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Diálogos Desenvolvimentistas: Lava-Jato, Pré-Sal e interesses estrangeiros

A notícia de que o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, propôs rediscutir do modelo de exploração do pré-sal no sentido de flexibilizar a participação obrigatória da Petrobras gerou considerações e comentários importantes por parte dos associados.

De um lado uns consideram que há uma guerra de informação e que o governo permanece firme em relação a lei de partilha e a política de conteúdo nacional, de outro temos os que veem uma negociação e recuo a fim de acomodar interesses conflitantes e garantir a dita “governabilidade”.

Confira:

Tania Faillace – Parece evidente que o bloco privatista ganha espaço gradualmente.

E parece do interesse público tentar saber o que realmente acontece sob os panos. E quais os elementos de pressão que estão sendo usados.

Fala-se que o PMDB está ganhando espaço maior graças a Eduardo Cunha, mas isso certamente é uma versão simplista, visando a dar destaque a Cunha em termos da modelagem de sua imagem pública, como líder imbatível.

Interessaria, porém, saber os instrumentos materiais ou dissuasivos usados para permitir que uma figura, antes de pouca expressão, adquirisse tal relevo.

A Chevron já foi expulsa uma vez do pré-sal. Estaria tentando a volta por cima? E, além do folclórico Serra, quais seriam as outras forças?

Que teriam a dizer os petroleiros sobre o assunto? Os velhos e os novos?

Paulo Moreno – Sim, a Chevron foi expulsa de uma concessão da área pós-sal na Bacia de Campos em 2012 quando tentaram “roubar” o óleo do pré-sal, extraindo-o sem autorização. Eles compraram a preços irrisórios um bloco na Bacia de Campos em 1998, pagaram um preço muito baixo, naquela rodada que o genro do FHC, David Zylbersztajn, que tinha uma empresa de consultoria a “DZ Energia” que facilitava a entrada dos gringos. David em 1998 ainda estava na ANP fazendo os leilões dos blocos a “preços irrisórios”. A Chevron ganhou essa raspadinha da sorte e ganhou rios de dinheiro na área pós-sal.

Não satisfeitos com os altos lucros no pós-sala eles viram a descoberta do pré-sal que tinha uma reserva próxima muito profunda a 5.500 metros e resolveram fazer uma extração não autorizada usando aquela tecnologia de “poço direcional” que fizeram no Iraque na fronteira com o Kwait em 1990 e foi descoberto e causou a sangrenta guerra do golfo em 1991.

Ao tentar atingir o pré-sal nessa camada profunda em 2012, perderam controle da pressão e das barreiras de proteção o que fissurou as rochas no fundo do oceano, gerando aquele tremendo vazamento que durou duas semanas na Bacia de Campos, atingindo diversas praias paradisíacas na região do Arraial do Cabo, o que causou muita indignação. A Petrobras foi chamada pela ANP para ajudar no controle do vazamento e conseguiram fazer um poço lateral e injetar cimento, o que estancou o vazamento. A Polícia Federal recolheu passaportes dos funcionários norte-americanos da Chevron e a Marinha ocupou a plataforma e o bloco foi devolvido. A lembrança da tentativa do roubo deixou os gringos afastados, pelo menos por enquanto. Esse fato aconteceu um ano depois que Dilma recusou negociar todo o pré-sal para as empresas americanas Chevron e Exxon Mobil. Agora o senador José Serra retorna com a febre do entreguismo e entrega do pré-sal pelo Regime de Concessão.

Osvaldo Maneschy – Fiquei surpreso com as declarações atribuídas a Eduardo Braga pela agência G1, das Organizações Globo, ontem, e também pela Exame, da Editora Abril.

Bem como a repercussão pelos demais onlines que multiplicaram fala do ministro das Minas Energia no Senado favorável a entrega do pré-sal para as multis de petróleo – e procurei saber mais sobre o depoimento do ministro.

E constatei que principalmente a G1 e a Exame carregaram nas tintas.

O que o ministro disse não foi exatamente o que está transcrito aqui na lista.

Confiram (aqui), por exemplo, o que a Agência Senado, mais isenta, narrou sobre a mesma fala do ministro.

Ou a agência 247, esta alinhada mais com o PT e o governo (aqui).

Ou seja, acho que está valendo aquela velha máxima do jornalismo: na guerra, a primeira vítima sempre é a verdade.

O Eduardo Braga começou a sua vida política como vereador do PDS e hoje é ministro de Minas e Energia pela cota do PMDB, se não me engano indicado pelo Lobão.

Acredito que ele não seja maluco de bater de frente com a Dilma que, anteontem, na posse do Janine, deixou bem claro para que o pré-sal e a Petrobrás são do Brasil.

Criar confusão é ferramenta importante na guerra da informação.

Paulo César Ribeiro Lima – Infelizmente, é muito pior do que está nas tintas.

Gustavo Santos – A lava jato está conseguindo seu maléfico intento, acabar com a governabilidade da Dilma para assim lhe impor a entrega do pré-sal aos gringos.

Helio Silveira – Para vocês verem a importância do Pré-Sal e a quebra da participação obrigatória de 30%,ontem foi anunciado a megacompra da BG Group pela Shell por US$70 bi, numa conjuntura péssima para o setor petróleo (cotação em torno de US$ 50,00). O claro interesse estratégico da Shell é reforçar reservas na crise, assim como fez Putin ao reforçar a participação do Estado Russo na Grazpon e como deveria fazer agora a Petrobras aumentando sua participação em petroquímica em vez de anunciar venda de patrimônio.

Nós sabemos, com a participação de nossos colegas bem informados, que a Petrobras, diante das reservas possuídas, não possui nenhuma restrição de natureza econômico-financeira, seja para manter seu patrimônio, seja fazer aquisições no setor, seja para manter seus investimentos, no entanto, está paralisada e perdendo patrimônio pela operação Lava-Jato (Na verdade operação “Joga-Lama-na-Geni”) e está claramente sofrendo uma ataque político com objetivos claros de abrirmos os poços Pré-Sal às reservas das “grandes Irmãs” e às nações “mui amigas”.

Aí vai o artigo em q o executivo da Shell, comentando a aquisição da BG Group, não se furtou em dizer q o interesse (ao meu ver o único) da operação foi de se fortalecer para “participar do Pré-Sal” (aqui). O Financial Times também reforça que o interesse é o Pré-Sal (aqui).

Osvaldo Maneschy – Aprendi trabalhando mais de 40 anos em jornal que o está nas tintas – é a versão dos fatos que o dono do jornal (da TV, do rádio, etc) quer que as pessoas acreditem.

Fato é fato, versão é versão.

Claro que você está aí no Congresso, sabe das coisas.

Mas a Dilma disse com todas as letras – ao ser diplomada no TSE, ao ser reempossada no Planalto, e na posse do Janine, anteontem – que a Petrobrás e o pré-sal são do Brasil.

O que ela diz sobre o assunto, para mim, conta muito.

Que a Shell – que há anos exporta petróleo cru do Brasil por conta das falcatruas lá de trás, do tempo das vacas gordas (pra ela) do entreguista FHC – a gente sabe.

Que as petrolíferas gringas, Shell na frente, querem botar a mão do pré-sal – a gente também sabe.

E que tem muito entreguista doido para ganhar uns caraminguados em troca do interesse nacional, a gente também sabe que existe.

Por isso é bom sempre lembrar o “Era Vargas”, do José Augusto Ribeiro.

Quando Chateaubriand, dono das Organizações Globo da época, na crise de agosto de 54, mandou recado para Vargas:

“Fecha a Petrobras que paro de fazer campanha contra”.

Getúlio não desistiu da Petrobrás e ela está aí.

Firme e forte, apesar de todas as tintas, cores e sons das fábricas de midiotas.

E da “República de Curitiba” do Moro e da gurizada do MPF, que é boa de estudo e concurso, mas não entende o Brasil.

Dilma se reunirá com Cristina Kirchner e Mark Zuckerberg no Panamá

Via Agência Efe

A presidente Dilma Rousseff se reunirá com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, e com o diretor-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, durante a Cúpula das Américas no Panamá, além dos encontros já anunciados com Barack Obama e os líderes da ONU, México, Colômbia e Haiti.

Em comunicado, o Palácio do Planalto afirmou que Dilma deixará Brasília às 6h desta sexta-feira e após sua chegada ao Panamá, se encontrará com o presidente do México, Enrique Peña Nieto.

Dilma se reunirá com representantes internacionais durante a Cúpula das Américas. EFE/Fernando Bizerra Jr.

Depois, a presidente discursará no Fórum Empresarial “Unindo as Américas: Integração produtiva para o desenvolvimento inclusivo”.

Posteriormente, Dilma se reunirá com Zuckerberg em um hotel da capital panamenha, com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e, na sequência, com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos.

Dilma também confirmou presença na cerimônia de abertura da VI Cúpula das Américas e no jantar oferecido pelo presidente anfitrião, Juan Carlos Varela. No final do dia, de volta ao hotel, a presidente fará uma reunião bilateral com Cristina Kirchner.

O local e o horário para o encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, – confirmado pelo Planalto e ratificada pelo vice-presidente Michel Temer – e do Haiti, Michel Martelly, não foram informados ainda pelo governo federal.

Por que dizemos não ao PL 4330

Por Silvana Abramo | Via Blog da Boitempo

A terceirização é uma opção de organização empresarial para expandir o capital e aumentar lucros.

Para os trabalhadores significa precarização dos contratos de trabalho, salários menores, alto risco de acidentes e doenças, falta de isonomia com os trabalhadores contratados diretamente pelos tomadores e maior exposição à falta de pagamento de verbas decorrentes das rescisões dos contratos, à falta de depósitos do FGTS e de recolhimentos previdenciários, entre outros problemas.

O PL 4330/2004, de autoria do ex-deputado Sandro Mabel, está na pauta do Congresso Nacional desta semana. Significa grave retrocesso nas relações sociais e trabalhistas e tem consequências para toda a sociedade.

Dentre seus aspectos mais graves está o de tornar regra o trabalho precário, que na nossa legislação, é tratado como exceção.

Não podemos aceitar que seja aprovado, pelos seguintes motivos:

A Constituição Federal fixa como valores supremos o exercício dos direitos sociais, a igualdade e a justiça, e é absolutamente clara e expressa em colocar como fundamento da nação a dignidade da pessoa humana e a igualdade de todas as pessoas frente aos direitos sociais – e aqui estão dos direitos trabalhistas. Estabelece que a regra nas relações de trabalho, (art. 7º – relação de emprego protegida) é a contratação direta entre o empresário e o trabalhador, o que também prevem os artigos 2º e 3º da CLT;

Também estabelece a proibição de retrocesso, ou seja, a diminuição dos direitos individuais e coletivos já alcançados, especialmente os que dizem respeito aos direitos humanos e fundamentais, nos quais se encontram os direitos dos trabalhadores;

As normas internacionais sobre o trabalho – As Convenções da Organização Internacional do Trabalho, especialmente a Convenção nº 100 – sobre a igualdade de remuneração e a Convenção nº 111 – sobre a proibição de discriminação, também proíbem diferenças de tratamento entre trabalhadores de igual situação.

A terceirização é usada para aumentar os lucros das empresas mediante a redução dos seus custos com os pagamentos dos trabalhadores. De outra forma, a utilização de serviços terceirizados não tem interesse econômico e deixa de ser fonte de aumento de lucratividade para as empresas que a utilizam.

O PL 4330/2004 acaba com a separação entre atividade meio e atividade fim e autoriza qualquer trabalho em “serviços determinados e específicos”, o que abrange qualquer tipo de serviço.

Nesse sistema um mesmo trabalhador pode trabalhar anos para uma determinada empresa, com muitos contratos sucessivos curtos com empresas prestadoras, que muitas vezes não pagam seus direitos, colocando-o em situação insegura e em contínua redução de salários e outros benefícios que poderia obter as normas de sua categoria sindical.

Isso compromete o projeto de nação definido pelos Constituintes de 1988, que permanece em vigor até hoje. Ele não se compatibiliza nem os princípios da Constituição, nem com as normas internacionais nem com a legislação trabalhista hoje existente.

É inconcebível que trabalhadores que realizem suas tarefas lado a lado recebam uns menos que os outros, e é isso que acontece entre trabalhadores contratados diretamente e os terceirizados de empresas que fazem unicamente colocação de mão de obra para outras empresas.

Não se pode admitir que empresas existam e atuem sem ter trabalhadores em suas atividades principais, como por exemplo, o que temos visto muito, hospitais sem contratos diretos com médicos e enfermeiros ou escolas sem professores.

A diminuição dos salários diminui a arrecadação da previdência social e a capacidade de compra dos trabalhadores, afetando o mercado interno e criando situação econômica muito desfavorável ao país.

Do ponto de vista das empresas que usam a terceirização para simples colocação de mão de obra o sistema só é vantajoso se houver sonegação e rebaixamento de direitos trabalhistas, porque se os salários dos terceirizados e demais direitos trabalhistas deles for exatamente igual aos dos empregados diretos, a empresa tomadora terá que pagar para a empresa prestadora o mesmo valor que paga aos seus empregados diretos acrescido do valor relativo ao pagamento à empresa prestadora – seus gastos e lucro. Assim, esse sistema só dá lucro para as duas empresas se os valores pagos ao trabalhador forem menores do que os pagos aos trabalhadores diretos.

A autorização de trabalho terceirizado em qualquer atividade, seja nas auxiliares não vinculadas aos objetivos centrais da empresa, (atividade meio) seja nas atividades relativas ao próprio objetivo da empresa (atividade fim) estabelece duas classes de trabalhadores, e acaba com a estrutura de representação sindical dos trabalhadores, debilitando as entidades que lutam por melhores condições de trabalho, vez que não haverá mais trabalhadores metalúrgicos, ou comerciários, mas simplesmente, prestadores de serviços.

As estatísticas comprovam que o número de acidentes do trabalho e de doenças em razão do trabalho é muito maior entre os trabalhadores terceirizados o que, não fosse pelo fundamental direito à vida e ao trabalho digno e saudável de todos, tem ainda o efeito nefasto de aumentar os gastos estatais com o sistema único de saúde e da previdência social, diminuindo a produtividade do país e a geração de renda.

Como se não bastasse, nas empresas terceirizadas estão os casos mais graves de trabalho degradante, como o trabalho escravo e o trabalho infantil. A criação e manutenção de empresas terceirizadas que fraudam a legislação e se mantém com contratações de grandes magazines, empresas que estabelecem cadeias de produção de quatro, cinco outras prestadoras, sem se responsabilizar pelas condições em que trabalham milhares de pessoas, inclusive migrantes, como bolivianos e haitianos, muitas vezes vítimas do tráfico internacional de pessoas.

Por esses motivos os Juízes do trabalho não podem aceitar a redução dos direitos dos trabalhadores e tem lutado, através de sua Associação Nacional, a ANAMATRA, contra a aprovação do PL 4330 e pela manutenção dos parâmetros objetivos fixados pacificamente pela jurisprudência do TST – Tribunal Superior do Trabalho, na sua súmula 331, que estabelece:

1. A legalidade da prestação de serviços temporários, e a ilegalidade de locação de mão de obra, ou contratação por empresa intermediária, a conhecida comercialização de mão de obra;

2. Se inexistir subordinação e pessoalidade, é legal a contratação de empresas de prestação de serviços de vigilância, limpeza e em atividades meio;

3. Se esse empregador prestador de serviços não pagas os direitos trabalhistas, a empresa tomadora dos serviços tem que se responsabilizar por eles (responsabilidade subsidiária);

4. Se for ente público (governos federal, estadual ou municipal) não se pode reconhecer o contrato de trabalho mas ele será responsabilizado pelo pagamento, se a prestadora não pagas, e também nesse caso o administrados que firmou o contrato será responsabilizado pessoalmente.

Essa diretriz é amplamente conhecida das empresas, dos governos e aplicada pela Justiça do Trabalho, sem margem de dúvidas e não gera a chamada insegurança jurídica.

A jurisprudência trabalhista também já cristalizou o que se entende por atividade fim e atividade meio, e por essa razão os juízes trabalhistas por meio de sua associação nacional ingressaram em ação que tramita perante do Supremo Tribunal Federal, para que esses conceitos não sejam alterados e não seja permitida a terceirização na atividade fim.

Concluindo, O PL 4330/2004 tem benefícios imediatos para muitos empresários mas tem alto custo para toda a sociedade e prejuízo para os trabalhadores.

Nenhum passo atrás, nenhum direito a menos.

***

Silvana Abramo é Diretora de Direitos Humanos e Cidadania da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho – ANAMATRA. Desembargadora do TRT da 2a Região. Colabora com o Blog da Boitempo especialmente para o Dossiê Terceirização.

Temendo recuperação das Malvinas pela Argentina, Reino Unido reforça presença militar nas ilhas

Por Marcela Belchior | Via Adital

Reino Unido mantém colônia nas Ilhas Malvinas sob forte aparato militar. Foto: Reprodução.

O Ministério de Defesa do Reino Unido deverá enviar mais tropas às Ilhas Malvinas, cuja soberania está em disputa com a Argentina desde 1833, quando os ingleses invadiram o arquipélago, situado a 250 léguas marítimas da costa argentina. Enquanto os europeus apostam numa “ameaça” argentina para recuperar o território, o país latino-americano afirma que o avanço bélico dos britânicos e a crescente militarização das ilhas são “injustificáveis”.

A pretensão dos britânicos é realizar uma revisão total em matéria de defesa na área e se armar contra uma investida argentina pela recuperação de seu território, com apoio do presidente da Rússia, Vladimir Putin. As relações do Estado russo com alguns países ocidentais, entre eles o Reino Unido, se desgastaram ainda mais após a incorporação da península de Crimea, localizada na costa do Mar Negro, ao sul do território ucraniano, à Federação Russa no ano passado. O território estava em disputa política com a Ucrânia desde a dissolução da União Soviética, em 1991.

Atualmente, estão instalados na ilha 1,2 mil efetivos britânicos, além da vigilância marítima e aérea com aeronaves de combate. A Argentina, por outro lado, propôs em diversas ocasiões estabelecer uma mesa de negociações com o governo britânico para solucionar a disputa de soberania. Os ingleses, entretanto, nunca manifestaram interesse na discussão.

A coroa britânica também ignora chamados internacionais, que pedem a resolução do caso. Um deles partiu da Organização das Nações Unidas (ONU), que, em 1965, determinou que o Reino Unido deveria descolonizar o território malvino e aprovou resolução que instava ao diálogo entre as duas partes. As autoridades britânicas, no entanto, buscam justificativa de sua omissão em referendo realizado em 2013, não reconhecido em nível internacional, cujo resultado aponta que a maioria dos malvinenses prefere continuar sendo cidadãos britânicos.

Diante do anúncio de reforço militar britânico, o ministro de Defesa da Argentina, Agustín Rossi, desmentiu que o país sul-americano represente qualquer tipo de ameaça bélica ao Reino Unido, reiterando que o Estado argentino seguirá buscando interlocução com os europeus pelas vias diplomáticas. Em entrevista à imprensa, Rossi ponderou, entretanto, que não há nenhuma comunicação oficial por parte dos britânicos sobre a medida e que, menos ainda, há uma política argentina que contemple essa possibilidade. Da mesma maneira, Rossi enfatizou que o Estado argentino tem muito clara a ideia de que suas reivindicações diante uma situação de “inadmissível” colonialismo deverão prosseguir.

Presidente argentina Cristina Kirchner (à dir.) nega qualquer acordo com presidente russo Vladimir Putin (à esq.) para disputar ilhas por meios militares. Foto: Reprodução.

A presidente da Argentina foi taxativa quando negou qualquer intenção do país sul-americano de se utilizar das forças bélicas para retomar o território das Ilhas Malvinas. “Além de inverossímil, é absolutamente injustificável que se mexa no fantasma de uma pretensa ‘ameaça argentina’ para aumentar o efetivo militar britânico e consolidar a crescente militarização das ilhas”, afirmou a mandatária em comunicado oficial.

Para a chefe do Estado argentino, o Reino Unido deveria dedicar tão dispendiosos recursos financeiros a setores que beneficiem o povo britânico, como no combate ao desemprego, a melhorar na qualidade da educação e saúde, além de aprofundar a inclusão social naquela nação. “Não se pode continuar enganando os cidadãos e contribuintes do Reino Unido, mexendo em fantasmas do passado”, acrescentou Cristina.

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Marcela Belchior é jornalista da Adital. Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), estuda as relações culturais na América Latina.
E-mail: marcela@adital.com.br ; belchior.marcela@gmail.com .

Pepe Escobar: Empório eurasiano ou guerra nuclear?

Por Pepe Escobar | Via Rede Castor Photo

Angela Merkel e o telefone espionado…

Fonte de alto nível da diplomacia europeia confirmou para Asia Times que o governo da chanceler alemã Angela Merkel está em vigorosa campanha de aproximação com a China, tentando romper a parceria estratégica em várias frentes entre China e Rússia.

Pequim não precisa, necessariamente, dar muita atenção ao gesto político de Berlim, uma vez que a China está movendo os cordões de seu projeto de Nova Rota da Seda paneurasiana, que implica laços estreitos de comércio/ negócios/ business com a Alemanha e também com a Rússia.

O gambito alemão só mostra que setores falcões mais conservadores do governo norte-americano, dedicados a cercar e atacar a Rússia, aumentaram a pressão. Por mais que ainda se ouçam conversas sobre o quanto Merkel ficou ofendida por ter sido espionada pela Agência de Segurança Nacional dos EUA, que gravou seus telefonemas, a chanceler dança pela música de Washington. “Sentir-se muito ofendida” só significará alguma coisa, se a chanceler levantar unilateralmente as sanções alemãs contra o Irã. Enquanto Merkel não fizer isso, nada, aí, é mais importante que joguinhos de “policial bonzinho e policial durão”: táticas de negociação.

O resumo de tudo é que Washington absolutamente não pode tolerar qualquer relacionamento próximo comercial/político entre Alemanha e Rússia, porque isso ameaça diretamente a hegemonia dos EUA no Império do Caos.

Assim sendo, toda a tragédia na Ucrânia nada tem a ver com direitos humanos ou a santidade das fronteiras. A OTAN arrancou o Kosovo da Iugoslávia-Sérvia, sem se preocupar com referendo algum, do tipo que houve na Crimeia.

Preste atenção àqueles S-500s

Paralelamente, se desenvolve outro gambito fascinante. Alguns atores da Think-tankelândia norte-americana – com os acolhedores laços que mantêm com a CIA – estão redistribuindo suas fichas de apostas sobre a Guerra Fria 2.0, temerosos de que tenham errado na avaliação do que realmente acontece no tabuleiro de xadrez geopolítico.

Acabo de retornar de Moscou e há por lá uma sensação de que o Gabinete Federal de Segurança e a inteligência militar russa estão cada vez mais fartos do fluxo interminável de provocações que lhes chega do pessoal de Washington/OTAN – dos Bálticos à Ásia Central, da Polônia à Romênia, do Azerbaijão à Turquia.

Global Research publicou um sumário, extenso mas não completo, do que é visto em toda a Rússia como ameaça existencial: a tentativa, de Washington/OTAN, de bloquear o comércio e o desenvolvimento eurasiano da Rússia; de destruir seu perímetro de defesa; de arrastar a Rússia para guerra com tiroteio.

Sistema de defesa anti-mísseis S-500 – Rússia

Guerra com tiroteio não chega a ser, exatamente, ideia brilhante. Os mísseis antimísseis S-500 da Rússia, e os mísseis antiaéreos podem interceptar qualquer míssil balístico intercontinental existente, qualquer míssil cruzador ou qualquer aeronave. Os S-500s voam à velocidade de 15.480 milhas/hora, alcançam altitude de 115 milhas; viajam 2.174 milhas horizontais; e podem interceptar até dez mísseis simultaneamente. São armas que simplesmente não podem ser “contidas” por nenhum dos sistemas antimísseis que os norte-americanos tenham hoje.

Alguns, no lado dos EUA, têm dito que o sistema S-500 está sendo concluído num programa acelerado, como uma fonte na inteligência dos EUA disse a Asia Times. Não há confirmação do lado russo. Oficialmente, Moscou diz que o programa estará pronto em 2017. Resultado final, agora ou em breve: o sistema selará o espaço aéreo da Rússia. Não é difícil extrair as necessárias conclusões.

Daí nasce a “política” do governo Obama de promover histeria de guerra, combinada com lançar guerra de sanções, contra o rublo e contra o petróleo contra a Rússia – serviço que continua a ser executado por bando de subespécies subzoológicas.

Alguns adultos na União Europeia já viram o escrito na parede (nuclear). As defesas convencionais da OTAN são piada. Qualquer “avançada” militar – como está sendo tentada agora – é também piada, e pode ser demolida pelas 500 armas nucleares táticas que Moscou pode usar.

Na dúvida, abuse

Claro que é preciso tempo para virar a mentalidade vigente de Guerra Fria 2.0, mas há indicações de que talvez os Masters of the Universe estejam prestando atenção – como mostra esse ensaio de Stratfor. Pode-se dizer que apareceu uma primeira trinca (pública) no gelo.

Assumamos que a Rússia decida mobilizar cinco milhões de soldados, e entrar em produção para o exército. Num flash, o “ocidente” recuaria para uma entente cordiale. E assumamos que Moscou decida confiscar o que resta da riqueza dos oligarcas espertalhões. A taxa de aprovação de Vladimir Putin – que, no pé em que está hoje nada tem de modesta – alcançará… 98%. Até aqui, Putin tem-se mantido extremamente contido. Mesmo assim, persiste a mais furiosa demonização histérico-infantiloide do homem.

É cenário de escalada non-stop. Revoluções coloridas. O golpe de Maidan. Sanções; Putin/Hitler “do mal”; tentarem meter a Ucrânia na OTAN; bases da OTAN por toda a parte. Pois mesmo assim, a realidade – o contragolpe na Crimeia e as vitórias em campo dos exércitos das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk – já arrancaram dos trilhos a mais elaborada das políticas e planos do Departamento de Estado/OTAN. Além disso, Merkel e François Hollande da França foram forçados a uma entente cordiale com a Rússia – em torno de Minsk-2 – porque sabem que seria o único modo de impedir que Washington continuasse a armar Kiev.

Variação do índice de aprovação de Putin na Rússia

Putin está comprometido, essencialmente, num processo muito complexo de preservação/ florescimento da história e da cultura da Rússia, com sobretons de paneslavismo e eurasianismo. Comparar Putin a Hitler é ruim até como brincadeirinha de criança.

Mas, claro, que ninguém conte com a capacidade dos neoconservadores de Washington para compreender a história e a cultura da Rússia. A maioria deles seria reprovada até em joguinho de perguntas e respostas sobre seus amados heróis Leo Strauss e Carl Schmitt. Sobretudo, o anti-intelectualismo daquela gente, e aquela arrogância excepcionalista, só deixam espaço para o mais infindável bullying/ provocação.

Uma das minhas fontes, professor universitário norte-americano, enviou carta a Nancy Pelosi, com cópia para um conhecido neoconservador e marido de Victoria, Rainha do Nulandistão. A resposta dele, do endereço de e-mail da Brookings Institution: Por que você não vai se Fo*er [aqui “disfarçado”]?” Mais uma clara ilustração de caso em que marido e mulher falam a mesma língua.

Afinal vê-se sinal de vida inteligente na Av. Beltway, decidida a combater a célula de neocons que opera de dentro do Departamento de Estado, das páginas infestadas de neocons do Wall Street Journal e do Washington Post, uma gangue de think-tanks e, claro, a OTAN, cujo atual comandante militar, general Gen. Breedlove/Breed-ódio, trabalha duro nessa sua encarnação pós-tudo do Dr. Fantástico.

A “agressão” russa não passa de mito. Até aqui, a estratégia de Moscou tem sido exclusivamente de autodefesa. Moscou pode muito rapidamente avançar numa cooperação estratégica com o ocidente, bastando para isso que o ocidente compreenda os interesses de segurança da Rússia. Se esses interesses forem violados – como quando se provoca um urso – o urso responderá. Uma mínima compreensão da história revela que o urso sabe lá algumas coisinhas sobre resistir ao sofrimento. A Rússia absolutamente não entrará em colapso. Não derreterá.

Enquanto isso, outro mito foi também demolido: que as sanções feririam terrivelmente as exportações russas e seus excedentes comerciais. Claro que o país foi ferido, mas nada de insuportável. A Rússia goza de grande riqueza em matérias primas e tem massiva capacidade interna de produção – o suficiente para atender o núcleo mais duro da demanda interna.

Assim, voltamos à União Europeia, Rússia e China e todos entre uma e outra, todos unidos no maior empório comercial da história, por toda a Eurásia. Foi o que Putin propôs na Alemanha há alguns anos, e é o que os chineses já estão fazendo. E quanto aos neocons? O que os neocons têm a propor? Uma guerra nuclear em solo europeu.

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Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera.

Nova York amanhece com estátua misteriosa em homenagem a Edward Snowden

Via Sputnik Brasil

Nova York amanheceu nesta segunda-feira (6) com um novo e misterioso monumento, depois que um grupo de artistas anônimos instalou ilegalmente, na madrugada, um busto de 45 quilos em homenagem a Edward Snowden em um parque do Brooklyn.

Pouco antes do amanhecer, três artistas arrastaram um busto de cerca de 1,20 metro de altura através do Parque Fort Greene, no bairro nova-iorquino do Brooklyn. Enquanto o sol se levantava, eles montaram a estátua em cima de um pilar que fazia parte de um antigo memorial à Guerra de Independência dos EUA – o Monumento Prison Ship Martyrs, originalmente erguido para lembrar os combatentes que morreram a bordo de navios-prisões durante a Revolução Americana.

Falando à revista Animal, os responsáveis pelo busto de Snowden afirmaram que o ato de hoje teve como objetivo “atualizar” o monumento de guerra para “dar destaque àqueles que sacrificam sua segurança na luta contra as tiranias dos tempos modernos”.

Longe de encararem o ato como profanação, os artistas veem a sua obra como uma forma de homenagear as liberdades pelas quais se lutou na Guerra de Independência norte-americana.

“Seria uma desonra para os que foram aqui imortalizados não elogiar quem protege os ideais pelos quais eles lutaram, como o fez Edward Snowden trazendo à luz os programas de vigilância da NSA que violaram a Quarta Emenda [à Constituição dos EUA, que se refere à proteção individual contra buscas e apreensões arbitrárias]”.

O projeto custou milhares de dólares, tirados do bolso dos próprios artistas, e levou seis meses para ser criado. Apesar do esforço, os três se resignaram ao fato de que a obra seria provavelmente destruída pelas autoridades.

De fato, a estátua já foi coberta pela polícia. No entanto, os artistas disseram ter um molde pronto para fabricar outros bustos, de modo que os habitantes e turistas de Nova York ainda poderão ter a chance de ver o monumento ao ex-agente.

Durante seu tempo como funcionário da Agência de Segurança Nacional norte-americana, Snowden revelou a extensão massiva do aparelho governamental de espionagem doméstica. Ele reside atualmente na Rússia, que o acolheu em 2013 para impedir sua extradição para os EUA.

Janio de Freitas: De olho no óleo

Por Janio de Freitas | Via FSP

Há 60 anos, ‘O Petróleo é Nosso’ foi mais do que uma campanha, foi uma batalha. Olha aí o século 20 de volta

A pressão para que seja retirada da Petrobras a exclusividade como operadora dos poços no pré-sal começa a aumentar e, em breve, deverá ser muito forte. Interesses estrangeiros e brasileiros convergem nesse sentido, excitados pela simultânea comprovação de êxito na exploração do pré-sal e enfraquecimento da empresa, com perda de força política e de apoio público. Mas o objetivo final da ofensiva é que a Petrobras deixe de ter participação societária (mínima de 30%) nas concessionárias dos poços por ela operados.

Como o repórter Pedro Soares já relatou na Folha, a Petrobras está extraindo muito mais do que os 15 mil barris diários por poço, previstos nos estudos de 2010. A média da produção diária é de 25 mil barris em cada um dos 17 poços nos campos Lula e Sapinhoá, na Bacia de Santos (de São Paulo ao Espírito Santos). Perto de 70% mais.

Não é à toa que, se a Petrobras perde a confiança de brasileiros, ganha a da China, que a meio da semana concedeu-lhe US$ 3,5 bilhões em empréstimo com as estimulantes condições do seu Banco de Desenvolvimento.

O senador José Serra já apresentou um projeto para retirada da exclusividade operativa da Petrobras nos poços. Justifica-o como meio de apressar a recuperação da empresa e de aumentar a produção de petróleo do pré-sal, que, a seu ver, a estatal não tem condições de fazer: “Se a exploração ficar dependente da Petrobras, não avançará”.

A justificativa não se entende bem com a realidade comprovada. Mas Serra invoca ainda a queda do preço internacional do petróleo como fator dificultante para os custos e investimentos necessários às operações e ao aumento da produção pela Petrobras. Mesmo como defensor do fim da exclusividade, Jorge Camargo, ex-diretor da estatal e presidente do privado Instituto Brasileiro do Petróleo, disse a Pedro Soares que “a queda do [preço do] petróleo também ajuda a reduzir o custo dos investimentos no setor, pois os preços de serviços e equipamentos seguem a cotação do óleo”. E aquele aumento da produtividade em quase 70% resulta na redução do custo, para a empresa, de cada barril extraído.

O tema pré-sal suscita mais do que aparenta. As condições que reservaram para a Petrobras posições privilegiadas não vieram só das fórmulas de técnicos. Militares identificaram no pré-sal fatores estratégicos a serem guarnecidos por limitações na concessão das jazidas e no domínio de sua exploração. A concepção de plena autoridade sobre o pré-sal levou, inclusive, ao caríssimo projeto da base que a Marinha constrói em Itaguaí e à compra/construção do submarino nuclear e outros.

Há 60 anos e alguns mais, “O Petróleo é Nosso” foi mais do que uma campanha, foi uma batalha. Olha aí o século 20 de volta.