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México: restos mortais encontrados não são dos 43 estudantes desaparecidos

Via Brasil de Fato

Equipe de especialistas disse que materiais analisados não tem nenhum parentesco biológico com os estudantes e episódio acentua o debate sobre desaparecimentos forçados no país.

Depois de analisar as primeiras seis valas de Cerro Viejo e os localizados pela Procuradoria Geral da República do México, no lixão de Cocula, os peritos da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) chegaram a conclusão que os restos mortais encontrados não são dos 43 estudantes desaparecidos em setembro. Até então os procuradores já davam como certo que as valas encontradas eram dos estudantes.

Em comunicado, a EAAF revelou que “até o momento, não tem havido identificação entre os restos mortais recuperados e os 43 estudantes [...] nenhum deles mostrou probabilidade de parentesco biológico”.

Foram analisados 30 restos encontrados em Cerro Viejo, nove em La Parota e os encontrados no lixão de Cocula, cuja quantidade não é precisada no comunicado.

O episódio acentua o debate sobre os desaparecimentos forçados no México, já que se desconhece a quem corresponde os restos encontrados nos locais citados acima.

O caso

Oitenta estudantes da escola rural para professores Raúl Isidro Burgos, da cidade de Iguala, viajavam em ônibus da empresa Costa Line. No dia 26 de setembro, estavam se organizando para coletar fundos para pagar a escola.

Quando já iam sair dali, alguns patrulheiros da polícia municipal quiseram parar a caravana, que não quis parar. Os policiais, então, segundo o testemunho anônimo de um jovem presente no local, começaram a disparar em direção aos ônibus.

A princípio, os policiais dispararam contra os ônibus, mas, depois de algumas horas, quando os estudantes davam uma coletiva de imprensa para denunciar o ataque contra eles, outros homens sem uniforme, que muitas testemunhas reconheceram como policiais municipais, dispararam outra vez e, mais tarde, balearam outro ônibus no qual viajavam jogadores da equipe local de futebol Avispones.

O saldo foi de seis mortos, três dos quais estudantes, e vinte feridos. Cinquenta e sete estudantes despareceram, sendo que vinte deles, como afirmam testemunhas oculares, foram levados à força por policiais de Iguala e do Estado de Guerrero. Quase duas semanas depois, 43 estudantes ainda estão desaparecidos.

Mauricismo X Bolivarianismo, uma tendência

Por Cynara Menezes | Via Socialista Morena

À esquerda, o mauricinho presidenciável Lacalle Pou, do Uruguai. Foto: divulgação

Tive a antevisão dessa ofensiva tempos atrás, no início dos anos 2000, quando assisti os mauricinhos abandonarem suas trincheiras na Vila Olímpia, bairro coxinha por excelência, e invadirem a Vila Madalena, tradicional bairro boêmio e alternativo de São Paulo. Naquele momento, pressenti e temi que algum dia eles quisessem ir além e decidissem tomar o poder. A ideia de uma revolução mauricinha me deu calafrios. Pronunciei mentalmente um “no pasarán” apaziguador e fui afogar as mágoas tomando umas cervejas no Empanadas. Mais de dez anos depois, porém, para meu desgosto, a profecia se cumpriu.

Mauricinhos, playbas, coxinhas. Chamem-nos como quiserem: trata-se do mesmo personagem de corte de cabelo impecável e com uma preferência indesculpável pelo mocassim. Hugo Chávez os chamava “esquálidos”. Na Argentina e Uruguai, são apelidados “chetos”. No Chile os chamam “cuicos”. Em comum, em primeiro lugar, o fato de serem homens jovens, brancos e bem-nascidos, uma espécie de versão sul-americana dos WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant). Nem tão brancos, portanto, e católicos. Para quem acha que foi o PT quem inventou a luta de classes, não deixa de ser curioso observar que a disputa entre a esquerda e os filhos da elite política, econômica e midiática é, na verdade, uma tendência no continente.

O figurino coxinha pode até ser emulado por wannabes de várias classes sociais, mas só o legítimo mauricinho tem berço: descende de famílias poderosas há gerações e trilha o mais atapetado dos caminhos para chegar lá. Boas escolas, boas relações, bons empregos –sobretudo no aconchego das empresas da família. Self-made men são raríssimos no seleto clube dos maurícios, onde o sobrenome é tão imprescindível quanto as camisetas gola pólo ou as camisas de algodão azul clarinho no guarda-roupa. O mais gozado disso tudo é que, com uma vida tão facilitada pela família, todos eles adoram defender a “meritocracia”.

Graças ao apoio ostensivo da mídia, os mauricinhos vêm se tornando, nos últimos anos, os principais rivais dos governos de esquerda na América do Sul. Eles são a antítese dos ditos “bolivarianos” em tudo. Falam inglês, ao contrário de Lula; estudaram nos melhores colégios, em contraste com a falta de polidez de Chávez ou Nicolás Maduro; se vestem de maneira elegante, em contraponto ao estilo mal-ajambrado de Pepe Mujica ou Dilma Rousseff; e são jovens contra coroas de esquerda como Mujica, Dilma, Lula ou Tabaré Vázquez.

O precursor dos playbas anti-bolivarianos foi, sem dúvida, Henrique Capriles, na Venezuela. Herdeiro de empresas de comunicação, imobiliárias e indústrias por parte de pai, e de uma cadeia de cinemas por parte de mãe, o advogado Capriles, de 42 anos, elegeu-se deputado pela primeira vez aos 26, em 1998. Em 2013, deu muito trabalho a Chávez na disputa pela presidência e mais ainda a Nicolás Maduro, que substituiu o comandante em nova eleição após a morte deste.

Os mauricinhos venezuelanos Henrique Capriles e Leopoldo López

Apesar de ter perdido o pleito por uma diferença de pouco mais de um ponto percentual, Capriles só não se tornou o grande nome da oposição venezuelana porque passou a travar uma disputa, digamos, mauricida com um companheiro da própria MUD (Mesa da Unidade Democrática), Leopoldo López. Aos 43 anos, López é descendente do primeiro presidente da Venezuela, de ministros, médicos famosos, e, garante, do próprio Simón Bolívar (Capriles, aliás, diz o mesmo). Sua mãe foi uma importante diretora da PDVSA antes da estatização promovida por Chávez. Formou-se em economia nos Estados Unidos e, aos 29 anos, tornou-se prefeito de Chacao, um dos municípios que formam a área metropolitana de Caracas.

No Brasil, confesso que cheguei a temer que o rei dos coxinhas em pessoa, Luciano Huck, resolvesse se candidatar à presidência ou a vice de algum candidato este ano. Mas quem se lançou foi seu amigo Aécio Neves, do PSDB, com perfil em tudo similar ao dos venezuelanos. Neto de Tancredo Neves, Aécio conseguiu cargos públicos ainda bastante jovem e sem maior esforço. Foi diretor de loterias da Caixa Econômica aos 25 anos, nomeado pelo presidente José Sarney, e em seguida se elegeu deputado federal com uma votação esmagadora, alavancado pelo sobrenome de peso.

O mauricinho brasileiro Aécio Neves e seus bons companheiros Luciano Huck e Ronaldo

Aécio pode ser considerado um pioneiro do movimento mauricista, porque é mais velho do que seus congêneres sul-americanos: todos eles em geral estão entrando nos 40 anos, enquanto o mineiro tem 54, conservadíssimos pelo estilo de vida jovial de quem passou boa parte da vida na zona sul do Rio de Janeiro. No entanto, é inegável que o grande patrono do fenômeno dos maurícios entre nós é o hoje senador da base governista (!) Fernando Collor de Mello.

Eleito para a presidência da República em 1989, aos 40 anos, Collor exibiu todas as características de um mauricinho no poder. Bons restaurantes, bons vinhos, carros velozes, jet-skis e até marcas de caneta (Montblanc) e relógio (Breitling) viraram símbolo de sua era. Na economia, cercou-se de jovens como ele, economistas liberais capitaneados por Zélia Cardoso de Mello, de 37 anos –a equipe que iria tungar a poupança dos brasileiros em 1990. Seu governo, sem apoio no Congresso, terminaria em impeachment.

Collor, um pioneiro do mauricismo na política, e seu jet-ski

Aécio, como todos os demais mauricinhos anti-bolivarianos, não assume o neoliberalismo do pensamento econômico tucano e se diz preocupado também com o social. Depois de uma disputa voto a voto com Dilma Rousseff, do PT, pode-se dizer sem chance de errar que o neto de Tancredo se tornou o maior expoente do mauricismo pátrio –não à toa, tem a seu lado nomes de peso da tendência, como o já citado Huck, o baiano ACM Neto ou Ronaldo, o Fenômeno. Mas será que a mauricidade de Aécio resiste até 2018, quando terá 58 anos e a cabeça toda branca? Ou será substituído por um maurício mais jovem, como… Huck? Argh.

Atualmente, a novidade mais quente entre os mauricinhos da política do Cone Sul é o uruguaio Lacalle Pou, que irá enfrentar o esquerdista Tabaré Vázquez no próximo dia 30 de novembro, no segundo turno das eleições para a presidência do Uruguai. O advogado de 41 anos é tão bem-nascido que tem até nome de nobre: Luis Alberto Aparicio Alejandro Lacalle Pou de Herrera. Um verdadeiro príncipe. Seu pai, Luis Alberto Lacalle, foi presidente do país entre 1990 e 1995, e foi derrotado por Tabaré em sua tentativa de voltar ao cargo, em 1999. Em 2009, se lançou à presidência novamente e perdeu para Mujica.

Lacalle Pou estudou na British School, a mais seleta escola de Montevidéu, e, como todos os mauricinhos anti-bolivarianos, entrou cedo na política, com o empurrãozinho do sobrenome paterno e também materno, de longa tradição entre os “blancos” (Partido Nacional). Aos 27 anos, em 2000, se elegeu deputado. Agora, se tornou a grande surpresa da eleição ao levar a disputa no país para o segundo turno. A mãe do candidato, Julita Pou, também foi senadora, e, segundo diz a imprensa uruguaia, é a grande financiadora da campanha do filho, o que ele nega.

Em agosto, o candidato causou polêmica ao “desafiar” Tabaré, de 74 anos, a repetir uma estripulia física chamada “bandeira” com um poste, o que lhe rendeu o apelido de “Lacalle Pole” e muita gozação na internet, além de críticas por zombar do adversário por ser “velho”.

O pai de Lacalle Pou foi um presidente em cujo governo se acentuou a desigualdade social no Uruguai e que se notabilizou pela privatização de empresas e pelas denúncias de corrupção. Lacallito rejeita para si o epíteto de neoliberal ou de “Chicago Boy” (os economistas responsáveis pelo “milagre” chileno durante a ditadura de Pinochet que anteciparam o neoliberalismo). Pelo contrário, elogia as conquistas da Frente Ampla de Mujica e Tabaré e diz que irá mantê-las. Quem nunca viu este filme antes?

Se ganhar a eleição, Lacalle Pou será o primeiro dos mauricinhos anti-bolivarianos a conseguir derrotar um esquerdista e chegar ao poder. Felizmente, ao contrário do que fez Chávez na Venezuela, são remotas as chances de, eleito, mudar o nome do país para República Maurícia do Uruguai –ou República “Cheta” do Uruguai. Pelo sim, pelo não, melhor preparar a camiseta pólo e o mocassim para a posse.

China e EUA assinam acordo climático histórico

Via Correio do Brasil

Em Pequim, Estados Unidos e China anunciam acordo histórico para redução das emissões de gases do efeito estufa.

Após conversas bilaterais, o presidente norte-americano, Barack Obama, e seu colega de pasta chinês, Xi Jinping, apareceram juntos em coletiva de imprensa, em Pequim. Na capital chinesa, Obama falou de um “acordo histórico” e um “divisor de águas” nas relações sino-americanas.

Segundo informações da Casa Branca, até 2025 os Estados Unidos pretendem reduzir suas emissões de gases poluentes entre 26% e 28% em relação a 2005. Já a China calcula que, por volta de 2030, o país atingirá o ápice das emissões de gases estufa. A partir desse ponto, Pequim pretende estancar ou iniciar um processo de redução de suas emissões, disse a Casa Branca.

Além disso, foi anunciado que Pequim pretende atingir esse objetivo mesmo antes de 2030. De acordo com informações norte-americanas, a China planeja aumentar para 20% a proporção de combustíveis não fósseis em sua matriz energética. Representantes do governo chinês informaram que, no ano passado, a proporção de energias renováveis na matriz energética chinesa girou em torno de 10%.

Cúpula do Clima

É a primeira vez que a China estabelece uma data aproximada para a redução de suas emissões de gases tóxicos, que, segundo cientistas, são os responsáveis pelo aquecimento global. No próximo ano, um novo acordo global do clima deverá ser assinado em Paris com vista à contenção do aquecimento global para o período após 2020.

Na coletiva de imprensa em Pequim, o presidente chinês disse que ambos os países estão determinados a colaborar para que se chegue a um acordo em Paris. Em Bruxelas, os 28 países-membros da União Europeia concordaram, em outubro último, em reduzir as suas emissões de gases tóxicos em “pelo menos 40%”.

EUA e China são os maiores produtores de gases poluentes. Até agora, o bloqueio mútuo dos dois países na política climática impossibilitou avanços nas negociações do clima da ONU. Diante da Cúpula do Clima no próximo ano, em Paris, já se esperava para estes dias um anúncio por parte de EUA e China quanto à sua contribuição ao acordo climático.

Países do G20

Um relatório do Instituto de Desenvolvimento Ultramarino (ODI) apontou que as nações mais ricas do mundo gastam US$ 88 bilhões com subsídios à exploração de combustíveis fósseis. De acordo com o instituto britânico, isso enfraquece os investimentos em energias alternativas e aumenta o risco de uma “mudança climática perigosa”.

O Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália são os que mais fornecem essas subvenções, segundo o estudo. Os norte-americanos, por exemplo, destinaram US$ 5,1 bilhões a indústrias petrolíferas em 2013, quase o dobro do que foi gasto em 2009.

O relatório divulgado nesta terça-feira também chamou a atenção para investimentos feitos por empresas estatais como uma forma de subsídio, sobretudo em países como Brasil, China, Índia, México, Rússia e Arábia Saudita.

- Os níveis de investimento ficam entre US$ 2,5 bilhões na Rússia, México e Índia, até US$ 9 bilhões na China, US$ 11 bilhões no Brasil e US$ 17 bilhões na Arábia Saudita”, afirma o texto.

A terceira fonte de subvenção à exploração fóssil apontada pelo estudo é o financiamento público, praticado em especial em Canadá, Coreia do Sul, China, Japão e Rússia. Tais fundos seriam “investimentos antieconômicos” e “uma garantia publicamente financiada para companhias que produzem altos níveis de CO2″, condena o relatório.

Crítica ao G20

A ODI alerta que os incentivos à exploração são apenas parte do problema: as subvenções para a produção e o uso de combustíveis fósseis também somaram US$ 775 bilhões em 2012, contra apenas US$ 101 bilhões para as energias renováveis em 2013.

Tais subsídios “podem impelir o planeta para muito longe da meta, assumida internacionalmente, de limitar o aumento da temperatura terrestre a não mais de 2ºC”. Segundo o instituto britânico, isso revelaria o grande hiato entre o compromisso firmado cinco anos atrás, para diminuir o financiamento “ineficiente” de combustíveis fósseis, e as reais ações das potências do G20.

O relatório, publicado em parceira com a organização americana Oil Change International, antecipa a reunião de cúpula do G20, programada para 15 e 16 de novembro em Brisbane, Austrália. O governo australiano chegara a retirar da pauta o tema mudança climática, porém voltou atrás na decisão, devido à repercussão internacional negativa.

Em segundo plano, malária mata mais que epidemia de ebola, conta médico brasileiro que atuou em Guiné e Serra Leoa

Por Patrícia Dichtchekenian | Via Opera Mundi

Paulo conta que os pacientes de ebola se simpatizam com os brasileiros e veem semelhanças entre os dois continentes. Carolina Pimentel/ MSF

Carioca Paulo Reis narra experiência como um dos nove brasileiros que trabalharam pela MSF na África Ocidental para tentar conter propagação do vírus.

Quatro dias após a epidemia de ebola ser decretada em 22 de março deste ano em Guiné, o médico generalista Paulo Reis, de 42 anos, partiu para o país africano, onde atendeu pacientes durante dois meses. De lá para cá, o carioca vestiu o jaleco para mais duas temporadas em Serra Leoa. De volta ao Brasil há menos de um mês, ele contou a Opera Mundi os desafios do pior surto da história do vírus, poucas horas antes de decolar para uma nova missão em Guiné.

Paulo é um dos nove brasileiros que estão entre os mais de 3 mil funcionários da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras que atuam na África para conter a atual propagação do ebola. O vírus, que gerou uma espécie de histeria coletiva em escala global e uma sensação de ameaça iminente ao Ocidente, contudo, não seria a principal doença a se combater no continente africano, mas estopim para o desmoronamento de um sistema de saúde pública intrinsecamente frágil.

“O ebola em si está matando muitas pessoas, mas acredito que tenha muito mais gente morrendo de doenças endêmicas do que do atual surto, principalmente de malária. Sem cuidados, as consequências podem ser bastante graves”, argumenta Reis a Opera Mundi. O impacto na estrutura precária em Guiné, Serra Leoa e Libéria é visto como alarmante. Com o foco no combate ao ebola, o aumento do número de mortes por doenças tratáveis, como diarreias e, sobretudo, malária, acaba negligenciado.

Na mesma linha do brasileiro, o médico inglês Jimmy Whitworth, chefe da fundação britânica Wellcome Trust, dedicada a melhorias na saúde mundial, afirmou em entrevista ao The Independent que também suspeita no aumento exponencial de mortes por malária. “Essas pessoas passam despercebidas, pois não estão recebendo tratamento em sistemas de saúde. Eu estimo que haja muito mais pessoas que morrem de malária do que de ebola”, afirmou à publicação.

Além da dificuldade em quantificar os pacientes pelo colapso no atendimento em sistemas de saúde, a médica Fatoumata Nafo-Traoré, chefe da ONG Roll Back Malária, que coordena ações em escala global para controlar a doença, acrescenta, em entrevista à BBC, o receio da população em notificar um sintoma clínico, temendo o pior. “No momento em que as pessoas têm febre, muitas vezes elas têm medo de ir aos serviços de saúde, porque querem evitar serem internadas em centros de tratamento de ebola”, explica.

De fato, a malária tem sintomas iniciais semelhantes ao ebola. Embora a malária não seja do grupo de febres hemorrágicas como o ebola, são duas doenças infecciosas endêmicas no continente africano e alguns sintomas se sobrepõem, como a febre alta e as complicações hepáticas. Outro fator que confunde é que os últimos meses foram marcados pela temporada de chuvas na região, que leva a um período de pico na transmissão da malária.

A confusão do diagnóstico entre esses dois vírus é recorrente. Em outubro, o brasileiro Yarssan Dambrós Salomão, de 29 anos, chamou atenção da imprensa europeia pela suspeita de ter contraído ebola durante uma viagem de três meses a países africanos como Mali, Mauritânia e Marrocos. O produtor de vídeo carioca estava prestes a retornar ao Brasil quando teve que ficar internado e isolado em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) na Espanha. Com febre alta por vários dias, além de manchas e dores no corpo, o jovem Yarssan viveu momentos de tensão até saber que havia contraído malária, e não ebola. “Pensar que não iria morrer foi um alívio, a suspeita de ebola era forte”, contou à época em entrevista exclusiva a Opera Mundi.

Em se tratando de números exatos, a malária matou muito mais que o ebola. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), nos três países mais afetados pelo ebola, a malária foi responsável pela morte de 7 mil pessoas em 2012. Não se trata de uma competição de qual doença é mais mortal, mas ressalta-se a importância de também incentivar o tratamento para o controle da malária, cada vez mais marginalizada e à sombra do ebola. Segundo a OMS, um rápido diagnóstico contribui para a redução da transmissão da malária, o que indiretamente auxiliaria na luta contra o ebola, apontam especialistas das ONGS citadas.

Proteção de vulneráveis: grávidas e crianças

Além da propagação da malária que é negligenciada, Paulo chama atenção para mulheres grávidas e crianças, grupos vulneráveis na atual conjuntura. “Tivemos algumas mulheres grávidas que contraíram a doença. Na minha experiência, a maioria sobreviveu, apesar de serem mais frágeis à infecção. Mas, infelizmente, não conheço nenhum caso que o feto tenha sobrevivido ou nascido. Além disso, tem também o problema das grávidas que não foram contaminadas, mas não conseguem ter nenhum tipo de acompanhamento médico por conta do surto de ebola. A situação é grave principalmente em Serra Leoa, que tem um dos maiores índices de mortalidade maternal do planeta”, ressalta o médico brasileiro.

Em outubro, a MSF teve de suspender serviços de maternidade e de emergência pediátrica temporariamente em um dos seus principais centros de referência em Serra Leoa. A assessoria da organização explica que as equipes ficaram extremamente sobrecarregadas, o que impossibilitou medidas básicas de proteção para evitar contágio e o risco de novas infecções, tanto dos pacientes, quanto de seus profissionais.

Em relação às crianças, Paulo guarda histórias boas e outras ruins. “Teve um garoto de 11 anos que chegou muito mal, mas conseguiu se manter e ficou muito tempo internado. Geralmente, os pacientes morrem no terceiro ou quarto dia de internação. Já esse garoto ficou quase 3 semanas conosco. Infelizmente, ele morreu no dia em que fizemos um novo resultado de teste de ebola e tinha dado negativo. Ou seja, seu corpo já estava livre do vírus, mas seus órgãos estavam afetados demais. Ele lutou muito. Mohammed era o nome dele”, relembra.

Deficiências logísticas

Paulo Reis destaca a questão logística como um dos principais problemas na infraestrutura dos países. Em Serra Leoa, por exemplo, ele conta que na medida em que os casos suspeitos de ebola atingem vilarejos cada vez mais distantes, as poucas ambulâncias disponibilizadas pelas autoridades governamentais chegam a demorar até 9 horas para buscar os pacientes e mais 9 horas para transportá-los aos centros de tratamento.

Em situações críticas, o médico relata que já recebeu ambulância com até dez pacientes dentro. Existem casos em que não necessariamente todos estão infectados com ebola (mas sim com malária, por exemplo) e acabam sendo expostos ao risco de contágio durante as longas jornadas até chegarem às instalações de saúde disponíveis.

Por que essa epidemia dura tanto tempo?

Situações como as narradas pelo brasileiro evidenciam a falta de coordenação e de recursos em nível municipal, estadual e nacional, além de justificarem o motivo pelo qual esse surto dura tanto na região: segundo Paulo, Guiné e Serra Leoa são países cuja população tem o hábito de se deslocar com frequência e para longas distâncias, seja para comércio , seja para visita de parentes. A facilidade de transporte, somada à escassa infraestrutura, sem dúvidas, é um dos fatores que explica a longa duração do surto, de acordo com o médico.

“Apesar de o ebola ter acontecido muitas vezes no continente, nunca aconteceu uma epidemia nessa região [da África Ocidental]. Em 2012,fui para Uganda, que passava por mais um surto de ebola. Como todos já conheciam o vírus, a resposta da população e das autoridades foi mais rápida e tudo foi rapidamente contido”, diz Paulo.

“A Guiné teve uma propagação menor e, por isso, teve mais tempo pra se preparar e a resposta foi mais eficaz. Já em Serra Leoa, o avanço de casos foi muito rápido e muito maior. Tudo foi tão veloz que as autoridades locais nem estavam admitindo ter casos até que não dava mais para negar”, compara o brasileiro. Segundos dados da OMS de 7 de novembro de 2014, Guiné contabiliza 1.760 casos e 1054 mortos, ao passo que Serra Leoa apresenta 4862 pacientes confirmados e 1.130 mortos. Atualmente, todos os distritos de Serra Leoa estão afetados pela epidemia.

No entanto, o médico não acredita seja possível fazer uma estimativa para o desaparecimento absoluto da epidemia. “A situação não está sob controle. Fica difícil ter uma ideia. Vai depender da reação das organizações e o aparecimento de vacinas. Não arriscaria uma data ou estimativa”, diz. Em relação ao Brasil, Paulo é otimista. “Há possibilidades de casos isolados, isto é, ‘importados’, mas não acredito que se torne um caso de problema de saúde pública no país. O governo está tomando medidas bem lógicas e efetivas, sem pânico exagerado. Está contido, não vejo um risco grande”, assegura.

No vai e vem entre Brasil, Guiné e Serra Leoa, Paulo Reis ainda assegura que não sofreu preconceitos por aqui, apesar de ser um consenso que a ignorância em torno da epidemia gerou episódios de fobias ao redor do mundo. “Tive experiências boas. Infelizmente, isso acontece tanto no Brasil, quanto fora. São atitudes irracionais. Só ouvi uma brincadeirinha uma vez quando alguém me perguntou se podia apertar as suas mãos, dizendo ‘você não vai me passar ebola, né?’. É, talvez eu tenha dado sorte”.

O massacre no México, o neoliberalismo e a blindagem

Milhares de pessoas exigem diariamente a renúncia do presidente Peña Nieto após o massacre de 43 estudantes. Silêncio da grande mídia. TeleSur/Reprodução

Por Rennan Martins | Brasília, 10/11/2014

O México viveu um dos mais horrendos episódios de sua história no dia 26 de setembro. Falo do massacre de Iguala, onde desapareceram 43 estudantes de pedagogia da Escola Normal Rural Raul Isidro Burgos. A população local revoltou-se contra o corrompido Estado mexicano.

As investigações ainda esclarecerão melhor o ocorrido, mas a versão até agora vigente é a de que os universitários retornavam para Ayotzinapa num ônibus após um ato público, quando foram detidos pela polícia municipal. Em seguida, os policiais teriam entregue os jovens a três integrantes do cartel Guerreros Unidos. Estes então se encarregaram de assassinar, carbonizar, triturar e dispensar os restos mortais das vítimas no rio Cocula.

A imprensa mexicana relata mais dois ataques a ônibus estudantis e ainda 8 assassinatos decorrentes destes. O envolvimento de homens públicos é outro fator relevante. O prefeito de Iguala, José Luís Albarca e sua mulher, Maria Piñeda, ordenantes da ação repressão policial, estão presos. O governador do estado de Guerrero, Angel Aguirra, renunciou ao cargo no último dia 23.

As agências e portais de notícias, tanto internacionais quanto mexicanos, dão diversas versões em que variam os detalhes de como teria se desenrolado essa atrocidade. Independente disso, a realidade dolorosa de que estes 43 jovens estão mortos se confirma a cada dia.

Este episódio foi a gota d’água para os mexicanos. Mais de 100 escolas estão em greve e milhares de cidadãos saem às ruas diariamente exigindo a renúncia imediata do presidente Enrique Peña Nieto, badalado internacionalmente por conta das reformas liberalizantes que promoveu e lidera.

Se diante do poder econômico mundial o México é tido como exemplo porque segue à risca os preceitos do Estado Mínimo do consenso de Washington, a realidade interna é assustadora. O que se vê é um Estado falido, com suas instâncias de poder tomadas pelos cartéis narcotraficantes. A pobreza é massiva e a violência sufocante.

É tão grande a desconfiança do povo que a versão oficial a qual diz que os restos mortais das vítimas se perderam no rio Cocula é vista como manobra estatal, como uma tentativa de blindar o presidente e esconder a sórdida relação do executivo com os cartéis. É o que se lê no artigo assinado por Mauricio Freyssinier e amplamente replicado nas redes:

Nem os nazistas conseguiram incinerar 43 corpos com pneus, diesel, lenha e papéis recolhidos as margens de um lixão. [...] Por favor senhor Procurador que tipo de “investigação profissional” estão realizando, ou melhor, que tipo de circo midiático estão armando ao tentar convencer o povo do México de que o animal que ocupa a cadeira presidencial não é responsável pelo Estado falido em que vivemos.

Corroborante é o texto da petição intitulada La masacre de Ayotzinapa, Mexico: Crimen de Estado, que conta com centenas de assinaturas.

O acontecido em Iguala é a outra face das reformas estruturais promovidas por Enrique Peña Nieto e o capital internacional; e, assim como o de Tlatlaya, não são eventos excepcionais mas sim uma consequência estrutural do processo de ocupação neocolonial de nosso país. É uma extensão da violência desatada pelos últimos governos do neoliberalismo que já cobrou mais de 150 mil mortos entre desaparecidos e assassinados, além de centenas de milhares de vítimas ‘colaterais’.

Como podemos ver, o aprofundamento do modelo imperial, tão apreciado e elogiado pelas potências ocidentais cobra caro e em sangue da população.

As manifestações pela renúncia de Peña Nieto são diárias, pela internet pode-se ver vídeos e fotos de milhares de pessoas nas ruas. A indignação marca forte presença nas redes. Mesmo assim, a grande mídia brasileira trata do assunto com má vontade, são baixíssimas as menções desta pauta tão importante.

A blindagem que nossa imprensa promove em torno deste caso é de um silêncio ensurdecedor, e o motivo é simples. Confessar que o modelo neoliberal que o México persegue com primor trouxe o desmantelamento do Estado, a violência exacerbada e a pobreza crescente é uma derrota política que não podem admitir. Entre a verdade e a ideologia patronal, ficam com a segunda.

O sistema da dívida pública e seus impactos: Entrevista com Adriano Benayon

Por Rennan Martins | Brasília, 07/11/2014

Previsão do Orçamento Geral da União para 2014. Auditoria Cidadã/Reprodução

Imagine que você, leitor, tenha herdado uma dívida que compromete 40% do seu orçamento anual. É muito provável que suas contas fiquem apertadas com tamanho comprometimento. Natural seria também, querer revisar toda a documentação, saber como foi contraída essa dívida, que contrapartidas ela possuiu, enfim, conhecer a origem e checar a legitimidade desse compromisso.

Suponha que ao solicitar acesso a toda a papelada dessa dívida, este lhe seja negado. Mais, os credores e seus amigos ainda lhe taxam de caloteiro simplesmente porque você deseja auditá-la.

Estranho, não? Pois bem, esta é a situação do Estado brasileiro. Todo ano mais de 40% dos nossos impostos vai diretamente para o bolso de um conglomerado de bancos. O resultado é uma capacidade de investimento extremamente debilitada. Saúde, educação, assistência social, todos os outros setores cruciais para o bem-estar da população não recebem um terço do que é sugado pelo serviço da dívida pública.

Essa verdadeira camisa de força é envolta num tabu. Todos que questionam a dívida pública são prontamente ridicularizados pela grande mídia. Ora, não é justo que saibamos – como pagadores que somos – como o Estado contraiu essa dívida e qual foi sua finalidade?

Para falar deste tema de tamanha relevância entrei em contato com o professor Adriano Benayon, doutor em economia. Nessa entrevista destrinchamos como funciona o serviço da dívida. Desde a constituição até a política econômica em voga, trata-se de um verdadeiro sistema que compromete sobremaneira a capacidade do Estado e a soberania nacional. Benayon defende que devemos seguir o exemplo do Equador, que auditou sua dívida e conseguiu reduzi-la em 70%.

Confira a íntegra:

O que é o serviço da dívida pública? Que efeitos este têm sobre o orçamento?

Adriano Benayon

O serviço da dívida é a soma dos juros e das amortizações da dívida. No caso do Brasil, esses efeitos são simplesmente devastadores, já que representam mais de 40% do total das despesas do Orçamento da União, conforme dados que se podem colher com base em dados, elaborados pela Auditoria Cidadã da Dívida, a partir do Sistema SIGA BRASIL, do Senado Federal.

Ele equivale a cerca de 18% do PIB. É quase o volume dos investimentos realizados no País (incluindo os da União, Estados, municípios, estatais, entidades públicas, de economia mista, e setor privado).

Isso significa que, se o Brasil se livrasse do tal serviço da dívida pública, poder-se-ia quase que dobrar o atual investimento anual do País, elevando-o para níveis iguais ou maiores que os da China, Coreia e Taiwan no auge de seus respectivos processos de desenvolvimento econômico.

Muita gente contestará esse montante de serviço da dívida, que já anda próximo a um trilhão por ano, porque os dados oficiais costumam ser apresentados de modo a disfarçá-lo, mostrando somente a dívida líquida, omitindo as liquidações de títulos públicos feitas através da emissão de novos títulos, deduzindo correção monetária etc.

Qual o conceito de “sistema da dívida”? Porque chamá-lo assim?

Essa expressão vem sendo usada pela Auditoria Cidadã da Dívida, muito bem conduzida por Maria Lucia Fattorelli, experiente e competente auditora fiscal, que se dedica intensivamente, há cerca de quinze anos, ao estudo da dívida pública e ao trabalho de conscientizar a cidadania sobre a inacreditável realidade dessa dívida.

Ela realça o fato de que não se trata de uma dívida normal, que tenha correspondido à tomada de dinheiro emprestado para se fazer um investimento, adquirir um patrimônio ou qualquer coisa assim. Ilustra o fato de que a dívida pública brasileira foi formada, na maior parte, por medidas arbitrárias impostas pelo “sistema financeiro”, internacional e local, que fizeram, e continuam fazendo, aumentar o seu tamanho, de forma absurda, através de expedientes criados com o objetivo de fazê-la crescer por si só, independentemente de qualquer financiamento para outra finalidade que não seja o próprio serviço da dívida.

Sem falar em taxas bancárias injustificadas dos mais variados tipos, estão na origem do serviço da dívida, as taxas de juros abusivas, cuja magnitude torna inevitável o crescimento dele através da composição de juros, ou seja, de juros em cima de juros. Isso vale tanto para a dívida externa, principalmente até meados e final dos anos 80, como também para a dívida interna, que foi se tornando, a essa altura, o foco maior da proliferação da dívida.

Então, é apropriado falar em sistema da dívida, e eu digo mais: há uma interação entre esse sistema e o modelo econômico, que eu chamo pró-imperial e que, impropriamente, é chamado neoliberal. Esse será o tema central da palestra que farei proximamente na UNB, no auditório da Reitoria.

De fato, a dívida pública do tamanho que está aí e o próprio sistema da dívida foram gerados pelo modelo econômico de dependência financeira e tecnológica, implantado no Brasil, notadamente a partir de 1954, logo após o golpe que derrubou o presidente Vargas, quando se criaram privilégios incríveis em favor das empresas transnacionais e se decretou, desse modo, o aborto da industrialização sensata e relativamente autônoma, que despontara no País desde antes de 1930.

A transferência de ganhos ao exterior, sob diversas formas, por parte dos carteis transnacionais, leva a déficits nas transações correntes com o exterior, que têm de ser financiados, e daí nasce a dívida externa. Hoje, já estamos com esses déficits no ritmo de US$ 85 bilhões de dólares/ano, ou seja, mais de R$ 200 bilhões/ano.

E que aconteceu à medida que o endividamento foi crescendo? Ele se tornou inadministrável e, além disso, os interesses imperiais conquistaram tanto poder econômico e político dentro do País, que os governos se submeteram docilmente às imposições dos banqueiros: isso significou instituir o sistema da dívida.

E um dos efeitos do sistema da dívida é radicalizar o modelo econômico que o gerou, i.e., o modelo imperial, de crescente dependência financeira e tecnológica. Estamos, pois, diante de um círculo vicioso, de um processo perverso de retroalimentação.

Que papel a política econômica do tripé – recomendada pelo FMI – possui nesse esquema?

Recordando para alguns leitores, o tal tripé são: 1) a meta de inflação, usando a taxa de juro para supostamente atingir essa meta; 2) o superávit primário; 3) câmbio livre.

Ora, a meta da inflação, mediante o uso da taxa de juros, bem como o crescimento dos superávits primários, cuja finalidade é juntar verba para pagamentos do serviço da dívida são mecanismos cuja finalidade é fazer crescer o serviço da dívida, ou seja, fazem parte do esquema do serviço da dívida.

Na realidade, como já demonstrei em artigos e entrevistas, não tem fundamentação na realidade a crença fomentada pela mídia e por acadêmicos bitolados, segundo a qual a elevação da taxa de juros serve para moderar a taxa de inflação. Os juros são um dos custos de produção, e no Brasil oneram muito, tanto o investimento de médio e longo prazo, como o capital de giro. A elevação das taxas de juros, embora possa inibir o consumo, inibe também os investimentos produtivos e desloca os recursos dos aplicadores para o mercado financeiro, fazendo reduzir a oferta de bens e serviços. Nada, pois, recomenda elevar os juros para conter a inflação dos preços dos bens e serviços.

Nesse contexto, qual a relevância do artigo 166 da CF/88? Que problemas são decorrentes dele?

O problema é um dispositivo inserido no § 3º do art. 166. O parágrafo § 3º diz: As emendas ao projeto de lei do orçamento anual ou aos projetos que o modifiquem somente podem ser aprovadas caso:

Aí vem o inciso II desse artigo: “indiquem os recursos necessários, admitidos apenas os provenientes de anulação de despesa,”

Bem, o texto vinha só até aqui, tal como legitimamente aprovado no 1º Turno. Mas houve um acréscimo fraudulento ao texto, jamais discutido ou votado e que ficou no texto aprovado no 2º Turno, de forma, portanto, ilegal, para não dizer nula (mas ficou na Constituição).

O acréscimo foi: “excluídas as que incidam sobre”:

E aí entra a alínea b): “serviço da dívida”.

Isso entrou, pois, no texto da Constituição por meio de estelionato – tendo-se adulterado texto aprovado no 1º Turno de votação, copiando-o com o acréscimo espúrio, antes da votação em 2º turno, apesar de o Regimento da Constituinte não permitir sequer a discussão de emendas de mérito antes dessa votação.

Em suma, o dispositivo fraudulento significa que as despesas referentes ao serviço da dívida têm trânsito livre no Orçamento federal: passam direto. Por isso, chegaram ao montante que atingiram, sem serem contestadas na Câmara Federal.

Esta aprova o que o Tesouro (Ministério da Fazenda) propõe, e este propõe o que o “sistema financeiro” exige. Dito sistema intitula-se “mercado financeiro”, mas esse é só um nome de fantasia para designar cerca de 20 bancos, os únicos autorizados a operar com títulos do Tesouro (dealers), os quais impõem as taxas dos títulos da dívida pública.

Respondi sobre o art. 166, mas vejo-me obrigado a falar também do art. 164 da Constituição, que institui a mamata de que goza o “mercado financeiro”. Reproduzindo as principais disposições do art. 164:

“A competência da União para emitir moeda será exercida exclusivamente pelo Banco Central.

§ 1º É vedado ao Banco Central conceder, direta ou indiretamente, empréstimos ao Tesouro Nacional e a qualquer órgão ou entidade que não seja instituição financeira.

§ 3º As disponibilidades de caixa da União serão depositadas no Banco Central.”

Esse artigo da Constituição obriga, portanto, o Tesouro a se submeter a pagar altíssimas taxas de juros aos bancos, em vez de ele mesmo emitir moeda. Se o fizesse, nem precisaria emitir senão um percentual muito menor de títulos. E, mesmo esses títulos, poderia vender, ele mesmo, aos aplicadores, às taxas de juros que determinasse e que não precisaria colocar nas alturas, até porque a oferta de dinheiro interessada nos títulos públicos estaria superando as necessidades de financiamento do Tesouro.

E quanto à CPI da dívida? Quais foram as principais descobertas dela?

Tanto quanto eu esteja informado, a CPI não logrou fazer grandes descobertas. Creio que a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, que participou intensamente dos trabalhos dessa Comissão, poderia responder bem a esta pergunta.

Tenho a impressão de que a CPI serviu como mais uma demonstração da resistência dos poderes constituídos a ir fundo na questão, como se poderia inferir de não haverem os órgãos chave no caso, como o Banco Central e a Secretaria do Tesouro, aberto suficientemente seus dados, e de a Câmara dos deputados não ter exigido maior transparência.

Porque há um tabu em torno da auditoria? Porque nem os políticos nem a grande mídia gosta de tocar no assunto?

A resposta anterior já indica a funda penetração nos poderes públicos dos interesses imperiais, que dirigem o sistema da dívida, os quais evidentemente não desejam seja a realidade, com seus detalhes contundentes, conhecida por segmentos significativos da sociedade. Nada mais óbvio que indagar: De onde vem os recursos de campanha dos supostos representantes do povo? Já notaram a influência daqueles interesses nos demais poderes constituídos? E na academia? E na grande mídia?

Porque precisamos auditar a dívida? Que benefícios teremos com essa medida?

Justamente para que a sociedade conheça a extensão e a profundidade de como ela está sendo lesada em função do serviço da dívida. E para que, de posse dessa consciência, perceba que a estrutura econômica e política do País têm de ser modificadas, antes de se poderem tomar, em favor da sociedade, as medidas que sua sobrevivência exige.

Providências que dizem respeito ao próprio serviço da dívida e ao sistema que o faz crescer brutalmente, notadamente a partir da Constituição de 1988, desde quando já acumula um total de despesas com a dívida, em valor atualizado, da ordem de R$ 20 trilhões, equivalente a quatro PIBs atuais.

Providências ligadas às da construção de novo modelo econômico, em lugar do modelo econômico imperial, o originador do serviço da dívida, e que o faria renascer, mesmo que, por milagre, este fosse eliminado de repente.

Pepe Escobar: Agora, é guerra total contra os BRICS

Por Pepe Escobar | Via Redecastorphoto

Apertem os cintos, a guerra de informação já desencadeada contra a Rússia deve expandir-se para Brasil, Índia e China.

Brasil, Rússia, Índia e China, como o mundo inteiro sabe, são os quatro principais países do grupo BRICS de potências emergentes, que também inclui a África do Sul e em futuro próximo incorporará também outras nações do Sul Global. Os BRICS perturbam imensamente Washington – e sua Think-Tank-elândia – porque são a corporificação do impulso concertado do Sul Global rumo a um mundo multipolar.

Podem-se apostar garrafas de champanhe crimeano que a resposta dos EUA a esse processo deve ser alguma espécie de guerra total de informação – não muito diferente, em espírito, do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)], elemento central da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, do Pentágono. Os BRICS são vistos como importante ameaça –, e conseguir contratorpedeá-los implica dominar toda a grade informacional.

Vladimir Davydov, diretor do Instituto de América Latina da Academia de Ciências da Rússia, acertou o olho do alvo quando observou que:

(…) a situação atual mostra que há tentativas para suprimir não só a Rússia, mas também os BRICS, dado que o papel global daquela associação só faz crescer.

A demonização da Rússia escalou rapidamente nos EUA, das sanções relacionadas à Ucrânia, para Putin o “novo Hitler” e a ressureição do bicho-papão bem testado ao longo da Guerra Fria, tipo “Os Russos estão chegando”.

No caso do Brasil a guerra de informação já começou antes da reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Assim como Wall Street e suas elites comprador locais faziam de tudo para bombardear o que definem como economia “estatista”, Dilma foi também pessoalmente demonizada.

Passos não inimagináveis para futuro próximo talvez incluam sanções contra a China, por causa de sua posição “agressiva” no Mar do Sul da China, ou Hong Kong, ou Tibet; sanções contra a Índia por causa do Kashmir; sanções contra o Brasil por causa de violações de direitos humanos ou excesso de desflorestamento. Seletos diplomatas indianos, lamentam, off the record, que o primeiro dos BRICS a ser afivelado sob pressão será a Índia.

Dado que os BRICS são tijolos realmente chaves na construção de um sistema global de relações internacionais e um sistema financeiro mais inclusivo – e não há outros no mercado – eles que, pelo menos, mantenham-se bem alertas. Se não, cada um deles será abatido, um depois do outro.

Georgy Toloraya, diretor executivo da Comissão Nacional Russa de Pesquisa sobre os BRICS, lembra que hoje, pelo menos, há “mais e mais comunicação acontecendo pelos canais BRICS.”

Os brasileiros, por exemplo, estão particularmente interessados em cooperação de investimentos. O Banco de Desenvolvimento dos BRICS será realidade já em 2015. E uma equipe russa está preparando relatório detalhado sobre perspectivas futuras para cooperação entre os BRICS, para ser discutido em Pequim, em profundidade, durante uma semana, enquanto acontece a reunião de cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico [orig., Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC].

Da guerra de energia à guerra da moeda

O novo choque do petróleo dos sauditas – que, no mínimo, recebeu luz verde do governo Obama – combina perfeitamente com o padrão “Conhecimento Total de Informação” (TIA), em termos de ofensiva contra os BRICS, com dois deles no papel de alvos chaves: Rússia e Brasil.

Mais de 50% do orçamento da Rússia vem da venda de petróleo e gás. Cada redução de US$ 10 no preço do barril de petróleo significa que a Rússia deixa de receber coisa como US$ 14,6 bilhões por ano. Pode ser, de certo modo, compensado pela desvalorização do rublo – mais de 25% contra o dólar norte-americano, desde o início de 2014. E a Rússia, claro, ainda tem cerca de US$ 450 bilhões em reservas. Mesmo assim, a economia russa pode crescer só de0,5 a 2% em 2015.

Com a redução de US$ 1 nos preços do petróleo cru, a maior empresa brasileira, Petrobras, perde mais de US$ 900 milhões. Aos preços atuais do petróleo, a Petrobras estará perdendo em torno de US$ 14 bilhões por ano. A queda dos preços portanto mina a expansão de longo prazo da Petrobrás para financiar novos projetos de infraestrutura e de exploração conectados aos seus valiosos depósitos de petróleo do pré-sal. A Petrobras foi alvo preferencial para a demonização de Rousseff.

O Irã não é membro dos BRICS, mas partilha o impulso do grupo com vistas a um mundo multipolar. Para equilibrar o próprio orçamento, o Irã precisa de petróleo a US$ 136 o barril. Um acordo nuclear a ser firmado com o P5+1 em três semanas, dia 24/11/2014, pode levar a um alívio nas sanções – pelo menos as vindas da Europa – e permitir que o Irã melhore suas exportações de petróleo. Mas em Teerã não há ilusões sobre o quanto a manipulação dos preços foi cerebrada para desestabilizar ainda mais a economia iraniana e minar sua posição nas negociações nucleares.

No front econômico, a doutrina do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)] manifesta-se em o Fed pôr fim ao quantitative easing, QE [injeção de dólares recém impressos na economia, lit. “facilitação quantitativa” ou “alívio quantitativo”]: significa que o dólar dos EUA continuará a subir e mais dólares dos EUA deixarão os mercados emergentes. A rede chinesa Xinhua expôs e discutiu seriamente essa questão.

O dólar norte-americano e o Yuan estão efetivamente ligados. Quando o dólar norte-americano sobe, o Yuan também sobe. Mas é a economia chinesa que sofre. O que preocupa Pequim é que é possível que a manufatura chinesa torne-se excessivamente cara, em muitíssimos países nos quais as margens de lucro já são muito estreitas.

Portanto, o que com certeza acontecerá é o Banco Central da China determinar uma queda controlada do Yuan – e ao mesmo tempo desenvolver mecanismos para combater a saída de dinheiro quente, sobretudo para Hong Kong.

A China pode até ser relativamente imune ao fim do QE. Mas todos na Ásia lembram ainda muito bem da crise financeira de 1997, que respingou na Rússia em 1998. Os únicos beneficiados então foram – e quem seria?! – os interesses privados norte-americanos e a hegemonia de Washington.

O centro não se mantém coeso [orig. The center cannot hold]

A demonização dos BRICS, em graus diferentes, prossegue sem parar – com o foco central na Rússia, a qual, por falar dela, iniciará a IIIª Guerra Mundial. Por quê? Porque os EUA dizem que sim.

A mais recente ação envolve o Serviço de Inteligência da Defesa Dinamarquesa [orig. Danish Defense Intelligence Service (DDIS)], que noticiou, semana passada que a Rússia simulara um ataque com jatos e mísseis sobre a ilha de Bornholm em junho/2014.

DDIS não distribuiu qualquer detalhe concreto sobre o ataque simulado. Mas enfatizou que foi o maior exercício militar russo sobre o Mar Báltico desce 1991. DDIS distribuiu um documento “Avaliação de Risco 2014” [orig. Risk Assessment 2014], no qual prevê que:

(…) ao longo dos próximos poucos anos, a situação no leste da Ucrânia tem alta probabilidade de converter-se em novo conflito europeu frio.

Mas os dinamarqueses foram muito claros:

Não há indicações de que a Rússia constitua crescente ameaça militar direta ao território dinamarquês.

Nada disso impediu que os chefes militares norte-americanos de sempre se pusessem a repetir que a Rússia se prepara para iniciar a IIIª Guerra Mundial.

Não há absolutamente nenhuma prova de que Washington esteja preparada sequer para discutir a possibilidade de modificar o atual sistema-mundo, como teorizado por Immanuel Wallerstein, na busca por gestão mais democrática. A próxima reunião do G20 na Austrália, mais uma vez, deixará isso bem claro.

O que se vê, portanto, é o sistema, cada dia mais fragmentado, deslizando inexoravelmente rumo a um catastrófico ponto de ruptura. O “Conhecimento Total de Informação” [orig.Total Information Awareness (TIA)] e suas reviravoltas e circunvoluções não passam de “estratégia” desesperada para adiar uma decadência inevitável.

No fim, Wallerstein estava certo. O mundo do pós-Guerra Fria está condenado a permanecer imensamente volátil.

Tradução: Vila Vudu