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Brasil e Europa: políticas econômicas na contramão

Por Fabrício Augusto de Oliveira | Via Brasil Debate

Enquanto a Europa ensaia uma política anticíclica para se reencontrar com o crescimento, o Brasil, com recessão já batendo às portas, implementa uma política pró-cíclica. Significa atividade econômica encolhendo, com efeitos perversos para o emprego, a renda e as políticas sociais.

No final de 2012, a economista e presidente Dilma Rousseff, em viagem à Europa, condenou a política de austeridade imposta aos países da União Europeia pela troika BCE/FMI/Comissão Europeia e sugeriu que seus líderes importassem a política econômica anticíclica implementada no Brasil para enfrentar a crítica situação econômica com que este bloco se defrontava como consequência da crise da dívida soberana.

Segundo seus argumentos, “o modelo de austeridade estava fadado ao fracasso” e os resultados da política implementada produziria apenas “mais recessão e empobrecimento das classes médias”.

Dilma estava correta em seu argumento sobre a terapia prescrita pela troika para corrigir os acentuados desequilíbrios fiscais de alguns países, notadamente Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, os quais se manifestaram como desdobramento da crise do subprime, e desvelaram as fragilidades da economia real de alguns de seus membros.

Ao contrário do que esperava a troika, as políticas de austeridade apenas agravaram os problemas com a recessão que se produziu, acompanhada de aumento considerável do desemprego, encolhimento das receitas fiscais e avanço na desmontagem de programas do welfare, quando naquele momento, o mais importante era dar força à atividade econômica, estimulando a demanda.

Tanto isso é verdade que ainda hoje a União Europeia continua mergulhada em sérias dificuldades econômicas, com alguns de seus países não conseguindo sair da recessão, ameaçada insistentemente por um processo de deflação, devido à fraqueza da demanda, e ainda correndo riscos de desintegração. Tal situação levou o BCE a decidir, recentemente, mesmo com a resistência da Alemanha, injetar liquidez na zona do euro, por meio da compra de títulos públicos, visando a reverter este quadro, tal como ocorreu nos Estados Unidos após a crise do subprime.

Em 2015, eleita para o segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff não quis comparecer à reunião anual que se realizou em Davos, na Suíça, no final do mês de janeiro, preferindo se refugiar na Bolívia e comparecer à posse de Evo Morales.

O Fórum Mundial de Davos é um encontro anual que reúne líderes da economia mundial, incluindo governos, empresários, intelectuais e organismos internacionais, e seria uma boa oportunidade para a presidente defender a política ortodoxa que começou a implementar no Brasil neste segundo mandato e convencer os agentes econômicos e as instituições de que o país se colocara no rumo esperado pela elite internacional, representante, de uma maneira geral, do capital financeiro. Seria, certamente, aplaudida entusiasticamente, inclusive, e, não se pode desconsiderar, talvez ironicamente, pela Chanceler alemã, Angela Merkel, principal líder da ortodoxia mais atingida por suas críticas anteriores.

Há muitas hipóteses para explicar o motivo de seu não comparecimento a este encontro em Davos, mas nenhuma é tão forte como a que se refere ao fato de que teria dificuldades para defender a política ortodoxa que condenara veementemente há pouco mais de dois anos, e de ter de reconhecer que o Brasil, ao invés de estar exportando, tornou-se importador da política de austeridade da Europa, exatamente num momento em que esta, tendo aparentemente reconhecido seus malefícios e incapacidade para resolver os problemas do bloco, começou a abrandá-la com o afrouxamento do controle quantitativo da liquidez e do crédito.

Seria de fato uma tarefa difícil. Isso porque não é fácil explicar como se mudou de visão em tão pouco tempo. Enquanto a Europa começa a buscar outro caminho, visando a fortalecer a demanda e a atividade econômica para sair da ruína em que se encontra, o Brasil se dispõe a iniciar o seu percurso, aniquilando a demanda e a oferta e abrindo mão, assim, do crescimento econômico, quando se sabe ser este essencial para preservar e dar continuidade às conquistas alcançadas nos últimos anos em termos de emprego, renda e de redução das desigualdades no País.

Ou seja, enquanto a Europa ensaia, ainda que tardiamente, exatamente uma política anticíclica para se reencontrar com o crescimento, o Brasil, com uma recessão já batendo às portas, passa, em sentido oposto, a implementar uma política pró-cíclica, significando que a atividade econômica deve continuar se encolhendo, com efeitos perversos para o emprego, a renda dos trabalhadores e as políticas sociais, que já começam a se manifestar.

Não são boas as perspectivas que se descortinam para o país nos próximos anos ao se aventurar nessa estratégia equivocada. Depois de exagerar na política anticíclica para manter vigoroso o consumo sem se preocupar com o lado da oferta, a política econômica brasileira renuncia a medidas que poderiam reequilibrar essa equação, deixando de encaminhar reformas importantes para estimular o investimento, a produtividade e a redução do custo-Brasil, e passa a acatar, candidamente, as ordens emanadas do mercado financeiro para soterrar a única fonte que vinha mantendo algum oxigênio para a atividade produtiva, o consumo.

A crença de que a recomposição do tripé macroeconômico em níveis que agradem o mercado traga de volta em algum momento os investimentos e o crescimento, depois de saneada a economia pela recessão, o desemprego e o aumento das desigualdades só é verdadeira para o capital financeiro, por garantir, com isso, um Estado solvente, capaz de preservar, sem riscos, seus ganhos fabulosos.

Para a economia real e a população em geral, que até o momento só foram prejudicadas com as medidas adotadas, representa sacrifícios inúteis, enquanto não forem desbloqueados os caminhos para um efetivo desenvolvimento econômico e social do País, o que nada tem a ver com o “austericídio”, como alguns analistas têm rotulado a política ortodoxa posta em movimento pelo governo neste segundo mandato. O exemplo da Europa está aí, bem à vista, para os que ainda acreditam ser este um caminho profícuo para o Brasil retornar à trajetória de crescimento econômico.

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Luiz Augusto de Oliveira é Doutor em economia pela Unicamp, membro da Plataforma de Política Social e autor, entre outros, do livro “Dívida pública do Estado de Minas Gerais: a renegociação necessária”, de 2012.

Veríssimo: O contexto maior

Por Luís Fernando Veríssimo | Via O Globo

Mais do que em qualquer outro confronto, na luta pela Petrobras, e por tudo que ela simboliza além da exploração de uma riqueza, se definem os lados com nitidez.

Recomenda-se a desiludidos com a atualidade em geral e com o PT em particular a procurar refugio no contexto maior. O contexto maior não absolve, exatamente, o contexto imediato, a triste realidade de revelações e escândalos de todos os dias, mas consola. Nossa inspiração deve ser o historiador francês Fernand Braudel, que — principalmente no seu monumental estudo sobre as civilizações do Mediterrâneo — ensinou que, para se entender a Historia, é preciso concentrar-se no que ele chamava de la longue durée, que é outro nome para o contexto maior. Braudel partia do particular e do individual para o social e daí para o nacional e o generacional, se é que existe a palavra, e na sua história da região, o indivíduo e seu cotidiano eram reduzidos a “poeira” (palavra dele também, que incluía até papas e reis) em contraste com a longue durée, o longo prazo da história verdadeira. Assim na sua obra se encontram as minúcias da vida diária nos países do Mediterrâneo mas compreendidas sub specie aeternitatis, do ponto de vista da eternidade, que é o contexto maior pedante.

Do ponto de vista da eternidade nada do que está sendo revelado, em capítulos diários, sobre o propinato na Petrobras e os partidos políticos que beneficiou deixa de ser grave, mas é impossível não ver o cerco à estatal do petróleo no contexto maior da velha guerra pelo seu controle, que já dura quase 70 anos, desde que a Petrobras venceu a primeira batalha, a que lhe permitiu simplesmente existir, quando diziam que nunca se encontraria petróleo no Brasil. Mais do que em qualquer outra frente de confronto entre conservadores e progressistas e direita e esquerda no Brasil, na luta pela Petrobras, e por tudo que ela simboliza além da exploração de uma riqueza nacional, se definem os lados com nitidez. A punição dos responsáveis pelos desvios que enfraqueceram a estatal deve ser exemplar e todos os partidos beneficiados que se expliquem como puderem, mas que se pense sempre no contexto maior, no qual a sobrevivência da estatal como estatal, purgada pelo escândalo, é vital.

Fernand Braudel viveu e lecionou no Brasil. Não conheço nenhum texto dele sobre sua experiência brasileira. Seria interessante saber como ele descreveria, ou preveria, hoje, a longue durée da nossa História. O que significaria, na sua avaliação, o longo dia no poder do PT? O contexto maior tudo perdoaria ou tudo justificaria? Enfim, o contexto maior de todos é o Universo, que, no fim, engole todos os significados. O que também não é um consolo.

HSBC: jornal cede a pressões, ignora denúncias e colunista pede demissão

Via RBA

O mais conservador diário britânico é acusado mau jornalismo e de tratar as acusações recentes contra o HSBC de acordo com interesses e contratos comerciais.

Fachada da sede do HSBC em Genebra, Suíça, paraíso fiscal para dinheiro de origens duvidosas

Londres – Vários jornalistas do britânico “The Daily Telegraph” denunciaram a censura de notícias do veículo relacionadas a empresas e governos, como os de Rússia e China, por pressões comerciais. Os profissionais revelaram a insatisfação no programa “Newsnight”, exibido na noite de ontem (18) pela BBC, pouco depois que um conhecido colunista de política do jornal, Peter Oborne, ter pedido demissão pelos mesmos motivos.

Ele acusou o veículo de não fazer uma cobertura adequada sobre o caso da chamada “lista Falciani” – informações sobre contas do HSBC em Genebra (suíça) que abriga bilhões de correntistas de vários países, num esquema de evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Em comunicado divulgado pela internet, Oborne explicou que deixava o cargo após cinco anos ao denunciar que, por interferência da diretoria, o jornal conservador mais prestigiado do país estaria cedendo a interesses comerciais com o HSBC, em vez de apurar devidamente as irregularidades e crimes denunciados.

O colunista político Peter Oborne mostra sua indignação em telejornal da BBC

O colunista pediu uma investigação independente sobre a mistura de interesses jornalísticos e comerciais no jornal, que nos últimos meses retomou um acordo publicitário com o banco que tinha perdido anteriormente por “notícias desfavoráveis”. Oborne afirmou que renunciava “por questão de consciência” depois de várias decisões da diretoria lhe parecerem corruptas.

Segundo o colunista, a maioria dos funcionários do jornal não confia no diretor-executivo do “Telegraph Media Group”, Murdoch MacLennan, nem nos proprietários da empresa, os irmãos David e Frederick Barclay.

No “Newsnight”, jornalistas apoiaram publicamente a denúncia de Oborne e explicaram casos em que notícias tiveram de ser barradas ou modificadas para satisfazer interesses comerciais.

Exemplos dessas notícias, segundo os profissionais, contrariavam interesses do banco Royal Bank of Scotland, continham informações sobre os governos de Rússia e China e, inclusive, em um caso inédito, a crítica do filme infantil “Meu Malvado Favorito 2″, que teve de ser “melhorada” por interesses comerciais com a distribuidora.

O órgão britânico de monitoramento dos padrões da imprensa afirmou que o “The Daily Telegraph” realmente publicou bem menos notícias que outros jornais sobre o escândalo do HSBC e em nenhum deles fez um trabalho de investigação.

O grupo editor do “Telegraph” nega as acusações e garantiu em comunicado que “a distinção entre publicidade e a agraciada atividade editorial” do jornal “sempre foi fundamental” para a empresa. “Negamos qualquer alegação em sentido contrário”, diz a nota, que lamenta que Oborne tenha iniciado “um ataque infundado e cheio de inexatidões” contra a publicação.

Nos últimos dias, a imprensa britânica e do restante da Europa repercutiram a notícia, a partir dos documentos conhecidos como “lista Falciani”, que a filial suíça do banco britânico HSBC escondeu durante anos cerca de 106 mil contas com dinheiro não declarado.

No Reino Unido, o caso da possível fraude fiscal do HSBC chegou ao governo. Em 2011, o primeiro-ministro, David Cameron, nomeou para um cargo oficial Stephen Green, que foi presidente do banco de 2006 a 2010, quando as irregularidades foram cometidas.

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Com reportagens da Efe.

O petróleo, a hegemonia e a distribuição do poder

Por Rennan Martins | Vila Velha, 18/02/2015

A ordem global unipolar, irradiada desde Washington e possibilitada após a queda da URSS em 1991, chega a nossos dias seriamente debilitada, o que por sinal comprova a falsidade da pretensiosa tese de Fukuyama, postulante do fim da história.

As cada vez mais recorrentes crises financeiras provocadas por um capitalismo altamente desregulado, conjugadas a crises sociais decorrentes de desastrosos planos de liberalização e austeridade, somam-se as crises humanitária e ambiental, frutos, em seu tempo, das guerras expansoras de mercado e da superexploração de recursos naturais, necessária num sistema onde a lógica predominante é a do crescimento infinito.

Os desmandos e arbitrariedades de uma potência que instrumentaliza os conceitos de democracia e direitos humanos objetivando impor sistemas e governos que lhes garantam hegemonia política e econômica, aliados a negligência do vencedor que se julga incontestável, foram fértil terreno de construção de projetos políticos alternativos, principalmente no que se refere a América Latina e aos países em desenvolvimento de maneira geral.

Eis que estes projetos chegaram ao poder em diversas partes do mundo e iniciou-se a construção de alianças e instituições alheias as receitas ocidentais que constam no FMI e Banco Mundial. Acontecimentos emblemáticos deste movimento foram a Cúpula Celac-China e o acordo dos BRICS para a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo de Reservas Contingentes. Essas instâncias de cooperação internacional constituem verdadeiro terremoto geopolítico que atinge frontalmente o projeto de globalização encabeçado pelos EUA e União Europeia.

Um dos produtos naturais desta realocação de poder é a desdolarização da economia mundial, pois, os governos do Sul Global não mais pretendem se manter expostos a inconsequente política do FED, que exporta problemas internos, fazendo com que outros países paguem a conta de uma economia imensamente endividada. Há também uma crescente desconfiança em relação ao real valor do dólar, dado que a moeda não possui lastro e os EUA a imprimem a torto e a direito para cumprir seus compromissos.

A fuga do petrodólar causa graves preocupações a uma Casa Branca de influência declinante, que responde escalando as hostilidades, intervenções e manobras econômico-financeiras, estas com fins claramente políticos.

Desde o início de 2014 os EUA coordenam, com os eternos aliados na Arábia Saudita, a inundação do mercado de petróleo que derrubou o preço do barril em mais de 50%. Esta medida afeta diretamente regimes de alta dependência das receitas do petróleo e derivados, entre eles, não por acaso, a Rússia e a Venezuela. Outras ações desestabilizadoras se somam a campanha, inclusive em países aparentemente não envolvidos, caso do Brasil.

OTAN, Rússia e Ucrânia

A Rússia enfrenta a expansão da OTAN até sua imediata fronteira desde o golpe orquestrado que se deu na Ucrânia. Após a derrubada do avião civil voo MH17 da Malaysia Airlines, uma verdadeira operação de falsa bandeira realizada pela Junta de Kiev, obteve-se o pretexto para a imposição de sanções e histérico bombardeio midiático sobre a “agressão russa”, que curiosamente jamais mostra imagens e vídeos das supostas tropas moscovitas invadindo território ucraniano.

A operação mal esconde a intenção real de Washington, que é controlar o fluxo de gás natural russo até a Europa. O FMI anunciou há poucos dias uma “ajuda” de US$ 17,5 bilhões ao governo ucraniano presidido pelo magnata Petro Poroshenko, colaborador da CIA desde no mínimo 2006, segundo vazamentos do Wikileaks. A mais importante contrapartida para os “parceiros” ocidentais é a “reforma do setor energético”, que evidentemente privatizará o setor, entregando-o a corporações norte-americanas.

É também significativo que o secretário de Estado ianque, Johnn Kerry, tenha sido excluído das negociações do segundo acordo de cessar-fogo de Minsk, o que denota que era visto como parte não cooperante. Somado ao fato dos EUA terem anunciado o envio de 600 militares a Ucrânia para fins de treinamento das forças locais, entende-se bem quem está forçando o conflito para a via bélica.

Venezuela e a oposição cooptada

O projeto chavista/bolivariano liderado pelo presidente eleito democraticamente Nicolás Maduro é alvo de incessante intervenção estrangeira, que se materializa numa oposição altamente ligada e financiada por interesses norte-americanos. A maior jazida petroleira do mundo é venezuelana e esta é a causa concreta de tanta sanha.

No ano passado a Venezuela enfrentou violentos protestos oposicionistas que incendiaram prédios públicos, armazéns e escolas e assassinavam motoqueiros que eram atingidos no pescoço por arames farpados estendidos nos piquetes. A desonestidade da oposição ficou evidente quando descobriu-se que diversas fotos por eles divulgadas como se fossem dos confrontos locais nada mais eram que imagens retiradas de buscas na internet.

Atualmente o governo local passa por sérios problemas financeiros por conta da redução no preço do barril, o que dá abertura a mais inquietações que serão outra vez aproveitadas por interesses escusos.

Brasil, Petrobras e corrupção

Por aqui a Operação Lava-Jato expõe as entranhas do esquema de propinas instalado há muito na Petrobras e nas grandes empreiteiras. As revelações, que poderiam servir para um amplo debate sobre a reforma do sistema político e a separação mais criteriosa do setor público e privado, são distorcidas e transformadas em ataque ao regime de partilha e ao próprio governo, que bancou esta legislação e a destinação de recursos do pré-sal para a educação.

A mídia brasileira, que segundo o professor Nilson Lage é “coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa”, pinta a baixa das ações da estatal como fruto do esquema de corrupção descoberto e não pela queda geral do setor causada pela sobreoferta do mercado de petróleo. O nível de enviesamento do noticiário e consequente alienação dos cidadãos é tão preocupante que muitos chegam a ridicularizar os que falam de interesses estrangeiros intervindo na Petrobras, esquecendo que há poucos meses descobriu-se o esquema de espionagem da National Security Agency à estatal. Enquanto isso, a Petrobras se torna a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto, descobre novas reservas e é premiada por conta das tecnologias de ponta que desenvolve.

O sucesso inegável da empresa é escondido pelos veículos submissos e cobiçado pelo capital internacional, que se satisfaz com as difamações e inverdades difundidas enquanto atua pelo lobby para primeiramente quebrar o monopólio de operações da estatal no país e em seguida acumular forças para privatizá-la, culminando no total controle dos mais de 80 bilhões de barris do pré-sal.

O desafio do tempo

O fator chave desta ofensiva é que a estratégia de manter a superprodução petroleira e o baixo preço do barril não pode ser mantida indefinidamente por conta dos efeitos colaterais que lhe são inerentes. Os atuais preços inviabilizam a exploração do petróleo não convencional – que é a aposta norte-americana para a independência energética – e atingem a saúde das finanças sauditas. Ou seja, Washington sabe que essa guerra econômica possui prazo, sob pena de arruinar setores chaves da economia nacional e enfraquecer a Arábia Saudita, parceiros fundamentais no que se refere a manutenção do dólar como moeda padrão para transações de petróleo e derivados.

A conjuntura é, portanto, de aumento da agressividade ianque frente aos que divergem das regras do “livre” mercado (livre somente se manipulado pelos próprios), e ainda mais hostilidade e ingerência aos que ousam negociar petróleo em moedas que não o dólar.

As nações atingidas recorrem, por sua vez, ao apoio da China por meio de empréstimos e aumento de comércio entre as partes. A Venezuela já obteve ajuda financeira de Pequim, enquanto a integração econômica sino-russa se dá em velocidade crescente. No entanto, a atuação chinesa não se trata de solidariedade, os estrategistas chineses têm interesse em substituir o dólar, substituindo-o por um yuan lastreado em ouro, e sabem ainda que se derrubado o governo russo, os próximos a serem submetidos a “disciplina” são eles.

Depreende-se deste quadro a inevitabilidade da ascensão de uma ordem global multipolar, a qual é adiada de todas as formas por um império declinante em influência política e econômica, mas, ainda assim, a mais ameaçadora força militar planetária. A integração e cooperação entre os países do Sul Global terminará por isolar os EUA, mais cedo ou mais tarde, e então entraremos numa era em que o poder estará distribuído com maior equidade, abrindo novas possibilidades de organização econômica e social.

Senadores dos EUA apresentam lei para acabar com o embargo a Cuba

Por Silvia Ayuso | Via El País

Banca de tomates em Cienfuegos, Cuba. / DADO GALDIERI (BLOOMBERG)

Projeto de lei é apresentado duas semanas depois de outro grupo apresentar uma iniciativa para colocar fim às restrições a viagens à ilha. Congresso dos EUA dá primeiro passo para fim do embargo a Cuba.

Há um grupo de congressistas em Washington que parece ter pressa para que sejam normalizadas as relações com Cuba travadas durante mais de meio século. Não se passaram sequer dois meses desde que o presidente Barack Obama anunciou o restabelecimento de relações diplomáticas com Havana, em 17 de dezembro, mas começam a se acumular no Congresso iniciativas legais para garantir a política do governante democrata.

No fim de janeiro, foi apresentada formalmente no Senado uma proposta de lei para por fim às restrições a viagens. Essa normativa sequer começou a ser debatida quando outro grupo bipartidarista de senadores —alguns deles os mesmos— deram um passo maior: acabar também por lei com todas as restrições que impedem o comércio com a ilha, ou seja, com o embargo comercial e financeiro vigente desde 1961.

A Lei de liberdade para a exportação para Cuba, como se chama a nova proposta legislativa, foi apresentada nesta quinta-feira pela senadora democrata Amy Klobuchar, de Minnesota.

“É hora de virar a página em nossa política em relação a Cuba”, declarou ao apresentar a proposta, que foi apoiada também pelos senadores democratas Patrick Leahy, Dick Durbin e Debbie Stabenow, assim como pelos republicanos Mike Enzi e Jeff Flake. As assinaturas de Leahy, Durbin, Enzi e Flake também figuram no projeto de lei para liberar as viagens.

A nova proposta anularia as restrições que pesam sobre o comércio com Cuba desde o início dos anos 60 e que, desde 1996, estão fixadas em lei, a Helms-Burton. A iniciativa não interfere, no entanto, na questão das viagens, atendida por outro projeto. Também inclui uma modificação das cláusulas sobre direitos humanos e as reclamações quanto a bens expropriados contidos na legislação de 1996, definiu Klobuchar.

Em meados de janeiro entraram em vigor a ordem executiva de Obama para flexibilizar as viagens e algumas das limitações comerciais contra Cuba, mas, ao se tornar lei, o embargo só pode ser revogado completamente pelo Congresso.

A nova iniciativa conta com o apoio explícito do influente setor agrícola. “Apreciamos a liderança da senadora Klobuchar para dar prosseguimento a essa lei bipartidarista, que incentivará as oportunidades para a agricultura norte-americana”, declarou a Coalizão Agrícola Norte-Americana por Cuba (USACC, em sua sigla em inglês).

A congressista de origem cubana Ileana Ros-Lehtinen, uma das mais críticas quanto à abertura em relação à ilha determinada por Obama, não demorou a replicar a iniciativa. “Em cada uma das Casas, os oponentes ao embargo tentam revogá-lo com muito alvoroço. Mas a lei é clara quanto a já existir um processo para revogar o embargo: eleições livres e justas em Cuba, respeito aos direitos humanos fundamentais, liberação de todos os presos políticos e outros requisitos da Helms-Burton”, relembrou.

A nova iniciativa legislativa, cujo destino nos corredores do Congresso não estão ainda definidos, acontece no momento em que se está à espera do anúncio da data da segunda rodada de conversações entre Cuba e EUA para normalizar relações, que deve acontecer este mês em Washington, segundo se anunciou no fim do primeiro encontro, em Havana, em janeiro.

Grécia: Grandes manifestações de apoio ao Governo do Syriza

Via Esquerda.net

Milhares de pessoas manifestaram-se, nesta quarta-feira, em Atenas e nas principais cidades da Grécia, em apoio ao governo do Syriza, enquanto reunia em Bruxelas o Eurogrupo.

Manifestação em Atenas contra a chantagem, 11 de fevereiro de 2015 – Foto de left.gr

Para esta quarta-feira foi convocada uma reunião extraordinária do Eurogrupo (que junta os ministros das finanças dos países que fazem parte do euro e os representantes da comissão europeia e do banco central europeu) para discutir a situação da Grécia. A antecipação da reunião do Eurogrupo significou uma pressão sobre o governo grego com o objetivo de esvaziar a cimeira europeia e aumentar a chantagem sobre o povo grego.

Milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas de Atenas e das principais cidades gregas em defesa da política anti-austeridade do governo do Syriza e em resposta à chantagem da troika e do Eurogrupo.

Aspeto parcial da manifestação em Salónica – foto keeptalkinggreece

Nem a chuva nem a neve foram impeditivo a que muitos milhares de pessoas se manifestassem pela dignidade e em defesa da democracia.

As manifestações, convocadas por movimentos de cidadãos e divulgadas nas redes sociais decorreram em Atenas, Salónica, Patras e noutras cidades gregas.

Também em Portugal e noutras cidades europeias decorreram ações de solidariedade.

Para os próximos dias, nomeadamente para o próximo domingo estão convocadas ações de solidariedade com o povo grego e o governo do Syriza em Portugal e em diversos países da Europa.

Faixa na manifestação de Atenas

O assombroso silêncio no Brasil em torno do escândalo HSBC

Por Paulo Nogueira | Via DCM

Simplesmente inaceitável o silêncio no Brasil em torno do vazamento das contas secretas do HSBC na Suíça.

Passo pelos sites das grandes empresas jornalísticas e a cobertura ou é nula ou é miserável.

Os números justificariam barulho. Muito barulho. No caso brasileiro, são 8.667 contas num total de 7 bilhões de dólares sonegados.

Me chamou a atenção, também, a atitude dos colunistas. Onde a indignação? Onde a estridência habitual? Onde o sentido de notícia?

Passei no twitter de Noblat. Nos últimos dois dias, uma centena de tuítes. Zero sobre os chamados Swissleaks.

Também dei uma olhada em Reinaldo Azevedo, verborrágico, torrencial nos textos. Nada sobre o HSBC.

São dois entre tantos.

A ausência deles do debate mostra uma coisa que sempre tive clara. A valentia deles vai até onde não existe risco de publicar algo que contrarie interesses de seus patrões.

É o colunismo sabujo, o colunismo papista, o colunismo patronal – ou, simplesmente, o colunismo chapa branca.

E se algum patrão dos colunistas estiver na lista? Na Argentina, o Clarín encabeça o pelotão dos sonegadores.

Melhor, então, ignorá-la.

No mundo inteiro, jornais garimparam nomes de integrantes da lista. No Brasil, apareceu – parece piada de humor negro – com algum destaque um morto: o banqueiro Edmond Safra.

Graças a um site angolano, soube-se que o Rei do Ônibus do Rio, Jacob Barata, também está listado.

A última vez que vi Barata no noticiário foi no casamento de uma neta. Gilmar Mendes foi um dos padrinhos.

Imagine, apenas imagine, que haja consequências jurídicas para Barata, e que o caso chegue ao Supremo.

Como agiria Gilmar?

Jornalista, como pregava o maior de nós, Pulitzer, não tem amigo. Porque amizades interferem no noticiário.

Da mesma forma, juízes não deveriam ter amigos. Mas, no Brasil, têm.

Não me surpreende a mídia no escândalo do HSBC. Conheço-a bem para esperar qualquer coisa diferente.

Mas e o governo: não tem nada a dizer?

Estamos tão bens de dinheiro nos cofres públicos para desprezar a busca dos bilhões sonegados?

Não é o que parece.

Considere o que a Espanha está fazendo. O ministro das Finanças, Cristóbal Montoro, anunciou que estuda “medidas legais contra o HSBC por sua participação em fraudes fiscais, lavagem de dinheiro e outros atos criminosos cometidos por cidadãos espanhóis”.

Em 2010, o governo espanhol teve acesso a 650 nomes de pessoas com conta secreta no HSBC na Suíça.

Foi atrás de um por um. A família Botin, que controla o Santander, fez um acordo extrajudicial com o governo. Pagou 200 milhões de euros, cerca de 600 milhões de reais.

A oposição de esquerda na Espanha luta para que a legislação seja alterada para que sejam publicados todos os nomes de todos os envolvidos em evasão fiscal.

No Brasil, o quadro é completamente distinto – e para pior.

Pouco antes de Joaquim Levy ser nomeado ministro da Fazenda, o banco em que ele trabalhava, o Bradesco, foi pilhado numa história de sonegação no paraíso fiscal de Luxemburgo.

A Globo carrega uma espetacular história de sonegação já há dois anos – sem quaisquer consequências legais ou financeiras.

A Globo continua a receber seu mensalão publicitário como se honrasse todos os seus compromissos com o Tesouro.

Ou os espanhóis – e o mundo – estão errados, ou errados estamos nós.

Faça sua escolha.