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O relatório de Oxfam e a reunião em Davos

Por Eduardo Ruiz-Healy | Via Other News

A organização internacional Oxfam, baseada Oxford, Reino Unido, divulgou seu último relatório, intitulado Riqueza: Ter tudo e querer mais, onde adverte “que no próximo ano a riqueza do 1% mais rico da população do planeta superará a dos 99% restantes, ao menos que se reverta a atual tendência de desigualdade e concentração de riqueza”. Diz ainda que atualmente “uma de cada nove pessoas carece de alimentação suficiente, e mais de 1 bilhão de pessoas ainda vivem com menos de 1,25 dólares por dia”.

Oxfam explica que “a riqueza mundial se concentra cada vez mais nas mãos de uma pequena elite rica. Os dados do Credit Suisse revelam que, desde 2010, o 1% dos indivíduos mais ricos do mundo incrementou sua participação no conjunto da riqueza a nível mundial” acrescentando que “em 2014, o 1% possuía 48% da riqueza mundial, enquanto os 99% restantes repartiam 52%. Praticamente a totalidade desse 52% está nas mãos dos 20% mais ricos da população mundial, de maneira que os 80% só possuem 5,5% da riqueza mundial. Mantendo-se essa tendência de incremento da participação dos mais abastados na riqueza mundial, em somente dois anos o 1% será mais rico que os 99%, possuindo mais que 50% da riqueza já em 2016”.

As revelações da Oxfam não são nada novas e há muitos anos se observa que os ricos estão ficando mais ricos e os pobres cada dia mais pobres enquanto a classe média luta para não cair na pobreza. Isto acontece em quase todos os países.

Além disso, há mais de uma década que se amplia o fosso que separa os países ricos dos pobres.

Em poucas palavras, a crescente concentração de riqueza não se dá somente entre pessoas, mas entre nações.

Depreende-se desse quadro que os diversos modelos econômicos vigentes, histórica e geograficamente no planeta fracassaram para quase 99% da humanidade, e funcionaram muito bem para o 1%. O empobrecimento das maiorias se observa na maior parte dos países da América, Europa, Ásia e África. Este processo ocorre em economias de perfil diverso como os Estados Unidos, México, França, Brasil, Grécia, Venezuela, Espanha ou Reino unido.

O relatório de Oxfam ganhou projeção nos meios de comunicação porque foi publicado três dias antes do início do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, evento onde se reúnem os principais líderes políticos e empresariais do planeta para discutir publicamente os grandes problemas que enfrenta o mundo e, no âmbito privado, fazer grandes negócios.

Desde quarta-feira (21) até sábado, dia 24, no exclusivo centro turístico encravado nos Alpes, os representantes do 1% que se sustentam com a riqueza que produz 100% dos seres humanos estará de acordo também em manter sua posição privilegiada.

Oxalá que a maioria deles tenham a sensibilidade de ler o documento de Oxfam e atuar levando em conta as advertências contidas nele.

A situação econômica mundial é crítica e nas mãos destes senhores está a possibilidade de buscar e aplicar soluções que permitam uma melhor distribuição da riqueza no mundo.

Se estes empresários e líderes políticos insistirem em ignorar o crescente problema da desigualdade, que não se queixem depois da proliferação da violência, delinquência e do terrorismo que em maior ou menos grau são produto da pobreza.

Tradução: Rennan Martins

Cristina Kirchner diz estar ‘convencida’ de que morte de promotor não foi suicídio

Via Opera Mundi

Para a mandatária, Alberto Nisman se baseou em ‘pistas falsas’ para acusá-la e a morte dele é uma ‘operação contra o governo’.

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, disse estar “convencida” de que a morte do fiscal Alberto Nisman “não foi um suicídio”. Em carta publicada nesta quarta-feira (22/01) em seu blog, a mandatária confrma a tese de alguns analistas de que foram apresentadas “pistas falsas” a Nisman, e diz que a morte dele é uma “operação contra o governo”.

Nisman vivia no bairro Puerto Madero, em Buenos Aires, e tinha sofisticado aparato de segurança para garantir sua integridade física. Agência Efe

O fiscal, que denunciou um suposto encobrimento, por parte da presidente e de altos funcionários do governo, do atentado terrorista realizado contra a AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), há 21 anos, foi encontrado morto no domingo (18/01), com um tiro na cabeça, um dia antes de comparecer no Congresso para dar detalhes sobre a denúncia.

“A denúncia de Nisman nunca foi em si mesma a verdadeira operação contra o governo. Nisman não sabia e provavelmente nunca soube. A verdadeira operação contra o governo foi a morte do fiscal depois de acusar a presidente, seu chanceler e o secretário geral do La Cámpora de ser encobridores dos iranianos acusados pelo atentado terrorista à AMIA”, afirmou.

A mandatária menciona alguns artigos publicados pela imprensa argentina, entre eles a análise de Raúl Kollmann, publicado pelo jornal Página/12 que, segundo ela, derruba como um “castelo de cartas” o que fora apresentado como “denúncia do século”.

Após relembrar casos de supostos suicídios e que seguem sem esclarecimentos adequados, Kirchner acrescenta que “o usaram vivo e depois precisaram dele morto” e pontua uma série de questionamentos ao caso da morte de Nisman. “Por que iria se suicidar se não sabia que era falsa a informação que tinha? Porque iria se suicidar alguém que sendo fiscal gozava, ele e sua família, de uma excelente qualidade de vida? Por que foi autorizado o acesso à casa de Nisman a um médico privado de uma obra social antes de informar o juiz, os superiores, os forenses?”.

“Hoje não tenho provas, mas tampouco tenho dúvidas”, disse Kirchner, para quem o caso foi trazido à tona para aproveitar a comoção mundial decorrente do atentado terrorista na França.

Entenda o caso

O atentado à AMIA, em 1994, foi o maior ato terrorista já realizado na Argentina, matando 85 pessoas.

Em 2006, uma decisão da Justiça argentina considerou o governo iraniano culpado de ter planejado o atentado, que teria sido executado pelo grupo libanês Hezbollah, com ajuda do Irã, que nega as acusações.

A pedido da Argentina, a Interpol determinou ordem de captura de cinco cidadãos iranianos e um libanês. Na lista dos acusados, estão iranianos que ocupavam altos postos no governo do então presidente Akbar Hashemi Rafsanjani (1989-1997) – entre eles, o ex-ministro da Defesa Ahmad Vahidi e o próprio Rafsanjani.

“Davos é apenas mais um instrumento de articulação dos interesses capitalistas”: Entrevista com Flavio Lyra

Por Rennan Martins | Vila Velha, 22/01/2015

O glamouroso Fórum Econômico Mundial de Davos iniciou ontem e são previstas atividades até o próximo sábado. Todo ano os magnatas se juntam nos alpes para de discutir seus interesses e promover a imagem de suas empresas, aproveitando é claro pra dar os já desacreditados discursos de que possuem algum compromisso com o mundo que lhes cerca.

Enquanto isso, a desigualdade atinge níveis ainda mais alarmantes, as projeções da Oxfam – ONG especializada em estudos de riqueza e desigualdade – são de que em 2016 o 1% ultrapassará os 99% em riqueza absoluta, concentradíssima. Aqui no Brasil diversos analistas muito bem adestrados, defensores incondicionais da plutocracia, perdem tempo com críticas a presidenta por conta dela ter preferido a posse de seu colega e presidente da Bolívia, Evo Morales, ao Fórum dos privilegiados.

Para discutir a conjuntura internacional e os dilemas da economia neste ano ainda em início, entrevistei o doutor em economia pela Unicamp, Flavio Lyra. O heterodoxo Lyra duvida da capacidade do Fórum de dar respostas concretas aos problemas socioeconômicos atuais, faz pesadas críticas a guinada conservadora da política econômica nacional e crê que ela acarretará em recessão e desemprego.

Confira:

Diante dos novos rumos que o ministro Joaquim Levy tem dado a economia, o Brasil se aproxima ou afasta do Fórum de Davos? Quais são as vantagens e desvantagens de se alinhar aos ditames ortodoxos?

Tanto na teoria, quanto na prática o pensamento neoliberal está em profunda crise, pois já não consegue dar respostas minimamente convincentes para a grande e crescente concentração da riqueza e da renda no mundo e para a incapacidade das economias desenvolvidas de se manterem crescendo, haja vista a estagnação da Europa e do Japão e a, ainda,, indefinida situação dos Estados Unidos. O Forum de Davos vai ter que dar muitas cambalhotas para tentar desvencilhar-se do contundente discurso de Thomas Piketty, em seu já famoso “Capital no Século XXI”, que mostra claramente a forte propensão à concentração da renda e da riqueza no mundo. Isto num contexto de estagnação econômica.

O ministro Joaquim Levy e os ortodoxos que o cercam, meteram-se numa grande arapuca, porquanto, escravos de um pensamento econômico em crise, estão sendo chamados a dar resposta a problemas para os quais não estão preparados, pois o desgastado discurso da austeridade fiscal está desmoralizado pela experiência recente da Europa. Até parece que Dilma, agiu maquiavelicamente, ao entregar Levy a corda para ele se enforcar, pois não dá para vislumbrar nenhuma chance de recuperar o crescimento da economia brasileira com um choque fiscal que vá diminuir a demanda interna num momento de estagnação do comércio internacional e de baixa competitividade da indústria brasileira. Quando a crise se aprofundar, Levy corre o risco de ser enxotado pela mesma elite que ainda está batendo palmas por sua designação para o comando da economia. É uma questão de meses.

Os neoliberais mais espertos já estão preparando o discurso para se defenderem do fracasso do “arrocho fiscal”. Uns, como Monica de Bolle, já afirmam que é preciso maior abertura da economia, outros estão dizendo que é preciso realizar mais ajustes microeconômicos, sem o que a situação pode piorar. A verdade, é que já estão colocando os salva-vidas para quando o barco afundar. Se os economistas heterodoxos nos chegam a parecer confusos, por vezes, Os ortodoxos estão inteiramente perdidos, pois não sabem como conciliar os interesses do capital financeiro, aos quais são, indiscutivelmente, submissos e os interesses do capital produtivo crescentemente em dificuldades, face ao excesso de capacidade produtiva na economia internacional.

Como se explica o paradoxo entre o discurso de Dilma durante as campanhas e a prática adotada após a reeleição? Porque o governo deu uma guinada conservadora?

Não vejo uma resposta simples. Minha hipótese é que o grupo político que cerca a presidente percebeu que não havia clima político na sociedade para prosseguir com a orientação que vinha sendo adotada, embora se trate de uma orientação que procurava conciliar aspectos ortodoxos e heterodoxos da política econômica. Entregaram os anéis com medo de entregar os dedos. Uma interpretação maquiavélica, entretanto, não está fora de cogitação: na suposição de que o arsenal de política econômica ortodoxa vai agravar a crise, caberia aguardar o momento propício para retomar as políticas heterodoxas, sob as pressões da sociedade, insatisfeita com o agravamento da crise, Trata-se esta, porém, de uma aposta arriscada, pois o agravamento da crise pode muito bem ser atribuível à gestão de Dilma que, supostamente, não permitiria realizar todos as reformas neoliberais consideradas necessárias.

A presidenta Dilma preteriu o Fórum Econômico a fim de comparecer a posse do presidente boliviano, Evo Morales. O que indica essa atitude? Como podemos interpretá-la?

Dá para supor a intenção de não se comprometer com a política econômica que está sendo colocada em prática, por considerá-la com grande probabilidade de fracassar.

Quais são as perspectivas para a economia brasileira em 2015? É possível retomar o crescimento ainda esse ano?

O quadro recessivo só vai aprofundar com o aumento dos juros, o corte dos gastos públicos e a retração do BNDES. A inflação vai acelerar-se. Mas, tudo isto faz parte do manual neoliberal, que visa atingir o emprego e os salários, na esperança de melhorar a competitividade da produção industrial. Esperança vã, a meu ver, pois a queda da demanda interna vai aumentar os custos unitários.

A indústria brasileira será beneficiada pela subida do dólar? A retração tem chance de ser revertida?

Tenho dúvidas que o dólar vá se valorizar, principalmente agora que a Europa e o Japão vão afrouxar a política monetária para tentar sair da recessão. A recuperação da competitividade da indústria brasileira vai ter que ser buscada pelo aumento do investimento, a inovação tecnológica e a redução de custos dos serviços, inclusive de infraestrutura.

Quais são os efeitos do ajuste econômico que está entrando em vigor?

Vai produzir recessão e gerar um clima de protestos e acirramento dos conflitos entre grupos e classes sociais. Lamentavelmente, o presidente da Fiesp continua pleiteando a redução da carga tributária como a solução dos problemas da indústria.

A ONG Oxfam, especializada em estudos de desigualdade e distribuição de riqueza, afirma que em 2016 o 1% acumulará mais recursos que os 99% restantes da população. Como chegamos a esse ponto? Quando o bolo finalmente será distribuído?

Conforme mostra Thomas Piketty, em seu livro ” Capital no Século XX!”, não há como ser diferente enquanto o crescimento da renda do capital se der a taxa mais alta do que a taxa de crescimento econômico. Mantidas as instituições atuais a renda do capital alcança 5% ao ano, e o crescimento econômico médio, sequer se aproxima dessa taxa. As instituições na etapa atual do desenvolvimento capitalistas estão organizadas para privilegiar a valorização do capital financeiro.

Apesar de a desigualdade ser um tema cada vez mais pautado, pouco se vê de medidas práticas para combatê-la. O debate econômico precisa de mudanças? Que caminhos e ideias precisamos discutir mais?

Não vejo saída para questão da desigualdade, sem mudanças políticas importantes que reforcem a participação da população no poder e nas próprias organizações econômicas. Só o avanço democrático pode abrir espaço para tais mudanças.

O Fórum de Davos tem capacidade de enfrentar os dilemas da segunda maior crise do capitalismo? Porque?

Tenho seríssimas dúvidas! Davos é apenas mais um instrumento de articulação dos interesses capitalistas, para reforçar o poder das grandes corporações internacionais no controle da economia mundial e no fortalecimento do capital privado internacional.

Washington e Havana iniciam diálogo para normalizar relações

Via Sul 21

Os Estados Unidos e Cuba iniciam nesta quarta-feira (21) em Havana a rodada de conversas sobre assuntos migratórios e o processo de normalização das relações diplomáticas, suspensas há mais de meio século. De hoje a sábado (24), a primeira missão norte-americana de alto nível diplomático vai visitar Cuba, liderada pela secretária de Estado adjunta para a América Latina, Roberta Jacobson.

Segundo informações divulgadas por Havana e Washington, as primeiras conversas específicas para o restabelecimento das relações diplomáticas estão agendadas só para quarta (22), no Palácio de Convenções da capital cubana.

Hoje, os dois países vão manter uma rodada de conversações sobre temas migratórios, reuniões que Cuba e os Estados Unidos começaram a fazer no âmbito de acordos firmados em 1994 e 1995 para manter uma imigração “segura, legal e ordenada”.

A equipe norte-americana nesta reunião é presidida pelo subsecretário assistente do Gabinete para os Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, Edward Alex Lee. O encontro vai servir para “avaliar o progresso dos acordos migratórios e as ações assumidas pelas duas partes para enfrentar a emigração ilegal e o tráfico de emigrantes, entre outros temas”, informou, na sexta-feira (16), a diplomacia cubana.

Amanhã, os dois países fazem a primeira reunião oficial sobre a normalização de relações. “Nesta reunião, vão ser abordados os princípios e os passos para o restabelecimento de relações diplomáticas e a abertura de embaixadas nos dois países”, informou o Ministério das Relações Exteriores cubano, destacando que a delegação da ilha será chefiada pela diretora-geral para os Estados Unidos, Josefina Vidal.

No mesmo dia está agendado outro encontro para “abordar assuntos bilaterais, incluindo áreas de cooperação em temas de interesse mútuo”, acrescentou a diplomacia cubana.

Os Estados Unidos ressaltaram que a agenda das reuniões vai incluir matérias como trâmites técnicos e logísticos, tais como as operações da embaixada, pessoal e processamento de vistos.

Durante visita a Havana, Roberta Jacobson vai encontrar-se com representantes da sociedade, bem como líderes religiosos e empresários.

As conversas surgem depois de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o presidente de Cuba, Raúl Castro, terem anunciado, no dia 17 de dezembro, uma reaproximação histórica entre os dois países.

Um embargo econômico, comercial e financeiro contra Cuba foi imposto pelos Estados Unidos em 1962, depois do fracasso da invasão da ilha para tentar derrubar o regime de Fidel Castro em 1961, que ficou conhecido como o episódio da Baía dos Porcos.

Ao longo das últimas semanas, os dois países têm dado sinais de progresso no processo de normalização. Os Estados Unidos colocaram em vigor, na sexta-feira, um conjunto de medidas para aliviar algumas restrições impostas pelo embargo, enquanto o regime cubano libertou 53 presos que eram considerados prisioneiros políticos pelas autoridades norte-americanas. No fim de semana passada, uma delegação de congressistas norte-americanos visitou Havana.

Na segunda-feira (19), um grupo de 78 personalidades – antigos políticos (democratas e republicanos), empresários e membros da comunidade cubano-americana – escreveu uma carta a Barack Obama pedindo que o governante “trabalhe com o Congresso para atualizar o quadro legislativo em relação a Cuba”.

Na carta, assinada por líderes republicanos como o ex-secretário de Estado George Shultz, da administração de Ronald Reagan, e importantes empresários (como Alfonso Fanjul), as personalidades defendem que a necessidade uma abertura em relação a Cuba porque “a abordagem [norte-americana] de 54 anos para promover os direitos humanos e a democracia em Cuba falhou”.

Petrobras: Por que a mídia a transformou de símbolo em ‘Geni’?

Por Helio Silveira e Rogerio Lessa Benemond | Via PDT

A Petrobras se tornou o principal alvo do oligopólio da mídia brasileira por ser vítima de um amplo e longo esquema de corrupção, felizmente descoberto pela atuação livre da Polícia Federal e do Judiciário.

No entanto, de vítima a empresa como um todo passou a ser tratada como “lixo” pelas técnicas da comunicação. Logo a empresa do orgulho nacional descobridora do PRÉ-SAL, garantia e lastro da economia nacional para os próximos 50 anos, é reduzida perante a opinião pública a uma pobre Geni, da “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque.

Às vésperas da eleição no 2ºturno, em um jogo pesado, foi divulgada a notícia que teria vazado do depoimento do ex-diretor da empresa, Paulo Roberto de Costa, segundo a qual Lula e Dilma sabiam dos desvios. Após as eleições, tudo foi desmentido pelo próprio Costa sem maiores consequências para os caluniadores.

2 – A técnica do mar-de-lama

A descoberta dos esquemas de desvios de recursos, nos quais são utilizadas empresas e instituições públicas, tem vindo a público durante os governos petistas. Antes, porém, dificilmente se conseguia quórum para instalações de CPI’s. Tampouco agiam os órgãos do Judiciário ou a Polícia Federal. Hoje, ainda que sejam encerradas quando atingem certo clímax, as CPI’s têm “ensinado” como se desenvolve a sistemática dos desvios.

Lembremos a do “Banestado”, quando nos foi apresentada a arte da transferência ilegal de recursos para o exterior (Alberto Youssef já estava envolvido), lavados para depois voltarem, ou não, travestidos de “investimentos externos”. Ou a da “CPI do Cachoeira” em que o oligopólio das mesmas empreiteiras estava envolvido nas obras públicas engordadas pelo organograma da Copa. Ou a do Mensalão, quando, à falta de uma radical mudança da legislação eleitoral, aprendemos a lógica da “institucionalidade perversa” em que o tripé dos oligopólios (mídia, bancos e grandes empresas, sobretudo empreiteiras) financia políticos e depois recebem retornos na forma de verbas publicitárias, política de juros altos e encomendas-financiamentos oficiais.

A Petrobras estava, sim, sendo utilizada pelo modus operandi do tripé. Tomamos conhecimento dos modos de desvios de recursos através de falsas consultorias e falsas empresas daqui e do exterior. Hoje sabemos como o oligopólio das empreiteiras escolhe previamente a vencedora da licitação e depois distribui partes das encomendas entre as demais. Aprendemos que existe a “indústria do aditivo”, em que o baixo preço vitorioso é depois engordado por diversos aditivos e quanto mais a obra demora mais gordo se tornam os aditivos.

Sim, aprendemos que a Petrobrás estava sendo saqueada, que bom que foi descoberto, vamos acompanhar para que ela seja “higienizada”. Mas vamos ficar em alerta, pois queremos mantê-la NACIONAL. Queremos vê-la reestruturada administrativamente para limpar os malfeitos organizacionais, a excessiva terceirização, os elevados altos salários dos executivos para “acumpliciar” os fracos corações e mentes.

Queremos ver separados o joio (corruptos e corruptores) do trigo (uma Petrobras de excelência e seu eficiente corpo técnico). Não vamos nos deixar enganar pelos mesmos que querem denegri-la, afundá-la no “conto do mar-de-lama”, o mesmo que levou seu criador, Getúlio Vargas, ao suicídio, há mais de 50 anos, para mantê-la viva! Sabemos que existe uma estratégia para privatizá-la porque a Petrobras é operadora e a única a deter o conhecimento da região geológica do PRÉ-SAL.

3 – O que nos escondem ou querem que esqueçamos

Diante da técnica de divulgar à exaustão e até ampliar em manchetes e/ou noticiários, os esquemas sujos, utilizam a estratégia de metralhar diariamente com “lama” a imagem da Petrobras para transformar o orgulho do público em vergonha em relação à empresa.

Emanuel Cancella, diretor do SINDIPETRO RJ, nos lembra que nos vazamentos do Wikileaks os estrangeiros alertavam na ocasião do leilão de Libra para tomar cuidado para não despertar o orgulho nacional (http://www.aepet.org.br/site/faixalivre/pagina/286/Programa-Faixa-Livre-12122014) em relação à empresa para não inviabilizar a operação.

Querem minar o orgulho nacional em relação à empresa cujo corpo técnico foi descobrir petróleo na Bacia de Campos a 2 mil metros de profundidade, nos anos 80 (pós-sal), quando dependíamos fortemente do petróleo, desde a alta de 73 e que nos levou à rendição perante os bancos externos na crise de 82.

Querem minar nosso orgulho pela empresa que, pela genialidade de sua equipe técnica, intuiu que havia petróleo a 7 mil metros de profundidade no PRÉ-SAL e, por ser estatal, investiu US$ 260 milhões no furo exploratório para confirmar a tese. Dificilmente uma empresa privada arriscaria bancar e testar uma tese de seus funcionários!

Querem que esqueçamos que com alguns poços do PRÉ-SAL, conforme Fernando Siqueira vice-presidente da AEPET, já alcançamos reservas de 70 bilhões de barris de petróleo suficiente para atendimento dos próximos 50 anos de nossas necessidades. Fernando Siqueira acredita que o PRÉ-SAL ainda não totalmente dimensionado pode nos revelar reservas de até 300 bilhões de barris. Este é um dos principais objetivos da destruição da imagem da Petrobras. Querem desacreditá-la com a finalidade de privatizar ou transferir a exploração do imenso campo para interesses externos.

Querem que nos esqueçamos que nosso verdadeiro risco como Nação (risco soberano) é o déficit na conta de Transações Correntes, razão de todas as nossas crises: a de 1929, a de 1982 e a de 1998/99. O déficit de 2014 poderá atingir US$ 86 bilhões, um valor arriscado que indica preocupações. No entanto, se atingirmos maiores níveis de reservas ajuda a mitigar o risco soberano!

Querem esconder que a polêmica Refinaria Abreu Lima já está operando e produzindo Diesel, substituindo importações!

Querem nos esconder que os poços do PRÉ-SAL, que diziam ser de complexa exploração, já estão atingindo mais de 400 mil barris/dia.

4 – Petróleo abaixo de US$ 50 o barril inviabiliza o PRÉ-SAL?

O petróleo é a commodity mais estratégica do mundo e para garantir reservas, historicamente, nações foram à guerra e nações foram destruídas. O petróleo é insumo de mais de 3 mil produtos, além da energia dos transportes ainda está inserido na alimentação do gado, nos fertilizantes nos plásticos e borrachas sintéticas e na indústria farmacêutica.

É possível que uma recessão velada no mundo deu a base para a queda da cotação, mas muito provavelmente, o que está acontecendo é “dumping” geopolítico. Existem razões conhecidas para desestabilizar nações produtoras como a Rússia, a Venezuela e o Irã. Mas um choque deflacionário no principal insumo do mundo pode causar efeitos não “desejados” na estratégia política e jogar o mundo de uma recessão velada para uma explícita. O tiro pode sair pela culatra!

Informações técnicas nos garantem que cotações no nível entre US$ 50/60 não inviabiliza o PRÉ-SAL e parece difícil sustentar este verdadeiro “dumping geopolítico” no médio prazo – logo veremos a cotação no nível de pelo menos US$ 70/80.

Mesmo se acontecer uma grande depressão mundial e a cotação cair para níveis muito abaixo de US$ 50 (por exemplo, ao mínimo de novembro de 2008, quando o a cotação atingiu US$ 32,40) ainda assim vale a regra, uma empresa de Estado Nacional, da mesma forma que arriscou, prospectou e achou o PRÉ-SAL com perfuração-teste de US$ 260 milhões, só entraria em falência ou seria desmobilizada por uma decisão política do Estado Nacional.

Antes disso, pode ser capitalizada por decisão estratégica para sustentar um período crítico. Ainda poderia mais, por exemplo adquirir posições acionárias estratégicas no setor de petroquímica a preços baixos, para aguardar a retomada econômica. Em setembro de 2001, o governo dos EUA adquiriu ações das companhias aéreas e vendeu tempo depois com bons retornos.

5 – O que fazer diante do atual imbróglio policial e jurídico?

5.1 – A diretoria da Petrobras está colocada em suspeição. E oito das dez principais empreiteiras que executam os investimentos físicos da empresa, estão com executivos presos!

5.2 – O baixo nível das cotações do petróleo, prejudica o faturamento e o nível dos negócios!

5.3 – E o endividamento externo, a baixa cotação da ação da empresa, as investigações pela SEC dos EUA podem causar o rebaixamento do “rating” e a exigência de pagamento antecipado, colocando a empresa como insolvente!

Entendemos que a Petrobras está em situação emergencial e de risco máximo, encontra-se paralisada e isso poderá levá-la a uma situação extrema. É a situação que desejam os interesses difusos internos e externos que querem vê-la afundada no mar-de-lama e impedida de desenvolver a exploração do PRÉ-SAL!

Quer dizer, então, que aqui no Brasil estamos condenados sempre a ver malfeitos nas encomendas públicas? O advogado e professor de direito Modesto Carvalhosa diz que não e apresenta em sua elucidativa entrevista ao programa Roda Viva em 15-12-2014, como usar os mecanismos legais para acabar com a relação perversa entre empresas públicas e empreiteiras nacionais (https://www.youtube.com/watch?v=yxm8136VMW4&feature=youtu.be). A Petrobrás conforme o advogado e professor de direito Modesto Carvalhosa [dos 23 aos 24 minutos] é uma empresa de Estado é o braço operacional do Monopólio Estatal do Petróleo garantido pela Constituição.

Entendemos que ela é a Operadora do PRÉ-SAL, no mínimo em 30%, mas no caso do leilão de Libra, infelizmente, 60% foi garantido para empresas chinesas e europeias. Entretanto, o alvo da cobiça é 100% do PRÉ-SAL!

Não estamos vendo ação do governo e isso nos angustia! A Petrobras está “sangrando” e o Estado seu dono, inerte!

Voltemos ao professor Modesto Carvalhosa citando seus comentários de sua elucidativa entrevista ao programa Roda Viva:

A Petrobras está em situação emergencial e de risco máximo, encontra-se paralisada e isso poderá levá-la a uma situação extrema. No entanto, a Lei Anticorrupção já está em vigência desde fevereiro de 2014 e prevê a punição da pessoa jurídica, independente do dolo dos administradores que serão julgados pelo código penal. Então, o que aparentemente pareceria uma agressão, no caso, à Petrobras, na verdade a defende, uma vez que ao puni-la como também as empreiteiras com multas muitas vezes pecuniárias, pelos contratos dolosos, não as paralisa! E, sejamos realistas, no caso das empreiteiras é melhor puni-las do que as considerarmos inidôneas para futuros contratos com instituições públicas, pois isto garantira automaticamente o mercado público às empreiteiras estrangeiras.

Carvalhosa diz que a lei anticorrupção pode ser aplicada já [dos 3:15 aos 5:00 minutos; dos 10:20 aos 11:30 minutos e dos 47 aos 49 minutos], ao contrário dos membros do TCU/CGU que dizem que falta a regulamentação para aplicação. Isso prejudica o funcionamento normal das empresas com prejuízos para a economia. No caso da aplicação da Lei Anticorrupção permite o Acordo de Leniência (equivalente ao acordo de delação premiada, no caso da pessoa física) o que elimina o risco de dissolução da empresa por parte do Ministério Público.

Carvalhosa, junto com o reitor da Universidade Cândido Mendes do RJ – Cândido Antônio Mendes – e outros, fizeram parte do grupo de notáveis da sociedade civil destacados para a Comissão Especial de Investigação, criada no Governo de Itamar Franco para investigar casos de corrupção e como evitá-las, sobre este episódio, escreveu “O Livro Negro da Corrupção” (disponível em: http://www.muco.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=491:relancamos-o-livro-negro-da-corrupcao&catid=41:livro-negro-da-corrupcao&Itemid=60). Ele cita que ao final dos trabalhos e como era final do Governo Itamar, o presidente entregou o trabalho da Comissão ao FHC, o presidente eleito que, conforme Carvalhosa, demitiu a Comissão sem nenhum agradecimento e “arquivou” o relatório final. Carvalhosa cita que a Comissão sugeria a declaração de inidoneidade às empreiteiras contratadas pelo DNER e empresas farmacêuticas fornecedoras aos ministérios correspondentes [dos 17:30 aos 20:15 minutos].

Sobre FHC, em resposta ao repórter Frederico Vasconcelos da Folha de S. Paulo [dos 16:52 aos 17:28], Carvalhosa confirma que no seu governo quando da regulamentação da Petrobras na lei que criou a ANP permitiu onde estava determinado que a empresa poderia ter a concorrência simplificada no caso de compra de materiais fosse introduzido “e de obras” o que Carvalhosa denominou como fraude [dos 20:15 aos 21:30]!

Carvalhosa, em resposta ao repórter Rodolfo Borges do El País [dos 33:05 aos 33:53], afirma que a corrupção dos contratos poderia ter terminado com a aplicação das regras do relatório da CEI que FHC “arquivou”. Ele diz que se FHC desse continuidade a declaração de inidoneidade poderia ser introduzido o ”Performance Bond” (sugestão das próprias empreiteiras para negociar a não imputação da inidoneidade) instrumento utilizado nos EUA, desde 1897, que elimina a interlocução das empresas públicas e governos quando da contratação de obras junto às empreiteiras. Trata-se, da operação, de quando da concorrência ganha, a empreiteira inclui a seguradora que vai garantir o “Performance Bond” ou seja a seguradora ressarcirá ao governo por qualquer não cumprimento do contrato seja por atraso, má qualidade da obra etc. A seguradora, por sua vez, cobrará da empreiteira os recursos ressarcidos ao governo o que poderá até levar a empresa à falência.

Se tivesse sido aplicado no Governo de FHC o instrumento do “Performance Bond”, Carvalhosa afirma que não teríamos, hoje o fato lamentável que assistimos na Petrobras. Ele fala que lá fora as nossas empreiteiras quando ganham concorrências públicas seguem o dispositivo contratual de apresentar a Seguradora bancadora do “Performance Bond” [dos 33:53 aos 36:50]. Carvalhosa afirma que a falta do “Performance Bond” e a “instituição negativa” da renovação dos aditivos fazem com que as obras se perenizem e não sejam concluídas tais como a ferrovia Norte-Sul, a transposição das águas do S. Francisco e o encarecimento da refinaria Abreu Lima [dos 59:30 a 1:00:55].

Em outro episódio do governo de Itamar Franco, ao estar diante de “especulações” de corrupção do seu ministro Chefe da Casa Civil e amigo particular Hargreaves no caso da “CPI dos Anões”, afastou-o do cargo constituiu uma comissão de investigação que, ao concluir os trabalhos, declarou a não existência de provas contra Hargreaves, que foi imediatamente reconduzido ao cargo.

Assim, tendo em vista as orientações de Modesto Carvalhosa e lembrando os atos adotados por Itamar Franco, vemos todas as condições para tirar a Petrobrás do imbróglio que ameaça até sua existência como de criar uma situação de risco soberano.

6 – Para sair da emergência

A saída desta situação emergencial sugere alguns passos que nada teriam de original, a começar pelo afastamento da diretoria da Petrobras e a instituição de um comitê gerenciador composto por notáveis reconhecidos pela sociedade civil. Caberia também à presidente Dilma Rousseff a aplicação da Lei Anticorrupção, tanto à Petrobras quanto sobre as empreiteiras.

O governo, então, assumiria a dívida externa da Petrobras nos mesmos termos e prazos do contrato original, trocando-a por empréstimo do BNDES em reais. De sua parte, a Petrobras se comprometeria a pagar em reais o equivalente ao valor em dólares, já que as receitas do PRÉ-SAL são referenciadas naquela moeda.

Em seguida, o passo mais importante: a recompra das ações da Petrobras pela União, conforme a legislação da CVM/SEC.

7 – Conclusões

A Presidente, ao anunciar as medidas sugeridas, tiraria imediatamente a Petrobras da inércia e do “sangramento” em que se encontra.

As consequências são lógicas:

7.1 – O anúncio do afastamento da atual diretoria, mostrará ação por parte do Estado, dono da Empresa. O fato de o governo estar em transição facilitaria a troca ou manutenção da atual diretoria após os resultados da investigação. O simples fato da atuação do governo já valorizará a cotação da ação da Petrobras.

7.2 – A Lei Anticorrupção e a penalização das envolvidas elimina o risco de dissolução das empresas permitindo, após as mudanças dos envolvidos, que as empresas continuem funcionando com seus bons técnicos. A aplicação do “Acordo de Leniência (equivalente a delação premiada)” permitirá que as empresas reduzam suas penalidades e voltem à operação o mais rápido possível. É imprescindível a aplicação do dispositivo do “Performance Bond”, que eliminaria, conforme Modesto Carvalhosa, o risco de corrupção nos novos contratos. A aplicação da Lei eliminaria o risco sistêmico de declaração de idoneidade de um setor com grande participação no PIB.

7.3 – A Presidente como representante do Estado, dono da Petrobras, ao anunciar a troca do endividamento em dólares para reais, simplesmente eliminaria o risco soberano. Considerando que o endividamento gira em torno de US$ 110 bilhões e se adicionarmos mais o comprometimento de um terço das reservas com operações de “swap” cambial por parte do Banco Central significa dizer que dois terços das reservas brasileiras poderiam trocar de mãos rapidamente numa subida exagerada do dólar frente a esses riscos. Então, é de extrema responsabilidade o Estado assumir o endividamento em dólar da Petrobras e trocar por reais.

Evidentemente, seria necessário abrir uma exceção ao BNDES do seu compromisso de austeridade com o trio econômico, tendo em vista o risco sistêmico envolvido. Por outro lado, isso também não é original é uma simples troca de moedas nos contratos, muito mais leve que a injeção maciça de recursos que o Tesouro norte-americano e o FED injetaram nos bancos privados para mitigar o risco sistêmico em 2008. Na ocasião foi comentado que os bancos privados eram grandes demais para quebrarem!

7.4 – O anúncio de compra de ações por conta do Estado Brasileiro, dono da Petrobras é outra medida que gera imediata mitigação de riscos, e em conjunto com as outras medidas farão com que a subida das cotações, incentivando mais brasileiros a comprarem as ações, eleve o valor da empresa, melhorando o ânimo dos negócios.

Enfim, a subida do valor da Petrobras fará com que ela volte a ser o orgulho nacional e a vitória contra os seus detratores conhecidos.

(*) Helio Pires da Silveira é economista (aposentado) do BNDES e Rogerio Lessa Benemond é jornalista da Aepet.

Mistério cerca ação de Alckmin contra empresas do cartel do Metrô

Por Eduardo Baretti | Via RBA

Processo rejeitado em 2013 por juíza foi aberto depois de mais de um ano, mas continua em segredo de Justiça, embora trechos do despacho tenham sido publicados por jornal.

Atual presidente da CPTM, Mário Manuel Bandeira, está entre os 33 indiciados pela PF e deve deixar o cargo

São Paulo – A ação que a Justiça de São Paulo abriu na semana passada, a pedido do governo de Geraldo Alckmin em 2013, contra 15 empresas acusadas de fazer parte do cartel do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), fraude em licitações e pagamento de propina a agentes públicos, continua envolta em mistério. O esquema teria funcionado entre 1998, no governo Mário Covas, e 2008, com José Serra, ambos do PSDB. A juíza Celina Toyoshima, da 4ª Vara da Fazenda da capital, deu início à ação em despacho datado do último dia 8.

A ação foi rejeitada ainda em 2013 pela mesma magistrada, sob a alegação de que o governo não apontava nela o valor que as empresas participantes do cartel deveriam devolver aos cofres públicos. Na ação original, o valor pedido a título de indenização era simbólico, de R$ 50 mil. Na decisão do dia 8, a juíza acabou concordando que não fosse atribuído valor no processo.

A ação corre em segredo de Justiça, como quase todas as que dizem respeito ao cartel. No entanto, o jornal Folha de S. Paulo divulgou, em matéria de quarta-feira (14), trechos inteiros do despacho da juíza. De acordo com o jornal, ela ressalta o teor “genérico” do pedido do governo, o que, segundo o novo entendimento, não inviabiliza o processo. “Frise-se que a forma genérica de descrição persiste nas emendas, quiçá diante da dificuldade de quantificação do dano e da participação exata de cada réu incluído no polo passivo, porém, não a ponto de propiciar o indeferimento da inicial”, afirmou em seu texto.

Para o deputado estadual Luiz Claudio Marcolino (PT), autor de um pedido de CPI (não aprovado) para apurar as denúncias na Assembleia Legislativa, a ação sozinha não é suficiente para proteger os cofres públicos. “O que teria de ser feito é que os contratos de todas as empresas fossem suspensos. E, fora isso, quando o governo faz a cobrança do ressarcimento, é com um valor irrisório”, diz o parlamentar.

Segundo ele, cálculos feitos pelo partido apontam para desvios que chegam a R$ 13 bilhões. “Mas indenização não basta. Além dela e da suspensão dos contratos, é preciso haver apuração de corrupção de agentes públicos e de políticos”, afirma Marcolino.

As empresas que entram como rés na ação do governo estadual são: Siemens, Siemens AG (Alemanha), Alstom Brasil, Alstom Transport (França), CAF do Brasil, CAF (Espanha), Bombardier, Tejofran, Mitsui, TTrans, Temoinsa, MGE, Balfour Beatty, Iesa e MPE.

A reportagem da RBA tentou ouvir o procurador-geral do Estado, Elival da Silva Ramos, cuja assessoria havia pré-agendado uma entrevista que, posteriormente, foi suspensa. A PGE é o órgão responsável pelas ações do governo.

Em novembro de 2013, o procurador-geral recebeu a reportagem e justificou o valor de apenas R$ 50 mil dado à causa pela inicial da ação: “(É de R$ 50 mil) Porque nós não temos o valor do dano, o valor do dano só será apurado em liquidação de sentença. Diariamente, no Fórum de São Paulo, você tem centenas de ações propostas exatamente assim. A maior parte das coisas que a juíza levantou está com interrogação. Agora, aí é questão processual, eu não vou revelar aqui o que nós vamos fazer em relação ao despacho dela porque é estratégia nossa e também porque corre em segredo de Justiça”, afirmou Ramos na ocasião.

“É preciso apurar a participação de pessoas próximas ao governador no esquema do cartel, como o presidente da CPTM (Mário Manuel Bandeira), o então secretário de Energia (José Aníbal), e o de Transportes Metropolitanos (Jurandir Fernandes), entre outros”, defende o petista.

Em dezembro, a Polícia Federal concluiu inquérito sobre o esquema do cartel entre 1998 e 2008 e indiciou 33 pessoas. O processo foi encaminhado à Justiça Federal. Mário Manuel Bandeira está entre os indiciados.

Em depoimento de 24 de setembro de 2013, prestado na reunião conjunta das comissões de Transportes e Comunicação e de Infraestrutura da Assembleia Legislativa de São Paulo, Jurandir Fernandes foi cobrado por parlamentares para dar explicações sobre as 73 vezes em que teria se encontrado com representantes de empresas do cartel. Fernandes justificou dizendo que sua agenda teve 2.238 compromissos no período de sua gestão e que reuniões com executivos de empresas do setor de transportes fazem parte da rotina de um secretário de Transportes.

O então secretário de Transportes Metropolitanos disse na ocasião não poder evitar que as empresas denunciadas participem de novas licitações. Também afirmou ser difícil, juridicamente, suspender contratos em andamento. Para isso, teria de haver sentença condenatória e transitada em julgado. “Não é simples rescindir contratos”, declarou.

STF

José Aníbal e Jurandir Fernandes não fazem parte do secretariado de Alckmin nomeado para seu novo mandato. Mário Bandeira, presidente da CPTM, deve sair do cargo nas próximas semanas.

Em setembro de 2014, os ministros Marco Aurélio e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, votaram pelo arquivamento do inquérito que apura suposta participação de José Aníbal (PSDB) e Rodrigo Garcia (DEM) em possíveis irregularidades em licitações do Metrô. Até abril de 2014 eles eram secretários de Energia e de Desenvolvimento Econômico do governo Alckmin, respectivamente.

O ministro Luís Roberto Barroso pediu vista do processo em julgamento na Primeira Turma da corte. Em novembro, Barroso votou pelo prosseguimento do inquérito, entendendo cabíveis realizações de novas diligências. “O trancamento do inquérito deve ser reservado a situações excepcionalíssimas, nas quais não é possível nem vislumbrar a ocorrência de crime”, afirmou.

A ministra Rosa Weber votou com Barroso. Em seguida, o ministro Luiz Fux pediu vista e o julgamento foi novamente suspenso.

A Petrobrás e a campanha do capital internacional: Entrevista com Fernando Siqueira

Por Rennan Martins | Vila Velha, 20/01/2015

Charge de Carlos Latuff

Prossegue a oportunista campanha da imprensa que instrumentaliza as revelações do esquema de corrupção atuante na Petrobras para justificar a desnacionalização e entrega do petróleo brasileiro ao cartel internacional, ainda mais corruptos, já que se apoiam também em guerras e no uso de mercenários para garantir seus interesses em diversas partes do mundo.

Cumprindo nossa missão de fazer o contraponto à narrativa hegemônica, atuando na guerrilha semiológica, como propôs Umberto Eco, o Blog dos Desenvolvimentistas segue colhendo e disseminando informações a fim de retratar o mundo de uma perspectiva que não a dos poderosos, essa já fartamente propagandeada.

É pra isso que entrevistei mais uma vez Fernando Siqueira, vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET). Siqueira defende que se deve investigar cada indício de corrupção, mas que a Petrobras é vítima dos saqueadores, “e não um antro de corrupção como eles tentam mostrar”. Ressalta que é uma companhia em melhor situação que as outras cinco grandes petrolíferas internacionais, lastreada em 84 bilhões de barris, e é justamente por essa riqueza que é tão atacada.

Confira essa importante entrevista:

Qual a posição da AEPET em relação ao cartel/propinoduto que saqueou a Petrobras?

Achamos essa prática execrável, que deve ser punida com o máximo de rigor e prisão de todos os envolvidos. Em todo o Brasil. O ponto positivo é que a operação lava-jato trouxe as informações necessárias, inclusive dos corruptores, o que só foi possível com as delações premiadas. Vimos denunciando em todas as AGO´s (Assembleia Geral Ordinária, anual, dos acionistas) os indícios da corrupção (por exemplo, a cartelização pela prática de EPCismo – contratação de obras por pacote fechado – que sistematizou a cartelização). Mas não dispúnhamos das provas concretas. Sabíamos que o Duque (segundo dizem, concunhado do Zé Dirceu), o Paulo Roberto, o Barusco tinham procedimentos suspeitos, mas faltavam as provas. Agora temos a chance de deflagrar um combate sem tréguas à corrupção. Em todos os segmentos do País. Mas alguns membros do Ministério Público têm alertado para o risco de impunidade. A sociedade não pode aceitar um novo Satiagraha, que deu em nada.

Procedem os rumores de que a estatal está atolada em dívidas?

A Companhia tem realmente uma grande dívida. Porque tem a maior carteira de campos de petróleo a serem postos em produção. Portanto é uma dívida positiva, visto que é uma dívida para investimentos, os quais dão retorno superior a 80% ao ano. O retorno demora um pouco, mas já temos uma produção superior a 700 mil barris por dia no pré-sal. E o pré-sal já tem uma reserva descoberta de cerca de 70 bilhões de barris, que somada aos 14 bilhões pré-existentes, chegam a 84 bilhões de barris. Portanto, a dívida, além de ser positiva, tem um grande lastro.

O que explica a grande queda nos preços das ações da estatal? Em que extensão o escândalo de corrupção influencia nessa questão?

Há vários fatores. A queda do preço internacional do petróleo (temporária), a explicitação da nefasta corrupção, além da campanha sistemática da mídia defensora do capital internacional. Eles querem tirar a Petrobrás da condição de operadora única do pré-sal, pois isto inibe os dois focos de corrupção: superdimensionamento dos custos de produção, ressarcidos em petróleo e a medição fraudulenta da produção. Embora haja corrupção dessas empreiteiras em todos os segmentos do País, a da Petrobrás foi exacerbada ao máximo para desmoralizar a empresa. Na realidade a Petrobrás é vítima, e não um antro de corrupção como eles tentam mostrar. Ela tem 88000 empregados sérios, honestos e competentes.

Na esteira das revelações do esquema muitos analistas criticaram o modelo de partilha. Que pensa a AEPET sobre o atual modelo de exploração?

O modelo de partilha, não é o ideal, faltando, inclusive fixar o percentual do óleo-lucro que fica com a União. Mas é muito melhor do que o de concessão que eles defendem. A concessão dá todo o petróleo para quem produz. Por ela, o Brasil fica com 10% de royalties e cerca de 20% em impostos – tudo em dinheiro. No mundo, os países exportadores ficam com a média de 80% do petróleo produzido. Em nossa visão o modelo ideal é a volta do modelo existente antes da era FHC, previsto no artigo 177 da Constituição Federal de 1988: o Monopólio Estatal do Petróleo, conforme constava na Lei 2004/53. Ou a contratação por prestação de serviços, como é na Venezuela.

A proposta de retorno do regime de concessões interessa ao país? Quem ganha e quem perde com este modelo?

O modelo de concessão é pernicioso para o País, é puro entreguismo, pois conforme dito acima, só favorece as concessionárias integrantes do cartel internacional, em detrimento do povo brasileiro. Quem ganha com esse modelo é esse cartel do petróleo e os defensores do modelo, que, provavelmente, não fazem essa defesa gratuitamente.

A narrativa da grande mídia retrata nossa estatal como se estivesse à beira da falência. Por quê? Com que objetivos?

Faz parte da campanha do capital internacional. A Petrobrás, comparada às cinco grandes companhias petrolíferas internacionais, está muito melhor que elas. Aumentou suas reservas, aumentou a produção, o faturamento bruto, enquanto as outras têm indicadores negativos nesses quesitos. Ela ainda tem 70 bilhões de barris de petróleo descobertos no pré-sal, que fazem dela uma potência econômica e tecnológica. Aliás, ela poderia estar bem melhor se o Governo Dilma, por ditames eleitoreiros, não a houvesse obrigado a importar derivados e revender para suas concorrentes por preços inferiores. Segundo o Conselheiro Administrativo eleito, Silvio Sinedino, presidente da Aepet, esse rombo já atingiu a R$ 60 bilhões.

Que postura devem assumir os brasileiros que valorizam uma Petrobras forte e nacional?

Devem assumir a sua defesa como vítima da corrupção e combater sem tréguas essa prática. Lembrar que a Companhia é a mais estratégica do País e que ela pode alavancar o desenvolvimento tecnológico, econômico e financeiro, gerando empregos, tecnologia e desenvolvimento sustentado. Gosto sempre de citar a Noruega, que passou de segundo país mais pobre da Europa para o mais evoluído do Planeta: tem o melhor IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – de todos por cinco anos consecutivos, o melhor bem-estar social e a segunda renda per capta do planeta. Por que a Noruega cresceu assim? Porque soube usar o petróleo que descobriu no Mar do Norte na década de 70. Desenvolveu-se magistralmente e criou um fundo soberano pós-petróleo, que já chega a US$ 900 bilhões. E nós temos muito mais petróleo do que eles, além de imensas riquezas fora do ramo petróleo – minérios, biodiversidade, água.