessoas, levando ainda suas riquezas, sem contar com seus agentes locais: os líderes árabes e curdos do Iraque, que miseravelmente prestam serviço aos EUA e a UE, sem nunca exitar em sacrificar seu próprio povo, em nome do poder pessoal, tribal, ou de um nacionalismo reacionário e cego.

Este é o Iraque democrático, o mesmo modelo que exportaram para a Líbia e que desejam para a Síria e a Rússia, por conta de suas imensas reservas de recursos naturais.

Pergunto, então, onde está a ONU? Uma equipe internacional de personalidades amantes da paz e da justiça, representada na Espanha por don Federico Mayor Zaragoza, propõe a refundação da ONU, para que evitemos as guerras que não param de crescer, e acabar também com a indescritível dor e sofrimento que provocam a milhões de pessoas.

*Nazanín Armanian é iraniana, residente em Barcelona desde 1983, cidade em que se exilou. Licenciada em Ciências Políticas. Ministra cursos on-line pela Universidad de Barcelona e é colunista do jornal on-line Publico.es.

Tradução: Rennan Martins

Jornalista norte-americano sequestrado desde 2012 é libertado na Síria

Via Opera Mundi

Há poucos meses jornalista Peter Curtis gravou em vídeo que disse “estar tudo bem”. AlJazeera/Reprodução

O jornalista norte-americano Peter Theo Curtis, sequestrado desde 2012, foi libertado neste domingo (24/08) na Síria e entregue a representantes da ONU (Organização das Nações Unidas). O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, confirmou a informação e garantiu que “todos estamos aliviados e agradecidos sabendo que Curtis está voltando para casa”.

A assessora de Segurança Nacional dos EUA, Susan Rice, indicou em outro comunicado que Curtis “já está a salvo fora da Síria” e espera- se que “possa reunir-se em breve com sua família”.

Nancy Curtis, a mãe do jornalista afirmou hoje (24) em comunicado que foi o governo do Catar que negociou a libertação de seu filho por motivos “humanitários”.

“Expressamos profundo agradecimento aos governos de Estados Unidos e Catar e aos muitos indivíduos, privados e públicos, que ajudaram a negociar a libertação de Curtis”, disse.

De acordo com informações da rede Aljazeera, Curtis foi libertado hoje no início da noite após ter sido sequestrado em Antioquia, na Turquia, quando planejava entrar na Síria em outubro de 2012.

Um vídeo obtido pelo canal catariano no último dia 30 de junho mostrou Curtis com barba e cabelo longo, em aparente boa saúde e lendo um texto no qual assegurava ser jornalista de Massachusetts e ter “tudo” o que precisava, divulgou a Agência Efe.

A libertação de Curtis ocorre cinco dias depois da divulgação de um vídeo com a decapitação do repórter norte-americano James Foley, capturado na Síria também em 2012, por um membro do grupo jihadista EI (Estado Islâmico).

No vídeo, um membro encapuzado do EI acusou o presidente americano Barack Obama de ser o responsável da morte de Foley por sua decisão de bombardear as posições do grupo jihadista no Iraque.

Porque os conservadores têm ódio do Mercosul?

Por Marcelo Zero*, via Pragmatismo Político

Como de hábito, a recente reunião de cúpula do Mercosul foi recebida com certa indiferença e até hostilidade por nossa mídia tradicional. Não por falta de resultados relevantes e positivos.

No que tange à questão da Palestina, um conflito geopolítico que leva instabilidade não apenas ao Oriente Médio, mas a todo o mundo, o Mercosul apoiou as posições da nossa “diplomacia anã”, pedindo a imediata suspensão do bloqueio que afeta a população de Gaza e uma “investigação de todas as violações do direito internacional humanitário”.

Tomou-se também decisão de fazer ingressar o mais rapidamente possível a Bolívia como membro pleno do Mercosul. Haverá, é claro, resistências míopes a tal ingresso no Congresso brasileiro, como houve no caso da Venezuela, no qual a oposição brasileira encarou a participação plena daquele país no Mercosul como mera concessão política a Hugo Chávez. Pensamento estratégico não é o forte de alguns parlamentares.

Mais importante ainda foi a “declaração especial”, que manifesta “absoluto rechaço” aos chamados Fundos Abutres e expressa “solidariedade e apoio à República Argentina na busca de uma solução que não comprometa seu desenvolvimento e o bem estar de seu povo”. O Mercosul entende que essa querela jurídica, a submeter um país soberano às decisões monocráticas de um juiz de primeira instância do estado de Nova Iorque, ameaça todo o sistema financeiro internacional e inviabiliza reestruturações de dívidas de outros países. O Brasil demandará, no G-20, a adoção de uma regulação específica sobre dívidas soberanas, que não podem ficar submetidas ao arbítrio instável e mutável de juízes específicos. Certamente, não é uma atitude típica de um “anão diplomático”.

Assim sendo, o tratamento gélido da nossa mídia à Cúpula do Mercosul não pode ser explicado por supostos resultados inexpressivos. Não, não é isso. Trata-se de algo mais profundo e preocupante.

O Mercosul incomoda nossos conservadores. Sempre incomodou. Na época de sua criação, não faltaram críticas e ironias sobre a união “de rotos com esfarrapados”. Não faltaram também advertências sobre a irrelevância de um bloco que estava fadado a ser absorvido pela integração “verdadeiramente relevante”, isto é, a integração à “globalização” e às economias de “real importância e dinamismo”, como a dos EUA e a da União Europeia.

Desde esse ponto de vista conservador, a única coisa que faz sentido no Mercosul é a sua área de livre comércio. Já a união aduaneira, base do mercado comum e da construção de uma “cidadania do bloco”, seria um obstáculo à integração plena dos Estados Partes ao mercado internacional. Querem um Mercosul apenas comercial, que beneficie grandes empresas. Não um Mercosul para todos.

Por isso, na década de 1990, o ministro da Economia argentino Domingo Cavallo veio ao Brasil dizer que a tarifa externa comum (TEC), fundamento da união aduaneira e do mercado comum, era uma “tontería”. Posteriormente, em 2010, o então candidato José Serra (PSDB) manifestou todo o seu desprezo pela “integração cucaracha” e pediu o fim da TEC, pois ela, conforme sua esclarecida visão, impedia participação maior do Brasil nos “fluxos internacionais de comércio”. Agora, o candidato Aécio Neves (PSDB) renova essa tradição mercocética, pró-Alca, e pede, com notável simplicidade e candura, o fim do Mercosul ou o fim de sua união aduaneira, o que vem a ser, na verdade, a mesma coisa.

Bom, essa visão mercocética, tão cara a nossos políticos e ideólogos conservadores, se baseia em argumentos bastante “tontos”, para usar uma apropriada adjetivação “cavalliana”.

Em primeiro lugar, o Mercosul, em sua atual formatação institucional e jurídica, tem um dinamismo extraordinário.

Em 2002, exportávamos somente 4,1 bilhões de dólares para o Mercosul. Em 2011, incluindo a Venezuela no bloco, as nossas exportações saltaram para 32,4 bilhões de dólares. Isso significa um fantástico crescimento de 690%, quase oito vezes mais. Saliente-se que, no mesmo período, o crescimento das exportações mundiais, conforme os dados da Organização Mundial do Comércio, foi de “apenas” 180%. Ou seja, o crescimento das exportações intrabloco foi, no período mencionado, muito superior ao crescimento das exportações mundiais.

Esse notável dinamismo fica mais evidente quando o comparamos ao crescimento de nossas exportações para as economias supostamente mais promissoras, na visão conservadora. No período mencionado, as exportações brasileiras para os EUA aumentaram somente 68%; para a União Europeia, 240%; e, para o Japão, 340%. Por conseguinte, nenhuma economia desenvolvida tradicional chegou perto do dinamismo comercial exibido pelo Mercosul.

Ademais, esse dinamismo do Mercosul tem, para o Brasil, uma vantagem qualitativa e estratégica. É que as exportações brasileiras para o bloco são, em mais de 90%, de produtos industrializados, de alto valor agregado. Em contraste, no que tange às nossas exportações para a União Europeia, a China e os EUA, os percentuais de manufaturados são de 36%, 5% e 50%, respectivamente. Portanto, o Mercosul compensa, em parte, a nossa balança comercial negativa da indústria. Esse fato torna de difícil entendimento a oposição ao Mercosul por parte de políticos de estados industrializados, como Minas e São Paulo.

Outra grande vantagem da nossa relação econômica com o bloco diz respeito ao seu extraordinário superávit. Com efeito, entre 2003 (inclusive) e 2013, acumulamos com esse bloco “irrelevante” quase 72 bilhões de dólares de superávit. Desnecessário dizer que isso foi de vital importância para a superação da nossa histórica vulnerabilidade externa. Se o Brasil atravessa, sem grandes sobressaltos, a pior crise econômica mundial desde 1929, isso se deve, em parte considerável, ao Mercosul.

Quanto ao argumento de que o Mercosul, com sua união aduaneira, impede uma maior participação do Brasil nos “fluxos internacionais de comércio”, basta dar uma simples aferida na comparação do crescimento das nossas exportações, vis a vis o aumento das exportações mundiais. Entre 2003 e 2013, as primeiras cresceram cerca de 300%, ao passo que as segundas limitaram seu aumento a 180%.

E o Brasil viu crescer dessa forma seus fluxos comerciais porque fez, com sua nova política externa, a aposta estratégica correta: deu maior ênfase, em suas relações internacionais, à integração regional e à cooperação Sul-Sul. Com efeito, neste século, as economias emergentes e as dos países em desenvolvimento, em especial a da China, cresceram a um ritmo bem superior ao das economias desenvolvidas tradicionais, e, com isso, geraram maiores oportunidades para o Brasil. O nosso país aproveitou bem e de forma pragmática essas mudanças na geoeconomia mundial.

Persistem, entretanto, as históricas críticas ao Mercosul. Nos dias de hoje, há, porém, agravantes. O primeiro tange ao fato de que as exportações mundiais pararam de crescer a partir do segundo trimestre de 2011, o que vem afetando nosso desempenho exportador. O segundo relaciona-se ao fato de que parte da nossa indústria, sua parte mais internacionalizada, quer celebrar rapidamente acordos de livre comércio com a União Europeia e os EUA, de forma a participar mais das “cadeias produtivas globais”, outra denominação para a antiga “globalização”.

Ora, a celebração desses acordos sem as cautelas necessárias e com a ruptura da união aduaneira seria um grave tiro no pé. Além da gritante assimetria entre os países, tais tratados contêm também outra ameaça: cláusulas relativas à propriedade intelectual, compras governamentais, regime de investimentos e a abertura dos serviços, as quais poderiam comprometer a capacidade do Brasil de implantar políticas de desenvolvimento.

O exemplo do México, país que celebrou mais de 30 acordos de livre comércio, inclusive com os EUA e Canadá (Nafta) e a União Europeia, é ilustrativo. Além do óbvio aumento da dependência mexicana em relação aos EUA, o livre-cambismo quimérico conduziu também a um crescimento econômico bem mais baixo que o do Brasil e a um aumento da pobreza. Nos primeiros 10 anos deste século, o PIB per capita (PPP) do México cresceu apenas 12%, ao passo que o do Brasil cresceu 28%. Hoje em dia, aquele país tem 51% da sua população abaixo da linha da pobreza, enquanto que o Brasil conseguiu reduzir essa porcentagem para 15,9%.

Quem fez a melhor aposta?

De nada adianta querer “participar mais das cadeias produtivas globais” se o fizermos, como faz o México, na condição essencial de supridores de insumos básicos. De nada adianta “subir no trem da História” se o vagão for de segunda classe.

Portanto, a solução para o Mercosul não é menos Mercosul, como querem alguns mercocéticos, mas sim mais Mercosul, com união aduaneira, livre circulação de trabalhadores, instituições supranacionais, o enfrentamento das assimetrias internas e a instituição de uma cidadania comum.

Precisamos, sobretudo, de um Mercosul para todos.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

Harvey: A violência nas ruas e o fim do capital

Por David Harvey, via Blog da Boitempo

[9 de junho de 2014, foto de Mídia NINJA]

O artigo a seguir é um trecho editado do mais recente livro de David Harvey, 17 contradições e o fim do capitalismo, em que o geógrafo britânico identifica e disseca didaticamente todas as contradições do capital segundo a análise feita por Marx – para ele, seriam exatamente dezessete. Neste trecho, que a Boitempo antecipa com exclusividade em seu Blog, Harvey procura tecer os fios de um novo humanismo revolucionário, entre a contraditória proliferação de ONGs e as explosões violentas nas ruas, no Brasil e no mundo.

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Em poucas palavras, o problema com a tradição humanista é que ela não internaliza uma boa compreensão de suas próprias e inescapáveis contradições internas – algo mais claramente evidenciado no caso da contradição entre liberdade e dominação. O resultado é o que Frantz Fanon caracterizou como “humanitarismo insípido”. Há evidências suficientes disso em seu revival recente. A tradição burguesa e liberal de humanismo secular acaba formando uma base ética piegas para uma moralização ineficaz sobre o triste estado do mundo e para a construção de campanhas, igualmente ineficazes, contra os males da pobreza crônica e da degradação ambiental.

É provavelmente por essa razão que o filósofo francês Louis Althusser lançou sua ferrenha e influente campanha na década de 1960 para extirpar do marxismo todo o falatório sobre socialismo humanista e alienação. O humanismo do jovem Marx, conforme expresso nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, insistia Althusser, estaria separado do Marx científico d’O capital por uma “ruptura epistemológica” – algo que estaríamos ignorando a prejuízo próprio. O humanismo marxista, ele escrevia, é pura ideologia, teoricamente vazio e politicamente enganoso – se não mesmo perigoso. A devoção de um dedicado marxista como Antonio Gramsci ao “humanismo absoluto da história humana” era, na visão de Althusser, completamente deslocada.

O enorme aumento e a natureza das atividades compactualizantes das ONGs humanistas ao longo das últimas décadas parece sustentar as críticas de Althusser. O crescimento do complexo “caridoso-industrial” reflete principalmente a necessidade de aumentar a “lavagem de consciência” para uma oligarquia mundial que vem dobrando sua riqueza e poder de anos em anos em meio à estagnação econômica. Seu trabalho tem feito muito pouco ou quase nada para lidar com a degradação e despossessão humana, ou com a degradação ambiental que se alastra. Isto se dá, estruturalmente, porque as organizações anti-pobreza precisam operar sem jamais intervir na continuada acumulação de riqueza, de onde tiram seu próprio sustento. Se todos que trabalhassem em uma organização anti-pobreza passassem, da noite para o dia, a promover políticas anti-riqueza, logo nos veríamos vivendo em um mundo bem diferente. Pouquíssimos doadores caridosos – nem mesmo Peter Buffett, eu suspeito – iriam financiar uma coisa dessas. E as ONGs, que agora estão no centro do problema, não iriam de todo modo querer isso (apesar de haver muitos indivíduos no interior do mundo das ONGs que estariam dispostos a tal, mas que simplesmente não podem).

Fanon, é claro, choca muitos humanistas liberais com seu endosso de uma violência necessária e sua rejeição da via conciliatória. Como, ele se pergunta, a não-violência é possível numa situação estruturada pela violência sistemática exercida pelos colonizadores? Que sentido tem uma população faminta declarar greve de fome? Por que, como Herbert Marcuse se perguntava, deveríamos ser persuadidos pelas virtudes de tolerância para com o intolerável? Em um mundo dividido, onde o poder colonial define os colonizados como subumanos e malvados por natureza, a conciliação é impossível.

Não levanto a questão da violência aqui, tampouco o fez o próprio Fanon, porque sou ou ele era favorável a ela. Ele a sublinhou porque a lógica das situações humanas tão frequentemente se deteriora a ponto de não restar nenhuma outra opção. Até Ghandi reconheceu isso.

Mas a ordem social do capital é essencialmente muito diferente de suas manifestações coloniais? Aquela ordem certamente buscou se distanciar, em casa, do cálculo cruel da violência colonial (algo como um mal necessário a ser aplicado sobre os outros, incivilizados, ‘de lá’ para seu próprio bem). Ela teve de disfarçar, em casa, a inumanidade descarada que demonstrava no exterior. ‘Do lado de lá’ as coisas poderiam ser deslocada para fora de nosso campo de visão e de audição. Só agora, por exemplo, a violência cruel da supressão britânica do movimento Mau Mau no Quênia na década de 1960 está sendo completamente reconhecida.

Quando o capital passa perto de tal inumanidade em casa ele tipicamente elicia uma resposta semelhante àquela dos colonizados. Na medida em que ele abraçou a violência racial em casa, como o fez nos Estados Unidos, produziu movimentos como os Panteras Negras e a Nação de Islã com seus lideres como Malcom X e, em seus últimos dias, Martin Luther King, que viu a ligação entre raça e classe e sofreu as consequências decorrentes. Mas o capital aprendeu uma lição. O quanto mais raça e classe se entrelaçam, mais rápido o pavio revolucionário queima.

Mas o que Marx deixa tão claro em O capital é a violência diária constituída na dominação do capital sobre o trabalho no mercado e no ato de produção, bem como no terreno da vida diária. Quão fácil não é pegar descrições das condições de trabalho contemporâneas, por exemplo, nas fábricas de eletrônicos de Shenzesn, nas fábricas de roupas em Bangladesh ou as confecções clandestinas de Los Angeles, e encaixá-las, sem prejuízo, no clássico capítulo de Marx sobre a jornada de trabalho n’O capital? Quão surpreendentemente fácil não é pegar as condições de vida das classes trabalhadoras, dos marginalizados e desempregados em Lisboa, São Paulo e Jacarta, e as justaporem à clássica descrição de Engels em 1844 em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra?

O privilégio e o poder oligárquicos da classe capitalista estão levando o mundo em uma direção semelhante em quase toda a parte. O poder político – sustentado por uma vigilância, um policiamento e uma violência militarizada intensificantes – está sendo usado para atacar o bem-estar de populações inteiras tidas como dispensáveis. Diariamente testemunhamos a desumanização sistemática de povos descartáveis. Implacável, o poder oligárquico está agora sendo exercido por uma democracia totalitária destinada a interromper, fragmentar e suprimir qualquer movimento político coerente organizado contra a riqueza (como o occupy, por exemplo). A arrogância e o desprezo com que os afluentes agora veem os menos abastados – mesmo quando (particularmente quando) em disputa uns com os outros por trás de portas fechadas para mostrar quem pode ser o mais caridoso de todos – são fatos notáveis de nossa atual condição.

A “lacuna de empatia” entre a oligarquia e o resto é imensa, e não para de crescer. Os oligarcas confundem renda superior com valor humano superior e consideram seu sucesso econômico como evidência de seu conhecimento superior do mundo (ao invés de produto de seu controle superior sobre as artimanhas da contabilidade e sobre determinadas ferramentas legais). Eles não sabem ouvir o sofrimento do mundo porque não podem e não vão deliberadamente confrontar seu papel na construção dessa situação. Eles não vêem e não podem ver suas próprias contradições. Os bilionários irmãos Koch doam caridosamente a uma universidade como a MIT ao ponto de construírem uma linda creche para o corpo docente merecedor de lá enquanto simultaneamente esbanjando incontáveis milhões de dólares em apoio financeiro a um movimento político (liderado pela facção do Tea Party) no congresso estadunidense que corta vale-alimentação e nega bem-estar, suplementos nutricionais e creches para milhões vivendo na ou perto da miséria absoluta.

É num clima político como este que as erupções violentas e imprevisíveis que estão ocorrendo por todo o mundo episodicamente (da Turquia e do Egito ao Brasil e à Suécia só em 2013) parecem mais e mais como tremores prévios de um terremoto vindouro que fará das lutas revolucionárias pós-coloniais da década de 1960 parecerem brincadeira de criança. Se há um fim do capital, então isto é certamente de onde ele virá e suas consequências imediatas dificilmente se provarão felizes para qualquer um. Isso é o que Fanon tão claramente nos ensina.

A única esperança é que a massa da humanidade verá o perigo antes que a podridão vá longe demais e o dano humano e ambiental se torne grande demais para consertar. Diante do que o Papa Francisco com razão chama de “globalização da indiferença”, é imperativo que as massas globais, como Fanon bem disse, “resolvam despertar, sacudir o cérebro e cessar de tomar parte no jogo irresponsável da bela adormecida no bosque.” (Os condenados da terra, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p.85). Se a bela adormecida despertar a tempo, então talvez possamos esperar um final mais com cara de conto de fadas. O “humanismo absoluto da história humana”, escreveu Gramsci, “não visa a resolução pacifica das contradições existentes na história e na sociedade mas, ao contrário, é a própria teoria dessas contradições”. A esperança está latente nelas, disse Bertolt Brecht. Existem suficientes – dezessete – cativantes contradições no interior no domínio do capital para semear o solo da esperança.

* Este artigo é um trecho editado do livro 17 contradições e o fim do capitalismo (Boitempo, no prelo). A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

Como o Isis está combatendo os EUA com armas norte-americanas

Por Alex Kane*, via Revista Fórum

Caos atual no Iraque mostra que os EUA têm de lutar novamente contra um monstro que eles próprios criaram e, indiretamente, armaram

Os ataques aéreos dos EUA no Iraque estão atingindo os combatentes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis, sigla em inglês), que estão usando de armamento feito nos EUA. Esse simples fato mostra uma dura realidade na história da política externa dos EUA em um país destruído por bombas norte-americanas e, então, uma guerra civil.

Durante a última semana, o Pentágono lançou declarações triunfantes sobre o esforço militar dos EUA contra o Isis. Mas o que não é mencionado por eles é que aqueles iraquianos andando em veículos armados portando armas e artilharias provavelmente foram abastecidos por contribuintes norte-americanos. As armas que o Isis possui são outra amostra do fracasso que foi a invasão dos EUA em 2003. Isso é similar ao que aconteceu na intervenção norte-americana na Líbia, em 2011, que derrubou o ditador Muammar Qadafi, mas também desestabilizou o país – resultando então em um fornecimento de armas para os militantes do Mali, mais ao sul, que por sua vez levou a uma intervenção da França e dos EUA no país africano em 2013.

Ao passo que o Isis, junto de sunitas insatisfeitos e cansados da discriminação e marginalização que sofrem há anos, avançaram pelo Iraque e capturaram armas fabricadas nos EUA. Iniciada em junho, o Isis capturou grandes porções de território no norte do Iraque. O exército iraquiano, treinado pelos EUA, entrou em colapso frente aos avanços do Isis. Em uma combinação de fraco treinamento, equipamentos quebrados e moral baixa, eles deixaram para trás armas, munições e equipamento que foram produzidos e pagos pelos EUA, que usou de 25 bilhões de dólares para treinar e armar o exército do Iraque desde 2003.

Então, agora o Isis possui centenas de veículos armados, caminhonetes, tanques, humvees, assim como munições e armas, que eles utilizam enquanto continuam a marchar pelo país para ajudar a sua luta em outro país: a Síria, onde o Isis está lutando contra o governo de Bashar al-Assad – ironicamente, também inimigo dos EUA.

Histórico

A história de como as armas dos EUA acabaram nas mãos daqueles que muitos descrevem como o mais temido movimento islâmico no mundo data de 2003. Esse foi o ano em que a administração Bush, baseada em informações maquiadas, mentiu para o seu povo a fim de justificar um ataque militar contra o Iraque e sua subseqüente ocupação. Os EUA debandaram grande parte dos militares iraquianos, compostos em sua grande maioria por muçulmanos sunitas. Isso fez com que aumentasse a insurgência antiocupação no país, mas então buscou reagrupar tal exército sem a influência daqueles que trabalharam com Saddam Hussein.

Em 2006, o homem comandando o show de reformar as forças armadas do Iraque era Nouri al-Maliki, o atual primeiro-ministro e muçulmano xiita. Escolhido a dedo pelos EUA, a ascensão de Maliki ao poder foi um símbolo de como a estrutura de poder do Iraque foi revirada do avesso. Sob o comando de Saddam Hussein, a minoria sunita tinha muito mais poder, apesar de o partido de Hussein, o Baath, incluir xiitas. Mas a invasão norte-americana entregou todo o poder aos xiitas, resultando em um grave sectarismo entre as duas alas islâmicas. Além disso, Maliki não fez esforço algum para criar uma estrutura governamental mais inclusiva.

O governo de Maliki alienou os muçulmanos sunitas, que organizaram maciços protestos contra ele, que foram recebidos sob intensa violência, matando centenas de civis. Ele ordenou, inclusive, a prisão de seu vice-presidente sunita, em 2011. As forças de segurança prenderam milhares de homens sunitas sem qualquer acusação, classificando-os como terroristas. Muitos foram torturados. Maliki também realizou um expurgo de sunitas dentro da máquina burocrática. E os EUA ajudaram Maliki em sua busca para marginalizá-los, financiando seu governo e fornecendo armas a suas forças de segurança.

Em 15 de agosto, sob intensa pressão dos EUA e do Irã – país que passou a ter grande influência no país, Maliki saiu de cena. O novo primeiro-ministro, Haidar al-Abadi, vem do Partido Dawa, o mesmo de Maliki. A esperança é que al-Abadi governará de modo mais inclusivo, apesar de tal decisão já receber críticas.

Os EUA estão agora aumentando seus bombardeios aéreos e armando as milícias curdas, no norte do país, em uma tentativa de derrotar um monstro que eles mesmos criaram e que, paradoxalmente, está sendo financiado por aliados norte-americanos, como a Arábia Saudita e o Kuwait.

Mas se a história da política dos EUA para com o Iraque mostra alguma coisa, é que bombardeios não serão suficientes para resolver a crise no país.

*- Originalmente publicado em inglês no Alternet, traduzido por Vinicius Gomes