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O sucesso técnico da Petrobras, a força do pré-sal e o despeito dos entreguistas

Por Fernando Brito | Via Tijolaço

Não sei se foi buscar lã e saiu tosquiada, mas o fato é que a Folha, hoje, acaba sendo forçada – claro que com uma série de senãos – a reconhecer o extraordinário sucesso da Petrobras na exploração do óleo do pré-sal brasileiro.

O moto é o de que a Petrobras estaria “economizando” em investimento pelo fato de os poços do pré-sal serem mais produtivos que o esperado.

O que se previa produzindo 15 mil barris por dia por poço, em média, produz, hoje, 25 mil barris por poço a cada 24 horas.

Isso é uma monstruosidade: no Mar do Norte, a média é 15 mil barris de petróleo por poço/dia e, no Golfo do México, são 10 mil barris de petróleo por poço/dia.

No campo de Lula um poço produz tanto quanto um do Mar do Norte e outro do Golfo do México, somados. Alguns poços do pré-sal chegam, entre óleo e gás, a 45 mil barris por dia de média e o primeiro teste de produção de Libra espera rendimento de 50 mil barris diários.

É meia-verdade, no curto prazo, a economia.

É óbvio que um poço que produz quase o dobro é mais lucrativo. Mas também exige mais equipamentos processar e armazenar, para transporte, esta quantidade maior de óleo.

Um navio-plataforma com capacidade de processar 120 mil barris diários abrangeria oito ou nove poços produtores e mais outros tantos, ou quase tantos, para injetar água e produzir a pressão que fizesse jorrar o petróleo nos poços produtores.

Isso aconteceu, por exemplo, com o navio-plataforma Cidade de Angra dos Reis, no campo de Lula. Era previsto que ela atingisse sua capacidade, de 100 mil barris por dia, por meio de seis poços. Mas foram necessários apenas quatro, cada um produzindo cerca de 24 mil barris por dia, para chegar à marca.

Com uma produção por poço quase dobrada, passam a ser necessários outros navios-plataforma e isso entra no terreno das variações possíveis na exploração, sobretudo quando se trata de jazidas de grande extensão e acumulação. Porque o petróleo não fica numa “piscina” subterrânea de perfeita comunicação entre um trecho e outro, mas impregnado em rocha porosa e um poço não pode “chupar” o óleo contido em formações mais distantes: é necessário, mesmo, uma “teia” de “espetadas” para aproveitamento integral da parte recuperável daquela reserva.

É por isso que a Petrobras está enfiada em exigências imensas de investimento e não por “imprudência” gerencial.

O que está colocado diante da Petrobras não é investir modestamente: é investir pesado ou entregar o petróleo.

É simples assim: quem defende uma redução dos investimentos da Petrobras além de um certo ponto, o da viabilidade econômica de manterem-se reservas identificadas sem explorá-las, defende a entrega destas jazidas às petroleiras internacionais.

Vêm daí as pressões pelo estrangulamento financeiro da Petrobras, mas que não será fácil.

Como fez hoje a China, há no mundo sempre alguém para negociar créditos a uma empresa que está sentada sobre as maiores jazidas de petróleo recentemente descobertas, para que ela não tenha, simplesmente, de permanecer sentada e inerte.

É por isso que, como você vê na matéria da Folha, a indústria petroleira quer, tão boazinha, “aliviar” a Petrobras de ter de fazer investimentos tão pesados.

São bonzinhos, muito bonzinhos…

Após extensão de prazo, Irã adverte que não haverá acordo nuclear sem fim de sanções

Via Opera Mundi

‘Insistimos que todas as sanções econômicas, financeiras e petrolíferas sejam canceladas’, declarou nesta manhã representante de país persa.

O Irã declarou nesta quarta-feira (01/04) que pontos não resolvidos nas negociações sobre seu programa nuclear persistem e destacou que sem a retirada das sanções contra o país persa não haverá acordo com as potências internacionais.

Representantes de G5+1 (Alemanha, EUA, China, França, Reino Unido e Rússia) estiveram com delegação iraniana na Suíça. EFE

“Há duas ou três questões fundamentais e importantes, e sem chegar a uma solução realista e moderada sobre elas não haverá nenhum acordo”, afirmou o alto negociador nuclear iraniano Abbas Arqchi. “Insistimos que todas as sanções econômicas, financeiras e petrolíferas sejam canceladas na primeira passagem de um acordo, e que fique pronto um plano para suprimir o restante dos embargos relacionados aos outros setores”, completou o diplomata iraniano.

O prazo final para as negociações as seis potências e Irã deveria ter sido encerrado na terça-feira (31/03), mas foi estendido por um dia e deverá ser concluído hoje com um acordo preliminar para limitar o programa nuclear iraniano.

Para o representante de Teerã, há uma “possibilidade” real de se chegar a “uma conclusão” ainda nesta noite, acrescentando que seu país estará nas negociações “até o último momento”. Além dele, ministros de Relações Exteriores da Alemanha e Reino Unido, além da chefe da diplomacia europeia e dos Estados Unidos estão na cidade suíça de Lausanne, enquanto os ministros da Rússia, França e China retornaram ontem para seus respectivos países.

Nesta manhã, a delegação alemã disse à imprensa que “nada está estipulado, mas com a boa vontade de todos é possível conseguir um acordo” e que é perceptível “avanços” nas conversas.

Na mesma linha, o presidente norte-americano, Barack Obama, comentou a evolução das negociações com sua equipe de segurança nacional em uma videoconferência realizada na noite de ontem, com a presença do secretário de Defesa, Ashton Carter. “O presidente agradeceu a todos por seus constantes esforços”, explicou a Casa Branca em nota.

Já os ministros das Relações Exteriores da Rússia (Sergei Lavrov), China (Wang Ly) e França (Laurent Fabius) já deixaram Lausanne para voltar aos seus respectivos países. Antes de ir embora, a delegação francesa afirmou que só voltará à Suíça para a rodada de conversas “se for útil”.

Há anos, Irã negocia com o G5+1 (EUA, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha) a existência de um programa nuclear. A comunidade internacional acusa Teerã de querer produzir uma bomba atômica, embora o país persa assegure que o programa tem um caráter pacífico, como a geração de energia elétrica para o território nacional.

Petrobras financia US$ 3,5 bilhões com banco chinês; novos acordos em vista

Por Roberto Samora | Via Reuters

SÃO PAULO – A Petrobras informou nesta quarta-feira que assinou com o Banco de Desenvolvimento da China (CDB) contrato de financiamento de 3,5 bilhões de dólares, recursos que devem trazer algum alívio para empresa, que agora tem mais dificuldades de captar recursos por conta da crise decorrente do escândalo de corrupção.

O contrato, assinado entre o CDB e a subsidiária da estatal Petrobras Global Trading BV, é o primeiro financiamento de um acordo de cooperação a ser implementado ao longo de 2015 e 2016, ressaltou a Petrobras em comunicado.

“Adicionalmente, as duas partes confirmaram a intenção de desenvolver novas cooperações no futuro próximo”, disse a Petrobras.

Com limites para realizar captações no mercado de dívida, em meio a denúncias de corrupção que envolvem a empresa, a Petrobras disse anteriormente que estudava “outras possibilidades de financiamento e incremento de fluxo de caixa”, até para fazer frente aos pesados investimentos projetados.

Vivendo uma crise de credibilidade por conta das denúncias reveladas pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, a Petrobras tem dito publicamente que não pretende captar recursos no mercado de dívida em 2015.

O contrato foi assinado na China, durante visita do diretor financeiro e de Relacionamento com Investidores da Petrobras, Ivan Monteiro.

Segundo a Petrobras, o contrato é um importante marco para dar continuidade à parceria estratégica com a China, para quem a estatal exporta petróleo, “fortalecendo as sinergias entre as economias dos dois países”.

Levy e Bernanke: o Império e a Colônia

Por César Fonseca | Via Independência Sul-Americana

O ajuste do Tio Sam e o ajuste Tupiniquim. Ben Bernanke, ex-presidente do BC americano, que comandou a reação dos Estados Unidos à crise mundial, jogando dinheiro na economia a torto e a direito e, simultaneamente, praticando juro zero ou negativo, para fortalecer a economia, mostrou em seu blog – sensação nos meios econômicos na América – que tem visão radicalmente oposta à do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, adepto dos juros altos, para segurar a inflação, e do argumento de que eles somente começam a cair se os gastos públicos recuarem. Mas, que gastos públicos? Bernanke entende que a maior conta do gasto público é juro sobre a dívida. Por isso, derrubou-o, adotando a eutanásia do rentista. Já, Levy foge dessa prática. Desconsidera o gasto financeiro – correspondente a 75% do total do orçamento geral da União, de R$ 2,83 trilhões, para 2015 – como fonte de pressão do déficit, preferindo cortar na carne dos assalariados, das viúvas, dos aposentados, dos pescadores, bem como eliminar os subsídios às forças produtivas, que têm contribuído para evitar o desemprego. Eis, de um lado, a visão do Império, a de Bernanke; de outro, a da Colônia, a de Levy, quando manobram a política econômica para fazer ajuste fiscal. No capitalismo cêntrico não tem disso não, ou seja, não há conversa mole de economista neoliberal.  Para Bernanke, “o FED não pode de forma alguma deixar as taxas de juros serem determinadas pelo mercado”. Tio Sam não acredita no mercado.  Por aqui, no Brasil, Levy, na Fazenda, e Tombini, no BC, se tornam prisioneiros do mercado financeiro especulativo, avalizando, toda semana, a pesquisa Focus, realizada com 100 instituições financeiras, que manipulam as expectativas, para jogar a economia para baixo e os juros para cima. Império e Colônia, sim senhor. Muito evidente sobre quem realmente é  senhor e quem é escravo. Pois não. Com esse ajuste fiscal levyano, o povo´terá que passar fome para que algum dia a taxa de juro caia – se cair. O contrário da pregação de Tancredo Neves de que, se chegasse à presidência da República, jamais pagaria a dívida com a fome do povo. Tombini-Levy, mente colonizada é isso aí.

A oposição e a grande mídia tupiniquim, que virou também partido de oposição, têm batido insistentemente que a presidenta Dilma Rousseff busca culpar a crise internacional pelos problemas econômicos do Brasil, fugindo da responsabilidade de ter conduzido mal a economia, na medida em que se excedeu nos gastos públicos.

O que ficou patente hoje, na Comissão de Assuntos Econômicos, no Senado, na exposição do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, indisfarçadamente, apoiado pelo poder midiático, serviçal do capital internacional, foi a confirmação das palavras da presidenta.

O que mais se viu acentuado nos argumentos dele foi que os problemas fiscais, que hoje pesam na formulação da política econômica, decorreram da adoção de medidas anticíclicas – comandadas pelo excomungado Guido Mantega – para enfrentarem a crise externa, a fim de manterem ativas as forças produtivas e a taxa sustentável de emprego interna.

Não foi barbeiragem como os líderes oposicionistas invocam, levando à histeria os comentaristas econômicos, pródigos em se ancorarem em metodologias, dados e gráficos formulados pelos econometristas do mercado financeiro, encarregados de criar terrorismo econômico, diariamente.

Levy disse o que não disse nenhum desses comentaristas até agora, que os Estados Unidos saíram da crise não enxugando dólares mediante taxa de juro elevada, mas adotando juro zero ou negativo, exportanto, assim, moeda americana, conforme patenteou política monetária expansionista praticada pelo FED, presidido por Ben Bernanke, a partir de 2010 até 2014.

O império não quis saber de liquidez em seu quintal.

Produziu-a e deixou que ela se expandisse fora do território americano.

Diante do juro zero ou negativo, os detentores de ativos monetários, sem rendimento na praça americana, submetidos à eutanásia do rentista, fizeram o que?

Correram para o Brasil, onde o Banco Central, sob Alexandre Tombini, não sabia – e ainda não sabe – fazer outra coisa que puxar juro, para enfrentar tsunami monetário, de modo a evitar enchente inflacionária.

Ou seja, não foram os gastos anticíclicos, praticados por Mantega, os culpados pelos déficits públicos, que se ampliaram, mas a exportação de dólares fabricados/desvalorizados pelo FED, comandado por Bernanke, mediante juro zero ou negativo.

O império tomou a decisão imperialista e a colônia, submissa, aceitou, passivamente, o jogo imperial.

A taxa de juro alta praticada pelo BC brasileiro, realmente, tornou-se necessária para combater a inflação, não praticada pelo governo Dilma, mas exportada pelo governo Obama.

Mas, isso, Levy, que é homem do FMI e da escola de Chicago, não teve coragem de dizer.

Preferiu afirmar, em resposta à senadora Graziotini, que questionou os juros altos brasileiros, que o juro baixo americano decorre do fato de que nos Estados Unidos a inflação é baixa.

Claro, é baixa, porque o juro é zero ou negativo!

Por essa razão, devido à inexistência dos custos financeiros, puderam as empresas americanas adquirir competitividade.

Diante da indagação da senadora sobre quando o juro no Brasil começará a cair, Levy saiu com o argumento neoliberal surrado que não convence mais ninguém, ou seja, que, primeiro, é preciso cortar na carne, para que se sinalize ao mercado queda do deficit, para, então, o juro de longo prazo começar a ceder.

Blá, blá, blá neoliberal.

O FED fez o contrário: jogou dinheiro na praça, a rodo, e derrubou os juros, caloteando, na sequência, os detentores de papeis das dívidas do governo.

Se isso provocasse inflação, como dizem no Brasil os neoliberais levyanos, os americanos estariam todos afogados em ondas inflacionárias e a população teria saído às ruas para derrubar Obama.

O depoimento de Levy, no Senado, foi um jogo de manipulação.
Ele não foi ao essencial, ficou no acessório.

Fugiu da explicação de que o peso dos juros altos, produzidos pela inflação importada do Império, representa a fonte principal do deficit público.

Ao puxar o juro, para enxugar liquidez em dólar, o BC aumenta a dívida pública interna, que exige mais juros, juros sobre juros, criando o que Maria Lúcia Fattorelli, convidada para auditar a dívida grega, chama de Sistema da Dívida.

O jogo imperialista produz a dívida, que se autoalimenta de si mesma, que esmaga a economia e paralisa as forças produtivas.

Como Levy quer consertar o negócio?

Cortando gastos do orçamento não financeiro da União – educação, saúde, segurança, transportes, infraestrutura etc – , por meio de contingenciamentos draconianos, enquanto não toca no orçamento financeiro, correspondente a 75% dos gastos públicos.

Os juros, na avaliação levyana, somente começariam a cair, depois que, de um lado, cairem, certamente, os assalariados, destruídos em sua capacidade de consumo, ou, de outro, forem expulsos do mercado de trabalho.

Senadores e senadoras deram um espetáculo de incapacidade de questionamento do titular da Fazenda.

Não enfrentaram o principal problema da economia nacional, a especulação financeira, produzida, no orçamento financeiro, pelo financiamento da dívida, não considerada gasto passível de ajuste.

Contentaram-se em tratar, sem consciência, do orçamento não-financeiro, onde se efetiva a realidade das pessoas.

Todos os políticos, durante a campanha eleitoral, pregam, para ganhar voto, a mentira de que trabalharão pelo bem das pessoas.

Mas, na hora de votar o orçamento da União, trabalham a favor dos especuladores, que pagam suas campanhas eleitorais.

Síria: secretário-geral da ONU alerta para “crise humanitária”

Via Agência Lusa

Grande parte da população síria vive em situação de pobreza e miséria, disse o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, acrescentando que esta é a mais grave crise humanitária da atualidade.

“Quatro em cada cinco sírios vivem em situação de pobreza, miséria e privações. O país perdeu quase quatro décadas de desenvolvimento humano”, disse Ban Ki-moon na abertura da 3ª Conferência Anual de Doadores para a Síria, que ocorre no Kuwait.

“Quase metade dos homens, mulheres e crianças nesse país foi obrigada a fugir de suas casas”, lamentou.

O conflito na Síria já custou mais de 215 mil vidas desde março de 2011 e provocou mais de 10 milhões de refugiados e deslocados, quase a metade dos 23 milhões de habitantes do país.

De acordo com a ONU, esses números são recorde, sendo os maiores dos últimos 20 anos.

É por isso que as Nações Unidas apelam para um esforço sem precedentes na conferência, presidida por Ban Ki-moon e da qual participam representantes de 67 países.

O secretário-geral da ONU quer obter doações no valor recorde de US$ 8,4 bilhões em um ano.

Na abertura do encontro, o emir do Kuwait, Sabah Al Ahmad Al Sabah, prometeu doar US$ 500 milhões para a Síria.

“Estamos aqui para responder ao maior desastre humanitário da história moderna”, disse o emir.

O porta-voz do secretário-geral da ONU, Stéphane Dujarric, disse à agência espanhola de notícias EFE que Ban Ki-moon espera que a contribuição generosa do emir do Kuwait seja um “caminho aberto” para as respostas de outros países presentes à conferência.

A América Latina e a nova ofensiva imperial: Entrevista com FC Leite Filho

Por Rennan Martins | Brasília, 30/03/2015

O final da década de 90 e início do século XXI na América Latina foi marcado pela ascensão de governos progressistas, em maior ou menor grau, em diversos países. Dedicados a construção de uma alternativa a doutrina neoliberal imposta pelo império de Washington, o fato é que conseguiram imprimir nova direção ao continente com políticas que favoreceram principalmente os cidadãos mais pobres.

Absorto em outras questões e julgando ter conseguido impor uma ordem unipolar ao mundo, os EUA se depararam com um movimento político pouco disposto a ceder a seus caprichos. O fortalecimento de instituições multilaterais como Mercosul, Alba e Unasul impulsionou a integração latino-americana que por sua vez isolou Washington em diversas frentes, como no caso de Cuba em que se viu obrigado a mudar minimamente sua política por conta do total descrédito em que caíram.

No entanto, a vocação de uma potência hegemônica, ainda que declinante, tornou a se manifestar e agora os EUA inauguraram nova rodada de hostilidades contra a América Latina, como no caso em que declarou ser a Venezuela uma ameaça a sua segurança nacional, decretando inclusive sanções contra alguns cidadãos do país bolivariano. A aprovação do aumento de tropas no Peru e a ressurgimento da IV frota evidenciam a guinada norte-americana no sentido de pôr ordem no que consideram “seu quintal”.

É diante desse panorama que o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou FC Leite Filho, jornalista e editor do blog Café na Política. FC nos adverte que a postura beligerante dos EUA se dá por sua ambição de dominar mercados e recursos. Discorre sobre as lideranças que impulsionaram a integração latino-americana e sobre os vários acontecimentos recentes que desestabilizaram os governos progressistas.

Confira a íntegra:

Como entender a desestabilização que alguns países da América Latina, principalmente Venezuela, Argentina e Brasil, têm sofrido? Que interesses estão por trás disso?

A integração latino-americana desatada pelo presidente Hugo Chávez, presidente da Venezuela, a partir de 1999, quando se instalou no Palácio de Miraflores, fez os países do subcontinente priorizar seus negócios entre si e não mais dependentes dos Estados Unidos e Europa. Eles começaram a trocar petróleo por frutas, gado, alimentos e a contratar empresas brasileiras, argentinas e colombianas para fazer suas pontes, estradas, metrôs, portos, petroleiros etc. Isto, naturalmente, traduziu-se em prejuízos às empresas americanas, acostumadas que estavam a ganhar automaticamente todas as licitações nesse terreno ou mesmo dispensando estas.

Há ainda o aspecto geoestratégico. A Venezuela, por exemplo, era, antes de Chávez, um protetorado dos Estados Unidos, que dominavam sua política, sua economia e, particularmente a energia, ou seja, suas imensas jazidas de petróleo e gás, consideradas as maiores do mundo. No Brasil, a descoberta do petróleo na área ,do pré-sal, cuja capacidade não foi de todo definida mas beira aí alguns bilhões de barris despertou a velha cobiça das Sete Irmãs, que hoje são em menor número, mas continuam com a mesma gula e poder. Acresça-se o fato de os Estados Unidos terem sempre atuado por aqui como donos do pedaço. Quando o coronel Vernon Walters, designado pelo presidente Kennedy, em 1962, para articular o golpe militar de 1964 no Brasil, alertou: “Não podemos perder o Brasil, porque o Brasil não é uma Cuba, o Brasil é uma China”. Já a Argentina foi ao longo da história (à exceção dos períodos Perón e Kirchner) um protetorado do capital financeiro internacional. Então, esses interesses agora se agudizaram, depois de terem sido, em parte, negligenciados em função de outras prioridades americanas no Oriente Médio e na Ásia e tendem a apelar até para a guerra militar, se preciso for, como previu o presidente Nicolás Maduro, sucessor de Chávez.

Porque ao mesmo tempo em que retoma relações com Cuba os EUA alegam ser Caracas uma ameaça a sua segurança nacional? Trata-se de política externa contraditória?

Este foi um golpe de mestre do presidente Barack Obama, para se livrar e desmoralizar a política belicista de seus rivais republicanos na política estadunidense. Obama disse que o embargo de 50 anos à Cuba não produziu nada de benéfico para os chamados interesses ocidentais. Não se deduza daí que Obama esteja sendo bonzinho. Ele visa afastar Cuba da Venezuela e do resto da América Latina e atrelá-la à política de Washington, mas Cuba, que ainda é, entranhadamente, castrista, recusa todos esses mimos e aprofunda cada vez mais seus vínculos com Maduro, pois toda a sua infraestrutura depende do petróleo venezuelano e da tecnologia do Brasil e da Argentina. Tentando se equilibrar com os falcões locais, Obama, ao mesmo tempo dá uma guinada, no que demonstra não estar nem aí para a política de boa vizinhança, decreta as sanções contra Caracas quase que ao mesmo tempo que tentava aproximar-se de Cuba.

Quais reais motivos movem Washington a escalar as hostilidades contra Venezuela e seu governo bolivariano?

A pergunta está em parte respondida no primeiro item. Mas Washington, na realidade, sempre hostilizou a política chavista. Para isso, utilizou todo o seu aparato, que vai das sabotagens econômicas e das várias tentativas de golpe, à mobilização da mídia internacional para desmonizar e desmoralizar o bolivarianismo. Observe o noticiário da grande imprensa no Brasil, na Argentina, na Colômbia e até na Espanha. Eles acharam que derrubariam fácil o Maduro, em quem viam um líder fraco e mesmo trapalhão. Mas Maduro é um quadro importante. Ele teceu, durante seis anos como chanceler de Chávez, toda a teia latino-americana, chinesa e árabe, pela qual certos golpes, como a queda do preço do petróleo não mais afeta de morte o regime. Nicolas Maduro ainda revelou ser um bom ganhador de eleições, mais até do que o Chávez, apesar de não ter o carisma deste. Outro ponto para ele foi o de neutralizar a mídia local, coisa que o Chávez tampouco conseguiu. Finalmente, seria interessante observar o que está acontecendo na Espanha. O movimento popular Podemos, de Pablo Iglesias, credencia-se para ter importante papel nas eleições nacionais de 20 de dezembro, podendo até fazer o primeiro-ministro, se não agora, pelo menos nos próximos anos. Ironia das ironias: o Podemos tem suas raízes no bolivarianismo e na experiência e defesa dos governos populares de Chávez, Evo Moralez, Kirchner, Lula, Daniel Ortega e Rafael Correa.

Sobre a Argentina. Qual foi o desfecho do conflito com os fundos abutres? Ele teve alguma influência nas relações bilaterais Buenos Aires – Washington?

Os fundos abutres quiseram quebrar a Argentina com aquela conversa do juiz Griesa, de Nova York. Chegaram mesmo a declarar o default do país. Cristina resistiu bravamente, como tem resistido e ganhado todas as batalhas com a mídia de lá, dominada pelo Grupo Clarín. Ela simplesmente não pagou cerca de 1,3 bi de dólares, por uns títulos podres que os abutres haviam comprado por uma bagatela dos enganados pelo corralito. Cristina simplesmente afirmou, quando revidou o achaque dos buitres (é assim como eles são chamados em Buenos Aires): “Amanhã vai ser um dia normal e tudo vai continuar como nos outros dias. E foi o que aconteceu. A Argentina não quebrou e sua economia está bem melhor do que a nossa. Nós precisamos de líderes deste talante, que não se dobram, pelo contrário, vão em frente, com a soberania, a independência e, principalmente, os interesses de nossos países.

O caso Nísman permanece sem desfecho. É possível que o governo argentino tenha envolvimento na morte do promotor? Quem se beneficiou com sua morte?

Este caso é outra crise fabricada pela mídia, tendo a auxiliá-las os fundos buitres, que agem como irmãs siamesas. O promotor Alberto Nisman dominou a cena midiática durante quase dez anos como pretenso defensor das vítimas do atentado à associação israelita AMIA, que redundou em 85 mortos e quase 300 feridos. Não fez nada pelas vítimas nem pelas investigações do caso, que até hoje, depois de 21 anos, não saíram da estaca zero. Era também um homem muito ligado à embaixada dos Estados Unidos, em Buenos Aires, a quem submetia seus relatórios, antes de encaminhar às autoridades (isto foi comprovado pelos documentos da embaixada vazados pelo Wikileaks). Depois, ele se envolveu numa denúncia sem pé nem cabeça contra a presidenta Cristina Kirchner. Seu papel inseria-se num plano diabólico, com base numa espécie de megafactoide, que queria aproveitar a comoção do Charlie Hebdo com aqueles milhões que percorreram as ruas da França, para transplantá-la para Buenos Aires. Era algo megalomaníaco, mas que poderia funcionar se se defrontasse com uma presidenta débil. O objetivo era derrocar a presidenta Cristina Kirchner ou, no mínimo, abalar a performance de seu partido na eleição presidencial do próximo 20 de outubro. O promotor acabou pagando com a morte, não se sabe se por suicídio unilateral ou induzido ou mesmo assassinado, pois a causa envolve interesses imperscrutáveis da CIA, do Mossad israelense e do submundo dos serviços secretos da Argentina. Como se sabe, até o incidente Nisman, esses serviços eram dominados por egressos da ditadura. Cristina aproveitou a oportunidade para fazer uma limpa no organismo e depois foi inocentada da denúncia mal-ajambrada de Nisman. Aquilo que era um golpe em seu prestígio político acabou por alça-la ainda mais na simpatia dos argentinos. Segundo as últimas pesquisas, seu prestígio situa-se acima dos 45%.

De que forma EUA e União Europeia encaram a ascensão de instâncias multilaterais como BRICS, Unasul e ALBA? Preocupa-lhes o fato de não estarem sobre sua tutela?

Estas instituições é que têm garantido a sobrevivência dos governos populares, na medida que previnem golpes e sustentam suas economias e políticas sociais dos ataques especulativos, das guerras econômicas e da sabotagem midiática. O BRICs, que chegou a ser esnobado como “piada” pelos doutos de Washington e Londres, é que está suprindo, com empréstimos a longo prazo, os prejuízos com a queda do petróleo, os quais afetaram dramaticamente a Venezuela e mais ainda a Rússia. É outro sinal de independência em relação aos antigos mercados cativos desses dois centros financeiros e uma prova de que o mundo multipolar e não mais unipolar, como querem os americanos, é possível. O plano dos mercados era baixar o preço do petróleo a menos de 30 dólares, mas agora, com essa crise do Yemen, grande país exportador do ouro negro e passagem dos navios petroleiros do mundo árabe, tudo pode acontecer, inclusive o petróleo voltar a subir.

Como o Brasil se insere nesse contexto de formação de uma ordem mundial multipolar? Quais os cuidados e contribuições que o Brasil pode adotar nesse caminho?

O Brasil avançou muito neste papel durante o governo Lula. A Dilma travou um pouco este processo, no primeiro governo, mas agora parece empenhada em participar mais, tanto da Unasul como dos BRICs. Seu apoio à Venezuela, neste momento, é crucial para a sobrevivência dessa política de integração dos emergentes. Seja como for, o Brasil, pelo peso de sua economia e amplitude de seu território, além da afinidade de que desfruta com os hermanos latino-americanos, é uma peça decisiva nesse xadrez.

O entendimento e cooperação entre os Estados latino-americanos está acontecendo? A quantas anda o processo?

A integração ainda está no seu estágio inicial. A morte de Chávez e o recolhimento do Lula diminuíram um pouco a seu vigor. Chávez e Lula eram dois caixeiros-viajantes que, com sua presença física constante nos diversos países, impulsionavam esse processo. Mas como atingiu uma dinâmica própria, creio que deve progredir, ainda que em ritmo mais lento. Vamos ver a eleição na Argentina. Se a Cristina fizer seu sucessor, ela terá mais tempo de substituir o Hugo Chávez nesta articulação. Essa mulher tem muita garra e é corajuda, como dizem nossos hermanos.

Quanto aos milhares de marines autorizados a desembarcar no Peru. Eles representam ameaça à América do Sul? Que objetivos esse contingente possui?

O Peru está como o México, super atrelados aos americanos. Seu presidente, Olanta Humala, que era chavista além de militar, entregou-se tal modo ao sistema de dominação americano-europeu, que privatizou tudo, desde a Petroperu até o Banco de la Nación. Agora, ele abre as portas para os soldados estadunidenses instalarem bases e cruzarem o território, sem necessidade sequer de apresentar documento. Mas isto também tem seus influxos. Você se lembra das sete bases que os Estados Unidos queriam instalar na Colômbia. Onde estão essas bases. Isto é mais para nos infundir medo.

Quais as perspectivas diante desse quadro geopolítico internacional? Que fazer para deter a investida contra os governos não-alinhados da América Latina?

Eu só espero que a Dilma não dê uma de João Goulart, querendo se compor com a direita. O Brizola aconselhou-o muito as e voltar para as suas bases. Jango era, por natureza, um tipo conciliador, que ouvia o embaixador americano, Lincoln Gordon, o golpista-mor, digamos assim. Por isso, foi atropelado pelo golpe de 64. É claro que a situação é outra e a Dilma tem uma tradição de enfrentamento. O perigo no momento é midiático. A matriz de opinião da mídia consegue se infiltrar na sociedade e impor sua narrativa. Você quer um exemplo? Outro dia fui falar para uma amiga dos riscos que estamos sofrendo com uma nova privataria do tipo FHC, que, como você sabe, rebentou no México e Peru. Sabe o que ela me respondeu? “Ora, mas não é a Dilma que está querendo privatizara a Caixa Econômica?” E eu fiquei sem argumentos. Como é que a Dilma entra numa dessas. Como é que ela coloca contra si 200 mil funcionários da Caixa, que seriam seus potenciais defensores e aliados na luta contra o golpismo? Prefiro crer que isso seja boato. Mas sou um otimista e acho que uma mobilização maciça das forças progressistas, inclusive partindo da internet, pode ganhar as ruas e reverter esta arremetida golpista. O Lula tampouco pode continuar calado e o Cid Gomes parece estar surgindo aí para abrir um flanco na classe média.

EUA decidem acatar posição da Rússia sobre a questão da Síria

Via Sputniknews

Johnn Kerry, secretário de Estado norte-americano, e Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia.

Professor de Relações Internacionais e ex-diretor do BRICS Policy Center da Pontifícia Universidade Católica – Prefeitura do Rio de Janeiro, Fabiano Mielniczuk analisa a reaproximação de Estados Unidos e Síria relacionada ao combate ao terrorismo da Al Qaeda e do Estado Islâmico.

Em entrevista à rádio Sputnik, o professor de Relações Internacionais e ex-diretor do BRICS Policy Center da PUC e Prefeitura do Rio de Janeiro, Fabiano Mielniczuk, analisou a recente reviravolta nas relações dos Estados Unidos e Síria.

Nos últimos dias, os EUA tem adotado um tom conciliador com o governo de Assad, tendo inclusive elogiado o programa de retirada de armas químicas do país, realizado em conjunto com a Rússia.

Segundo Mielniczuk, os Estados Unidos estão preocupados com o aumento da influência do Estado Islâmico no país, o que levou a administração da Casa Branca a rever sua política para região.

O especialista lembrou que o conflito teve origens em 2011, sendo um extensão da Primavera Árabe. Na ocasião, seguindo o exemplo do Egito e outros países do Oriente Médio, sírios saíram às ruas para protestar contra o regime Bashar al-Assad, cuja família está há 40 anos no poder. Segundo Mielniczuk, apesar das reivindicações terem sido justas, os Estados Unidos, que trabalharam em conjunto com Arábia Saudita, erraram em financiar o grupos rebeldes.

O principal motivo das ações dos EUA e da Arábia Saudita foi a histórica aliança do governo sírio com Irã, o principal opositor da Arábia Saudita na região. Portanto, na ocasião, havia um forte interesse na derrubada de Assad, o que resultou no financiamento dos grupos rebeldes.
Em agosto de 2013, após uso de gás sarin nos arredores de Damasco (sem provas conclusivas quanto à responsabilidade de um dos lados do conflito), os EUA estavam a beira de uma intervenção militar no país.

Nesse momento, a Rússia, que já havia alertado para os perigos do financiamento dos rebeldes, entrou em cena e negociou um acordo de retirada de armas químicas do país. O maior medo da Rússia, explica Mielniczuk, era que esse tipo de armas fosse parar no Cáucaso, onde, nos anos 90, Moscou combateu os grupos extremistas islâmicos.

Mesmo assim, o ocidente seguiu apoiando os movimentos rebeldes. Como resultado, 200 mil sírios morreram durante os conflitos. Além disso, grupos do Al-Qaeda fugiram do Iraque para Síria, onde se reorganizaram e formaram o Estado Islâmico. Portanto, se hoje o Assad cai, não haverá uma transição democrática, mas sim um estado fundamentalista.

Isso não significa que Assad deve ser apoiado, pontuou o professor. No entanto, os Estados Unidos estão pagando pela própria imprudência na região desde o início dos anos 2000. Infelizmente, a situação na região somente será estabilizada com a derrota do Estado Islâmico, o que significa que os conflitos estão longe de acabar, lamentou Fabiano Mielniczuk.