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Regulação da mídia agita o Uruguai

Por Altamiro Borges, em seu blog

O segundo turno das eleições presidenciais no Uruguai, em 30 de novembro, agita a população do país vizinho. Todas as pesquisas apontam para a vitória de Tabaré Vázquez, candidato da aliança governista Frente Ampla, do atual presidente Pepe Mujica. Concorrendo pelas forças de direita, o jovem oligarca Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional. No embate programático entre os dois candidatos vários temas polêmicos, com destaque para a discussão sobre a regulação da mídia. Logo após a folgada vantagem no primeiro turno, Tabaré Vázquez prometeu acelerar a sanção do projeto de lei que tramita no parlamento sobre o tema. Já o direitista, apoiado pelos barões da mídia, garante que arquivará o projeto.

Segundo relato da jornalista Daniella Cambaúva, da Rede Latino América, “em sua primeira fala pública na segunda fase da campanha, Vázquez anunciou que, se vitorioso, a lei de mídia será ‘improrrogável’ e se comprometeu a regulamentá-la. Presidente do Uruguai entre 2005 e 2010, ele é conhecido por representar a ala mais conservadora na Frente Ampla. Esta foi a primeira vez em que ele se comprometeu a implementar e fazer cumprir a lei de mídia, despertando críticas da oposição. Lacalle Pou, 41 anos, é crítico à lei. Ele alega que nela existem ‘inconstitucionalidades’, e que para ter uma legislação ‘típica de regime autoritário’ é melhor não ter nenhuma”.

No Uruguai, como no restante do continente, a mídia é controlada por poucas famílias. Monopolizados, estes meios tiveram papel destacado na implantação da ditadura militar, na difusão do receituário neoliberal e na campanha sistemática de oposição aos governos progressistas. Tabaré Vázquez e Pepe Mujica foram vítimas destas oligarquias midiáticas. Diante do quadro de uma mídia monopolizada e manipuladora, em 2010 teve início o debate na sociedade sobre a regulação deste setor com a formação de um Comitê Técnico Consultivo convocado pela Direção Nacional de Telecomunicações, vinculada ao Ministério da Indústria e responsável por formular, coordenar e supervisionar as políticas de telecomunicações.

“A ‘Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual’ (LSCA) foi apresentada pelo Poder Executivo em maio de 2013 e foi aprovada pela Câmara dos Representantes (99 deputados) em dezembro de 2013. Para entrar em vigor, ela aguarda a aprovação do Senado (30 senadores) e voltará ainda à Câmara para, por fim, receber a sanção definitiva. A pressão por parte da Frente Ampla e dos setores favoráveis é para que a lei seja aprovada o quanto antes, ainda em 2014”, descreve Daniella Cambaúva. Sua sanção mudará por completo o cenário da mídia no Uruguai. Atualmente, três grupos (Romay, Feo-Fontaina e Cardoso-Sheck) controlam 95% do mercado de televisão aberta no país.

Entre outras mudanças, a nova lei desmembra os monopólios e garante condições mais justas de acesso ao espectro, inclusive para sindicatos e associações comunitárias, que teriam possibilidade de criar canais de rádio e tevê. “Se a lei for aprovada como está, uma pessoa física ou jurídica não poderá ter mais de três autorizações para prestar serviços de radiodifusão aberta de rádio e televisão, nem mais de dois canais para prestar serviços de rádio na mesma frequência (AM ou FM) em todo o território. A única iniciativa antecedente semelhante no Uruguai aconteceu em 2007, quando foi aprovada uma norma obrigando o Estado a promover e garantir a existência de canais de rádio e de televisão comunitários”.

A LSCA também prevê a criação de um Conselho de Comunicação Audiovisual, composto por cinco integrantes: um indicado pela Presidência da República e quatro escolhidos pela Assembleia Geral Legislativa. Eles teriam mandatos de seis anos, renováveis por mais três. A Coalizão por uma Comunicação Democrática, uma frente que reúne várias entidades e personalidades que lutam pela democratização da mídia, defende que pelo menos um dos integrantes do Conselho seja indicado pela sociedade civil. Há também debates sobre a regulação da mídia impressa e sobre a liberdade na internet, já que a LSCA trata apenas das concessões públicas de rádio e televisão.

Estas e outras mudanças previstas na lei explicam porque os barões da mídia estão tão empenhados na campanha do direitista Lacalle Pou. Para a associação das empresas de radiodifusão (Andebu), “apenas os regimes autoritários possuem lei de mídia”. A máfia midiática tenta manipular a sociedade, escondendo que até nos EUA e na Europa há regulação do setor e conselhos de comunicação social. O terrorismo midiático, porém, parece que abalou os eleitores uruguaios, que devem confirmar a vitória de Tabaré Vázquez daqui a dois domingos. Enquanto isto, o Brasil segue na “vanguarda do atraso” no debate sobre a regulação democrática da mídia. Lamentável!

Maxidepreciação e dependência do petróleo

Por Fernando Nogueira da Costa | Via Brasil Debate

Os preços do petróleo devem cair 7% na média em 2014, fechando em torno de US$ 100, e sofrer nova queda, de mais 10%, no próximo ano. Porém, o setor de óleo e combustíveis deverá influenciar positivamente o balanço comercial em 2015, com aumento da produção e da exportação e alguma redução da importação.

No último governo do regime militar, em regime de câmbio fixo, Delfim Netto fez uma primeira desvalorização (30%) da moeda nacional em dezembro de 1979. A taxa de inflação anual passou de 70% para 110%.

A segunda (também 30%) foi realizada em fevereiro de 1983. A taxa de inflação dobrou para 220%. Provocou a “crise do subprime brasileira”, inclusive com a quebra do BNH. O regime militar deixou como “herança maldita” o regime de alta inflação inercial.

Durante o primeiro governo Dilma, houve não um tratamento de choque, mas sim uma gradual maxidepreciação da moeda nacional, desde 02/01/2011, quanto a taxa de câmbio estava em R$ 1,65. Chegou a R$ 1,53 no final de julho daquele ano, e começou a se elevar, alcançando R$ 2,53 em 06/11/2014.

Em menos de três anos e meio, houve essa elevação de um real na cotação de um dólar – ou 65%! E a “flutuação suja”, isto é, controlada pelo Banco Central, permitiu que ela não impactasse muito a taxa de inflação, pois esta se manteve dentro da meta inflacionária.

Nas contas de um economista adepto da abordagem do balanço de pagamentos pelas elasticidades, uma taxa de câmbio em torno de R$ 2,50 será suficiente para trazer o déficit em transações correntes para 2,9% do PIB em 2015, afastando-o de vez do nível de 4% do PIB, considerado sinal de um financiamento mais difícil.

Sendo assim, “o ajuste já está em curso e, nas contas externas, o governo não vai ter que fazer nada”. A melhora virá basicamente do balanço comercial, seja por conta de câmbio mais competitivo, seja porque a perspectiva é de a economia mundial crescer um pouco mais no ano que vem.

Dadas as condições presentes hoje no mercado externo no que diz respeito à liquidez internacional, um déficit em torno de 3% do PIB no balanço de transações correntes parece ser financiável.

Como o Brasil tem recebido cerca de 3% do PIB em Investimento Estrangeiro Direto (IED), cerca de US$ 65 bilhões, o déficit externo (US$ 83 bilhões) tem que cair para um nível inferior ou igual ao IED, que é fonte de financiamento de longo prazo saudável.

O setor de petróleo e derivados será outro fator importante a ajudar esse ajuste. A Petrobras inaugura, em novembro de 2014, a refinaria de Abreu e Lima, diminuindo muito a dependência de importação de diesel, o que acaba pressionando o balanço comercial referente a petróleo e derivados.

Eventual déficit comercial no ano corrente poderá virar superávit nos próximos, tanto pela inauguração da refinaria quanto pelo crescimento da extração.

De fato, os saldos comerciais, desde o início do governo Dilma, teriam sido muito mais superavitários – US$ 39 bilhões em 2011, US$ 27,5 bilhões em 2012, US$ 25,7 bilhões em 2013 e estimados US$ 20 bilhões para o ano corrente – caso se desconsiderasse os combustíveis nessa contabilidade.

Em 2013, mesmo tendo uma queda de 28%, petróleo e combustíveis ocuparam o quarto lugar no ranking de principais produtos exportados pelo Brasil com US$ 22,4 bilhões. Só foram inferiores a minérios (US$ 35 bilhões), material de transporte inclusive plataformas petrolíferas (US$ 31,6 bilhões) e complexo soja (US$ 31 bilhões).

No entanto, diferentemente dessa abordagem estruturalista, um economista que adota a abordagem monetária do balanço de pagamentos avalia que a redução do déficit em transações correntes no próximo ano virá de uma imposição externa.

Segundo ele, essa queda será puxada por um mundo bem menos disposto a financiar o Brasil e outros emergentes com déficits altos em conta corrente, em razão da expectativa de retomada de alta dos juros americanos. Nesse cenário, ou o real se deprecia mais e propicia a queda do déficit externo ou este tende a crescer ainda mais, levando o País a uma crise cambial.

Segundo essa abordagem monetária, os termos de troca em queda pressionam negativamente o balanço comercial e uma inflação superior a de seus parceiros comerciais afeta a paridade entre poderes de compra.

O Brasil vai precisar de uma depreciação cambial mais forte em termos nominais para reequilibrar as contas externas. Como o dólar mais caro impacta a taxa de inflação, provocando queda do consumo, é necessário combinar essa depreciação com ajuste fiscal mais crível. Leia-se “elevação do superávit primário com cortes de gastos”.

Analisando a pauta brasileira de exportações, 70% são commodities. A queda nas suas cotações piora a relação entre a evolução do preço das exportações e das importações, os chamados termos de troca, cujo índice evoluiu de 93,4 em 2003 para o máximo de 129 em 2011, caindo para 116,7 em junho de 2014.

Isto estimulou o poder relativo de compra externa do País, permitindo o crescimento da absorção doméstica (consumo, investimento e gastos públicos) em ritmo mais rápido que o do PIB. Este soma a absorção e a renda líquida recebida do exterior.

Um economista que faz a abordagem do balanço de pagamentos por absorção interna diz que “esse crescimento explicável pelo acúmulo de poupança externa não deve acontecer nos moldes que acontecia antes”.

Segundo essa abordagem, impõe-se a diminuição dos gastos internos, porque não se tem mais o boom de commodities. O fluxo de capitais também deve se reduzir com a alta global do dólar pela expectativa de início da elevação da taxa de juros norte-americana.

Os preços do petróleo devem cair 7% na média em 2014, fechando em torno de US$ 100, e sofrer nova queda, de mais 10%, no próximo ano. Porém, o “óleo e combustíveis” deverá influenciar positivamente o balanço comercial em 2015, com aumento da produção e da exportação e alguma redução da importação.

Óleo e gás é o setor que responde pela maior parte (60%) dos investimentos a serem realizados no País entre 2014 e 2018. Seus programas somam R$ 543,4 bilhões.

A produção de petróleo está em ritmo mais acelerado. No pré-sal, supera bastante 500 mil barris de petróleo produzidos por dia, patamar alcançado apenas oito anos após a descoberta em 2006. Isso contando com somente 25 poços produtores.

Mesmo com a queda dos preços do óleo, o efeito do petróleo tende a ser positivo para o comércio exterior brasileiro. Já temos uma economia cujo desempenho depende do petróleo?

Fernando Nogueira da Costa é professor livre-docente do IE-Unicamp. Autor de “Brasil dos Bancos” (Edusp, 2012), ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal (2003-2007).

Operação Lava Jato: para defender a Petrobras ou sacrificá-la?

Por Antonio Martins | Via Outras Palavras

Executivos de grandes empresas chegam à Polícia Federal em Curitiba, para depor. Brasil finalmente punirá os corruptores?

Prisão de executivos das grandes empreiteiras expõe corruptores e revela urgência da Reforma Política. Mas seu sentido estará em disputa — e o destino da Petrobras mora no centro do furacão.

As prisões de presidentes e executivos de grandes empreiteiras que prestam serviço à Petrobras, efetuadas ontem (14/11) no âmbito da Operação Lava Jato, podem ter desdobramentos capazes de marcar, por meses ou anos, a vida brasileira. Pela primeira vez, foi exposta ao grande público a ação dos corruptores – sempre poupados pelo Judiciário e pela mídia, por razões tão fortes quanto sua potência financeira. Em breve, surgirão os elos entre grandes empresas e dezenas de políticos. O controle que o poder econômico exerce sobre o Parlamento ficará ainda mais escancarado.

Diante disso, emergirá por certo uma grande disputa de narrativas. Estará escancarada, para quem quiser enxergar, a necessidade imediata de uma Reforma Política – que, antes de tudo, proíba e puna severamente o financiamento, por corporações, dos partidos e campanhas eleitorais. Mas haverá, como no caso do “Mensalão”, a tentativa de sacrificar bodes expiatórios para, no fundo, preservar a promiscuidade entre o dinheiro e uma democracia cada vez mais esvaziada. A manobra consistirá em focar indivíduos (os deputados financiados pelas empreiteiras, que logo aparecerão) e fazer vistas grossas ao sistema político (que, no Brasil, praticamente obriga quem tiver pretensões de eleger-se a se associar a grandes grupos econômicos).

Na disputa de narrativas, um capítulo crucial envolverá a Petrobras. Maior empresa brasileira, responsável sozinha por cerca de 10% da arrecadação de impostos no Brasil (como se lê aqui), ela não poderia passar incólume, num sistema político em que a corrupção institucionalizada é a regra. Mas será grande a pressão para convertê-la em mais um bode expiatório. Estará em jogo a imensa riqueza petroleira do pré-sal. Ela tornou-se, nos últimos meses, especialmente cobiçada.

O breve ensaio de André Ghirardi, que Outras Palavras orgulha-se de publicar hoje revela por quê. Decisões políticas, adotadas principalmente pela Arábia Saudita, estão sacudindo a produção e os preços internacionais do petróleo. Maiores exportadores mundiais e aliados históricos dos Estados Unidos no Oriente Médio, os sauditas estão forçando uma baixa dos preços do produto, que tem vastas consequências econômicas e políticas. A produção de muitas áreas petrolíferas pode tornar-se inviável, porque os custos de extração do combustível serão maiores que os preços internacionais. Mais importante: países cujos Estados dependem da renda petroleira para equilibrar seus orçamentos correm o risco de desestabilização. É o caso típico do Irã e Venezuela.

O pré-sal brasileiro destaca-se, neste cenário, por dois aspectos. Suas reservas já conhecidas situam-se na casa das dezenas de bilhões de barris, podendo estar entre as maiores do mundo. Seu custo de produção é relativamente baixo. É uma faca de dois gumes. Tornaria a extração viável mesmo num contexto de preços internacionais reduzidos – mas poderia levar o Brasil a esgotar um recurso precioso no período em que ele está mais desvalorizado. Além disso, quem faria a exploração – se houver pressões para queimar a Petrobras no altar da Operação Lava Jato?

O texto de Ghirardi expõe, em detalhes, o novo cenário. Examiná-lo é essencial para compreender os contextos, possibilidades e riscos da nova fase em que a conjuntura brasileira entrou, desde ontem.

Pepe Escobar: G20 na Austrália, bufões contra o Sul Global

Por Pepe Escobar | Via RT

Os presidentes do BRICS. Reuters/Nacho Doce

A reunião do G20 na Austrália é resumida em uma linha, assim: um grupinho de políticos bufões, anglo-saxões, arquitetando uma forma de sufocar o Sul Global.

Vários países que juntos representam 85% da economia mundial se juntaram para (em teoria) discutir tópicos sérios de economia/finanças, e basicamente a única coisa que a imprensa corporativa ocidental conseguiu “noticiar” foi o presidente russo Vladimir Putin como uma “figura isolada”.

Bem, Washington e suas marionetes tentaram transformar o G20 numa farsa. Felizmente, os adultos do recinto tinham negócios a tratar.

As cinco nações-membro do BRICS – a despeito de alguns problemas, são o G5 que realmente importa – encontraram-se antes do evento, incluindo aí a “figura isolada”. Economicamente, este G5 mais do que supera o antigo e decrépito G7.

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, encorajou fortemente o G5 a intensificar a cooperação mútua – assim como a cooperação Sul-Sul. Isto inclui, é claro, o Banco de Desenvolvimento do BRICS. O bloco expressou mais uma vez sua “séria preocupação” com a perpétua má vontade de Washington em promover a já atrasada reforma estrutural do FMI.

O pacote de reforma das cotas e governança do FMI já fora aprovado pelo painel de governantes em 2010. Uma de suas resoluções-chave é a de aumentar o poder de voto dos mercados emergentes, que tem no BRICS sua vanguarda. Para os republicanos de Washington isso é pior que o comunismo.

O presidente chinês Xi Jinping acrescentou que o BRICS devem cooperar não somente em tópicos econômicos, mas também em termos de segurança global. Fazer trocas, não bombardeios. As mais de 120 nações do Movimento dos Não-Alinhados – excluídos do banquete do G20 – estiveram de olhos atentos.

“Agressões” demais

Agora, comparemos o BRICS trabalhando com os líderes da União Europeia em reunião exclusiva com o presidente dos EUA, Barack Obama, para definição de “estratégias” – o que não tem ligação com o comércio global, mas sim com a demonização da Rússia.

Isto ocorreu depois do primeiro-ministro britânico David Cameron dizer a Putin que ele está tomando o caminho de receber ainda mais sanções; o primeiro-ministro canadense Stephen Harper reclamou por ter de apertar a mão de Putin; enquanto o primeiro-ministro australiano Tony Abbott pôs todos para posar com coalas – para falar de abuso aos animais – depois de dar uma investida contra o líder russo.

Não falaram somente de “agressões russas”. Obama, Abbott e o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe encontraram-se em separado a fim de promover a “cooperação militar” e “fortalecer a segurança marinha” na zona Ásia-Pacífico. Mais uma (que mais?) “agressão chinesa”.

Reunião exclusiva dos bufões da França, EUA, Reino Unido e Alemanha. AFP Photo/Glenn Hunt

Arrogância imperial e bufões a parte, Putin encontrou-se com a chanceler alemã Angela Merkel por mais de três horas. Discutiram a Ucrânia, essencialmente. Sem vazamentos. Então temos que Putin encontrou e conversou com os adultos: O BRICS e Merkel. Não havia mais nada a fazer, sabedoria de negociante.

Nas palavras do presidente russo: “Levaremos nove horas para voar até Vladivostok e mais oito horas para chegar a Moscou. Preciso de quatro horas para dormir antes de voltar ao trabalho na segunda. Tratamos de toda a agenda.”

Oh céus. Esta foi a deixa pra que a mídia corporativa ocidental perder as estribeiras com a história da “figura isolada” deixando o G20 envergonhado.

Na dúvida, imprima dinheiro

Mesmo com a gangue política Anglo-saxã se esforçando em esvaziar a reunião, algum trabalho – minimalista – foi feito. Até mesmo Putin saudou a “atmosfera construtiva”, o que passou perto do wishful-thinking.

No comunicado final, a promessa foi de aumentar o PIB global em US$2 trilhões até 2018. A chave deste plano mágico é facilitar o investimento em infraestrutura, o que cria empregos e facilita as transações internacionais.

A propósito, isto é exatamente o que a China tem feito – massivamente. China e Rússia fizeram dois enormes acordos de venda de gás esse ano, de valores acima dos US$725 bilhões. Os US$ 40 bilhões do Silk Road Investment Fund financiarão projetos de desenvolvimento em sete nações da Ásia Central. A “figura isolada” confirmou que o comércio da Rússia com a China e o resto da Ásia fará o PIB russo crescer entre 25% à 40%.

Além do mais, Rússia, China, Irã – entre outros países asiáticos – estão trabalhando ativamente no sentido de estabelecer o próprio sistema de transações monetárias, independente do sistema SWIFT e do dólar norte-americano.

O pronunciamento do G20 também fala sobre a renovada ofensiva neoliberal – que passou da “desregulação” dos mercados de bens e serviços para a “flexibilidade”do mercado de trabalho. Um confuso plano de investimento global será delineado em Sidney, mas ninguém sabe ao certo como funcionará.

O G20 insistiu ainda na necessidade de combater o shadow banking. Isto não passará do discurso – visto que os bufões são monstruosos especuladores financeiros e tratarão de manter posição. Não é possível pedir ao dólar que abandone pacificamente sua posição imperial.

Não surpreendeu também o fato de qualquer referência em torno da transparência das indústrias extrativistas terem desaparecido da declaração. No tópico mudanças climáticas, mais wishful thinking, falou-se de “ação efetiva” antes da Conferência de Paris, em dezembro de 2015. Cassinos de lavagem de dinheiro poderiam apostar que nada substancial acontecerá antes ou depois dessa conferência.

Putin dando entrevista ao fim da conferência do G20. Reuters/Mikhail Klimentyev

Os cruzados do neoliberalismo obviamente enterraram a proposta da Argentina de desenvolver um mecanismo supranacional de negociação de dívidas soberanas. Fundos abutres como o de Paul Singer devem sempre estar aptos a agir como abutres.

Por fim, a “figura isolada” voltou ao trabalho duro segunda de manhã, fuso de Moscou. A União Europeia está por perder pelo menos 15% dos US$330 bilhões em comércio com a Rússia em 2015 – enquanto as trocas entre o BRICS dobrarão. A agonia da UE continuará, grande parte dela causada pelo neoliberalismo. A ditadura das elites de Washington/Wall Street precisa ser esmagada.

Enquanto o Fed está em vias de cessar os pacotes de afrouxo quantitativo, o Banco Central Europeu sonha em imprimir dinheiro loucamente, o Banco Central do Japão imprime dinheiro loucamente, enquanto Rússia e China compram oceanos de ouro. Sob a cortina de fumaça da impressão monetária a economia global seguirá sofrendo.

A economia russa permanecerá se integrando a chinesa, iraniana e cazaque. O centro do investimento global continuará sendo – onde mais? – a região Ásia-Pacífico. É natural, portanto, que a próxima reunião do G20 se dê na China.

Paralelamente temos Pepe Mujica, que não foi ao G20. Ele está deixando o poder, mas deixemod que fique com as últimas palavras. Em somente um segundo é possível comparar sua dignidade pessoal, honestidade, inteligência, coragem, altruísmo e exemplar política com a inconsequência e indiferença de Cameron, Harper e Abbott.

Há políticos e “políticos”. Felizmente, a maioria da opinião pública global pode enxergá-los com clareza.

Tradução: Rennan Martins

Brasil: a grande divisão

Por Boaventura de Sousa Santos | Via Canal Ibase

As eleições do Brasil suscitaram as atenções da comunicação social mundial. Em grande medida, os veículos fizeram uma cobertura hostil da candidata Dilma Rousseff, no que foi zelosamente acompanhada pela “grande mídia” brasileira. O paroxismo do ódio anti-petista levou uma revista de grande circulação, a Veja, a enveredar por uma via provavelmente criminosa. O New York Times em nenhuma ocasião se referiu à candidata do PT sem o epíteto de ex-guerrilheira. Com a mesma inconsistência de sempre, não ocorreria a este periódico, ou a tantos outros que seguem a sua linha, referir-se à ex-comunista Ângela Merkel ou o ex-maoísta Durão Barroso, ou mesmo ao comunista Xi Jinping, Presidente da China.

Os interesses que sustentam esta imprensa corporativa esperavam e queriam que saísse derrotada a candidata do PT. O terrorismo econômico das agências de rating, do The Economist e Financial Times, da bolsa de valores procurou condicionar os eleitores brasileiros e assumiu uma virulência surpreendente, tendo em vista a moderação do nacionalismo desenvolvimentista brasileiro e o fato evidente de serem sobretudo fatores mundiais (leia-se, China) os que afetam o ritmo de crescimento de países como o Brasil.

Por que tanta e tão desesperada hostilidade?

Os fatores externos

Há razões externas e internas que só parcialmente se sobrepõem. Daí a necessidade de as analisar em separado. As razões externas são bem mais profundas que o mero apetite do capital internacional pelas grandes privatizações do pré-sal e da Petrobras ou que a violência do resposta do capital financeiro perante qualquer limite à sua voracidade, por mais moderado que seja. O Brasil é hoje o exemplo internacionalmente mais importante e consolidado da possibilidade de regular o capitalismo para garantir um mínimo de justiça social e impedir que a democracia seja totalmente capturada pelos donos do capital, como acontece hoje nos EUA e está acontecer um pouco por todo o lado. E o Brasil não está sozinho. É apenas o país mais importante de um continente onde muitos outros países – Venezuela, Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Uruguai – procuram soluções com a mesma orientação política geral, embora divergindo na dose de nacionalismo ou de populismo (tal como Ernesto Laclau, não condeno em bloco nem um nem outro).

Para mais, estes países têm procurado construir formas de solidariedade regional que não passa pela bênção norte-americana, ao contrário do que acontecia antes. Qual é o significado global desta rebeldia? Ela configura uma nova guerra fria, uma guerra fria já não entre o capitalismo e o socialismo, mas entre o capitalismo neoliberal global, sem vestígio nacionalista ou popular, e o capitalismo com alguma dimensão nacional e popular, o capitalismo social-democrático ou social-democracia capitalista. Este último capitalismo pode assumir muitas formas e pode vir a estar presente tanto na Rússia como na China, na Índia ou na África do Sul, ou seja, nos chamados BRICS. O fim da guerra fria histórica não foi apenas o fim do socialismo em sua versão histórica; foi também o fim da social-democracia europeia, a única então existente, pois a partir de então o capitalismo sentiu-se desobrigado de sacrificar os seus lucros imediatos para garantir a paz social sempre ameaçada pela existência de uma alternativa potencialmente mais justa.

Nesse momento, terminou o capitalismo do breve século XX e procurou-se reconstruir o Eldorado, mais mítico do que real, da acumulação do século XIX. Foi então solenemente declarado o fim da história e a ausência de alternativa ao capitalismo neoliberal. Foi assim que a guerra fria desarmou a social-democracia europeia. Mas, contraditoriamente, tornou possível a emergência da social-democracia latino-americana. Não esqueçamos que a América Latina foi uma das grandes vítimas da guerra fria histórica. Durante este periodo, o capitalismo só fazia concessões socias-democráticas na Europa, pois a tanto obrigava a tragédia de duas grandes guerras. Fora da Europa, as zonas de influência do capitalismo eram tratadas com a máxima violência para liquidar qualquer possibilidade de alternativa. Essa violência envolvia guerra financeira, ajustamento estrutural, desestabilização social e politica, intervenção militar. Em África, todos os países que tentaram uma solução socialista foram postos na ordem, do Gana, à Tanzânia e a Moçambique.

Na América Latina, no quintal do Império, Cuba tinha sido uma distração imperdoável. A resposta foi pronta. Como dizia pouco tempo depois da revolução cubana o enviado de Fidel Castro a vários países da América Latina, Regis Debray, os EUA tinham aprendido mais rapidamente a lição de Cuba do que a esquerda latino-americana. Também aqui os mecanismos de intervenção foram vários, uns menos violentos que outros, da Aliança para o Progresso às ditaduras brasileira, chilena e argentina. A ousadia da América Latina dos últimos quinze anos consistiu em construir uma nova guerra fria, aproveitando, tal como a anterior guerra fria, um momento de fraqueza do capitalismo hegemônico. Armadilhado desde os anos noventa do século passado no Oriente Médio para saciar o insaciável complexo industrial militar e a sua avidez de petróleo, o Império deixou que avançassem no seu quintal formas de nacionalismo e de populismo que, ao contrário dos anteriores, já não visavam as exíguas classes médias urbanas, mas a grande massa dos excluídos e marginalizados. Tinham, pois, uma forte vocação de inclusão social.

Esta emergência foi também possível graças a uma descoberta copernicana feita por um grande líder mundial chamado Lula da Silva. Essa descoberta, simples como todas as descobertas genuínas, consistiu em ver que o ímpeto democratizante que vinha desde a luta contra a ditadura tinha preparado a sociedade brasileira para uma opção moderada pelos pobres, como ele próprio em suas origens. Tratava-se de uma opção que a Igreja Católica tinha assumido durante um tempo e depois covardemente abandonado. Não se tratava de socialismo, mas tão só de um capitalismo sujeito a algum controle político com o objetivo de realizar políticas de Estado relativamente desvinculadas dos interesses diretos e imediatos da acumulação capitalista. Esta descoberta mudou a natureza da hegemonia no Brasil e tornou-se rapidamente hegemônica no continente. Digo hegemônica porque os próprios adversários tiveram de usar os seus termos para a boicotar e porque a sua vocação inclusiva se expandiu rapidamente para outras áreas, nomeadamente para área de inclusão étnico-racial.

A sociedade brasileira tornava-se mais inclusiva no preciso momento em que se reconhecia, não só como sociedade injusta, mas também como sociedade racista, e se dispunha a minimizar tanto a injustiça social como a injustiça histórica, étnico-racial. O fato de esta descoberta não ter ficado confinada ao Brasil e ter se alastrado a outros países, cada um com os seus traços específicos próprios das suas trajetórias históricas, combinado com o fato de em outros continentes, por outras vias, terem surgido formas convergentes de rebeldia ao capitalismo neoliberal supostamente sem alternativa, deu origem à nova guerra fria. Esta sofreria um golpe forte se o país que mais avançou neste domínio decidisse voltar ao redil neoliberal e comportar-se como um bom rebanho, tal como está a acontecer na Europa que resistira ainda durante algum tempo ao destino que a queda do Muro de Berlim lhe tinha ditado.

Daí o enorme investimento feito na derrota da Presidente Dilma. Afinal, a descoberta brasileira revelou uma vitalidade que, se calhar, nem os seus protagonistas esperavam. Mas obviamente não se espere que o capitalismo neoliberal global desista. Sente-se suficientemente forte para não ter de conviver com o status quo europeu anterior à queda do Muro. Recorrerá, pois, ao boicote sistemático da alternativa, por mais moderada e incompleta que seja. Talvez não envolva as formas mais violentas que no passado envolveram a intervenções de “mudança de regime” em países grandes da América Latina e hoje se limita a países pequenos como o Haiti (2004), as Honduras (2009), ou o Paraguai (2012). Serão ações de desestabilização social e política, aproveitando o descontentamento popular, financiando ONGs com posições “amigas”, fornecendo consultoria técnica no controle de protestos e desta forma obtendo informações cruciais. Esta intervenção vai ser mais evidente em países como a Venezuela e Argentina dada a urgência em pôr fim ao anti-imperialismo chavista ou peronista. Mas em todos os países com governos de centro-esquerda esperam-se ações de desestabilização interna.

Os fatores internos

Como referi, a sobreposição entre os fatores externos e internos existe ainda que não seja total. A agressividade da “grande mídia”, o desespero que levou alguns deles a cometer atos provavelmente criminosos assenta no interesse da grande burguesia em recuperar o pleno controle da economia e realizar os lucros extraordinários das privatizações por fazer. Nessa medida, não é mais que o braço brasileiro de uma burguesia transnacional sob a égide do capital financeiro. Não tendo podido derrotar a candidata do PT, vai continuar a pressionar abertamente (e a ser provavelmente atendido) pela composição de uma equipe econômica instalada no coração do governo que satisfaça os “imperativos dos mercados”. Este braço brasileiro do capital transnacional arrastou consigo setores importantes da classe média tradicional e até da nova classe média que é um produto das políticas de inclusão dos governos do PT. E também estes setores assumiram o discurso da agressividade que transforma o adversário no inimigo.

E esse discurso não se explica apenas por razões de classe. Há fatores que são específicos de uma sociedade que foi gerada no colonialismo e na escravatura. São funcionais à dominação capitalista, mas operam por marcadores sociais, formas de subjetividade e de sociabilidade que pouco têm a ver com a ética do capitalista weberiano. Trata-se da linha abissal que divide o pobre do rico e que, por estar longe de ser apenas uma separação econômica, não pode ser superada por medidas econômicas compensatórias. Pode, ao contrário, ser acirrada por elas. Na ótica dos marcadores sociais colonialistas, o pobre é uma forma de sub-humanidade, uma forma degradada de ser que combina cinco formas de degradação: ser ignorante, ser inferior, ser atrasado, ser vernáculo ou folclórico, ser preguiçoso ou improdutivo. O sinal comum a todas elas é o pobre não ter a mesma cor que o rico. Estamos, pois, a falar de colonialismo inscrito nas relações sociais que se desdobra muitas vezes em colonialismo nas relações entre regiões (sul versus norte), a forma mais conhecida de colonialismo interno (do norte da Itália em relação ao sul; do sul do Brasil em relação ao norte).

Nos termos deste colonialismo da sociabilidade, as condições naturais de inferioridade podem suscitar o que de mais nobre há nos seres superiores, mas sempre sob a condição de os inferiores em caso algum pretenderem ser iguais aos superiores. Essa subversão seria mais impensável e mais destrutiva que a subversão comunista. Claro que os seres inferiores podem acreditar no princípio da igualdade que ouvem da boca dos superiores (nunca do seu coração) e lutarem pela igualdade. Faz-lhes bem se lutarem sozinhos porque isso os torna mais civilizados, e faz bem à sociedade porque obviamente nunca conseguirão os seus objetivos e acabarão por reconhecer o carácter natural da desigualdade. O fato de o poder político da época Lula ter identificado essa linha abissal e ter tentado superá-la mediante políticas compensatórias e anti-discriminação racial que ajudam os inferiores a abandonarem a sua condição de inferioridade é um insulto à nação bem pensante e um desperdício criminoso de recursos. No caso concreto, teve ainda uma outra consequência, o encarecimento inoportuno do serviço doméstico que, na forma como está organizado no Brasil, é uma herança direta do mundo da Casa Grande e Senzala.

É bom ter em conta que o ideário colonialista não é monopólio das classes dominantes e suas aliadas. Habita as mentes dos que mais sofrem as consequências dele. E habita sobretudo as mentes dos que foram ajudados a deixarem o seu estatuto de inferioridade, mas ativa e rapidamente se esquecem da ajuda para pensarem tão bem como pensa a sociedade bem pensante, a sociedade do lado de cá da linha abissal em que acabam de se integrar. Refiro-me a setores da chamada nova classe média.

A melhor resposta

As razões acima referidas não pretendem explicar as diferenças que se jogaram na disputa eleitoral. Pretendem apenas explicar a agressividade desta. Uma vez ganhas as eleições, o governo tem de se centrar nas diferenças sem se esquecer da agressividade. Não é fácil definir a melhor resposta, mas é fácil prever qual será a pior. A pior resposta será pensar que, como a vitória foi magra, o PT apenas conseguiu adiar por quatro anos a ida para a oposição e que, sendo assim, não merece a pena o esforço de mudar as políticas que se seguiram até agora e até talvez seja bom baixar o nível de confrontação com a direita. Esta será a pior resposta porque, com ela, o PT não só terá adiado por quatro anos a ida para a oposição como levará talvez muitos mais para sair dela. Vejamos, pois, as possíveis linhas de uma resposta que não adie derrotas, mas antes consolide a hegemonia da sociedade mais inclusiva e diversa e obrigue a direita a mudar os temas e os termos da disputa eleitoral em anos futuros e em função dessa nova sociedade.

Políticas sociais

A vitória foi conseguida pelos pobres que pela primeira vez sentiram apoio para saltar a linha abissal e pela militância aguerrida dos que se solidarizaram com eles depois de terem visto a linha abissal e não terem gostado do que viram. A primeira linha consiste em não frustrar as expectativas dos que lutaram pela vitória da candidata Dilma Rousseff. Ao contrário do que pensaram alguns analistas petistas em pânico, as manifestações de junho do ano passado não foram um caldo de cultura da direita. Na frente da luta por Dilma, estiveram alguns movimentos que protagonizaram as manifestações. Isto mostra que o descontentamento foi real ainda que, por vezes, a sua intensidade tenha sido manipulada. E também mostra que o benefício da dúvida dado ao governo do PT pelos manifestantes de ontem e apoiantes de hoje não voltará a ser dado. A expectativa é agora mais forte do que nunca. Se não for atendida, sobretudo nas áreas da educação, da saúde da qualidade de vida urbana, do meio ambiente, da economia camponesa e da demarcação de terras indígenas, a frustração será irreversível e mais corrosiva.

A reforma politica

A reforma política é objetivo mais reclamado pelas forças progressistas e o mais bloqueado por um Congresso que, graças à patologia da representação gerada pelo atual sistema, não é o espelho da diversidade social, política e cultural do país. Quase 8 milhões de brasileiros e brasileiras exigiram em plebiscito popular a convocação de uma assembleia constituinte exclusiva. Em situações tão distintas quanto o Equador e a Colômbia, foi essa a solução encontrada para desbloquear um impasse institucional semelhante ao que ameaça o Brasil. É muito importante acabar com o financiamento corporativo dos partidos ou aplicar efetivamente o princípio consagrado pela “lei da ficha limpa”. Mas não basta. Todo o sistema de governabilidade tem de ser mudado. Como se pode explicar que dois dos partidos que apoiaram a candidata Dilma Rousseff tenham podido ser os opositores mais acirrados do candidato a governador Tarso Genro cuja proposta de governo representava o que há de mais genuíno no horizonte petista? Sem uma profunda reforma política, não haverá uma reforma tributária e, sem esta, o Brasil continuará a ser um país injusto apesar de todas as políticas de inclusão.

A participação popular

Dado o bloqueio institucional que se avizinha, os movimentos sociais terão provavelmente de voltar à rua e fazer pressão política para que o governo Dilma se sinta apoiado nas reformas que pretende realizar. Será este o terceiro turno da Presidente Dilma. Mas para ele ser levado a cabo com êxito, são necessárias duas aprendizagens recíprocas, ambas cruciais. Os movimentos populares têm de aprender a não se deixarem manipular pela “grande mídia”, interessada em radicalizar as suas demandas desde que estas se circunscrevam ao governo e não incluam o sistema econômico e financeiro, este último, um dos mais predadores do mundo em sociedades democráticas. E têm igualmente de aprender a detectar e denunciar agitadores profissionais infiltrados no seu meio, uma realidade com que certamente há que contar dado o contexto internacional que referi acima. Por sua vez, a Presidente Dilma tem de aprender a falar com quem não fala a linguagem tecnocrática. Tem de superar a chocante distância que manteve em relação aos movimentos sociais no seu primeiro mandato. Tem de saber lidar com o fato de que a participação popular vai oscilar entre duas formas, a participação institucional e a participação extra-institucional (nas ruas e praças) e tem de ter a lucidez de saber que a segunda forma será tanto mais forte quanto mais fraca e partidarizada for a primeira.

Justiça e terras indígenas e quilombolas

O sistema judicial tem uma missão democrática a cumprir em que não cabe ao governo interferir. Mas o governo pode criar condições que facilitem ou, pelo contrário, obstaculizem essa missão. A Presidente granjeou a credibilidade necessária para assumir a sua cota parte de responsabilidade na luta contra a corrupção. Mas têm também de assumir a defesa da lei quando esta favorece setores historicamente marginalizados e excluídos, como sejam os povos indígenas, afrodescendentes e os camponeses, em geral. Manter o atual Ministro da Justiça será um ato de frontal hostilidade aos povos indígenas cujas terras dependem de assinaturas que o Ministro tem postergado ostensivamente.

Uma política da mídia

A direita nunca é grata aos governos que não saem da sua base socioeconômica, por mais favores que lhe façam. Ao contrário de outros governos progressistas do continente, o governo popular brasileiro não quis lutar por uma nova normativa de comunicação social que impedisse a “grande mídia” de ser o grande eleitor da direita. Se o governo esperava que essa atitude benevolente fosse interpretada como um ramo de oliveira estendido a eles para auspiciar uma convivência civilizada, estava redondamente enganado como bem mostrou a campanha eleitoral. O caso do Rio Grande do Sul é talvez um dos mais agudos deste estado de coisas que transforma a mídia corporativa nos grandes eleitores da direita. Há, pois, que avançar com tanta determinação quanto moderação nesse domínio. O apoio aos meios comunitários e alternativos será um bom começo.

Mantega: ‘Governo vai continuar desenvolvimentista’

Por Giovana Vitola | Via BBC

O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou que os ajustes que começaram a ser anunciados na política econômica representem uma mudança “estratégica” e disse que o governo vai continuar no caminho do “desenvolvimentismo”.

Ministro afirmou que sempre esteve ‘sintonizado’ com presidente. Reuters/Reprodução

“Não é uma mudança na estratégia principal”, disse o ministro, que comentou os ajustes em uma entrevista à BBC Brasil concedida no domingo em Brisbane, na Austrália, durante reunião do G20.

“A nossa estratégia não é ortodoxa, é uma estratégia desenvolvimentista. É uma estratégia que visa a criar mais empregos, que visa a diminuir as disparidades sociais e de renda – e isso vai continuar.”

Mantega, que está de saída da pasta no novo mandato da presidente Dilma Rousseff, negou que a política econômica praticada nos últimos anos venha sendo alvo de críticas dentro do governo.

A sensação foi reforçada dias antes, quando a ex-ministra da Cultura Marta Suplicy disse esperar, ao deixar o cargo, que a presidente seja “iluminada” ao escolher uma nova equipe para resgatar a “confiança e credibilidade” na economia.

Segundo o ministro, ninguém no governo “tem autoridade para a crítica além da presidente [Dilma Rousseff]” e as decisões que ele tomou, nos últimos anos, sempre foram aprovadas por ela.

“Sempre estive sintonizado com a presidente. A política que eu faço é aprovada por ela, e o que nós temos agora é uma continuação dessa política dentro de um outro cenário econômico”, afirmou o ministro, cuja saída do governo em um eventual segundo mandato foi anunciada por Dilma ainda durante a campanha. O sucessor de Mantega ainda não foi anunciado.

Confira a seguir a entrevista completa.

BBC Brasil – Para alguns críticos, as recentes medidas econômicas anunciadas pelo governo indicam uma guinada à ortodoxia. O jornal Financial Times comentou que a presidente Dilma adotou políticas propostas pela oposição durante a campanha – e criticadas por ela. Isso é uma indicação do fracasso da política adotada até aqui? Qual o plano daqui para frente?

Guido Mantega - O que nós estamos fazendo são ajustes na economia, que são sempre necessários, principalmente quando você está saindo de um período de uma crise internacional para um período de normalidade. Durante a crise, nós fizemos várias medidas anticíclicas. Agora, é o momento de sair das medidas anticíclicas e caminhar para a normalidade. Então, você tem que fazer esses ajustes.

Nós fizemos ajustes importantes no início do governo Dilma. Eu mesmo, como Ministro da Fazenda. Fizemos um ajuste fiscal, na política monetária. Nesse momento temos que fazer alguns ajustes como o que fizemos em 2011. Não é nenhum retrocesso à política ortodoxa, em nenhuma circunstância. Fazer ajuste fiscal não é uma medida ortodoxa. Você manter a solidez fiscal é, digamos, o princípio de qualquer política, seja ela ortodoxa ou heterodoxa. Temos que preparar a economia pra que ela possa voltar a ter uma politica monetária mais flexível, para restabelecer o crédito no Brasil.

BBC Brasil – E como exatamente seriam esses ajustes, como eles vão fazer o crescimento deslanchar?

Mantega - Na verdade nós precisamos da recuperação da economia internacional. O crescimento da economia internacional em 2014 foi decepcionante. Então nós temos que… esperamos um cenário melhor. No Brasil, tivemos que combater em 2014 uma seca forte, uma pressão inflacionária, tivemos o período da Copa do Mundo, tivemos eleições, tudo isso atrapalha um pouco a economia.

Agora, sem isso, e mais os ajustes, nós teremos condição de retomar o crescimento. Por quê? Porque a economia brasileira mantém fundamentos sólidos. Nós temos um mercado interno poderoso. O Brasil continua se expandindo, porque apesar de um crescimento menor, nós aumentamos o emprego e aumentamos o salário. A massa salarial, que é poder de consumo, continua crescendo no Brasil. Basta reconstituir o crédito que você vai ter uma reativação.

Além disso, os programas de investimento que lançamos nos últimos anos estão amadurecendo. É o pacote de concessões, de infraestrutura… as rodovias estão recebendo investimentos. O setor de gás e energia está tendo bons investimentos. Com isto, nós temos condições de recuperar a taxa de crescimento em 2015, especialmente se formos ajudados por uma recuperação da economia internacional.

BBC Brasil – O que leva a essa mudança [na política econômica], a realidade econômica ou a necessidade de controlar as contas públicas?

Mantega - Essa mudança se deve ao fato de que nós saímos desse período de política anticíclica para [entrar em] um período em que acreditamos que a crise está no fim e que vai começar uma outra fase da economia. Não estamos mais dando estímulos, temos que reduzir alguns gastos, e reconstituir a política monetária mais favorável ao consumo da população.

BBC Brasil – Como foi a sua relação com a presidente Dilma durante o governo? O sr. tinha autonomia, ou havia muita interferência [no ministério]?

Mantega - Bom, é uma relação normal do ministro da Fazenda com a presidente. Ela sempre [nos] deu autonomia, para que nós fizessemos e apresentássemos os programas econômicos, os programas de ajuste.

Nós já tínhamos uma grande sintonia, porque antes de ela ser presidente, ela era ministra. Minha colega no ministério. E nós trabalhávamos juntos na política econômica. Fazenda com Casa Civil. Então, não houve nenhuma mudança porque estavámos sempre sintonizados.

As iniciativas que tomamos sempre foram aprovadas e apoiadas pela presidente.

BBC Brasil – O sr. tem sido alvo de críticas não somente da oposição, mas também internas. Ao mesmo tempo, tem que anunciar a mudança da política econômica, que de certa forma vai na direção contrária a que foi adotada até aqui. Não é uma situação incômoda?

Mantega - Não tenho [sido alvo de] críticas [de] dentro do governo. Se tivesse crítica, essa pessoa seria rapidamente desqualificada. Ninguém tem autoridade para a critica além da presidente. Agora se tem gente… se algumas pessoas comentaram isso [contra a política econômica], ai é outra coisa.

Sempre tive autoridade, sempre estive sintonizado com a presidente. A politica que eu faço é aprovada por ela e, o que nós temos agora é uma continuação desta política dentro de um outro cenário econômico. Portanto, isso exige mudanças. Não é uma mudança na estratégia principal.

A nossa estratégia não é ortodoxa, é uma estratégia desenvolvimentista. É uma estratégia que visa a criar mais empregos, que visa a diminuir as disparidades sociais e de renda – e isso vai continuar. Agora adaptado a uma outra fase da economia. Nós saímos da fase de crise e estamos nos preparando para a retomada do crescimento.

Se você olhar a política que eu fazia antes da crise, ela era diferente da que nós fizemos durante a crise. Agora trata-se de voltar ao que nós fazíamos. Antes da crise tínhamos o superávit primário maior, uma estabilidade maior das contas [públicas]. Num período de crise isso fica comprometido. Então, trata-se de uma mesma estratégia em fases diferentes. Não é uma mudança da estratégia econômica.

BBC Brasil – O Brasil chegou nesse G20 com a economia bem mais fraca do que em 2008 (quando a reunião do grupo foi essencial para responder aos desafios colocados pela crise). Teve algo a ganhar e a contribuir nas reuniões deste final de semana em Brisbane?

Mantega - Na verdade a maioria dos países está crescendo pouco no G20, e esse foi um dos temas da discussão. Por que, com as medidas tomadas, não estamos tendo uma reativação [de nossas economias]? Chegamos à conclusão de que falta estimular a demanda nos países avançados. Os EUA estão indo razoavelmente bem, o Reino Unido também está em uma certa recuperação, mas nós temos a União Europeia, temos o Japão, que não estão contribuindo para a retomada da economia mundial.

Muitos países estão buscando disputar mercados externos – e o que nós estamos precisando hoje é de reconstituir o comércio internacional. Ele está crescendo pouco porque tem pouca demanda nesses países. Essa é uma questão chave. Os países emergentes estão sofrendo porque falta mercado para eles exportarem seus produtos.

BBC Brasil – O que foi discutido na reunião dos Brics?

Mantega - Discutimos a consolidação [dos projetos do grupo]. Criamos em Fortaleza duas instituições importantes, o Banco de Desenvolvimento dos Brics e o fundo contingente de reservas. Então, agora temos que colocá-los para funcionar.

Combinamos de tomar algumas iniciativas, como, por exemplo, criar uma diretoria provisória para o Banco de Desenvolvimento, criar um conselho de administração, tomar as últimas providências para que, na reunião de julho do próximo ano, na Rússia, já tenhamos esses dois instrumentos importantes funcionando.

É importante ter um banco de desenvolvimento para financiar investimentos nos países emergentes, principalmente nos Brics, e um fundo de reservas para a eventual necessidade de membros do nosso grupo. Então, vamos apressar os trabalhos. Foi combinado que até julho nós estaremos com esses instrumentos prontos para funcionar.

Cúpula da Apec mostra empenho da China por liderança na região

Por Andrêi Iliachenko | Via Gazeta Russa

A união conceitual das abordagens entre Moscou e Pequim em relação à cooperação na região Ásia-Pacífico é confirmada pelo rápido desenvolvimento das relações econômicas e comerciais bilaterais, que se manifestou à margem da cúpula da APEC.

A cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC, na sigla em inglês), que terminou em Pequim no dia 11, mostrou que a China está empenhada em ter um papel de liderança na região. Fatores que muito contribuem para isso são a posição dos EUA, o curso da parceria estratégica de Moscou com Pequim e o desenvolvimento do Extremo Oriente russo.

No discurso final da cúpula, os líderes das maiores economias da bacia da Ásia e do Pacífico enfatizaram “esperar da APEC a consolidação e a promoção da integração econômica regional, o apoio ao sistema comercial multilateral, o combate ao protecionismo em todas as suas manifestações, bem como medidas para prevenir a possível fragmentação do comércio regional”.

Uma resposta a estes desafios deverá ser o lançamento do processo de criação da zona de livre comércio da Ásia-Pacífico (FTAAP). O roteiro de contribuição da APEC para a sua implementação já foi apresentado. Esta foi uma das principais conquistas do fórum, segundo as palavras do anfitrião da cúpula, o presidente Xi Jinping.

Além disso, trata-se de uma grande conquista da China, que formulou a ideia na cúpula e faz questão de chefiar a sua aplicação, apesar de já existirem conversas sobre a integração da Ásia-Pacífico desde o nascimento da APEC, ou seja, há 25 anos.

Na sua essência, a proposta chinesa é uma alternativa à ideia norte-americana da Aliança do Pacífico, também uma zona de livre comércio na qual deverão entrar os Estados Unidos, o Japão e a maioria dos países da região com maior afinidade a Washington, deixando de fora a China e a Rússia.

Ao anunciar dois anos atrás que a Ásia-Pacífico era uma das regiões-chave de seus interesses nacionais, o presidente Barack Obama alinha assim um sistema de contenção da China. Esse sistema copia em grande medida as relações na Europa, onde as fronteiras da UE praticamente coincidem com a zona de responsabilidade da OTAN.

Na véspera da cúpula, a mídia chinesa chamou a política de Obama de “banal”. Na Rússia, os especialistas têm opiniões semelhantes. “Os Estados Unidos não propõem nada de novo em Pequim”, diz Gleb Ivachentsov, vice-diretor do Centro Russo de Pesquisas da APEC.

Já a China apresentou na cúpula uma parceria global sem linhas divisórias que estimulem o confronto e recebeu o total apoio da Rússia. Discursando na primeira sessão de trabalho dos líderes das economias da APEC, o presidente russo, Vladímir Pútin, disse:

“Neste contexto, gostaria de elogiar o roteiro de cooperação preparado pela presidência chinesa para promoção da zona de livre comércio Ásia-Pacífico. As medidas previstas nele ajudarão a harmonizar as iniciativas de integração implementadas no espaço da APEC.”

No entanto, o presidente russo salientou que “nenhum novo acordo deve prejudicar o sistema de comércio multilateral da OMC”.

Isto é uma crítica ao conceito da Aliança do Pacífico idealizada pelos EUA e, ao mesmo tempo, um apoio à posição chinesa, que coloca na mesa propostas parecidas com aquelas apresentadas pela Rússia em 2012 na cúpula da APEC em Vladivostok.

Abordagens comuns e crescimento do comércio

A união conceitual das abordagens entre Moscou e Pequim em relação à cooperação na região Ásia-Pacífico é confirmada pelo rápido desenvolvimento das relações econômicas e comerciais bilaterais, que se manifestou à margem da cúpula da APEC. Foi alcançado um acordo importante de fornecimento de gás à China pela chamada rota ocidental, quebrando assim o monopólio da Europa como o principal consumidor do gás russo.

Além disso, a Rosneft e a Corporação Nacional chinesa para a exploração e desenvolvimento de campos de petróleo assinaram, também à margem da cúpula, um acordo-quadro para a aquisição de 10% de participação na Vankorneft. Esta é uma séria preferência aos importadores chineses. Também aumenta o fornecimento direto de petróleo à China. Segundo o presidente da Rosneft, Igor Setchin, a Rússia e a China assinaram os termos de um acordo de fornecimento adicional no valor de 5 milhões de toneladas de petróleo por ano.

Já em junho de 2013, a Rosneft e a Corporação Nacional Chinesa de Petróleo (CNPC) assinaram um contrato de longo prazo para o fornecimento de petróleo russo à China. “O volume chega a 365 milhões de toneladas durante 25 anos, e o valor estimado da transação é de US$ 270 biliões”, disse Setchin na época.

E não se trata apenas de reforçar a parceria com a China. Com base na cooperação econômica na região Ásia-Pacífico, a tarefa mais importante para a Rússia é a de fazer renascer e se desenvolver a economia da Sibéria e do Extremo Oriente russo.

“Só isso permitirá que o país restaure e mantenha o estatuto de grande potência. Não tem outra maneira”, enfatiza Gleb Ivachentsov.