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Banco lucra mais até com PIB fraco

Por Léa de Luca | Via Brasil Econômico

JPMorgan, Citi e Wells Fargo inauguraram safra do terceiro trimestre nos EUA com ganhos maiores do que há um ano; no Brasil, apesar da estagnação, devem crescer 10%

Três dos quatro maiores bancos dos Estados Unidos abriram ontem a temporada de balanços no terceiro trimestre deste ano com resultados positivos, acompanhando a melhora da economia do país. A alta, porém, é maior do que a taxa média do crescimento do PIB americano projetado para este ano (que está na casa dos 4,5%), indicando que os bancos podem estar antecipando recuperação mais forte à frente. O JPMorgan, maior banco do país, registrou lucro de US$ 5,6 bilhões, em comparação com um prejuízo de US$ 380 milhões um ano antes; o Citi, terceiro maior, teve alta de 13% sobre o mesmo período do ano passado, para US$3,67 bilhões. E o Wells Fargo, quarto maior banco dos EUA e o maior em hipotecas, registrou crescimento de 2,7%, para US$ 5,41 bilhões.

No Brasil, o descompasso entre atividade econômica e lucro dos bancos é ainda maior. No primeiro semestre deste ano, enquanto o PIB brasileiro acumulava alta de 2,6%,o lucro dos 10 maiores apresentou crescimento de 20% — excluindo deste cálculo o ganho extraordinário do Banco do Brasil com a vendadas ações da subsidiária BB Seguridade na Bolsa, em abril.Para o terceiro trimestre, a tendência deve continuar. A safra de balanços dos bancos brasileiros começa no próximo dia 30, com os resultados do Bradesco. “O lucro acumulado nos primeiros nove meses deste ano deve ficar 10% maior do que no mesmo período de 2013″, prevê Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating. Isso, apesar da queda de 0,6% do PIB no terceiro trimestre deste ano.

“Os bancos brasileiros— principalmente os maiores —são muito resilientes, e enfrentam bem períodos de desaquecimento econômico. No exterior, os bancos são mais dependentes do crescimento”, diz. Segundo Rodrigues, os bancos brasileiros tem a capacidade de se adaptar rápida e facilmente aos cenários porque tem grande “expertise” de gestão —mas as taxas de juros e spreads elevados também ajudam. A exceção, diz o presidente da Austin, são os bancos menores, que sofrem em tempos de crise de liquidez — o que não é o caso neste momento. Em relação ao crédito, Rodrigues espera um aumento entre 12% e 15%. “Mesmo com demanda menor por empréstimos, os bancos mantém os lucros também porque continuam perseguindo a eficiência e corte de custos”.

Corte de custos e redução de tamanho também estão por trás da alta do lucro líquido ajustado do Citi nos Estados Unidos. O Citi anunciou que vai sair da área de “consumer banking” em 11 países, dos quais seis na América Latina (mas o Brasil não é um deles). No final de 2012, já havia anunciado uma reestruturação que cortou 11mil empregos e 84 agências, das quais 14 no Brasil. No JPMorgan, a reversão do prejuízo veio por sua atuação em tesouraria. A atividade de mercado teve ímpeto em setembro, em grande parte devido aos esforços do Banco Central Europeu (BCE) para estimular o crescimento e a uma série de dados sugerindo o fortalecimento da economia norte-americana. A receita total com banco de investimento subiu 2%, para US$1,54 bilhão, impulsionada por maiores taxas de assessoria. Já o lucro líquido com hipotecas bancárias caiu 38%, a US$ 439 milhões. No Wells Fargo, a receita cresceu 3,6% para US$ 21,21 bilhões de dólares, apesar do declínio das originações de hipotecas para US$ 48 bilhões.

Com Reuters

A Classe Média e sua Nêmese Eleitoral

Por Marcelo Zero

Nos EUA, vem se discutindo muito sobre o encolhimento e o empobrecimento da outrora pujante classe média norte-americana. Há também um intenso debate sobre os efeitos dessa débâcle da classe média na economia.

Com efeito, embora a economia norte-americana venha experimentando algum crescimento pós-crise, com a melhoria de seus indicadores macroeconômicos, a maior parte da população continua a sofrer com o desemprego, o trabalho precário e o decréscimo da renda. Em outras palavras, a economia vai até relativamente bem, mas a população vai muito mal.

Vai mal, e não é de hoje. O desmanche progressivo da classe média norte-americana vem de longe. O gráfico abaixo, feito pela economista Pavlina Tcherneva, com base nos dados de Piketty, mostra a história toda.

Distribuição do Crescimento dos Rendimentos Médios (EUA/ 1949-2012)zero

A partir do final da Segunda Guerra Mundial e até a década de 1970, a renda média dos 10% mais ricos dos EUA (em vermelho) crescia a taxas menores que a do restante da população (em azul). Os 90% se apropriavam da maior parte do crescimento da renda, embora essa diferença tenha decrescido, ao longo das décadas. Assim, até a década de 1970, os EUA cresciam com distribuição de renda.

Entretanto, a partir da década de 1980, há uma drástica e clara reversão dessa tendência. Com o neoliberalismo e a reaganomics, os 10% mais ricos passaram a se apropriar, de forma crescente, da maior parte do crescimento dos rendimentos. Desde aquela época, os EUA crescem aumentando a desigualdade. Alguém lá atrás conseguiu convencer a maioria da população que isso era bom para todo o mundo. Boa parte da classe média votou em sua Nêmese.

De fato, uma consequência óbvia desse processo é o empobrecimento relativo e mesmo absoluto das classes médias norte-americanas. Desde 1999, os 90% mais pobres não aumentam seus rendimentos. É isso mesmo. As classes médias e os trabalhadores dos EUA não recebem aumento real há 15 anos. Na realidade, com o decréscimo recente dos rendimentos, as estatísticas mostram que o rendimento médio dos lares norte-americanos é hoje inferior ao de 1989.

Esse empobrecimento se reflete também no mercado de trabalho. Em 1979, o salário mínimo norte-americano era de $9,67 a hora (em valores de 2013). Hoje, ele está em apenas $7,25, apesar do enorme crescimento da produtividade. Alguém lá atrás deve ter achado que o salário mínimo estava muito alto, e ele acabou sendo reduzido em 25%.

A classe trabalhadora organizada não teve forças para impedir esse desastre, pois ela teve a sua espinha dorsal quebrada. Na década de 1970, 25% da força de trabalho no setor privado da economia era sindicalizada. Hoje, esse número caiu para míseros 7%. Em 1970, apenas 10% da força de trabalho dos EUA tinham trabalhos a tempo parcial. Hoje, esse índice duplicou. Os empregos gerados são, em sua maioria, de má qualidade, precários e mal pagos. Alguém lá atrás deve ter achado que era uma boa ideia terceirizar funções e flexibilizar o mercado de trabalho.

Esse processo de encolhimento dos rendimentos das classes médias e da classe trabalhadora está na origem da presente crise. Incapaz de manter o crescimento do consumo com salários decentes e bons empregos, as classes médias recorreram aos empréstimos lastreados em hipotecas de imóveis. O resto já faz parte da triste história econômica.

Agora, Obama tenta sair da crise com as mesmas políticas que a provocaram. Em vão. O pequeno crescimento obtido beneficia somente os 10% mais ricos, e mais especificamente, o 1% mais afluente. Os 90% mais pobres estão, na realidade, como mostra o gráfico, empobrecendo de forma absoluta.

Segundo Robert Reich, ex-secretário de trabalho de Clinton, a única maneira de fazer a economia beneficiar de novo os 90% seria “mudando a sua estrutura”. Isso implicaria, pelo menos, ter um salário mínimo maior e uma classe trabalhadora mais organizada, que exigisse empregos de melhor qualidade. Também requeria melhores escolas para os 90%, mais acesso à educação superior e um sistema progressivo de tributos.

Reich adverte que os verdadeiros criadores de empregos não são os CEOs, as grandes corporações e os investidores milionários. O dinheiro da lenta recuperação dos EUA está indo todo para essa gente, mas eles apenas especulam, obtendo grandes dividendos nos mercados bursátil e financeiro. O real criador de empregos, de bons empregos e de bem-estar, é o consumo da classe média e da classe trabalhadora, que expande os negócios e os investimentos.

Lembra alguma coisa, não? Exato. Lembra o Brasil dos últimos anos, que tirou 36 milhões da miséria e acrescentou à classe média 42 milhões de cidadãos. O Brasil que aumentou o salário mínimo em 72% e gerou mais de 20 milhões de bons empregos. O Brasil que, mesmo em meio a pior crise internacional desde 1929, tem a menor taxa de desemprego da história e a maior renda média de sua população. O Brasil que vem facilitando o acesso à educação, especialmente à educação superior, para os mais pobres.

Enquanto os EUA e outros países vêm destruindo as suas classes médias, o Brasil, contrariando seu longo histórico de concentração da renda, as expande. Enquanto eles aumentam as suas desigualdades, nós a diminuímos e, com isso, fortalecemos a economia real, aquela que gera empregos, renda e qualidade de vida. Não adianta ter fundamentos “macroeconômicos sólidos” e a população fragilizada. Não adianta a “economia ir bem”, com a população indo mal, como já ocorreu em nosso passado.

Mas tem gente que não gosta. As candidaturas Marina e Aécio estão repletas de economistas conservadores que querem que o Brasil pratique as mesmas políticas paleoliberais que conduziram o mundo à crise, que quebraram o Brasil 3 vezes no regime tucano, e que impõem obstáculos praticamente intransponíveis à recuperação da economia real e ao aumento da qualidade de vida para o grosso da população.

Com a benção do “Banco Central independente” e com o velho auxílio do desmonte do Estado e do encolhimento do crédito público, vão inevitavelmente provocar, caso tenham êxito, a progressiva fragilização das classes médias e da classe trabalhadora.

Resta ver se as nossas classes médias, seduzidas pelo falacioso discurso modernizante e pseudomoralizador de um neoudenismo tardio, vão, nessas eleições, votar a favor de sua própria Nêmese, como fez a hoje perplexa e empobrecida classe média dos EUA.

Petrobras, corrupção e visões divergentes: Entrevista com Fernando Siqueira

Por Rennan Martins | Brasília 11/10/2014

A imprensa tradicional teve acesso as gravações criptografadas dos envolvidos no caso de corrupção da Petrobras. Esta semana, o que se assiste é um bombardeio intenso de trechos do depoimento de Paulo Roberto Costa, onde ele aponta o PT, PP e PMDB como os beneficiários deste esquema de desvios.

Mais uma vez há coincidência entre eleições e deflagração de escândalos de corrupção. Esta imprensa que consegue acessar a documentações de alto sigilo, posa de defensora de ideais republicanos, mas não se dá ao luxo de divulgar a íntegra dos depoimentos. Parece que a sociedade civil merece tomar conhecimento só do que é conveniente.

Enquanto as afirmações desprovidas de provas estão em todas as manchetes, Aécio Neves estampa a capa das revistas Veja, Época e Isto é. A grande mídia denigre o atual governo e aponta, em concomitante, aquele que irá nos livrar do suposto mar de lama.

Querem nos convencer que o presidenciável do PSDB, o partido líder em políticos barrados pela lei da Ficha Limpa, será aquele que moralizará nossa república. Presidenciável este que é réu num processo onde sumiram R$ 4,3 bilhões da saúde do estado de Minas Gerais.

A mesma Época que este fim de semana faz propaganda clara de Aécio, é a que defende a privatização da Petrobras via editorial intitulado “O ‘Petrolão’ e a privatização”.

Para além de surtos éticos e moralismo de ocasião, entrei em contato com o engenheiro Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET). Conversamos sobre as propostas que estão a mesa para nossa mais importante empresa, analisando o modelo de partilha e o de concessão e a importância do petróleo.

Siqueira considera que nossas reservas petrolíferas podem nos elevar ao patamar da Noruega em termos de riqueza e desenvolvimento humano. Aponta também que a política privatizante é o caminho oposto ao que beneficiará o país.

Confira a íntegra da entrevista:

Que modelo político-econômico para a Petrobras podemos esperar do candidato Aécio Neves?

Acho que o pior possível. Lembro que FHC preparava a desnacionalização da Companhia e até chegou a mudar seu nome para Petrobrax. A ideia era seguir uma recomendação do Credit Suisse First Boston: privatizar por partes. Primeiro seriam as subsidiárias (foi feito) e depois dividir a Holding em novas subsidiárias para privatizar. A empresa foi dividida em 40 unidades de negócio a serem transformadas em subsidiárias privatizáveis. Sendo que a primeira, a REFAP – RS chegou a ser privatizada para a Repsol. O Sindicato de petroleiros do RS entrou com ação subsidiada pela a AEPET e interrompeu o processo.

Quais as diferenças entre o modelo de partilha (PT) e o de concessão (PSDB)?

O modelo de concessão dá todo o petróleo pra quem produz com uma suave obrigação de pagar 10% de royalties e 20% de impostos, em dinheiro. Se o campo for muito grande ainda tem uma Participação Especial da ordem de 10%, em dinheiro. Hoje, só a Petrobrás paga essa participação. Para efeito de comparação, no mundo os países exportadores ficam com a media de 80% do petróleo produzido.

No Modelo da partilha, o petróleo volta a ser propriedade da União, que ressarce os custos de produção, em petróleo e os royalties subiram para 15%, mas pagos em dinheiro. E a Petrobras é a operadora única do pré-sal. O problema é que, apesar dos avanços desta lei, não foi fixado o percentual mínimo que fica com a União. Nós tentamos através do deputado André Figueiredo fixar em 60%, mas a Dilma se empenhou em derrubar a emenda e acabou fixando em 41,65%. Isto, somado a uma tabela maluca do Edital, fez o contrato de Libra ficar tão ruim quanto a Concessão. Mas se este percentual for fixado, a Lei de partilha fica muito melhor do que a da Concessão;

Quais são os efeitos dessa proposta para a economia doméstica?

Costumo citar o exemplo da Noruega que, em 1970, era um dos países mais pobres da Europa. Descobrindo seu petróleo no Mar do Norte e o administrando bem, ou seja, produzindo para proveito do seu povo, a Noruega se transformou num dos países mais desenvolvidos do Mundo. Seu IDH é o melhor do mundo nos últimos 5 anos. O seu bem-estar social é o melhor e sua renda per capita é a segunda do mundo. Nós temos 10 vezes mais petróleo do que eles. Além de muitas outras riquezas. Portanto, se usarmos corretamente o petróleo podemos chegar ao nível da Noruega.

Quanto a tecnologia de exploração em águas profundas. Abrir a operação dos campos a iniciativa privada internacional é vantajoso para nosso desenvolvimento?

Nenhuma vantagem muito pelo contrário. Na produção do pré-sal há 3 gargalos tecnológicos: a perfuração dos poços, a completação no fundo do mar através de um conjunto de válvulas e a linha flexível que liga esse conjunto ao navio de processo. Todos esses gargalos são serviços e equipamentos fornecidos por empresas independentes que são especializadas. Na perfuração temos umas cinco no mundo, entre elas a Transocean, que já perfurou uns 30 poços no pré-sal para a Petrobras sem qualquer problema. A mesma Transocean perfurou o campo de Macondo, no México, para a British Petroleum e, por imposição desta, deixou de fazer a cimentação correta para economizar. Isto resultou no grave desastre com afundamento da plataforma e morte de 11 trabalhadores. A mesma Transocean perfurou o campo de Frade no Brasil para a Chevron e, novamente por economia, deixou de cimentar um poço e acabou fraturando o reservatório. Portanto, se for a Petrobras a contratar esse serviço, ele será muito mais seguro. Os outros dois gargalos tiveram a Petrobras como coparticipante do desenvolvimento da tecnologia, logo ela é a empresa que mais entende dessas atividades entre as petroleiras. Assim, não há qualquer vantagem em contratar empresas estrangeiras e os riscos são bem maiores.

Como diferenciar o modelo neoliberal do dito neodesenvolvimentista em termos de exploração do petróleo? Que interesses estratégicos estão envolvidos?

O petróleo é o bem mais cobiçado do planeta. Os países hegemônicos dependem dele para sobreviver. Ele é disparado, o energético mais eficiente de todos e por isto mesmo esses países criaram uma dependência irresponsável do petróleo, pois não tem reservas e ele representa 59%, em média, da matriz energética deles. Ele é responsável por 90% dos derivados usados em transporte; é responsável ainda por 85% das matérias primas que geram os produtos petroquímicos que usamos no dia a dia: remédios, fertilizantes, plásticos, DVD’s, telefones móveis, fibras sintéticas e outros 3000 produtos. Ele tem um poder geopolítico imenso. Exemplo: a Europa tem uma grande dependência da Rússia. Os EUA, mesmo com o Shale gas, produzem 1/3 do seu consumo; o cartel do petróleo, que já dominou 90% das reservas mundiais, hoje controlam menos de 5%. E são as maiores empresas do mundo. Mas estão se fundido porque, sem reservas, podem perecer. Isto explica o porquê de todas as guerras, após a 2ª guerra mundial, terem sido motivadas por petróleo. Como disse Henry Kissinger em 1977: “os países hegemônicos não podem mais viver sem os recursos naturais não renováveis do planeta. Para tanto precisam manter um sistema mais sofisticado e eficiente de pressões e constrangimentos para dominar esses recursos”. Ele é um dos pais do neoliberalismo.

Qual a importância geopolítica da soberania nacional sobre os recursos petrolíferos?

Se o Brasil produzir o petróleo do pré-sal mantendo o controle sobre o ritmo da produção dele, mesmo que haja os desnecessários leilões, mas ficando com a média mundial e 80% em petróleo, pode se transformar numa potência econômica, financeira e tecnológica. E terá um poder geopolítico de barganha imenso, Mas precisa manter a soberania e controlar a produção de forma que ele dure até 45 anos, tempo suficiente para o petróleo ser substituído por fontes renováveis. Se deixarmos empresas estrangeiras produzirem para sair do sufoco junto com seus países, o pré-sal pode se esgotar em 15 anos, e aí, nem eles nem nós seremos atendidos.

Gostaria de acrescentar algo?

Sim. 1) Acho que a questão dos leilões tem que ser debatida com a sociedade. Hoje, nos já temos mais de 60 bilhões de barris descobertos no pré-sal. Até sua descoberta eram 14 bilhões de barris que tínhamos e davam para 15 anos de autossuficiência; hoje são 74 bilhões e dão para mais de 50 anos. Portanto, a continuidade dos leilões deve passar por uma ampla discussão com a população brasileira.

Eleições, Petrobras e propostas divergentes

Por Rennan Martins | Brasília 09/10/2014

Chegamos em um ponto crucial do futuro do Brasil, restando 16 dias para o segundo turno.

A grande mídia tem, como previsto, feito um bombardeio sobre a Petrobras. Denunciam incessantemente os supostos crimes baseados em depoimentos de delação premiada, sem destacar o caráter duvidoso desse recurso. Já que o réu, numa situação difícil, pode dizer o que for para livrar-se de alguns anos de pena.

O problema sério da corrupção, diferente do que tentam nos ensinar, é muito antigo e deve ser combatido seguindo rigorosamente o devido processo legal. Discursos inflamados não passam de oportunismo eleitoreiro. Há de se punir também, além dos políticos corruptos, o alto empresariado corruptor.

Quem pretende, sinceramente, coibir esta prática defende uma reforma que diminua a influência do dinheiro sobre o sistema político. A esfera pública e a privada precisam de delineações mais condizentes a república, que evitem relações promíscuas como as que estamos vendo há muito.

Porém, muito mais importante para a decisão do voto é o debate programático, e é para este que passo. Examinemos então, que propostas tem PT e PSDB para a Petrobras, a nossa mais importante empresa.

São diferenças cruciais que se baseiam em visões divergentes da missão do Estado na economia.

O PT defende que o único operador dos poços seja a Petrobras, garantindo que tenhamos controle sobre o quanto se tira de nossos recursos.

O PSDB propõe a abertura de mercado, a terceirização. Isso significa iniciativas estrangeiras extraindo nosso petróleo da forma que lhes convir.

O atual governo pretende que a exploração do pré-sal sirva como fomentador ao desenvolvimento tecnológico local, promove uma política de compras nacionais que empurra a diante nossas indústrias.

A oposição julga que a política de compras locais emperra o dinamismo do mercado, sempre ele, e por isso, precisamos importar pagando caro, tecnologia estrangeira.

O PT crê que os recursos do pré-sal precisam estar vinculados a uma estratégia de investimentos em educação e saúde, que a atividade econômica deve estar ligada a ganhos de bem-estar da população.

O PSDB prega que a integração as “cadeias globais de produção” é a melhor opção, que isto dinamizará as atividades produtivas e os ganhos se darão em efeito cascata.

Aécio e seus assessores acham que a inserção subserviente nos mercados é o melhor que podemos obter, que a divisão internacional do trabalho destinou ao Brasil a eterna condição colonial de exportador de commodities.

Dilma e sua equipe entendem que o Estado precisa ser parte ativa do desenvolvimento do país, que a Petrobras e suas riquezas devem contribuir diretamente para a qualidade de vida dos cidadãos.

Para além de denúncias oportunistas, essas são as distinções relevantes que todo brasileiro precisa saber.

Cristina repudia decisão de desacato ditada por juiz dos EUA

Via Pátria Latina

Dailymail/Reprodução

Buenos Aires, (Prensa Latina) A decisão de desacato contra a Argentina, com ameaça de sanções, ditada pelo juiz estadunidense Thomas Griesa constitui uma violação do direito internacional e um novo ataque à sua soberania, sustenta a presidenta Cristina Fernández.

A mandatária escreveu no Twitter depois que a Chancelaria emitiu ontem à noite uma declaração denunciando a nova sentença do magistrado nova-iorquino a favor dos fundos abutre, para enfatizar que o Governo defenderá a soberania nacional.

Na tarde da segunda-feira em Manhattan, Griesa declarou a Argentina em desobediência por não cumprir sua ordem de pagar 1,33 bilhões de dólares aos fundos abutre e ameaçou impor uma multa de 50 mil dólares diários se não acatar sua decisão.

O governo argentino considera que tal decisão viola as normas internacionais, a Carta das Nações Unidas e a Carta da Organização de Estados Americanos (OEA).

Todos estes instrumentos estabelecem que o governo estadunidense “como Estado é o único responsável pelas ações de qualquer de seus órgãos, como a recente decisão de seu Poder Judicial”, enfatiza uma declaração emitida ontem à noite pela Chancelaria.

Antes disso, a Presidenta enfatizou através do Twitter, agumentando que esta decisão do magistrado nova-iorquino “não tem nenhum efeito prático, exceto oferecer novos elementos que sirvam à campanha política e mediática difamadora levada adiante pelos fundos abutre contra a Argentina”.

Cristina Fernández reafirmou a decisão do Governo “de continuar exercendo a defesa da soberania nacional e de pedir ao governo dos Estados Unidos que aceite a jurisdição da Corte Internacional de Justiça para resolver esta controvérsia entre ambos países”.

Agora, falta ver qual é a postura que a administração do mandatário Barack Obama adotará.

Até agora, todas as vezes que um tribunal estadunidense declarou um país em desacato, o Executivo estadunidense não considerou que uma corte ditasse uma ordem de desobediência a um Estado estrangeiro porque se encontrava amparado pela imunidade de execução.

Tal medida foi adotada em casos parecidos de disputas contra a Rússia, Bielorrússia e Congo, conforme a Lei de Imunidades Soberanas de 1976, e segundo o argumento de que um ato de tal natureza interferia no desenvolvimento normal das relações diplomáticas.

A dúvida é até onde vai querer chegar a administração de Obama com um castigo à Argentina, quando Griesa comunicar sua decisão ao departamento dos Estados Unidos e pedir uma intervenção.

A imprensa e a Petrobras no segundo turno

Por Rennan Martins | Brasília, 06/10/2014

Deixo registrado o que está por vir em termos de imprensa nesse segundo turno. Nos próximos dias a Veja fará alguma “denúncia” envolvendo a Petrobras, dirão que tiveram acesso a alguns documentos e/ou gravações, escreverão muitas especulações em cima da corrupção que está sendo investigada pela PF. Não darão uma prova sequer aos leitores.

Em seguida, Jornal Nacional e correlatos reverberarão a matéria da revista Veja. Curiosamente os políticos envolvidos serão só do governo. Tucanos, democratas e a fins são incorruptíveis no mundo mágico de nossa imprensa.

Esse bombardeio será ensurdecedor a ponto da maioria da população nem querer saber se houve provas, julgamento ou algo do tipo. Muitos pedirão a cabeça dos envolvidos. Tentarão de todo jeito emplacar o “Fora Corrupção!” no imaginário da população, no objetivo dos votos debandarem para Aécio Neves, o valoroso.

Não importa se o PSDB é o partido com mais barrados pela lei da Ficha Limpa, não se ouvirá falar do escândalo do metrô que já desviou mais de R$ 500 milhões do erário no Tucanistão, quer dizer, São Paulo. Nem mesmo o fato de Aécio ser réu num processo no qual sumiram a bagatela de R$ 4,6 bilhões da saúde mineira é relevante. A imagem que pintarão dele é a de incorruptível, cruzado da justiça.

Dando certo, os articulistas de aluguel entram em cena. Senhores como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e Ricardo Noblat usarão de suas penas pra propaganda privatista. Segundo a mídia – a mesma que apoiou a ditadura e que sonega milhões – a solução pro problema será vender nossa mais valiosa empresa pras petroleiras internacionais.

A difamação e calúnia da Globo, Folha, Veja e cia já é prática antiga. A imprensa brasileira serve a interesses que estão muito longe de ser os do bem público.

No caso da Globo, desde antes da ditadura já se tentava denegrir a Petrobras, usando de todo e qualquer artifício pra desmoralizá-la. Neste artigo compreende-se bem o modus operandi dessa organização. Sugiro darem uma olhada.

A mídia, o mercado e as apostas do imperialismo contra Dilma

Por Umberto Martins | Via Vermelho

O jornal britânico Financial Times voltou a criticar a presidenta Dilma Rousseff em editorial publicado nesta quinta-feira (2), no qual intima a chefe do Estado brasileiro a mudar os rumos da política econômica, levando em conta a reação e os desejos do mercado, que segundo os oráculos de plantão demanda ajuste fiscal e rigor total na aplicação do tripé neoliberal (juros altos, câmbio flutuante e superávit fiscal primário).

Como já é de praxe, a grande mídia, burguesa e golpista, destacou os comentários do diário europeu (que dias atrás identificou um “preocupante aumento do socialismo venezuelano” no Brasil) de forma acrítica e subalterna. Mas a verdade que precisa ser reiteradamente observada é que o Financial Times traduz, através de editoriais e artigos, a ideologia e os interesses dos grandes capitalistas estrangeiros ou, em outras palavras, daquilo que conhecemos como imperialismo. Interesses que são francamente contrários aos da classe trabalhadora em todo o mundo e aos do povo brasileiro no caso em tela.

Bordão reacionário

O bordão que o jornal alardeia contra Dilma não é novo e vem sendo repetido pelos candidatos das forças conservadoras e neoliberais à exaustão. A receita desta gente, repudiada por Dilma, é a mesma que está sendo aplicada na Europa sob a batuta do Fundo Monetário Internacional. Significa estagnação da economia, desemprego em massa, redução de salários, corte de direitos e desmantelamento do chamado Estado de Bem Estar Social. É o que a direita, encarnando os desejos da oligarquia financeira, quer impor a qualquer preço por aqui.

Mas para dourar a pílula o diário dos rentistas ingleses se arvora também o papel de intérprete autorizado das manifestações massivas realizadas em junho de 2013, que afinal também sinalizaram a necessidade de mudança. “Dilma não pode ignorar o que os mercados e milhões de brasileiros querem: mudança”, proclama o editorial. Trata-se de uma meia verdade.

Não se pode negar que o povo brasileiro quer mudanças, em sintonia com as demandas dos movimentos sociais e os protestos de junho do ano passado. A sociedade reclama maiores investimentos públicos em saúde, educação, transporte e segurança. Mas isto, notemos, é precisamente o oposto do que a oligarquia financeira, nacional e estrangeira, quer nos impor. Já a voz do mercado, apresentado pela mídia burguesa como uma divindade abstrata que paira acima dos mortais, expressa a opinião e sentimentos de rentistas e especuladores do mercado de capitais.

Assim como a juventude, os movimentos sociais também lutam por mudanças na política econômica, mas em sentido contrário ao do projeto neoliberal, ou seja, querem o fim do tripé neoliberal: a redução substancial das taxas de juros, o controle do câmbio e taxação das remessas de lucros ao exterior, a ampliação dos gastos e investimentos públicos, focando principalmente as demandas de junho, de forma a ampliar a rede de bem estar e seguridade social. Propugnam igualmente o aprofundamento da política de redistribuição da renda nacional, o fortalecimento do mercado interno, o desenvolvimento com democracia, soberania e valorização do trabalho.

O ajuste fiscal que as forças conservadoras e o imperialismo querem impor ao Brasil, temperado com a radicalização do tripé neoliberal, requer cortes dramáticos das despesas públicas em detrimento da saúde, da educação, da mobilidade urbana, dos investimentos em infraestrutura, do emprego e do desenvolvimento da economia. Não é o que eles dizem, mas é a realidade. Os comentários do Financial Times mostram que o imperialismo não está ausente do pleito de outubro, aposta suas fichas em Aécio ou Marina e já não esconde o desconforto com a hipótese de reeleição da presidenta Dilma, a cada dia mais provável. O povo brasileiro sabe que seus interesses serão melhor bem servidos por Dilma do que pelas candidaturas alinhadas ao neoliberalismo, que felizmente parecem fadadas a um novo fracasso nas urnas.

*Umberto Martins é jornalista e assessor da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)