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Jornalismo da TV Globo desaba no Nepal

Via Portal Vermelho

O jornalismo da TV Globo, representado em primeiro lugar pelo seu maior símbolo, o Jornal Nacional, protagonizou nesta segunda-feira (27) um contundente exemplo de tudo o que não se deve fazer em uma cobertura jornalística.

Katmandu, capital do Nepal, está em ruínas. Desde o terremoto do último sábado (25), que foi seguido por uma série de cem réplicas sísmicas, mais de 4 mil pessoas morreram e ainda não se calculou de forma confiável o número de feridos e desabrigados. A TV Globo, por coincidência, estava com oito profissionais (repórteres, editores, cinegrafista, produtores executivos) do programa Planeta Extremo, no centro da tragédia. Nesta segunda-feira (27), foi anunciada a entrada ao vivo no Jornal Nacional desta equipe, direto de Katmandu. Sem sair do pátio do hotel em que estavam hospedados, sem uma imagem externa, sem nenhum nepalês entrevistado, os repórteres Carol Barcellos e Clayton Conservani se auto entrevistaram e foram entrevistados durante alguns minutos por William Bonner e Renata Vasconcellos.

Tudo, menos jornalismo

Vale a pena assistir a esta aula de como não se deve fazer jornalismo. Bonner adota um tom paternalista ao se dirigir à dupla: “A gente sabe o que vocês estão passando”. Bonner também destaca que no dia anterior notou a “voz abalada do Clayton” que, prevenido, comprou 100 garrafas de água, apesar de no hotel em que está hospedada a equipe a água não ter faltado pois o repórter relata que, mesmo com o temor de novos abalos, tinha subido ao quarto naquela noite para dormir e tomar banho. Renata Vasconcelos faz uma pergunta absolutamente imprescindível: “Como vocês estão lidando com o medo de novos tremores”? Não estamos cobrando aqui um ilusório distanciamento do jornalista em relação aos fatos. O jornalista não deixa de direta ou indiretamente, afetar e ser afetado pelos fatos. O problema é quando o fato é relegado a um segundo plano e o jornalista assume a cena principal. Aí é álbum de família. É registro de excursão de amigos. Pode ser tudo, menos jornalismo.

Exemplo oposto

Nossa crítica, é bom ressaltar, não é direcionada diretamente à equipe – que, no entanto, não está totalmente isenta dela – mas principalmente à linha editorial do jornalismo da família Marinho, cada vez mais autorreferente e baluartista. Vamos a um exemplo oposto. Vejam esta famosa foto ao lado. Retrata, como se sabe, crianças vietnamitas fugindo em 1972 de um ataque de Napalm das tropas americanas durante a Guerra do Vietnã. Ao centro, a garota Kim Phuc corre nua, pois suas roupas pegaram fogo. Ela foi salva pelo autor da foto, Nick Ut que, segundo testemunhou anos depois a sobrevivente, a levou junto com outras crianças para um hospital e “assim que ele nos deixou lá, foi para uma sala escura revelar as fotos”. Neste caso o repórter registrou o fato, não adotou uma postura de distanciamento desumano e cumpriu seu dever profissional sem assumir a cena principal. Deixo ao leitor a tarefa de imaginar o que faria uma equipe da Globo nas mesmas circunstâncias.

Terceiromundização

Por Eduardo Mello

Desempregados na Espanha.

O sociólogo Markus Pohlmann, da Universidade de Heidelberg, estudou o perfil de executivos alemães da década de 80 e dos dias atuais. Na geração anterior, a busca do consenso social atenuava a busca do lucro. Hoje, a ideia inexiste: a moderação protestante, tradicionalmente associada ao capitalismo alemão, foi superada pela cobiça do aumento dos ganhos, independentemente dos efeitos na sociedade. Até o aumento das fraudes fiscais passou a ser visto com muito mais tolerância, diz o professor.

A Alemanha Federal fora um caso peculiar no pós-guerra, quando o Estado reduziu sua intervenção no mercado laboral. Caberia aos empresários fixar, em acordo com os sindicatos, as condições de trabalho e remuneração. Em contrapartida, passaram a envolver representantes dos trabalhadores na administração das empresas, no que ficou conhecido como cogestão paritária.

Também esse tipo de capitalismo, dos mais saudáveis, sucumbiu ao movimento iniciado na década de 80, com sua conveniente combinação – conservadorismo nos costumes, ultraliberalismo nas finanças. “A ideia de que a empresa deve pagar ao trabalhador um salário suficiente para sustentar toda a família é impossível no plano econômico”, disse um CEO alemão. “A mão-de-obra tem um custo, exatamente como a carne de porco: quando há uma grande quantidade dela, os preços caem”, disse outro.

Esse salário suficiente, e os serviços do Estado de Bem-Estar, fizeram a Europa Ocidental ser invejada pelo então Terceiro Mundo. O Terceiro diferenciava-se do Primeiro também pela condição do trabalhador, já que as respectivas elites encontravam-se nos mesmos mercados. E olha que nós, apesar de alguns pesares, tivemos nossa CLT e nossa Constituição Cidadã, que atenuaram um pouco todo o processo. Milagre, mesmo, é que tenham durado tanto.

Todos esses diques parecem estar sendo rompidos ao mesmo tempo. Noticiou-se na imprensa: os deputados que hesitaram sobre a terceirização causaram insatisfação nos empresários, porque cederam à pressão popular. As federações patronais teriam se sentido traídas, porque alguns congressistas, financiados por empresas, nem mesmo sabiam a que base eleitoral consultar.

Logo agora, que só se fala em produtividade! Talvez não seja um conceito tão simples, como veremos em nosso manual Fundamentos de Economia Aplicada – aos outros. Talvez haja a produtividade da antiga Europa Ocidental, aquela feita por trabalhadores bem educados, alimentados e hospedados; e outra, baseada na maior margem de lucro possível, independentemente dos custos e dos consensos sociais.

Este estudo propõe alguns problemas:
a) há terceirizado comprometido com a produtividade, quando sequer faz parte da empresa para a qual produz?
b) não é estranho que se discuta a solidariedade entre as empresas, mas não delas com os empregados?
c) diz-se que haverá mais oferta de emprego, mas já não estamos quase em pleno emprego?
d) se haverá maior crescimento da economia pela diminuição das obrigações trabalhistas das empresas, não será às custas dos direitos celetistas dos empregados, e suas parcas economias?
e) como poderá competir o empresário que pretender cumprir a função social da empresa, que a Constituição determina?

Temos algumas hipóteses. Não acreditamos que a terceirização tem uma finalidade modernizadora para nossa economia; traz, na realidade, um fim pós-modernizador, talvez, já que incentivará a criação desses estranhos empreendimentos de uma pessoa só (ver capítulo “Do CPF ao CNPJ”), já que traz a fragmentação da vida do trabalhador em relação a seu próprio trabalho.

A modernização prevista no modelo fáustico era outra, diria Marshal Berman: em vez de deixar empresários e trabalhadores desperdiçarem energia em migalhas e atividades competitivas, propunha a integração de todos, com menos ênfase nos lucros imediatos, mais no desenvolvimento de longo prazo. Goethe não era alemão por acaso, poderia dizer a professora Ingeborg, antiga titular da cadeira de Matemática do Colégio Bom Conselho – quando daquele nome só conhecíamos a avenida, da época em que era palco de outras celebrações.

Nossa tese é que as modernizações conservadoras, como a de Vargas, até que não são das piores, apesar de não mudarem tudo. Quem disse que não se pode voltar no tempo, inclusive na saudosa Europa Ocidental?

Esclareço, porém, que, além de economista, sou burocrata, e de berço! Descendo da nobre linhagem de Policarpo Quaresma. Logo, não acredito na existência de leis que tragam prejuízos injustos a nossos cidadãos, ao longo prazo de nossa sociedade. Mas quem garante, a essa altura do campeonato, a maioridade laboral?

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Eduardo Mello, diplomata desde 2008, é Mestre em Ciência Política pela UFRGS. Serviu nas Embaixadas do Brasil na Guiné-Bissau (2010-2012) e no Chile (2012-2014). Atualmente trabalha na Assessoria Internacional da Presidência da República. A coluna reflete apenas as opiniões do autor.

Terremotos induzidos pelo fracking aparecem em mapas geológicos norte-americanos

Por Lauren McCauley | Via Carta Maior

Um consenso científico cada vez amplo liga o crescimento da atividade sísmica com o drilling de petróleo e gás no país.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) na última quinta-feira divulgou um estudo e um mapa destacando o local e a freqüência dos terremotos, os quais estudiosos acreditam que são causados por atividades humanas como o drilling e o fraturamento hidráulico – o fracking.

Em uma declaração, a USGS disse que o aumento da atividade sísmica no centro e leste dos Estados Unidos desde 2009 “está ligado às operações industriais que se desfazem de águas residuais injetando-as em poços profundos”.

O estudo é a primeira análise compreensível que inclui o que a USGS chama de “terremotos induzidos” em seus mapas de meteorologia, os quais detalham a probabilidade de ocorrer um terremoto em um período de 50 anos. Os mapas são usados para a construção de códigos, taxas de garantia e planos preparatórios para emergências, entre outras funções.

“Esses terremotos estão acontecendo em uma taxa maior do que nunca antes vista,” disse Mark Petersen, Chefe da USGS. O novo mapa inclui os estados do Alabama, Arkansas, Colorado, Kansas, Novo México, Ohio, Oklahoma e Texas, com Oklahoma em destaque por maior numero de terremotos feitos pelo homem. Todas as áreas sublinhadas no mapa “estão localizadas perto de poços injetados com fluidos profundos ou outras atividades industriais capazes de induzir terremotos”, de acordo com o estudo.

Oklahoma teve 585 terremotos de magnitude 3 ou mais somente em 2014, e está na lista para ter mais 800 esse ano, de acordo com o Serviço Geológico de Oklahoma. Antes de 2009, o estado teve de 1 a 3 terremotos no ano enquanto agora temos uma média de 2.5 tremores por dia.

Na última terça-feira, cientistas do Serviço Geológico de Oklahoma divulgaram uma declaração dizendo que é bem provável que “a maioria dos terremotos recentes, particularmente aqueles de Oklahoma central e centro-norte, são impulsionados pela recarga artificial de aquíferos”.

A prática do fracking solta gás e petróleo presos em formações rochosas injetando uma combinação de água, químicos e areia na rocha. O subproduto tóxico do fracking é depois injetado no solo pelos poços de descartáveis, os quais cientistas dizem estar causando esses tremores.

Também na terça-feira, um estudo publicado no jornal Nature Communications concluiu que uma série de 27 terremotos ocorridos numa pequena cidade do Texas eram prováveis conseqüências das operações de drilling na formação próxima de gás natural.

Polícia põe em prática toque de recolher em Baltimore

Por Leandra Felipe | Via Agência Brasil

Milhares de policiais da Guarda Nacional e agentes do Exército executaram durante a noite dessa terça-feira (28) e a madrugada de hoje (29) o toque de recolher na cidade de Baltimore, no estado de Maryland, no Nordeste dos Estados Unidos. Manifestantes foram retirados das ruas pelos policiais a partir das 22h, e a população foi orientada a não sair de casa.

As emissoras de TV norte-americanas mostraram que em algumas regiões da cidade houve resistência e os agentes da polícia usaram gás de pimenta e granadas de fumaça para dispersar os manifestantes que resistiam.

Apesar dos confrontos em algumas regiões, a polícia afirmou que o “toque de recolher estava funcionando, graças à presença policial efetiva nas ruas”. Segundo um boletim emitido por volta das 1h (horário local), a situação na cidade estava sob controle.

A medida foi colocada em prática com a presença dos policiais que usaram equipamentos de choque e também com tanques do Exército posicionados em algumas avenidas da cidade. A decisão do governo foi tomada após a série de atos violentos que afetaram a cidade na última segunda-feira em meio aos protestos depois do funeral do jovem negro Freddie Gray, de 25 anos. Ele morreu no último dia 19, após ser golpeado na coluna por policiais.

Mais de 3 mil policiais e militares patrulharam as ruas de Baltimore com homens de Maryland e estados vizinhos, como Pensilvânia, Nova Jersey e Distrito de Columbia (onde está a capital, Washington).

toque de recolher será mantido por uma semana e a decisão tem o respaldo do presidente Barack Obama, que ontem admitiu que a polícia do país precisa rever a forma como interage com a população negra, mas afirmou ser inadmissível os atos de vandalismo que alguns grupos cometeram na há dois dias. No total, 34 jovens e 202 adultos foram detidos e 144 carros e 15 prédios foram incendiados.

Devido ao toque de recolher várias ruas da cidade encontram-se fechadas ao trânsito. As escolas voltarão a funcionar hoje, de acordo com a prefeitura. Seis policiais estão sendo investigados pela morte do jovem na cidade e o resultado da investigação deve ser divulgado pelo Ministério Público na próxima sexta-feira, dia 1º de maio.

A crise brasileira é fruto de conflitos globais: Entrevista com Flavio Lyra

Por Rennan Martins | Vila Velha, 29/04/2015

Potências do G7 em verde, e potências ascendentes do BRICS, em vermelho.

A crise que o Brasil atravessa só pode ser compreendida em sua totalidade conjugando o panorama nacional ao internacional. As contradições entre núcleos de poder internos, influenciados por poderio externo, acirram o conflito político e econômico desencadeado pela crise de 2008 e evidenciado desde a última corrida eleitoral.

Por trás do combate a corrupção da Operação Lava Jato estão interesses globais, alinhados as potências tradicionais declinantes, que visam a preservação da hegemonia por meio da sabotagem ao BRICS, da sujeição da Petrobras as regras dos cartéis transnacionais e do desmantelamento da indústria tecnológica e empreendedora brasileira.

Essas são as interpretações do economista Flavio Lyra, da escola da Unicamp. Em seu artigo A crise brasileira e os núcleos de poder que a determinam, Lyra traça as linhas gerais dessa importante tese. Pela relevância e originalidade da análise, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou-o mais uma vez. Nela, Flavio aprofunda o diagnóstico da crise que assola o país, vê o ajuste fiscal como um perigo por conta da capacidade de desmobilização das forças populares, e sugere um pacto entre o empresariado nacional e os trabalhadores como forma de combater as forças que querem impôr um modelo eternamente dependente ao Brasil.

Confira a íntegra:

De que maneira a crise internacional afetou o modelo conciliatório praticado até o fim do ano passado? Que respostas seriam adequadas para manter e ampliar a inclusão social?

Antes de tudo, a crise interrompeu o “boom” de exportação de produtos primários, deflagrado pelo surpreendente crescimento da China. O Brasil conseguira acumular saldos positivos nas contas externas em apenas três anos. A partir de 2008 começaram a aparecer saldo negativos, que somente cresceram nos anos seguintes. Por seu turno, a indústria sofreu as consequências negativas do país manter a moeda apreciada visando controlar a inflação e favorecer a entrada líquida de capital estrangeiro para financiar o déficit das contas externas. O crescimento alcançado nos governos de Lula e a melhoria na distribuição da renda, somente foram possíveis em decorrência dessa conjuntura externa excepcional, porém com o altíssimo custo de aprofundar perigosamente o processo de desindustrialização que já vinha da década de 90.

Muito embora, tenha havido no período um forte afluxo de capital externo, a influência sobre a taxa de formação de capital foi muita pequena, mostrando que não dá para esperar que o capital estrangeiro seja fundamental para o crescimento da formação de capital no país. Para alguns autores, esse papel pode ser até negativo, pois aumenta a desnacionalização da economia quando vai para a atividade produtiva e extrai poupança interna quando se trata de capital meramente rentista.

O calcanhar de Aquiles da economia brasileira tem sido a baixa taxa de formação de capital, que está intimamente associada ao caráter rentista-financeiro do modelo de política econômica vigente, o chamado tripé, cujo funcionamento é um obstáculo ao financiamento do investimento produtivo público e privado, pois o sistema econômico é direcionado para a acumulação financeira através das altas taxas de juros que sobrecarregam as empresas produtivas e o setor público.

No quadro atual o mais provável é regridam os resultados alcançados no campo da inclusão social, pois o custo do ajuste que está sendo realizado, vai ser jogado nas costas dos trabalhadores, seja pela redução do gasto social, seja pela perda de poder de compra dos salários. Enquanto não for possível ao sistema de poder que gira em torno da classe trabalhadora se rearticular para poder influenciar as decisões do governo, será praticamente impossível retomar o crescimento e ampliar o processo de inclusão social.

A rearticulação do sistema de poder que gira em torno da classe trabalhadora, somente poderá acontecer em disputa ferrenha com o sistema de poder que gira em torno do sistema financeiro, dos setores tradicionais da indústria, das empresas estrangeiras e do agrobusiness. Essa disputa é que vai determinar o que acontecerá no país em termos de reforma política, especialmente da política econômica.

Nessa disputa, ainda não está inteiramente claro de que lado se situará o sistema de poder das grandes empresas nacionais, em que se incluem as grandes empreiteiras, que têm nítidos interesses no aumento da formação de capital produtivo do país, mas que têm interesses antagônicos em relação ao sistema de poder da classe trabalhadora. Um pacto, entre estes dois grupos de interesse seria indispensável para o país voltar a crescer e prosseguir com o processo de inclusão social. No momento, está havendo uma aliança tática entre estes núcleos, pois os interesses imediatos de ambos foram colocados sob ameaça com a campanha contra a corrupção desencadeada pelo sistema de poder que gira em torno do sistema financeiro privado, articulado com o sistema de poder externo, que gira em torno dos Estados Unidos e de seus aliados europeus.

A curto e mesmo a médio prazos não é possível vislumbrar formas de manter e ampliar a inclusão social, pois o modelo de política econômica vigente é notoriamente contrário à retomada do crescimento e ao aprofundamento da política social do governo. No melhor dos casos, será possível salvar algumas conquistas sociais alcançadas. Os salários reais deverão ser nitidamente prejudicados pela política econômica, no quadro de recessão que se desenha daqui pra frente.

Quais condições impediram o governo de prosseguir na agenda econômica progressista? De onde e como surgiu essa interdição?

A mudança na conjuntura internacional, com a desaceleração do crescimento chinês e o crescimento da competição no mercado de produtos industriais impediram a continuação do crescimento econômico e a continuação das políticas de inclusão social. Não sem razão, o crescimento industrial e a formação de capital foram bastantes afetados. A tentativa do governo Dilma de aumentar a taxa de investimento, mediante a ação de financiamento ao investimento privado pelo BNDES e a redução do superávit fiscal, para aumentar o investimento público, não produziram os resultados esperados. Os dois outros sistemas internos de poder, viram-se, então, diante da oportunidade de deslocar do governo o sistema de poder da classe trabalhadora. Para tanto, contaram com o apoio do sistema de poder externo, que gira em torno dos Estados Unidos e de seus aliados europeus, com a mobilização da grande imprensa e de setores da polícia federal e do poder judiciário.

Desencadearam, então, uma ampla campanha contra o governo e seu partido, que acabou afetando negativamente o clima negócios e neutralizando as ações do governo voltadas para a elevação da taxa de formação de capital, num quadro já desfavorável, em decorrência da redução dos preços e da taxa de expansão da demanda externa de produtos primários. A campanha eleitoral para a sucessão presidencial, voltada para concentrar no governo e no PT a culpa pelos atos de corrupção identificados nas relações entre a PETROBRAS e as empreiteiras, somente contribuiu para aumentar o clima de pessimismo entre os empresários e acelerar o processo de reajuste de preços.

Que interesses levam os núcleos externos de poder a promover/apoiar a desestabilização do Brasil? Como estes núcleos se articulam aos internos?

Flavio Lyra

O sistema externo que gira em torno dos Estados Unidos e da Europa têm basicamente quatro tipos de interesses, que são determinantes para o apoio a ações desestabilizadoras em relação ao Brasil. Primeiro, bloquear a consolidação do sistema externo de poder que começa a tomar forma em torno dos BRICS, especialmente da China, que representa uma séria ameaça a hegemonia do dólar na economia internacional. Segundo, desarticular o grupo dos países do MERCOSUL-UNASUL, que tende a acompanhar o Brasil nas disputas de poder no âmbito internacional. Terceiro, assegurar-se no tocante ao controle do petróleo da Venezuela e do Brasil. Por último, afastar competidores do mercado de construção pesada, no qual as empreiteiras do Brasil têm se destacado interna e externamente.

O sistema externo, que gira em torno dos Estados Unidos tem fortes articulações internas com o núcleo conformado pelas indústrias tradicionais, pelo setor agroexportador, pelo sistema financeiro privado e pelas empresas multinacionais. Este núcleo é defensor da integração dependente da economia brasileira com os Estados Unidos e a Europa, dentro de uma concepção neoliberal, que bloqueia o aparecimento de um novo ator de peso, como Brasil, na economia internacional. Já a articulação interna do sistema dos BRICS se dá principalmente com os segmentos que defendem maior autonomia na política de desenvolvimento do país, articulado em torno dos sistemas de poder da classe trabalhadora e das grandes empresas nacionais, privadas e públicas.

Por que mesmo diante da perda de hegemonia e alto endividamento os EUA e UE não reveem suas posições políticas e econômicas? Há sustentabilidade do arranjo que propõem essas potências?

Essa não é uma questão simples de ser equacionada. Por um lado, a liderança inconteste dos Estados na área militar, no desenvolvimento tecnológico e no controle da moeda internacional, embora ameaçados, ainda têm um papel dominante sobre os destinos da economia internacional. As mudanças que venham a ocorrer nessa área, tenderão a ser lentas e colocam o mundo diante da ameaça sempre presente de guerras de resultados imprevisíveis. Por seu turno, a Europa tem profundas divisões internas que lhe impedem ter uma estratégia comum frente ao mundo. Sem contar que, também se confrontam com contradições com os Estados Unidos, especialmente no mercado internacional.

Os arranjos propostos pelas grandes potências concentram-se essencialmente em manter as condições de dominação existentes no âmbito internacional e de evitar o fortalecimento de novos centros de poder. Daí, as ações baseadas em sanções econômicas que têm utilizado contra países como o Iran, a Rússia e as tentativas de desestabilização de governos que direta ou indiretamente tendam a participar em acordos que possam fragilizar o dólar, como moeda internacional, como é o caso dos BRICS.

Que propostas trazem os BRICS? De que forma essas propostas afrontam a ordem global?

A grande ameaça que o sistema dos BRICS representa para os interesses do sistema de poder que gira em torno dos Estados Unidos e da Europa, tem a ver com a perda de hegemonia do dólar nos mercados internacionais, seja no financiamento do comércio, seja no financiamento de grandes investimentos na infraestrutura. Atualmente, os países carentes de grandes investimentos na infraestrutura, que precisam de financiamento internacional, têm que se submeter às condicionalidades do Banco Mundial, cujo controle os Estados Unidos mantêm com mão de ferro, visando submeter as políticas econômicas desses países aos propósitos da integração dependente do sistema de poder sob a hegemonia daquele país. A política de privatização de empresas estatais no Brasil sofreu forte influência do Banco Mundial.

Por seu turno, o Fundo Monetário Internacional, continua fortemente dependente dos interesses dos Estados Unidos e da Europa. O esforço de maior participação nas quotas do Fundo, por parte de países como os BRICS, até hoje não teve desdobramentos práticos nos órgãos decisórios daquele organismo.

Por último, mas não menos importantes, o dólar como moeda de reserva internacional, constitui um importante instrumento de transferência de renda do mundo para a economia norte americana e um meio eficaz para o financiamento de sua indústria de guerra e dos projetos de desenvolvimento tecnológico associados a essa indústria.

O que desencadeou a cooptação de braços do Estado tido como neutros para a ação política? Não há formas de combater esse aparelhamento?

A influência dos Estados Unidos e dos países europeus nos centros do poder estatal no Brasil é um fenômeno que tem acompanhado nossa vida de longa data. Em certas épocas, essa influência se torna mais forte em função da conjuntura internacional. Não se pode esquecer que no golpe militar de 1964, os Estados Unidos tiveram papel determinante, não só em sua preparação, quanto na orientação das políticas internas subsequentes. Na conjuntura atual, os fato de o Brasil ter um governo considerado de esquerda, mobiliza naturalmente a atenção dos órgãos de segurança dos Estados Unidos e da Europa. Por outro lado, a atitude de maior autonomia dos países da região para a condução de suas políticas internas e externas, representa uma ameaça à hegemonia regional dos Estados Unidos e uma perda de capacidade no controle dos abundantes recursos naturais, especialmente o petróleo. Os acordos militares, de combate ao narcotráfico e de assistência técnica à formação e treinamento de pessoal, têm sido um canal privilegiado para a cooptação de funcionários do Estado brasileiro.

Poderia ilustrar como algo legítimo, que é o combate a corrupção, se torna um instrumento com fins políticos? Como diferenciar?

O combate à corrupção é uma bandeira de fácil manipulação pela imprensa e sempre esteve presente na vida política dos países, especialmente os da América Latina, onde prestou-se eficazmente para fomentar golpes de estado contra governos que se propunham a realizar reformas de cunho social. Ela tem a vantagem de atacar um problema que facilmente mobiliza as pessoas, sem despertar atenção para outras questões muito graves ligadas às desigualdades sociais. Embora a corrupção perpasse todas esferas da vida social, é muito fácil convencer as pessoas que a responsabilidade por sua existência é inteiramente do governo, quando na realidade tanto os poderes Judiciário e Legislativo, quanto a sociedade civil, têm se revelado muito susceptíveis a práticas ilícitas. A corrupção apresenta-se como um fenômeno endêmico em nossas sociedades, especialmente na cooptação de políticos por empresas, através do financiamento de caríssimas campanhas eleitorais. As campanhas contra a corrupção sempre encontram subsídios importantes na realidade e é muito difícil identificar quando seu uso é feito com finalidades políticas.

Quais os sinais de que o grande empresariado compreendeu a ameaça externa? É possível reestabelecer um pacto entre a classe trabalhadora e a indústria nacional?

Desde há bastante tempo existe uma política de reserva de mercado para as grandes empresas nacionais que atuam na siderurgia, na petroquímica, na construção civil e nas indústrias do petróleo e da energia. Essa política permitiu constituir grandes conglomerados produtivos que já estão presentes no mercado internacional, particularmente na América Latina, como competidores de peso das corporações internacionais. Os governos recentes do Brasil buscaram fortalecer esses conglomerados com apoio financeiro, através do BNDES e das políticas de compras no mercado interno, tanto no caso de grandes projetos de investimento no país, como são os casos do programa de construção naval e de exploração de petróleo pela Petrobras, da construção de hidroelétricas e obras rodoviárias e ferroviárias. Também, mediante o financiamento do BNDES na exportação de serviços, em obras importantes de infraestrutura exterior, como o porto de Mariel em Cuba.

Destaque-se, ainda a participação desses grupos no desenvolvimento da indústria de defesa, com projetos importantes na indústria de aviação civil e militar, na construção de submarinos nucleares e de armamentos em geral.

Essas grandes empresas passaram a constituir um dos três sistemas de poder que comandam a economia do país e seus interesses vão na direção de um projeto nacional de desenvolvimento, na contramão do projeto de internacionalização dependente que interessa ao sistema de poder que gira em torno das grandes corporações internacionais dos Estados Unidos e da Europa.

A campanha de combate à corrupção transformou-se, assim, num instrumento funcional para o sistema que gira em torno das grandes corporações internacionais, na medida em que presta-se para três propósitos: a) prejudicar o sistema das grandes empresas nacionais; b) desmoralizar a participação da classe trabalhadora no poder; c) desestimular a participação do Brasil na constituição do sistema dos BRICS, e d) prejudicar o esforço de integração regional com o fortalecimento do MERCOSUL – UNASUL.

O sistema de poder baseado na classe trabalhadora e o sistema de poder baseado na grande indústria vão ser naturalmente forçados a se aliarem por uma questão de sobrevivência, não obstante as contradições existentes entre eles. A questão crucial, neste caso, é a de saber qual sistema comandará o processo.

A reação em marcha no meio político contra a desestabilização do governo é uma indicação clara de que a grande empresa nacional compreendeu a inconveniência dessas ações para seus interesses econômicos. A estagnação econômica que se desenha para os próximos anos vai atuar como fator de estímulo à formação de um pacto entre o sistema da classe trabalhadora e o das grandes empresas nacionais, para a retomada do crescimento, acirrando o conflito interno entre esses dois sistemas e o sistema que gira em torno do setor financeiro e rentista da economia. A questão nacional, pode voltar a ser um ingrediente importante no cenário político do país, tão logo seja superado o clima atual de pressões para a desestabilização do governo.

É possível que a base social do PT se esvaia por conta do ajuste fiscal? Os efeitos dele ainda estão por se manifestar?

Esse é um perigo ostensivo. A incapacidade demonstrada pelo PT de preservar suas fontes de apoio junto aos movimentos sociais e de atuar para contrarrestar o controle dos meios de comunicação pelos segmentos mais tradicionais da elite brasileira, fragilizou bastante o partido, não somente na disputa pela preferência do eleitorado, quanto na afirmação de sua hegemonia sobre os partidos políticos da coalizão governamental. O ajuste fiscal que o governo está sendo obrigado a realizar vai na contramão do fortalecimento de sua base de apoio popular. Os efeitos negativos sobre o bem-estar da população ainda estão por se manifestar em toda sua extensão. A política econômica até agora adotada, não vai permitir a retomada do crescimento e, certamente vai afetar negativamente as conquistas salariais da classe trabalhadora e os benefícios alcançados pelos segmentos mais pobres da população.

Que ações imediatas seriam indicadas para despressurizar o cenário político? As perspectivas atuais são de melhora ou acirramento da crise?

O fortalecimento da aliança tática entre as forças políticas influenciadas pelo sistema de poder da classe trabalhadora e o sistema das grandes empresas nacionais, tem grande chance de atenuar as pressões, desestabilizadoras do governo, curto prazo. O direcionamento dos gastos de propaganda do governo para os segmentos da mídia menos agressivos contra o governo, pode atenuar a campanha de desestabilização vigente. Mas, como a política econômica não oferece perspectivas de retomada do crescimento, tende a prejudicar a classe trabalhadora e o ambiente de crise tende a permanecer, enquanto não seja possível realizar reformas políticas que desloquem o poder do setor financeiro e permitam mudanças na política econômica que sirvam para a retomada dos investimentos produtivos, em detrimento da acumulação financeira. A atual política econômica, centrada no tripé, precisa ser alterada em favor de uma política voltada para o investimento produtivo e a retomada do crescimento.

Itamaraty diz que terá atuação mais ‘intensa e militante’ para abolir pena de morte no mundo

Via Opera Mundi

Ministério das Relações Exteriores se manifestou após fuzilamento de Rodrigo Gularte na Indonésia, segundo brasileiro executado por narcotráfico no país.

O Ministério das Relações Exteriores brasileiro afirmou, nesta terça-feira (28/04), que a execução de Rodrigo Muxfeldt Gularte, de 42 anos, diagnosticado com esquizofrenia, constitui “um fato grave no âmbito das relações entre ambos os países” e ressaltou que o país atuará “de forma mais intensa e militante” junto a organismos internacionais para a abolição da pena capital no mundo.

fuzilamento de Rodrigo Gularte ocorreu juntamente com o de outras sete pessoas na prisão de Nusakambangan nesta terça-feira às 14h35 — 00h45 de quarta-feira (29/04) no horário local.

Rodrigo Gularte| Foto: Arquivo familiar

De acordo com o Secretário-Geral das Relações Exteriores, Embaixador Sérgio Danese, “a execução do segundo brasileiro na Indonésia constitui um fato grave no âmbito das relações” com a Indonésia.

Sem dar detalhes sobre os procedimentos bilaterais que serão tomados com relação ao país, o diplomata ressaltou que o Brasil vai atuar junto a organismos multilaterais para convencer países que ainda aplicam a pena capital a “decretar pelo menos moratória, ainda que não façam mudanças no regime jurídico”.

O chanceler Mauro Vieira, que se encontra em Bogotá, onde realiza uma série de encontros bilaterais com sua homóloga, María Ángela Holguín, também se pronunciou.

O embaixador brasileiro ressaltou que o governo brasileiro nunca “contestou a acusação nem o processo judicial e respeitamos a soberania da Indonésia”, mas acrescentou que “sempre contestamos a aplicação da sentença por questões humanitárias”.

Veja a íntegra da coletiva de imprensa concedida pelo Itamaraty:

A nota divulgada à imprensa ressalta ainda que a presidente Dilma Rousseff enviou uma carta ao presidente Joko Widodo, na qual reiterou o apelo para que “a pena capital fosse comutada, tendo em vista o quadro psiquiátrico do brasileiro, agravado pelo sofrimento que sua situação lhe provocava nos últimos anos”.

O fuzilamento de Gularte ocorreu juntamente com outras sete pessoas na prisão de Nusakambangan, sendo seis estrangeiros — dois australianos, quatro nigerianos, um de Gana — e um indonésio. A filipina Mary Jane Veloso conseguiu ter a sentença adiada, assim como o francês Serge Atlaoui.

Leia a íntegra do comunicado:

“O governo brasileiro recebeu com profunda consternação a notícia da execução, na Indonésia, do cidadão brasileiro Rodrigo Muxfeldt Gularte, ocorrida na data de hoje, 28 de abril de 2015, pelo crime de tráfico de drogas.

Em carta enviada ao seu homólogo indonésio, a Presidenta Dilma Rousseff havia reiterado seu apelo para que a pena capital fosse comutada, tendo em vista o quadro psiquiátrico do brasileiro, agravado pelo sofrimento que sua situação lhe provocava nos últimos anos. Lamentavelmente, as autoridades indonésias não foram sensíveis a esse apelo de caráter essencialmente humanitário.

Ao longo dos dez anos em que o Rodrigo Muxfeldt Gularte esteve preso na Indonésia, o Governo brasileiro prestou-lhe a devida assistência consular e acompanhou sistematicamente sua situação jurídica, na busca de alternativas legais à pena de morte, observando rigorosamente o que a Constituição e as leis daquele país prescrevem sobre essa matéria.

A execução de um segundo cidadão brasileiro na Indonésia, após o fuzilamento de Marco Archer Cardoso Moreira, em 18 de janeiro deste ano, constitui fato grave no âmbito das relações entre os dois países e fortalece a disposição brasileira de levar adiante, nos organismos internacionais de direitos humanos, os esforços pela abolição da pena capital.

O Governo brasileiro transmite sua solidariedade e seu mais profundo pesar à família de Rodrigo Muxfeldt Gularte.

Secretaria de Imprensa

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República”.

Após terremotos, brasileiros começam a deixar o Nepal

Por Andreia Verdélio | Via Agência Brasil

Terremoto no Nepal Abir Abdullah/EPA/Agência Lusa

Apesar do tumulto e do congestionamento de voos, o aeroporto de Katmandu, capital do Nepal, voltou a funcionar, e os brasileiros que estão no país começam a voltar ao Brasil nos próximos dias, após os terremotos na região. A Agência Brasil conversou com o brasileiro Silvio Aparecido Pereira da Silva, que mora no país asiático. Ele explicou que está com um grupo de 32 brasileiros em Katmandu, em contato com a embaixada brasileira, mas disse que existem brasileiros em outras localidades.

Do grupo, terão prioridade de embarque para deixar o país uma família com um bebê de 12 dias, uma mãe com duas crianças pequenas, de 2 anos e 4 anos, e algumas pessoas mais idosas. “Estivemos na embaixada e a equipe estava tentando informar o Itamaraty sobre os brasileiros, mas não tinha internet. A comunicação está difícil, mas estamos sendo bem atendidos, na medida do possível”, disse Silvio.

Segundo ele, mesmo com o clima de destruição, a cidade e o povo nepalês estão aparentemente calmos. “As lojas estão fechadas, os serviços estão precários, em alguns momentos eles funcionam, não tem energia elétrica. Ontem ela [a energia] voltou por um tempo e depois caiu. Há falta de água. A escola onde estamos acampados têm duas quadras, cedemos uma para a comunidade e na outra estamos com mais de 200 crianças. Ganhamos um cabrito hoje de alguns hindus para poder comer.”

Ele e a esposa trabalham com as organizações não governamentais Missão Cristã Mundial e Mobilização Mundial, em uma casa de acolhimento para crianças traficadas no Nepal. A escola da organização também atende a crianças da comunidade. Segundo Silvio, a estrutura de atendimento do governo nepalês é muito ruim. “O governo é ineficiente e precário, nessa situação eles têm boa vontade, mas não tem estrutura. Se eles conseguirem reestabelecer água, energia e desbloquear as estradas já vai ser ótimo.”

Silvio mora no Nepal com a esposa Rose e os dois filhos e, segundo ele, vão ficar para continuar a ajudar o povo nepalês na reconstrução do país. “Minha filha de 9 anos, que é nepalesa, está muito assustada, mas eles [os filhos] querem ficar mesmo com medo. O terremoto foi terrível, a lembrança é terrível”, disse.

Foram dois terremotos, um no sábado (25) de magnitude 7,8 na escala de Richter e outro ontem (26) de magnitude 6,7. Os abalos provocaram a morte de mais de 3,2 mil pessoas, até o momento, segundo a Organização das Nações Unidas. De acordo com Silvio, além dos dois tremores principais, dezenas de réplicas do terremoto foram sentidas até duas horas depois dos primeiros episódios. “É assustador, durante a noite ainda sentimos tremores leves. Uma pessoa fica de vigília com um sino, para tocar se houver um tremor mais forte durante a madrugada. Mas hoje senti que eles diminuíram. A minha impressão é que o pior já passou.”

Durante o primeiro terremoto, no sábado, Silvio conta que só conseguiu reunir a família após três horas. “Minha esposa estava em casa, eu estava com meus filhos dirigindo para a igreja e o chão começou a tremer, foi assustador. As crianças na escola disseram que o prédio mexia como se fosse gelatina e, mesmo com treinamento que elas recebem, desceram desesperadas pelas escadas. Fui passando por lugares desmoronados, com as pessoas andando pelas ruas; abriram rachaduras nas estradas. Várias de nossas crianças perderam parentes. Conseguimos reunir nossa família três horas depois. Foi assustador.”

O missionário explicou que, apesar das diferenças religiosas no país, que tem grupos hindus, budistas e cristãos, há muita solidariedade. “Ontem os hindus aceitaram comer conosco, nos doaram o cabrito, as pessoas estão se ajudando, pessoas de castas [níveis sociais] diferentes ajudando uns aos outros. Apesar da tragédia, há solidariedade. E quero tranquilizar as pessoas no Brasil: Diga que estamos bem.”