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Santayana: A água e a sede

Por Mauro Santayana | Via Mauro Santayana

(Hoje em Dia) – O Brasil comemorou, no primeiro dia da Cúpula do Clima, na ONU, nos EUA, a redução em 79%, nos últimos 10 anos, do desmatamento. E o fato, ocorrido entre 2010 e 2013, de termos deixado de lançar na atmosfera, em média, a cada ano, 650 milhões de toneladas de substâncias que intensificam o efeito estufa, como o gás carbônico.

Lembrando que a maioria dos países desenvolvidos cresceram com base em economias sustentadas por altas emissões de poluentes – como o carvão e o petróleo – o discurso do governo brasileiro destacou também que, embora os países em desenvolvimento não queiram “repetir esse modelo”, eles não podem renunciar à luta pela melhoria das condições de vida de sua população, principalmente porque o avanço social não é incompatível com a preservação do meio ambiente.

Enquanto isso, no mesmo dia, em Itu – município com mais de 25 mil reais de renda per capita e alto Índice de Desenvolvimento Humano, situado no estado mais rico da Federação – moradores, em sua maioria de classe média, saíram ás ruas para protestar contra racionamento de água, que já dura seis meses, e foram cercados e atingidos com balas de borracha, por uma tropa de choque da PM, depois de tentar invadir a sede do Legislativo Municipal.

Segunda-feira, a Primavera começou oficialmente, mas, segundo técnicos de organizações como o Instituto Nacional de Meteorologia e da Universidade de São Paulo, o aumento da pressão atmosférica – que inibe a formação de nuvens – diminuirá a oferta pluviométrica e aumentará a evaporação, evitando a recuperação dos mananciais e dos níveis das represas e reservatórios da Região Sudeste até o próximo ano.

A questão da água, em nosso país, é complexa, e até os animais – que não podem protestar, como os habitantes de Itu e de outras dezenas de cidades – sabem que a culpa não é só do clima, mas, principalmente, da ação do homem.

Desde a Descoberta, temos bebido a água da bica, e usado o rio como esgoto, como se ambos, bica e rio, não fizessem, como os lagos e os mares, parte de um mesmo sistema.

Onde haja um curso de água, desde que já esteja correndo dentro de nossas fronteiras, nele continuamos atirando impunemente nosso lixo e dejetos, humanos, agrícolas ou industriais; derrubando as árvores e a vegetação em suas margens; arrancando com jatos de água seus barrancos, no garimpo, na maior parte do tempo, infrutífero, de ouro, diamantes e outros minerais; assoreando o seu leito e envenenando suas águas com mercúrio e com agrotóxicos, a maioria deles já proibidos em outros países.

Precisamos, municípios, estados, União, combater a destruição de nossos rios com a mesma energia e determinação com que se está tentando lutar contra o desmatamento. Ou quando ficarem prontas as grandes obras de irrigação que estão em curso, não haverá mais água para passar por elas.

Com o terror racional podemos dialogar?

Por Reginaldo Mattar Nasser | Via Opera Mundi

Enquanto analistas disseminam o temor e o repúdio a grupos islâmicos, governos matam centenas de civis em ofensivas no Oriente Médio

Do alto de sua sabedoria e de seu “realismo humanista”, experientes jornalistas, analistas internacionais, professores e diplomatas brasileiros estão em estado de indignação após o discurso da presidenta Dilma Rousseff na ONU.

Tudo isso porque a presidenta condenou o uso da força por parte dos EUA como meio de resolução de conflitos armados que acontecem, atualmente, na Síria e no Iraque, ao mesmo tempo em que solicitou o diálogo com a comunidade internacional e apelou para o uso do direito e das instituições internacionais como instrumentos mais adequados para a paz. Os “indignados” dizem ser favoráveis ao diálogo e apoiam a utilização do direito internacional, mas ressalvam que isso não serve para esses “fanáticos islâmicos”. Segundo um experiente jornalista brasileiro, “nem à força esse tipo de fanáticos se dobra”. Se eu entendi corretamente, o jornalista quer dizer que eles não são passiveis de dissuasão. Bem, neste caso sou obrigado a concluir que é preciso eliminá-los. É isso mesmo?

No mesmo veiculo de comunicação, um diplomata igualmente sábio e experiente condena as “banalidades piedosas” de nossa diplomacia em relação a esses “fanáticos” e “psicopatas”. Estamos diante de verdadeiros humanistas, que valorizam os direitos humanos, a Justiça e a igualdade; mas não são ingênuos e colocam ressalvas em relação àqueles que seriam dignos desses valores. Do alto de sua sabedoria, compartilhada com aqueles que usam a força, julgam que têm autoridade moral para qualificar quem merece e quem não merece ser agraciado para o diálogo ou, no que dá no mesmo, quem merece e quem não merece morrer. Os gregos chamavam isso de Hybris.

Vou aceitar, provisoriamente, a “argumentação” dos “realistas humanistas”. Em que se sustenta sua afirmação de que não podemos dialogar com esses “insurgentes islâmicos” (creio ser mais apropriada a utilização do termo insurgente, amplamente utilizado nos estudos de conflitos internacionais)? Por que praticam atos de terror? Sim, assassinaram jornalistas, mataram civis e combatentes e, com certeza, não prezam pela democracia e os direitos humanos. Até aqui de pleno acordo. Mas o Brasil não mantém estreitas relações diplomáticas com Estados que ocupam território de outros, que torturam e que, em conflitos armados, matam por volta de 80% de civis, sendo 30% crianças? O Brasil não mantém “relações carnais” com o país que, segundo a Opinion Research Business, foi responsável pela morte de 1,2 milhão de iraquianos? Isso mesmo, mais de um milhão de mortos! Será que temos que aceitar uma das frases mais cínicas e, infelizmente, verdadeiras? “A morte de alguns é uma tragédia, já a morte de milhares é um problema de estatística! (frase atribuída a Stalin)”.

A não ser que faça diferença para esses humanistas se o terror é praticado de forma racional e lógica por máquinas de guerra altamente sofisticadas, como os drones, ou se é praticado por agentes irracionais que fazem uso de facas e espadas.

Mas essas máquinas de guerra racionais, embora se autoproclamem “democráticas”, não têm prestado informações sobre as pessoas que estão morrendo em decorrência dos bombardeios na Síria e no Iraque. Entretanto, investigações independentes começam a revelar que os alvos estratégicos não foram tão precisos e dezenas de civis já foram mortos. O que vão dizer nossos “realistas humanistas”? Que essas mortes são decorrentes de efeitos colaterais? Nossos ciosos democratas aceitam, sem nenhuma dúvida, a justificativa de que os “fanáticos” ameaçam a maior potência militar de todos os tempos e que só restaria a esta se defender. Sim, não é piada! Foi essa a justificativa. A Al Qaeda era a maior ameaça existencial aos EUA, mas aí apareceu o ISIS ou EI (siglas referentes ao grupo Estado Islâmico) ou alguma coisa jihadista que é pior ainda. Mas eis que, desde o início de setembro, ficamos sabendo que existe um grupo chamado “The Khorasan”. Anunciado pela mídia como a mais perigosa ameaça de todos os tempos. Mas, pasmem. Segundo recente investigação conduzida pelos jornalistas Glenn Greenwald e Murtaza Hussain, esse grupo é uma grande farsa! Mas uma vez que essa invenção serviu aos propósitos dos EUA, que era o de justificar o início da campanha de bombardeio na Síria, a narrativa Khorasan simplesmente se evaporou tão rapidamente como se materializou.

Em reportagem publicada no The Nation, Lee Fang detalha como analistas de televisão, incluindo generais da reserva e ex-funcionários do Departamento de Segurança Interna, têm aparecido constantemente na mídia fazendo pregação para que os EUA ataquem os insurgentes na Siria. Detalhe: todos eles têm laços empregatícios com empresas militares que prestam serviços para o pentágono.

Greenwald e Hussain têm toda razão. O que aconteceu é tudo muito familiar. A administração Obama precisava de uma justificativa legal para bombardear outro país, e nada melhor do que usar, ad nauseam, as emoções dos vídeos de decapitação promovidos pelos insurgentes. Depois plantaram na mídia a promoção do EI como pior do que a Al Qaeda e, depois, um grupo pior ainda e que poderia lançar ataques mais coordenados e maiores do que os realizados no dia 11 de Setembro. Nenhum desses humanistas tem dúvida em relação a isso, correto?

A depender da valiosa contribuição desses experientes humanistas, a campanha de terror dos EUA no Oriente Médio pode-se dar como vitoriosa, mas cuidado: de acordo com a mitologia grega, onde há Hybris (arrogância, prepotência) há sempre a Nemesis (punição, castigo) que pode tardar, mas não falha.

Economia vinculada à energia

Por Marcus Eduardo de Oliveira | Via Adital

Vazamentos de petróleo, um dos símbolos de como a economia pode agredir fortemente a biosfera.

Leonardo Boff, em “A Opção-Terra”, nos adverte que “no momento atual, se parássemos tudo em nosso processo de produção e de consumo, a Terra precisaria de cerca de mil anos até recuperar-se das chagas que lhe temos infligido”.

Talvez esse seja um dos argumentos mais plausíveis para evidenciar que, diante do modelo de produção e consumo que ocupa as decisões econômicas das principais economias no momento, não há mais capacidade de continuar aumentando a produção física das economias.

A Terra não suporta mais essa agressão; 60% dos serviços ecossistêmicos estão completamente esgotados, causando essas chagas sobre o meio ambiente, em especial, uma poluição sem o menor controle que tem dizimado milhões de vidas humanas todos os anos.

A causa principal dessas chagas, portanto, está no modelo econômico que expande a qualquer preço a capacidade de produção econômica. Esse fato, por sua vez, se vincula ao principal dogma das ciências econômicas, vale dizer, à ideia de que a atividade econômica tem que crescer continuamente, para propiciar a todos uma vida boa e farta. Essa é a ideia corrente do mito do crescimento contínuo.

A questão que mais se aflora em torno disso é que os tomadores de decisão econômica parecem esquecer que a atividade humana se desenrola dentro da ecosfera terrestre. Esquecem, ademais, que a atividade econômica consome energia e que não há capacidade ilimitada desse recurso.

Por isso é importante não perder de vista que a economia está vinculada à energia. Este vínculo abre a possibilidade de aprofundar e ampliar os estudos e os conceitos econômicos, vinculando a economia à ecologia e à termodinâmica, temas, por sinal, esquecidos do “receituário” da economia tradicional, dita neoclássica.

É por isso que os economistas tradicionais apresentam certas dificuldades em aceitar – parece mesmo que esquecem e ignoram – a relação existente entre a economia e a ecologia, como se a atividade econômica funcionasse no vazio, e não dentro do meio ambiente, como se essa atividade econômica somente produzisse mercadorias, e não uma poluição como resultado final.

Os economistas tradicionais esquecem e ignoram ainda o fato que a queima de petróleo, de carvão mineral e de florestas, está introduzindo mais de 30 bilhões de toneladas por ano de gás carbônico na atmosfera (85% originado dos combustíveis fósseis).

A queima de combustíveis fósseis produz também monóxido de carbono, óxidos de enxofre, óxidos de nitrogênio e outros gases, além de poeiras, vapores e partículas de combustível mal queimado. Estes gases e resíduos são os responsáveis pela famosa poluição das grandes cidades (hoje são mais de 20 cidades no mundo com mais de 10 milhões de habitantes ante duas nos anos 1960) e das áreas industriais.

A poluição, entretanto, não fica permanentemente no ar. É levada pelas chuvas e acaba contaminando mais a água e o solo do que o ar, diz Francisco F.A. Fonseca, em “O Mundo em Crise – Economia, Ecologia e Energia”.

A gravidade dessa poluição, que aumenta à medida que as economias crescem e as megacidades avançam no processo de industrialização, tem dizimado quase 2,0 milhões de pessoas todos os anos ao redor do mundo, em especial na Ásia, que concentra as cidades mais poluídas do mundo.

Os dados sobre isso são assustadores: somente na China há 16 das 20 cidades mais poluídas do planeta, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

A cada aproximação do inverno (dezembro-março), o céu de várias cidades chinesas, sobretudo no norte do país, é tomado pelos mog, vale dizer, uma combinação de nevoeiro com fumaça poluente.

Em outubro de 2013, Harbin, cidade de 10,6 milhões de habitantes, teve de paralisar suas atividades por causa de níveis de poluição superiores ao recorde do ano (registrado em Pequim), que reduziram a visibilidade local a menos de 10 metros.

Os números que mostram esse drama, segundo estudos divulgados pelo Greenpeace são: 260 mil crianças chinesas morreram prematuramente em 2011 por causa da poluição atmosférica,

320 mil crianças e 61 mil adultos sofriam de asma em 2011 por causa do problema poluição, 32 mil mortes prematuras adicionais ocorrerão por ano quando 570 novas usinas a carvão entrarem em funcionamento.

Não é mais possível ignorar que a economia está vinculada à ecologia e que o crescimento econômico, em escala mundial, traz, como subproduto, o drama da poluição e do esgotamento constante dos principais serviços ecossistêmicos dos quais à vida humana tanto necessita.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia na FAC-FITO e no UNIFIEO, em São Paulo. prof.marcuseduardo@bol.com.br

EUA anunciam primeira infecção por ebola contraída em território americano

Por Leandra Felipe | Via Agência Brasil

Os Estados Unidos anunciaram hoje (30) o primeiro caso de infecção por ebola diagnosticado em território americano. De acordo com um comunicado do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) divulgado hoje à tarde em Atlanta, Georgia, o paciente – cuja identidade não foi divulgada – é do sexo masculino e está internado em um Hospital em Dallas, Texas.

Em uma entrevista coletiva, o diretor do CDC, Thomas Frieden, disse que a pessoa infectada está em tratamento e “estritamente isolada” desde que surgiram os primeiros sintomas da doença. Segundo ele, o paciente voltou de uma viagem à Libéria (África) no dia 19 de setembro e chegou aos Estados Unidos um dia depois. Os exames feitos após a internação (e o surgimento dos sintomas) confirmaram a contaminação por ebola.

O diretor do CDC garantiu que não há motivo para “pânico” ou preocupação, porque o paciente foi isolado assim que surgiram os primeiros sintomas da doença. A fase infecciosa do ebola começa após o surgimento dos sintomas, como febre, vômito e dores de cabeça.

Em agosto, a Agência Brasil entrevistou a médica brasileira Denise Cardo, diretora da Divisão de Controle de Infecção Hospitalar do CDC que disse, na época, que nenhum país do Continente Americano tinha casos diagnosticados de ebola. Os três casos tratados anteriormente nos Estados Unidos foram diagnosticados na África e trazidos para tratamento no país.

Denise afirmou que o risco de contaminação fora da África não estava descartado devido à mobilidade humana. No caso dos Estados Unidos, o país mantém uma campanha de alerta para viajantes que viajam ou regressam do Oeste africano, especialmente dos países mais atingidos: Guiné, Libéria e Serra Leoa.

Segundo as últimas estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), os números indicam que mais de 6,5 mil pessoas podem estar infectadas nos três países mais afetados. O atual surto é considerado pela ONU como uma “ameaça global” e o organismo avalia serem necessários U$10 bi para combater a doença.

Cúpula do Clima: o desencontro entre Dilma e Marina

Por Fátima Mello | Via Carta Maior

Jornal Portal Sul/Reprodução

A posição brasileira rejeita a lógica embutida no programa de Marina Silva que pretende construir uma agenda sustentável, sem soberania do Estado.

A Cúpula do Clima foi convocada pelo Secretário Geral da ONU Ban Ki-moon para sacudir a vontade política dos governos, incentivando-os a firmarem compromissos à altura crise climática, e assim evitar que naufrague um novo acordo global, que deve suceder ao de Kioto, e deve ser assinado em Paris, em 2015, na COP 21.

O que se busca é um acordo ambicioso, vinculante e aplicável a todos os países, de modo a constituir um instrumento eficaz no combate às crescentes e severas alterações em curso no horizonte climático.

O caminho até a COP 21 está marmorizado de obstáculos e disputas.

O maior deles remete ao baixo engajamento das potências do Norte, associado à investida dos mercados que enxergam na da encruzilhada climática apenas uma nova fonte de lucros.

Contra isso, movimentos sociais e trabalhadores tomaram as ruas de Nova Iorque e de muitas outras cidades do mundo no último domingo.

O que se reivindica é que os países ricos assumam compromissos condizentes com suas responsabilidades históricas e que Wall Street não capture os marcos do novo acordo climático.

Dilma chegou à Cúpula do Clima com um importante trunfo, como asseverou em seu discurso. Em vez de promessas, trouxe realizações de seu governo e dos de Lula. O Brasil, ao contrário da inação e das resistências em firmar compromissos por parte dos históricos poluidores do Norte, reduziu em 79% o seu desmatamento nos últimos 10 anos.

Cumpriu, assim, as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa acordadas por Lula na COP 15 em 2009 (Copenhague). No mesmo ano criou a Política Nacional de Mudança do Clima, um marco legal que inclui o Plano Nacional e o Fundo Nacional de Mudança do Clima; os Planos de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento nos biomas Amazônia e Cerrado; inventários e a Comunicação Nacional para Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, além de medidas fiscais e tarifárias. Criou também o Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES.

Nas negociações no âmbito da Convenção de Clima da ONU o Brasil lidera importantes posições, cujas premissas foram reiteradas no discurso da presidenta Dilma em Nova Iorque.

Primeiro, manter firme defesa do multilateralismo e de regras comuns em uma esfera em que os atores privados e países do Norte querem privatizar e esvaziar o regime multilateral.

O Brasil, ao contrário, defende o princípio das Responsabilidades Comuns Porém Diferenciadas, consagrado na Convenção, e das responsabilidades históricas das potências tradicionais sobre as emissões de gases do efeito estufa.

Esse ponto de partida pressupõe que países em desenvolvimento, em especial os emergentes, ampliem compromissos, sem todavia incorrer no grave equívoco de isentar os países do Norte de um engajamento superior ao atual.

Segundo, o Brasil tem como princípio derivar suas posições internacionais de sólidas Consultas Nacionais junto aos diversos setores da sociedade – percurso aclamado por todos os países mas abraçado de fato por poucos.

Terceiro, apesar das fortes pressões internas e externas, o governo brasileiro resiste às propostas de inclusão de mecanismos de mercado na construção do novo acordo global do clima.

Quarto, fazendo uma leitura correta das questões de poder envolvidas nessa agenda, costurou sua posição em conjunto com os países do Sul no âmbito dos BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China) e em apoio à concertação regional junto ao Peru, sede da próxima COP, no início de dezembro deste ano.

Ao contrário de Dilma, a candidata Marina Silva, convidada para a Cúpula do Clima convocada por Ban Ki-moon, não compareceu.

Esse não é o único desencontro entre Marina e Dilma em relação ao desafio climático. As propostas do programa de Marina nesse capítulo são bastante controversas. Ao contrário da justa defesa feita pelo governo Dilma do princípio das Responsabilidades Comuns Porém Diferenciadas, Marina defende “pôr abaixo a leitura estática” deste princípio.

Seu argumento é que o atual governo o utiliza como escudo para não firmar compromissos efetivos. Mas a argumentação pode sugerir que Marina pretende, caso eleita, não pressionar as potências do Norte a assumirem metas condizentes e proporcionais às suas responsabilidades históricas.

O programa de Marina também propõe a implementação de um “Mercado Brasileiro de Redução de Emissões” e outros mecanismos para ‘precificar’ as emissões de gases do efeito estufa no país. O governo Dilma resiste à inclusão de mecanismos de mercado no acordo global.

No programa de Marina a dimensão ambiental é de fato transversal a todas as políticas e setores e há propostas elaboradas para diversas áreas (florestas, água, clima, agricultura, saneamento, mobilidade urbana, resíduos sólidos, entre outros). Entretanto, há problemas de fundo em sua matriz conceitual: não é possível, por exemplo, compatibilizar proteção ambiental e redução de desmatamentos com independência para o capital financeiro, pois é sabido que quanto maior a liberdade para os fluxos de capitais, maior é a dependência em relação ao agronegócio e à mineração para o país conseguir fechar suas contas.

A visão pró-mercado e de redução do papel do Estado não é compatível, ademais, com a ampliação de direitos territoriais para indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais defendida no programa. Sem um Estado ativo, como dispor de ferramentas e instrumentos de política para garantir esses direitos?

Outras perguntas incômodas arguem essa mesma a lógica. Como conciliar direitos sociais com um programa que enfatiza a criação de um mercado de emissões de carbono, verdadeiro pote de ouro para o mercado financeiro que justamente coloca em risco as prerrogativas das comunidades tradicionais sobre seus territórios?

E o que é sobretudo constrangedor: como imprimir o interesse coletivo e ambiental na definição de políticas públicas para a água, o saneamento, o apoio a agricultura familiar, a inovação se o programa de Marina defende, ao mesmo tempo, que o Brasil assine acordos de livre comércio, que subtraem a soberania brasileira nessas esferas, expondo a sociedade à concorrência desigual com mercados e corporações transnacionais?

Um eventual segundo mandato de Dilma, porém, não pode se desobrigar de um aprofundamento da dimensão socioambiental do modelo de desenvolvimento do país.

Se é verdade que as emissões oriundas dos desmatamentos estão diminuindo, crescem as emissões no setor de energia e as do agronegócio.

A diversificação em curso da matriz energética, com maior ênfase em fontes limpas e renováveis, reserva margem para avanços e ousadia.

Os direitos territoriais de pequenos agricultores, ademais dos povos e comunidades tradicionais se ressentem de uma Reforma Agrária do século XXI, que traga para essa agenda a centralidade da questão ambiental. De uma vez por todas, há que se construir uma política fundiária na qual justiça social e equilíbrio ambiental se combinem organicamente.

Em resumo, não basta vencer o programa de Marina Silva nas urnas. É vital construir políticas de governo que rejeitem, de forma crível e sustentada, o ardiloso matrimônio entre socioambientalismo e rentismo.

(*) Fátima Mello é da FASE – Solidariedade e Educação e do GR-RI (Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais)

Era preciso matar Kadafi?

Por Jean Paul Hébert | Via Le Monde Diplomatique

A eliminação de Muamar Kadafi, no dia 20 de outubro de 2011, significou o fim de seu regime despótico, mas não do caos na Líbia. Os danos colaterais dos ataques aéreos ocidentais afetam todos os moradores do Saara. A fim de evitar tal desastre, antes da intervenção, a União Africana havia proposto uma solução pacífica

Em 2011, no intervalo de dezesseis dias, duas incursões militares estrangeiras pesadas aconteceram no espaço soberano da África, sem que a União Africana [1], considerada negligenciável, tivesse sido consultada. Entre 4 e 7 de abril, as tropas francesas intervieram na Costa do Marfim. Alguns dias antes, desde 19 de março, as forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), principalmente francesas e britânicas, tinham começado a bombardear a Líbia. Para o ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki, esses acontecimentos ilustraram “a impotência da União Africana em fazer valer os direitos dos povos africanos perante a comunidade internacional”.[2] No entanto – fato ignorado pelas mídias –, nesses dois conflitos, a organização cuja comissão eu presidi de 2008 a 2013 tinha formulado soluções pacíficas concretas, que os ocidentais e seus aliados autoritariamente descartaram.

Desde os primeiros dias de 2011, tudo tinha mudado na África do Norte. Em 14 de janeiro, o presidente tunisiano, Zine al-Abidine ben Ali, fugiu. Pega desprevenida, a Europa não interveio. Em 10 de fevereiro, no Egito, Hosni Mubarak renunciou. No dia 12 de fevereiro, a contestação tomava conta da vizinha Líbia. Para os ocidentais, esse último levante foi uma oportunidade: permitiu-lhes interpretar o papel dos heróis humanitários e apagar seu apoio aos regimes ditatoriais. Com o voto da Resolução n. 1.973 do Conselho de Segurança da ONU, em 17 de março, eles pensavam ter obtido um sinal verde para iniciar uma dança macabra em torno do dirigente líbio Muamar Kadafi.

“O Afeganistão próximo dos europeus”

Entre os protagonistas desse conflito figuravam em primeiro lugar o Conselho Nacional de Transição (CNT) e seus revolucionários heterogêneos, que tinham por único objetivo comum se livrar do tirano. Para isso, um apoio externo era indispensável.[3]

Em segundo lugar, intervinha a coalizão ocidental e seu braço armado, a Otan, que fizeram uma irrupção, como justiceiros, nessa nova batalha. Eles pretendiam reagir ferozmente às ações de Kadafi e, como tinham feito com Saddam Hussein, eliminá-lo definitivamente. Mas, para se livrar de um único homem e interromper um massacre de civis, era preciso começar uma guerra punitiva dessa amplitude e cometer outro massacre de civis tão inocentes quanto os primeiros? Estavam brincando com fogo e já podiam prever o caos que, como na Somália, no Iraque, no Afeganistão e em outros lugares, resultaria disso.

O campo ocidental contava naturalmente com o grande irmão norte-americano, a “nação indispensável”, segundo a expressão da ex-secretária de Estado Madeleine Albright. No entanto, acontece que, naquele exato momento, Barack Obama revelava sua nova doutrina de “giro” em direção à Ásia do Pacífico.[4] Os Estados Unidos, atolados em seus problemas internos nascidos da crise econômica e financeira, tinham a necessidade de se voltar um pouco para si mesmos. Eles tinham por isso decidido exercer, a partir de então, sua liderança mundial “por trás” (leading from behind). Abandonando as tradições de sua diplomacia, a França, por sua vez, encabeçou a coalizão internacional antikadafista. Ela dirigiu as hostilidades “pela frente” e por procuração internacional.

Mas quem iria governar a Líbia pós-Kadafi? Quem saberia acalmar as tensões inter-regionais, intertribais e inter-religiosas que nasceriam indiscutivelmente do terrível confronto por vir? Como evitar o caos no interior e a desestabilização no exterior, principalmente no Sahel? Tais eram as questões essenciais que levantávamos no seio da União Africana.

A Resolução n. 1.973 contentava-se em exigir um cessar-fogo e em proibir todos os voos no espaço aéreo líbio, para proteger os civis; ela excluía o emprego de um exército de ocupação. Sem utilizarem seu direito de veto, a Rússia e a China, por falta de respostas sobre os meios cogitados para colocar em ação essa resolução, optaram prudentemente pela abstenção (assim como a Alemanha, o Brasil e a Índia). A intervenção militar, com o recurso às forças especiais no solo, a ajuda aos rebeldes e os ataques aéreos contra as tropas e os centros de comando, constituiu assim para essas duas potências numa afronta e num desvio de procedimento. O objetivo nunca foi se livrar de Kadafi ou impor uma mudança de regime.

As ações ocidentais, julgadas ilegais e imorais por muitos, provocaram inúmeras reações internacionais, como aquela, particularmente amarga, de Mbeki: “Pensávamos ter definitivamente colocado fim a quinhentos anos de escravidão, imperialismo, colonialismo e neocolonialismo. [...] Contudo, as potências ocidentais se arrogaram o direito de decidir o futuro da Líbia de maneira unilateral e desavergonhada”.[5] Esse desabafo ilustrou um sentimento de humilhação amplamente compartilhado.

Para nós, evidentemente, o espectro da guerra civil, da divisão, da “somalização”, do terrorismo e do narcotráfico planava sobre a Líbia. Porque éramos os únicos a ver isso? Iríamos lutar ali pela defesa da democracia, pelo controle do petróleo, em função de sórdidas considerações eleitoreiras (Nicolas Sarkozy já estava em pré-campanha por sua reeleição no ano seguinte) ou ainda por tudo isso junto? Não havia, nesse estágio, outros caminhos possíveis além dos bombardeios maciços?

A União Africana estava convencida de que havia. Foi por isso que ela optou por uma resposta mais política do que militar e concentrou seus esforços na elaboração de um “plano de ações” adotado em 10 de março. Esse documento comportava essencialmente três pontos: uma “cessação imediata das hostilidades”, seguida de um “diálogo”, o qual teria em vista uma “transição consensual” – quer dizer, excluindo a manutenção de Kadafi no poder –, sendo o objetivo principal a continuação da instauração de um “sistema democrático”. O Ocidente queria suprimir um homem; a União Africana pretendia mudar um sistema.

Como que para implodir esse plano, os bombardeios da Otan começaram em 20 de março, no mesmo dia em que nos preparávamos para ir a Trípoli, depois a Bengasi, para tentar colocar em prática o plano de ações.

Em 19 de março, o comitê dos chefes de Estado [6] mandado pela União Africana para persuadir os dois lados do conflito líbio a aceitar os termos de uma solução política reuniu-se em Nouakchott, na Mauritânia, depois de um primeiro encontro em Adis-Abeba, na Etiópia, na sede da organização. No meio das deliberações, Ban Ki-moon, o secretário-geral da ONU, quis urgentemente falar comigo ao telefone. Ele estava participando naquele sábado, em Paris, de outro encontro internacional que reunia os dirigentes árabes, europeus e norte-americanos para “decidir e agir coletivamente sobre a aplicação da Resolução n. 1.973”. Os governos reunidos em Paris, ele avisou, tinham o encarregado expressamente de me pedir que dissuadisse nossos representantes de se dirigirem a Trípoli e Bengasi. Ele invocou uma razão clara: “As operações militares da Otan vão começar hoje”. Um roteiro semelhante, visando marginalizar a ONU e as mediações da União Africana, aconteceu na Costa do Marfim,[7] demonstrando que, para algumas potências, nenhuma autoridade é superior a elas.

Para nós, foi como recomeçar o jogo. No dia 10 de abril, os representantes da União Africana chegaram a Trípoli para encontrar Kadafi. No dia seguinte, em Bengasi, nossos carros foram cercados desde o aeroporto, e fomos vaiados até o hotel onde deveriam se realizar as negociações. Mustafa Abdeljalil, presidente do Conselho Nacional de Transição, e sua equipe começaram as discussões sob a pressão ininterrupta de uma multidão de manifestantes agressivos que gritaram até nossa partida. Resultado: Kadafi aceitou nossa proposta, mas a resposta do CNT foi negativa. Os pirômanos acabavam de ganhar dos bombeiros e o enfrentamento venceu a negociação.

Com o tempo, notar-se-á que a União Africana foi a única organização internacional que propôs uma saída política. Sem dúvida porque a África tinha vivido experiências análogas e conservava seus estigmas indeléveis. Que se lembre do drama que a Somália vive há mais de vinte anos, abandonada por todos, em seguida da desastrosa operação militar norte-americana “Restore Hope”, em 1993. Que se considere também o caos iraquiano e a desintegração atual desse Estado. [8]

Na Líbia, como tínhamos previsto, o sonho europeu também se tornou um desastre. Os aparelhos de Estado implodiram, para o lucro dos senhores da guerra, dos clãs mafiosos e dos terroristas islâmicos; a pilhagem dos estoques de armas transformou esse país em um gigantesco arsenal a céu aberto; as fileiras de imigração clandestina multiplicaram-se [9] – a ponto de a Líbia ter se tornado, para retomar a expressão de um antigo chefe das informações francês, “o Afeganistão próximo dos europeus”.

Nós advertimos o mundo inteiro: essa bomba-relógio acabaria explodindo na mão daqueles que a criaram, que não sabiam em que história estavam se metendo. A proposta africana que ninguém queria ouvir visava persuadir Kadafi a seguir o caminho do exílio – no estrangeiro, como Ben Ali, ou interno, como Mubarak. Ele deveria renunciar por conta própria ao que lhe restava de poder a fim de poupar seu povo das infelicidades e das humilhações de uma intervenção estrangeira, assim como dos tormentos de uma guerra civil cujo fim lhe seria fatal.

Por trás do pretexto humanitário

Nós procuramos imediatamente possíveis locais de acolhida. Para o exílio interno, propusemos Sebha, capital da região de Fezzan, próxima de países amigos da África negra – principalmente o Chade. Para o exílio no estrangeiro, a Turquia tinha declinado nossa oferta. A Venezuela tinha se oferecido, mas era muito delicado. O Egito também tinha sido contatado, mas os partidários de Kadafi haviam rejeitado essa proposta…

A diplomacia ainda é a arma principal da União Africana. Nossa lógica é a da “paz preventiva”, e não, como se tornou frequente no caso ocidental, a da “guerra preventiva”, desprovida de qualquer legitimidade. Por que não nos deixaram sequer uma chance de colocar em ação nosso plano, que Kadafi tinha aceitado?

Entre os outros agentes estratégicos figuravam os Estados árabes e sua organização regional. Contrariamente à União Africana, a Liga Árabe estava praticamente alinhada com a posição ocidental, o Catar se mostrando o mais bélico. Quanto ao próprio Kadafi, ele não podia entender que, num mundo que se tornou um vilarejo planetário, todos os povos aspiravam à liberdade, à dignidade e à justiça. Sua relação ao levante popular vinha de outro tempo: a repressão, somente a repressão.

Esse curioso personagem parecia, no entanto, estar no topo de sua glória. Ele tinha se tornado novamente frequentável e tinha as melhores relações com os poderosos deste mundo: basta pensar em sua estada em Paris no fim de 2007 e em sua célebre tenda beduína plantada a alguns passos da Champs-Elysées, ou ainda na viagem de Sarkozy a Trípoli em julho do mesmo ano; nas boas notas do Fundo Monetário Internacional, ou ainda nas excelentes relações do dirigente líbio com a Itália de Silvio Berlusconi. Kadafi colaborava inclusive com os serviços de informação norte-americanos, britânicos e franceses. E depois todos os sonhos grandiosos do “Guia” se desmoronaram como um castelo de cartas, levados pelo “tsunami árabe”. Levanta-se com o mundo aos seus pés, vai se deitar com uma chuva de bombas sobre sua cabeça.

Em 20 de outubro de 2011, a aviação francesa interceptou o comboio do chefe líbio. Fugindo a pé, Kadafi foi notado, espancado horrivelmente por um grupo de insurgidos e finalmente morto. Descobrimos que a “guerra humanitária”, vestida com os bons e nobres sentimentos do novo princípio da “responsabilidade de proteger” – adotado pelas Nações Unidas em 2005 –, era apenas uma mistificação. Ela dissimulava uma política de poder clássica visando derrubar um regime e assassinar um chefe de Estado estrangeiro, tendo, dessa vez, o sinal verde da ONU.

Jean Paul Hébert era pesquisador do Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Paz e dos Estudos Estratégicos, faleceu em 21 de julho de 2010.

Ilustração: Odyr

1 Em 2002, a União Africana (www.au.int) sucedeu à Organização da Unidade Africana (OUA), fundada em 1963. Ela agrupa os 54 países do continente, todos representados na Conferência dos Chefes de Estado, sua instância dirigente, enquanto a comissão é seu órgão executivo.

2 Thabo Mbeki, “Union africaine: une décennie d’échecs” [A União Africana: uma década de fracassos], Courrier International, Paris, 27 set. 2012.

3 Ler Serge Halimi, “Les pièges d’une guerre” [As armadilhas de uma guerra], Le Monde Diplomatique, abr. 2011.

4 Ler Michael T. Klare, “Quand le Pentagone met le cap sur le Pacifique” [Quando o Pentágono se dirige ao Pacífico], Le Monde Diplomatique, mar. 2012.

5 Thabo Mbeki, op. cit.

6 Jacob Zuma (África do Sul), Mohamed Ould Abdel Aziz (Mauritânia), Denis Sassou Nguesso (Congo), Amadou Toumani Touré (Mali) e Yoweri Museveni (Uganda).

7 Ler Anne-Cécile Robert, “Origines et vicissitudes du ‘droit d’ingérence’” [Origens e vicissitudes do “direito de ingerência”], Le Monde Diplomatique, maio 2011.

8 Ler Peter Harling, “Ce que qu’annonce l’éclatement irakien” [O que anuncia o desmembramento iraquiano], Le Monde Diplomatique, jul. 2014.

9 Ler Patrick Haimzadeh, “La Libye aux mains des milices” [A Líbia nas mãos das milícias], Le Monde Diplomatique, out. 2012.

EUA: um Estado terrorista e inimigo da humanidade

Por Miguel Urbano Rodrigues | Via Brasil de Fato

O chamado Estado Islâmico-ISIL, que se apresenta como refundador do Califado é a ultima aberração gerada pela estratégia de terrorismo de estado do imperialismo estado-unidense.

Essa estratégia surgiu como consequência de efeitos não previstos da execução do projeto de dominação perpétua e universal sobre a humanidade, concebido ainda em vida de Roosevelt, no âmbito do War and Peace Program, um projeto que identificava nos EUA o herdeiro natural do Império Britânico.

O Médio Oriente foi a área escolhida pelo Pentágono e o Departamento de Estado para a arrancada do ambicioso Programa, precisamente porque o Reino Unido, muito enfraquecido pela guerra, ter iniciado ali a sua política de retirada escalonada de bastiões imperiais no mundo islâmico.

Nas décadas seguintes, a CIA promoveu golpes na Região com destaque para o que derrubou Mossadegh e restabeleceu no trono do Irão o Xá Reza Pahlavi.

O pântano afegão

A partir de 1980, o governo Reagan financiou e armou as organizações terroristas sunitas de Peshawar que combatiam a Revolução Afegã. Alguns dos seus dirigentes foram recebidos cmo heróis na Casa Branca como «combatentes da liberdade»; Reagan saudou-os como combatentes da liberde e «novos Bolivares».Os bandos desses heróis cortavam os seios a mulheres que não usavam a burka ou cegavam-nas com ácido sulfúrico.

Nessa época, o saudita Bin Laden interveio ativamente como aliado de confiança dos EUA (seu pai fora amigo da família Bush) nas campanhas que visavam o derrubamento do governo revolucionário de Kabul.

Quando Mikhail Gorbatchov abandonou o Afeganistão e os 7 de Peshawar tomaram o poder no país, essas organizações desentenderam-se e iniciou- se um período de guerras fratricidas.

No final da Presidência de Bush pai, os EUA, que tinham patrocinado a guerra de Saddam Hussein contra o Irão, reagiram à ocupação do Koweit, desencadeando a primeira guerra do Golfo em l991. Com o apoio de uma grande coligação avalisada pelo Conselho de Segurança, os iraquianos foram rapidamente derrotados. Bagdad foi submetida a bombardeamentos destruidores, mas Washington não se opôs a que Saddam permanecesse no poder.

No Afeganistão, cujo subsolo encerra recursos fabulosos, a situação assumiu aspetos tao caóticos, com os senhores da guerra a digladiarem-se, que Washington abriu a porta à entrada em cena dos Taliban, uma organização terrorista que a CIA havia criado no Paquistão como «reserva».

Os autointitulados «estudantes de teologia» conquistaram facilmente o país e, instalados em Kabul, assassinaram Muhammad Najibullah, o ultimo presidente legitimo, asilado na Sede da ONU, e promoveram uma politica de fanatismo religioso que fez regressar o país à Idade Media. Bin Laden, mudando de campo, surgiu então como aliado preferencial do mullah Omar, chefe espiritual dos Taliban.

Os EUA recolhiam frutos amargos da sua política agressiva contra o Islão e de apoio incondicional ao Estado sionista de Israel.

Mas foi somente em 2001, apos os atentados contra o World Trade Center e o Pentágono, que a Casa Branca, onde então pontificava Bush filho, tomou a decisão de invadir e ocupar o Afeganistão. Bin Laden foi guindado a inimigo número 1 dos EUA e a Al Qaeda, por ele fundada, adquiriu na propaganda americana as proporções de um polvo demoníaco cujos tentáculos envolveriam todo o mundo islâmico.

Mas, contrariando as previsões de Washington, o povo afegão resistiu à ocupação do país pelos EUA e pela NATO.

O Presidente Obama, que prometera acabar com aquela guerra impopular, enviou para o país mais 100 000 militares. Sucessivas ofensivas de «pacificação» fracassaram e generais prestigiados foram demitidos. Anunciada para este ano a total retirada das forças de combate, a promessa não será cumprida.

Transcorridos 13 anos da invasão, a Resistência Afegã (que transcende largamente os Talibans) controla quase todas as províncias, com as tropas estrangeiras concentradas em Kabul e nas principais cidades. O país, devastado pela guerra, está mais pobre do que antes da chegada dos americanos, mas a produção de opio aumentou muitíssimo.

O assassínio de Bin Laden no Paquistão numa operação de comandos nebulosa, montada pela CIA e o Pentágono, não contribuiu, alias, para melhorar a imagem de Obama.

Iraque, Líbia, Síria

Longe de extraírem lições da sua política para a Região, os EUA desencadearam em março de 2003 a segunda guerra do Iraque, desta vez sem o aval da ONU.

O pretexto invocado – a existência de armas de extermínio massivo – foi forjado por Bush e Tony Blair. Tais armas, como foi provado, não existiam.

Na invasão foram utilizadas armas químicas proibidas pelas convenções internacionais. Crimes monstruosos foram cometidos e as torturas (incluindo abusos sexuais) infligidas pela soldadesca americana aos prisioneiros iraquianos tornaram-se tema de escândalo de proporções mundiais.

Saddam Hussein foi executado ,apos um julgamento sumário, com o aplauso de um governo fantoche, mas, transcorrida mais de uma década, o Iraque regrediu meio seculo. Centenas de milhares de iraquianos morreram de doenças curáveis e de desnutrição.

Hoje, ocupado por dezenas de milhares de mercenários ao serviço de empresas mafiosas, o Iraque é na prática uma terra humilhada e ocupada, onde o poder real é exercido pelas transnacionais que se apropriaram do seu petróleo e do seu gás.

Incapazes de encontrar soluções para a sua crise estrutural, os EUA prosseguiram com a sua agressiva estratégia (ampliando-a) de dominação imperial.

A política de cerco à China e à Rússia intensificou-se. De documentos secretos do Governo federal, tornados públicos por influentes media, constam planos para arruinar e desmembrar a Rússia, reduzindo-a a potência de segunda classe.

A multiplicidade de objetivos a atingir quase simultaneamente tem contribuído, porem, para que os resultados dessa política não correspondam às esperanças da Casa Branca.

As mal chamadas «primaveras árabes» foram ideadas para produzirem no Islão um efeito comparável ao das «revoluções coloridas». E isso não aconteceu. No Egito, apos uma cadeia de crises complexas e um golpe de estado que derrubou o presidente Morsi, os EUA conseguiram o que pretendiam. No Cairo ocupa o poder um governo militar do agrado do imperialismo norte-americano e que Israel encara com simpatia.

Mas o balanço da intervenção militar na Líbia é desastroso. Derrubaram e assassinaram Kadhafi, numa guerra de agressão imperial, viabilizada pela cumplicidade da ONU, guerra em que participaram ativamente a França e o Reino Unido, preparada com antecedência pela CIA e os serviços secretos britânicos e a Mossad israelense. Destruíram as infraestruturas do país para se apossarem do seu petróleo e do seu gás.

Mas o desfecho da operação criminosa não correspondeu ao previsto no organigrama da agressão.

A Líbia é hoje um país ingovernável. Uma parte significativa dos «rebeldes», treinados e armados pelo imperialismo para lutar contra Khadafi, passaram a atuar por conta própria, em milícias que desconhecem o governo títere de Trípoli. O terrorismo tornou-se endémico. O atentado terrorista contra a missão diplomática dos EUA em Bengasi confirmou o estado de anarquia existente e a incapacidade de Washington para controlar as organizações terroristas que o imperialismo introduziu no país.

Do caos líbio não foram porem extraídos também os ensinamentos neles implícitos.

A escalada de agressões prosseguiu. A Síria foi o alvo seguinte. Washington repetiu a fórmula. Uma campanha mediática ampla e ruidosa demonizou o presidente Assad, apresentado como ditador brutal. Depois, «rebeldes» patriotas – muitos dos quadros são estrangeiros – iniciaram a luta contra o governo legitimo do pais.

Contrariando as previsões da CIA, as forças armadas, unidas em defesa do presidente Assad, resistiram e as organizações terroristas, ostensivamente apoiadas pela Turquia e pela Arabia Saudita, sofreram severas derrotas.

Dezenas de milhares de civis, sobretudo mulheres e crianças, foram vítimas da guerra patrocinada pelos EUA.

Compreendendo finalmente que o plano elaborado em Washington estava a fracassar, Obama, numa guinada tática, informou num discurso ameaçador que tinha decidido bombardear a Síria.

A firme atitude assumida pela Rússia obrigou-o, entretanto, a recuar e a desistir da intervenção militar direta.

Essa inocultável derrota política tornou necessária uma revisão da estratégia global dos EUA para todo o Medio Oriente.

Apercebendo-se de que haviam avaliado mal a relação de forças, a Casa Branca e o Pentágono adiaram sine dia o projeto de agressão à Republica Islâmica do Irão, e abriram negociações sobre o tema nuclear com um governo que o imperialismo identificava como polo do «eixo do mal».

A catástrofe ucraniana

A derrota sofrida pelo imperialismo na Síria coincidiu praticamente com o desenvolvimento de outro projeto imperial, mais ambicioso, que visava a integração a medio prazo da Ucrânia na União Europeia e na NATO.

Dispenso-me de recordar, por serem amplamente conhecidos, os acontecimentos que conduziram ao poder em Kiev um governo neofascista apos o derrubamento do presidente Yanukovich. Era um aventureiro, mas havia sido eleito democraticamente.

Mais uma vez o plano golpista foi minuciosamente preparado em Washington.

Mas, novamente, a Historia seguiu um rumo diferente do previsto pelo sistema de poder imperial.

A integração da Crimeia na Rússia demonstrou que o governo de Putin e Medvedev‎ não se deixava intimidar pela agressiva estratégia de Washington.

A recusa das populações russófonas dos leste da Ucrânia a submeter-se aos golpistas de Kiev levou observadores internacionais a admitir que a ofensiva das forças armadas da Ucrânia contra os «separatistas» de Donetsk e Lugansk poderia ser o prólogo de uma III Guerra Mundial. Mas a prudência e serenidade de Putin contribuíram para uma redução de tensões na área, evitando o alastramento de um conflito que poderia ter trágicas consequências para a humanidade.

A crise persiste, mas a própria incapacidade militar do bando de Kiev conduziu ao atual cessar-fogo e às negociações de Minsk.

Na Ucrânia, o tiro saiu também vez pela culatra ao governo dos EUA cuja aliança com fascistas assumidos ilumina o desprezo pela ética política da Administração Obama.

O pesadelo Jihadista

Atolado no pantanal ucraniano, o imperialismo estado-unidense (e os seus aliados) enfrenta nestes dias um desafio assustador para o qual sabe não ter solução.

Inesperadamente, uma organização de islamitas fanáticos irrompeu no noroeste do Iraque e em poucas semanas ocupou um amplo território naquele país e no norte da Síria.

Assumindo-se como interpretes intransigentes da sharia, tal como a concebem, proclamaram a restauração do Califado árabe e declaram a sua intenção de promover a sua expansão territorial e espiritual.

Logo nas primeiras semanas, a passagem desses jihadistas por cidades e aldeias conquistadas ficou assinalada pela prática de crimes hediondos, inseparáveis do fanatismo exacerbado da seita jihadista.

O imperialismo sentiu que o empurravam para um impasse. Obama não pode aceitar a ajuda do governo de Bashar al Assad, nem a do Irão. Perderia a face também se recorresse a forças terrestres para combater os jihadistas depois de ter festejado como acontecimento histórico a retirada do Iraque das tropas de combate. Optou então pelo recurso a bombardeamentos aéreos. Recebeu o apoio dos governos de Hollande e de Cameron, mas os especialistas do Pentágono acham que esses bombardeamentos, ditos «cirúrgicos» terão uma eficácia muito limitada.

Os jihadistas responderam degolando dois reféns britânicos em seu poder e ameaçam abater outros se os bombardeamentos prosseguirem.

É imprevisível no momento o desfecho do confronto. Mas os generais do Pentágono afirmam que o exército iraquiano e as milícias do Curdistão autónomo, aliado de Washington, não têm capacidade militar para derrotar os jihadistas.

Em Washington a Administração está mergulhada num pesadelo. Os media mais influentes, do New York Times à CNN, também.

Muitos quadros jihadistas são, afinal, provenientes de organizações terroristas criadas e financiadas pelos EUA para combater regimes que não se submetiam à dominação imperial. Alguns foram treinados por oficiais da US Army.

O desconforto dos media também é compreensível.

As guerras de agressão que atingiram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e a Síria foram precedidas de gigantescas campanhas de desinformação. Durante semanas, os povos dos EUA e da Europa foram massacrados com um tipo de propaganda que apresentava as intervenções militares como exigência da defesa da liberdade e dos direitos humanos em prol da democracia,contra a ditadura e a barbárie.

Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, afirmava que uma mentira à força de repetida é aceite como verdade. As técnicas de desinformação utilizadas na época parecem hoje brincadeira de crianças se comparadas com a monstruosa máquina mediática controlada pelo imperialismo para anestesiar a consciência dos povos e justificar crimes monstruosos.

O presidente Obama cumpre neste jogo criminoso o papel que lhe foi distribuído. Na realidade o poder real nos EUA está nas mãos do grande capital e do Pentágono. Mas isso nao atenua a sua responsabilidade; a máscara não funciona, o presidente desempenha com prazer e hipocrisia a sua função na engrenagem do sistema de poder. Comporta-se na Casa Branca como inimigo da Humanidade.

Nos últimos seculos somente a Alemanha de Hitler criou uma situação comparável pela monstruosidade dos crimes cometidos à resultante hoje da estratégia de poder dos EUA. Com duas diferenças importantes: a política do III Reich suscitou repúdio universal, mas apenas a Europa foi cenário dos seus crimes. No tocante aos EUA, centenas de milhões de pessoas são confundidas pela fachada democrática do regime, mas os crimes cometidos têm dimensão planetária.

Qual o desfecho da perigosa crise de civilização que ameaça a própria continuidade da vida na Terra?

Vivemos um tempo, após a transformação da Rússia num pais capitalista, em que as forças da direita governam com arrogância em quase toda a Europa. Em Portugal sofremos um governo em que alguns ministros são mais reacionários que os de Salazar.

Mas a Historia é há milénios marcada pela alternância do fluxo e do refluxo. O pessimismo, o desalento não se justificam. A maré da contestação ao capitalismo está a subir.

Não esqueço que Marx ,após a derrota na Alemanha da Revolução de 1848 -49, quando uma vaga de desalento corria pela Europa criticou com veemência o oportunismo de esquerda e o de direita, contaminando a Liga dos Comunistas. Dirigindo-se à classe operária, afirmou que os trabalhadores poderiam ter de lutar 15, 20 ou mesmo 50 anos antes de tomarem o poder. Mas isso não era motivo para se desviarem dos princípios e valores do comunismo.

A revolução socialista tardou 70 anos. E não eclodiu na Alemanha ou na França ,mas na Rússia autocrática. O ensinamento de Marx permanece válido. Mas neste limiar do seculo XXI não será necessário esperar tanto tempo.

A vitória final depende das massas como sujeito da História.

A advertência de Rosa Luxemburgo nao perdeu atualidade. Ou o capitalismo, hegemonizado pelo imperialismo norte-americano, empurra a humanidade para o abismo, ou a luta dos povos o erradica do planeta. A única alternativa, creio, será então o socialismo.