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A crise interna, a Petrobras e o BRICS: Entrevista com J. Carlos de Assis

Por Rennan Martins | Vila Velha, 11/05/2015

Parceria estratégica Brasil-China é a solução para a economia nacional?

A vinda de Joaquim Levy e sua ortodoxia para a Fazenda significa continuidade da política econômica petista, não mudança. Os juros estratosféricos visam tão somente atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos, e a dinâmica da inflação no Brasil é ligada aos preços administrados e ao alto grau de indexação. O ajuste fiscal e a Operação Lava Jato podem custar 5% do PIB, um desastre recessivo.

Essa é a visão do jornalista, economista e professor da Universidade Estadual da Paraíba, José Carlos de Assis. Em entrevista ao Blog dos Desenvolvimentistas, além de analisar o cenário econômico nacional, falamos de geopolítica e conjuntura global.

Ativo na imprensa alternativa, onde publica artigos regularmente, Assis considera que a partilha é o regime certo para o pré-sal e taxa de “oportunismo deslavado” as recentes iniciativas que visam flexibilizá-lo. Enxerga nessa ofensiva forte influência de interesses externos, e indica uma parceria estratégica com a China como a saída para a recuperação da economia brasileira.

Confira a íntegra:

Como explicar o giro ortodoxo da política econômica do governo? Que efeitos ainda serão sentidos por conta do ajuste?

Não há giro. Há uma continuidade. Em matéria de política econômica o Governo Dilma não é muito diferente do de Lula. Lembram-se do Palocci? Qual a diferença entre o Levy e ele? A situação conjuntural é que mudou. Antes, nos aproveitamos do boom das commodities e acumulamos grandes superávits comerciais; agora, estamos numa terrível situação no balanço de pagamentos devida a uma política cambial estúpida, que vinha de antes. De fato, neste primeiro trimestre, o déficit em conta-corrente acumulado em 12 meses atingiu US$ 101,6 bilhões. É um desastre anunciado.

As perspectivas são negras, se os atores da economia real, empresários e trabalhadores, não se juntarem para convencer o setor público que, se não houver intervenção dele, vamos para uma contração da economia da ordem de 5 a 6% – 0% de carry over do crescimento zero em 2014, 2% negativos do efeito Levy e menos 3% do efeito Lava Jato, que está sendo devastador.

Enquanto se aperta a economia real, os juros sobem e o serviço da dívida vai às alturas. Essas decisões são contraditórias? A economia feita com os cortes será perdida nos gastos financeiros?

A única coerência é ditada pela situação externa: na medida em que se tem déficits em conta-corrente elevadas, o Governo tem que atrair capitais externos para fechar o balanço de pagamentos. Como desestruturamos nossa indústria e o boom das commodities acabou, resta-nos apenas aumentar os juros. E aumentar os juros, obviamente, nada tem a ver com controle de inflação. É para atrair dinheiro especulativo e assim fechar a conta externa.

Por que a subida dos juros parece não fazer efeito sobre a inflação? Haveriam métodos diferentes pra combater a subida dos preços?

A política de juros altos, como disse, não tem nada a ver com a inflação. É um remendo para atrair dinheiro especulativo a fim de fechar o balanço de pagamentos. Enquanto isso a inflação vai evoluindo segundo sua própria lógica, que é a dos preços administrados e da indexação generalizada, mesmo que nem toda formal.

Em paralelo ao recuo econômico, cresce a aderência a mudanças nas regras de exploração do pré-sal e na política de conteúdo nacional. O que desencadeou esse processo? Que interesses se beneficiam disso?

É o mais deslavado oportunismo por parte das forças externas e internas que querem destruir a correta política de petróleo. É repulsivo que um sujeito como o senador Serra, que fez a lei dos genéricos, esteja nessa.

Procedem as alegações de que a Petrobras não tem caixa pro montante de investimentos necessários no pré-sal?

É verdade, não tem caixa. Mas tem patrimônio para suportar um nível de endividamento muito maior do que tem, favorecendo a retomada dos investimentos. O correto seria o Tesouro passar recursos para o BNDES, e o BNDES os repassar à Petrobrás, para que a empresa escape das injunções bancárias e de agências de risco, que não passam de agentes do charlatanismo mais deslavado.

José Carlos de Assis

Quais serão as consequências da eventual “flexibilização” do regime de partilha e da política de conteúdo nacional?

Em ambos os casos, seria uma perda injustificável por parte dos que defendem o emprego e as empresas internas. Não falo de empresas nacionais, pois só subsistem algumas poucas, mas de empresas internas, ou seja, instaladas no Brasil, gerando emprego e renda aqui dentro. A política de conteúdo nacional é fundamental para sua sobrevivência, e a sobrevivência de centenas de milhares de empregos, já que as internacionais pressionariam para trazer tecnologia e mão de obra de fora.

Enquanto isso, o cenário internacional é de acirramento de conflitos por recursos estratégicos. De que forma se insere a nossa crise interna no tabuleiro geopolítico?

Boa parte das pressões exercidas sobre a Petrobrás se deve a razões geopolíticas. Os EUA e seus acólitos europeus tentam atrair a Rússia para uma guerra na Ucrânia, a fim de (tentar) estrangulá-la economicamente, o que torna a política brasileira de adesão aos BRICS uma atitude hostil: o amigo de meu inimigo é meu inimigo. Sem o correto entendimento dessa questão, não entenderemos jamais as pressões americanas e europeias para nos impedir de consolidarmos os BRICS, usando inclusive forças políticas internas consideráveis, sobretudo por meio do PSDB.

Quanto as iniciativas do BRICS de fundar um Banco de Desenvolvimento e criar seu arranjo de reservas contingentes. Como essas propostas afetam a arquitetura político-econômica global?

Vai ser a primeira mudança significativa na arquitetura financeira internacional criada pelos anglo-americanas em Bretton Woods em seu próprio interesse. Em outras palavras, criará condições para o início da execução de políticas monetárias soberanas nos BRICS e nos demais países em desenvolvimento, tendo em vista o apoio a ser dado a políticas econômicas de interesse nacional.

Quais seriam os passos mais apropriados para o Brasil frente a esse quadro?

Sem dúvida nenhuma, um acordo estratégico com a China, em bases produtivas, não comerciais. Estou participando de um esforço nesse sentido, pelo qual proporemos à China que nos abra uma linha de crédito considerável para financiarmos produção destinada à própria China, de metais e de commodities e produtos agrícolas industrializados, ancorada em grandes financiamentos também em energia e logística. Esperamos ter a proposta pronta para a chegada do Primeiro Ministro chinês, com uma grande comitiva de empresários, a partir do próximo dia 18.

Jacques Wagner representa Brasil em desfile na Rússia e lembra parceria estratégica dos países

Por Sandro Fernandes | Via Opera Mundi

Presidente Dilma Rousseff não foi ao evento devido a compromissos pessoais, mas enviou uma carta endereçada ao mandatário russo, Vladimir Putin.

O ministro da Defesa do Brasil, Jaques Wagner, participou neste sábado (09/05), em Moscou, da solenidade em comemoração aos 70 anos da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. O ministro representou o Brasil no evento. A presidente Dilma Rousseff não foi ao evento devido a compromissos pessoais, mas enviou uma carta endereçada ao mandatário russo, Vladimir Putin.

Em conversa com jornalistas, Wagner destacou a cooperação técnico-militar entre o Brasil e a Rússia, lembrando que os dois países têm uma parceria estratégica.

Questionado sobre a possibilidade de exercícios militares do Exército russo no território brasileiro, Wagner disse não haver limitações no relacionamento entre os países. “O Brasil não tem nenhum tipo de limitação do ponto de vista do relacionamento. A nossa diplomacia é independente. No geral, nós fazemos operações conjuntas com o guarda-chuva institucional da ONU. O Brasil não tem tradição de fazer exercícios conjuntos bilaterais se não forem com esta cobertura da ONU, mas eu não vejo nenhum impedimento de que a gente venha a fazer algum exercício conjunto com a Rússia”, afirmou.

Desfile do Dia da Vitória em Moscou foi chamado pelo Kremlin de “maior da história”. Agência Efe

A imprensa russa noticiou recentemente que o governo do país pode colaborar com o Brasil na questão da segurança, após a experiência com megaeventos adquirida durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi.

O ministro disse que não dispensa colaborações e que, “se há experiências que podem ser aproveitadas, elas têm que ser aproveitadas”. Citando a França, ele lembra que “os terroristas estão usando expedientes e atitudes absolutamente inimagináveis um tempo atrás”. Para Wagner, os últimos episódios de terrorismo no mundo indicam que “nenhum país pode dizer que está completamente preparado”.

Militarmente, a cooperação entre a Rússia e o Brasil já está sendo afetada por questões conjunturais nos dois países. “A coisa mais palpável que tem de aquisição brasileira é dos carros antiaéreos russos, mas houve atraso por causa do aperto fiscal”. Segundo Wagner, o pedido de oferta de preço (aos russos) deve ser feito em breve, mas não é provável que a compra seja efetuada antes dos Jogos Olímpicos.

Dia da Vitória

O ministro Jaques Wagner é filho de imigrantes poloneses judeus e conta que sua família perdeu parentes na Segunda Guerra Mundial. “O Dia da Vitória, num mundo conturbado como está hoje, cada dia tem que ser mais lembrado”, afirmou.

Jaques Wagner viajou hoje para Paris, onde fica até quarta-feira (20/05), antes de voltar para o Brasil.

A questão alemã

Por Pepe Escobar | Via Janela do Abelha

Reuters/Rainer Jensen

Setenta anos depois do final da 2ª Guerra Mundial, e 25 anos depois da queda do Muro de Berlim, a Alemanha está outra vez em surto de ‘sturm und drang’ [lit. tempestade e ímpeto], mas dessa vez sem que praticamente ninguém, nem no leste, nem no oeste, dê-se conta do que está acontecendo.

Sem esforço sério de detonação de mitos, é impossível discernir o que pode ser interpretado como nova tentativa, discreta, de alcançar a hegemonia.[1]

Ao contrário de um mito atualmente muito propagandeado pela “think-tankelândia” norte-americana, a Berlim política, sob a chanceler Merkel, não é mediadora entre EUA ainda hegemônicos e uma Rússia dita “agressiva”.

A realidade é que Berlim, pelo menos por enquanto, dá mais a impressão de cantar pela música de Washington – com mínimas variações – enquanto açoita a Rússia. É o caso, mesmo que se considerem os sólidos laços de energia/comércio/negócios com Moscou (a Alemanha importa 1/3 de todo o gás natural que consome; e empresas/indústrias/conglomerados alemães investiram pesadamente na Rússia).

Diferente também de um segundo mito muito difundido, a Berlim política não está interessada em “estabilidade” nas fronteiras orientais da Europa, mas, isso sim, quer ali a mais inconteste vassalagem. A incansável integração da Europa Oriental à União Europeia, liderada por Berlim, foi estratégia para abrir novos mercados para as exportações alemãs, assim como para erguer uma proteção intermediária entre Alemanha e Rússia. Quanto aos estados do Báltico, já são vassalos; a Alemanha é a principal parceira comercial dos três.

Também nada há que comprove mais um mito, de que Berlim não poderia levantar as sanções – contraproducentes – que impôs a Moscou, enquanto a ‘segurança’ da Europa Central e da Europa Oriental não estiver ‘garantida’. A verdade é que a Alemanha, se pudesse, preferiria ter total controle político/econômico sobre toda a periferia do que foi a URSS.

Quanto à União Europeia, agora afundada em ambiente tóxico, varrida pela ‘austeridade’, pós-democrática e anti-igualitarista, sem saída à vista, a Alemanha já reina ali, politicamente e economicamente.

Deutschland sob controle?

Nas brumas do atual pântano intelectual em que se debate a União Europeia, para citar Yeats “aos melhores falta convicção, e os piores estão cheios da mais apaixonada intensidade”. – Considerados os esquálidos ideólogos neoliberais, que se escafedem pelos cantos, agarrados às suas sinecuras naquele kafkiano templo de mediocridade que é Bruxelas – até um Diógenes moderno teria dificuldade para encontrar observador bem informado, capaz de dar conta do jogo alemão.

Daí a luminosa exceção que é o historiador e antropólogo Emmanuel Todd, autor do ensaio seminal Depois do Império, de 2002, onde faz sua impiedosa cartografia do declínio dos EUA. Em longa entrevista em 2014 a Les Crises-interview, sobre a Alemanha, Todd manda a bolinha geopolítica à estratosfera.

Todd preocupa-se profundamente com a disfunção do ocidente – manifesta, para ele, em a Europa estar “virtualmente em guerra com a Rússia”. Vê a fixação ansiosa, doentia, do ocidente, contra a Rússia, como a tentativa de encontrar um bode expiatório, ou, melhor, “a criação de um inimigo, necessário para o ocidente poder mostrar alguma, qualquer, mínima racionalidade, coerência. A União Europeia foi criada contra a URSS; não vive sem a Rússia no papel de inimigo inventado.”

Angela Merkel, chanceller alemã (Reuters/Hannibal Hanschke)

Mas, por trás da UE, lá está o negócio verdadeiro: o projeto alemão, que Todd identifica como um projeto de poder, levado adiante para “comprimir a demanda na Alemanha, escravizar os países do sul, devorados pela dívida, pôr a trabalhar os europeus do leste, atirar uns poucos amendoins ao sistema bancário francês.” E esse projeto de poder só abrir a escandalosa porta que dá passagem ao “imenso potencial da Alemanha para irracionalidade política” – tema muito proeminente agora, com todos aqueles plágios de queda do Reich.

Todd identifica o que Lacan chamaria de o grande não dito europeu (“não enunciado”): “A chave para que os EUA controlem a Europa, herança da vitória de 1945, é controlarem a Alemanha.”

Mas atualmente esse controle vem-se dissolvendo, embora caoticamente, e isso significa “o começo da dissolução do império norte-americano.” E o declínio imperial – visível em incontáveis declinações – leva Todd a conclusão explosiva: a verdadeira ameaça contra os EUA, muito mais perigosa que a Rússia – “que é externa ao império” – é a Alemanha.

E quanto à ameaça da Alemanha contra a Rússia? Para Todd não há dúvida alguma de que as populações de idioma, cultura e identidade russos estão sendo atacados no Leste da Ucrânia com “aprovação e apoio” da União Europeia – o que é fato. Ao mesmo tempo, interpreta o “silêncio” russo sobre isso, “como no caso do que fazem a França e os EUA [no leste da Ucrânia], recusa a ver a realidade”, mas como ato de boa diplomacia: “os russos precisam de tempo. O autocontrole dos russos, o profissionalismo, são dignos de admiração.” Agora, tente encontrar esse tipo de leitura na empresa-mídia europeia infestada pela CIA.

Sai a “Europa”, entra em cena a Alemanha

Por tudo isso, o que Todd está dizendo aqui, em essência é que “está emergindo um novo cara-a-cara entre dois grandes sistemas: o do continente-nação EUA, e esse novo império alemão, império político-econômico cujo povo chama o próprio país de ‘Europa’, por força do hábito.” Ah, sim, o que Todd diz faz perfeito sentido.

Servindo-se de um conceito de ciência política cunhado pelo antropólogo belga Pierre van den Berghe, Todd qualifica o sistema alemão como “dominação não igualitária”; qualquer igualdade que reste ali concerne exclusivamente aos dominantes, por exemplo, aos cidadãos alemães. Bem-vindos, pois, à democracia Herrenvolk – “democracia para o povo dos senhores”.[2]

Todd argumenta a favor de sua hipótese destacando que o dinamismo da economia alemã baseia-se nos ex-satélites da URSS: “Parte do sucesso de nossos vizinhos alemães repousa sobre a evidência de que os comunistas sempre cuidaram muito bem a educação popular. Deixaram atrás de si não só sistemas industriais obsoletos, mas também populações notavelmente bem educadas.”

Por isso, ao “anexar” as populações de Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria etc., significou que a Alemanha reorganiza sua base industrial servindo-se de trabalho barato. Mas, sim, há um imenso “se”: Todd acredita que a Alemanha pode também “anexar” uma população ativa de 45 milhões na Ucrânia, “com seu bom nível de formação e treinamento herdado ainda do período soviético.”

Nada sugere que possa acontecer assim. Moscou já deixou perfeitamente claro que aí há uma linha vermelha inultrapassável. Além do mais, “Ucrânia” é estado fracassado, em desintegração terminal, hoje, na verdade, colônia de facto do FMI, que tem, como único “atrativo” para o “ocidente”, suas ricas terras agricultáveis a serem saqueadas por Monsanto & comparsas.

“Ele não viu que a Alemanha se aproximava”

A coisa começa a ficar realmente divertida, quando Todd examina a confusão total em que estão metidos “os geopolitólogos norte-americanos clássicos”, em tudo que tenha a ver com “tradição ‘europeia’”. Falava, evidentemente, sobretudo, do famoso Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski: “obcecado contra a Rússia, ele não viu que a Alemanha se aproximava.”

Todd observa, corretamente, como o Dr. Zbig “não percebeu que os militares norte-americanos, ao estender a OTAN até os estados do Báltico, até a Polônia (…) estavam, de fato, recortando um império para a Alemanha, de início, só império econômico, mas agora já império político.” E, paralelamente ao que venho examinando já há anos, Todd sugere que “a extensão da OTAN para o leste pode, no fim, trazer uma espécie de versão B do pesadelo, para Brzezinski: a reunificação da Eurásia, independente dos EUA.”

O final, com suspense, é para ser saboreado como o melhor Armagnac: “Fiel às suas origens polonesas [Zbig] temia só uma Eurásia sob controle russo. Agora está exposto ao risco de passar à história como mais um daqueles poloneses absurdos que, de tanto que odeiam a Rússia, promoveram a grandeza da Alemanha.”

Por enquanto, a Alemanha política – embora não os homens da indústria – escolheram continuar subjugados por EUA/OTAN como a chanceler Merkel parece estar promovendo, com seu cerco à Rússia.

Palácio Reichstag, instalação da casa legislativa Bundestag. (Reuters/Fabrizio Bensch)

Como Todd observa com acerto, a Alemanha dolorosamente ergueu sua hegemonia sobre a União Europeia sobre a noção de que uma cesta disparatada de nações proveria Berlim com a economia de escala para derrubar seu principal concorrente industrial, os EUA. Mas a Alemanha não tem energia – nem petróleo nem gás. O fornecimento que lhe vem da África e do Oriente Médio é inerentemente instável.

E assim se chega a mais um cenário que circula entre os que Bauman chamou de “elites nômades da modernidade líquida”, não nos think-tanks nem nas agências ocidentais de inteligência.

Segundo esse cenário, em vez de uma União Europeia tentando trabalhar com a Rússia, o que há é Berlim tentando minar Moscou para, no fim, passar a mão no controle financeiro sobre os imensos recursos russos: de volta àqueles bons velhos tempo do capitalismo de desastre de Yeltsin, quando tudo desabava em total colapso, menos a extração de recursos naturais da Rússia.

Afinal de contas, o “Novo Grande Jogo” tem a ver, sobretudo, com o controle dos recursos naturais de petróleo, gás e outros, da Rússia e da Ásia Central. Serão controlados por frentes de oligarcas supervisionados pelos seus patrões em Londres e em New York? Ou serão controlados pelo estado russo? E, depois de a Rússia ter sido subjugada, então os “-stões” da Ásia Central, principalmente a república do gás, o Turcomenistão, também estará exposta para entrar no jogo alemão.

Mas por enquanto é jogo de sombras. Merkel só faz declarar platitudes sobre o cessar-fogo de Minsk – quando todos os atores sérios sabem que Kiev trai o acordo diariamente. Berlim trabalha nas coxias para manter a bordo os proverbiais “atores relutantes” –Itália, Grécia, Hungria –, com sanções contra a Rússia, enquanto faz constar que faz o que pode para conter as histéricas Polônia e Lituânia.

Merkel sabe perfeitamente bem que os EUA processam grande parte de sua guerra de drones a partir da Alemanha, e que a inteligência alemã espiona os franceses para a Agência de Segurança Nacional dos EUA, a Comissão Europeia e até a indústria alemã.

Portanto, ela jamais antagonizará diretamente Washington – porque o que ela mais teme são os atlanticistas alemães, enquanto repete que Putin e o Kremlin viveriam “num mundo diferente”. Berlim e Moscou continuam a falar-se diplomaticamente, mas o humor tende ao silêncio qualificado.

O novo excepcionalismo

Todd é um dos poucos que afinal começam a fazer soar os sinos de alarme. Como ele próprio formula: “A cultura alemã é não igualistarista, o que torna difícil para os alemães aceitarem um mundo de iguais. Quando sentirem que são os mais fortes, os alemães receberão muito mal qualquer recusa a obedecer, dos mais fracos; para os alemães, esse tipo de recusa é antinatural, antirracional.”

Mais uma vez, estamos no reino do excepcionalismo, mas agora com o problema extra dessa tendência dos alemães, que historicamente sempre causou tumulto, à irracionalidade política. O novo lebensraum [ambiente circundante] remixado pode revolver em torno de uma usina de exportação sempre em expansão – que se agregará ao comércio global, servindo-se de mão de obra bem educada e barata. Quando o Reich desintegrou-se, em doideira maior que a vida há 70 anos, o novo pacto realizava um sonho. Como diz Todd, há hoje “dois mundos industriais desenvolvidos”, os EUA e “esse novo império alemão”

Para ele, a Rússia é “questão secundária” e ele ainda não examinou o longo jogo da China. Portanto, ele não está focado – como eu estou – nos muitíssimos movimentos rumo à integração da Eurásia. Mas o que captura a atenção de Todd é também um thriller para muito tempo, “um futuro completamente diferente para os próximos vinte anos, que não é o conflito Oriente-Ocidente”: a Alemanha cresce; e EUA e Alemanha inevitavelmente colidirão, tudo outra vez. Afinal, parece que a história se repete mesmo como farsa (letal).

***

Traduzido do inglês pelo coletivo Vila Vudu, publicado originalmente em: http://rt.com/op-edge/256985-germany-merkel-eu-russia-nato/

[1] Sobre o mesmo assunto, ver também 8/5/2015, “Novo livro de Jean-Luc Mélenchon e o arenque de Bismark” [Le Hareng de Bismarck. Le poison alemand [O arenque de Bismark. O veneno alemão], Paris: Plon, 2015 [artigo traduzido em redecastorphoto (NTs)].

[2] “[Melhor falar de] democracia Herrenvolk, ou seja, de democracia que vale somente para o ‘povo dos senhores’” [Domenico Losurdo, em resistir.info].

O filantrocapitalismo, ou como os ricos herdarão a Terra

Por Guillermo Hernández Banderas | Via IHU

O filantrocapitalismo, categoria na qual se encaixa a figura de George Soros (foto), foi aceito na sociedade atual como substituto da redistribuição da riqueza por parte do Estado. Assim, vê-se numa perspectiva mais que positiva a atuação deste tipo de figura, independentemente das consequências econômicas que tenham provocado.

Atualmente, é comum ver nos meios de comunicação figuras econômicas como Bill GatesWarren Buffet ou George Soros sendo apresentados como grandes filantropos. Este tratamento, tão somente com estas três figuras, nos concede uma miríade de exemplos suficientes para realizar estudos de grande envergadura, embora este não seja um deles. Trata-se de três das 10 pessoas mais ricas do mundo e, por conseguinte, três dos maiores produtores de desigualdade mundial neste momento de crise sistêmica. Mas há uma figura que pode ser destacada acima das demais: a de George Soros. A razão principal é que Soros foi discípulo direto de um dos mais importantes filósofos e cientistas do século XX, Karl PopperSoros, por sua vez, também produziu bibliografia acadêmica, embora, evidentemente, não no mesmo nível do seu mestre.

Confere-se a George Soros, de origem húngaro-judaica e de nacionalidade estadunidense – uma série de ocupações, de financista a filósofo, de magnata a escritor. É, atualmente e segundo a Forbes, o 10º indivíduo mais rico do mundo com mais de 24 bilhões de dólares em um contexto no qual as 80 pessoas mais ricas do mundo possuem o equivalente às 3,5 bilhões de pessoas mais pobres, ou seja, a metade da população mundial. O que dá um resultado de cerca de 200 milhões de pobres por cada um desses 80 indivíduos mais ricos do mundo.

Esta fortuna tem três marcos fundamentais que o próprio Soros reconhece em sua obra A crise do capitalismo global, que são: a quebra do Banco da Inglaterra em 1992, a crise financeira no mercado asiático em 1997 e a crise do rublo na Rússia em 1998. Todas elas provocadas intencionalmente pelo próprio Soros, como ele mesmo reconhece, com métodos provavelmente imorais, e como também afirmam analistas financeiros tanto privados como públicos.

Por outro lado, a Real Academia Espanhola define filantropo como a “pessoa que se distingue pelo amor aos seus semelhantes e por suas obras pelo bem da comunidade”. Se este conceito for cotejado com os três acontecimentos previamente enumerados, não há a necessidade de uma análise profunda para ver que se está incorrendo em um paradoxo. Mas esta atitude por parte dos meios de comunicação tem um objetivo muito claro: legitimar ações, provavelmente imorais, dos mais ricos do mundo e, além disso, gerar um marco cognitivo e discursivo que leve o consumidor destes meios de comunicação a vincular as grandes fortunas ao trabalho caritativo em grande escala. Em suma, criar a concepção de que estes personagens produzem igualdade no longo prazo, e não desigualdade. Mas, se estudarmos as três crises provocadas por Soros e suas consequências, esta concepção não se sustenta.

As três crises de Soros

  • Quebra do Banco da Inglaterra, em 1992

Em uma época em que os hedge funds não eram conhecidos, Soros, em 24 horas – a quarta-feira negra –, foi capaz de ganhar um bilhão de dólares mediante a especulação financeira de divisas. A Inglaterra encontrava-se em um momento de fragilidade econômica, motivo pelo qual Soros decidiu agir em benefício próprio, e a ordem que ele deu em sua fundação foi a de ir à jugular. As consequências diretas foram a perda de mais de 3,3 bilhões de libras dos contribuintes na Inglaterra. As consequências indiretas para a sociedade, muito mais complexas de se analisar, repercutiram nas posteriores privatizações de serviços públicos e cortes em políticas sociais. Assim, Soros diz textualmente sobre a sua atuação na falência: “Se tivesse que me ver confrontado com indivíduos e não mercados, não teria podido esquivar o problema moral de escolher entre duas alternativas. Bendigo o céu por ter me guiado para os mercados financeiros nos quais nunca tive que manchar as mãos” (Toussaint, 2002, p. 144).

  • Crise asiática de 1997

Nesta crise Soros agiu com uma técnica similar àquela empregada na Inglaterra cinco anos antes, mas desta vez naMalásia. Aquele que fora o primeiro ministro malaio em 1997, Mahathir Bin Mohamad, apontou Soros como responsável pela crise monetária de seu país e pela posterior queda das economias do sudeste asiático. Posteriormente, a crise se estenderia a países como a TailândiaCoreia do SulIndonésia ou Filipinas. Assim,Maricela Reyes López afirma em seu livro Impacto social da crise financeira e econômica na Ásia que o impacto social que esta crise teve foi fundamentalmente sobre as camadas mais vulneráveis da sociedade. Ela indica como nestes países se produz um aumento generalizado do desemprego – somente em 1998, assinalou a Organização Internacional do Trabalho, o total de desempregados aumentou em 10 milhões de trabalhadores –, ao mesmo tempo que o da taxa de pobreza, que atingiu níveis anteriores a 20 anos, como assinalou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Diante desta situação e as acusações de MahathirSoros, em uma entrevista concedida aJennifer Hewett, em novembro de 1997, respondeu: “Se houve alguma vez um homem que se encaixasse no estereótipo do conspirador judeuplutocrático do mundo sionista bolchevique, este homem sou eu”.

  • Crise do rublo de 1998

Após os dois precedentes previamente explicados, a figura de Soros já era das mais reconhecidas e influentes no mundo das finanças. Este decidiu afirmar que os mercados financeiros russos se encontravam na fase terminal e que era necessário desvalorizar o rublo entre 15% e 25%. Apenas alguns poucos dias depois, o rublo caiu 31%, o que levou o vice-diretor do Fundo Monetário InternacionalStanley Fisher, a culpar o mesmo Soros por esta desvalorização monetária. A especulação levada a cabo pelos mercados financeiros e patrocinada por Soros fez com que a bolsa caísse 20% e a Rússia teve que pedir um empréstimo de 22,6 bilhões de dólares. Mas, afora o aumento de preços – a inflação era de 300% – ou a quebra de bancos, a importância fundamental residiu na drástica redução do nível de vida da população russa. Assim, uma das conclusões que o próprio Soros tirou desta crise foi que não importa absolutamente se tens razão ou não: o que importa é quanto dinheiro ganhas quando tens razão e quanto dinheiro perdes quando estás equivocado.

O filantrocapitalismo

Está claro que se alguém estuda a figura de George Soros e depois ouve o tratamento dado pela mídia, como o El PaísEl MundoABCLa RazónLa Vanguardia ou mesmo o jornal Público, ou publicações econômicas como El Econónimo ou Expansión, não pode, ao menos, colocar-se a possibilidade de que existem interesses além do direito à informação. A postura nos meios de comunicação do estado espanhol é simplesmente unânime diante deste tipo de figura. A capacidade crítica, fundamental para o exercício da atividade jornalística, é nula, não existe. Mas isso deve ter uma explicação.

A explicação baseia-se na aceitação do filantrocapitalismo como substituição da redistribuição da riqueza por parte do Estado, inclusive como substituto da partilha em base à discriminação positiva nos países anglo-saxões. O termo filantrocapitalismo foi cunhado por Matthew Bishop, editor do The Economist, em seu livro Filantrocapitalismo: como os ricos podem salvar o mundo. A estratégia consiste no investimento conjunto das pessoas mais ricas do mundo para maximizar os lucros destas inversões sociais. A esta estratégia já se uniram relevantes multimilionários como, além do próprio SorosBill e Melinda GatesMark ZuckerbergGeorge Lucas e Mellody HobsonDave Goldberg eSheryl SandbergPaul E. SingerJeff SkollPaul AllenRichard e Joan BransonSteve Bing e John Caudwell, entre outros. Em princípio, de onde venha o dinheiro que posteriormente será investido não parece representar nenhum problema de coerência teórica nem ética. Esta forma de agir também lhes proporciona uma melhora na sua imagem pessoal e investimentos em responsabilidade social corporativa para suas empresas, holdings, fundações…

Soros investe na Espanha

Para finalizar, é necessário informar que, desde o começo de 2014, George Soros começou a se interessar pelo investimento especulativo na Espanha. A entrada de Soros deu-se logo no mais alto nível das finanças na Espanha, e em menos de dois anos já investiu 500 milhões de euros no Banco Santander, 400 milhões de euros na recente privatização (OPV) da AENA, no negócio das energias renováveis da ACS, uma parceria com Florentino Pérez, 200 milhões de euros na Endesa e 175 milhões no Bankia. Mas a Espanha sofre uma crise econômica, social e cultural sem comparação desde a Guerra Civil espanhola, devida, em sua maior parte, à bolha imobiliária no mercado espanhol e que explodiu em 2008. Agora, com os preços da habitação em patamares mínimos, começam a receber investimentos especulativos. Assim, Soros já possui 3% da FCC, das irmãs Koplowitz, e um investimento de ao menos 700 milhões de euros.

Por outro lado, foi criado um fundo imobiliário, a Azora, uma empresa de investimentos na qual investiu outros 500 milhões de euros e cuja equipe também assessora, que é composta, entre outros, por representantes do Goldman Sachs, assessores esses, por sua vez, responsáveis pela atual crise mundial.

Diante da ausência de mudanças estruturais nesta crise sistemática, a solução parece ser deixar entrar capital de referências da especulação mundial com um longo passado na produção de falências em outras zonas geopolíticas. Assim, uma futura quebra devida à especulação com as mesmas bases que produziram a atual crise, não seria, em nenhum caso, uma hipótese absurda. Figuras como a de Soros, que exemplifica perfeitamente a elite extrativa, são consideradas como necessárias para uma saída “coerente” e “suave” da crise e não como as principais causadoras da mesma. Caso esta lógica reinar, a próxima crise terá características similares à atual. Mas, neste caso, se partirá de um nível inferior das condições materiais objetivas das classes trabalhadoras.

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Tradução: André Langer

Para mais informações:

SOROS, George. A crise do capitalismo global. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

TOUSSAINT, Eric. A bolsa ou a vida. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

2015: o novo 2003?

Por Carlos Pinkusfeld Bastos & Fernando Maccari Lara | Via Carta Maior

A “hipótese” da contração fiscal expansionista já teve dias melhores. Longe vai a década de 1990, quando o ajuste fiscal dos EUA parecia, aos descuidados, reforçar o mito neoliberal (ver Serrano e Braga 2006). Hoje as desastrosas consequências do ajuste implementado pela União Europeia para países como Grécia, Espanha, Portugal parecem demonstrar o impacto contracionista de políticas fiscais … contracionistas.

Mesmo admitindo que no curto prazo tais políticas “possam” ser contracionistas, os economistas ortodoxos aferram-se à receita como a única alternativa para obter melhores resultados no médio e longo prazos. Afinal, não fossem as distorções resultantes da ação política, haveria uma tendência automática ao pleno emprego, com os juros e os salários tendendo às suas taxas “naturais”..”.

Já os economistas heterodoxos, que utilizam o princípio da demanda efetiva para a determinação do produto no curto e no longo prazos, têm a oportunidade de encontrar na execução de políticas contracionistas a confirmação de suas teorias: elas reduzem o crescimento e podem levar à recessão. Curiosamente, este ponto de vista é pouco explorado no debate brasileiro. As políticas ortodoxas de ajuste encontram apoio mesmo em setores do governo supostamente mais heterodoxos/desenvolvimentistas, assim como entre comentadores “críticos” (ver Zero, 2015) simpáticos ao governo. Aparentemente, o que sustenta a necessidade do ajuste para eles é o suposto sucesso dessa estratégia quando adotada em 2003 pelo presidente Lula.

Para verificar se não estão incorrendo em ilusão de ótica, é preciso, então: (a) relembrar as condições vigentes em 2003 e analisar se a situação é semelhante em 2015; (b) verificar se a recuperação a partir de 2004 teve algo a ver com o ajuste fiscal; (c) investigar se as condições para uma recuperação estão colocadas no horizonte próximo.

Sobre o primeiro ponto, interessa saber se as condições prévias ao ajuste de 2015 são semelhantes às condições de 2003. Essa semelhança não existe, quando se considera o crescimento do produto pois, no ano de 2002, a economia brasileira cresceu 2,66%, ao passo que em 2014 o crescimento foi virtualmente nulo. O gráfico abaixo mostra uma diferença importante também com respeito ao timing do ciclo econômico em cada caso.

Gráfico 1 – Taxa anual de crescimento do PIB (periodicidade trimestral)

O ajuste de 2003 foi realizado após dois trimestres de clara recuperação do crescimento, na segunda metade de 2002. O ajuste de 2015 ocorre em sequência a um processo de rápida desaceleração do crescimento. Assim, enquanto a política contracionista de 2003 arrefeceu um processo de recuperação em curso, uma política semelhante adotada hoje tende a intensificar a desaceleração, resultando muito provavelmente em queda do PIB nos próximos trimestres.

Sobre este impacto, que fique bem claro: as políticas fiscais e monetárias contracionistas adotadas em 2003 foram bastante eficientes, ou seja, bastante contracionistas. A taxa de crescimento do PIB em 2003 foi menos da metade da registrada no ano anterior. Houve redução dos gastos de consumo em quase 1% e redução do investimento em cerca de 4,5%, resultando em contribuição negativa da demanda doméstica para o crescimento. Cabe, então, perguntar como, diante da retração tanto do consumo quanto do investimento, foi possível alcançar o modesto crescimento de 1,16% em 2003? O gráfico abaixo é bastante esclarecedor.

Gráfico 2 Comportamento das Exportações 2003 – 2014

O valor das exportações chega a diminuir em alguns meses de 2002 mas, a partir de meados deste ano, já apresenta uma trajetória de recuperação. O movimento acelera ao longo de 2003 e a taxa de crescimento médio anual alcança impressionantes 25%, estabilizando-se em torno dos 20% ao ano. Em 2004 houve nova aceleração do crescimento das exportações e as taxas de crescimento alcançaram em média cerca de 30% ao ano.

Em resumo, essa performance bastante positiva das exportações conseguiu contrarrestar, ao menos em parte, o impacto das medidas contracionistas sobre a demanda doméstica em 2003. Esta história é bastante conhecida, mas parece ter sido esquecida por aqueles que defendem o ajuste fiscal de 2015. O crescimento pequeno e positivo do PIB em 2003 foi obtido apesar das medidas contracionistas, em função da contribuição positiva do setor externo.

Ao analisar os anos subsequentes nos quais fica configurado um ciclo expansivo com duração e intensidade não registrados no Brasil pelo menos desde os anos 1980, já não se pode atribuir protagonismo ao setor externo. A recuperação da demanda doméstica ao longo de 2004 é o fator preponderante para explicar o crescimento de 5,7%. Apesar da continuidade do excelente desempenho das exportações, a contribuição do setor externo é progressivamente menor, tornando-se negativa a partir de meados de 2006, em função do expressivo crescimento do coeficiente de importações ao longo do referido ciclo expansivo. Assim, creditar o bom desempenho dos anos de 2004 a 2010 exclusivamente à situação externa é tão equivocado quanto defender que a contração fiscal de 2003 teve impacto sobre a aceleração do crescimento subsequente.

Antes de passar à identificação dos elementos da demanda doméstica que determinaram esta performance de crescimento, parece importante desfazer mais alguns mal entendidos quanto à dimensão e duração do “ajuste fiscal” de 2003. Ao assumir o governo naquele ano, o Presidente Lula prometeu elevar o superávit primário e de fato cumpriu seu compromisso. O instrumento para chegar a esse resultado foi o corte de gastos públicos que, naquele ano retraíram-se em 3,75%. Dos componentes do gasto, o mais sacrificado foi o investimento público, que foi cerca de 60% menor do que no ano anterior (ver Bastos et al, 2015).

No ano de 2004 o superávit primário elevou-se novamente, porém desta vez o crescimento da demanda doméstica conduziu o PIB a um expressivo aumento de 5,7%. Estariam assim corretos os adeptos da contração fiscal expansionista? A recuperação da demanda doméstica em 2004 seria uma consequência do aumento da “confiança” de que o governo seria responsável com as contas públicas?  Não, de modo algum. Na verdade, esta combinação de resultados apenas comprova, uma vez mais, que o resultado fiscal ex post é um péssimo indicador do impacto das ações de política fiscal sobre o nível de atividade.

Ocorre que a evolução das receitas do setor público depende do desempenho do conjunto da economia, ou seja, as receitas crescem com o aumento do produto. Este aspecto é fundamental para compreender como o superávit primário pode ter crescido em 2004, ainda que o gasto direto do governo tenha crescido, em termos reais, 6,6% !%! Em resumo, mesmo com um gasto bem maior em relação ao ano anterior, o setor público pôde obter um superávit primário também maior, em função do crescimento mais que proporcional das receitas.

Ademais a política fiscal, ainda que não tenha sido espetacularmente expansionista, passou a oferecer ao conjunto da economia um impulso não só positivo como crescente entre 2004 e 2009, e ainda positivo até 2010. Ou seja, a despeito da manutenção de superávits primários expressivos, a demanda agregada foi estimulada, positiva e crescentemente, pela política fiscal nesse período. É verdade que o superávit foi inclusive, várias vezes, superior ao necessário para estabilizar a relação dívida PIB, supostamente a razão para sua existência (ver Bastos et al, 2015). Assim, ainda que a contribuição expansionista do setor público possa ter sido inferior à que teria sido permitida pelos próprios parâmetros conservadores do tripé macroeconômico, o sinal foi positivo ao longo de todo o período 2004-2010.

Esclarecido este ponto, podemos então voltar a examinar os elementos da demanda agregada domésticos que explicam a aceleração do crescimento no período entre 2004 e 2010. O consumo foi dentre os componentes da demanda doméstica aquele que manteve a contribuição mais estável após uma recuperação bastante rápida em 2004. Para analisar seu comportamento, é preciso considerar que há uma parte induzida pelo crescimento da renda, especialmente salários, e outra parte autônoma, fortemente influenciada pelas condições de crédito.

Após uma queda significativa em 2003, o saldo das operações de crédito para pessoas físicas como proporção do PIB mantém praticamente o mesmo patamar em 2004 e recupera-se fortemente a partir de 2005. Considerando apenas a parcela do crédito para pessoas físicas, há uma nítida trajetória de crescimento já a partir de 2004. Comportamento semelhante pode ser observado para os salários, cujo valor real cai drasticamente em 2003, cresce moderadamente em 2004 e com mais força a partir de 2005. Nesse sentido deve-se destacar também a política de forte elevação do salário mínimo que além dos efeitos diretos sobre aqueles trabalhadores que o recebem, tem um efeito muito importante sobre a estrutura salarial vigente e sobre o crescimento das transferências de previdência, cujo valor básico é indexado ao mínimo.

A constatação de que o comportamento do consumo foi decisivo para o ciclo de crescimento que começa em 2004 por vezes ofusca o fato, também fundamental, de que o investimento privado reagiu de forma bastante pujante. Ou seja: o chamado processo de indução do investimento pelo crescimento da demanda agregada funcionou da forma esperada, pelo menos após 2006.

Retomando as questões propostas ao início deste texto, pretendemos já ter deixado claro que o bom desempenho da economia a partir de 2004 não teve nenhuma relação com o ajuste fiscal. Pelo contrário, o ajuste de 2003 foi altamente prejudicial ao crescimento e o afrouxamento da política fiscal após 2004 passou a contribuir, ainda que não muito intensamente, ao crescimento. Passaremos agora a enfatizar porque o cenário de 2015 é pior do que o de 2003.

Ao contrário do que alguns defensores do ajuste fiscal costumam defender, a elevada inflação herdada do governo FHC não era fruto de excessivo crescimento, ou de excesso de demanda, conforme atestam os dados sobre o mercado de trabalho e o desempenho geral da economia em 2002. Como é usual no caso brasileiro a rápida desvalorização cambial no segundo semestre de 2002 exerceu um forte impacto sobre a inflação. Diante disso, um caminho inverso foi perseguido pelo governo em 2003, tendo ocorrido uma rápida revalorização cambial a partir de março. Em termos nominais, o dólar estava já em junho de 2003 num valor 20% abaixo daquele que vigorava em março, tendo permanecido neste patamar ao longo do segundo semestre. Considerando os valores médios, a taxa de câmbio do segundo semestre de 2003 é cerca de 15% mais valorizada em termos nominais e cerca de 17% mais valorizada em termos reais, comparado ao segundo semestre de 2002.

Ao que parece, não está na pauta do governo atual uma trajetória de valorização da mesma intensidade. Há também diferenças importantes com respeito à situação externa. A trajetória da balança comercial não se mostra favorável e a economia brasileira tem registrado déficits significativos em transações correntes, mesmo em contexto de baixo crescimento. Tais déficits, inclusive, devem ser acompanhados com muita atenção e sua persistência de fato recomendaria cautela, caso a intenção do governo fosse executar uma política para retomar o crescimento. Ainda assim, dados positivos como o expressivo volume de reservas acumuladas, a grande participação de passivos em moeda doméstica nos estoques registrados na posição internacional de investimentos e o fato de que, ao menos até o final do primeiro mandato da Presidenta Dilma, não houve dificuldades para financiar os déficits em transações correntes com ingresso de capitais, também não autorizam justificar o ajuste fiscal prometido em função de dificuldades externas (ver Lara, 2014). Mas é muito duvidosa a hipótese de que um ajuste fiscal em si mesmo pode contribuir para melhores condições de inserção externa. Pouco se discute, por exemplo, a possibilidade de que ao induzir uma recessão, esta política possa acabar sendo um fator inibidor de para a atração de Investimento Direto Externo, dificultando o financiamento do déficit em transações correntes. Em suma, se por um lado não se pode caracterizar como uma crise cambial as condições vigentes na entrada de 2015, por outro também não seria prudente apostar numa trajetória de valorização expressiva do real frente ao dólar.

Assim, a aparente opção de política visando uma taxa de câmbio mais desvalorizada e o fato de que o ajuste fiscal não pode contribuir para controlar uma inflação que não é de demanda, implicarão possivelmente em dificuldades para conter o aumento dos preços, ao menos no curto prazo. E o provável impacto negativo da inflação sobre os salários reais autoriza a projetar um desempenho bastante fraco do consumo privado no futuro próximo. Em realidade, ao criticar a tentativa de desvalorização cambial no primeiro governo Dilma, Bresser Pereira (2015) afirma que o fracasso desta política ocorreu por não ter sido combinada com ajuste fiscal, ou seja, por não ter sido gerada simultaneamente uma taxa de desemprego tão elevada a ponto de impedir o repasse do choque cambial aos salários nominais e preços de serviços. Assim, a redução do salário real, e consequentemente do consumo induzido, são elementos centrais da política que passou a ser implementada a partir de 2015.

Pelo lado do consumo autônomo o horizonte de expansão também não parece muito promissor. Ao contrário do cenário de 2004, ao final de 2014 o saldo das operações de crédito como proporção do PIB já correspondia a cerca de 55% do PIB. Não se trata mais, portanto, de um mercado deprimido no qual as inovações financeiras induzem com certa facilidade a entrada em massa de novos contratantes, gerando impacto expressivo sobre o consumo de bens duráveis. Ademais, as altas taxas de juros e os prazos reduzidos conformam uma estrutura do crédito no Brasil tal que, mesmo que o volume em relação ao PIB não seja dos mais elevados, há um comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida bastante mais elevado que no período fortemente expansivo de 2005 a 2010. Isso implica menor disposição, ou mesmo capacidade, para expansão do endividamento privado.

Gráfico 3 Comprometimento da Renda das Famílias com serviço da dívida

Como esperado, os dados no front do investimento são os piores possíveis, dado que não é racional da parte dos capitalistas aumentarem sua capacidade produtiva justamente num momento de retração da demanda. A conjuntura política acrescenta mais um elemento negativo em relação a esta variável. De acordo com o relatório de perspectiva de investimentos (referência), “os setores de Petróleo & Gás e Infraestrutura de Logística ter[iam] importante papel de impulsionar os investimentos da economia… No primeiro caso, dependem da exploração de petróleo do pré-sal. No segundo, da realização de concessões e parcerias público-privadas.” (BNDES 2014 p. 2). Obviamente que ambos os objetivos encontram-se seriamente em cheque, em função das questões judiciais envolvendo tanto a Petrobras quanto as empreiteiras.

Procurando responder às perguntas propostas no início, não nos parece haver espaço racional para considerar que a consequência do ajuste em curso não seja o aprofundamento da recessão e a elevação do desemprego. Ao contrário de 2003, quando as exportações aceleravam e havia um amplo espaço para elevação do consumo via crédito e recuperação dos salários, hoje todos os componentes da demanda apontam para um desempenho ruim do crescimento. A política fiscal, que poderia ao menos em parte compensar, vem a aprofundar esta tendência.

A repetição de que tal ajuste elevaria a confiança dos investidores privados de fato remete à argumentação de que o governo acredita na “fada da confiança”, figura criada pelo economista Paul Krugman. A tal fada ilustra bem a confiança irracional, quase mágica, que o ajuste fiscal supostamente causa sobre a disposição dos empresários para o investimento, no discurso ortodoxo corrente. Ao invés de um conto de fadas, o ajuste fiscal apresentado como praticamente única arma do governo de política econômica poderá levar o país a um retrocesso que aliena a base eleitoral do governo. No limite, tal processo poderá vir a comprometer a trajetória de avanço social e democrático experimentada na primeira década do século XXI.

1.  Especificamente no caso brasileiro a carga tributária no período foi pró cíclica. Ou seja cresceu como m proporção do PIB sem que se aumentassem alíquotas tributárias e sim em função de fatores relacionados ao próprio crescimento da economia como a maior formalização no mercado de trabalho. Ver Santos (2010).

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Referências:

Bastos, C. P, Rodrigues, R, Lara, F.M (2015) “As finanças públicas e o impacto fiscal entre 2003 e 2012: 10 anos de governo do Partido dos Trabalhadores” Ensaios FEE, v. 36, n. 1, 2015 (no prelo).

Bresser-Pereira (2015) “O estranho mas inevitável ajuste” em Valor Econômico 10/04/205
BNDES (2014) Perspectivas do Investimento 2015-2018 e Panoramas Setoriais
Lara, F. As condições externas justificam um ajuste recessivo? Carta de Conjuntura FEE, v. 23, n. 11, novembro de 2014. Disponível em:  http://carta.fee.tche.br/article/as-condicoes-externas-justificam-um-ajuste-recessivo/

Santos, C. Um panorama das finanças públicas brasileiras 1995/2009.In. Castro, J.; Santos, C.; Ribeiro, J. (Orgs.). Tributação e equidade no Brasil: um registro da reflexão do IPEA no biênio 2008-2009. Brasília: IPEA, 2010.

Serrano, F e Braga, J (2006) “O mito da contração fiscal expansionista nos EUA durante o governo Clinton”. Economia e Sociedade, Campinas, v. 15, n. 2 (27), p. 213-239, ago. 2006.
Zero, M (2015) “Os riscos relativos do ajuste e o risco absoluto do golpismo”. Brasil Debate. Disponível em: http://brasildebate.com.br/os-riscos-relativos-do-ajuste-e-o-risco-absoluto-do-golpismo/

A defesa do imperialismo do dólar

Por Mike Whitney | Via Resistir.info

“A ‘necessidade’ de o Fed ter um papel ainda mais activo, enquanto os estrangeiros abrandam ainda mais a compra da nossa divisa, é para travar a corrida da desvalorização cambial que ocorre no mundo desenvolvido – uma corrida que está a precipitar-nos para o fim do actual regime de divisas”. 

– Stephanie Pomboy, MacroMavens 

“Seja o que for que os nossos correspondentes ocidentais nos digam, 
podemos ver o que se está a passar. A NATO está a montar 
descaradamente as suas forças na Europa de Leste, 
incluindo as áreas do Mar Vermelho e do Mar Báltico. 
As suas actividades operacionais e de treino em combate estão a aumentar”. 

– Presidente russo Vladimir Putin

Se houvesse uma forma de os Estados Unidos poderem concretizar os seus objectivos a longo prazo e, simultaneamente, evitarem uma guerra com a Rússia, fa-lo-iam. Infelizmente, isso não é uma opção e por isso vai haver um confronto entre os dois adversários com armas nucleares em algum momento no futuro próximo.

Passo a explicar: A administração Obama está a tentar reequilibrar a política dos EUA mudando o foco da atenção do Médio Oriente para a Ásia, que, segundo se prevê, será a região de maior crescimento no próximo século. Chama-se a esta mudança de política o “pivô” para a Ásia. A fim de beneficiar do grande crescimento da Ásia, os EUA planeiam incrementar a sua presença neste continente, expandir as suas bases militares, reforçar alianças bilaterais e acordos comerciais e assumir o papel-chave da segurança regional. O objectivo nada secreto desta política é a “contenção” da China, ou seja, Washington quer preservar a sua posição de única superpotência mundial, controlando o crescimento explosivo da China. (Os EUA querem uma China fraca, dividida, que faça o que lhe mandarem).

A fim de atingir os seus objectivos na Ásia, os EUA precisam de empurrar a NATO mais para Leste, apertar o seu cerco à Rússia e controlar o fluxo do petróleo e do gás de Leste para Oeste. Estas são as pré-condições necessárias para instituir o domínio hegemónico no continente. E é por isso que a administração Obama está tão interessada em apoiar o governo torpe da junta de Kiev; é porque Washington precisa das tropas de choque neonazis de Poroshenko para arrastar a Rússia a um conflito na Ucrânia que esgote os seus recursos, desacredite Putin aos olhos dos seus parceiros comerciais da UE e crie o pretexto para posicionar a NATO na fronteira ocidental da Rússia.

A ideia de que o exército pró-Obama na Ucrânia está a defender a soberania do país é uma charlatanice pura. O que se passa nos bastidores é que os EUA estão a tentar combater um declínio económico irreversível e uma parte sempre contracção do PIB global, em permanente redução, através da força militar. Assistimos hoje na Ucrânia a uma versão do século XXI do Grande Jogo, implementado por fantasistas políticos e com dificuldades financeiras, que acham que podem atrasar o relógio para o tempo do apogeu pós II Guerra Mundial do Império americano, quando o mundo era a pérola da América. Graças a Deus, esse período acabou.

Não se esqueçam que as gloriosas forças armadas americanas passaram os últimos 13 anos a lutar no Afeganistão com pastores de cabras calçados com sandálias num conflito que, na melhor das hipóteses, pode ser caracterizado como um impasse. E agora a Casa Branca quer conquistar a Rússia?

Estão a ver a loucura desta política?

Foi por isso que o secretário da Defesa, Chuck Hagel, foi demitido na semana passada, porque não se mostrou suficientemente ansioso para prosseguir nesta política louca de reforçar as guerras no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Ucrânia. Toda a gente sabe que é verdade, a administração nem sequer tentou negá-lo. Preferem agarrar-se a palhaços enraivecidos, como Susan Rice e Samantha Power, do que a um veterano condecorado que tem mais credibilidade e inteligência no dedo mindinho do que toda a equipa de Segurança Nacional de Obama, em conjunto.

Portanto, Obama está agora totalmente rodeado por imbecis defensores da guerra, que subscrevem o mesmo conto de fadas de que os EUA vão reduzir a Rússia a pó, derrubar Assad, redesenhar o mapa do Médio Oriente, controlar o fluxo de gás e de petróleo do Médio Oriente para os mercados da UE, e estabelecer miríades de bases pela Ásia onde podem manter um controlo apertado sobre o crescimento da China.

Diga-me, caro leitor, isso não lhe parece um pouco improvável?

Claro que a claque de Obama pensa que tem tudo sob controlo, porque, bem, porque é o que lhe têm dito para pensar e porque isso é o que os EUA têm de fazer se quiserem manter a sua posição excelsa enquanto única superpotência mundial, quando o seu significado económico no mundo está a declinar paulatinamente. Este é o problema. A nação excepcional está a tornar-se cada vez menos excepcional e é isso que tem preocupado a classe política, porque vêem os graffiti nas paredes e eles dizem: “Gozem enquanto dura, porque já não vão ser o número um por muito mais tempo”.

Os EUA também têm aliados nesta louca cruzada, nomeadamente Israel e a Arábia Saudita. Os sauditas têm sido especialmente prestimosos ultimamente, inundando o mercado com petróleo para fazer baixar os preços e esmagar a economia russa. (Na sexta-feira, os preços de referência do crude caíram ao nível do preço de há quatro anos, com o preço do crude Brent a baixar para os 69,11 dólares por barril). A administração Obama está a usar o clássico golpe duplo das sanções económicas e da quebra das receitas do petróleo para forçar Moscovo a retirar-se da Crimeia, para que Washington possa avançar com o seu arsenal nuclear para uma distância mínima de Moscovo. Aqui está algo do Guardian:

“Pensem em como a administração Obama vê o estado do mundo. Quer que Teerão desista do seu programa nuclear. Quer que Vladimir Putin se retire da Ucrânia oriental. Mas, depois das recentes experiências no Iraque e no Afeganistão, a Casa Branca não está interessada em pôr as botas americanas no terreno. Em vez disso, e com a ajuda do seu aliado saudita, Washington está a tentar baixar o preço do petróleo, inundando de crude um mercado já débil. Como os russos e os iranianos são profundamente dependentes das exportações do petróleo, a presunção é que assim será mais fácil lidar com eles.
John Kerry, o secretário de Estado dos EUA alegadamente fechou um acordo com o rei Abdullah em Setembro, segundo o qual os sauditas venderiam o crude abaixo do preço de mercado. Isso ajudaria a explicar porque é que o preço tem estado a descer numa altura em que, dadas as convulsões no Iraque e na Síria provocadas pelo ‘estado islâmico’, o natural seria que estivesse a subir”.
Stakes are high as US plays the oil card against Iran and Russia , Larry Eliot, Guardian )

E há mais, de Patrick L. Smith, do Salon:

“Menos de uma semana depois da assinatura do Protocolo Minsk, Kerry fez uma viagem pouco noticiada a Jedá para se encontrar com o rei Abdullah na sua residência de Verão. Quando acabou por ser noticiada, foi justificada como fazendo parte da campanha de Kerry para garantir o apoio árabe na luta contra o ‘estado islâmico’”.
Alto lá. A visita não foi só por causa disso, é o que me dizem minhas fontes de confiança. A outra metade da visita teve a ver com o desejo inabalável de Washington de arruinar a economia russa. Para isso, Kerry disse aos sauditas 1) para aumentar a produção, e 2) para reduzir o preço do crude. Não se esqueçam destes números pertinentes: os sauditas precisam de um preço de menos de 30 dólares/barril para equilibrar o orçamento nacional, enquanto os russos precisam de 105 dólares.
Pouco depois da visita de Kerry, os sauditas começaram de facto a aumentar a produção – em mais 100 mil barris por dia durante o resto de Setembro, segundo parece, para virem a aumentar ainda mais…
Pensem nisto. O Inverno está a chegar, há graves interrupções de produção no Iraque, na Nigéria, na Venezuela e na Líbia, há outros membros da OPEP aos gritos a pedir um alívio e os sauditas fazem movimentos de recuo que levam a uma maior descida dos preços? Façam as contas, pensando no itinerário oculto de Kerry e, para vos ajudar, ofereço-vos isto de uma fonte extremamente bem posicionada nos mercados de produtos: ‘Há agora mãos muito poderosas a pressionar o petróleo na oferta global, escreveu noutro dia essa fonte num e-mail”.
What Really Happened in Beijing: Putin, Obama, Xi And The Back Story The Media Won’t Tell You , Patrick L. Smith, Salon)

A equipa de Obama conseguiu convencer os nossos bons amigalhaços, os sauditas, a inundar o mercado de petróleo, a baixar os preços e a precipitar a economia russa no abismo. Simultaneamente, os EUA intensificaram as sanções económicas, fizeram tudo o que puderam para sabotar o gasoduto South Stream da Gazprom (que contornaria a Ucrânia e forneceria o gás natural à Europa através dum caminho pelo Sul) e convenceu o parlamento ucraniano a leiloar 49 por cento dos direitos de leasing e das instalações de armazenagem subterrâneas a empresas estrangeiras pertencentes a privados.

Gostam disto? Assim, os EUA desencadearam uma guerra devastadora contra a Rússia que tem sido totalmente omitida pelos meios de comunicação ocidental. Estão surpreendidos?

Washington está determinado a bloquear ainda mais a integração económica da Rússia na União Europeia, a fim de fazer desabar a economia russa e pôr o capital estrangeiro a controlar a distribuição regional da energia. Tem tudo a ver com o eixo. Os rapazes do grande capital acham que os EUA têm que ser o eixo para a Ásia. para poderem manter o seu papel no próximo século. Todos estes ataques não provocados a Moscovo baseiam-se nessa estratégia louca.

Mas as pessoas na UE não vão ficar irritadas quando não puderem obter a energia de que precisam (aos preços que querem) para os seus negócios e para aquecer a casa?

Washington acha que não. Washington acha que os seus aliados no Médio Oriente podem satisfazer as necessidades de energia da UE sem qualquer dificuldade. Vejam este trecho de um artigo do analista F. William Engdahl:

“… estão a aparecer pormenores dum novo segredo e de um acordo bastante estúpido Arábia Saudita-EUA sobre a Síria e o chamado ‘estado islâmico’. Envolve o controlo do petróleo e do gás de toda a região e o enfraquecimento da Rússia e do Irão, pela inundação saudita do mercado mundial com petróleo barato…
A 11 de Setembro, o secretário de estado Kerry encontrou-se com o rei saudita Abdullah no seu palácio do Mar Vermelho. O rei convidou o antigo chefe dos serviços secretos sauditas, o príncipe Bandar, para assistir. Foi preparado um acordo que previa o apoio saudita a ataques aéreos sírios contra o ISIS com a condição de Washington dar apoio aos sauditas para derrubar Assad, um firme aliado da Rússia e também do Irão, e um obstáculo aos planos sauditas e dos Emirados Árabes Unidos para controlar o mercado emergente do gás natural da UE e destruir o comércio lucrativo da Rússia com a UE. Uma notícia no Wall Street Journal fazia notar que tinha havido meses de trabalho nos bastidores entre os líderes americanos e árabes, que acordaram na necessidade de cooperar contra o ‘estado islâmico’ mas não como nem quando.
O processo deu aos sauditas a possibilidade de arrancar aos EUA o compromisso de reforçar o treino para os rebeldes lutarem contra o Sr. Assad, cuja queda os sauditas continuam a considerar uma prioridade absoluta”. ( The Secret Stupid Saudi-US Deal on Syria , F. William Engdahl, BFP)

Portanto, as guerras na Ucrânia e na Síria não são conflitos separados de modo algum. Fazem parte da mesma guerra global por recursos que os EUA têm desencadeado nos últimos 15 anos. Os americanos planeiam cortar o fluxo de gás russo e substitui-lo pelo gás do Qatar que atravessará a Síria e entrará no mercado da UE depois de Assad ser derrubado.

Eis o que se está a passar: os problemas da Síria começaram pouco depois de ela ter anunciado que ia participar de um “gasoduto islâmico” para transferir o gás natural do reservatório de gás de South Pars, ao largo da costa do Irão, através do Iraque e da Síria, que viria a ligar ao lucrativo mercado da Grécia e da UE. Segundo o autor Dmitri Minin:

“Um gasoduto a partir do Irão seria altamente lucrativo para a Síria. A Europa também ganharia com isso, mas há nitidamente no ocidente quem não goste da ideia. Os fornecedores de gás, aliados do ocidente no Golfo Pérsico, também não ficaram satisfeitos, nem a Turquia, o transportador de gás número um, porque ficaria fora do jogo”.
The Geopolitics of Gas and the Syrian Crisis: Syrian “Opposition” Armed to Thwart Construction of Iran-Iraq-Syria Gas Pipeline , Dmitri Minin, Global Research)

Dois meses depois de Assad ter assinado o acordo com o Iraque e o Irão, rebentou a rebelião na Síria. É uma grande coincidência, não acham? É curioso como este tipo de coisas acontece tão frequentemente quando os líderes estrangeiros não afinam com Washington.

Mas há mais de Minin:

“O Qatar está a fazer tudo o que pode para torpedear a construção do gasoduto, incluindo armar os combatentes de oposição na Síria, muitos dos quais vêm da Arábia Saudita, do Paquistão e da Líbia…
O jornal árabe Al-Akhbar cita informações segundo as quais há um plano aprovado pelo governo dos EUA para criar um novo gasoduto para transportar gás de Qatar para a Europa, envolvendo a Turquia e Israel…
Este novo gasoduto deverá começar em Qatar, atravessar o território saudita e depois o território da Jordânia, ultrapassando assim o Iraque xiita, e chegar à Síria. Perto de Homs o gasoduto dividir-se-á em três direcções: para Lataquia, Trípoli no norte do Líbano, e Turquia. Homs, onde também há reservas de hidrocarbonetos, é a principal encruzilhada do projecto, e não é para admirar… que ocorra aí a luta mais feroz. O destino da Síria está a ser decidido aí. As partes do território sírio onde estão a operar os destacamentos de rebeldes, com o apoio dos EUA, Qatar e Turquia, ou seja, o Norte, Homs e os arredores de Damasco, coincidem com o caminho que o gasoduto deverá seguir para a Turquia e Trípoli, no Líbano. Uma comparação de um mapa das hostilidades armadas e um mapa da rota do gasoduto de Qatar indica um elo entre as actividades armadas e o desejo de controlar estes territórios sírios. Os aliados de Qatar estão a tentar atingir três objectivos: quebrar o monopólio do gás da Rússia na Europa; libertar a Turquia da sua dependência do gás iraniano; e dar a Israel a hipótese de exportar o seu gás para a Europa por terra a um custo menor”.

Que tal, gostam disto, mais uma coincidência: “A luta mais feroz (na Síria) está a ocorrer” onde há enormes “reservas de hidrocarbonetos” e ao longo da rota planeada para o gasoduto.

Portanto, o conflito na Síria não tem nada a ver com terrorismo. Trata-se do gás natural, de gasodutos concorrentes e do acesso aos mercados na UE. Trata-se de dinheiro e de poder. Toda essa história do ISIS é uma grande mistificação para esconder o que se está realmente a passar, que é uma guerra global pelos recursos, mais sangue para o petróleo.

Mas como é que os EUA beneficiam de tudo isto, afinal as receitas do gás não vão para Qatar e para os países por onde transita o gasoduto, em vez de irem para os EUA?

Claro que vão. Mas o gás também vai ser denominado em dólares que aumentarão brutalmente a procura do dólar americano, perpetuando assim o sistema de reciclagem do petrodólar, o que cria um grande mercado para a dívida dos EUA e que ajuda a manter as acções e títulos dos EUA na secção da hemorragia (apenas) nasal. É disto que se trata, de preservar a supremacia do dólar forçando as nações a manterem quantidades excessivas de dólares americanos para usar nas transacções de energia e para servir suas dívidas denominadas em dólares.

Enquanto Washington puder controlar os abastecimentos mundiais de energia e forçar o mundo a comerciar em dólares, pode gastar muito mais do que produz e não ser responsabilizado por isso. É como ter um cartão de crédito que nunca seja preciso reembolsar.

Isto é uma trapaça que o Tio Sam está preparado para defender com tudo o que tiver, incluindo bombas nucleares.

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Vive no estado de Washington, EUA, fergiewhitney@msn.com , colaborou em Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion , AK Press.

O original encontra-se em www.counterpunch.org/2014/12/01/defending-dollar-imperialism/ . Tradução de Margarida Ferreira.

Dilma, devolva o Levy

Por Brizola Neto | Via Brasil de Fato

Não há justiça social sem crescimento econômico, mas não há crescimento econômico duradouro sem soberania.

“O triste destino dos países obrigados a recomprar manufaturados os produtos que exportam.” Foi desta forma que o estudante de Direito, Getúlio Vargas, ainda no ano de 1906, recebera em Porto Alegre (RS), o então Presidente da República Afonso Pena. Já naquela época, início do século XX, Vargas denunciava a dependência do Brasil em relação às economias industrializadas.

Quando chegou ao poder pela revolução de 1930, que encerra a República Velha, Getúlio Vargas inicia um virtuoso período de desenvolvimento econômico e de conquista de direitos e garantias para o povo brasileiro.

Seu governo organizou-se a partir de três princípios fundamentais: soberania nacional, desenvolvimento econômico e justiça social. Foi desta forma que, nos 15 anos de seu primeiro governo, criou as bases econômicas para transformar um país exclusivamente agrário numa economia industrializada. Além disso, modificou o tratamento da questão social no país, antes vista como caso de policia e criou o regime de direitos e garantias do trabalho.

Os direitos foram consolidados na legislação trabalhista e o desenvolvimento completado em seu segundo governo, com atos de afirmação nacional, o maior deles a criação da Petrobras. Nunca fomos tão desenvolvidos, nunca a classe trabalhadora gozou de tantos direitos.

Durante seus dois períodos na Presidência da Republica, Vargas enfrentou o ódio das elites. Sofreu também ataques da oposição e da imprensa golpista, lideradas pela dupla Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand, testas de ferro de interesses estrangeiros em nosso país.

Vargas resistiu até a exaustão. Quando já não era possível evitar o golpe arquitetado pelos representantes dos interesses antinacionais, em um ato heróico, pôs fim à própria vida. Mas deixou ao povo brasileiro o documento mais importante da nossa historia: a Carta Testamento. Foi este documento que esclareceu e mobilizou a nação para a defesa de seus direitos recém conquistados e para a defesa do projeto de desenvolvimento nacional.

A compreensão desse período denominado pela historiografia como a Era Vargas é fundamental para se entender os motivos que dividiram a esquerda brasileira depois da ditadura militar. Mesmo após o suicídio de Vargas, da morte ou assassinato de Jango no exílio e dos mais de 20 anos sem liberdades democráticas, o povo brasileiro não apagou da sua memória o trabalhismo brasileiro. Sua memória continuou viva com Leonel Brizola.

Antes do golpe de 1964, Brizola demonstrou sua coragem na campanha da Legalidade que garantiu a posse de Jango em 1961. Depois, na primeira eleição para governadores em 1982, foi eleito pelo povo do Rio de Janeiro para comandar o Estado.

Entretanto, o abandono de um projeto de desenvolvimento nacional e a submissão a interesses estrangeiros, inviabilizou o país, ensejando uma nova classe de trabalhadores desconectados de Vargas e empregados nas multinacionais, principalmente nas montadoras de automóveis concentradas em São Paulo.

Que pesem as boas intenções dessa nova “classe operária” e de seus líderes sindicais em suas lutas por melhores salários e suas grandes mobilizações nas chamadas greves do ABC, que contribuíram inclusive para acabar com a ditadura, esses líderes não compreenderam as verdadeiras razões do golpe de 1964 e tudo o que justificava e ainda hoje justifica o atraso brasileiro, que é nossa submissão ou dependência aos interesses estrangeiros. Alguns de seus mais destacados líderes chegavam ao cúmulo de defender a presença das multinacionais no país alegando que estas pagavam melhores salários que a indústria nacional.

Quis o processo social brasileiro, deturpado pelas estruturas criadas pela ditadura, como a Rede Globo de Televisão, que depois de seguidos governos de representantes das elites antinacionais (Sarney, Collor e FHC) chegasse à Presidência da República um operário oriundo das greves do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva. O líder do partido que, desde 1989, com a derrota eleitoral de Brizola, passou a comandar a esquerda brasileira.

Hoje, ultrapassados 13 anos de governos do PT, tudo o que está aí nos leva a crer que estes ainda ignoram os ensinamentos de Vargas, provavelmente não compreenderam a Carta Testamento e, mesmo depois da morte de Leonel Brizola, eles seguem ignorando as lições do trabalhismo brasileiro.

Não entenderam que um país não consegue distribuir uma riqueza que não produz, aprofundaram a desnacionalização da economia brasileira e são obrigados a retroagir nos avanços produzidos nas áreas sociais, como a redução do desemprego, o aumento dos salários e o restabelecimento da rede de proteção social.

Tudo devido à crise econômica provocada pela incapacidade brasileira de produzir riquezas. Mais de cem anos após o discurso de Vargas a economia brasileira continua sendo mera exportadora de produtos comuns (commodities) e importadora de produtos industrializados.

Os recentes avanços conquistados, baseados na expansão do consumo e no aumento da renda dos trabalhadores, mostram-se insustentável, em um país que não resolveu sua dependência em relação aos países ricos. As perdas internacionais como diria Brizola, quebraram nosso pais.

Agora vivemos a vergonha de num governo eleito pela esquerda, termos que pedir socorro aos liberais entreguistas para acertar nossas contas com os interesses estrangeiros e “ajustar” nossa economia.

A nomeação para o cargo de Ministro da Fazenda do “chicagoboy” Joaquim Levy nos faz relembrar os terríveis anos dos governos tucanos de FHC, o príncipe da moeda. E o senhor Levy não perde tempo, logo que nomeado já disse a que veio, produziu com a chancela de Dilma e o apoio de Lula duas Medidas Provisórias (MPs 664 e 665) que retiram direitos dos trabalhadores como o seguro desemprego e o abono salarial. Reduziu ainda 50% dos benefícios de pensões por morte. Em seu plano entreguista o garoto de Chicago elevou consideravelmente a taxa de juros (hoje em 13.25% e com tendência para novas altas), inviabilizando o crescimento econômico que num curto prazo levarão o país à recessão, ao arrocho salarial e ao desemprego.

O senhor Levy chegou a ter a ousadia de em recente viagem ao estrangeiro entregar parte da nossa maior riqueza natural, as enormes reservas de petróleo do pré-sal brasileiro. Quer enfraquecer a Petrobras que, provavelmente, ele gostaria de ver privatizada ou destruída.

Diante de tudo isso é hora do ex-presidente Lula retomar seus compromissos com a classe trabalhadora e reviver seus melhores momentos frente ao governo brasileiro quando com as mãos cheias de petróleo reconheceu Vargas e afirmou a soberania nacional, defendendo nossa riqueza da voracidade de lucros de multinacionais.

Já a presidenta Dilma deveria relembrar de suas raízes trabalhistas, de seus 20 anos ao lado de Brizola e inspirada em sua coragem combater as os interesses externos e reafirmar nossa soberania. Para isso precisa devolver o senhor Levy aos entreguistas.

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Presidente do diretório municipal do PDT, ex-ministro do Trabalho e Emprego e ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul.