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Ataques aéreos no Iêmen deixam 39 mortos em 24 horas

Via AFP

Pessoas feridas transportadas em caminhonete no dia 26 de março na cidade de Aden, sul do Iêmen. AFP / Saleh al Obeidi

Pelo menos 39 civis morreram em mais de 24 horas de bombardeios aéreos, liderados pela Arábia Saudita, contra os rebeldes xiitas no Iêmen, informou o ministério iemenita do Interior.

Doze vítimas faleceram em um ataque aéreo contra uma base militar ao norte de Sanaa, que atingiu áreas residenciais próximas, segundo fontes do ministério, que está sob controle dos rebeldes xiitas huthis.

O ataque, durante a noite, tinha como alvo a base militar de Al-Samaa, utilizada por unidades do exército que estariam sob as ordens do ex-comandante das Forças Armadas Ahmed Ali Saleh, suspeito de uma aliança com os rebeldes xiitas.

Ahmed Ali Saleh é filho do ex-presidente Ali Abdallah Saleh, forçado a deixar o poder em 2012, após 33 anos de governo, e acusado agora de uma união com os rebeldes.

Na manhã desta sexta-feira, três ataques aéreos tentaram atingir o complexo do palácio presidencial em Sanaa, que os rebeldes tomaram no mês passado, de acordo com testemunhas.

Ao leste da capital, na província de Marib, o acampamento de uma brigada do exército leal ao ex-presidente Saleh também foi bombardeada.

Um oficial do exército informou à AFP que a coalizão liderada pelos sauditas atacou um depósito de armas em um acampamento utilizado por tropas leais ao ex-presidente Saleh, na periferia sul de Sanaa.

O ataque provocou dezenas de vítimas, segundo a fonte, mas a informação não foi confirmada por uma fonte independente.

A operação militar “Tempestade decisiva” começou na madrugada de quarta-feira para quinta-feira, com ataques aéreos sauditas contra diversas posições dos huthis.

Com a intervenção, a Arábia Saudita, à frente de uma coalizão de 10 países que conta com o apoio logístico e de inteligência dos Estados Unidos, deseja ajudar o presidente iemenita reconhecido pela comunidade internacional, Abd Rabbo Mansur Hadi.

O presidente, que em um primeiro momento abandonou a capital Sanaa para refugiar-se no sul do país, chegou na quinta-feira em Riad.

Rodrigues alega sigilo para não entregar nomes do HSBC. Sigilo é da fonte, não da informação

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

Diz o Artigo 5° , inciso XIV, da Constituição brasileira  que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. Portanto, temos uma proteção constitucional ao trabalho da imprensa que não existe nem mesmo nos Estados Unidos, onde, recentemente, a Suprema Corte derrubou a interpretação de que a Primeira Emenda da Constituição garantia o sigilo da fonte jornalística, ao permitir o seguimento do processo contra Judith Miller, do New York Times, e Matt Cooper, da revista Times, que lhes exigia o nome do informante que revelara a identidade de uma agente secreta, Valerie Plane.

O sigilo da fonte é indispensável ao exercício de minha profissão e deve ser preservado custe o que custar.

Mas a recusa de Fernando Rodrigues, ontem, na CPI do HSBC em fornecer a lista dos apontados como donos de contas secretas na Suíça, é obvio, nada tem a ver com sigilo da fonte. E não há, nem pode haver, sigilo sobre os dados de que dispõe o jornalista, até porque não há sigilo algum a preservar sobre a fonte das informações: é Hervé Falciani, ex-funcionário do banco, quem divulgou os cadastros de correntistas  e os entregou aos jornalistas do Le Monde, que forneceram cópias ao ao governo francês e a um consórcio de jornalistas, que os repassou a Fernando Rodrigues.

Portanto, se as fontes são conhecidas de todo o mundo, qual a razão de recusar sua entrega ao órgão de investigação do Congresso?

Proteção do “sigilo da fonte” é que não pode ser.

Não existe, nem poderia haver, sigilo sobre informação. Ninguém tem o direito de esconder, para uso próprio – ainda que profissional – informação sobre indícios de crimes, neste caso de natureza fiscal.

Isso pode ser comprovado de maneira claríssima.

Imagine que eu, profissionalmente, receba a informação de vários possíveis homicídios. Tenho o direito de resguardar a origem da informação, jamais o conteúdo dela. Isso seria, na prática, acumpliciar-me aos eventuais assassinos. Tenho o dever de publicá-la, e na sua inteireza. Investigar se houve, de fato, os crimes é atribuição estranha ao jornalismo e eu sequer tenho o direito de dizer ao delegado: olha, eu lhe dou a informação de alguns, que envolvem pessoas “de interesse público”.

As exceções ao dever de testemunhar sobre o conteúdo só se aplicam àqueles que receberam a informação da parte que, potencialmente, pode ser punida pelo crime: o padre, o advogado, o contador ou a parentes. Rodrigues não foi informado pelos potenciais criminosos nem é parente deles.

Seu direito (e seu dever) é o de preservar o sigilo da fonte e que, neste caso, não existe.

A interpretação mais elástica que consigo alcançar seria a de entregar os nomes, mas não os valores, em nome de uma heróica defesa do sigilo bancário – o que nem é sua obrigação profissional.

Porque, embora sequer esteja expresso na Constituição, o sigilo bancário refere-se aos dados sobre a movimentação financeira ou informações particularíssimas (existência de mútuos, bens privados, fianças, etc) dos clientes dos bancos, não à existência de contrato entre fulano e o banco X.

Tanto não é que o “sigilo bancário” estaria sendo violado cada vez que se emitisse um talonário de cheques ou um cartão bancário, onde constam nome, agência e número da conta daquele correntista.

De qualquer forma, toda a argumentação jurídica é desnecessária porque Rodrigues não se apega a nenhuma questão de princípio, mas ao seu julgamento de conveniência e relevância para dar publicidade a este ou aquele nome.

Mas é um retrato terrível de como a imprensa, que deveria ser um instrumento de luz sobre o sombrio mundo da sonegação e do escondimento da riqueza, usurpou a condição de grande tribunal do país,  denunciando, julgando e condenando segundo seus próprios critérios e apenas eles.

PS: Porque não estendo estes conceitos aos jornalistas de O Globo que receberam de Rodrigues os dados? Por terem recebido a informação dele e sob condições de seguirem as regras que ele impôs. Compreendo a dificuldade ética de fazerem o que sua “fonte” não faz.

Diálogos Desenvolvimentistas: Manifestações, coxinhas e interesses escusos

Integrantes do Movimento Brasil Livre.

O cenário global de desestabilização, crise do capital e decadência das antigas potências é de complexidade notável e neste diálogo os associados travaram um debate que ensaia um sentido geral dos acontecimentos. Confira as argumentações.

Tania Faillace – Sei que desde 2013, por ocasião das manifestações de rua, que foram
orientadas desde os Estados Unidos, através do Facebook, e seguem o padrão estabelecido pela Escola da Revolução, na Sérvia, que antes se chamava Otpor, e agora Canvas, e que até aquele ano havia preparado intervenções em 35 países. Foi organizada e financiada pela CIA, até que andasse com seus próprios recursos (essas intervenções são bem pagas por uma das partes em litígio), e se gaba de ter sido responsável pela “primavera árabe” e o que se seguiu.

As manifestações do dia 15 tiveram outro patrocínio, embora os fins sejam convergentes. Foram realizadas em intenção às investigações que chegavam muito perto dos cofres de tesouro da Suíça.

Lembrem que seus financiadores foram empresários ligados a uma transnacional da cerveja, com sede na Suíça, casualmente. Interbev, HSBC…

Rennan Martins – As movimentações de junho de 2013 iniciaram com pautas progressistas, eram protestos com alguns milhares de integrantes que queriam deter o aumento das passagens e promover a discussão sobre o acesso à cidade e a tarifa zero. Tanto o é que o próprio Movimento Passe Livre nasceu no Fórum Social Mundial.

Depois que a inteligência notou que era possível manobrar a pauta e fez uso de sua imprensa para isso, daí virou aquilo que vimos, um monte de coxinhas de verde e amarelo indignados “contra a corrupção”, tomando vodka com energético e achando que manifestação era micareta.

No dia em ocupamos o Congresso Nacional a indignação era principalmente contra a brutalidade policial e a manipulação dos acontecimentos pela imprensa, que mostrava os MPL como baderneiros enquanto víamos vídeos em que ficava claro que a PM estava surrando os cidadãos. Fizemos também diversas palavras de ordem contra figuras como Marco Feliciano, Bolsonaro e políticos fisiológicos como Renan Calheiros.

Na segunda manifestação tudo já havia mudado, a mídia falava de protestos cívicos e manobrava pra empurrar sua agenda com base nesses protestos e aí sim testemunhei que aquilo tinha se tornado algo parecido com o que ocorreu no último dia 15.

Tania Faillace – Você não está sabendo de toda a missa, porque foi leitor e espectador da mídia. Quem convive com os movimentos sociais, sabe quando há novidades.

Essa história das passagens é uma espécie de senha identificadora.

Entre tantos problemas sociais tão sérios, por que o destaque à passagem de ônibus, quando já existe o vale-transporte e montoeiras de isenções para os mais variados tipos de usuários? Por que não o vale-moradia? O vale-refeição? O vale-farmácia? O vale-material escolar?

Porque é uma reivindicação fácil, e não envolve projetos ou programas públicos, altos financiamentos, esquemas especiais. Então é fácil de montar e desmontar. Nem mesmo exige a elaboração de propostas técnicas, planilhas de custo, etc.

Sem falar que a maioria desses jovens têm carro próprio.

Mas minhas informações privilegiadas decorrem de que eu conheço pessoalmente vários deles em minha cidade, e acompanhei o início das manifestações antes que se tornassem… hum, estranhas, com aquele negócio das máscaras, e uma série de outros detalhes. E eles, de início, estavam muito vaidosos de terem “amigos” nos Estados Unidos, que se davam ao trabalho de orientá-los. Então falavam livremente. Devem ter sido repreendidos depois e aprenderam a calar-se.

Eis outra peculiaridade da cultura brasileira: as pessoas gostam de falar. Nem precisa ser delação premiada.

Rennan Martins – À época eu já acompanhava tanto a grande mídia quanto a alternativa, desvinculada dos interesses do capital.

Acho um erro deslegitimar a pauta do transporte público porque ele é sim precário, caro e até hoje só serve pra levar e trazer os cidadãos do trabalho.

Aqui em Brasília mesmo se você quer sair e voltar tarde ou precisa de carro particular ou muito dinheiro para pagar um táxi.

Além disso temos, em todo o país, a Máfia do Transporte Público que se alia a oligarquias locais via financiamento de campanha, elegendo e comprando seus vereadores e prefeitos que sempre aumentam o aporte de dinheiro público e as tarifas sem contrapartida alguma das concessionárias. Na própria lista do HSBC está o senhor Jacob Barata, empresário antigo de ônibus do Rio de Janeiro, isto mostra com clareza o quão saqueador é o esquema.

Minha tese é de que houve um movimento espontâneo de pauta legítima que depois foi manobrado, aliás, os serviços de inteligência são experts em se aproveitar de problemas internos para avançar com sua agenda, não sei o que há de errado nessa possibilidade.

Tania Faillace – Sim, mas não é o único problema. E não se resolve com tarifas reduzidas, mas com uma política de transporte coletivo que também seja público. É esse um dos nós, aliás, o sucateamento da frota pública para sua compra barata pelo privado. O resto é cortina de fumaça.

O que falei é que é uma coisa você saber das coisas porque lê muito, visita muitos sites, e outra, quando você é militante de rua, participa de reuniões com as pessoas, e sabe como as coisas se colocam na vida real, conhece a formação dos grupos, a influência dos partidos, e até das empresas de transporte no conjunto.

O caso é que essa senha é fácil. Por isso pegou desde a Mídia Ninja até o Xuí. Não é local, é gringo esse movimento, e tem a ver com os coxinhas, sim, embora sejam construções diferenciadas (Guerra Assimétrica), para usos diferenciados para públicos diferenciados, que ora estão com os invasores de terrenos PÚBLICOS (nunca invadem terrenos privados), ora com as passagens que nenhum trabalhador usuário de ônibus aprova e acompanha (fica furioso com a demora nas viagens, a perda de tempo) e mais ainda, quando esses “bonecos” impediram a audiência pública onde a população real, dos bairros, teria a oportunidade de falar.

Não se deixem mistificar, porque, quando acordar, sofrerá muito mais. Nesse melting pot tem até uns darks, Ongs, e obviamente, também uns coxinhas. Posso lhe garantir que essas não são cabeças de trabalhadores.

André Luís – Desconfiem dos governos que ficam falando em ordem e em regularizar o transporte público, estes são os verdadeiros culpados pelo caos na mobilidade urbana, aqui no Rio, essa crise da mobilidade urbana começou com a perseguição aos motoristas de vans e acusações falsas contra trabalhadores os associando a milicianos, esta campanha levou ao caos na mobilidade urbana, pois aumentou o preço das passagens e piorou o serviço público, tente aqui no Rio chegar em casa depois de determinado horário, você não consegue por falta de transporte.

Tania Faillace – A bagunça é um dos métodos do neoliberalismo anarquista para chegar e dominar.

É preciso que a sociedade esteja dividida e em confronto caótico, para que os espertos tomem conta. Essa é uma velha estratégia.

Na ditadura, apesar da repressão, conseguiam-se manter Grupos de Discussão e Trabalho, e manter acesos o estudo, a pesquisa, e a experimentação. Bautista Vidal viveu e trabalhou nesse período.

Nesse sentido digo que o neoliberalismo é pior que o próprio fascismo, porque propõe a desorganização social, a perda de organicidade de uma sociedade e suas instâncias de organização e atuação.

O transporte público, como seu nome indica, deveria ser objeto de políticas públicas, em termos de planejamento racional, em modalidades, trajetos, periodicidade. Não pode ser produzido a partir de demandas pontuais, ou da vontade de empreendedores particulares.

O empreendimento particular, em princípio poderia participar, mas de acordo com as diretrizes de uma política pública de mobilidade urbana, em que todos participassem para estabelecer prioridades e diretrizes gerais.

Assim, a iniciativa privada que se apresentasse, se apresentaria já preparada para preencher alguns dos nichos sobrantes e dentro de suas especificidades e exigências.
Hoje ocorre o contrário.

É a essência do neoliberalismo – que antes se chamava capitalismo selvagem. Mas de selvagem nada tem, porque é muito premeditado para retirar poder e iniciativa do poder público político, e consequentemente, do povo que o elege.

Heldo Siqueira – O verdadeiro motivo das manifestações está em segundo plano. Não interesse para a direita. Podia ser uma micareta no lugar das passeatas que faria o mesmo efeito!

Entendo que o diversionismo é realmente a estratégia. É traiçoeira mas com um ponto fraco (desde que se entenda o debate): abre espaço pra esquerda utilizar o mesmo discurso difuso sobre corrupção para fazer discutir efetivamente o tema. Mas isso não é o suficiente!

O importante é identificar os interesses, trazê-los às claras e o combatê-los.

Tania Faillace – Os interesses podem dividir-se em vários níveis e conforme os atores.

No que se refere à pressão imediata contra a Dilma é no sentido de que afrouxe as investigações, e a divulgação dos nomes dos implicados, e sirva de uma vez a pizza que os citados ambicionam.

Também não se deseja que venham à tona todas as ilegalidades procedidas durante o processo de privatizações e desnacionalizações do período Fernando Henrique Cardoso, que incluiriam gente muito importante, daqui e do Além Mar, inclusive das Sete Irmãs do Petróleo, além do Soros, e indo mais longe, se puxariam os negócios que interessam também ao Reino Unido e outros amigos.

Nunca deixem de lembrar que temos 26 bases militares norteamericanas a nossa volta; a IV Frota custodiando o pré-sal de norte a sul; a mesma IV Frota que pretende um porto especial nas costas uruguaias junto ao Brasil; que há uma base da Otan nas ilhas Malvinas, dotadas de artefatos nucleares; que deve ser construída uma nova base militar norte-americana no Paraguai, próxima à Hidrelétrica de Itaipu.

Os interesses são PETRÓLEO e ÁGUA, além de terras raras, que são notáveis em Raposa do Sol, nação ianomâmi que o Príncipe Charles forçou Lula a desmembrar de Roraima em 2002.

Já levantei o caso da Coca-Cola roubando água do Aquífero Guarani, e remetendo-o por tubulações a navios-tanques nos portos catarinenses, o que foi descoberto há uns cinco anos ou mais atrás, por ocasião daqueles desastres catarinenses, com enchentes e desmoronamentos, o que descobriu as tubulações. Não sei se foi feita uma denúncia e encetado um processo contra ela, pois justificaria que fosse expulsa do País, o que a Bolívia fez: tocou Coca-Cola porta a fora.

Além disso, a Chevron foi flagrada pela Petrobrás, roubando petróleo do pré-sal, e a Dilma a expulsou do Brasil – o mesmo que fez Correa, quando a empresa poluiu a Amazônia equatoriana. Já se vê que essas empresas não têm motivos para gostar de nós, nem da nossa presidente, que mostrou bastante determinação e iniciativa.

Heldo Siqueira – Pois é, contra esses interesses capitalistas que se está brigando. Sem grana esse milhão de coxinhas viram meia dúzia de risoles de azeitona.

Tania Faillace – Sim, é por aí. O problema é que o povo brasileiro não tem consciência disso.

Acho que a primeira medida seria pôr a mão na grande imprensa e obrigá-la a se comportar bem. Critique o que criticar, mas abra espaço para o contraditório com o mesmo destaque.

Essa regra já existe em termos de imprensa, não sei porque não é usada.

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Tania Faillace é jornalista e escritora.

Rennan Martins é jornalista e editor do Blog dos Desenvolvimentistas.

André Luís é economista e funcionário do BNDES.

Heldo Siqueira é mestre em economia e professor da Cândido Mendes.

Diálogos Desenvolvimentistas: O rebanho do Capital e a nova ordem mundial

Movidos pelo artigo intitulado Sobre como o capital aprendeu a se manifestar, do economista e associado Heldo Siqueira, os também integrantes da ADB, Adriano Benayon, doutor em economia e Tania Faillace, jornalista e escritora, teceram suas impressões e complementos sobre a dinâmica do Capital imperialista e seus projetos de domínio global.

Adriano Benayon – Não é o capital que se manifesta. Ele faz o seu gado manifestar-se para alcançar os fins, bem concretos que objetiva: saquear a economia do País, como vem fazendo em escala crescente, arrebatar o pré-sal e talvez a Petrobrás de quebra, eventualmente pôr no Executivo uma direção ainda mais submissa e por aí vai.

Eu subscreveria as palavras da Tania sobre os métodos dos concentradores capitalistas, inclusive quanto à bagunça que promovem, bem como o interesse deles em desestruturar a sociedade.

Apenas, mais uma vez, proponho que se dê o nome aos bois: não é o neoliberalismo. São os banqueiros, os cartéis industriais, em geral transnacionais. O neoliberalismo não é coisa alguma concreta, não é imputável: é só uma teoria, a teoria que muita gente, especialmente da esquerda, diz ser a da direita “liberal”, i.e., a não assumidamente totalitária (não-totalitária para outros verem, pois os ingleses ou angloamericanos são eles).

Devemos, a meu ver, negar que o que esteja em prática no Brasil seja liberal. Não é liberal. É intervencionista, dirigista. Só que muitos da esquerda desejam, com razão, que o Estado seja dirigista, para corrigir as desigualdades sociais, promover o desenvolvimento através dos investimentos públicos, política de defesa da concorrência etc., e se acostumaram a ver a oposição dos beneficiários da concentração e do saqueio ao dirigismo, ao intervencionismo para esses fins.

Mas os concentradores não são nada, do ponto de vista doutrinário: eles, piores que feras predadoras, só cuidam de acumular mais recursos e mais poder, e sem o cuidado das feras de não acabar com a caça.

Portanto, na prática, são protecionistas quando se trata de defender seus mercados cativos e liberais quando desejam penetrar nos que não dominam. São intervencionistas para fazer que o “governo”, sua marionete, estabelece, no Brasil, juros absolutamente absurdos, cuja composição basta para arrasar definitivamente a economia, se perdurar mais alguns anos. Também são intervencionistas quando fazem os Tesouros e os BACENs nos EUA e na Europa salvarem os bancos delinqüentes e aproveitadores da farra dos derivativos que desembocou no colapso financeiro. São intervencionistas no Brasil quando estabelecem favores fiscais e subsídios incríveis, em todos os níveis da Federação, em benefício de seus cartéis industriais transnacionais.

Já disse que não estou insistindo nesta ordem de ideias por diletantismo, ou meramente por prazer intelectual. Penso que estamos precisando urgentemente de ampliar o espectro dos que compreendem o que está em jogo. Não conseguiremos nem sequer iniciar as conversas, se não focarmos as questões no seu aspecto real, substantivo. Abordando-as sob óticas ideológicas, o império continuará triunfante, assistindo de camarote as brigas irreconciliáveis de direita e esquerda, socialistas e liberais etc., enquanto mete a mão sem qualquer restrição.

Voltando à desestruturação, à bagunça, o que me parece importante estar bem presente nas consciências é que as manifestações de rua são telecomandadas pelos concentradores para obter mais castanhas com as mãos dos gatos que vão às ruas, juntamente com as mãos de juízes e parlamentares, como antes também com as mãos de chefes militares.

Isso não quer dizer que não haja razões de sobra para o descontentamento popular: é só ver as lastimáveis infraestruturas de transportes, de energia etc., sem falar na elevação dos preços e da perda de empregos, já em curso e com tendência de aumentar aceleradamente.

Se Dilma tem culpa ou não, nem é muito relevante a esta altura. Ela tem muita responsabilidade, pelo simples fato de ocupar a presidência, mesmo que o poder real desta seja muitíssimo inferior ao da rainha Elisabeth (esta, ao contrário do que vivem repetindo, tem mais poder que o primeiro-ministro e parlamento, eleitos pelo dinheiro, através do povo).

Claro para mim e para muitos de vocês que o atual caos deriva principalmente de ações e efeitos do entreguismo acumulado ao longo de mais de sessenta anos, pós Getúlio, a que devemos adicionar mais cinco do período Dutra (1946-1950). Claro que a coisa deu saltos qualitativos para o abismo por meio de Collor e FHC. Mas como ter os olhos e os ouvidos do povo para nós nos explicarmos tudo isso.

Em resumo, Lula e Dilma resolveram assumir a presidência e fizeram os compromissos ditados pelos concentradores de continuar o essencial da política entreguista. Com isso guardam em suas mãos a bomba-relógio, cuja pressão megatônica só faz crescer, enquanto a hora da explosão se aproxima.

Tania Faillace – A doutrina de que falo é divulgada por fóruns especiais universitários e clubes da juventude, chamados de Clubes da Liberdade, e usa como inspiradores Von Mises e Ayn Rand. Não é coisa vaga, é uma doutrina bem estruturada. Usa o termo neoliberalismo anarquista para significar que é contra a instituição Estado, e as constituições nacionais.

Pretende a liberdade total dos empreendedores, sem regulamentos, sem regras, sem leis.
Já assisti a seus eventos, que são disseminados por vários países, têm a participação de altas personalidades internacionais, e são sustentados pelas corporações transnacionais.

Também os EUA serão fatiados em territórios sem identidade, mas num futuro a médio prazo. Como venho insistindo, esse ideário vem sendo partejado desde o Tratado de Bretton Wood, e é discutido e elaborada sua estratégia nos encontros de instâncias como o Clube de Bilderberg e o Clube de Roma, tendo seus membros aproveitado algumas ideias do nazismo dos anos 30 e 40, mas desenvolvidas no sentido do anarquismo institucional. De momento seus carros chefes são os governos dos EUA, Reino Unido, Canadá e Israel, como fiel executor, que terá como recompensa vastos territórios da América do Sul, notadamente da Argentina.

Há, porém, divergências entre esses atores. Temos agora a picuinha de EUA com a União Européia. A Inglaterra querendo associar-se ao Banco Asiático, que deve fazer concorrência ao FMI e seus derivados. O bate-boca de Obama com Alemanha, ameaçando-a de deixá-la ser palco de terrorismo, sem avisá-la, e a queda quase imediata de um avião alemão, provavelmente por sabotagem de terra, já que, com a mania dos controles informáticos nessas naves, elas já não têm navegadores visuais e operação mecânica, bastando cortar a comunicação informática por meios eletrônicos, que qualquer avião cai imediatamente.

De que terão ameaçado o governo brasileiro? Do mesmo que ameaçaram o governo alemão: atentados terroristas. Há grupos terroristas comandados por CIA e Mossad espalhados por todos os continentes, que podem ser ativados a qualquer comando via celular, inclusive no Brasil.

De minha parte, eu apostaria em esclarecer a opinião pública, não deixando pedra sobre pedra. Mas… através de qual veículo que o povo ouve, assiste e acredita? O Jornal Nacional? A situação veio consolidando-se desde o governo Sarney, após a morte provocada de Tancredo Neves. Sarney acabou com os órgãos estratégicos de desenvolvimento do Brasil: SUDAM, SUDENE, DNOS, DNOCS, BNH, e nem lembro o resto. FHC entregou as maiores empresas brasileiras, e inclusive a telefonia (!), que é a pedra de toque da sociedade pós-moderna. Falta mais o quê?

A onda investigativa é uma estratégia para tentar imobilizar os bandidos, e se possível tirá-los de cena. Mas não podemos esquecer que também o Crime Organizado, – dentro do qual o Narcotráfico, que tem sua bancada no Congresso, – joga pesado nessa conjuntura. Daí a insistência na liberação das drogas, para poder universalizar seu uso desde a infância. E a tolerância com o proxenetismo homo e heterossexual, que também é terreno do Crime Organizado, o qual, igualmente lida com tráfico de pessoas, e de órgãos.

Não se trata de picuinhas da política doméstica, mas dos grandes movimentos geopolíticos de nossa era de crise mundial econômica e política e social, devastação ambiental, e aquecimento global, sendo que tudo isso está intimamente relacionado.

Tomem tento, pessoal. O negócio é sério. Não é mais hora para quiproquós, melindres e mal-entendidos.

EUA eliminam empresas, indivíduos e barcos de Cuba de lista de sanções por terrorismo

Via Opera Mundi

Retirada das sanções não significa, no entanto, que Cuba saiu da relação de Estados patrocinadores do terrorismo elaborada pelo Departamento de Estado.

O governo dos Estados Unidos retirou nesta terça-feira (24/03) as sanções contra 45 companhias, indivíduos e embarcações de Cuba por o que Washington chamava de “apoio ao terrorismo ou ao narcotráfico”, em um novo passo para suavizar as restrições à economia cubana, segundo o processo de aproximação bilateral. Foram eliminados da lista seis indivíduos, 28 entidades e 11 embarcações.

A retirada das sanções não significa, no entanto, que Cuba saiu da relação de Estados patrocinadores do terrorismo elaborada pelo Departamento de Estado, medida que o governo cubano reivindica e que os Estados Unidos ainda estão avaliando. A inclusão de Cuba nesta relação é um dos argumentos que Washington utiliza para recrudescer a política de sanções econômicas e de perseguição internacional dos ativos da ilha e é parte do bloqueio econômico imposto ao país há mais de meio século.

Retomada das negociações gerou expectativas sobre futuro, sobretudo econômico, de Cuba. Agência Efe

Várias das empresas têm relação com a indústria turística de Cuba, como a Caribbean Happy Lines e a agência de viagens Guama; ou com atividades pesqueiras e navais, como a Abastecedora Naval e Industrial e as Pescados e Mariscos do Panamá. Mais de 30 dos 45 indivíduos, entidades e navios retirados da lista são registrados em território panamenho, mesmo procedendo de Cuba.

As sanções impediam que indivíduos ou entidades americanas realizassem transações financeiras com as pessoas e empresas afetadas, e congelavam qualquer ativo que pudessem ter sob jurisdição americana.

A retirada faz parte de “uma revisão interna e está de acordo com a linha política do presidente (Barack Obama) em relação a Cuba”, afirmou à Efe o porta-voz do Tesouro, que pediu o anonimato.

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(*) Com Efe

Na França, os candidatos financiam suas campanhas

Por Alice Fabre e Alexandre Pouchard | Via Le Monde

A campanha departamental atinge seu auge: aqui, um binômio de UMP en Corrèze. AFP/JEAN-PIERRE MULLER

A alguns dias do primeiro turno das eleições departamentais, a 22 de março, 18.192 candidatos situam-se na última linha direta para figurar entre os 3.900 conselheiros a serem eleitos. Para muito deles, a campanha consiste de início em informar sobre as eleições, enquanto a abstenção se anuncia muito importante. Folhetos, cartazes, reuniões públicas: como os candidatos financiam sua campanhas? Que reembolso podem pretender?

1. Despesas eleitorais: quais os meios de propaganda?

A lei define precisamente o que os candidatos podem fazer para convencer seus eleitores por ocasião desta campanha departamental. São as “despesas de propaganda”.

A propaganda dita oficial: aqui se colocam as circulares (enviadas pelo correio a todos os eleitores antes da eleição) e os boletins de voto. A impressão desses meios de propaganda fica a cargo dos candidatos, a lei definindo precisamente as modalidades (papel entre 60 e 80 gramas,fundo branco para os boletins,etc).

Os outros meios de propaganda: os candidatos podem escolher imprimir cartazes e folhetos, organizar reuniões públicas ou ainda criar sites na Internet ou blogs.

O que é proibido: a comunicação das comunidades territoriais é fiscalizada e deve ser neutra: toda a promoção de uma sigla ou de um candidato é proibida. Também é proibido, entre outras coisas, comprar publicidade na imprensa, nos meios audiovisuais ou na Internet (aí compreendidos palavras-chaves e relações alusivas), colar cartazes eleitorais fora dos locais reservados ou distribuir folhetos na véspera ou no dia do escrutínio.

2. Quem paga as despesas ?

O novo método de escrutínio, por binômio, nada muda no procedimento para o reembolso de uma parte dos gastos de campanha. Os dois candidatos designam um procurador financeiro, que abre uma conta reservada às despesas da campanha. Esse procurador pode também ser uma pessoa física ou uma associação.

Uma novidade contudo, este ano: o princípio da solidariedade. A Comissão nacional das contas de campanha e dos financiamentos políticos (CNCCFP) analisa as contas de um binômio e não de dois candidatos. As despesas de um compromisso ao outro e vice-versa. Quanto ao reembolso das despesas, o registro é efetuado numa só conta. Cabe a seguir aos dois candidatos pôr-se de acordo para dividir a soma investida de acordo com sua contribuição pessoal. Mais vale, pois, entender-se com o parceiro.

É sempre benéfico aos candidatos adiantar seus gastos de campanha. Eles podem assim subscrever um empréstimo em banco ou pedir emprestado a seu partido. A Frente nacional propõe assim empréstimos (com juros) aos candidatos, na maior parte das vezes via micro-partido de financiamento, a fim de que eles possam adquirir o kit de campanha do partido, obrigatório para quem quer se lançar a nível departamental.

Outros partidos não concedem empréstimos a seus candidatos. É o exemplo do Partido Socialista, onde as federações contribuem com ajuda financeira. Cabe aos binômios assumir o financiamento de sua campanha de etapa em etapa. O PS nacional se encarrega dos deslocamentos dos ministros e do primeiro ministro, o que representa cerca de 50 mil euros para a campanha.

3. A quanto monta o financiamento público?

Um binômio pode pretender um reembolso de suas despesas de propaganda logo que ele recolheu pelo menos 5% dos votos expressos pelo menos num dos dois turnos do escrutínio.

Ele é então reembolsado de um lado por seus gastos de propaganda ditas oficiais (boletins de voto, cartazes, circulares) mas também uma parte de suas despesas de propaganda dita livre (reuniões públicas, folhetos).

As despesas de cada binômio têm por vezes um teto. O montante desse teto varia em função do número de habitantes do distrito (“canton”). São assim, num distrito de 15 mil habitantes, os candidatos tendo ultrapassado o limite de 5% recebem 0,64 euro por habitante e as despesas da campanha não poderão ultrapassar 9,6 mil euros.

É estritamente proibido ultrapassar esse teto de despesas, regidas por lei, sob o risco de ver suas contas de campanha contestadas – o que aconteceu a Nicolas Sarkozy em 2013 em relação a suas contas de campanha na eleição presidencial de 2012.

O reembolso das despesas de propaganda livre se faz no limite de  47,5 % do montante do teto. No caso do distrito de 15 mil habitantes, o Estado reembolsa então até  4.560 euros de despesas. Além disso, os gastos ficam a cargo do candidato.

Cada partido oferece consignas aos binômios, concernindo a suas despesas de campanha. Europa Ecologia-os Verdes (EELV) preconiza desde uns dez anos não gastar mais do que estado poderá reembolsar numa preocupação de economia orçamentária.

Campanhas alimentadas por donativos

Todos os donativos devem ser depositados diretamente na conta bancária do mandatário financeiro. Não pode haver intermediário que entre no jogo, o que exclui o crowdfunding (financiamento participativo) e os sistemas de pagamento eletrônico. Cada donativo tem o teto de 4.600 euros, sendo 150 em espécie. As associações, as empresas ou ainda as coletividades não têm o direito de contribuir financeiramente com as campanhas eleitorais.

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Tradução: Tania J. Faillace

Cristina resiste contra golpistas apoiados pelos EUA

Por Dario Pignotti, de Buenos Aires | Via Pátria Latina

O que se viu na Avenida de Maio tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, composta por muitos viúvos e viúvas da ditadura militar.

Um verão portenho asfixiante. Dias antes de completar 39 anos do golpe de Estado na Argentina, milhares de pessoas participaram de uma marcha contra a presidenta Cristina Fernández de Kirchner, exibindo uma atitude desestabilizadora nunca vista desde a recuperação da democracia, no começo da década de 80.

O ambiente político que impera nesses primeiros dias de março evoca a atmosfera do tango Verano Porteño, em que Piazzolla mescla uma sonoridade encrespada com uma melodia densa.

Os últimos dias de estio têm sido tórridos, com temperaturas superiores aos 30 graus, podendo alcançar os 35 graus quando alguém caminha pelas estreitas ruas do centro, próximas à Casa Rosada, o palácio de onde despacha a Chefe de Estado.

A morte do procurador Alberto Nisman, cujo corpo foi encontrado com um tiro na cabeça, é o pretexto em que se apoiam os neogolpistas interessados em incendiar o cenário.

Quando faltam 7 meses para o fim de seu segundo mandato, Cristina é objeto de uma campanha destituinte lançada pela oposição direitista e pela imprensa local, ambas respaldadas pelos principais grupos internacionais de notícias, com a CNN na vanguarda. E por trás de tudo isso, parece atuar o grande braço de Washington, interessado em fazer com que Cristina pague caro por sua aproximação com Irã, Venezuela e China.

Cristina não retrocede diante da estratégia incendiária de seus inimigos e promete enfrentá-los convocando os militantes, em boa parte os jovens, para “defender o projeto” iniciado em 2003 por seu marido, o falecido Néstor Kirchner, responsável pelo estreitamento das relações com o Brasil.

Fundamentalistas

Fanáticos, alguns inimigos do governo kirchnerista reconhecem que estão dispostos a prosseguir até um golpe branco, se com isso pudessem “defenestrar essa mulher de merda que está ocupando a Casa Rosada”, declara a senhora Beatriz Gimenez.

“Essa máfia bolivariana que está governando nosso país está acabando com tudo de bom que tivemos”, me diz uma indignadíssima Gimenez, que se apresenta como gerente de uma empresa de turismo na Avenida Santa Fe, situada no endinheirado bairro Norte, conhecido como um dos principais redutos do “anticristinismo”.

“Cristina está metida em tudo o que há de podre neste país. Eu tenho certeza de que ela mandou matar o procurador Alberto Nisman para calá-lo, foi um assassinato mafioso típico dos peronistas (seguidores do general Juan Perón). Essa gentalha tem que sair da (Casa) Rosada de qualquer jeito, porque na Argentina a maioria somos gente decente”, acrescenta.

De cabelo loiro e pele bronzeada – além de um botox que dá volume exagerado a seus lábios –, a senhora Gimenez dá por certo que o procurador Nisman “foi assassinado por gente a mando do governo”, apesar de os relatórios dos peritos da Corte Suprema não terem encontrado elementos para sustentar essa hipótese que, por ora, parece pouco crível.

As opiniões da senhora Gimenez, contaminadas pelo bombardeio de notícias falsas lançado pela imprensa tradicional, se repetem nos shoppings de alto padrão de consumo ou nos bares do aristocrático bairro da Recoleta, onde o mundo fala de política.

Espelho da Avenida Paulista

Aqui, na orla do Rio da Prata, a oposição ao kirchnerismo não emprega o termo “impeachment”, como fazem no Brasil os detratores da presidenta Dilma, mas querem que Cristina saia de qualquer modo, acusando-a pela morte do procurador Nisman – que em meados de janeiro apareceu morto com um tipo na cabeça em seu apartamento, em um episódio ainda não esclarecido, mas que poderia ter sido suicídio.

Milhares de portenhos – entre eles, a gerente Beatriz Gimenez – que participaram da passeata desestabilizadora do dia 18 de fevereiro, insultaram o governo e o grupo La Cámpora, formado por jovens quadros kirchneristas leais à mandatária e a uma gestão que culmina com os acordos estratégicos firmados com a China há um mês e com a reestatização das ferrovias, promulgada na primeira semana de março.

O que se viu na Avenida de Maio, em Buenos Aires, em fevereiro, tem muita semelhança com as manifestações da Avenida Paulista, onde senhoras bem vestidas e perfumadas escondem sua saudade pela ditadura que derrubou João Goulart em 1964.

A mobilização destituinte do mês passado que desembocou na histórica Praça de Maio foi encabeçada por um grupo de procuradores – entre os quais há vários com um passado ligado à ditadura militar que governou a Argentina entre 1976 e 1983, com um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos.

Em que pese sua grande exposição, a mobilização de 18 de fevereiro não conseguiu convocar um número importante de trabalhadores organizados, nem moradores das favelas, nem jovens com menos de 25 anos, uma faixa etária na qual o kirchnerismo é forte.

Em contrapartida, o ato de respaldo ao governo, ocorrido em 1° de março, contou com a presença de uma maioria de jovens junto a quem marcharam cidadãos oriundos dos subúrbios pobres da Grande Buenos Aires.

Intromissão dos EUA e de Israel

O procurador Alberto Nisman, que era um assíduo visitante da embaixada dos EUA, segundo documentou o Wikileaks, morreu pouco depois de acusar Cristina Fernández de Kirchner, em uma entrevista exclusiva ao Grupo Clarín, de ter obstruído a investigação do atentado terrorista que matou 85 pessoas em 1994, em uma associação da comunidade judia.

Atuando como um bispo dentro do xadrez diplomático que há anos os Estados Unidos e a Argentina disputam, Nisman recebia ordens de seus chefes políticos nos Estados Unidos e, também não se descarta, em Israel.

Essa relação do fiscal morto Nisman com Washington e Tel Aviv é algo que praticamente ninguém desconhece, e é até admitida implicitamente por alguns porta-vozes da direita, como a deputada Elisa Carrió.

Com seu tom provocador, similar ao da golpista venezuelana Maria Corina Machado (amiga de Aécio Neves), a opositora Carrió recomendou ao governo que solicite apoio à CIA e denunciou uma suposta conspiração de Venezuela e Irã para semear o terror na Argentina.

É claro que o governo argentino não seguiu os conselhos da legisladora, cujas declarações extravagantes não fazem inveja às do ex-militar e deputado carioca Jair Bolsonaro.

Em 8 de março, dia Internacional da Mulher, o ministro de Relações Exteriores Héctor Timmerman declarou que seu governo segue uma política exterior “independente” e considera que não é necessário “estar muito perto” da Casa Branca.

Em entrevista ao programa “60 minutos”, do canal norte-americano CBS, o ministro disse que “Washington estava sempre pressionando” o procurador Nisman para manipular a investigação do atentado contra a associação judia em 1994, a fim de culpar o governo do Irã.

Antes de falar no “60 minutos”, o chefe da política externa portenha havia solicitado aos governos de Barack Obama e Benjamin Netaniahu que não usassem o caso Nisman para intervir na política argentina, agravando o quadro desestabilizador construído pelas forças conservadoras.

“A Argentina não tem qualquer interesse estratégico, militar ou de inteligência no Oriente Médio. E observa com preocupação como alguns Estados intervêm em outros países para resolver suas disputas geopolíticas. Meu país rechaça essas ações e solicita que elas não ocorram em território argentino”.

Essa posição do titular do Palácio San Martin, sede do ministério de Relações Exteriores, recebeu enérgicas respostas das autoridades americanas e israelenses, que insistem em culpar o Irã pela matança de 85 pessoas em 1994, em Buenos Aires.

O próprio Netaniahu reiterou sua acusação ao Irã pelo massacre ao falar no Parlamento norte-americano no começo de março, o que foi entendido como uma advertência ao governo de Cristina, que acabará em 10 de dezembro.

O mensalão de Cristina

Em várias pesquisas, Cristina, eleita duas vezes e impedida constitucionalmente de tentar um terceiro mandato, conserva uma popularidade próxima aos 40%, bastante superior à de seus adversários políticos – como Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires e homem forte do clube Boca Juniors; e Sergio Massa, um ex-funcionário do governo de Néstor Kirchner que migrou para a oposição.

Mauricio Macri e Massa possivelmente serão candidatos nas eleições presidenciais do próximo dia 15 de outubro, quando o kirchnerismo se apresentará com um postulante ainda não definido. Este terá como principal capital o respaldo da mandatária.

É nesse contexto que a estratégia conservadora se apoia no desgaste da imagem presidencial, associando-a à morte do procurador Nisman e judicializando a campanha por meio de manobras de um importante grupo de juízes e procuradores que integram o “partido judicial”, segundo definição dada por Crisina.

Embora não escondam o fato de fazerem parte da ofensiva desestabilizadora, os procuradores são tratados como próceres pela imprensa, num roteiro em que são elevados à condição de heróis nacionais por sua obsessiva perseguição ao governo – imitando o ocorrido no Brasil, com o endeusamento do ministro Joaquim Barbosa durante o processo do mensalão.

Isso explica por que a multitudinária marcha opositora de fevereiro foi encabeçada por procuradores, por trás de quem caminham, semiocultos, os dirigentes da oposição, que ainda não tem uma estratégia comum para enfrentar o kirchnerismo nas eleições de outubro.

Podemos e Chomsky

Na segunda-feira, 9 de março, quando os EUA anunciavam represálias contra a Venezuela, um grupo de jovens defendiam o governo do presidente Nicolás Maduro em um café da rua Córdoba, próximo ao belíssimo Teatro Cervantes.

“Obama está tentando derrotar Maduro e Cristina ao mesmo tempo, para erradicar a chama latino-americana acendida por Kirchner, Chávez e Lula há 10 anos, quando eles sepultaram a Alca na reunião (Cúpula das Américas) de Mar del Plata”, afirma Guillermo Guisoni, um garoto de 18 anos que pretende cursar sociologia na Universidade de Buenos Aires.

Guillermo e dois amigos da mesma idade dizem que querem assistir ao Seminário Internacional pela Emancipação e a Igualdade, organizado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria do Pensamento Nacional, em que se reuniem algumas das cabeças mais prolíficas do pensamento político e da ação política. Representantes do partido espanhol Podemos, Noam Chomsky, o vice-presidente boliviano, Alvaro García Linera, Emir Sader, Ignacio Ramonet, o mexicano Cuauhtemoc Càrdenas e o italiano Gianni Vattimo estão entre os que dissertarão no Cervantes, uma joia arquitetônica construída à imagem e semelhança do Colégio San Idelfonso, na Espanha.

“Vamos chegar cedo ao Cervantes para ficar em primeiro na fila dos ingressos porque virá muita gente. E se não conseguirmos entrar, vamos ficar do lado de fora, vendo pelo telão”, conforma-se Guillermo, que em 15 de outubro votará pela primeira vez. “Em quem vai votar?”. “No candidato indicado por Cristina, é claro”, responde com segurança o garoto, enquanto seus companheiros sorriem com um gesto de aprovação.