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Kobane liberada: Forças curdas expulsam o Estado Islâmico da cidade

Por Joris Leverink | Via Passa Palavra

Depois de 134 dias de resistência, as forças curdas do YPG/YPJ finalmente expulsaram o Estado Islâmico para fora de Kobane. Embora a batalha tenha sido ganha, a luta continua.

Hoje, a resistência curda e seus camaradas de Kobane conseguiram o inimaginável: expulsar os combatentes do Estado Islâmico (ISIS) da cidade.

Depois de 134 dias de batalhas ferozes entre as forças curdas do YPG (Unidades Populares de Defesa) e do YPJ (Unidades Femininas de Defesa), tropas Peshmerga e elementos do Exército Sírio Livre por um lado, e do ISIS, por outro lado, parece que os últimos bairros da cidade que estavam sob controle dos militantes jihadistas foram finalmente libertados.

Enquanto o porta-voz oficial do YPG, Polat Can, anunciou a liberação completa da cidade via Twitter, as mídias sociais estão fervilhando com imagens de combatentes da resistência comemorando, tanques do ISIS queimados e, claro, a icônica bandeira vermelha, verde e amarela do TEVDEM, o Movimento por uma Sociedade Democrática, tremulando no topo da Mishtenur, a colina estrategicamente importante com vista para a cidade.

O avanço do ISIS sobre Kobane se iniciou em meados de setembro, quando suas forças conseguiram conquistar, em questão de dias, a região rural ao redor da cidade, antes de marcharem sobre o próprio centro urbano. No processo, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a sair de suas casas, fugindo em terror dos jihadistas fortemente armados, que deixavam pouco pelo caminho a não ser carnificina e destruição.

Cerca de 260 mil pessoas procuraram refúgio na fronteira com a Turquia, mas várias centenas de combatentes da resistência ficaram para trás para proteger a cidade. Com pouco mais a não ser seus fuzis AK-47 e uma firme determinação para deter o avanço do ISIS em Kobani, os homens e mulheres do YPG/YPJ conseguiram evitar o ISIS de adicionar mais uma cidade à sua longa lista de vitórias militares nos últimos meses.

A resistência dos combatentes curdos contra o ISIS foi prejudicada pelas políticas da vizinha Turquia, que manteve a sua fronteira com a cidade sitiada hermeticamente fechada, impedindo que qualquer ajuda chegasse até a resistência, enquanto, ao mesmo tempo, muitas fontes e observadores fizeram menção de seu suposto apoio militar, logístico e médico aos jihadistas.

Nos últimos meses, os combatentes curdos e seus apoiadores da região e de todo o mundo se reuniram no lado turco da fronteira para expressar seu apoio e solidariedade com a resistência. A batalha em Kobane não só destacou a eficácia das milícias curdas como uma das poucas forças armadas na região capaz de combater o ISIS, mas, mais importante, trouxe a atenção global para a difícil situação do povo de Rojava e sua revolução social focada em democracia direta, igualdade de gênero e sustentabilidade ambiental.

Embora a vitória em Kobane seja, sem dúvida, de importância crucial para a guerra contra o ISIS e uma razão importante para a celebração, deve ser salientado que a luta está longe de terminar. A maioria das mais de 300 aldeias que fazem parte do cantão de Kobane permanecem sob o controle do ISIS e, enquanto este continua a ser o caso, a grande maioria dos refugiados na Turquia não será capaz de voltar para suas casas.

Além disso, a cidade libertada de Kobane agora está em ruínas. Os contínuos bombardeios de morteiro, tiros de artilharia pesada e ataques com carros-bomba do ISIS, combinados com os bombardeios aéreos da coalizão liderada pelos EUA alvejando posições do ISIS na cidade, destruíram bairros inteiros.

A libertação de Kobane é uma vitória de importância do ponto de vista da estratégia militar. Mas mais importante: é uma vitória simbólica da democracia sobre o autoritarismo; do pluralismo sobre o fascismo; da liberdade sobre a repressão – e, acima de tudo, uma vitória que mostrou ao mundo o verdadeiro poder daqueles que lutam pela libertação genuína em oposição ao fanatismo daqueles que lutam por pouco mais que crenças fraudulentas.

Enquanto Kobane estava sob cerco, nos cantões vizinhos de Afrin e Cezire a revolução continuou: conselhos populares foram criados, cooperativas de trabalhadores foram desenvolvidas e as mulheres começaram a participar ativamente nos processos decisórios que lançam as bases para uma nova sociedade onde o poder é exercido pelos de baixo e não pelos de cima.

O grande desafio para o povo de Kobane e, possivelmente, um teste crucial para a força da revolução está à frente: não só a cidade, mas toda uma sociedade terá que ser reconstruída praticamente do zero.

O povo de Kobane provou sua força no campo de batalha e sua heróica resistência contra todas as probabilidades tornou-se um farol de esperança para todos os que creem que a luta contra as forças repressivas do fascismo, sob qualquer forma, pode ser vencida.

A atenção internacional que a batalha de Kobane recebeu pode agora ser usada para mostrar ao mundo que o povo de Rojava não está apenas liderando o caminho na luta contra o extremismo do ISIS, mas também na luta contra as forças do imperialismo, do capitalismo e do patriarcado que têm dado origem a muitos dos males que assolam atualmente as sociedades de todo o mundo – e no Oriente Médio, em particular.

Bijî Berxwedane Kobani!

Bijî Berxwedane YPG!

Bijî Berxwedane YPJ!

Bijî Berxwedane Rojava!

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Joris Leverink é um jornalista freelancer correspondente em Istambul, editor da ROAR Magazine e colunista da TeleSUR em inglês.

Traduzido pelo Passa Palavra. O original encontra-se disponível aqui.

Cúpula da Celac discute redução de pobreza, índice estagnado na região há dois anos

Por Vanessa Martina Silva | Via Opera Mundi

Reunido na Costa Rica, bloco cogita aproximação com China, que possui elevadas taxas de crescimento, para conseguir manter investimentos sociais em meio à crise econômica.

Presidente dos 33 países que integram a Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos) se reunirão de quarta (28/01) a quinta-feira (29/01) na Costa Rica na 3ª reunião de cúpula do bloco para debater, entre outros temas, a redução da pobreza. Considerado um dos maiores trunfos dos governos da região nas últimas décadas, o combate à miséria está estagnado desde 2012, de acordo com informe recente divulgado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe).

Coordenadores nacionais dos 33 países estão reunidos desde domingo (25/01) na Costa Rica. Agência Efe

De acordo com o estudo da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e o Caribe) divulgado nesta segunda-feira (26/01) com dados de 2014, 28% da população da América Latina está em situação de pobreza, ou 167 milhões de pessoas. Em 2002, 48,4% dos latino-americanos eram pobres, mas após expressiva redução, o índice não sofre alteração desde 2012. A entidade, assim como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), foi convidada a participar da reunião da Celac.

Esse será o principal assunto debatido na Costa Rica, justamente em um momento em que os países da região enfrentam redução nos níveis de crescimento de sua economia. De acordo com o Banco Mundial, houve uma desaceleração de 0,8% na economia dos países, que afetou principalmente os sul-americanos, como é o caso de Venezuela, Argentina e Brasil.

Dessa forma, os presidentes trocarão informações e experiências entre os integrantes do bloco e debaterão alianças possíveis com países fora da região para auxiliar a meta de erradicar a pobreza.

Analistas declaram que redução do crescimento da região pode afetar políticas de redução da pobreza. Agência Efe

O chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, disse que a Celac irá propor como meta transformar a região em zona livre de pobreza extrema. Segundo Patiño, para atingir tal objetivo é necessário aproximar-se da China, que segue com elevadas taxas de crescimento econômico e tem sinalizado uma aproximação da América Latina, como ficou evidente com a realização do fórum China-Celac, realizado no começo do ano, quando o presidente chinês, Xi Jinping, anunciou que vai investir na região US$ 250 bilhões em dez anos.

Brasil na Celac

Com participação confirmada pelo Itamaraty, a presidente brasileira, Dilma Rousseff, vai debater alguns resultados alcançados com os principais programas sociais desenvolvidos ao longo do seu primeiro governo e que permitiram ao país retirar milhões de pessoas da pobreza, e o país do Mapa da Fome Mundial, além de elevar o poder aquisitivo da população.

De acordo com o subsecretário-geral da América do Sul, Central e Caribe do Itamaraty, embaixador Antônio Simões, “além dos avanços em políticas sociais, a delegação brasileira aproveitará a oportunidade para discutir com os outros países a possibilidade de intensificar a cooperação nas áreas de agricultura familiar, direito dos afrodescendentes, desenvolvimento sustentável e energético”.

Declarações de Simões sobre a Celac:

Bloqueio a Cuba e terrorismo

Outro tema que deverá ser debatido na cúpula é a aprovação de uma resolução sobre a necessidade de acabar com o bloqueio econômico e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba.

O tema, será debatido com a presença do presidente cubano, Raúl Castro, que já chegou na Costa Rica e se reunirá pela primeira vez com seus homólogos desde que anunciou a retomada das relações diplomáticas com os Estados Unidos, fato também saudado pelo texto aprovado previamente.

O documento, que será submetido aos mandatários, também pede que o presidente dos EUA, Barack Obama, tome todas as medidas que estão ao seu alcance para modificar substancialmente a aplicação do bloqueio contra Cuba.

Em outro projeto de declaração, os chanceleres também se pronunciaram energicamente sobre a necessidade de excluir Cuba da lista dos países que promovem terrorismo, mantida pelo Departamento de Estado dos EUA.

Um tiro contra Cristina Kirchner

Por Dario Pignotti | Via OP

A estranha morte de promotor argentino que, segundo Wikileaks, reunia-se frequentemente com agentes da CIA e do FBI. A tentativa, pela oposição, de usar o ocorrido contra a Casa Rosada.

O promotor Alberto Nisman apareceu morto com um tiro na cabeça disparado com sua arma pessoal em um apartamento localizado a poucas quadras da Casa Rosada, a sede do governo. Seu corpo foi encontrado nas primeiras horas desta segunda-feira (19), dias depois de ter acusado Cristina Kirchner de encobrir os responsáveis do atentado que matou dezenas de pessoas na AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), em julho de 1994.

O procurador se transformou em uma estrela de televisão e dos meios de comunicação oligopolistas que deram ampla cobertura às suas sonoras denúncias, geralmente vazias de provas. Nisman era para a grande mídia algo como se tornou o juiz paranaense Sergio Moro para a imprensa tradicional brasileira.

Os principais dirigentes oposicionistas haviam viajado de seus respectivos estados para Buenos Aires a fim de participar nesta segunda-feira de uma exposição de Alberto Nisman na Câmara dos Deputados, em que havia prometido que apresentaria provas sobre a interferência de Cristina na investigação sobre o atentado terrorista de 1994.

Segunda essa versão do promotor, a presidenta quis evitar que fossem investigados suspeitos iranianos. A morte de Alberto Nisman motivou comoção nacional a 10 meses das eleições presidenciais, enquanto os adversários do governo não estão conseguem superar suas diferenças internas para compor uma coalizão unitária.

“Os dados da autópsia de Alberto Nisman estarão prontos à noite, o que podemos adiantar é que sua morte aconteceu antes do jantar [de domingo]… estava sozinho e a porta do apartamento estava fechada com chave”, informou a promotora Viviana Fein.

“Pedimos aos jornalistas que nos deixem trabalhar”, disse Viviana diante de um enxame de repórteres que a esperavam na porta do elegante prédio em que ele residia, onde o corpo jazia dentro do banheiro junto da arma com a qual o disparo foi feito.

Como os dados da perícia forense ainda não foram divulgados, seria irresponsável arriscar se o promotor que investigava o atentado da associação mutual judia AMIA se suicidou ou se foi assassinado. Em todo caso, é evidente que este fato sangrento carrega consigo uma consequência política: prejudica o governo da presidenta Cristina Kirchner, que mantém uma alta popularidade e deve exercer sua influência nas eleições em que seu sucessor será escolhido.

Cristina: Distância diplomática dos EUA e de Israel

O governo de Cristina mantém relações frias com Washington há anos, uma ligação que e enfraqueceu ainda mais quando Buenos Aires se aproximou do Irã.

“Tudo isto que aconteceu é muito raro, não vamos cair em teorias conspiratórias, mas também não seremos ingênuos ao tentar entender as coisas que estão em jogo”, afirmou Atilio Borón, pesquisador universitário e ex-secretário da CLACSO (Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais).

“A primeira coisa a se fazer é responder esta pergunta, quem sai muito prejudicado com este fato? Indubitavelmente é o governo argentino”, acrescentou Atilio Borón em declarações concedidas nesta segunda-feira a uma emissora portenha. TVs, rádios e sites modificaram sua programação para dedicar atenção total ao crime do ano.

Um dos apresentadores estatais do grupo Clarín afirmou estar quase certo de que o promotor foi assassinado para evitar que prejudicasse Cristina. Com linguagem demagógica, argumentou “nas ruas todo mundo diz que Nisman foi assassinado”.

“Isto dá sensação de impunidade… nisto há traços mafiosos”, afirmou Marcelo Tinelli, um popular apresentador de programas frívolos, presidente do clube San Lorenzo, que, segundo alguns observadores, sonha em ser o Silvio Berlusconi do Pampa Argentino.

Se os partidos de oposição não demonstraram capacidade para formar uma aliança forte, os partidos de fato têm capacidade para criar um estado de angústia nacional e semear um clima de desestabilização. Possivelmente, o partido da mídia, junto à corporação judiciária, sejam as forças mais hostis à Casa Rosada.

Durante o fim de semana, os jornais tradicionais publicaram com grandes manchetes o anúncio do promotor Nisman sobre as revelações que faria nesta segunda-feira no Parlamento. No Clarín, publicou-se uma notícia sobre o “fim de um ciclo” iniciado em 2003 pelo ex-presidente Néstor Kirchner, continuado por sua esposa e atual chefa de Estado.

Promotor amigo do FBI e da CIA

Dezenas de documentos revelados pelo Wikileaks mostraram que o promotor Albert Nisman se reunia frequentemente com representantes do governo norte-americano, a quem consultava sobre como levar adiante o processo pelo atentado terrorista contra a entidade judaica em 1994 em que houve 85 mortos e 300 feridos. Os agentes da inteligência norte-americanos repetiam regularmente que Nisman deveria acusar o Irã.

“Não é preciso seguir a pista síria, nem as conexões locais [dos terroristas] porque isto pode enfraquecer as acusações contra os iranianos”, disseram agentes do FBI consultados por Nisman, segundo um dos papéis obtidos pelo Wikileaks.

Santiago O Donnell, editor do jornal Página12 e autor de um livro baseado em informações do Wikileaks, afirmou que a Embaixada dos Estados Unidos estava muito preocupada com o curso da investigação do atentado contra a AMIA, e que o assunto aparece em 196 comunicações da missão diplomática norte-americana.

O acadêmico Atilio Borón argumentou que Nisman não era um promotor apegado a normas jurídicas, mas um elemento que operava politicamente segundo ordens de Washington.

“Ele ia regularmente à Embaixada receber instruções do FBI, da CIA e… com essa gente pesada não se brinca, eles em qualquer momento podem decidir eliminar alguém que tenha ajudado, mas que já deixou de ser útil”, disse Borón. Do seu ponto de vista, ainda não se pode saber se Nisman se suicidou ou se foi assassinado, e convém ter como uma das hipóteses que Washington o tenha porque não tinha prova para fundamentar suas denúncias.

“Isto que aconteceu com Nisman não pode ser analisado como uma questão local… poucas horas depois de ele aparecer morto houve um comunicado do governo de Israel.. tudo isso acontece 10 dias depois do atentado em Paris contra a Charlie Hebdo, 9 dias depois dos ataques ao supermercado judeu de Paris”.

“Esta morte se insere em um marco mais amplo que é o que alguns comentaristas chamam como a grande guerra do ocidente contra o Islã”, afirmou Atilio Borón.

Plano econômico do Syriza é mais realista que o da troika, diz Krugman

Via Esquerda.net

Economista Prêmio Nobel de 2008 afirma que se há algum defeito no plano do Syriza, é o de não ser suficientemente radical. E defende que “o resto da Europa devia dar-lhe a oportunidade de pôr fim ao pesadelo no seu país”.

Paul Krugman: “Se a troika tivesse sido verdadeiramente realista, teria reconhecido que estava a exigir o impossível”. Foto de Lou Gold

Na sua coluna do The New York Times, o economista Paul Krugman defende que o apelo à mudança feito por Alexis Tsipras é de longe mais realista do que aquele que os líderes europeus querem impor à Grécia. “O resto da Europa devia dar-lhe a oportunidade de pôr fim ao pesadelo no seu país”, defende o Prémio Nobel da Economia de 2008.

Krugman defende que se o plano do Syriza tem algum defeito, é o de não ser suficientemente radical. “A redução da dívida e um alívio da austeridade reduziriam o sofrimento económico, mas é duvidoso que sejam suficientes para produzir uma forte recuperação. Por um lado, não é claro o que pode fazer qualquer governo grego a menos que esteja preparado para abandonar o euro, e o povo grego não está preparado para isso”.

Líderes europeus pediram o impossível à Grécia

Na opinião de Krugman, a grande vitória do Syriza deve-se ao facto de os líderes europeus terem estado a pedir o impossível. “Dois anos após ter começado o programa da Grécia, o FMI procurou exemplos históricos de programas do tipo do da Grécia, tentativas de pagar a dívida através da austeridade sem qualquer redução importante da dívida ou inflação, que tivesse obtido sucesso. Não encontrou nenhum.”

O facto é que os planos da troika foram totalmente irrealistas, não os de Tsipras. Krugman recorda o memorando de entendimento, que considera um “documento notável, da pior forma”, para afirmar que o seu conteúdo era uma “fantasia económica”, apesar de querer parecer muito realista. O povo grego tem vindo a pagar o preço destas fantasias, afirma.

Krugman lembra as projeções do memorando, que assumiam que a Grécia podia impor uma austeridade brutal com um pequeno efeito sobre o crescimento e o emprego. “A Grécia já estava em recessão quando o acordo foi assinado, mas as projeções assumiam que esta queda seria invertida em breve”.

Pesadelo econômico e humano

O que realmente aconteceu foi um pesadelo económico e humano, aponta o economista. “A Grécia só atingiu o fundo do poço em 2014” e nessa altura já estava mergulhada na depressão, com o desemprego nos 28% e o desemprego jovem a chegar aos 60%. E a recuperação em curso atualmente “mal se vê”.

“Se a troika tivesse sido verdadeiramente realista, teria reconhecido que estava a exigir o impossível”, conclui Krugman.

Fidel Castro rompe silêncio para dizer que não rejeita aproximação EUA-Cuba

Via AFP

O líder cubano Fidel Castro rompeu seu silêncio de quase seis semanas sobre a histórica reconciliação entre Estados Unidos e Cuba para declarar que, embora desconfie de seu velho inimigo, não rejeita os acordos para normalizar as relações entre os dois países.

“Não confio na política dos Estados Unidos, nem troquei uma palavra com eles. Isso não significa – longe disso – uma rejeição a uma solução pacífica dos conflitos”, disse Fidel, de 88 anos, afastado do poder desde 2006, em uma carta lida na noite de segunda-feira na televisão cubana.

No entanto, o pai da revolução cubana não criticou o histórico acordo para normalizar as relações anunciado no dia 17 de dezembro por seu irmão e sucessor, Raúl Castro, e pelo presidente americano, Barack Obama, que foi comemorado em todo o mundo.

“O presidente de Cuba deu os passos pertinentes de acordo com suas prerrogativas e com as faculdades que a Assembleia Nacional e o Partido Comunista de Cuba concedem a ele”, escreveu na carta, dirigida à Federação Estudantil Universitária cubana.

“Defenderemos sempre a cooperação e a amizade com todos os povos do mundo e, entre eles, os dos nossos adversários políticos. É o que estamos reivindicando para todos”, completou Fidel Castro, o grande ausente no histórico processo de aproximação entre ambos os países, após meio século de inimizade.

Seu silêncio havia alimentado rumores sobre sua saúde e inclusive sobre sua morte no início do mês, até que o ex-jogador de futebol argentino Diego Maradona, seu amigo pessoal e que estava de visita em Havana, anunciou há duas semanas ter recebido uma carta do líder cubano, cujo conteúdo não foi divulgado.

O acordo para normalizar as relações foi precedido por conversas secretas realizadas durante 18 meses sob os auspícios do Vaticano e do Canadá.

Desta vez Fidel enviou sua carta à federação estudantil, lida na televisão por seu presidente, Randy Perdomo, na véspera da “marcha das tochas”, que conta todos os anos com a participação de milhares de universitários.

Nesta ocasião a marcha também servirá para lembrar o 70º aniversário do ingresso de Fidel Castro como aluno na Universidade de Havana, onde se formou como advogado em 1950, três anos antes de iniciar a luta armada com o assalto frustrado ao Quartel Moncada, em Santiago de Cuba (sudeste da ilha).

Castro abordou diversos tópicos na longa carta, da Grécia Antiga à incursão militar cubana na África nas décadas de 1970 e 1980, e encerrou com seus comentários sobre a reaproximação com os Estados Unidos.

A carta foi datada na segunda-feira, quatro dias após Cuba e Estados Unidos realizarem em Havana suas primeiras negociações de alto nível em 35 anos no âmbito da retomadas das relações diplomáticas, rompidas em 1961, dois anos depois da vitória da revolução de Fidel Castro, que marcou uma guinada da ilha em direção ao comunismo.

As históricas negociações contaram com a participação da chefe da diplomacia americana para a América Latina, Roberta Jacobson, a funcionária americana de mais alto escalão que visita a ilha desde 1990.

Não aparece em público há um ano

Fidel Castro não comentou em sua carta os rumores sobre sua morte, que circularam pelas redes sociais e em alguns meios de comunicação estrangeiros, em especial em 9 de janeiro, um dia após sua última aparição em público completar um ano.

Em ocasiões anteriores, ele havia ironizado estes rumores.

A ausência de Fidel Castro em meados de dezembro no momento do histórico anúncio do degelo das relações com os Estados Unidos e no retorno dos três agentes cubanos libertados por Washington alimentou rumores na ilha e no exterior sobre seu estado de saúde.

Fidel Castro publicou sua última coluna de imprensa em meados de outubro, na qual propôs que os Estados Unidos cooperassem para enfrentar a epidemia de Ebola, e fez sua última aparição pública em 8 de janeiro de 2014, quando acompanhou a inauguração de uma galeria de arte do artista cubano Alexis Leyva “Kcho”, seu amigo pessoal.

Troika e austeridade viraram ‘coisas do passado’ na Grécia, diz líder do Syriza após vitória

Via Opera Mundi

Alexis Tsipras deve ser o novo primeiro-ministro do país; To Potami anunciou apoio ao Syriza, garantindo maioria parlamentar.

Tsipras discursa após vitória; ele deve ser indicado primeiro-ministro da Grécia. Efe

O líder do Syriza e futuro primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, agradeceu neste domingo (25/01) a vitória do partido e confirmou que as medidas de austeridade no país estão próximas do fim.

“A Grécia está virando uma página, deixando para trás cinco anos de humilhação e dor. Hoje, a troika [grupo que impôs medidas de austeridade] é coisa do passado”, afirmou, diante de apoiadores em Atenas. “Não haverá quebra mútua [com a troika], nem continuação ou subjugação.”

Tsipras defendeu a negociação para a questão da dívida externa, que atinge 175% do PIB (Produto Interno Bruto), no que ele chamou de solução “mutuamente aceitável”. Ele também chamou pela união dos gregos após o pleito. “Não há vitoriosos e derrotados. Hoje foi uma derrota das elites e das oligarquias da Grécia.”

Com cerca de 60% dos votos apurados, o Syriza, de esquerda, havia alcançado 149 cadeiras (das 300 em jogo), duas a menos que o necessário para garantir a maioria absoluta sem coligações. O Nova Democracia, do primeiro-ministro Antonis Samaras, estava com 77, seguido pelo Aurora Dourada, de extrema-direita, com 17, por To Potami (centro-esquerda), que estava com 16, pelos comunistas, com 15, e pelo Pasok, outrora um dos partidos mais fortes do país, que deve conseguir 13 cadeiras.

Em um cenário de necessidade de coligações, os comunistas passariam a sofrer pressão para entrar no governo e formar maioria junto com o Syriza. Apesar disso, um dos lideres do partido, o eurodeputado Kostas Papadakis, rejeitou a possibilidade em entrevista a um veículo espanhol. “Não apoiaremos o Syriza; somos contra a União Europeia, a Otan e as cadeias do capitalismo”, afirmou.

No entanto, o líder do Potami, Stavros Theodorakis, anunciou que vai apoiar o Syriza, garantindo maioria parlamentar mesmo que o vencedor da eleição não consiga as 151 cadeiras. Isso faz com que Tsipras vire premiê do país.

Samaras admitiu a derrota pouco antes do discurso de Tsipras. “Entrego um país que é parte da União Europeia e do euro. Pelo bem deste país, eu espero que o próximo governo mantenha o que foi conquistado”, disse em declarações à imprensa.

Da geopolítica do petróleo para a do gás

Por Imad Fawzi Shueibi | Via Oriente Mídia

A agressão midiática e militar contra Síria está diretamente relacionada com a concorrência global pelos recursos energéticos, explica o Professor Imad Shuebi no magistral artigo que apresentamos hoje.

Nesse exato momento em que assistindo ao colapso da zona do euro, e que uma grave crise econômica levou os Estados Unidos a acumular uma dívida superior a 14.940 bilhões de dólares; no momento em que a influência americana declina em contraste com os países emergentes que conformam o BRICS, se faz evidente que a chave para o exito econômico e o predomínio político reside principalmente no controle da energia do século XXI: o gás.

A Síria tornou-se alvo justamente por estar no meio do mais importante reservatório de gás do planeta. O petróleo foi a causa das guerras do século XX. Hoje estamos vivendo o surgimento de uma nova era: a das guerras do gás.

Após a queda da União Soviética, ficou claro para os russos que a corrida armamentista havia lhes prejudicado em demasia, sobretudo no campo energético, onde faltou a energia necessária ao processo de modernização industrial do país. Os Estados Unidos, por outro lado, tinham conseguido se desenvolver e impor, sem muitas dificuldades, sua política internacional nesta área graças a sua presença por décadas nas áreas de petróleo. Os russos decidiram, em seguida, posicionar-se nas fontes de energia, tanto nas que produzem petróleo, como nas empresas de produção de gás. Considerando que, devido à sua distribuição internacional, o setor de petróleo não oferecia boas perspectivas, Moscou apostou pelo gás, por sua produção, seu transporte e sua comercialização em larga escala. Tudo começou em 1995, quando Vladimir Putin traçou a estratégia da Gazprom: partindo desde as áreas de produção de gás da Rússia até Azerbaidjão, Turcomenistão, Irã (para comercialização), até o Oriente Médio. A verdade é que os projetos North Stream e South Stream demonstraram os esforços de Vladimir Putin e seu governo de situar a Rússia na arena internacional na área energética, que já desempenha um papel importante na economia européia, que, durante as próximas décadas, dependerá do gás como alternativa ao petróleo ou como complemento deste, quando deu prioridade ao gás, em detrimento do petróleo.

A partir desse contexto, era urgente para Washington implementar seu próprio projeto: Nabbuco, uma estratégia que concorria com a dos russos e que jogava para desempenhar um papel decisivo na determinação da estratégia e política energética para os próximos 100 anos.

Fato é que o gás será a principal fonte de energia do século XXI, uma alternativa diante da redução das reservas mundiais de petróleo e, ao mesmo tempo, uma fonte de energia limpa. O controle das zonas gasíferas no mundo disputado entre as antigas potências e as emergentes é o elemento que dá origem a um conflito internacional com manifestações de caráter regional.

É evidente que a Rússia aprendeu com as lições do passado, pelo menos no que se refere aquilo que, do ponto de vista da economia, contribuiu para o colapso da União Soviética, que foi, precisamente, a falta de controle dos recursos de energia indispensáveis para o desenvolvimento da estrutura industrial. A Rússia compreendeu que o gás está destinado a ser a fonte de energia do próximo século.

O gás da Síria

A ‘revolução síria” é uma encenação midiática que esconde a intervenção militar ocidental para a conquista do gás.

Quando Israel empreendeu a extração de petróleo e gás, a partir de 2009, ficou claro que a bacia do Mediterrânea se havia somado ao jogo e que haveria duas possibilidades: Síria seria alvo de um ataque ou toda a região viveria em paz, pois se supõe que o século XXI seja o século da energia limpa.

De acordo com o Washington Institute for Near East Policy (WINEP, Think-Tank do AIPAC), a bacia do Mediterrâneo contém as maiores reservas de gás e é, precisamente, na Síria onde se localizam as mais importantes. Este mesmo Instituto também emitiu a hipótese de que a batalha entre a Turquia e Chipre se intensificará porque a Turquia não pode aceitar a perda do projeto Nabucco (apesar do contrato assinado com Moscou em Dezembro de 2011 para o transporte de grande parte do gás de South Stream através da Turquia).

A revelação do segredo do gás sírio dá uma ideia da importância do que está realmente em jogo. Quem tenha o controle da Síria poderá controlar o Médio Oriente. E a partir da Síria, portão da Ásia, terá em suas mãos a chave da Rússia e, também, da China, através da “Rota da Seda”, assim você poderá dominar o mundo neste século, já que é o século do gás.

É esta a razão pela qual os signatários do acordo de Damasco, que permite que o gás iraniano passe pelo Iraque e chegue ao Mediterrâneo, criando um novo espaço geopolítico e cortando a linha vital do Projeto Nabucco, declararam na época que “A Síria é a chave da nova era”.

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Imad Fawzi Shueibi: geopolítico e filósofo. Presidente do centro de documentação e estudos estratégicos de Damasco – Síria.