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Charlie Hebdo: 21 líderes mundiais que marcharam em Paris que não são “amantes” da liberdade de expressão

Por Vinicius Gomes | Via Revista Fórum

Com uma série de tuítes, estudante da London School of Economics aponta a hipocrisia na “solidariedade” de diversos governos para com o ataque à redação da Charlie Hebdo, numerando 21 líderes mundiais que marcharam em Paris pela liberdade de expressão, mas que não demonstram tanto fervor em defendê-la nos seus próprios países.

Na esteira do assassinato de 12 pessoas na última quarta-feira (7) em Paris, entre elas dois policiais franceses e dez funcionários da publicação semanal satírica Charlie Hebdo, as ruas de diversas cidades francesas foram tomadas por quase 4 milhões de pessoas nesse domingo (11) que marcharam em solidariedade às vítimas e suas famílias e contra o terrorismo e pela defesa da liberdade de expressão. Em Paris, a manifestação contou com a presença de dezenas de líderes mundiais andando de braços cruzados em nome desses valores. Visualize aqui um rápido “quem-é-quem” de alguns dos que participaram.

A hipocrisia pela demonstração de solidariedade às vítimas inocentes da Charlie Hebdo poderia, por exemplo,ser apontada logo de cara com a presença do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que há menos de seis meses causou a morte de mais de duas mil pessoas em Gaza, cerca de 500 delas sendo crianças; mas como a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras escreveu, eles ficaram “estarrecidos pela presença de líderes de países onde jornalistas e blogueiros são sistematicamente perseguidos” – citando alguns como o primeiro-ministro da Turquia, os ministros de relações exteriores do Egito, da Rússia, da Argélia e dos Emirados Árabes, além do presidente do Gabão.

Porém, um estudante da London School of Economics foi mais além: Daniel Wickham postou uma série de tuítes dando nome aos bois daqueles que andavam de braços cruzados em nome da liberdade de expressão, quando em seus próprios países eles não parecem tão preocupados em defendê-la – fato esse que não pode ser classificado como nada menos do que um show de hipocrisia. Sendo que a mais flagrante foi a condenação de Raif Badawi, um blogueiro saudita, por “insultar o islã“: 10 anos de prisão e 1.000 chibatadas em público, ao longo de 20 semanas – as primeiras 50 foram dadas na sexta-feira (9), dois dias antes de o embaixador da Arábia Saudita marchar com outros defensores da liberdade de expressão.

Confira abaixo a lista de Wickham, apontando 21 líderes mundiais e fervorosos defensores da liberdade de imprensa e expressão:

1) Rei Abdullah, da Jordânia, que no ano passado sentenciou um jornalista palestino a 15 anos na prisão com trabalhos forçados

2) Primeiro-Ministro Davutoglu, da Turquia, que prende mais jornalistas do que qualquer outro país no mundo

3) Primeiro-Ministro Netanyahu, de Israel, cujas forças [armadas] mataram 7 jornalistas em Gaza no ano passado (ficando atrás apenas da Síria)

4) Ministro das Relações Exteriores Shoukry, do Egito, que além de prender jornalistas da Al Jazeera, deteve também o jornalista Shawkan por cerca de 500 dias

5) Ministro das Relações Exteriores Lavrov, da Rússia, que no ano passado prendeu um jornalista por “insultar um funcionário do governo”

6) Ministro das Relações Exteriores Lamamra, da Argélia, que prendeu o jornalista Abdessami Abdelhai por 15 meses sem julgamento

7) Ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes, que em 2013, manteve um jornalista incomunicável durante um mês

8) Primeiro-Ministro Jomaa, da Tunísia, que recentemente prendeu o blogueiro Yassine Ayan por 3 anos, por ter “difamado o exército”

9) Os primeiro-ministros da Georgia e Bulgária, ambos países que têm um histórico de atacar e bater em jornalistas

10) O Procurador-Geral dos EUA, cuja polícia em Ferguson recentemente deteve e agrediu repórteres do Washington Post

11) Primeiro-Ministro Samaras, da Grécia, cuja tropa de choque agrediu e feriu dois jornalistas em um protesto em junho do ano passado

12) Secretário-Geral da Otan, que ainda precisa ser responsabilizada pelo bombardeio e assassinato deliberado de 16 jornalistas sérvios em 1999

13) Presidente Keita, do Mali, onde jornalistas são expulsos por cobrirem abusos aos direitos humanos

14) Ministro das Relações Exteriores de Bahrein, segundo maior país que prende jornalistas no mundo (e também os torturam)

15) Xeique Mohamed Ben Hamad Ben Khalifa Al Thani, do Qatar, que condenou um homem por 15 anos por escrever o “Poema do Jasmim” – que criticava os governos do Golfo Pérsico no pós-Primavera Árabe

16) Presidente Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, que prendeu diversos jornalistas em 2013 por “insultá-lo” no Facebook

17) Primeiro-Ministro Cerar, da Eslovênia, que condenou um blogueiro a seis meses de prisão por “difamação”, em 2013

18) Primeiro-Ministro Enda Kenny, da Irlanda, onde “blasfêmia” é considerado um crime

19) Primeiro-Ministro Kopacz, da Polônia, que invadiu a redação de uma revista para apreender gravações que comprometiam o partido do governo

20) Primeiro-Ministro Cameron, do Reino Unido, onde as autoridades ordenaram a destruição dos documentos de Edward Snowden obtidos pelo The Guardian e os ameaçaram de processo

21) Embaixador da Arábia Saudita na França. Os sauditas açoitado publicamente o blogueiro Raif Badawi por “insultar o islã”

Petrobras abre licitação para grupos estrangeiros

Via Brasil 247

Estatal procura fornecedores de fora do país para substituir os 23 grupos citados na operação Lava Jato, envolvidos no esquema do doleiro Alberto Youssef; companhia dirigida por Graça Foster já abriu licitação para substituir contrato da Iesa Óleo e Gás de US$ 720 milhões, para a construção de 24 módulos de compressão de gás para seis plataformas flutuantes do pré-sal.

Diante das investigações da operação Lava Jato, que apontou o envolvimento de empreiteiras no esquema fraudulento do doleiro Alberto Youssef, a Petrobras já procura fornecedores estrangeiros para substituir contratos com 23 grupos sob suspeita.

Segundo reportagem de André Ramalho, a estatal comandada por Graça Foster abriu licitação para recontratar os serviços de construção dos módulos de compressão de gás antes contratados da Iesa Óleo e Gás. Negociado a US$ 720 milhões, o grupo deveria construir 24 módulos de compressão de gás para seis plataformas flutuantes do pré-sal, mas não cumpriu o acordo.

Nos próximos meses, a companhia também deverá recontratar as obras de construção e montagem de uma unidade de fertilizantes em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul.

França: Suicida-se um dos policiais responsáveis pela investigação do ataque a Charlie Hebdo

Via RT

REUTERS/Christian Hartmann

Um policial francês envolvido na investigação do ataque contra a sede da revista Charlie Hebdo em Paris suicidou-se na madrugada desta quinta-feira, informam os veículos locais.

O subdiretor da polícia judiciária de Limoges, de 44 anos de idade, usou da arma de serviço para acabar com a própria vida.

Segundo o diário Le Populaire du Centre, ele trabalhou na missão de investigação do caso Charlie Hebdo, da polícia judiciária.

Até o momento não é sabido se há vínculos entre a investigação do massacre e a causa do suicídio.

Não obstante, a notícia sacudiu a polícia de Limoges, do sudoeste da França, que há pouco mais de um ano, em novembro de 2013, perdeu o oficial que estava no mesmo cargo, que também se suicidou em circunstâncias estranhas.

Tradução: Rennan Martins

Petrobras torna-se maior produtora de petróleo entre empresas de capital aberto

Por Marta Nogueira | Via Reuters

Rio de Janeiro – A Petrobras tornou-se a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto no mundo, após superar a norte-americana ExxonMobil no terceiro trimestre de 2014, informou a petroleira estatal nesta quinta-feira.

A ExxonMobil produziu 2,065 milhões de barris de petróleo por dia (bpd) no terceiro trimestre, segundo o balanço da companhia, enquanto a Petrobras produziu 2,209 milhões de barris/dia no mesmo período.

Quando somadas as produções de óleo e gás, a Petrobras ainda ocupa a quarta posição no ranking, ponderou a estatal.

A notícia positiva acontece em um momento em que o preço do petróleo atingiu mínima de diversos anos no mercado internacional, reduzindo a receita com a venda do produto no exterior, enquanto a companhia ainda é alvo de acusações de envolvimento em esquemas de desvio de dinheiro.

Apesar do cenário ruim, que tem feito as ações da Petrobras sofrerem na bolsa, a empresa comemora um bom momento de resultados operacionais, após diversos atrasos na entrada em operação de plataformas.

De acordo com a petroleira, ela também foi a empresa que mais aumentou a sua produção de óleo, tanto em termos percentuais quanto absolutos, em 2014 até setembro.

“Nos nove primeiros meses de 2014, a Petrobras e a ConocoPhillips foram as únicas empresas de capital aberto que registraram aumento de produção de petróleo”, afirmou a estatal. “No caso da Petrobras, esse aumento foi de 3,3 por cento e, da Conoco, de 0,4 por cento.”

A Petrobras destacou ainda que bateu novo recorde de produção, de 2,286 mil bpd de óleo, em 21 de dezembro, e frisou que atingiu no pré-sal do Brasil, junto com outras petroleiras, o recorde de 700 mil bpd em 16 de dezembro.

Segundo a companhia, em 2014 foram adicionados 500 mil bpd de capacidade, com a entrada em operação de quatro novas unidades de produção.

“Esse volume será gradativamente incorporado à produção, garantindo que em 2015 a empresa continue aumentando a produção de óleo e gás”, afirmou.

Entretanto, a P-61, uma das plataformas programadas para o ano passado, que inicialmente entraria em operação em 2013 no campo de Papa-Terra, na Bacia de Campos, não havia começado a produzir até o final de dezembro.

O crescimento na produção em 2014, após pesados investimentos nos últimos anos, ocorreu depois de dois anos de recuo na extração no Brasil.

Em sua última previsão, a estatal previu elevar a produção de petróleo no país entre 5,5 e 6 por cento em 2014, abaixo da meta de 7,5 por cento traçada inicialmente no ano passado, em meio a atrasos na entrega de equipamentos.

A empresa ainda não divulgou a produção fechada de dezembro.

Charlie Hebdo e a moral dupla do Ocidente

Por Rennan Martins | Vila Velha, 09/01/2015

A França e o mundo assistiram em choque o ataque de extremistas à redação do semanário satírico Charlie Hebdo. Armados de fuzis AK-47, dois homens que o governo francês alega serem franco argelinos invadiram a sede da publicação por volta das 11:30 locais e assassinaram oito jornalistas, dois policiais, um visitante e um transeunte que se encontrava nas imediações do prédio.

No momento que traço estas linhas a imprensa corporativa dá ampla cobertura ao cerco que a polícia francesa fez a fábrica onde dizem estar os suspeitos com reféns. A ostensiva busca realizada nas horas subsequentes mobilizou 88.000 homens das forças de segurança.

Conhecida por um humor corrosivo e politicamente incorreto, Charlie Hebdo possui cerca de três décadas de história na qual publicou charges que atingem e por vezes ofendem a diversos setores da sociedade. Apesar de ligada à extrema-esquerda, a revista muitas vezes se alinhou a pura intolerância em desenhos islamofóbicos e anti-minorias.

Independente do quão desrespeitosos e ofensivos eram os cartoons, é fundamental deixar claro que este atentado é injustificável, monstruoso e que só alimenta ainda mais a violência. Essencial também é lembrar que o terrorismo islâmico mata sobretudo os próprios muçulmanos. Em entrevista à Revista Fórum, o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, explana:

“No ano passado, foram 18 mil pessoas mortas no mundo por atentados terroristas – são dados oficiais. Quantas pessoas morreram na Europa? Nenhuma. Quantos atos terroristas foram praticados por islâmicos na Europa? Nenhum. Houve vários atentados terroristas na Europa, classificados oficialmente como terrorismo, a grande maioria atribuída a grupos separatistas, e nenhum islâmico. Há um exagero da ameaça islâmica. Há muito preconceito e pouca informação.”

Preocupante, no entanto, é a postura das lideranças ocidentais e a narrativa promovida pela imprensa hegemônica. A abordagem das autoridades e dos veículos evidencia o quão hipócrita e circunstancial é a moral em voga.

Todo o teatro teve reinício e mais uma vez se fala nos EUA e aliados como baluartes da democracia e justiça, restando ao “mundo islâmico” o papel de povo que inveja nossas “liberdades”. A Globo News gasta longos minutos falando de controle de fronteiras, fazendo o jogo fácil de colar na testa do estrangeiro a alcunha de mal. Ora, os suspeitos Chérif e Said Kouachi nasceram na França, são apenas descendentes de árabes. No que o recrudescimento da fiscalização auxiliaria?

É preciso evidenciar os dois pesos e medidas com que a OTAN trata o terrorismo, o uso político que fazem do fenômeno. A população tem o direito de saber que o ocidente tem parte e alimenta o terror quando este convém a seus objetivos geopolíticos.

A Al Qaeda era insignificante até serem financiados e treinados, ainda nos anos 80, pela inteligência norte-americana. Enquanto as ações do talibã serviam aos interesses de desestabilizar o arquirrival, à época a URSS, Bin Laden era retratado como guerreiro da liberdade.

A grande mídia não é exemplo de independência, pratica autocensura e até mesmo espalha mentiras quando estas servem ao Poder. Não nos esqueçamos que a Guerra no Iraque foi legitimada por diversos boatos sobre inexistentes armas de destruição em massa amplamente veiculados por nossos “jornalistas”. Esta intervenção vitimou mais de 110.000 civis.

O Estado Islâmico ganhou poderio e atualmente se consolida, mas somente teve condições para isso após os EUA e as monarquias sunitas locais os financiarem largamente no intuito de que a desestabilização promovida gerasse dividendos geopolíticos e econômicos. O EI só foi alçado a condição de “ameaça a civilização” após passarem a atuar em regiões inconvenientes.

No mesmo dia do ataque à Charlie Hebdo, a Agência Efe informa que os jihadistas do Boko Haram mataram centenas de pessoas na cidade de Baga, nordeste da Nigéria. Onde estão o repúdio e horror das autoridades? As vítimas nigerianas são de menor valor?

A sociedade civil precisa abrir os olhos e se mobilizar para impedir que esse atentado seja instrumentalizado pela extrema-direita, que já se movimenta para avançar na agenda bélica e xenófoba. Como diz o brilhante professor Chomsky, a melhor forma do ocidente combater o terrorismo é deixando de promovê-lo.

Ataque contra ‘Charlie Hebdo’: O maior perigo é a islamofobia

Por Santiago Alba Rico | Via Esquerda.net

O atentado fascista em Paris contra a redação do semanário ‘Charlie Hebdo’, que tirou a vida a 12 pessoas, deixa uma dupla ou tripla sensação de horror. O horror da própria matança, o horror pelo facto de as vítimas se dedicarem a escrever e desenhar, mas há um terceiro elemento de horror: a islamofobia.

O atentado fascista em Paris contra a redação do semanário Charlie Hebdo, que tirou a vida a 12 pessoas, entre elas aos quatro desenhadores Charb, Cabu, Wolinsky e Tignous, deixa uma dupla ou tripla sensação de horror, pois é agravada por uma espécie de eco amargo e sujo e por uma sombra de ameaça iminente e geral. O horror está sem dúvida na própria matança por parte de assassinos que, independentemente dos seus motivos ideológicos, se colocaram a si próprios à margem de qualquer ética comum e por isso mesmo fora de qualquer quadro religioso, no seu sentido mais estrito e preciso.

O horror está também no facto de as suas vítimas se dedicarem a escrever e a desenhar. Não é que alguém não possa fazer dano escrevendo e desenhando – em seguida falaremos disto -; é que escrever e desenhar são tarefas que uma longa tradição histórica partilhada situa no extremo oposto da violência; trata-se além do mais da sátira e do humor, ninguém parece mais protegido que aquele que nos faz rir. Em termos humanos, é sempre mais grave matar um bobo que um rei porque o bobo diz o que todos queremos ouvir – mesmo que seja irrelevante ou até hiperbólico – enquanto os reis só falam de si próprios e do seu poder. Aquele que mata um humorista, a quem encomendámos falar livre e abertamente, mata a própria humanidade. Também por isso os assassinos de Paris são fascistas. Só os fascistas matam humoristas. Só os fascistas acham que há objetos não hilariantes ou não ridicularizáveis. Só os fascistas matam para impor a seriedade.

Mas há um terceiro elemento de horror que tem que ver menos com o ato do que com as suas consequências. Confesso que, agora, é o que me dá mais medo. E é urgente advertir sobre o que está em jogo. Urgente não é impedir um crime que já não podemos impedir; nem tão pouco condenar os assassinos. Isso é normal e decente, mas não urgente. Também não é, certamente, espumar contra o islão, pelo contrário. Verdadeiramente urgente é alertar contra a islamofobia, precisamente para evitar o que os assassinos querem – e estão já a conseguir – provocar: a identificação ontológica entre o islão e o fascismo criminoso. A grande eficácia da violência extrema tem a ver com o facto de que apaga o passado, o qual não pode ser evocado sem justificar de alguma maneira o crime; tem que ver com o facto de que a violência é atualidade pura, e a atualidade pura está sempre grávida do pior futuro que se possa imaginar. Os assassinos de Paris sabiam muito bem em que contexto estavam a perpetrar a sua infâmia e que efeitos iam provocar.

O problema do fascismo e da sua violência atualizadora é que se trata sempre de uma resposta. O fascismo está sempre a responder; todo o fascismo se alimenta da sua legitimação reativa num quadro social e ideológico em que tudo é resposta e tudo é, por tanto, fascismo. O contexto europeu (pensemos na Alemanha anti-islâmica destes dias) é o de um fascismo crescente. Em França concretamente este fascismo branco e laico tem alguns defensores intelectuais de muito prestígio que, à sombra da Frente Nacional de Le Pen, vão aquecendo o ambiente a partir de púlpitos privilegiados com base no pressuposto, enunciado com falso empirismo e autoridade mediática, de que o próprio islão é um perigo para a França.

Pensemos, por exemplo, na última novela do grande escritor Houellebecq, Submissão (tradução literal do termo árabe “islão”), em que um partido islamista ganha à Frente Nacional as eleições de 2021 e impõe a “charia” na pátria das Luzes. Ou pensemos no grande sucesso das obras do ultradireitista Renaud Camus e do jornalista político do diário Le Figaro Eric Zemour. O primeiro é autor de “Le grand remplacement” (“A grande substituição”), onde se sustenta a tese de que o povo francês está a ser “substituído” por outro, neste caso – obviamente – composto de muçulmanos estranhos à história de França. O segundo, por sua vez, escreveu “O suicídio francês”, um grande sucesso de vendas que reabilita o general Pétain e descreve a decadência do Estado-Nação, ameaçado pela traição das elites e pela imigração. Há uns dias no Le Monde, o escritor Edwy Plenel referia-se a estas obras como depositárias de uma “ideologia assassina” que “está a preparar a França e a Europa para uma guerra”: uma guerra civil, disse ele, “da França e da Europa contra elas próprias, contra uma parte dos seus povos, contra esses homens, essas mulheres, essas crianças que vivem e trabalham aqui e que, através das armas do preconceito e da ignorância, foram previamente construídos como estrangeiros devido ao seu nascimento, à sua aparência ou às suas crenças”.

Este é o fascismo que já estava presente em França e que agora “reage” – puro presente – face à “reação” – pura atualidade assassina – dos islamistas fascistas de Paris. Dá muito medo pensar que às sete da tarde, enquanto escrevo estas linhas, o trending topic mundial no twitter, depois do tranquilizador e emocionante “eu sou Charlie”, é o terrível “matar todos os muçulmanos”. A islamofobia tem tanto fundamento empírico – nem mais nem menos – que o islamismo jihadista; os dois, efetivamente, são fascismos reativos que se ativam reciprocamente, incapazes de fazer essas distinções que caracterizam a ética, a civilização e o direito: entre crianças e adultos, entre civis e militares, entre bobos e reis, entre indivíduos e comunidades. “Matem todos os infiéis” é contestado e precedido por “matem todos os muçulmanos”.

Mas há uma diferença. Enquanto se exige a todos os muçulmanos do mundo que condenem a atrocidade de Paris e todos os dirigentes políticos e religiosos do mundo muçulmano condenam sem exceção o ocorrido, o “matem todos os muçulmanos” é justificado de algum modo por intelectuais e políticos que legitimam com a sua autoridade institucional e mediática a criminalização de cinco milhões de franceses muçulmanos (e de milhões mais em toda a Europa). Essa é a diferença – sabemo-lo historicamente – entre o totalitarismo e o delírio marginal: que o totalitarismo é delírio naturalizado, institucionalizado, partilhado ao mesmo tempo pela sociedade e pelo poder. Se recordarmos além disso que a maior parte das vítimas do fascismo jihadista no mundo são também muçulmanas – e não ocidentais -, deveríamos talvez medir melhor o nosso sentido da responsabilidade e da solidariedade. Entalados entre dois fascismos reativos, os perdedores serão os de sempre: os imigrantes, os esquerdistas, os humoristas, as populações dos países colonizados. Uma das vítimas dos islamistas, aliás, era polícia, chamava-se Ahmed Mrabet e era muçulmano.

Do jihadismo fascista não espero senão fanatismo, violência e morte. Repugna-me, mas dá-me menos medo que a reação que precede – valha o paradoxo einsteiniano – os seus crimes. O “matem todos os muçulmanos” está de algum modo justificado pelos intelectuais que “preparam a guerra civil europeia” e pelos próprios políticos que respondem aos crimes com discursos populistas religiosos laicos. Quando Hollande e Sarkozy falam de “um atentado aos valores sagrados da França” para se referirem à liberdade de expressão, estão a raciocinar do mesmo modo que os assassinos dos redatores do Charlie Hebdo. Não aceito que um francês me diga que defender os valores da França implica necessariamente defender a liberdade de expressão. Por muito laica que se pretenda, essa lógica é sempre religiosa. Não há que defender a França; há que defender a liberdade de expressão. Porque defender os valores da França é talvez defender a revolução francesa, mas também o Termidor; é defender a Comuna, mas também os fuzilamentos de Thiers; é defender Zola, mas também o tribunal que condenou Dreyfus; é defender Simone Weil e René Char, mas também o colaboracionismo de Vichy; é defender Sartre, mas também as torturas da OAS e o genocídio colonial; é defender o maio de 68, mas também os bombardeamentos de Argel, Damasco, Indochina e mais recentemente Líbia e Mali. É defender agora, face ao fascismo islamista, a igualdade perante a lei, a democracia, a liberdade de expressão, a tolerância e a ética, mas também defender a destruição de tudo isso em nome dos valores da França.

Dá muito medo ouvir falar de “os valores da França”, “da grandeza de França”, de “a defesa da França”. Ou defendemos a liberdade de expressão ou defendemos os valores da França. Defender a liberdade de expressão – e a igualdade, a fraternidade e a liberdade – é defender a humanidade inteira, viva onde viver e acredite no deus que acreditar. A frase “os valores da França” pronunciada por Le Pen, Hollande, Sarkozy ou Renaud Camus não se distingue em nada da frase “os valores do islão” pronunciada por Abu Bakr Al-Baghdadi. É na realidade o mesmo discurso frente a frente, legitimado pela sua própria reação assassina, que bombardeia inocentes num lado e metralha inocentes no outro. Perdem os de sempre, os que perdem quando dois fascismos não deixam no meio o mais pequeno resquício para o direito, a ética e a democracia: os de baixo, os do lado, os pequenos, os sensatos. Disso sabemos muito na Europa, cujos grandes “valores” produziram o colonialismo, o nazismo, o estalinismo, o sionismo e o bombardeamento humanitário.

2015 começa mal. Em 1953, “refugiado” em França, o grande escritor negro Richard Wright escrevia contra o fascismo, dizendo que “temia que as instituições democráticas e abertas não fossem mais que um intervalo sentimental que precedesse o estabelecimento de regimes inclusive mais bárbaros, absolutistas e pospolíticos”. Proteger-nos do fascismo islamista é proteger as nossas instituições abertas e democráticas – ou o que ficar delas – do fascismo europeu. A islamofobia fascista, na Europa e nas “colónias”, é a grande fábrica de islamistas fascistas, tanto uma como o outro são incompatíveis com o direito e a democracia, os únicos princípios – que não “valores” – que poderão ainda salvar-nos. Boa parte das nossas elites políticas e intelectuais estão muito mais interessadas no contrário.

Descansem em paz os nossos alegres e valentes companheiros humoristas do Charlie Hebdo. E que ninguém em seu nome levante a mão contra um muçulmano nem contra o direito e a ética comuns. Essa sim seria a verdadeira vitória dos fascismos dos dois lados.

Artigo de Santiago Alba Rico, publicado em diagonalperiódico.net em 8 de janeiro de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net.

A diferença entre as reservas cambiais brasileiras e o fundo soberano da Noruega

Por Paulo César Ribeiro Lima

Inicialmente é importante esclarecer que a Noruega arrecada muito e aplica bem as rendas petrolíferas; o Brasil arrecada pouco, distribui pessimamente e aplica mal essas rendas.

O fundo soberano norueguês é alto porque cerca de 75% do faturamento bruto por barril é do Estado. Em 2011, o faturamento bruto decorrente da produção de petróleo e gás na Noruega foi muito próximo do ocorrido no Brasil, cerca de R$ 150 bilhões. Assim, cerca de R$ 112 bilhões foram para o fundo soberano. Registre-se, ainda, que o Estado norueguês é investidor e exportador. Coisas impensáveis no Brasil.

Mas não é só na Noruega, que esse percentual é alto. Ele é alto em todos os países exportadores: países árabes, Rússia, Bolívia, Equador, Venezuela, Angola etc. Na Arábia Saudita, 100% do faturamento é do Estado, pois existe o monopólio estatal, exercido pela Aramco. Ressalte-se que, no mundo, os monopólios são exercidos por empresas públicas, como a Aramco. No Brasil, até o governo do PSDB, a Petrobras, com ações em bolsa, foi uma exceção, apesar de muito bem sucedida. No entanto, o correto, conceitualmente, é que qualquer monopólio seja exercido por uma empresa pública (100% do Estado).

O Brasil, assim como a Noruega, teve um faturamento bruto de cerca de R$ 150 bilhões na área de E&P em 2011, mas a arrecadação do Estado brasileiro foi metade da arrecadação do Estado norueguês, cerca de R$ 56 bilhões, que foram destinados, principalmente, para poucos Estados e Municípios e para superávit da União. A maior parte do faturamento bruto foi para a Petrobras e empresas privadas, inclusive para as prestadoras de serviços de engenharia e obras.

Enquanto o fundo soberano da Noruega é constituído por rendas estatais, principalmente do setor de petróleo e gás, no Brasil as reservas cambiais brasileiras foram constituídas, principalmente, por exportações de empresas privadas, com destaque para as mercadorias agrícolas e minério de ferro.

Na Noruega, os dólares das exportações são depositados pelo Estado no fundo soberano e não entram no “mercado de dólar”. Dessa forma, a coroa norueguesa é pouco afetada pelas exportações de petróleo e gás. No Brasil, as exportações das empresas entram no “mercado de dólar” e afetam a taxa de câmbio. A apreciação do Real foi decorrente dessas exportações de empresas, além de outras, como arbitragem em razão da alta taxa de juros no Brasil, excesso de liquidez, principalmente pelos baixos juros nos Estados Unidos, etc.

Com a desvalorização das mercadorias exportadas e com o aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, pode haver uma forte apreciação do Dólar no Brasil. Com o ciclo do Pré-Sal, essa apreciação pode vir a ser amenizada no futuro. Assim, o Brasil vai vivendo de ciclo em ciclo: cana, café, soja, minério de ferro e, possivelmente, petróleo etc. Nossas riquezas, contudo, vão se acabando, sem que se resolvam problemas básicos do País, como educação e saúde.

Um governo coerente transformaria o Pré-Sal, principalmente, em Centros Integrados de Educação Pública – Cieps. Infelizmente, isso não vai ocorrer.

Paulo César Ribeiro Lima é consultor legislativo da Câmara dos Deputados.