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Petróleo: mercado arde e as petrolíferas conspiram

Por Najar Tubino | Via Carta Maior

Rússia, Irã e Venezuela são os mais afetados hoje, mas se a indústria do xisto não paga os empréstimos aos bancos, está formada a crise mundial.

Trata-se de uma trama para jogar a humanidade cada vez mais no buraco. É um jogo extremamente perigoso, mas que faz parte da indústria petrolífera mundial, desde que furaram o primeiro poço na Pensilvânia no século XIX. Primeiro ponto: até a década de 1950 as chamadas Sete Irmãs – Exxon, Mobil, Shell, BP, Chevron, Texaco e Gulf Oil – detinham 55% da produção mundial. Com exceção da Shell, anglo-holandesa, as outras são petrolíferas nascidas nos Estados Unidos, na verdade quase todas descendentes do primeiro truste do mundo montado por John Rockfeller. Hoje são quatro “majors” e elas detêm 10% da produção e 5% das reservas mundiais. Os dados são do professor da Escola Politécnica da UFRJ, Marcelo Marinho Simas, que também integra o corpo técnico da Petrobras.

O trabalho elaborado por ele chamado “O Novo Papel das National Oil Companies” cita as maiores consultorias do setor, como a Accenture e a PFC Energy que mostram a nacionalização das reservas petrolíferas mundiais – 77% das reservas de petróleo e 51% das reservas de gás. Até a década de 1970, antes do embargo dos árabes de 1973, as Sete irmãs nadavam de braçada, faziam o que queriam no Oriente Médio, no Golfo Pérsico, era a “bandeira na frente e os negócios”, como diziam os executivos. O trânsito era livre, porque mesmo pagando apenas 50% dos contratos aos governos ou monarquias locais, as corporações manipulavam a tecnologia. Apenas em 1976, que os sauditas assumiram o controle da Aramco, uma petrolífera montada com quatro sócios estadunidenses. Conforme relato do livro de Daniel Yerguin – Petróleo, um dossiê de quase mil páginas.

Corporações precisam de reservas

Então as corporações precisam de novas reservas. Claro que tiveram que investir nas areias de piche de Alberta, no Canadá, no xisto betuminoso de Dakota do Norte e do Texas, e em águas profundas na África, no sudeste asiático e no Brasil. Em setembro do ano passado, um relatório da Agência de Informações de Energia dos Estados Unidos criticava a posição do Brasil por nomear a Petrobras como única operadora do pré-sal, com exigências de 60% local nos conteúdos dos equipamentos. “as operadoras reclamam para si o direito de operarem no pré-sal”, registra uma matéria do Brasil Econômico de setembro de 2014.

Como diz o professor Marcelo Simas as “IOCs” – International Oil Companies – precisam redefinir seu papel no mercado mundial, ou se tornarão prestadoras de serviços de alta tecnologia para as companhias nacionais. É preciso esclarecer que o negócio do petróleo rende lucros altos em dois segmentos: exploração (extração) e na produção, que os técnicos chamam de “upstream”. O restante, refino, comercialização, distribuição e varejo chamado de dowstream, o retorno é baixo. A vantagem da Arábia Saudita está neste fato: custo de produção de no máximo 10 dólares por barril, enquanto um barril do xisto custa entre 50 e 70 dólares e das areias de piche (betuminosas) entre 70 e 90 dólares. No caso do pré-sal, ou exploração em águas profundas, o custo é de 60 a 80 dólares.

Estados Unidos inflaram reservas de xisto

Porque o mercado arde? Esta semana a cotação do barril Brent fechou abaixo dos 50 dólares. O economista francês Jacques Safir, diretor de pesquisa da Escola Superior de Ciências Sociais, diz que a rentabilidade da indústria do xisto nos Estados Unidos começa quando a cotação do petróleo atinge 80 dólares. Também é conhecido o fato de que pelo menos 50% das empresas que exploram xisto nos Estados Unidos são independentes. Lá basta ter uma terra e algo embaixo, que está liberado. Fura, cava o poço e o resto vai pro beleléu, inclusive a concorrência. O cálculo varia, mas está entre 4 e 6 milhões de poços exploratórios de xisto, uma indústria que alavancou a economia estadunidense injetando 800 bilhões nos últimos cinco anos. Porém, a exploração depende de financiamento dos bancos. E aí o negócio complica. Segundo o analista da Casey Research, Marin Katusa, desde 2008 o mercado corporativo do xisto aumentou sua dívida corporativa em US$150 bilhões.

“- Com 45 dólares o barril não é possível refinanciar a dívida, isso é uma má notícia para a indústria do xisto”, diz ele, numa nota publicada na Voz da Rússia, no final de 2014.

Ainda em dezembro as notícias para a indústria do xisto, que os estadunidenses consideram a revolução da energia barata e ao mesmo tempo quase a autossuficiência – os cálculos são de produção de 40% da produção de gás nos próximos 20 anos – pioraram. Na edição da Revista Nature de dezembro, um estudo da Universidade do Texas apontava para uma redução das reservas do país. Simplesmente, o estudo desmente a versão otimista do xisto, com base na análise das quatro maiores reservas. Os pesquisadores da área de petróleo sabem muito bem que a produção do xisto decai muito rapidamente depois da primeira leva de óleo retirada. Cai pela metade. Ou seja, os pesquisadores da Universidade do Texas estão dizendo que em 2030 os Estados terão metade dos 18 bilhões de metros cúbicos, total das reservas divulgados oficialmente.

Risco iminente – a indústria do xisto não pagar empréstimos

As corporações petrolíferas não gostam de concorrentes. Quando uma empresa quis construir um oleoduto na Pensilvânia para tirar o monopólio da Standard Oil, de John Rockfeller, ele mandava jogar água fervendo nos trabalhadores que escavavam o oleoduto, das locomotivas que margeavam a construção. Ou seja, quebrar as pequenas concorrentes do gás de xisto, que certamente serão incorporadas logo em seguida, faz parte do jogo. Os sauditas também não gostam da concorrência do xisto, mas mesmo assim comunicaram aos russos, que a política de queda de preços vai continuar. A Rússia depende 97% do petróleo e gás para movimentar sua economia. Produz 10 milhões de toneladas de petróleo por dia e tem a maior reserva do gás do mundo – 45 trilhões de metros cúbicos. Os dois prejudicados, em seguida, são Irã e Venezuela. Se a indústria do xisto não paga os empréstimos aos bancos está formada a crise mundial. A oferta de petróleo aumenta, os preços continuam desabando. Nunca esquecendo: as petrolíferas também compram petróleo quando o preço está muito baixo. E se houver instabilidade nos países produtores, que possuem grandes reservas, quando alguns setores internos começam a pregar a privatização das empresas nacionais, quem ganhará? As quatro irmãs. Um trecho do trabalho do professor Marcelo Simas:

“-Nos anos 1990, com as fusões e aquisições da Exxon-Mobil, BP-Amoco, Arco, Elf-Total-Fine, Chevron-Texaco, Repsol-YPF e Conoco Philips as ‘majors’ voltaram a ganhar espaço no mercado devido à falta de tecnologia de alguns produtores para exploração de petróleo, além da exigência de abertura de mercados, desregulação e privatizações promovidas no mundo inteiro pelas ideias neoliberais de Margareth Thatcher e Ronald Reagan. As ideias foram introduzidas nos pacotes de assistência dos países em dificuldades que iam ao FMI e ao BIRD, para renegociar suas dívidas”.

Nesta época, Margareth Thatcher vendeu 51% das ações que o governo possuía na Brites Petróleo, desde que os ingleses, ainda na época de Wilson Churchill, entraram na Pérsia para explorar petróleo com a empresa então chamada Anglo Perdiam, com participação governamental. E ali permaneceram por 75 anos, incluindo o golpe que colocou o Xá Rezha Pavlevi no poder por 26 anos – até a queda em 1979.

Petróleo vai continuar dominando

Agora vamos à trama. É por demais conhecido que vivemos uma época de mudança climática e que as emissões de gás carbônico, o maior dos gases estufa, precisam ser reduzidas. Em 2012, elas atingiram 31,6 gigatoneladas. E até 2020, ou seja, daqui a cinco anos, não podem passar de 44 gigatoneladas, para que o mundo não sofra um aumento de dois graus centígrados na temperatura. São números oficiais da Agência Internacional de Energia, criada em 1974, logo após o embargo do petróleo realizado pelos árabes e que só tem 28 sócios. A mesma AIE considera que o consumo dos combustíveis fósseis precisa ser reduzido em 50% até 2050. Um número considerado irrealista pelas petrolíferas, conforme está registrado no relatório Panorama Energético Mundial, publicado há mais de 50 anos pela Exxon, a maior petrolífera do mundo, com lucro de US$40 bi em 2012.

“- O petróleo e outros combustíveis líquidos continuarão sendo a maior fonte de energia do mundo em 2040. O gás natural será o combustível com maior crescimento até 2040, com uma demanda crescente na ordem de 60%. Em 2040, 90% dos transportes globais será feito por combustíveis baseados em petróleo bruto, comparado a 95% nos dias de hoje. As emissões de CO2, relacionadas à energia global serão estabilizadas por volta de 2030, permanecendo inalteradas em 2040”.

A corporação deixa claro o seguinte: “considerar todos os aspectos da energia não é um exercício acadêmico para a ExxonMobil, porque investimos bilhões de dólares em projetos a cada ano com base nas previsões encontradas no Panorama Energético.” Vou acrescentar um adendo, agora, da Chevron:

“- O mundo já produziu um trilhão de barris de petróleo até agora e ao longo do século, cerca de dois trilhões de barris se espera sejam produzidos a partir de reservas provadas convencionais e não convencionais – xisto e areias betuminosas”.

Querem enterrar 10 bilhões de toneladas de carbono

No relatório de sustentabilidade da Shell de 2013 comecei a entender porque as petrolíferas continuarão extraindo petróleo e as emissões de CO2 serão “estabilizadas”. Muito simples: chama-se tecnologia CCS – carbon captured and storage, ou seja, captura e armazenamento do carbono no subsolo. Popularmente: enterrar a sujeira embaixo da terra, usando poços de óleo e gás vazios, aquíferos salinos embaixo do mar ou formações de leito de carvão. Mais isso não é o mais impressionante. Outro pesquisador da Escola Politécnica da UFRJ, Victor Paulo Peçanha Esteves, no trabalho intitulado “Política e regulação de captura e armazenamento geológico de carbono – desafios para o Brasil” registrou a informação: num relatório do G-8 de 2010 foram apontados que 80 projetos de CCS começam a operar entre 2015 e 2020 – 73 deles em países desenvolvidos. Entretanto, até 2050 são previstos 3.400 novos projetos de CCS, 65% em países em desenvolvimento. A Agência Internacional de Energia confirma que 15% do CO2 emitido será enterrado até 2050.

Quanto eles pretendem enterrar de CO2, eis a questão. Somente 10 bilhões de toneladas, isso mesmo, 10 gigatoneladas. O que pode acontecer com um poço de milhão de toneladas de CO2 armazenado?

“- Quando um carboduto de alta pressão sofre um vazamento, a pressão irá cair rapidamente, desprendendo uma grande quantidade de energia. Essa energia irá fazer com que o solo acima do carboduto seja ejetado causando possíveis danos materiais e de vida. A dispersão se dá em forma de uma nuvem, que se move perto da superfície. A concentração de 15% do volume em CO2 leva a perda da consciência em menos de um minuto”, explica o pesquisador da Escola Politécnica.

Canadá inaugurou projeto de CCS

Um poço pode sofrer corrosão, defeitos de material, problemas na construção, tremores de terra, inundações subterrâneas, atividades humanas no entorno. A Shell, por exemplo, queria instalar um projeto para captura de 10 milhões de toneladas da planta de gaseificação de hidrogênio na Usina de Pernis, perto de Roterdã. O CO2 seria transportado por um carboduto de 20 km e injetado em dois campos vazios a 1.852 metros, sob a cidade de Barendrecht. O projeto foi aprovado pelo governo central, pelo alto parlamento, mas a municipalidade vetou, e ele foi cancelado.

O primeiro projeto global de captura e armazenamento de carbono começou a funcionar no Canadá em outro do ano passado, na localidade de Estevan, província de Saskatchewan do Sul, numa usina termoelétrica movida a carvão com 110MW de potência. Vão capturar um milhão de toneladas por ano. Os Estados Unidos tem 1.266 usinas térmicas movidas a carvão, que é o combustível fóssil que mais emite CO2. A Noruega e o Reino Unido estão testando, desde 1996, usar um aquífero salino no Mar do Norte para enterrar carbono. Chama-se Utsira e tem capacidade para 42 gigatoneladas. O projeto pretende enterrar as emissões da Noruega, do Reino Unido e parte da Bélgica e da Alemanha.

O mercado do petróleo arde, além disso, os poderosos pretendem enterrar a sujeira explosiva, enquanto discutem as metas da Conferência do Clima em 2015.

França envia porta-aviões para o combate ao Estado Islâmico no Iraque

Por Marlene Carriço | Via Observador

O Presidente francês François Hollande prometeu ainda rever o ritmo de redução de militares fixado na lei de programação militar. AFP/Getty Images

O Presidente francês, François Hollande, anunciou esta quarta-feira que vai reforçar a operação militar contra as forças do Estado Islâmico no Iraque. E vai já enviar o porta-aviões Charles de Gaulle.

Depois dos atentados na semana passada em Paris, François Hollande anunciou esta quarta-feira que o porta-aviões Charles de Gaulle vai reforçar a operação militar francesa contra as forças do Estado Islâmico, no Iraque. Num discurso perante centenas de militares, feito a bordo do grande navio de propulsão nuclear, o chefe de Estado francês justificou a decisão com a necessidade de maior eficácia no combate aos jihadistas naquela região.

“A situação no Médio Oriente justifica a presença do Charles de Gaulle. Poderemos levar a cabo as operações no Iraque com mais intensidade e eficácia”, afirmou Hollande, citado pelo El País, acrescentando que a luta contra os terroristas deve ser levada a cabo tanto em solo francês como no exterior. “Temos de responder aos ataques lançados no interior, mas que podem ter sido comandados de muito longe, e assim foram reivindicados. Temos de conter as ameaças vindas do exterior”.

Segundo Hollande, o porta-aviões é um “instrumento de força e potência”, que mostra a “capacidade política, militar e diplomática” do país. O navio de guerra, com 40.000 toneladas e 260 metros de comprimento pode transportar 21 aviões e vários helicópteros, dará “informação valiosa” para melhorar a intervenção armada no Iraque. Nesta sua missão no Médio Oriente, o porta-aviões será acompanhado por um submarino nuclear, uma fragata e um navio de provisões.

O anúncio de Hollande ocorreu um dia depois de a Assembleia Nacional aprovar, praticamente por unanimidade, a continuação dos bombardeios franceses contra o Estado Islâmico no Iraque, iniciados em 19 de setembro. A França foi o primeiro país a unir-se aos Estados Unidos na coligação contra o Estado Islâmico no Iraque. Nessa operação participam nove caças-bombardeiros dos Emirados Árabes e seis da Jordânia, apoiados por outros aviões de reconhecimento e reabastecimento em voo, assim como por uma fragata antiaérea.

O presidente reiterou que se deve estar simultaneamente atento às ameaças que chegam do interior e do exterior, e explicou que a decisão de recorrer ao porta-aviões é tomada com o objetivo de fazer frente ao terrorismo. Hollande lamentou ainda que a comunidade internacional não tenha reagido “no momento devido” no conflito da Síria. Paris já era a favor de bombardeios contra o regime sírio, no verão de 2013 e o envio não chegou a acontecer porque Washington e Londres se recusaram a participar da operação.

Perante as Forças Armadas, Hollande prometeu ainda rever o ritmo de redução de militares fixado na lei de programação militar, que estabelece a redução de 34 mil efetivos nos próximos seis anos.

Guerra ao terror

Por Wladimir Safatle | Via Blog da Boitempo

Capa da edição de hoje, 14/01/2015, do semanário Charlie Hebdo, primeira após o atentado

Depois da semana passada, vemos a afirmação em coro de que o extremismo muçulmano é um dos maiores problemas da atualidade. Mas nem sempre o coro se dispõe a dar um passo à frente e se perguntar pelas coordenadas sociopolíticas do aparecimento de tal problema.

Ao que parece, alguns acreditam que simplesmente colocar a questão nesses termos já é ser cúmplice e não demonstrar solidariedade pelas vítimas. É querer ser racional com o irracional, relativizar o que seria motivado pelo mal radical, pelo ódio milenar contra nós e nossa liberdade, apoiar a superstição contra as luzes. Em nome de tal visão de combate que nada quer saber sobre causas pois não se interessa em mudá-las, estamos em “guerra contra o terror” há quase 15 anos.

No entanto, depois de 15 anos em guerra, não estamos mais seguros do que em 2001. O que temos são: três países invadidos (Afeganistão, Iraque e Mali), um conjunto impressionante de leis e práticas de controle que cerceiam a liberdade em nome da defesa da liberdade, um Estado Islâmico a controlar áreas de antigos países do Oriente Médio, o aumento exponencial da xenofobia e da islamofobia em países europeus e novas levas de jovens muçulmanos europeus dispostos a serem mártires do jihadismo internacional.

Ou seja, enveredar pela “guerra ao terror” é a melhor maneira de se afundar no problema. Pois qual seria o próximo passo: reforçar as fronteiras, uma nova intervenção militar? Mas para que, se os novos jihadistas são cidadãos europeus, morando nas periferias? Quem sabe então tentar concentrar os muçulmanos europeus em campos nos quais eles poderiam ser melhor controlados?

Insistiria que, se quisermos vencer o extremismo muçulmano, melhor começar por parar de reeditar teorias coloniais sobre o pretenso caráter arcaico da religião dos antigos colonizados, como se nós mesmos não tivéssemos nos acomodado aos nossos próprios arcaísmos. Pois se tem alguém que agradecerá de joelhos aqueles que usam a imprensa para falar que o islã não é compatível com a democracia (como se alguma religião realmente fosse) são os terroristas da Al Qaeda e do Estado Islâmico. É exatamente o que eles sempre falaram. Infelizmente, para propagar esta boa nova, eles tem bastantes aliados entre nós.

Não é vitimizar assassinos dementes tentar sair desta toada surda e entender o sentimento, a assombrar os descendentes de árabes vivendo na Europa, de impotência política, de exclusão econômica brutal, de não ter ninguém que os defenda de ataques racistas vindos de partidos e da vida ordinária. É a melhor maneira de tentar impedir que novos assassinos apareçam.

Washington configurou 2015 para ser um ano de conflito; esse conflito pode ser intenso

Por Paul Craig Roberts | Via Oriente Mídia

Washington é a causa do conflito que vem sendo promovido já a algum tempo. A Rússia estava muito fraca para fazer qualquer coisa a respeito de quando o governo Clinton começou a empurrar a OTAN para junto das fronteiras russas, assim como de quando ele ilegalmente atacou a Iugoslávia desmembrando o país em pedaços menores, mais fáceis a serem controlados.

A Rússia também ainda continuava muito enfraquecida para poder fazer alguma coisa de quando o governo de George W. Bush se retirou do acordo ABM, [Acordo regulamentando a quantidade e o uso dos mísseis anti-balísticos] e de quando o mesmo começou a organizar a colocação de bases militares americanas, contendo mísseis anti-balísticos, nas fronteiras russas. Washington mentiu para a Rússia dizendo que o objetivo da colocação dessas bases seria o de proteger a Europa dos não-existentes ICBMs nucleares do Irã. [ICBM sendo então um míssel intercontinental anti-balístico]

Entretanto, na Rússia compreendeu-se que o real objetivo dos Estados Unidos era o de degradar a capacidade retaliatória da Rússia, aumentando dessa maneira a capacidade de Washington para coagir o país a entrar em acordos que comprometeriam a sua soberania.

No verão de 2008 a Rússia já tinha o seu poder como que restabelecido. Por ordens de Washington o exército da Geórgia, equipado e treinado pelos Estados Unidos e Israel, atacou a separatista República da Ossécia do Sul na madrugada de 8 de agosto, matando 8 membros das forças da paz assim como pessoas da população civíl. Sectores dos militares russos reagiram imediatamente a isso e dentro de poucas horas o exército da Geórgia, treinados pelos acima mencionados, tinha sido completamente derrotado. A República da Ossécia do Sul, na Geórgia, estava novamente em mãos russas, como essa província sempre tinha estado, desde pelo menos desde os séculos 19 e 20.

Putin deveria ter deixado Mikheil Saakashvili – esse fantoche americano instalado no poder como presidente da Geórgia pela “Revolução Rosa” a qual foi instigada por Washington – ser enforcado. Entretanto, num erro estratégico, a Rússia retirou suas forças deixando o governo fantoche de Washington no lugar para causar futuros problemas para a Rússia.

Washington faz muita pressão para incorporar a Geórgia na OTAN e isso principalmente para poder pôr mais bases militares na fronteira russa. Tem-se entretanto também aqui que, na época do sucedido, Moscou via a Europa como bastante mais independente de Washington do que ela realmente era, acreditando que mantendo boas relações com a mesma iria impedir bases militares americanas a serem estabelecidas na Geórgia.

Hoje em dia o governo russo já não tem mais nenhuma ilusão quanto a Europa ser capaz de uma política exterior independente. O Presidente Vladimir Putin da Rússia declarou publicamente que a Rússia tinha compreendido que diplomacia com a Europa não fazia muito sentido, e isso porque os políticos europeus estavam representando mais os interesses de Washington do que os da Europa.

O Ministro dos Negócios e Relações Exteriores da Federação Russa, Sergei Lavrov, reconheceu recentemente que a categorização da Europa como uma entidade constituida por Nações Captivas tinha deixado claro para a Rússia que gestos de boa vontade da Rússia quanto a mesma não poderiam produzir, nessas circunstâncias, desejados efeitos diplomáticos.

Com o evaporar-se das ilusões de que diplomacia com o ocidente iria produzir soluções pacíficas, e com a realidade reafirmando-se, começou então a escalação da demonização de Vladimir Putin por Washington em conjunto com seus países vassálos. Tem-se Hillary Clinton nesse cenário até chamando Putin, de Hitler.

Enquanto Washington incorpora as ex-partes constituintes da Rússia e do império soviético no seu próprio império, e bombardeia sete outros países, Washington ao mesmo tempo vai declarando que Putin é militarmente muito agressivo, e que ele tem intenções de reconstruir o império soviético.

Washington arma o sistema neo-nazi, que Obama estabeleceu na Ucrânia, enquanto erradamente declara que Putin invadiu e anexou províncias ucranianas. Todas essas bramantes mentiras repetem-se, aos milhares, e em éco, pela mídia prostituta do ocidente. Nem mesmo Hitler teve a sua disposição uma tal complacente mídia como Washington.

Todos os esforços diplomáticos da Rússia tem sido bloqueados por Washington, acabando-se por se poder contar o resultado como zero e nada mais. Dessa maneira a Rússia foi forçada, pela realidade, a atualizar sua própria doutrina militar. A nova doutrina, aprovada em 26 de dezembro, afirma que os Estados Unidos e a OTAN constituem a principal ameaça militar para a existência da Rússia, como país independente e soberano.

O documento russo declara a doutrina de guerra de Washington – na qual a aceitação da idéia de um ataque preventivo, a colocação de mísseis anti-balísticos [ditos de defesa mas na realidade de agressão], assim como a contínua construção das forças da OTAN, e a intenção dos americanos de colocarem armas no espaço – como uma clara indicação de que Washington está se preparando para atacar a Rússia.

Washington também está a conduzir guerra político-econômica contra a Rússia, tentando destabilizar a economia russa com sanções e ataques a moeda russa, o rublo. O documento russo reconhece que a Rússia enfrenta ameaças de mudança de regime [lê-se ameaças de golpe de estado] por parte do ocidente. Esse objetivo seria então conseguido através de “ações com a finalidade de violentamente mudar a ordem constitucional russa, com a destabilização da realidade político-social, da desorganização do funcionamento das instituições governamentais, e das principais e cruciais instituições civis e militares, assim como da infraestrutura informal da Rússia.”

As organizações não governamentais estrangeiras, ONGs, e a mídia russa, que é dirigida como propriedade de estrangeiros, são instrumentos nas mãos de Washington, que usam esses instrumentos para destabilizar a Rússia.

As agressivas e irresponsáveis diretivas políticas de Washington contra a Rússia fez por ressuscitar a corrida de armamentos nucleares. A Rússia agora está desenvolvendo dois novos sistemas ICBM [de mísseis intercontinentais anti-balísticos] e em 2016 deverá colocar sistemas de armamentos designados a neutralizar os sistemas de mísseis anti-balísticos dos Estados Unidos. Em resumo, os instigadores de guerra que governam em Washington puseram o mundo a caminho do armageddon nuclear.

Tanto o governo da Rússia como o da China já compreenderam que suas respectivas existências estão sendo ameaçadas pelas ambições de hegemonia, ou seja de dominância, de Washington. Larchmonter apresentou relatórios que mostravam que, partindo do princípio de Washington ter planos para marginalizar os dois países, tanto a Rússia quanto a China decidiram-se por unificar suas economias, criando sectores de uma economia conjunta, conquanto também unificando seus comandos militares. Daqui por diante tem-se então que a Rússia e a China estarão andando conjuntamente, tanto no plano econômico como no militar.

http://www.mediafire.com/view/08rzue8ffism94t/China-Russia_Double_Helix.docx

Essa união do Urso Russo com o Dragão Chinês reduz o sonho dos conservativos americanos quanto a um “século americano” a um puro disparate. Larchmonter caracteriza isso assim: “Os Estados Unidos e a OTAN precisariam do Arcanjo Miguel para derrotar essa união Sino-Russa, mas ao que tudo indica o Arcanjo Miguel já está alinhado com o Urso Russo, e sua cultura ortodoxa. Não há armas, estratégias ou tácticas concebíveis que possam, num futuro próximo, conseguir causar maiores estragos a essas duas economias emergentes, agora que estão atuando em parceria.”

Larchmonter tem esperanças na nova geopolítica criada pela atuação conjunta da Rússia e da China. Eu não tenho nada contra essa sua conclusão, mas se os arrogantes conservativos compreenderem que as suas diretivas políticas para uma hegemonia mundial encontraram agora um inimigo que não poderão derrotar, eles irão pressionar para um ataque nuclear preventivo, antes que o comando unitário Russo-Chinês esteja operacional. Para se proteger contra um ataque à-surpresas, a Rússia e a China fariam melhor em operar em completa e total prontidão nuclear.

A economia dos Estados Unidos – na realidade a inteira ocidente-orientada economia indo do Japão a Europa – é um castelo de cartas. Desde que o declínio econômico começou, a cerca de 7 anos atrás, a inteira economia ocidental foi dirigida para o apoio de uns poucos bancos super-dimensionados, ao crédito soberano, e para o apoio do U.S. dólar. Em consequência disso as próprias economias assim como a capacidade das populações para manejar a situação foram se deteriorando.

Os mercados financeiros baseiam-se agora em contínuas manipulações e não em fundamentos sóbrios. Tem-se depois aqui que essas manipulações são insustentáveis. Com o débito explodindo os juros reais negativos não fazem sentido. Com a renda real do consumidor, assim também como o seu crédito real, e a real venda de produtos no comércio de varejo estagnados, ou em queda branta, o mercado de valores, fundos e ações, não pode ser outra coisa que uma bolha [a ser furada].

Com a Rússia e a China, assim como outros países, distanciando-se do uso do dólar no mercado internacional, e com a Rússia desenvolvendo uma alternativa rede bancária internacional SWIFT, enquanto os BRICS desenvolvem alternativas ao FMI e ao Banco Mundial, de quando outras partes do mundo desenvolvem seus próprios cartões de crédito e sistemas de Internet, o dólar americano, conjuntamente com as moedas do Japão e da Europa – que estão sendo imprimidas para sustentar o valor de câmbio do dólar – poderiam vir a experimentar uma dramática queda no mercado de câmbio, o que faria com que a economia de importação-dependente do ocidente se tornasse disfuncional.

Na minha opinião tomou muito tempo para que a Rússia e a China compreendessem a perversidade e malevolência que controla Washington. Por conseguinte, ambas estão a arriscar um ataque nuclear antes da total operacionalidade da implementação de sua defesa conjunta. Como a economia do ocidente é como um castelo de cartas, a Rússia e a China poderiam pô-la em colápso antes que os neoconservativos pudessem levar o mundo a guerra. Como a agressão de Washington contra os dois países é clara como cristal, não deixando nem sombras de dúvidas, tanto a Rússia como a China teriam todo o direito de tomar medidas defensivas.

Como os Estados Unidos estão conduzindo uma guerra financeira contra a Rússia, essa poderia reivindicar que arruinando a economia russa o ocidente a depravou da sua capacidade de pagar seus empréstimos aos bancos ocidentais. Se isso não fosse o suficiente para quebrar os fragilmente capitalizados bancos europeus, a Rússia poderia declarar que os países da OTAN – agora oficialmente reconhecidos pela nova doutrina de guerra da Rússia como inimigos do estado – tinham colocado a Rússia na situação de que ela não mais poderia apoiar a agressão da OTAN contra si, através de vender gás natural aos países membros dessa organização. Caso o fechamento de muitas das indústrias europeias, o aumento do desemprego e as quebras dos bancos não resultassem na dissolução da OTAN, e portanto ao fim das ameaças,os chineses poderiam começar a agir.

Os chineses tem um grande número de bens, valores e títulos denominados em dólares. Como os agentes da Reserva Federal [os denominados bancos de ouro ou bullion banks] inundam os futuros mercados com massivas quantidades de papéis de valor – “shorts”, em períodos de pouca atividade com a finalidade de abaixar o preço do ouro, a China poderia então inundar o mercado, em poucos minutos, com os seus papéis denominados em dólares com o equivalente a anos de flexibilização quantitativa, ou seja, massiva impressão de dólares.

Se a Reserva Federal, FED, [12 bancos particulares] rápidamente então criasse os dólares com os quais pudessem comprar essa massiva quantidade de papéis de valor da China, que no caso seriam os papéis denominados como “Treasuries” – para que o castelo de cartas deles não se desmoronasse – os chineses então poderiam inundar o mercado de divisas, mas dessa vez com os dólares que se lhes pagam pelos títulos. Conquanto a Reserva Federal pode imprimir dólares com os quais comprar os papéis denominados Treasuries, a Reserva Federal (FED) não pode imprimir moedas estrangeiras com as quais comprar os dólares.

O dólar entraria em colápso e com ele o poder do “Hegemon” – do Dominador. A guerra teria acabado sem um único tiro, ou míssel deslanchado.

Do meu ponto de vista, e nessa situação, tanto a Rússia quanto a China teriam uma obrigação moral em relação ao mundo quanto a impedir a guerra nuclear, que os conservativos que controlam as diretivas políticas dos Estados Unidos tem a intenção de deslanchar, simplesmente através de responder, a altura, a guerra econômica de Washington.

Tanto a Rússia quanto a China não deveriam dar avisos prévios. Aqui exige-se ação determinada. Agir passo a passo não seria o suficiente. A descarga deverá ser solta de vez. Com 4 U.S. bancos mantendo os papéis denominados “derivados” – os quais totalizam em muitas vezes o PIB do mundo – a explosão financeira seria equivalente a uma nuclear.

USA estaria terminado e o mundo salvo.

Larchmonter tem razão. 2015 pode ser um muito bom ano.

***

Paul Craig Roberts, “Washington Has Shaped 2015 to Be a Year of Conflict. The Conflict Could Be Intense”- Strategic Culture Foundation, 29-12-2014.

Traduzido e síntese por Anna Malm, artigospoliticos.com, para Mondialisation.ca

Prisão de Mirian França é revogada

Via Brasil de Fato

Arquivo/Facebook

Farmacêutica é acusa pela morte de italiana, em dezembro; Mobilizações contra prisão tomaram as redes sociais acusando a polícia de racismo; A carioca não poderá se ausentar do Ceará pelo prazo de 30 dias.

Após analisar informações divulgadas pela polícia, o juiz José Arnaldo dos Santos Soares, da comarca de Jijoca, de Jericoacoara (Ceará), revogou a prisão temporária da farmacêutica Mirian França, na manhã desta terça-feira (13).

Doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Instituto de Microbiologia, Mirian estava presa há 14 dias, na Delegacia de Capturas e Polinter (Decap), acusada pelo assassinato da italiana Gaia Molinari, no dia 26 de dezembro.

Primeiramente tratada como testemunha do crime, Mirian passou a ser acusada após, segundo a polícia, contradições em seu depoimento. A delegada Patrícia Bezerra pediu a prisão preventiva da carioca argumentando que o retorno de Miriam ao Rio de Janeiro “inviabilizaria a continuidade das investigações”.

Redes Sociais

As mobilizações contra a prisão da farmacêutica tomaram as redes sociais. Na última sexta-feira (9), por exemplo, diversos movimentos lançaram uma nota pública pedindo sua liberdade e acusando a polícia de fazer julgamento antecipado de Miriam por ela ser negra. “A prisão de Miriam fere o Princípio Constitucional da presunção de inocência (art. 5º, LVII, CF)”, afirma a nota.

Também na sexta-feira (9), cerca de 30 pessoas protestaram na frente da delegacia. Em entrevista ao G1, a assistente social e integrante do Instituto Negra do Ceará e do Fórum Cearense de Mulheres, Francisca Sena, disse que Miriam sofre de racismo. “Existem outras suspeitas, as outras pessoas não estão presas. Há um racismo institucional praticado pela polícia de um modo geral”.

De acordo com a decisão, a farmacêutica não poderá se ausentar do Ceará pelo prazo de 30 dias.

Como Barack Obama pode pôr fim às sanções econômicas contra Cuba

Por Salim Lamrani | Via Opera Mundi

Embargo econômico atinge não somente comércio, mas também área da saúde em Cuba. Efe

Desde 1996, o Congresso dos Estados Unidos é o único que pode eliminar o estado de sítio contra Cuba; mas o presidente Obama pode obrigá-lo a fazer isso…

Desde a adoção a lei Helms-Burton, em 1996 — uma aberração jurídica por seu caráter extraterritorial e retroativo, que agrava as sanções econômicas contra a população cubana — o Presidente dos Estados Unidos já não dispõe da faculdade executiva para pôr fim ao estado de sítio econômico anacrônico, cruel e contraproducente — segundo as palavras do próprio Barack Obama. De fato, só o Congresso pode acabar com uma política hostil condenada pela imensa maioria da comunidade internacional, pela opinião pública estadunidense, pela comunidade cubana da Flórida e, sobretudo, pelo mundo dos negócios dos Estados Unidos.

A Câmara de Comércio dos Estados Unidos, que representa o mundo dos negócios e cerca de três milhões de empresas, pediu aos responsáveis políticos, tanto ao governo como ao Congresso, que adotassem uma nova política em relação a Havana. Segundo seu presidente, Thomas Donohue, “é tempo de eliminar as barreiras políticas que foram estabelecidas há muito tempo e apagar nossas diferenças. Isso é do interesse do povo americano e das empresas americanas”.

Em seu discurso histórico, de 17 de dezembro de 2014, no qual anunciou o restabelecimento das relações com Cuba depois de mais de meio século de ruptura, o presidente estadunidense chamou o Congresso a optar por um novo enfoque em relação a Havana. “Peço que o Congresso abra um debate sério e honesto sobre o cancelamento do embargo”, declarou Obama.

Na realidade, o presidente Obama dispõe de uma forma bastante simples de acelerar o fim do estado de sítio econômico que afeta todas as categorias e todos os setores da sociedade cubana e que constitui o principal obstáculo para o desenvolvimento da ilha. Basta permitir que os cidadãos estadunidenses viagem para Cuba como turistas ordinários. Atualmente, os cidadãos dos Estados Unidos podem viajar para qualquer país do mundo, inclusive para a China, o Vietnã ou a Coreia do Norte, mas seu governo não lhes permite ainda que descubram a ilha do Caribe.

Ao romper essa barreira que separa os dois povos, Barack Obama permitiria, segundo as estimativas, que mais de um milhão de turistas estadunidenses viajassem a Cuba pela primeira vez. Essa cifra superaria os cinco milhões de pessoas anuais ao cabo de 5 anos, já que Cuba é um destino natural por razões históricas e geográficas evidentes. Assim, se abriria um imenso mercado para as companhias aéreas estadunidenses, para a indústria do transporte ou as agências de viagens, sem falar nos demais setores vinculados ao turismo massivo. Hoje, somente 90 mil cidadãos estadunidenses — fora os cubano-americanos — visitam Cuba todo ano por razões profissionais, acadêmicas, culturais, humanitárias ou esportivas, dentro das licenças concedidas pelo Departamento de Estado.

O fluxo massivo de turistas para Cuba seria benéfico para a economia cubana, cujos recursos dependem, em grande parte, desse setor, mas também para a economia estadunidense. De fato, os produtores agrícolas estadunidenses seriam também grandes ganhadores de um recomeço do turismo entre ambas as nações e seria solicitado para alimentar os milhões de novos visitantes, já que Cuba importa a maior parte de suas matérias-primas alimentícias. Com a autorização do turismo ordinário para Cuba, o mundo dos negócios não deixaria de pressionar os membros do Congresso, cuja carreira política depende, em grande parte, dos financiamentos privados que recebem por parte das empresas, para que colocassem definitivamente um fim às sanções econômicas contra Cuba, que o priva de um mercado natural de 11.2 milhões de habitantes e potencialmente de 10 milhões de turistas procedentes de todo o mundo. Cuba acaba de superar os três milhões de turistas no ano de 2014.

Em um primeiro momento, o presidente Obama poderia dar ordens ao Departamento do Tesouro para não perseguir cidadãos estadunidenses que não estivessem enquadrados no estabelecido pela administração e viajassem para Cuba, já que as sanções econômicas que se aplicam aos que se arriscam a fazer uma viagem sem permissão, por meio do Canadá ou do México, são bastante dissuasivas. Isso teria como efeito flexibilizar as viagens de turistas para Cuba e — sobretudo —, reparar uma anomalia jurídica, uma vez que essa proibição viola a Constituição dos Estados Unidos, que defende o direito de mover-se livremente.

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Salim Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, Salim Lamrani é professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba, the Media, and the Challenge of Impartiality, New York, Monthly Review Press, 2014, com prólogo de Eduardo Galeano.

Pepe Escobar: Quem se beneficia com o assassinato de Charlie?

Por Pepe Escobar | Via Rede Castor Photo

Putin é culpado. Desculpe, mas não foi Putin. Afinal de contas: quem atacou no coração da Europa não foi a Rússia. Foi um comando de estilo pró-jihadi. A quem o crime beneficia? Cui bono?

Planejamento e preparação cuidadosos; Kalashnikovs; foguetes lançadores de granadas; balaclavas; coletes à prova-de-balas estampados com camuflagem de deserto e estofados com revistas velhas; botas de uso do exército; fuga, que parece a cereja do bolo: num Citroen preto. E o toque final no bolo mortal: apoio logístico perfeito, sem falhas para a execução do ataque, em Paris. Um ex-comandante militar francês, Frederic Gallois, chamou atenção para a aplicação perfeita da “técnica de guerrilha urbana” (onde se metem aqueles notórios “especialistas” ocidentais em contraterrorismo, quando se precisa deles?).

Para uns, falavam francês perfeito; para outros, francês arrevesado. Seja como for, o que interessa é que pronunciaram a palavra mágica: “Somos a Al-Qaeda”. Melhor ainda: disseram a um homem na rua: “Diga à mídia que é a Al-Qaeda no Iêmen”, o que significa, na terminologia do terror norte-americano, Al-Qaeda na Península Árabe [orig. al-Qaeda in the Arab Peninsula (AQAP)], que mantinha o cartunista e editor de Charlie Hebdo, Stephane Charbonnier (“Charb”), numa lista de alvos devidamente promovida pela revista Inspire, publicada em papel caríssimo, da AQAP. Acusação: “Insultar o Profeta Maomé”.

E para garantir que todos ficassem com os perpetradores bem impressos na memória, os assassinos também disseram “Allahu Akbar”, “Matamos Charlie Hebdo” e “Vingamos o Profeta”.

Caso resolvido? Ora, em apenas poucas horas a Polícia francesa já havia identificado dois suspeitos (de sempre?): os irmãos franco-argelinos Said e Cherif Kouachi. O terceiro homem – o suspeito de dirigir o Citroen preto, 18 anos, Hamyd Mourad – logo se apresentou à polícia com um álibi indestrutível. Significa que o terceiro homem permanece não identificado.

Os irmãos Cherif Kouachi, 32 (E) e Said Kouachi, 34

Todos usavam balaclavas. Os irmãos Kouachi não foram capturados. Mas a Polícia parece saber muito bem quem são. Porque encontraram um documento de identidade esquecido no Citroen preto (é a correria de executar atentado terrorista bem na hora do rush). Como é possível que ninguém soubesse de nada antes da carnificina?

Não demorou para a biografia de Cherif Kouachi aparecer em todos os jornais e telas. Estava numa lista global de procurados. Com seis outros, foi condenado em maio de 2008 a três anos de prisão por “terrorismo”. De fato, entregou uma dúzia de jovens franceses, através demadrassas no Egito e na Síria, a ninguém menos que Abu Musab al-Zarqawi, o ex-chefe da Al-Qaeda no Iraque morto por um míssil dos EUA e pai espiritual do Estado Islâmico/ Daesh/ ISIS/ ISIL.

Também imediatamente, já havia uma narrativa completa, pronta para consumo de massas. O ponto-chave: a Polícia francesa privilegia a hipótese de “terrorismo islâmico”. Segundo “especialistas” da Polícia, pode ter sido ataque “ordenado do exterior e executado por jihadistas que retornaram da Síria e escaparam à Polícia”, ou podem ser “idiotas da periferia que se autorradicalizaram e conceberam esse ataque militar em nome da Al-Qaeda”.

Esqueçamos a opção dois, por favor: é claro que foi serviço de profissionais. E se se considera a opção um, a coisa aponta – e que mais poderia ser? – para revide. Sim. Podem ter sido mercenários do Daesh/ISIS/ISIL treinados pela OTAN (detalhe crucialmente importante: a mesma OTAN da qual a França é membro) na Turquia e/ou na Jordânia. Mas a coisa pode também ser ainda mais imunda, porque pode, sim, ser operação “doméstica”, mascarada sob falsa bandeira, obra de agentes passados ou atuais de Forças Especiais francesas.

Culpe o Islã!

Como se podia prever, os divulgadores-promotores do islamofascismo estão em altíssima rotação, aproveitando o dia/semana/mês/ano. Para trolls/hordas e imbecis em geral, que se orgulham do próprio QI abaixo de protozoários, se há dúvidas, demonize o Islã. É tão conveniente esquecer que milhões nunca contabilizados nas áreas tribais do Paquistão e pelos mercados de rua no Iraque continuam a padecer a mesma dor devastadora nos corações e mentes, porque também são vítimas descartáveis do pensamento jihadista – “cultura de Kalashnikov”, como se diz no Paquistão – que beneficia sempre diretamente ou indiretamente o “ocidente”, já há décadas. Pensem nos drones norte-americanos que dronam ritualmente, sem parar, civis paquistaneses, iemenitas, sírios e líbios. Pensem em Sadr City, que conheceu carnificinas mais de dez vezes piores que a de Paris.

O que o presidente francês François Hollande definiu como “ato de barbarismo excepcional” – e é – não se aplica quando o “ocidente, com a França na linha de frente, do rei Sarkô ao general Hollande em pessoa, arma, treina e controla por controle remoto degoladores/ mercenários que “operam” sem parar, da Líbia à Síria. Ah, sim! Matar civis em Trípoli ou Aleppo é perfeitamente normal. Atrevimento é matar civis em Paris.

Por tudo isso, e no coração da Europa, é revide. As pessoas nos Waziristões sentem-se exatamente assim, quando uma festa de casamento é incinerada por um míssil Hellfire. Paralelamente, é absolutamente impossível que a oh-tão-sofisticada rede ocidental de inteligência não tenha sabido que o revide estava sendo preparado – e que nada tenha feito para impedir que se consumasse (como é possível que os bodes expiatórios da hora, os irmãos Kouachi, não estivessem presos?).

É claro que a ultra-complexa e elaborada rede ocidental de contraterrorismo – tão eficiente para nos pôr nus em todos os aeroportos – sabia que a coisa estava sendo preparada; mas na guerra-de-sombras, a “al-Qaeda” é organização guarda-chuva, com miríades de nomes derivados, inclusive o “renegado” Daesh/ ISIS/ ISIL, todos usados como exército mercenário e conveniente ameaça doméstica ativa “contra nossas liberdades”.

Quem lucra mais?

A think-tank-lândia norte-americana, também previsivelmente, está ocupadíssima divulgando o drama de uma “divisão intra-muçulmanos” que dá muito espaço geopolítico a ser explorado pelos jihadistas – e, isso, para sugar o mundo ocidental para dentro de uma guerra civil muçulmana. É ideia absolutamente ridícula.

O Império do Caos, já durante os anos 1970s, andou ocupadíssimo cultivando a cultura jihadi/ Kalashnikov, para lutar contra qualquer coisa, da URSS a movimentos nacionalistas em todo o Sul Global. “Divide e governa” sempre foi usado para soprar as chamas das guerras “intra-islâmicas”, desde o governo Clinton tornando-se íntimo dos Talibã, até o governo Cheney – ajudado pelos vassalos do Golfo Persa – trabalhando para inflar o cisma sectário que separaria sunitas e xiitas.

Cui Bono – quem mais se beneficia? – com o assassinato de Charlie? Só todos cuja agenda é a demonização do Islã. Nem os fanáticos mais descerebrados encenariam aquela carnificina na redação de uma revista francesa, só para mostrar às pessoas que os acusam de ser bárbaros que eles são, sim, bárbaros. A inteligência francesa, pelo menos, já concluiu que não foi coisa de explosivos grudados na cueca: foi trabalho de profissionais. E acontece exatamente poucos dias depois de a França reconhecer o estado palestino. E poucos dias depois de o general Hollande exigir o fim das sanções contra a “ameaça” russa.

Os Masters of the Universe que movimentam as alavancas reais do Império do Caos estão enlouquecendo ante o caos sistêmico que já está generalizado e que eles, até há bem pouco tempo, ainda tinham a ilusão de que controlavam. Que ninguém se engane: o Império do Caos fará o que puder para explorar o ambiente pós-Charlie – e seja revide ou operação ‘’interna’’ clandestina.

O governo Obama já está mobilizando o Conselho de Segurança da ONU. O FBI está “ajudando” os investigadores franceses.

Como disse, em formulação memorável, um analista italiano, os jihadistas não invadiram a sede de um fundo-abutre: atacaram a sede de uma revista de sátiras. É claro que não se trata de religião: trata-se de geopolítica linha duríssima. Faz-me lembrar David Bowie:“This is not rock’n roll. This is suicide” [Não é rock’n roll. É suicídio].

O governo Obama já está mobilizado para oferecer “proteção” – à moda máfia – a uma Europa Ocidental que já está começando (só começando) a divergir da ideia pré-fabricada da tal “ameaça” russa. E bem nesse instante, quando o Império do Caos mais precisa, eis que o maligno “terô” [“terror”, como Bush pronuncia a palavra (NTs)] mais uma vez ergue a cabeçorra.

Mas, sim, #souCharlie. Não só porque eles nos faziam rir, mas porque foram usados como cordeiros sacrificiais numa imunda, muita imunda, suja, terrível, infindável, guerra de sombras.

Tradução: Vila Vudu

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Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.