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Brasil de 200 bilhões de barris

Por Paulo Metri | Via Correio da Cidadania

O setor do petróleo fornece um farto material para a constatação da ganância humana. Com a pretensão de trazer alguma explicação para o que acontece nestes dias com o Brasil, sem existir preocupação alguma da mídia para explicar, defendo a tese de que ocorreu uma rápida ascensão do nosso país no ranking daqueles atrativos para o capital internacional. Até 2006, era um país com abundância de recursos naturais, território e um razoável mercado consumidor. Mas ele não possuía petróleo em quantidade suficiente para se tornar grande exportador. Era fornecedor de minérios e grãos não tão valiosos no mercado internacional quanto o petróleo. Implícito está que o preço do barril irá subir brevemente para algum valor, pelo menos, em torno de US$80.

A partir dos anos 90, o Brasil perdeu graus de soberania e passou a ser um exemplar subalterno do capital internacional. Por exemplo, tem uma lei complacente de remessa de lucros, permite livre trânsito de capitais, não protege a empresa nacional genuína, tem uma política de superávit primário e câmbio que tranquiliza os rentistas, permite a desnacionalização do parque industrial, oferece a subsidiárias estrangeiras benefícios fiscais e creditícios, tem uma mídia hegemônica pertencente a este capital, que aliena a sociedade, e possui uma defesa militar incipiente. Assim, pode-se dizer que, após 1990, a sociedade brasileira passou a ter uma maior sangria de suas riquezas e seus esforços para o exterior. Este era o Brasil subalterno, que só tinha 14 bilhões de barris de petróleo, suficientes somente para 17 anos do seu consumo.

Em 2006, descobre-se o Pré-Sal, que pode conter de 100 a 300 bilhões de barris de petróleo, dos quais 60 bilhões já foram descobertos – e em menos de dez anos. Ao mesmo tempo, começou-se a recuperar a proteção à industria nacional, com a proibição da compra de plataformas de petróleo no exterior. Também, decidiu-se recompor as Forças Armadas, com o desenvolvimento de submarinos e caças no país, e, também, novos equipamentos de defesa para o Exército. Recentemente, decidiu-se desenvolver um avião militar de transporte de carga.

O Brasil, que já vinha participando do Mercosul, amplia sua interação soberana em outros fóruns internacionais, como a Unasul, a Celac e os Brics, contrariando interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Recentemente, um banco e um fundo monetário dos Brics foram criados. Ocorreu no período, também, a mudança da política externa do Brasil, que buscou a aproximação com os países em desenvolvimento da África, do Oriente Médio e de outras regiões, sem hostilizar os Estados Unidos, a Europa e o Japão. A presidente Dilma propôs aos países da ONU uma ação conjunta para conter a espionagem internacional, que tem participação da CIA e da NSA, do governo dos Estados Unidos.

Com a descoberta do Pré-Sal, abandona-se o modelo das concessões, que permitia a quase totalidade do lucro e todo o petróleo irem para o exterior. Adota-se o modelo do contrato de partilha para esta área, que é melhor do que a concessão. No contrato de partilha, uma parte adicional do lucro, acima do royalty, vai para o fundo social e parte do petróleo vai para o Estado brasileiro. Decidiu-se também escolher a Petrobras para ser a operadora única do Pré-Sal, o que é importante para maximizar a compra de bens e serviços no país. No leilão de Libra, foi formado um consórcio com a participação de duas petrolíferas chinesas, fugindo-se ao esquema de só participarem empresas ocidentais. No final do ano de 2014, quatro campos do Pré-Sal, que somam cerca de 14 bilhões de barris, foram entregues diretamente à Petrobras, sem leilão, o que contrariou as petrolíferas estrangeiras que desejavam vê-los leiloados.

A partir da descoberta do Pré-Sal, a Quarta Frota da Marinha dos Estados Unidos é reativada em 2009, o presidente norte-americano Barack Obama vem ao Brasil em 2011 e seu vice-presidente se transforma em figura fácil de ser encontrada aqui. Ele se reúne diretamente com a presidente da Petrobras, o que é muito estranho. O governo norte-americano procura levar a qualquer custo a presidente Dilma para uma visita oficial aos Estados Unidos, com direito a jantar na Casa Branca, considerada uma honraria sem igual. Por esta e outras razões, FHC gostaria muito de o Pré-Sal ter sido descoberto no seu mandato, mas ele só se preocupava em preparar a Petrobras para a privatização. Surpreendentemente, meu candidato a um prêmio das Nações Unidas para grandes promotores da paz no mundo, Edward Snowden, nos informa que até os telefones da presidente Dilma foram interceptados pela inteligência estadunidense.

O tempo passa e chega o momento de nova eleição presidencial no Brasil. O capital internacional de forma geral e, especificamente, o capital do setor petrolífero, com grande influência na Casa Branca, quiseram aproveitar esta eleição para mudar algumas regras de maior soberania, estabelecidas nos últimos anos, inclusive as do Pré-Sal. Além disso, o capital internacional quer eleger um mandatário do Brasil mais subserviente. Assim, explica-se a campanha de muito ódio e enorme manipulação executada pela mídia deste capital no período eleitoral. Possivelmente, a NSA e a CIA, utilizando empresas estrangeiras aqui estabelecidas, devem tê-las incentivado a contribuir com recursos para eleger os seus candidatos em 2014, formando uma bancada no Congresso Nacional que é um misto de entreguistas com alienados corruptos, porém, muito fiéis aos doadores de campanha.

Com o acontecimento independente da descoberta dos ladrões na Petrobras, aliás, muito bem-vindo pelos estrategistas do roubo do petróleo nacional, o terceiro turno da campanha presidencial tomou corpo na mídia, assim como a tarefa de confundir a população para acreditar que a Petrobras rouba dinheiro do povo e não são os ladrões ocupantes de cargos nela que roubam.

Com uma Petrobras fraca, de preferência até privatizada, fica mais fácil levar o petróleo do Pré-Sal. Um fato importante é que, no governo FHC, existiram denúncias que a Polícia Federal e o Ministério Público pareceram ser ineptos e a mídia criminosamente benevolente com o governo. Uma destas denúncias foi a de compra de votos para a reeleição, que, mesmo com um réu confesso declarando ter recebido dinheiro para votar a favor da reeleição, nada teve de apurada; já a mídia, deu divulgação mínima e o Ministério Público não apresentou denúncia à Justiça.

Enfim, para o bem ou para o mal, tudo mudou de figura. Morreu o Brasil de só 14 bilhões de barris de petróleo. Ele terá, brevemente, uma reserva de 200 bilhões de barris, que corresponderá a uma das três maiores do mundo e irá requerer muitas medidas de soberania, se é que a sociedade brasileira deve usufruir desta riqueza. Assim, agora, na visão do capital internacional, o Brasil não chega a estar se tornando um país antagônico, como China, Rússia, Irã e Venezuela, mas está criando regras e tomando medidas hostis a este capital. Está-se no estágio da busca da cooptação dos poderes e do controle da população pela mídia do capital.

Contudo, a população não está, na sua imensa sabedoria, acreditando tanto na mídia. Se a população não der apoio para o plano do impeachment da presidente, novas tramas poderão acontecer, como uma “primavera brasileira para tirar os ladrões da Petrobras do governo”. Eventualmente, será um golpe de Estado dado pelo Congresso com o apoio da mídia. O povo precisa não dar apoio à quebra do regime democrático e não apoiar também governantes que permitam a perda do Pré-Sal.

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Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania, acesse o blog o autor.

Paralíticos Gregos vs Donas de Casa do HSBC

Por Rui Dourado | Via Aventar

Ouvimos José Rodrigues dos Santos a fazer eco das vozes que apontam como principal problema da crise grega exemplos como o dos falsos paralíticos. O argumento cola bem quando se quer atiçar pobres contra pobres, mas a verdade é que o subsídio atribuído aos falsos paralíticos que enganavam fisco grego não se compara nem de perto nem de longe com o roubo gigantesco das “donas de casa” da HSBC. Dona de casa era uma das profissões virtuais declaradas por clientes do HSBC que na verdade eram industriais, artistas, jornalistas, princesas, traficantes de armas ou de droga. É esta diferença de campeonatos entre os paralíticos e as donas de casa que ajuda a compreender melhor a crise grega. As contas “especiais” (contas artilhadas para fugir ao fisco) do HSBC relacionadas com a Grécia ascendem a mais de 2,3 mil milhões de euros (~2,6 mil milhões de dólares). Por exemplo, um dos apanhados, o grego Lavrentis Lavrentiadis tinha sete contas no HSBC com ligações a outras contas bancárias (paraísos fiscais) onde detinha 4,6 milhões de dólares. O senhor Lavrentiadis não era paralítico, mas em 2012 foi acusado de fraude, lavagem de dinheiro, participação em associação criminosa e de emprestar a si próprio, cerca de 600 milhões de euros, através de um banco do seu próprio grupo. Esteve 18 meses em prisão preventiva e vai ser julgado em março deste ano.

Em Portugal, as denuncias de fraude favoritas dos ultraliberais são os beneficiários do rendimento de inserção, os desempregados e pessoas de baixa. São eles que destroem o estado, são eles que desmotivam a sociedade, não querem trabalhar, fomentam preguiça, etc. Ora, em média o rendimento de inserção é da ordem dos 90€ mensais. Só o montante total das contas especiais da HSBC relacionadas com Portugal ascendem a cerca de 850 milhões de euros, ou seja cerca de três vezes o orçamento de estado para o rendimento de inserção. E convém sublinhar que a fraude das contas especiais do HSBC é apenas uma pequena parte da fraude fiscal relativa a esse anos.

A grande preocupação dos ultraliberais são as migalhas, porque o bolo já é deles.

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Acesse o blog Aventar.

O euro em fase terminal

Por Jorge Bateira | Via Resistir.info

Um governo de ruptura deve, à cabeça, nacionalizar os bancos e instituir o controlo dos movimentos de capitais.

Quando participei no primeiro debate televisivo realizado em Portugal sobre o euro (“Prós e Contras”, 15/Abril/2013), afirmei que a moeda única iria acabar. Da mesma forma que a Inglaterra de 1931 não aguentou a política de austeridade imposta por um sistema monetário que excluía a desvalorização da moeda – no padrão-ouro, o reequilíbrio externo teria de ser alcançado por redução dos salários, a chamada “desvalorização interna” –, também nos nossos dias, um dos países sujeitos à política cruel imposta pela UE acabará por sair. O primeiro será a Grécia, os outros vão a seguir, ao ritmo do respectivo ciclo político.

Entretanto, o discurso do medo voltará às televisões. Dir-nos-ão que sair do euro é uma calamidade porque perderemos metade do poder de compra, que os bancos vão falir e perderemos as nossas poupanças, que o Estado não pagará aos funcionários públicos e pensionistas, que seremos excluídos dos mercados para todo o sempre e, argumento último de quem está inseguro, que a Alemanha nos invadirá para restabelecer a ordem. Do serviço público de televisão, gerido por comissários políticos, não se pode esperar uma informação isenta e fundamentada. Não haverá recolha de depoimentos de especialistas estrangeiros que ponham em causa o pensamento dominante, não haverá debate honesto com uma participação plural que ultrapasse o discurso partidário rotineiro. Dos canais privados também não podemos esperar que cumpram as exigências básicas de pluralismo, nem que as autoridades competentes o exijam. O que temos visto fala por si. Aliás, os analistas que ocupam o palco estão no bolso dos grupos económicos e da finança. Um governo de salvação nacional também terá de resgatar a comunicação social e pô-la ao serviço do interesse público.

Recordemos então algumas ideias simples que os portugueses não têm direito a debater nos media de grande audiência. Quando Portugal sair do euro, todos os contratos realizados sob jurisdição nacional ficam automaticamente redenominados em novos escudos, segundo a jurisprudência internacional ( lex moneta, 1 escudo = 1 euro). Assim, todos os empréstimos bancários, depósitos, salários, pensões, preços nas lojas, etc., passam a escudos e, a partir desse dia, o Estado apenas paga e recebe em escudos. O Estado fica sem problemas de liquidez porque os seus défices – necessários para estimular a economia – ficam cobertos por financiamento interno, quer do sector privado, que procura obrigações do Tesouro para aplicações seguras, quer do Banco de Portugal, a entidade pública que emite moeda. Portanto, sair do euro significa a libertação do país dos humores dos mercados financeiros. Quanto às necessidades de financiamento em outras moedas, os últimos dias mostraram–nos que os EUA estão dispostos a ajudar para evitar o recurso aos seus rivais. Note-se que os BRIC têm agora um banco que é alternativa ao FMI.

Um governo de ruptura deve, à cabeça, nacionalizar os bancos e instituir o controlo dos movimentos de capitais. Seria vantajoso comprá-los em bolsa, à cotação do momento, e proceder à sua recapitalização, tudo com emissão monetária. A inflação será o custo a pagar para recuperarmos a soberania. Mas será um custo transitório (inicialmente, cerca de 12%, muito menos nos dois anos seguintes) que pode ser distribuído com justiça social através de compensações a atribuir aos rendimentos mais baixos. A classe média/alta, vendo os seus desempregados recuperarem a dignidade de voltar a trabalhar em condições decentes, aceitará de bom grado alguma perda temporária de poder de compra. Como seria de esperar, o novo paradigma da política económica dará prioridade ao emprego, ao contrário da finança, que diaboliza a inflação e acha inevitável este desemprego típico dos anos trinta do século passado.

À medida que se forem abrindo espaços de debate público informado sobre o que significa sair do euro, os portugueses ficarão cada vez mais receptivos à proposta de uma Europa de países soberanos. Por muito que custe aos federalistas, não creio que os portugueses queiram viver num protectorado sujeito a diktats.

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Jorge Bateira é economista, coautor do blog Ladrões de Bicicletas.

Ato em defesa da Petrobras reunirá sindicalistas, artistas, intelectuais e movimentos sociais

Via RBA

Programado para terça-feira (24) na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio, ato resgata a imagem da empresa, alvo de uma campanha de desmoralização que prejudica a economia do país.

Refinaria Abreu e Lima, no Pernambuco: paralisação de obras prejudica trabalhadores e a economia do país

São Paulo – Um ato em defesa da Petrobras será realizado nesta terça-feira (24), no Rio de Janeiro, com a mobilização de sindicalistas, representantes dos movimentos sociais, estudantes, artistas, advogados, jornalistas e intelectuais.“Defender a Petrobras é defender o Brasil” é o slogan do ato, organizado pela CUT e pela Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Estão confirmadas as presenças dos escritores Eric Nepumoceno e Fernando Moraes, da jornalista Hildegard Angel, do cineasta Luiz Carlos Barreto, da filósofa Marilena Chauí e do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, além de lideranças sindicais, estudantis e dos movimentos sociais.

O evento, que será realizado no auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), integra uma campanha nacional em defesa da Petrobrás, que já teve início nas redes sociais, com a coleta de assinaturas de adesão ao manifesto, que será lançado oficialmente no dia 24.

“A investigação, o julgamento e a punição de corruptos e corruptores, doa a quem doer, não pode significar a paralisia da Petrobrás e do setor mais dinâmico da economia brasileira”, reitera o Manifesto em Defesa da Petrobrás e do Brasil, cuja íntegra pode ser acessada em http://www.fup.org.br/2012/assinatura-de-manifesto.

“É urgente denunciar, no entanto, que esta ação tem servido a uma campanha visando à desmoralização da Petrobrás, com reflexos diretos sobre o setor de óleo e gás, responsável por investimentos e geração de empregos em todo o País; campanha que já prejudicou a empresa e o setor em escala muito superior à dos desvios investigados”, afirma também o manifesto.

A campanha em defesa da estatal prosseguirá após o ato do dia 24, com atividades por todo o país. Uma manifestação já está agendada para o dia 13 de março, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Serviço
Ato em Defesa da Petrobrás
Dia: 24 de fevereiro de 2015
Horário: 18h
Local: ABI – Rua Araújo Porto Alegre, 71 – Centro – Rio de Janeiro

Grécia X Troika: confronto adiado

Por Antonio Martins | Via Outras Palavras

Desafiante, o ministro grego Varoufakis anuncia que não se curvará. Manterá a promessa?

Nas medidas que Atenas anunciará esta noite estará chave para saber se tremeu, diante da ditadura financeira. Embate convida a refletir sobre caminhos da transformação política.

Os analistas da política europeia, e os que acompanham as lutas sociais contra a ditadura das finanças, aguardam com expectativa um conjunto de medidas econômicas que o governo grego anunciará ainda nesta segunda-feira. O conteúdo deste “pacote” indicará se Atenas cedeu aos 19 ministros europeus, que se uniram há três dias para pressioná-la a desistir da rebeldia contra as medidas de “austeridade”; ou se, ao contrário, mantém a luta por resgatar os direitos sociais e a democracia, colocando-os acima dos interesses dos mercados financeiros. Examinar as circunstâncias que antecedem o anúncio das medidas é útil para compreender a situação concreta da Grécia e seu novo governo. Também ajuda a examinar os caminhos complexos das lutas anticapitalistas contemporâneas – em especial as que buscam enxergar dinheiro e dívida de forma não-convencional.

Eleito em 25 de janeiro, formado majoritariamente por um partido inovador denominado Syriza (sigla de Coalizão de Esquerda Radical), o novo governo grego entusiasmou os que buscam alternativas ao sistema quando adotou, logo após assumir, medidas corajosas. Suspendeu as privatizações em curso (de portos, aeroportos, estradas, uma empresas de energia elétrica e uma refinaria de petróleo). Anunciou a volta do fornecimento de energia para 300 mil famílias que ficaram no escuro por inadimplência. Propôs reverter a redução de mais de 20% no salário mínimo, adotada em 2010, por exigência dos credores, em contrapartida a um empréstimo de 250 bilhões de euros. Apresentou estas primeiras medidas como apenas o primeiro passo para algo maior: renegociar a dívida grega; rejeitar o acordo que hoje a representa (denominado “Programa de Assistência Econômica e Financeira”), e que dá à chamada Troika (União Europeia, Banco Central Europeu – BCE – e FMI) direito de intervir na política econômica do país.

Mas, aparentemente, Atenas tinha menos força do que pensava para alcançar este segundo objetivo. As primeiras medidas encantaram a esquerda, mas enfureceram a Troika. Na semana passada, duas reuniões do conselho dos dezenove ministros das Finanças da zona do euro (o chamado “eurogrupo”) procuraram enquadrar o Syriza. Os governos que tentam sufocar a dissidência grega lançaram mão de dois instrumentos.

O primeiro é o vencimento da dívida grega, que ocorre no próximo sábado (28/2). A falta de um acordo tornaria Atenas inadimplente. Duas semanas antes, o BCE agiu para tornar este evento dramático. Decidiu que, em caso de inadimplência, deixaria de oferecer, aos debilitados bancos gregos, a linha de crédito que os mantém à tona. A notícia precipitou os riscos de crise bancária. Desde dezembro, quando tornou-se clara a hipótese de vitória eleitoral do Syriza, os gregos ricos passaram a sacar maciçamente suas economias dos bancos, num movimento que converteu-se em avalanche na semana passada.

Realizadas em Bruxelas, terça e sexta-feira, as reuniões do “eurogrupo” foram, por isso, comparadas a negociações entre um refém e seus sequestradores. Dezoito ministros exigiam de Atenas a submissão cabal ao Programa de Assistência Econômica e Financeira. Sozinho, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, resistiu o quanto pôde.

Ao final, chegou-se a um compromisso complexo. Varoufakis aceitou uma prorrogação, por quatro meses, do Programa – o que o Syriza havia anunciado anteriormente que não faria. Porém, o fez em condições muito distintas das que prevaleciam até então. Nos termos em que foi redigido, o documento já não menciona a obrigação da Grécia a um “superávit primário” de 3% ao ano, que estrangularia as despesas públicas e as chances de enfrentar a “austeridade”. Além disso, não caberá à Troika – e sim ao governo grego – apresentar as medidas com as quais pretende assegurar a estabilidade financeira do país. Os 18 ministros irão se pronunciar amanhã – quando analisarão, via conferência telefônica, a proposta de Atenas. Em princípio, poderão rejeitá-la.

É este pacote que se aguarda, para as próximas horas. Ao falar aos jornalistas em Bruxelas, na sexta-feira, Varoufakis mantinha-se desafiante. Afirmou que não se deveria esperar, de seu governo, medidas praticadas pelos anteriores – como redução de gastos sociais ou aumento do imposto sobre valor agregado (semelhante ao ICMS brasileiro). Previu, ao contrário, ações para ampliar a cobrança de tributos sobre os ricos (atualmente, poupados pelo frágil sistema de arrecadação da Grécia) e para ampliar o combate à crise humanitária desencadeada pela “austeridade”.

A concessão parcial de Varoufakis decepcionou parte das correntes do Syriza. O deputado Manolis Glezos, que tem 92 anos e é um herói da resistência grega contra a ocupação nazista, propôs protestos contra a assinatura do acordo. A Plataforma de Esquerda, um grupo interno importante anunciou que os parlamentares associados a ela votarão, no Parlamento, contra o gesto do governo.

Mas se a atitude antecipada sexta-feira pelo ministro das Finanças for mantida hoje, quando o pacote de Atenas for finalmente apresentado, esta noite, é provável que esta oposição se amenize. Começará então uma disputa prolongada entre a Grécia e os que querem submetê-la. No confronto, ambos os lados estarão correndo contra o tempo. Fragilizados economicamente há anos, os gregos sofrerão desgaste pela incapacidade de cumprir todas as suas promessas. Em contrapartida, os demais governos europeus enfrentam resistência crescente às políticas de corte de direitos sociais e favorecimento à aristocracia financeira.

Aqui parece residir, aliás, a incógnita decisiva. Esta oposição europeia poderá converter-se em mobilizações sociais e em eleição de novos governos dispostos a desafiar a Troika? Se isso não ocorrer, os gregos terão pouca munição, diante de um adversário muito mais poderoso. Mas se forem capazes de manter a altivez até despertar as sociedades europeias de um longo imobilismo, a aristocracia financeira estará em apuros.

É como se a Argentina tivesse voltado para visão de 1960, diz Mujica sobre integração regional

Via Opera Mundi

“O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, afirmou presidente uruguaio, que está no fim do mandato.

Mujica diz que Argentina parece ter “retrocedido” para uma visão de 1960. Agência Efe

“A integração precisa uma liderança, e essa liderança se chama Brasil, mas a Argentina teria que acompanhar, e não acompanha nem um c…, pelo contrário, é como se a Argentina tivesse retrocedido para uma visão de 1960″, criticou duramente o presidente uruguaio.

A poucos dias de deixar o governo do país, Mujica analisou a situação atual do processo de integração regional encarnado em organismos como o Mercosul e a Unasul e considerou que existe “um grande desafio pela frente”.

O presidente do Uruguai também afirmou que os países mais integracionistas da região latino-americana são os “menores”, por “necessidade”.

Mujica questionou o papel que Argentina desempenha neste processo, ao afirmar que o país “se esquece da integração” porque “quando as coisas vão bem agarra para o outro lado”.

O chefe de Estado se referiu ao Brasil, Argentina e México como “os países determinantes da América Latina”, mas ressaltou que seus dirigentes “falam e assumem um discurso integracionista, mas do ponto de vista prático, estão intrometidos até as orelhas nas contradições do Estado nacional”.

“A Argentina termina sendo determinante em tudo. O que a Argentina fizer ou não fizer vai incidir no rumo que o Brasil toma”, considerou Mujica.

“Se não encontramos mecanismos que vão nos integrando, que possam nos dar uma presença internacional de peso, vamos continuar como folhas soltas no vento”, acrescentou.

Após cinco anos de governo, Mujica deixará o poder em 1º de março. Em seu lugar assumirá Tabaré Vázquez, que já presidiu o Uruguai entre 2005 e 2010 e venceu o segundo turno das eleições realizadas em 30 de novembro do ano passado.

Argenleaks, Politileaks e a marcha contra Cristina

Por FC Leite Filho | Via Café na Política

Amanhã, 18 de fevereiro, uma marcha estrepitosa, estimulada pelos setores concentrados da mídia e da economia, tentará minar e até destituir a presidenta Cristina Kirchner, se conseguir o nível de tumulto e comoção daquela de 11 de abril de 2012 que, em Caracas, depôs por 48 horas o então presidente Hugo Chávez. Em princípio, convocada por cinco promotores desavindos com o governo, a título de lembrar o primeiro mês da morte do promotor Alberto Nismman, ela foi logo instrumentalizada politicamente pelos Grupos Clarín, La Nación e Perfil, que controlam a mídia privada. A marcha de los fiscales (promotores), como se autodenomina, é considerada um desafio político tão inquietante como aquele da revolta do campo, que ameaçou a chefa do Estado argentino, pouco depois de ela haver assumido a Casa Rosada, em 2008, ainda que dois dos responsáveis pela convocação tenham sido envolvidos em processos de acobertamento da causa.

Neste contexto, os livros Argenleaks e Politileaks, do jornalista Santiago O’Donnel, traduzem-se numa referência para entender o processo argentino e latino-americano na sua relação com os Estados Unidos e o chamado mundo ocidental. Eles são considerados de suma importância, por desvendarem, através da publicação, edição e análise dos cables (documentos secretos) da embaixada estadunidense em Buenos Aires. É que eles indicam o nível de relacionamento, as opiniões e mesmo delações feitas pelas principais figuras da oposição, além de donos, editores e repórteres especiais de jornais, que costumam frequentar a sede da representação na Avenida Colômbia, 4300, ou trocar ideias com seus diplomatas e agentes secretos, em lautos almoços e jantares, em residências privadas ou nos finos restaurantes portenhos.

O jornalista Santiago O’Donnell, editor internacional do Página 12, recebeu, pessoalmente, em Londres, das mãos de Julian Assange, diretor do Wikileaks, um pen-drive de 2.700 documentos (cables, telegramas, emails) trocados pela Embaixada Americana, em Buenos Aires, com a sede do Governo em Washington. Ele, na verdade, integra o pacote de mais de de dois milhões de documentos publicados pelo site, em 2012, com grande repercussão internacional. O que O’Donnel encontrou nesse minúsculo dispositivo foram provas cabais daquilo que era simples voz corrente: a sistemática intromissão dos EUA nos assuntos internos daquele país, começando pelo tutelamento da mídia hegemônica, entidades empresariais, setores da sociedade e dos principais líderes oposicionistas com vistas a sabotar e torpedear as iniciativas envolvendo a emancipação e a soberania do país. No caso específico do ex-procurador Alberto Nisman, essa intromissão, que também arrolou os serviços secretos da CIA, do israelense Mossad e do britânico MI6, resultaram no prolongamento indefinido das investigações sobre o atentado da AMIA, onde morreram 85 pessoas e outras 252 ficaram feridas. Isto foi ao ponto de, até hoje, passados 21 anos, de marchas e contramarchas, não produzir qualquer conclusão confiável, além de continuar a produzir mais controvérsias, destruição de reputações de juízes, promotores, jornalistas e mortes, como a de Nisman, encontrado morto numa poça de sangue no banheiro de seu apartamento de Buenos Aires, no último dia 18 de janeiro.

Desse modo, os documentos do Wikileaks renderam a O’DOnnell dois livros “Argenleaks” e “Politileaks”, escritos em espanhol, ainda não traduzidos no Brasil, mas que já podem ser baixados, ao preço de dez dólares, pelo celular ou micromputador, nas lojas da Apple e da Amazon. Eles são agora considerados essenciais para entender o momento do vizinho do Prata, sobretudo o “Politileaks”, o último a ser lançado, já que escarafuncha a relação promíscua de Nisman, que poucos dias antes de sua morte, tinha denunciado a presidenta Cristina Kirchner e o chanceler Héctor Timerman de acobertarem os cidadãos iranianos acusados de autores do atentado da AMIA .

O Café na Política entrevistou O’Donnell, quando ele relatou sua experiência no trato com esses documentos, num vídeo através do Skype, ainda em preparação, assim como analisa a situação deflagrada pela súbita morte do procurador, anunciada em 18 de janeiro último. O vídeo, que ainda depende de um contato final com O’Donnel, será apresentado neste espaço, e transmitido pela TV Cidade Livre de Brasília, Canal 12 da NET (DF) e postado no Youtube. Enquanto isso, convidamos o leitor a apreciar algumas das conclusões do escritor argentino, que ainda teve uma experiência de quatro anos de repórter policial no Washington Post e no Los Angeles Times.

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PS Desenvolvimentistas: O doutor em economia e associado, professor Adriano Benayon muito apropriadamente comentou este texto.

Realmente valeria ver o Politikleaks.

De qualquer forma, os antecedentes conhecidos da intervenção imperial, nos mais diversos países, de todos os continentes – além do que vem fazendo o governo argentino, para ter um pouco mais de autonomia em setores importantes da economia e dos próprios poderes públicos – levam à conclusão de que, mais uma vez, a oligarquia angloamericana se vale do terrorismo de Estado, com a ação dos serviços secretos a seu serviço, para gerar crises políticas destinadas a controlar por inteiro os países visados.

Isso é confirmado também pelo resumo de Leite Chagas das informações em poder de G. O’Donnel.