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O que não estão lhe contando sobre a crise mundial do petróleo

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Em sua eterna luta para jogar mais sombras onde já não existe luz, a imprensa brasileira está ignorando o fato mais importante do ano na economia mundial: a dramática queda do preço do petróleo.

É um fato que terá impactos brutais no mundo globalizado, mas a mídia nacional prefere centrar seus holofotes na Petrobras, como se se tratasse de um caso único de depressão num ambiente de extrema alegria.

Desde junho, quando atingiu o pico de 115 dólares o barril, o preço do petróleo caiu pela metade. Nesta semana, o barril está sendo vendido na casa dos 60 dólares.

Vários fatores se somaram para que isso acontecesse, mas você pode resumir a explicação na tradicional lei da demanda e da oferta.

A produção de petróleo, hoje, supera amplamente o consumo.

Isso está ligado à crise econômica mundial. Com sua economia se desacelerando, a China consome hoje muito menos petróleo do que fazia. O mesmo ocorre com outra potência, a Alemanha.

Os Estados Unidos, tradicionalmente os maiores importadores, está quase auto-suficiente, graças ao “shale oil” — saudado como uma revolução no campo energético.

Trata-se, essencialmente, da extração de gás e petróleo do xisto, um tipo de rocha.

Reduzida a demanda, era esperado que a OPEP, a organização que congrega os maiores exportadores, baixasse sua produção, para defender o preço.

Mas não.

Para surpresa generalizada, a OPEP, numa reunião em novembro, decidiu manter a produção nos mesmos níveis.

Foi quando o universo do petróleo entrou em convulsão.

Mas por que os produtores tomaram essa decisão?

Especialistas acham que o objetivo maior é matar o “shale oil” americano. A extração é muito mais cara. Caso o barril fique barato, a indústria do “shale oil” tende a se inviabilizar, e esta seria uma excelente notícia para os países da OPEP.

Mas efeitos muito mais imediatos da baixa da cotação estão já sendo sentidos em países como a Rússia, o Irã e a Venezuela. Todos eles dependem visceralmente das exportações de petróleo.

Para o orçamento russo se manter equilibrado, o barril deve estar na faixa dos 100 dólares.

Economistas já preveem uma queda de 5% do PIB russo em 2015. O sofrimento russo deu margem a que fosse ventilada a teoria de que por trás de tudo estariam os Estados Unidos, empenhados em criar problemas para Putin.

Faz sentido? Faz. Ou pode fazer. Mas o custo, para os americanos, é elevado. Sua florescente indústria de “shale oil” pode simplesmente se desintegrar.

E o Brasil, no meio disso tudo?

O quadro ainda não é totalmente claro. Há alguns benefícios: apesar de produzir como nunca, o Brasil ainda é um grande consumidor de petróleo.

Isso significa que as despesas de importação se reduzirão substancialmente. É, também, um alívio financeiro para a Petrobras, que subsidia os consumidores brasileiros.

A Petrobras vende a gasolina no Brasil por um preço inferior àquele pelo qual ela compra. O subsídio se destina, primeiro e acima de tudo, a controlar a inflação.

A ameaça mais séria, para o Brasil, vem do pré-sal. Como o “shale oil” americano, a extração do pré-sal é mais cara que a convencional.

Alguns estudos sugerem que com o barril a 40 dólares o pré-sal se inviabilizaria. Mas antes disso a vítima seria a indústria americana de óleo alternativo.

É razoável supor que o barril não descerá muito além dos 60 dólares.

A OPEP disse que ia esperar uns meses para ver o que ocorria. Um preço muito baixo, por um tempo longo, poderia ser fatal para a OPEP.

Assim, é presumível que, em algum momento nos primeiros meses de 2015, a produção seja reduzida para que o preço se recomponha.

Enquanto isso, as companhias petrolíferas são ferozmente castigadas. Nos últimos seis meses, as ações da Goodrich Petroleum caíram 86%. As da Oasis Petroleum, 75%.

A Petrobras é um caso entre muitos, e não um caso único, ao contrário do que a imprensa brasileira noticia.

Nada na economia mundial, em 2014, foi tão importante quanto o colapso dos preços do petróleo – mas a mídia brasileira, no afã de bater na Petrobras e consequentemente no governo, parece que não percebeu.

Piketty e as hipocrisias conceituais

Por Waldimir Pomar | Via Correio da Cidadania

Thomas Piketty, o economistas francês que estudou as economias desenvolvidas do mundo e chegou à conclusão de que, nelas, a desigualdade econômica está aumentando de forma crescente, teve seu livro publicado em português e veio ao Brasil para um debate com conhecidos econometristas brasileiros da corrente monetarista.

Isso serviu de pretexto, paralelamente, para a publicação de comentários que trouxeram à luz o que se poderia chamar de hipocrisias conceituais. Em resumo: a) a mesma globalização que tornou os ricos mais ricos coincide com o maior período de redução da pobreza na história da humanidade; b) com isso, vislumbra-se pela primeira vez na história um futuro com o fim da pobreza absoluta; c) o próprio Piketty reconheceu que combater a pobreza é mais importante que redistribuir a riqueza; d) o segredo da possibilidade de reduzir a pobreza, como teria demonstrado o Brasil, não estaria na redistribuição da riqueza, mas no crescimento econômico, ou seja, na geração de riqueza; e) portanto, para acabar com a pobreza é preciso gerar riqueza.

Em continuidade, essas hipocrisias conceituais concluem que: a) é justamente a definição dos caminhos para crescer, ou gerar riqueza, que tem dividido os economistas há décadas; b) de um lado, estariam aqueles que acreditam no Estado como o principal ator do crescimento, e que supõem tolerável algum tipo de desequilíbrio nas contas públicas e de inflação mais alta, de modo a evitar a redução das atividades econômicas e das taxas de emprego; c) de outro lado estariam os que acreditam que os investimentos privados são o principal motor do crescimento, sendo necessário incentivar tais investimentos e fazer com que o Estado controle seus gastos e combata a inflação.

Começando pelas conclusões, elas são, além de hipócritas, de um primarismo crasso. A história mostrou que nem sempre basta que o Estado controle seus gastos e combata a inflação. Se o Estado brasileiro, durante a crise capitalista mundial dos anos 1930, além de controlar seus gastos e a inflação, não tivesse realizado investimentos produtivos e irrigado inúmeros proprietários privados com financiamentos públicos, o Brasil não teria se industrializado. Os capitalistas que hoje arrotam seu empreendedorismo talvez sequer existissem. O agrarismo teria se imposto e o país continuaria sendo um reles exportador de algumas commodities agrícolas. Quem tiver dúvida, que leia pelo menos os trabalhos de Roberto Simonsen e de Eugenio Gudin.

O motor real do crescimento são os investimentos. O problema é que o capital privado só admite realizar investimentos se suas taxas de retorno, ou de rendimento, forem superiores aos juros pagos pelo Estado para financiar suas atividades, ou para atrair investidores para o cassino financeiro. Assim, existem os que acreditam no Estado como principal ator do crescimento e supõem toleráveis desequilíbrios fiscais e inflação mais alta. Porém, também há os que enxergam no Estado um indutor, tanto dos investimentos públicos quanto dos investimentos privados. E que acham fundamental combater a inflação não pelo tripé de juros altos, arrocho fiscal e câmbio fixo, que historicamente levou o Brasil, nos anos 1990, a amargar uma verdadeira destruição de seu parque produtivo. A inflação pode e deve ser combatida através da redução dos juros, permitindo o aumento da produção, ou da oferta, assim como dos empregos e dos salários. O controle fiscal pode ser realizado priorizando os investimentos destinados ao aumento da produção. E as taxas de câmbio podem ser administradas para elevar a competividade externa dos manufaturados produzidos no país e equilibrar a balança comercial.

Vistas as coisas desse modo, pode-se considerar que não existe apenas um lado e outro. Há vários lados dividindo os economistas e outros pensadores sociais, não só a respeito dos caminhos a seguir para gerar riqueza, ou crescer, nem a respeito do que fazer com a riqueza gerada pelo trabalho humano. Há muitas divisões. Umas a respeito da globalização. Outras sobre a redução da pobreza. Ainda outras sobre o fim da pobreza absoluta, da relação entre pobreza e desigualdades, e sobre a necessidade de gerar riqueza para acabar com a pobreza.

Por exemplo, a hipocrisia conceitual critica Piketty por haver pesquisado apenas os países capitalistas desenvolvidos. Reconhece que, neles, os ricos ficaram mais ricos. Mas engrena daí para a conclusão de que, nesse mesmo período, a globalização produziu a maior redução histórica da pobreza. Porém, poderia e deveria ter dito que justamente naqueles países desenvolvidos, onde os ricos ficaram estupidamente mais ricos, não houve redução da pobreza. Ao contrário, esta se alastrou desde os anos 1980. Por outro lado, foram os países em desenvolvimento, ao adotarem políticas econômicas que romperam com o decantado tripé neoliberal, mesmo parcialmente, como foi o caso do Brasil, que reduziram a pobreza. Temos, pois, uma dicotomia mundial muito mais complexa do que a hipocrisia conceitual pode supor.

Nessas condições é hipocrisia pura vislumbrar apenas o fim da pobreza absoluta. Por que não vislumbrar também o fim da pobreza relativa? Será por que a pobreza relativa é o principal indicador do crescimento da desigualdade social descrita por Piketty? Ou por que a pobreza relativa, na doentia relação não só com o crescimento da riqueza, mas principalmente com a concentração e centralização da riqueza em algumas poucas mãos (1% dos países desenvolvidos), tende a se transformar em pobreza absoluta, ao invés de lhe dar fim?

Piketty teve o mérito de comprovar, com dados estatísticos, a brutal e crescente centralização da riqueza, ou do capital, assim como a brutal e crescente desigualdade nos países capitalistas desenvolvidos. Ou seja, ele comprovou algumas das hipóteses apresentadas por Marx no século 19 sobre as leis internas do desenvolvimento capitalista. Este tem uma imensa capacidade de gerar riqueza, através da compra da força de trabalho humano, tanto na forma de trabalho vivo quanto de trabalho morto. Mas, faz isso concentrando e centralizando a riqueza gerada, incorporando as ciências e tecnologias ao processo produtivo (trabalho morto), elevando a produtividade e descartando forças de trabalho (trabalho vivo), e intensificando tanto a pobreza relativa quanto a pobreza absoluta.

No momento, temos uma dicotomia entre os países capitalistas desenvolvidos, em crise e em declínio, e os países em desenvolvimento, tanto capitalistas quanto socialistas de mercado. Estes enfrentam as dificuldades das ondas da crise capitalista, mas ainda estão em crescimento e com redução da pobreza. Não se pode igualar ambos os processos e colocar todos os ovos da redução da pobreza na mesma cesta.

Nos países capitalistas desenvolvidos, o problema que se coloca para combater a pobreza consiste em redistribuir a riqueza concentrada e centralizada. O que talvez só possa ser feito através da transformação da propriedade privada em propriedade social. Nos países em desenvolvimento, a redução da pobreza consiste tanto no crescimento econômico, ou na geração da riqueza, quanto na criação de mecanismos que redistribuam parte dessa riqueza. Uma parte para a reprodução ampliada dos investimentos, do processo produtivo e da geração de novas riquezas. E parte para acabar com a pobreza, por meio de salários decentes e serviços públicos eficazes. O resto é pura hipocrisia, nem sempre simplesmente conceitual.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Cúpula climática em Paris terá mais dificuldades após acordo em Lima

Via Correio do Brasil

Os textos concordados em Lima vão obrigar governos a fornecerem apenas alguns vagos planos para limitar emissões de gases-estufa

A cúpula do clima de Paris em 2015 terá uma missão mais difícil para obter um acordo da ONU para desacelerar as mudanças climáticas, depois que as esperanças de que um acordo entre Estados Unidos e China fosse uma chave mágica para destravar um impasse global se dissolveram nas conversas preparatórias em Lima.

No melhor dos casos, Paris pode ser uma chance para reformar um sistema de conversas anuais da ONU, mais de 11 mil delegados compareceram às conversas de dois dias em Lima, e descobrir maneiras de impulsionar ações de longo prazo para conter as crescentes emissões de gases-estufa.

Mas o impulso político do acordo EUA-China deu lugar às familiares divisões e “linhas vermelhas” que rotineiramente empacam as conversas, especialmente sobre a questão da diferenciação das responsabilidades dos países riscos e pobres.

– O anúncio EUA-China indicou uma mudança fundamental em colocar países desenvolvidos e em desenvolvimento em um patamar mais igual. Não é surpresa que, em Lima, um monte de países em desenvolvimento resistiram – disse Elliot Diringer, do Centro para Mudanças Climáticas e Soluções em Energia.

A Organização das Nações Unidas diz que já está claro que as promessas para reduções de emissões em uma cúpula de Paris, que acontecerá em dezembro de 2015, serão muito fracas para avançar para a meta da ONU de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

– Teremos muito trabalho a fazer – disse o ministro francês do Exterior, Laurent Fabius, sobre o desafio de Paris.

Mesmo assim, 2015 ainda carrega uma esperança de reformas para que o sistema da ONU tenha maior controle sobre políticas de emissões de gases-estufa, que são culpados por ondas de calor, inundações, secas e aumento dos níveis do mar.

Paris pode marcar uma mudança de rumo das duas décadas de diplomacia climática em direção a um sistema mais tecnocrático, que permitiria que compromissos nacionais para ações climáticas fossem comparados e fortalecidos nos próximos anos.

Yvo de Boer, um ex-chefe da ONU para questões climáticas, disse que um problema era que negociadores da ONU não tinham autoridade. “Se os líderes do Grupo dos 20 se reunissem e dissessem ‘vamos fazer isso’, toda essa conversa acabaria em 30 minutos”, disse ele à Reuters.

De Boer, que agora lidera o Instituto Global de Crescimento Verde, que ajuda países em desenvolvimento, notou que as conversas climáticas anuais cresceram muito desde que 1.000 delegados se reuniram pela primeira vez em 1994.

– Paris pode ser uma oportunidade para mudar isso, se forem identificados pontos que precisam ser completados. Isso pode ser transformado em um processo técnico, e não político – disse.

Até agora, no entanto, os sinais não são tão bons.

Os textos concordados em Lima vão obrigar governos a fornecerem apenas alguns vagos planos para limitar emissões de gases-estufa, após a China ter negado um esforço da União Europeia por relatos detalhados dos planos.

Assim, o resultado das conversas de Lima, que atraíram desde ministros de países da Opep até veganos vestidos como frangos, significa que um acordo em Paris deve ser um mero remendo das ofertas nacionais para conter as emissões.

Petrobrás: o que está em jogo é a corrupção?

Por Cibele Vieira | Via Brasil de Fato

O que estamos vendo no mercado mundial de petróleo nada mais é do que a lógica de Dumping: abaixa-se o preço para eliminar concorrentes e depois ter um maior controle sobre os preços. É nesse contexto, de luta pelo controle do preço mundial, que se situam os ataques à Petrobrás, camuflados de combate a corrupção.

Por mais que sempre ouçamos falar que o petróleo mundial vai acabar, a verdade é que, desde 2008, com a crise do capitalismo, vemos a demanda caindo ao mesmo tempo em que a oferta tem aumentado.

Houve novas descobertas como o pré-sal (Brasil e Argélia), o petróleo não convencional Xisto (EUA) e Areia Betuminosa (Canadá), assim como um aumento da produção nos países da OPEP devido a uma maior estabilidade política depois da “Primavera Árabe”. (Vale ressaltar que estudos apontam a inviabilidade da exploração do Xisto em longo prazo).

O que estamos vendo no mercado mundial de petróleo nada mais é do que a lógica de Dumping: abaixa-se o preço para eliminar concorrentes e depois ter um maior controle sobre os preços. O valor do barril que chegou a ser mais do que U$120 agora está U$66.

Apesar do raciocínio ser esse, não é fácil sua caracterização porque a derrubada dos preços não necessariamente são abaixo do custo de extração que assim como a dependência da economia dos países produtores de petróleo variam. Sendo assim, países como Arábia Saudita e Estados Unidos podem trabalhar com um preço inferior do que Rússia e Venezuela, por exemplo.

O preço de exploração divulgado pela Petrobrás é de U$14 (sem participações governamentais) e estima-se U$50 somando tudo, inclusive os investimentos para a descoberta. Portanto, a exploração, mesmo com a queda dos preços, continua viável. Porém os investimentos de U$141 milhões por dia e o conteúdo nacional, nem tanto. Os investimentos que planejam colocar o Brasil como quarto ou quinto maior produtor mundial de petróleo.

É nesse contexto, de luta pelo controle do preço mundial, que se situam os ataques à Petrobrás, camuflados de combate a corrupção. Denunciamos no ano passado a espionagem americana no Brasil e no México (não à toa, houve a quebra do monopólio mexicano de petróleo).

Se as empresas estrangeiras não certificarem o balanço da Petrobrás, esta não poderá mais negociar ações e terá muitas dificuldades para financiamentos. No ano que vem já estão previstos dois leilões de petróleo no Brasil, dos quais estão fazendo de tudo para que a Petrobrás sequer possa participar. O jornal “O Globo” já questiona abertamente a lei de partilha que garante a participação e controle da Petrobrás no pré-sal.

Se não conseguiram vencer as eleições, não conseguiram entregar de vez o nosso petróleo para o EUA, vão tentar inviabilizar a Petrobrás tanto nos investimentos quanto em conseguir novas reservas de petróleo. Se o mercado quer nos estrangular será que não é a hora de fazer o inverso e tornar a Petrobrás 100% pública?

Globo amplia pressão para abrir Pré-Sal a gringos

Via Brasil 247

Um dia depois de defender, em editorial, que empresas internacionais, como Shell, BP, Exxon e Chevron, assumissem a liderança da exploração das reservas brasileiras de petróleo no pré-sal, o jornal O Globo agora produz reportagem sobre a mudança iminente nas regras, em razão dos problemas vividos pela Petrobras; “essa reflexão vai acontecer”, disse, em off, uma suposta fonte governamental ao governo; não se sabe ainda nem quem será o novo ministro de Minas e Energia, mas O Globo já vende a tese de que o segundo governo Dilma adotará o programa de Aécio Neves no petróleo.

Um dia depois de produzir um editorial defendendo a abertura do pré-sal a empresas estrangeiras, o jornal O Globo, dos irmãos Marinho, produziu reportagem sobre uma suposta mudança nas regras da exploração de petróleo no País.

De acordo com o jornal, o modelo de partilha, que obriga os consórcios exploradores, sempre liderados pela Petrobras, a dividir parte da receita com a União (o que se explica pelo menor risco exploratório, uma vez que as reservas já estão comprovadas), seria substituído pelo de concessões.

Embora o governo ainda não tenha definido quem será o futuro ministro de Minas e Energia, cargo para o qual aparece cotado o senador Eduardo Braga (PMDM-AM), O Globo se ancora em fontes “em off” para tratar da suposta mudança. “Essa reflexão vai acontecer”, diz a suposta fonte.

Pelo novo modelo, empresas internacionais, como Shell, Exxon, BP e Chevron poderiam arrematar concessões para, assim, explorar as reservas descobertas pela Petrobras ao longo dos últimos anos. O Globo aposta na tese de que a Petrobras, que ainda não conseguiu publicar seu balanço, ficará fragilizada financeiramente, será rebaixada por agências internacionais de risco e não conseguirá captar recursos para tocar seu plano de investimentos. Assim, a abertura aos grupos internacionais seria inevitável.

Este modelo era exatamente que vinha sendo defendido pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) durante a campanha presidencial. “Acho que nós temos que discutir o que é melhor para o Brasil, se em determinados casos não é melhor o modelo de concessão. É uma discussão que nós vamos fazer lá na frente, obviamente respeitando os contratos vigentes”, disse o senador, durante a campanha presidencial.

“A grande imprensa é um instrumento de dominação multinacional”: Entrevista com Nilson Lage

Por Rennan Martins | Brasília, 15/12/2014

A popularização da internet e de aparelhos multimídia massificou a produção de informação e registro de toda sorte de acontecimentos, relevantes ou não. As redes sociais abriram espaço para que as pessoas experimentassem novas formas de se relacionar e se articular em torno de objetivos comuns. Estes fatores estão mudando a forma com que os cidadãos lidam com a imprensa, a política, o poder de forma geral.

Este processo de transição e assimilação de uma nova tecnologia pela sociedade levanta uma série de importantes questões. Qual o real potencial da internet? A grande imprensa realmente perdeu capacidade de influenciar a opinião pública? Como era e como é a configuração da mídia em nosso país? Que relação tem a mídia com o poder?

Estas questões tão caras à democracia merecem uma reflexão que nos auxilie no caminho de inclusão social e participação política. Para isso, é preciso ouvir os intelectuais e personalidades que atuaram e atuam no debate público brasileiro.

Conversei então com Nilson Lage, jornalista de larga experiência e professor de obra vastamente citada na academia. Lage diz que a mídia corporativa é a “essência do poder”. Considera que a regulamentação dos meios de comunicação é positiva, mas que não afetará tanto o alinhamento editorial dos veículos. Enxerga ainda que a imprensa latino-americana é coordenada desde Miami, promovendo valores antinacionais e patrocinando a submissão dos povos aos EUA.

Confira a íntegra:

Quais as principais diferenças entre o jornalismo analógico e o digital? Que possibilidades a massificação da internet nos trouxe?

O professor Nilson Lage

A diferença básica é que a veiculação pela Internet eliminou os custos de transmissão (gráfica, eletrônica), distribuição e arquivamento, permitindo a multiplicação dos produtores e reduzindo radicalmente a escala de investimentos necessária a empreendimentos jornalísticos.

A segunda diferença em importância é que, virtualmente, toda a produção (gráfica, sonora, audiovisual) concorre para um só equipamento – o computador. Isso permite a composição dos diferentes media em produtos complexos (a página, o site, o portal, o aplicativo) dirigidos a uma ou a várias formas de exposição (em computador, smartphones, tablets, cinemas etc.)

A terceira diferença é que a Internet abala o conceito antigo de direito autoral, torna-o, em muitos casos, artifício legal contornável e tende a suprimir a apropriação de obras antigas e consagradas em novas edições, reimpressões, regravações etc.; facilita a recuperação de informação em arquivos e subtrai valor comercial de produtos antes muito prestigiados, como dicionários e enciclopédias.

Como você enxerga a inserção da internet e a massa de mídias no debate público? Há mudanças nas estruturas de poder e hegemonia?

É cedo para dizer.

A mudança de quantidade não configurou, por ora, qualidade nova. Os veículos tradicionais mantêm a hegemonia, embora com alguns novos concorrentes.

O sistema de informação pública organizou-se, historicamente, em todos os níveis, em modelo centralizado (poucos produtores → muitos consumidores) com redes de malhas que divergem de pontos bem definidos, baixa interatividade, retorno lento e respostas estocásticas. Assim funcionam os financiamentos, a veiculação publicitária, as fontes profissionais etc.

Uma das consequências é que o acesso à informação primária continua sujeito à mediação de poucos veículos, com privilégio da mídia tradicional. É mais viável negociar a informação (troca de informação por informação ou de informação por outra mercadoria) com poucos agentes, e conhecidos, do que facultar o acesso a número indefinido de incontroláveis interlocutores.

Finalmente, a produção de informação de acesso público é atividade profissional, com sua técnica, ética de convívio e práticas consolidadas. Constata-se que a aparente liberdade que a Internet propicia dá espaço à mistura de verdade e fantasia, constatações e invenções, mundo real e mundos possíveis, diálogo educado e insulto; facilita o reingresso de toda sorte de conceitos e valores abandonados ao longo da História e que se mantinham recessivos na sociedade.

O risco é uma explosão de entropia que resultará inevitavelmente em desinformação de massa.

Quanto à relação da imprensa com a geopolítica. Os conglomerados de mídia corporativa ocidentais atuam como braços do poder? A guerra de informação é real?

São a essência do poder.

Pode-se afirmar que o domínio da cultura saxônica, que antes disputava, no nível acadêmico e no mercado de consumo, com outras fontes – no Ocidente, principalmente, com a cultura francesa – consolidou-se na etapa norte-americana (após a década de 1920 e, sobretudo, da Segunda Guerra Mundial), dada a supremacia na área da informação.

A retórica do jornalismo americano tornou-se padrão de objetividade, impondo antagonismos absurdos (como democracia x comunismo), e ambiguidades surpreendentes (como liberal = socialista, socialista = comunista ou, no Brasil, trabalhismo = comunismo), substituições convenientes (estrangeiro/internacional) etc.

Seguindo o estilo consagrado pela revista Time (1922), a combinação de informação objetiva com adjetivação criativa, metáforas e acumulações de sentido produziu um modelo de relato-comentário da realidade que se mostra dominante, principalmente em revistas se informação geral e suplementos.

Através de mecanismos hábeis e de recursos bem direcionados, transferiu-se a luta política histórica (o conflito de classes e da distribuição de riqueza no mundo) para o universo existencial (a relação ente os sexos, as raças, do homem com a natureza); a escatologia – questão dos fins últimos e causas primeiras da humanidade da vida, do universo – passou do universo religioso para o debate partidário, adquirindo extraordinário potencial de conflito.

Como se dá a relação dos grandes grupos de imprensa com os governos progressistas latino-americanos?

A grande imprensa, coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa (SIP), por via das associações nacionais, como a ANJ – e, de maneira similar, no setor de rádio e televisão (no Brasil, Abert) – é um instrumento (hoje, o principal) de dominação multinacional, o que determina sua oposição radical ao nacionalismo, ao desenvolvimento econômico autônomo e à integração regional que esses governos patrocinam.

Isto se consolidou historicamente com penetração continental da indústria estrangeira da informação (gravadoras de música, distribuidoras de filmes etc), a partir da década de 1950, e com a orientação empresarial das agências de publicidade, em cuja direção (e na filosofia de trabalho) se concentra a visão mais cínica e reacionária da sociedade – haja visto o papel que tiveram, em fatos ainda recentes no Brasil, expoentes do setor, como Ênio Mainardi ou Ivan Hassolocker, o dirigente do Ibad que ajudou a articular o golpe de 1964.

Impermeável às identidades nacionais, a retórica publicitária vende cosmopolitismo, individualismo, racismo, hedonismo, superficialidade, imoralidade que sequer se assume e, sempre que possível, cultura global amorfa, sem história e sem pátria. Seu discurso é o da irresponsabilidade, da autocomplacência e do escapismo.

É tão enraizado isso que dificilmente se imagina como poderia ser diferente.

Em relação as últimas eleições. Como se deu a cobertura dos fatos políticos? A isenção existiu?

Claro que não, se considerarmos a cobertura em geral. Muitos jornalistas se esforçaram para fazer um trabalho correto, como sempre acontece. Conseguiram, minoritariamente, também como de hábito, mesmo nos momentos mais difíceis.

Sobre a liberdade de imprensa no país. Nossos jornalistas têm liberdade de investigar e escrever? Que poderes mais constrangem os colegas?

A censura empresarial está geralmente introjetada e se implanta através das estruturas hierárquicas que divulgam as linhas editoriais, comandam as redações, supervisionam pautas e avaliam trabalhos. De modo geral, numa espécie de seleção às avessas, os editores principais dos grandes veículos são jornalistas não muito brilhantes, mas bastante domesticados, que operam como via de transmissão das ordens da empresa, assumidas em geral como normas de sua lavra.

A política das redações varia um pouco, da relativa estabilidade aparente (em O Globo, por exemplo) ao estímulo da competição desvairada entre os repórteres (na Folha), com traço generalizado e crescente de insegurança que a concentração empresarial, a equação declinante empregados/candidatos a emprego e a decadência da mídia tradicional acentuam.

A liberdade é das empresas, desde que elas se articulem com os bancos que as financiam e agências que as sustentam, manobrando verbas públicas e privadas.

É sabido que no Brasil muitos políticos detêm concessões de rádios e televisão. Quais as consequências disso? Porque esse assunto tem pouco apelo entre os cidadãos?

Os cidadãos são mantidos na ignorância por um sistema (não só de comunicação, também educacional) que ordena os fatos como convém e oculta os que interessa ocultar.

A posse de veículos por políticos – algo mais generalizado no Brasil do que em outros países – decorre da origem histórica regional da imprensa, de um lado, e da estratégia montada pelas redes que se instalaram no Brasil com modelos e patrocínio estrangeiro, em particular a Rede Globo: ela assegurou sua hegemonia ao articular-se com as oligarquias regionais preexistentes, de que se originam (ou que representam), em sua maioria, os políticos que chegam ao congresso.

Nessas eleições muito se falou sobre a regulamentação dos meios de comunicação. O Brasil precisa dela? Por que?

Sim. Reduzirá ou eliminará a concentração de poder na mão da meia dúzia ou menos de famílias que controlam a informação no Brasil no plano nacional.

No entanto, não creio que afete radicalmente o alinhamento dos media. Por muitos que sejam os veículos e as redes – e por mais que aparentemente estejam competindo – terão traço comum dominante. É como as rádios FM da região metropolitana de São Paulo: são dezenas, como 14 milhões de ouvintes, mas não têm escolha: oferecem música pop-lixo, música brega-lixo, rock-lixo, sertanejo-lixo, mpb-lixo, qualquer coisa-lixo porque tocam o que interessa às gravadoras e por imposição do mercado publicitário, são impotentes para segmentar o público por padrões reais de gosto. Cabe aos ouvintes escolher entre um lixo e outro dentre o que lhe é oferecido ou recorrer ao CD-DVD-pen drive.

Há alguns dias a Comissão Nacional da Verdade publicou seu relatório final. Poderia nos dar um testemunho de como foi a ditadura na visão de um jornalista?

Um processo regressivo.

O Brasil tinha imprensa regionalizada, com correspondente na capital federal e veículos de todos os estados e principais regiões metropolitanas.

Havia jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão cobrindo amplo espectro ideológico dentro da normalidade de uma sociedade capitalista (a imprensa comunista sempre foi insignificante em termos de público): o trabalhismo de Última Hora, o nacionalismo classe-média do Diário de Notícias, a oposição radical e encasacada do Correio da Manhã, o catolicismo progressista (estética e editorialmente) do Jornal do Brasil, o reacionarismo provinciano do Estadão, a picaretagem assumida dos Diários Associados, o golpismo sistemático de O Globo, a criatividade da TV Excelsior etc.

Os militares – não tanto por interesse deles, mas por se deixarem convencer pelo inimigo que supunham amigo – destruíram tudo, e o que havia de liberdade foi quase toda junto.

Hoje em dia vemos toda uma nova geração dos blogueiros, que praticam comunicação sem formação específica, muitos deles com amplo sucesso. Que críticas faria a essas figuras? Que sugestões?

Não creio tanto nessa “falta de formação específica”. Há os cientistas políticos, os panfletários de ideias, os humoristas, os pregadores religiosos, os nefelibatas políticos… Sempre houve. Os que sobreviverem tendem a se profissionalizar.

Boaventura: a Terceira Guerra é contra a Rússia

Por Boaventura de Sousa Santos | Via OP

Bombardeiro B-52 equipado com armas atômicas. Para Boaventura, “várias agências de segurança [norte-americanas] fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear”

Washington provoca Moscou em três frentes, atiça possível conflito nuclear e ignora opinião da sociedade norte-americana. Em nome da “democracia”?

Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da UE. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 a Resolução 758, que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação da Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.

Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela e Irã). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.

O segundo componente é controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em Fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland, “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagámos para isso”. O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitima a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo midiático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em Fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?

Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando uma discrepância semelhante ou maior separa os cidadãos dos seus governos e da Comissão da UE, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?