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O fascismo transnacional e o demônio russo

Por Andrés Piqueras* | Via Público.es

Na atual dramática conjuntura mundial, enfrentamos dois processos de enorme gravidade. Por um lado, a Segunda Grande Crise do capitalismo, que se arrasta em altos e baixos desde os anos 70, sem sinalizar uma reativação do capital produtivo – razão que levou o sistema a empreender essa louca deriva financeira. Por outro, assistimos o colapso da hegemonia econômica dos Estados Unidos e o consequente declínio do dólar como moeda de câmbio internacional.

Diante disso, a hegemonia mundial enfrenta e dá ao mundo duas possibilidades: 1) ou uma coordenação com as potências asiáticas no sentido de encontrar uma moeda internacional na qual participem diferentes moedas nacionais, baseada no ouro ou numa fonte de energia como o petróleo, ou 2) declarar guerra a grande parte do mundo para manter a liderança norte-americana com base no poderio militar.

A primeira opção é bastante remota, pois supõe não só a ilusão de conduzir as relações internacionais com base na cooperação, mas também uma desvinculação financeira da geração de capital fictício, que se torna cada vez mais difícil por conta da dinâmica financeira do modelo de capitalismo que vivemos. Desta forma, o colapso econômico se aproxima dos poderes transnacionais e da potência mundial que os sustenta, assim como dos Estados subordinados a ela, caso da União Europeia. As autoridades passam a encarar a opção militar cada vez mais como “necessária”.

Vejamos. Em todo lugar que esses poderes interviram, trouxeram a destruição e deixaram o caos. O Grande Plano para a Ásia Central e Ocidental, como também para grande parte da África, consiste em subjugar os Estados não dóceis, de maneira a não deixar resquícios de institucionalidade central que possa controlar o território, a população e os recursos. Terras inteiras são arrasadas nas mãos dos “senhores da guerra”, restando como principal poder local a Al Qaeda ou alguma de suas ramificações. Territórios barbarizados e sem poder estatal (Iraque, Afeganistão, Líbia, Somália, Congo, República Dominicana…). Em quase todos estes o “islamismo radical” se torna mais forte, dada a destruição das sociedades civis. Esta é a manifestação mais palpável do fascismo transnacional, que foi possibilitado e incentivado pelas potências “ocidentais” ou alguns de seus “aliados” diretos, como Israel ou os países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita (sobre isto, leiam o magnífico livro de Gilles Kepel, LaYihad: expansión y declive del islamismo), certamente a Arábia Saudita continua financiando o Estado Islâmico (a respeito disso, acompanhem os artigos de Nazanín Armanian), enquanto que seus amigos “ocidentais” dizem agora que estão combatendo-os.

Os EUA então, descobrem “de repente” a maldade do Estado Islâmico (exibindo todo tipo de imagens e notícias) e a necessidade de reordenar estrategicamente a geopolítica local. O apoio aos iraquianos de etnia curda busca compartimentar o Iraque em pequenos Estados dependentes (semelhante ao que fizeram na Iugoslávia), enquanto os bombardeios norte-americanos seletivos acontecem justamente nas zonas dos oleodutos e fontes petroleiras, para que nenhum grupo armado lhes tome a exclusividade da usurpação. Também pretendem legitimar uma séria de bombardeios à Síria, atacando finalmente o exército sírio diretamente, dado que seus exércitos privados e os milhares de mercenários treinados e financiados por não bastam para a missão. Estes fascistas transnacionais absorveram há muito a verdadeira oposição síria, e levam a cabo o mesmo que sempre fez o fascismo: ser o elemento de choque do capital contra as forças populares, o cavalo de batalha da destruição social.

Por isso que a Síria é hoje um dos lugares chave onde se decide o destino da luta contra a destruição fascista, que também deseja desmantelar o Estado sírio (e com isso, destruir também os oleodutos que vem desde a Ásia Central até o Mediterrâneo, controlados pela Rússia). Caída a Síria, Israel se veria praticamente como o único Estado local (além das barbaras monarquias do Golfo, aliadas). É o projeto do Grande Israel dono da Ásia Ocidental.

Outro lugar vital onde se batalha contra o fascismo transnacional é a Ucrânia. Ainda que nossos doutrinadores da grande mídia insistam em pintar a imagem de russos malvados, a verdade é que na Ucrânia empreendeu-se um golpe de Estado contra um presidente eleito democraticamente,  golpe este financiado pelos EUA, com o apoio das organizações nazis locais. Eis que os EUA traiu novamente a Europa, a despeito dos mais de 60 milhões de mortos, preço pago para acabar com o nazismo. Essa é a cortesia dos “país da Liberdade”.

Com a intervenção na Ucrânia, Washington trata de separar a Europa da Rússia, assim como se põe militarmente as portas de Moscou. Este quadro, por sua vez, torna a Europa isolada do mundo asiático e ancorada aos países anglo-saxões decadentes. Uma integração ou coordenação com a Rússia, como sabe muito bem a classe capitalista alemã, poderia proporcionar a Europa a energia que tanto necessita, e também uma via aos mercados asiáticos, assim como segurança militar (os europeus não necessitariam destes enormes gastos militares propostos pelos EUA.).

Isto sem mencionar a própria Ucrânia, onde o Tratado de Livre Comércio com a Europa, o qual Yanukóvich se negou a assinar por um mínimo de dignidade, terminará de liquidar uma economia em coma: plantações de primavera devastadas, cultivos de vegetais arruinados, quase total falta de crédito, graves problemas com o gás, inflação dos combustíveis. Nada tem ajudado economicamente a Junta de Kiev, apesar das promessas do FMI e da UE. A condição imposta é a de que “tenha o controle de todo o território”. É muito provável que vejamos autênticos levantes populares por lá, consequências deste panorama.

Rússia, em seu turno, aguenta como pode. E ainda que seja por interesses particulares, também combate o fascismo transnacional na Europa (fascismo ocidental – cristão) e na Ásia (fascismo oriental – islâmico). Moscou se encontra tendo de frear suas vitórias na Ucrânia e na Síria, para colaborar com o que resta do Estado do Iraque no combate ao fascismo islâmico (oportuno lembrar neste ponto do Afeganistão, antes, quando aliado a URSS, e o atual, depois da intervenção do “Ocidente”).

Não estamos falando aqui de uma relação dos “bons contra os maus”, mas sim de questões geoestratégicas integradas. Enquanto a economia norte-americana vem perdendo dominância e necessitando de recursos alheios, Rússia e China juntas detém a maior parte dos recursos do mundo e suas economias possuem melhores perspectivas de futuro. É por essa razão que alguns estão interessados na guerra e outros não. E o quadro é justamente o oposto do retratado pelos meios de comunicação de massas.

Rússia e China não param de estabelecer entre si diferentes acordos e convênios, assim como expandem suas redes nos grandes mercados asiáticos, construindo assim o principal núcleo econômico do mundo. A Organização de Cooperação de Shangai é só um exemplo desta integração.

Na Europa, é cada vez mais certo que se não mudarmos radicalmente os rumos políticos e econômicos, rapidamente sofreremos outro cataclismo financeiro, e desta vez os Estados já consumiram todas os “extintores” de dinheiro que tinham para apagar o fogo (transferindo nosso dinheiro ao mundo financeiro-bancário e, por consequência, ao Grande Capital).

Os grandes falcões dos EUA estão dispostos a levar uma guerra devastadora a Europa. Possuem sua lógica e motivos. Porém, quanto aos líderes europeus, porque precisam seguir nesse aterrorizante jogo suicida?

Frente ao fascismo transnacional que recruta as populações, onde está o internacionalismo dos povos?

*Professor de Sociologia da Universidad Jaume I de Castellón.

Tradução: Rennan Martins

União Europeia, um modelo de capitalismo dependente

Por Daniel Vaz de Carvalho | Via Resistir

Quando Marx nota que “o comércio livre é a forma de uns países enriquecerem à custa de outros” ele sublinha que o comércio livre é o meio de que se serve o capital para destruir os entraves nacionais e constituir-se ao nível da economia mundial. [1]

Podemos imaginar que os historiadores no futuro se interrogarão verdadeiramente espantados como foi possível tanta irracionalidade, tanta insanidade na gestão das economias. É certo que “os poderosos têm sempre admiradores imbecis que se esforçam por se lhes assemelhar pelos lados maus”. [2] O imperialismo, os países dominantes, também vivem disto…

A anunciada e mais que prevista crise foi sempre negada pela troika nacional até ao limite quando se tratou de impor a austeridade, culpabilizando as vítimas da mesma. Devido às políticas da UE, Portugal encontrava-se fragilizado, com um aparelho produtivo depauperado pelas importações e privatizações. Entre 2000 e 2011 os défices da BC acumulados atingiram um total de 194 100 M€, uma média anual de 16 200 M€. Desde a entrada para o euro em 2000, os défices do Estado acumulados atingiram 118 200 M€, Estado pagou de juros 69 500 M€, porém a dívida pública passou de 61 500 para mais de 221 000 M€.

Mais de metade do aumento da dívida correspondeu a pagamento de juros: 54% entre 2000 e 2009. A partir daqui a dívida disparou: com a “ajuda” da troika passou de 94% do PIB em 2010 para 134% e o défice, em termos reais, pode atingir este ano 10% do PIB! [3]

Com o euro a indústria regrediu 15 pontos percentuais, o PIB ao nível de 2000, consumo privado ao nível de 2001; investimento ao nível de 1988. Eis o resultado da ação dos partidos autoproclamados de “responsáveis” e do “arco da governação” que nos conduziram a um retrocesso económico e civilizacional só imaginável num país sujeito a…um pacto de agressão.

Não deixa de ser espantoso ver a ginástica mental que a clientela neoliberal faz para justificar “os cortes” e a austeridade deixando intocável o grande capital. Apresentadores televisivos (salvo raras exceções) pressurosos a interromper quem contrarie os dogmas neoliberais, escutam aleivosias com o ar dos provincianos de antanho de visita “à capital”…

A graçola ignara vai ao ponto de se dizer que para resolver os problemas da Segurança Social seria necessário pôr a trabalhar pessoas com 80 anos. Isto num país em que o desemprego jovem, apesar da emigração em larga escala, atinge em termos reais atinge 500 mil jovens e 400 mil encontram-se em situação de precariedade. (comunicado da CGTP de 05-08-2014)

Os tratados da UE e o euro são o culminar de um processo de relações de capitalismo dominado face a um centro dominante, em que são estabelecidos processos de troca desigual, devido aos desequilíbrios da estrutura produtiva, diferenças de produtividade e transferências de capitais, rendimentos e juros.

Segundo relatórios do B de P o saldo dos movimentos de juros de privados, dividendos, lucros e transferências com a UE, atingiu de 2000 a 2013 um valor negativo de cerca de 11 000 M€, uma média anual de 766 M€, porém de 2007 a 2013, atingiu 1 430 M€. A estes valores somam-se os juros pagos pelo Estado: entre 2000 e 2013 uma média anual de 4 964 M€ ano, agravada nos anos da troika para 7 130 M€. Só em juros da dívida pública Portugal pagará em três anos e meio o que vai receber líquido da UE em sete, cerca de 26 000 M€ no quadro de apoio 2014-2017!

A UE foi estabelecida de forma a criar a base necessária ao domínio e à exploração da “periferia” por um “centro”, ampliando as desigualdades entre Estados e proporcionando uma repartição internacional de mais-valia da forma mais favorável aos países dominantes.

A adesão ao euro foi propagandeada pela troika interna como um novo “el dorado”; falências e desemprego foram considerados vantajosos: tratava-se da “destruição criadora” que iria permitir a convergência real. Os partidos da troika propagandeavam que o que era obsoleto na indústria e agricultura daria lugar ao “novo e dinâmico”. Os portugueses teriam salários e pensões iguais aos de outros países. Foi a mentira mil vezes repetida…muitos acreditaram, hoje abstêm-se e dizem mal de “os políticos”.

Os tratados da UE e do euro representaram estagnação e empobrecimento, provisoriamente mascarado pelo endividamento do Estado, empresas e famílias. Desde a sua introdução o euro, já de si valorizado em relação à moeda nacional, valorizou-se mais de 30% relativamente ao dólar, enquanto a economia portuguesa – evidentemente – estagnava ou regredia. Será possível um país desenvolver-se, sobreviver mesmo, ancorado a uma moeda deste tipo? Para não contrariar o dogma neoliberal da “moeda neutra” os propagandistas do neoliberalismo atribuem os problemas às prestações sociais.

O que se verifica é a distorção da estrutura produtiva por atividades exportadoras de baixo valor acrescentado (pelo baixo nível tecnológico ou pelos processos de sub e sobrefaturação das transnacionais) mas também pelo crescimento desproporcionado das atividades terciárias e das não transacionáveis. Desta forma a integração dos países “periféricos” da UE, entre os quais Portugal, é uma mera falácia que se faz num processo de “desenvolvimento do subdesenvolvimento” (Samir Amim, referindo-se ao neocolonialismo).

Os países ditos periféricos da UE estão assim submetidos a uma terapia neoliberal tal como o FMI e Banco Mundial aplicam aos países siubdesenvolvidos. “Os credores privados e seus representantes conseguiram impor condições aos governos. Pressionam para que sejam postas em prática políticas brutais de ajustamento que se traduzem pela redução das despesas públicas e redução do poder de compra da população. Isto conduz as economias a uma situação de recessão permanente”. [4]

A irracional (para não dizer criminosa) adesão ao euro e ao Tratado Orçamental, visa a destruição do poder estatal e eliminar das Constituições o que de alguma forma possa interferir com os objetivos do país dominante. A UE constitui-se assim um espaço de domínio económico que se procura impor como domínio político a favor do país dominante. Esta a natureza da “integração”.

Os “europeístas” defendem um governo europeu, ou seja, um imperialismo dirigido pelo “centro”, e nesse centro pelo mais forte, a Alemanha, que o vai gerir (como já o faz) em função dos seus exclusivos interesses, mas também das suas muitas fragilidades.

Portugal torna-se, assim, um país de capitalismo dominado (contrariamente ao que prescreve a Constituição) por um centro decadente, em crise, eivado de interesses contraditórios. Mas este centro está ele próprio dependente dos EUA e das suas aspirações a império global. [5] Dizer que tudo isto é benéfico para o país coloca o raciocínio ao nível das superstições medievais. É como se Erasmo ou Espinosa nunca tivessem existido.

As políticas da UE significam: sejam vocês mais pobres para a Alemanha (não o povo alemão) ficar cada vez mais rica e poderosa. A Alemanha impõe aos outros o que ela própria não conseguiu no passado apesar do seu potencial e em condições muito favoráveis. Mesmo agora só o vai conseguindo e mal pelas condições que impõe aos demais e pelo euro, a frágil moeda do seu frágil imperialismo.

Este imperialismo procura constituir-se nos domínios económico, político e militar. Os pés de barro desta construção tentam ser disfarçados com tratados irrealistas, absurdos, que se impõem apenas pela propaganda, pela mistificação e ameaças políticas, isto é, pela chantagem.

Os países dependentes ficam despojados do seu excedente, pelas privatizações, pelos juros, pela livre transferência de capitais, pelo domínio das transnacionais. O controlo do comércio, a regulação financeira, os contratos públicos, até os OE estão já sob o domínio das burocracias de Bruxelas e de Frankfurt. A vontade popular é sucessivamente rejeitada – caso dos referendos sobre tratados europeus – ou iludida por políticos ao serviço dos oligarcas.

O funcionamento da UE reflete os interesses das oligarquias dos diversos países e suas clientelas com vistas à acrescida exploração dos trabalhadores. Nos países dependentes a oligarquia caracteriza-se por perder as referências nacionais (veja-se onde têm as sedes os seus grupos económicos e onde colocam os lucros). Tornam-se “correias de transmissão” dos centros imperialistas para conservar um certo domínio político e económico no país e partilhar os seus recursos. Uma “correia de transmissão” sem a qual a ação externa seria ineficaz ou não rentável. [6] Os governos ao seu serviço falam então em “ganhar a confiança dos mercados”. Como se as oligarquias não se estabelecessem na antítese do teoricamente livre mercado liberal.

Não compreender que o imperialismo é estrutural do modo de produção capitalista é imaginar um capitalismo “bom”, altruísta (!) nas relações entre Estados e sem contradições; é não entender que os países dominantes procuram sempre resolver as suas próprias contradições à custa dos países dominados. No estádio monopolista o modo de funcionamento do modo de produção capitalista é o imperialismo, que exprime de acordo com a tese leninista a lei do desigual desenvolvimento capitalista à escala mundial. [7]

Os problemas dos países periféricos têm de ser entendidos em termos de economia política, isto é, como se cria e se distribui o valor. Portanto, também o papel de cada país nas relações de troca internacionais e o seu posicionamento perante o sistema imperialista. A social-democracia/socialismo reformista subverte a noção de capitalismo dependente e de relações imperialistas com a de “nossos parceiros”. Eis como qualificam a agiotagem e o neocolonialismo instituído.

Pelo endividamento, banqueiros e grandes capitalistas pilham sem escrúpulos o bem comum, enquanto os partidos da troika e seus propagandistas fazem campanha para o pagamento da dívida “até ao último cêntimo”, no dizer do sr. José Seguro em “consenso” com o PSD e CDS.

Pela austeridade são impostos sacrifícios em benefício da especulação financeira. É este o mecanismo do enriquecimento pelo empobrecimento geral. Os países estão reféns dos juros, perdem a sua soberania e submetem-se a constrangimentos a troco de promessas que a vida permanentemente nega, num espaço político e económico decadente e afetado por uma crise crónica.

As privatizações permitem aos monopólios obter um sobrelucro garantido politicamente – não pelo mercado! – para contrariar a baixa tendencial da taxa de lucro, acentuada pela crise. O risco capitalista do grande capital é desta forma transferido para as MPME e para os contribuintes, em última análise para o povo.

O excedente económico criado no país é livremente transferido para paraísos fiscais, vigorando o argumento que “se assim não fosse os mais ricos mudar-se-iam para a Suíça, Dubai, Nova Iorque, etc.” Que sociedade e que “eficiência” é esta que se torna prisioneira da ganância dos “mais ricos”?

As opções do governo PSD-CDS são claras: recusou uma posição comum sobre o tratamento das dívidas dos Estados, mesmo com governos de orientações idênticas, pois isso beliscaria as intenções do governo alemão. O secretário de Estado Bruno Maçães foi na altura qualificado em Atenas de “o alemão”.

Estão ainda na memória as imagens de subserviência do ministro Vítor Gaspar perante o ministro das finanças alemão. O ultra direitista deputado do CDS no PE, Nuno Melo afirmava em entrevista à RDP: “deve haver uma discriminação positiva para os países que cumprem as regras quanto ao défice e os que são incumpridores, relapsos.” Alinhava assim com as intenções do governo alemão, exprimia a sua “solidariedade” com os interesses da agiotagem internacional. “Solidariedade” que, bem podemos dizer, sai da pele do povo português e nos condena ao atraso permanente.

A libertação dos países dependentes depende da consciencialização e da luta dos seus povos, mas não só. A solidariedade internacional, a ligação aos povos e aos países com problemas comuns é essencial, as lutas do proletariado nos países dominantes são também fundamentais.

O desenvolvimento exige que seja retomada a plena soberania do país, incluindo a monetária, orientando os seus recursos para o desenvolvimento industrial e tecnológico, na base de planos de curto, médio e longo prazo. Só saindo do colete-de-forças imposto pelos tratados da UE e do euro será possível o país entrar numa via de desenvolvimento económico e social.

Referências:

[1] Christian Palloix, A economia Mundial Capitalista, Vol. II, p. 24 ,Ed. Estampa

[2] Guy Breton, autor de Histoires d’ Amour de L’Histoire de France, acerca da corte de Henrique III.

[3] Devido a despesas de recapitalização financeira ,BES, BPN crédito, dívidas de EP’s a privatizar, etc. (Relatório da UTAO agosto 2014)

[4] www.legrandsoir.info/…

[5] Ver “Obama subjuga a Europa: Sanções aprofundam a recessão”, resistir.info/petras/petras_23ago14_p.html

[6] Christian Palloix, obra citada, Vol. II, p. 282.

[7] Christian Palloix, obra citada, Vol. I, p. 64.

Eleições no Brasil: Marina Silva e a CIA-EUA é ‘caso’ antigo

Por Nil Nikandrov | Via Strategic Culture e O Empastelador

Marina Silva é atual candidata do Partido Socialista à presidência do Brasil. Em meados dos anos 1980s, ela já atraíra a atenção da CIA, quando frequentava a Universidade do Acre. Naquele momento, estudava marxismo e tornara-se membro do Partido Comunista Revolucionário, clandestino. Durou pouco aquele ‘compromisso’: ela rapidamente se transferiu para a ‘proteção do meio ambiente’ na Região Amazônica. Os serviços especiais dos EUA sempre tiveram interesse muito especial naquela parte do continente, na esperança de construírem meios para controlar a área no caso de emergência geopolítica. A CIA fez contato com Marina Silva. Não por acaso, em 1985 ela alistou-se no Partido dos Trabalhadores (PT), o que lhe abriu novas possibilidades de crescimento político.

Em 1994, Marina Silva foi eleita para o senado brasileiro, com fama de ativista apaixonada a favor da proteção ao meio ambiente. Foi quando começaram a circular informações sobre laços entre Marina Silva e a CIA. Em 1996, ela recebeu o Goldman Environmental Prize.[1] E recebeu inúmeras outras importantes condecorações: é praxe, quando se trata de ‘candidatos’ que a CIA tem interesse em promover, que o ‘candidato’ seja coberto de medalhas e condecorações.

Marina Silva serviu como ministra do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva até que, interessada em ‘voos mais altos’, e preterida, ela abandonou o Partido dos Trabalhadores e mudou-se para o Partido Verde, de início dedicada a protestar contra políticas ambientais apoiadas pelo PT. Foi realmente um choque, na política brasileira, que a ex-ministra tenha mudado tão completamente de lado, depois de quase 30 anos de atividade a favor do Partido dos Trabalhadores.

Nas eleições de 2010, a candidata da CIA obteve quase 20 milhões de votos, como candidata do Partido Verde; na sequência, para as eleições de 2014, aceitou lugar na chapa de Campos, como vice-presidenta, quando fracassaram seus esforços para criar seu ‘não partido’, mas ‘rede’, chamada “Sustentabilidade”. Dilma Rousseff, candidata do PT contra a qual se alinhavam já em 2010 todas as demais candidaturas, trazia planos para dar continuação às políticas independentes do presidente Lula. Nada disso interessava a Washington em 2010, como tampouco interessa hoje, em 2014.

Daquele momento até hoje, as relações entre Brasil e EUA só fizeram piorar, resultado do escândalo da espionagem & escutas clandestinas. A Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a presidenta Dilma Rousseff e membros de seu gabinete. A presidente brasileira chegou a cancelar visita oficial que faria aos EUA, como sinal de protes. Os EUA jamais apresentaram pedido de desculpas ou comprometeram-se a pôr fim às atividades de espionagem. A presidenta Dilma, então, agiu: denunciou as atividades da Agência de Segurança Nacional e da CIA dos EUA na América Latina e tomou medidas para aumentar a segurança nas comunicações e controle sobre representantes dos EUA ativos no Brasil. Obama não gostou.

As eleições presidenciais no Brasil estão marcadas para 5 de outubro. E Washington está decidida a fazer de Dilma Rousseff presidenta de mandato único. Não há dúvida alguma de que os serviços especiais já iniciaram campanha para livrar-se da atual governante brasileira. Começaram a agir com movimentos de protesto ditos ‘espontâneos’, que encheram algumas ruas e foram amplamente ‘repercutidos’ na imprensa, nos quais os ‘manifestantes’ pedem mudanças (aparentemente, qualquer uma, desde que implique ‘mudança de regime’) e o fim das “velhas políticas” [de fato, nenhuma política é ou algum dia será ‘mais velha’ que o golpismo orquestrado pela CIA no Brasil e em toda a América Latina (NTs)]. Ouviram-se grupos de jovens em protestos contra a propaganda e os símbolos dos partidos políticos, especialmente do PT.

Não se sabe até hoje de onde surgiram os recursos com os quais Marina Silva começou a organizar sua ‘rede’ Sustentabilidade. A nova ‘organização’ visava a substituir os partidos tradicionais, que a candidata declarou ‘velhos’. Tendo obtido 19 milhões de votos, o que lhe valeu o 3º lugar nas eleições passadas, ela contudo não conseguiu cumprir todas as exigências legais para criar oficialmente sua nova ‘rede’. Até que a tragédia que matou Eduardo Campos e seis outras pessoas, perto de São Paulo, mês passado, deu a Marina Silva uma surpreendente segunda chance para tentar chegar à presidência do Brasil. Para conseguir ser a primeira mulher mestiça a chegar à presidência do Brasil, terá de derrotar a primeira mulher que chegou lá antes dela, Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, PT; além o candidato Aécio Neves do PSDB, partido pró-business, que hoje amarga um 3º lugar nas pesquisas. A Casa Branca tem-se sentido frustrada.

Dia 13 de agosto, a campanha eleitoral presidencial no Brasil foi lançada em área de incerteza, quando um jato que conduzia o candidato do partido socialista, Eduardo Campos, tombou sobre bairro residencial próximo de São Paulo. Morreram o candidato e seis outras pessoas, passageiros e da tripulação, no acidente que pode ter acontecido por causa do mau tempo, quando o Cessna preparava-se para pousar. As mortes geraram uma onda de comoção nacional, que provavelmente evoluirá para especulações sobre o efeito que terão nas eleições do próximo 5 de outubro. A presidenta Rousseff declarou três dias de luto oficial por Campos, ex-ministro do governo do presidente Lula. A aeronave passara por manutenção técnica regular e nenhum problema foi detectado. De estranho, só, que o gravador de vozes da cabine do avião não estava operando, o que gerou suspeitas. O gravador operara normalmente e gravara várias conversações na cabine, mas nada gravou no dia da tragédia. O avião já passara por vários proprietários (empresários norte-americanos e brasileiros, representantes de empresas de reputação duvidosa), antes de chegar à campanha dos candidatos Eduardo Campos e Marina Silva.

Para alguns comentaristas brasileiros, há forte probabilidade de que tenha havido um atentado, que resultou no assassinato de Eduardo Campos. Antes da tragédia, o avião foi usado pela agência antidrogas dos EUA, Drug Enforcement Administration (DEA). Enviados de antigos proprietários do avião tiveram acesso ao local do acidente, sob os mais diferentes pretextos. Difícil não conjecturar se teria havido agentes dos EUA por trás da tragédia. Mas ainda não se sabe exatamente sequer o que aconteceu. Saber quem fez, se algo foi feito, demorará ainda mais.

O avião decolou do Rio de Janeiro, onde opera uma estação da CIA, em território do consulado dos EUA. Não há dúvidas de que aquele escritório é usado pela Agência. Talvez os serviços especiais do Brasil devessem dar atenção especial a personagens que rapidamente deixaram o país, imediatamente depois da tragédia em Santos. A morte de Eduardo Campos teve efeito instantâneo sobre a candidatura do Partido Socialista: Eduardo Campos jamais passara dos 9-10% de preferência nas pesquisas, mas Marina Silva rapidamente surgiu com 34-35%, na votação em primeiro turno. Agora, se prevê que a eleição seja levada para o segundo turno.

O principal problema de Marina Silva é que é sempre difícil entender quais seriam suas reais intenções e projetos. É uma espécie de ‘imprecisão’ que se observa constantemente no discurso de candidatos promovidos pelos EUA. Marina Silva mudou de lado, sempre muito dramaticamente, inúmeras vezes. Ao unir-se a Eduardo Campos, por exemplo, a candidata várias vezes se manifestou a favor de manter bem longe do Brasil as ideias de Chavez (Hugo Chavez – falecido presidente da Venezuela, conhecido pelas convicções socialistas e políticas de esquerda). Mas ela serviu ao governo do presidente Lula, conhecido e muito respeitado defensor do chavismo. (…)

De fato, ao tempo em que a campanha avança e as eleições aproximam-se, Marina Silva vai-se tornando cada vez mais neoliberal. Já disse que não vê sentido em fazer dos BRICS um centro de poder multipolar, nem em apressar a implementação de medidas já decididas dentro do bloco, como criar um banco de desenvolvimento, um fundo de reserva, etc. Já manifestou ‘dúvidas’ sobre o Conselho Sul-americano de Defesa, e diz, em discussões com assessores íntimos, que quer dar menos atenção ao Mercosul e à Unasul (União das Nações Sul-americanas, união intergovernamental em que se integram duas uniões aduaneiras, o Mercosul e a Comunidade de Nações Andinas, como parte do processo de integração sul-americana). Para Marina Silva, mais importante é desenvolver relações bilaterais com os EUA.

Fato é que os brasileiros estão já habituados a quase 20 anos de progresso social no país, com os governos do presidente Lula e da presidenta Rousseff. A população é ouvida, as reformas acontecem, o que foi prometido está sendo construído, o Brasil vive tempos de estabilidade e de avanços.

Se Marina Silva chegar à presidência (George Soros, magnata norte-americano, investidor e filantropo, tem alimentado a campanha dela com quantidade significativa de fundos), deve-se contar com o fim de vários programas sociais e políticos, o que pode vir a gerar grave descontentamento popular. Há quem diga que os escritórios dos EUA no Brasil estão repletos de agentes dos serviços especiais, encarregados de ‘gerar’ ‘protestos’ naquele país.

[1] Sobre o prêmio, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Goldman_Environmental_Prize . Além de Marina Silva, outro brasileiro recebeu esse prêmio, um “Carlos Alberto Ricardo”, fundador da ONG “Instituto Socioambiental”, em 1992, como se lê em http://en.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Ricardo [NTs].

* Nil Nikandrov é jornalista, russo, trabalha em Moscou e cobre questões de política latino-americana; é conhecido crítico da devastação que governos neoliberais promoveram em economias nacionais por todo o planeta. É autor da primeira biografia de Hugo Chávez em russo (NTs, com informações de http://www.4thmedia.org/category/nil-nikandrov/).

Tradução: Vila Vudu

A Petrobras, o setor de petróleo e a eleição

Por Paulo Metri | Via Correio da Cidadania

Todas as falcatruas recém-denunciadas que bandidos de dentro da Petrobras teriam feito para agradar políticos corruptos e empresários corruptores, e para obter benefícios para si próprios, devem ser apuradas rigorosamente. Se as denúncias forem comprovadas, todos os corruptos e corruptores devem ser julgados, e as penas previstas em lei aplicadas.

No entanto, a roubalheira comprovada, desta ou de outras estatais, não se trata de um defeito intrínseco das mesmas. Entretanto, se houver vacilo na fiscalização, a probabilidade de roubos aumentará. Por isto, é preciso estar sempre alerta, porque os corruptores nunca desistirão de buscar um fraco de espírito para comprar. Cabe lembrar que empresas privadas também podem roubar recursos da sociedade. Por exemplo, quando sonegam impostos ou seus representantes subornam servidores públicos para ganhar obras superfaturadas do Estado.

Candidatos a presidente da direita, com apoio da grande mídia (1), sua aliada e claramente tendenciosa, usam os possíveis maus feitos de bandidos, que infelizmente ocuparam cargos na Petrobras, para crescerem perante o eleitorado, recriminando a presidente que tenta a reeleição. Esta postura pode ser muito prejudicial para a nossa sociedade, que pode cair na arapuca desta mídia, armada para a presente eleição.

Primeiramente, a presidente não está incentivando corrupção alguma. Quem de sã consciência acha que Dilma é corrupta? O efeito colateral deste ardil eleitoral é que a sociedade passa a acreditar que empresa estatal é o mesmo que um antro de corrupção. Este pensamento não verdadeiro facilita muito a compra de nossas estatais pelo capital externo em leilões de privatização, para poder remeter nossas riquezas para o exterior, em detrimento do povo.

Aliás, a grande mídia, tão preocupada em mostrar quem lesa o erário, deveria mostrar a lista dos devedores de tributos ao Estado feita pela Receita Federal. São basicamente empresas privadas e, inclusive, algumas são da própria mídia. Esta mídia, que não informa corretamente estes fatos, depois, posa de guardiã da moral e dos bons costumes! Além disso, será que ela não promove os candidatos que prometeram arrumar um jeito de o Estado perdoar suas dívidas, se forem eleitos?

Quando o Pré-Sal foi anunciado para a sociedade, em 2006, o editor Cesar Benjamim, em um dos primeiros artigos que apareceu, pregou que, com a grandeza da descoberta, o Brasil não deveria perder a chance de fazer um novo plano nacional de desenvolvimento. Foi a primeira vez que alguém me alertou para o fato de que o Pré-Sal era muito maior que a quantidade de óleo que carregava.

Posteriormente, constatei que, pela possível quantidade de óleo contido na área, pelo nível de compras e contratações de bens e serviços para a exploração e o desenvolvimento do Pré-Sal, pela expansão de indústrias locais resultante de política de compras locais, pelo requerimento de desenvolvimentos tecnológicos indispensáveis, pela logística a ser demandada, pela arquitetura financeira a ser acordada, enfim, por tudo a ser feito, ele tinha razão. Poucos países do mundo têm uma alavanca tão poderosa para sustentar o seu desenvolvimento. No entanto, se o povo brasileiro não votar conscientemente agora, todas estas forças indutoras do desenvolvimento serão aniquiladas.

Um próximo presidente poderá, primeiramente, aprovar uma nova lei para o Pré-Sal, revogando a dos contratos de partilha, aprovada em 2010, durante o mandato do presidente Lula. Em substituição, retornaria o uso da lei das concessões da era FHC para a área do Pré-Sal, a qual entrega o petróleo para quem o descobre. Este presidente provavelmente faria vários leilões de entrega de blocos, muitos dos quais contendo comprovadamente petróleo, com uma velocidade acima da capacidade financeira da Petrobras de arrematá-los. Então, as empresas estrangeiras levariam nosso petróleo, não comprariam quase nada aqui, trariam tecnologia do exterior, mas deixariam a miséria no país.

Uma alternativa de próximo presidente ao já descrito, pelo que se pode deduzir das suas confusas declarações, deixaria o petróleo do Pré-Sal no subsolo, pois ele não é uma energia renovável – apesar de, neste caso específico, ser não renovável, mas abundante. Segundo a mesma alternativa de presidente, o petróleo é poluidor e, portanto, é necessário investir em energias limpas como a eólica e a solar. Seria uma maravilhosa opção, em primeiro lugar, se existisse um meio de transporte movido a energia eólica ou solar. O principal uso dos derivados de petróleo é no transporte.

Em segundo lugar, seria maravilhoso se estas duas opções trouxessem para o país tanta divisa em moeda forte, royalties e parcelas para o Fundo Social quanto é obtido com a exportação de petróleo através dos contratos de partilha. Esta alternativa de presidente esquece que o brasileiro faz parte do nosso meio ambiente e é a principal espécime deste ambiente. As divisas, os royalties e as parcelas do Fundo Social podem salvar vidas brasileiras e, também, transformar outras vidas para melhor.

E tudo isto não se pode fazer com uma Petrobras difamada, como ela está sendo. Homens corruptos devem ser denunciados, mas denunciar a empresa só interessa a grupos estrangeiros.

Nota:

(1) Se algum leitor não sabe quem faz parte da “grande mídia”, seus componentes são os principais jornais do país, as revistas semanais, com exceção da Carta Capital, os canais abertos de televisão e muitas estações de rádio. Eles têm enorme influência na formação de opinião da sociedade, inclusive durante as campanhas eleitorais, e são subordinados ao grande capital, principalmente o estrangeiro. Assim, eles são instrumentos de dominação da sociedade a serviço do capital.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania. Blog do autor: http://paulometri.blogspot.com.br/

A Errática Paleovia

Charge de Vitor Teixeira

Por Marcelo Zero

A primeira grande medida que Tony Blair adotou quando chegou ao poder foi dar independência ao Bank of England, o banco central inglês.

A medida não estava no programa de governo, mas Blair a adotou assim mesmo. Era uma forma de demonstrar que o New Labour, por ele representado, estava rompendo definitivamente com o “velho trabalhismo” e com a “antiga socialdemocracia”.

Essa ruptura não era apresentada, contudo, como uma adesão ao “thatcherismo” e à direita. Na realidade, Blair se apresentava como uma espécie de personificação da Terceira Via, teorizada principalmente por Anthony Giddens, sociólogo britânico.

A Terceira Via, segundo Giddens e Blair, não era nem de esquerda e nem de direita. Estava, na visão deles, “além da esquerda e da direita”. Rompia com a socialdemocracia tradicional e com o velho trabalhismo, mas também representava uma ruptura com o neoliberalismo. Era algo profundamente novo, um “centralismo radical” que prometia, num grande esforço modernizador, adaptar a economia e a sociedade britânicas aos “novos desafios impostos pela globalização”, mantendo, no entanto, os valores permanentes da justiça social.

Em economia, Blair dizia que a abordagem da Terceira Via não era “nem o laissez faire, nem a interferência estatal”. Ao “Estado necessário”, nem mínimo, nem máximo, caberia o simples papel de sustentar o equilíbrio macroeconômico e promover a atividade empresarial, particularmente as “indústrias do futuro baseadas no conhecimento”. No que tange à esfera social, a Terceira Via faria revolução do Welfare State, adaptando-o às novas necessidades da economia globalizada. Em vez de investir em redes de proteção “excessivas”, era preciso dar “empregabilidade” às pessoas, investindo em Educação e no empreendedorismo.

Com isso, asseguravam Blair e Giddens, a economia britânica aumentaria muito a sua produtividade, beneficiando igualmente empresários e trabalhadores.

No Brave New World proposto pela Terceira Via, não havia mais conflitos de classes e nem a vinculação orgânica da socialdemocracia e do trabalhismo aos sindicatos e aos movimentos sociais. Não havia também alternativas à “economia de mercado globalizada”; e a desigualdade passou a ser algo aceitável, desde que baseada na “meritocracia”.

Completava esse novo mundo sem conflitos, livre das “velhas ideologias”, uma preocupação com as questões ambientais, que haviam sido relegadas a um segundo plano, segundo Giddens, tanto pela antiga socialdemocracia quanto pelo neoliberalismo thatcherista.

Entretanto, o que se viu, na prática, foi a adesão de Blair a todas as principais diretrizes políticas do thatcherismo. Seu governo persistiu no desmonte do sindicalismo britânico, na “flexibilização” do mercado de trabalho, na revisão de alguns direitos previdenciários, nas privatizações e, sobretudo, na crescente desregulamentação do sistema financeiro, já sob a gerência “independente” do Bank of England.

Assim, o New Labour saiu do colo trabalhista dos sindicatos britânicos para o colo financeiro da City londrina.

Os resultados não foram bons. O índice de Gini do Reino Unido que, no início do thatcherismo, era de 0,240, aumentou para 0, 340, um dos maiores crescimentos da desigualdade nos países desenvolvidos. Embora a maior parte desse aumento tenha se dado na era Thatcher, a Terceira Via de Blair não conseguiu revertê-lo, e até propiciou um novo incremento. Na realidade, foi durante o período Blair que aumentou mais a renda do 1% mais rico e, particularmente, do 0,1 % mais afluente, renda essa muito vinculada à desregulamentação financeira.

Ao longo do período do New Labour, os que fazem parte do 0,1 % mais rico do Reino Unido aumentaram seus rendimentos 4 vezes mais que 90% da população britânica. Hoje, apenas as cinco famílias mais ricas do Reino Unido têm renda superior aos 20% mais pobres da população.

Além disso, houve “precarização” do mercado de trabalho, ao invés da prometida “empregabilidade”. Afinal, a estrela do crescimento econômico durante o New Labour foi o setor de serviços, particularmente os serviços financeiros, com decréscimo das indústrias.

A recessão, que varreu do mapa político o New Labour em 2010, com a derrota de Gordon Brown, sucessor de Blair, só fez piorar esse quadro social. Hoje, 1 em cada 5 britânicos são pobres e, pela primeira vez na história, a maior parte dos lares em condição de pobreza é habitada por indivíduos economicamente ativos, e não por pessoas que dependem da Seguridade Social. O problema maior está justamente no mercado de trabalho, que não gera empregos na quantidade e, principalmente, na qualidade necessárias para promover a ascensão social dos menos favorecidos. E isso ocorria antes mesmo da crise.

Tal descalabro econômico e social do New Labour e da Terceira Via foi complementado por um submisso alinhamento da política externa britânica aos interesses dos EUA, que levou a o Reino Unido a participar da farsa da invasão Iraque, fato que suscitou a abertura de um inquérito oficial sobre o assunto.

Enfim, a Terceira Via não passou de uma “carapaça ideológica para o neoliberalismo”, como disse o historiador britânico Perry Anderson. Foi assim no Reino Unido; e foi assim também nos EUA de Clinton e na França de Jospin.

Mas essa carapaça ideológica rompeu-se em todos os lugares, revelando a mesmice do pensamento único e a monotonia trágica das políticas conservadoras, associadas à crescente desregulamentação do capital financeiro. As mesmas políticas que provocaram a crise mundial de 2008 e que contribuem, hoje, para manter a recessão na maior parte do mundo industrializado.

Assim, nos países desenvolvidos a carapaça ideológica da Terceira Via atualmente não passa de uma malquista e malcheirosa carcaça política.

No Brasil, no entanto, há gente que quer ressuscitar essa carcaça político-ideológica, apresentando-a como uma grande novidade.

Como no Reino Unido de Blair, a candidatura Marina pretende conciliar políticas econômicas muito ortodoxas e pró-cíclicas com grandes avanços sociais. Pretende também conciliar desregulamentação financeira e econômica e a extinção de mecanismos estatais de estímulo ao crescimento, como o crédito público em áreas estratégicas, com o desenvolvimento.

Como no Reino Unido de Blair, a candidatura Marina pretende alinhar nossa política externa aos interesses dos EUA e aliados. Como lá, doura-se a pílula com um difuso e, por vezes, neomalthusiano ambientalismo. Como lá, afirma-se que a “nova” proposta está além da esquerda e da direita.

Ao contrário de lá, onde o New Labor promoveu grandes avanços, no que tange aos direitos individuais, particularmente dos gays e outras minorias, aqui tais avanços teriam de passar pelo crivo de sumidades teológicas, como a do Pastor Malafaia.

Bastar ler o plano da candidatura Marina para ver o quanto ele se baseia numa leitura anacrônica das teses da finada Terceira Via. Mistura-se essa leitura anacrônica com uma leitura superficial de Manuel Castells e voilá!, temos a “nova política”. A milagrosa política que não é política, o partido que não é partido e as alianças de ocasião que não são “velha política”. A milagrosa política que vai mudar o sistema de representação apenas com a força dos “homens de bem” reunidos em redes, sem a necessidade de um reforma política com participação popular, como propõe a presidenta. Uma milagrosa reforma sem povo, garantida pelos “homens de bem” e pelos “homens de bens” que controlarão o Banco Central.

No plano não há nenhum a pista sobre o porquê que a finada Terceira Via, que fracassou miseravelmente nos países desenvolvidos, num período de bonança econômica, teria sucesso aqui, um país em desenvolvimento, num período de forte e renitente crise mundial.

Afinal, lá era uma aposta nova numa Terceira Via. Aqui é somente a carcaça política de uma fracassada Paleovia.

A resposta talvez esteja em devaneios fora de lugar, e não na razão alicerçada no real conhecimento de um país chamado Brasil. Isso talvez explique porque a candidatura mude de posição constantemente sobre tudo.

Quem é muito “sonhático” acaba ficando muito errático. E sonho anacrônico acaba virando pesadelo.

Estados Unidos, o suspeito e constante beneficiário das tragédias aéreas

cessnab777
Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/09/2014

A grande mídia – repentinamente e sem a menor explicação – silenciou sobre duas importantes tragédias aéreas que sacudiram o tabuleiro geopolítico internacional. Falo dos incidentes envolvendo o Boeing 777 voo MH17, na Ucrânia, e o Cessna 560XLS, que vitimou o então presidenciável do PSB Eduardo Campos e seis membros de sua equipe de campanha.

Os dois acontecimentos possuem implicações político-econômicas representativas e interessantes a grandes grupos de poder internacionais, estando ambos em situações nebulosas, as quais levanta questionamentos sobre o porque não mais se investiga nem se divulga informações sobre os casos.

Quanto ao voo MH17, estão sem explicações os seguintes fatos:

i) A caixa-preta se encontra há semanas em Londres, sem que as autoridades disponibilizem sequer trechos das gravações nela contidas [1];

ii) As aeronaves de guerra SU25 ucranianas detectadas pelo governo russo pouco antes da queda, que se aproximaram entre 3 à 5 quilômetros do Boeing 777 [2];

iii) As imagens de fragmentos da aeronave as quais um especialista alemão indicou serem perfurações à bala [3];

iv) A reportagem da BBC com moradores que testemunharam dois aviões militares sobrevoando a área no momento do acidente [4], e;

v) O confisco das comunicações entre a aeronave e a torre de controle por parte do governo de Kiev [5].

Estas informações colocam em cheque a versão oficial de que um sistema antiaéreo Buk, operado por rebeldes pró-Rússia, teria abatido o avião. Porque a Ucrânia, os EUA e a Inglaterra não divulgam as gravações? Que interesses possuem em obscurecer o caso? Considerando o aparato orwelliano/pan-óptico de monitoramento de Washington, é plausível que não tenha havido nenhuma imagem que ateste a versão por eles contada?

Passemos agora para o Cessna 560XLS, que caiu em Santos, matando Eduardo Campos e sua equipe. Abaixo, seguem as informações ainda obscuras:

i) As investigações não chegaram ao real dono da aeronave [6];

ii) Encontrou-se uma série de laranjas os quais se atribuíram pagamentos pelo bem [7];

iii) Os voos não foram contabilizados nos gastos de campanha [8];

iv) A polícia federal apurou que Campos negociava a compra do avião [9];

v) O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, redigiu parecer que aponta diversas ilegalidades em torno do uso do Cessna [10].

E então, o componente deste caso que o assemelha ao voo MH17. Por alguma razão ainda não explanada em definitivo, a caixa-preta do avião não gravou as comunicações do dia do incidente. Nos dois casos não se tem acesso as gravações do cockpit, o que quase elimina a possibilidade de determinação da causa das quedas.

Este quadro configura uma total e estranhíssima falta de materialidade no tocante as investigações, o que levanta suspeitas sobre possíveis sabotagens. Analisando a história, a conjuntura, o desenrolar dos fatos e os beneficiários deste, podemos, talvez, nos aproximar da verdade.

Iniciemos pela história, repleta de “acidentes” que vitimaram personalidades importantes, gerando gordos dividendos econômicos e geopolíticos a adversários.

No dia 24 de maio de 1981, o então presidente do Equador Jaime Roldós, de orientação reformista e avesso a presença das petroleiras norte-americanas no país, morreu junto de seu ministro da defesa e de toda a tripulação, quando o avião em que viajavam, um Super King Air, “acidentou” na montanha Huairapungo.

Pouco mais de dois meses depois, no dia 31 de julho, Omar Torrijos – ditador panamenho anti-imperialista e pivô da retomada do controle do canal do Panamá, antes sob controle de Washington – faleceu após seu avião, um DHC-6, cair misteriosamente em Cerro Marta, próximo a Penomoné, região central de seu país natal.

Sobre as mortes destes líderes, temos a intrigante alegação que consta no livro do ex-executivo da área financeira, John Perkins. Intitulado Confissões de um Assassino Econômico, podemos ler já no início:

“Este livro deveria ser dedicado aos presidentes de dois países, homens que foram meus clientes, a quem respeitei e em quem vi grandes espíritos – Jaime Roldós, presidente do Equador, e Omar Torrijos presidente do Panamá. Os dois morreram em temerosas quedas de aeronaves. Suas mortes não foram acidentais. Eles foram assassinados por se oporem a fraternidade de corporações, governos e banqueiros que almejam um império global. Nós, os assassinos econômicos, não conseguimos deter Roldos e Torrijos, e então o outro tipo de assassino, os sancionados pela CIA, que sempre aparecem após nossas falhas, atuaram.”

É imperativo acrescentar, neste ponto, não um “acidente”, mas a prova de que estes são planejados por governos. Nos anos 60, oficiais das mais altas patentes dos Estados Unidos planejaram derrubar um avião em território cubano a fim de fabricar um pretexto para invadir Cuba e derrubar o governo socialista, implantado na ilha depois da revolução de 1959.

Voltando para o presente e a atual conjuntura geopolítica, perguntemos então: quem se beneficia desse quadro? Cui bono? Os efeitos, os acontecimentos posteriores aos incidentes envolvendo o voo MH17 e o Cessna 560XLS, são completamente favoráveis, novamente, a Washington. Explico.

O neoconservadorismo norte-americano instituiu a Doutrina Wolfwoitz, que prevê a contenção de toda e qualquer potência capaz de lhes fazer frente, seja no campo político, econômico ou militar.

A Rússia – com suas vastas reservas energéticas – iniciou uma integração Euro-asiática por meio da venda de seu gás natural e compra de alimentos produzidos pela União Europeia. O resultado foi uma aproximação e interdependência entre as partes, com a balança pesando para Moscou, pois passara a fornecer um terço de todo gás consumido pelos europeus.

Concomitante a esta movimentação, a Rússia voltou a se aproximar da China, e estes em conjunto, tem atuado no sentido de abandonar o dólar em suas transações e ainda incentivando seus parceiros a fazer o mesmo.

E aqui se insere o Brasil. Desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder, a política externa deu um giro para o Sul, priorizando o comércio entre o Mercosul e os países em desenvolvimento. Em assuntos de segurança, abandonou o alinhamento automático a Washington, passando a questionar as intervenções militares da OTAN, usando da diplomacia para conter os rompantes imperiais do Ocidente.

O ápice da integração do Sul global se deu em Fortaleza, na VI Cúpula do BRICS, ocorrida em julho deste ano. Além de se aproximarem politicamente, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, criaram o Novo Banco de Desenvolvimento e um Arranjo de Reservas Contingentes, organismos que visam ser alternativa ao Banco Mundial e ao FMI, engessados pela ortodoxia econômica e excesso de poder de decisão dos desenvolvidos.

Ora, este quadro retrata com clareza tudo aquilo que Washington evita, a perda de importância geopolítica. Os EUA precisam manter – e não hesitam em usar de todos os métodos – o dólar como referência mundial e o controle do fluxo energético. O petrodólar é a base de seu financiamento.

Corrobora com essa visão as análises do professor Wallerstein. Considera ele que a perda de relevância dos EUA é inevitável, mas que Washington responde a isso se tornando mais hostil, na tentativa de manter sua posição.

As duas tragédias aéreas beneficiaram diretamente o Tio Sam. A da Ucrânia foi usada como pretexto para isolar a Rússia, trazendo uma avalanche de sansões econômicas.

Por aqui, a morte de Eduardo Campos trouxe Marina a cabeça da chapa do PSB, e esta foi catapultada na opinião pública, tornando-se favorita na eleição presidencial. Convenientemente, a plataforma de Marina é muito mais propensa ao capital financeiro e ao alinhamento a Washington.

Wayne Madsen – experiente jornalista investigativo e ex-oficial da Marinha para assuntos de segurança – é taxativo. Em publicação do último dia 30 intitulada All factors point to CIA aerially assassinating Brazilian presidential candidate (Todos os fatores apontam para a CIA ter assassinado o candidato a presidência brasileiro, tradução livre). Lemos:

“Uma revisão da história do pós Segunda Guerra Mundial nos revela que de todos os métodos que os serviços de inteligência usam para eliminar seus problemas político-econômicos, o assassinato por tragédias aéreas está em segundo no ranking, a frente dos acidentes de carro e envenenamentos, e somente atrás do uso de armas de fogo, que é o modo favorito da CIA para as execuções políticas. […]

A América Latina, em particular, sofreu com tragédias aéreas que mataram dois líderes determinados a se afastar da influência política norte-americana, o presidente Jaime Roldos Aguilera do Equador e o presidente Omar Torrijos do Panamá. […]

O envolvimento histórico dos EUA em assassinatos aéreos levanta suspeitas sobre o acidente com o Cessna 560XLS no dia 13 de agosto em Santos. Este vitimou o candidato a presidência pró-mercado do Partido Socialista Brasileiro, Eduardo Campos, e toda sua assessoria. A tragédia ocorreu justamente num momento em que se delineava uma vitória tranquila de Rousseff, e isto levantou muitos questionamentos entre os investigadores brasileiros e a opinião pública.”

O panorama, quando contextualizado, levanta sérias suspeitas sobre o envolvimento dos serviços de inteligência norte-americanos na queda dos aviões, tanto na Ucrânia como no Brasil. A verdade só será descoberta com um eventual vazamento de documentos classificados. É imperativo que a sociedade brasileira e mundial permaneça atenta as ingerências e hostilidades externas, a fim de trabalhar pela paz, garantir a soberania das nações e a autodeterminação dos povos.

PS: Hoje, a imprensa anuncia sem muita veemência o relatório da comissão holandesa (Dutch Safety Board Report) o qual concluiu que o Boeing 777 da Malaysia Airlines foi atingido externamente por um “grande número de objetos de alta energia”, o que torna praticamente evidente que o avião foi derrubado por tiros. O documento é extremamente comprometedor a tese ocidental que culpa os separatistas do leste ucraniano, e é exatamente por isso que nenhuma autoridade, europeia ou norte-americana, se pronunciou sobre o assunto.

Obras financiadas pelo Banco Mundial têm histórico de violações contra povos indígenas

Por Natasha Pitts | Via Adital

O Banco Mundial (Bird) tem um longo histórico de financiamento a obras que vulneram os direitos dos povos indígenas no mundo todo e, na Guatemala a situação não é diferente. A Organização Fraternal Negra Hondurenha (Ofraneh) está divulgando um comunicado rememorando os projetos financiados pelo Bird que ameaçaram e ainda ameaçam a existência dos povos indígenas, em nome de um “desenvolvimento neocolonialista”.

Entre os fatos recentes, no último dia 30 de julho, o Banco descartou as sugestões de organizações sociais acerca de sua nova política, denominada Standard Ambiental e Social (ESS7). A salvaguarda ESS7, avalia a Ofraneh, representa um retrocesso de décadas de negociações, pois permite aos Estados-nações descartarem sua aplicação em situações em que “a identificação como povos indígenas poderá exacerbar as tensões étnicas ,ou seja, incompatível com as disposições da Constituição nacional”. Assim, o Banco Mundial se esquiva de suas obrigações referentes aos povos indígenas e ao direito internacional, como indica o ponto 9 da salvaguarda ESS7.

“A diluída aplicação do direito à Consulta-Consentimento, Prévio, Libre e Informado (CPLI) se converte em uma das maiores ameaças para os povos indígenas ante as inconsistências em matéria de direito humanos que assolam a maioria dos Estados-nações, aquelas que recusam, em várias ocasiões, reconhecer os direitos dos povos indígenas, apesar de terem ratificado o Convênio 169, da OIT, e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas”, alerta a Ofraneh.

Retrocedendo alguns anos, a Organização lembra que o ano de 1984 marcou um capítulo nefasto da história da Guatemala. Naquele ano, o Exército guatemalteco exterminou a população maya-achi do Rio Negro, em Baja Verapaz. Nos massacres de Rio Negro, Aldea Xococ, Pacoxom, Los Encuentros e Agua Fría, cerca de 400 indígenas foram assassinados e 3.445 foram deslocados forçadamente. O etnocídio foi fruto da construção da represa do Chixoy, financiada pelo Banco Mundial e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Apesar das denúncias apresentadas contra o Governo da Guatemala e dos chamados efetuados junto ao Bird e ao BID, a construção da represa continuou e foi finalizada em 1985. Em 2012, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), emitiu uma sentença condenando o Estado da Guatemala, no entanto, até agora, nada foi feito.

Mesmo após o massacre de Chixoy e ciente das violações aos povos indígenas, o Banco Mundial concedeu um empréstimo de mais de 450 milhões de dólares para a construção da represa de Sardar Sarovar, no rio Narmada, India, que afetou o povo Adivasi, deslocando mais de 200 mil pessoas.

A Ofraneh também recorda que o Bird respaldou, entre 1979 e 1988, no Paraguai, a ditadura de Alfredo Stroessner, com a construção da mega-represa do Yacireta. O montante do valor aplicado na obra superou os 11 bilhões de dólares e deslocou mais de 100 mil indígenas e camponeses, que nunca foram compensados pelos danos.

Há o temor de que o Banco Mundial inicie uma nova etapa de desrespeito sistemático aos direitos dos povos indígenas e sejam revividos momentos, como o do massacre de Chixoy. A Ofraneh aponta que o Bird possui um fundo de 60 bilhões de dólares voltado para o financiamento de megaprojetos, muitos deles relacionados à construção de represas e hidrelétricas, situação que poderá se transformar em um “holocausto para os povos indígenas”.