Arquivos da categoria: Internacional

Dois apátridas que querem vender o Brasil ao inimigo do Norte

Por J. Carlos de Assis

O senhor Mangabeira Unger, como estrategista, e o senhor Modesto Carvalhosa, como jurista, são como uma espécie de corpo sem espírito. O senhor Mangabeira desfila sua condição de importante intelectual de Harvard mas, até onde eu saiba, nunca provou qualquer contribuição relevante àquela universidade norte-americana. Parece que vive da glória de ter sido apanhado num sorteio de cartas de garotos ao Presidente norte-americano, coisa que faz questão de frisar em qualquer conversa como prova de seu acesso ao poder naquele país.

É de Mangabeira que roubei o enunciado acima, na medida em que ele sustenta numa entrevista a O Globo, jornal que é inimigo declarado do Governo, que o Mercosul é um corpo sem espírito, recomendando sua suspensão – tese também de O Globo. À parte a invasão de prerrogativa do Itamaraty na formulação da política externa brasileira, isso a partir de uma Secretaria secundária na estrutura do Estado, ele simplesmente desmonta com sua agressividade verbal a única política externa brasileira que sobreviveu a todos os presidentes da República, desde Sarney, com excelentes resultados comerciais a nosso favor.

Não sou um “especialista” em Mangabeira. Tive com ele uma única conversa, no Rio, numa época em que ele cortejava o senador Crivella para ser, ele, Mangabeira, candidato a presidente da República. Fiquei imaginando um comício para 100 mil pessoas no qual Mangabeira tomasse a palavra com aquele sotaque carregado de gringo, vomitando arrogância para todo lado. Será que os eleitores entenderiam? No quadriênio seguinte Mangabeira se ofereceu a Lula para ser vice de Dilma, garantindo ter os votos do Nordeste…

Na eleição de Obama, Mangabeira ofereceu a quem quisesse cópia de uma longa carta que diz ter escrito ao presidente recém-eleito sobre como ele deveria governar os Estados Unidos. Na mesma época, mandou outra longa carta a Lula com o mesmo propósito em relação ao Brasil. Esta, nos meus parcos domínios de economista, fiz questão de ridicularizar: é que Mangabeira recomendava uma fortíssimo ajuste fiscal com aumento para 7% do superávit primário, resolvendo por aí a crise fiscal brasileira! Agora, ele quer que o foco da política externa seja a aproximação com os EUA, algo que se assemelha a uma ovelha dormindo com elefante.

O fenômeno Mangabeira não é propriamente de saber como ele é, mas de saber como ele se faz ver. Passa, como disse, por um grande intelectual de Harvard, sem sê-lo. (Também não me comoveria muito se o fosse na medida em que Harvard produz, desculpem-me, muita merda desde que saiu de lá o grande Galbraith e sua turma!) Assim, o fenômeno Mangabeira está associado ao conto de Lima Barreto, “O homem que sabia javanês”, na medida em que só admira Mangabeira quem pensa que Mangabeira sabe alguma coisa que ele próprio não sabe.

Um pedaço de culpa nessa história é de Lula, que adora intelectuais sem entendê-los muito bem. Resgatou Mangabeira duas vezes, antes e agora, da merecida obscuridade. Mas não só dele. Meu dileto amigo Raphael de Almeida Magalhães, um dos espíritos mais lúcidos de sua época, tinha por Mangabeira uma admiração que eu jamais entendi. Da parte de Lula, sim, ele tem uma formação cultural muito acanhada e pode achar que Mangabeira é o máximo por causa das credenciais falsas que apresenta, mas Raphael entendia as credenciais. De qualquer modo, desde a formação do PMDB, de que participou, Mangabeira vendeu muito gato por lebre nos bastidores do partido até que se revelou dispensável e se recolheu a Harvard, para onde sempre corre quando se revela insignificante aqui.

Vejamos agora o “jurista” Modesto Carvalhosa. Numa entrevista ao Estadão, sustentou a necessidade de criminalização da Petrobrás pelos desmandos de empregados na operação Lava Jato. É claro que isso é uma estupidez jurídica e um contrassenso filosófico. Pessoa jurídica não pode cometer crime. Ou é o caminhão, e não seu motorista, quem deve ser processado criminalmente pelo atropelamento? Ao se insurgir contra a CGU, a AGU e ao Ministério da Justiça por estarem inclinados a considera a Petrobrás “vítima”, o senhor Carvalhosa passa por intérprete de seu próprio livro sobre o assunto, muito provavelmente atrás de um bom contrato nessa especialidade criada por ele mesmo!

Entretanto, a base do raciocínio dele não é propriamente jurídica, nem filosófica. Diz ele: “Assim tendo ‘decidido’ o governo central, e tendo em vista ser a Petrobrás uma multinacional, as jurisdições administrativas e judiciais americanas e europeias, a par do Banco Mundial e do Banco Interamericano, vão impor não só pesadíssimas penas pecuniárias à nossa estatal, como declarar sua inidoneidade para contratar e obter créditos no exterior.”

E mais: “Pôr a Petrobrás como vítima é um dos maiores erros que o atual governo pratica, na medida em que afunda ainda mais o País no grupo dos países corruptos. O Brasil estava na 42ª  posição entre os países declarados corruptos pela Transparência Internacional, ou seja, abaixo da linha dos 50, que é o número limite dessa categoria infamante. Agora deve afundar ainda mais.”  Jamais vi nada tão descarado em matéria de subserviência.

Basta desse vendilhão da pátria. Vou me ater a seu último argumento. O que fez a Transparência Internacional relativamente à fraude praticada pelos 12 maiores bancos do mundo em relação à Libor, taxa de juros que regula todas as negociações financeiras desde Londres? O que fez relativamente às fraudes praticadas pelo Deutche Bank e pelo UBS no trilionário mercado internacional de câmbio? Quem, como pessoa física, foi punido pelas fraudes praticadas pelo Bank of America e Citigroup, com penas de 20 bilhões de dólares cada um, por conta de fraudes no mercado imobiliário norte-americano?

Esses campeões da transparência internacional, árbitros da corrupção mundial, tem um sistema jurídico tão curioso que simplesmente ignora as pessoas como corruptas, para se limitar a cobrar indenizações das empresas – ou seja, do lucro futuro. É o exato oposto do que queremos aqui, com muito mais lógica. Punir o corrupto e adotar acordos de leniência com as empresas onde ocorreram fraudes, já que são, indiscutivelmente, vítimas dos seus próprios donos ou de seus próprios executivos, e detentoras de invejável capacidade de construir coisas, de viadutos a portos, assim como de tecnologia genuinamente nacional. E que se salve o Direito Romano das mãos incompetentes de gente como Modesto Carvallhosa que simplesmente, provavelmente por interesses pessoais vinculados a interesses externos, querem quebrar a maior empresa brasileira e latino-americana.

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José Carlos de Assis é economista, professor, doutor pela Coppe-UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre Economia Política brasileira.

Repressão israelense no Paraguai

Por Tania J. Faillace

Em sua edição do dia 06/05, o site argentino Resumen Latinoamericano informa que o governo paraguaio acaba de assinar acordo de cooperação com o governo israelense na política de segurança do Paraguay contra os movimentos sociais e indígenas, que lá são considerados “terroristas”.

Isso já acontece com Colômbia e México, e provavelmente também acontecerá com Peru, e talvez Uruguay.

Trata-se de mais um passo da ingerência dos países hegemônicos associados aos EUA em relação aos países e povos da América latina.

Lembremos que Mossad já tem visto de residência na Colômbia, e que faz uns poucos anos invadiu Equador para matar expressamente a Raul Reyes, das FARC e, segundo parece, quando estava dormindo.

Israel, como se sabe é um campeão de Direitos Humanos, inclusive na faixa de Gaza e nas escaramuças que se travam eternamente no Oriente Médio.

Venho alertando aos companheiros que essa política está chegando até nós. E que o cerco ao governo brasileiro, e, mais especificamente, à presidente Dilma tem como instrumento de ameaça desencadear atentados terroristas no território brasileiro, no que Mossad e CIA são exímios “artistas”.

Lembremos que está prevista a instalação de mais uma base militar norte-americana na Tríplice Fronteira , próximo a Itaipu, uma das chaves da produção de energia elétrica no País.
Se somarmos a essa notícia a notícia dos exercícios militares em vários estados norte-americanos para preparar a repressão aos movimentos sociais e de Direitos Humanos naquele País, verificamos que está sendo preparada a instalação de uma DITADURA IMPERIALISTA de caráter pancontinental, atendendo aos projetos da NWO (Nova Ordem Mundial) mas em caráter de aceleração desvairada.

Lembremos também que forças extras britânicas dirigiram-se no mês passado para as Ilhas Malvinas. Que os ianques fizeram exercícios militares com os peruanos em seu país. Somem-se uma informação a outra, e chega-se… onde?

A América Latina na dinâmica da guerra global

Por Jorge Beinstein | Via Resistir.info

Tudo ao mesmo tempo: em meados do mês de Março de 2015 os Estados Unidos deram um salto qualitativo de claro perfil belicista nas suas acções contra a Venezuela, também desenvolvem exercícios militares em países limítrofes com a Rússia na chamada operação “Atlantic Resolve”, algumas dessas operações são realizadas a uns 100 quilómetros de São Petersburgo [1] , além disso intensificam-se informações acerca de uma nova ofensiva do governo de Kiev contra a região do Donbass [2] , aumenta a circulação de naves de guerra da NATO no Mar Negro, continuam as velhas guerras imperiais no Iraque e no Afeganistão às quais acrescentou-se a seguir a ofensiva contra a Síria (passando pela Líbia)… e muito mais…

Evidentemente o Império está lançado numa catastrófica fuga militar para a frente estendendo suas operações a todos os continentes, encontramo-nos em plena guerra global. Nem os grandes meios de comunicação, nem os dirigentes internacionais mais importantes registaram publicamente o facto, todos falam como se vivêssemos em tempos de paz, só em alguns poucos casos surgem alguns deles a advertir sobre o perigo de guerra mundial ou regional. Uma excepção recente é a do Papa Francisco quando afirmou que actualmente nos encontramos perante “uma terceira guerra mundial” que ele descreve como a desenvolver-se “por partes” ainda que sem designar os contendores e fazendo vagas referências à “cobiça” e a “interesses espúrios” com a linguagem confusa e jesuítica que o caracteriza [3] .

A cada mês acrescenta-se algum novo indiciar que anuncia a proximidade de uma nova recessão global muito mais forte e extensa que a de 2009. O capitalismo, a começar pelo seu polo imperialista, foi-se convertendo velozmente num sistema de saqueio onde a reprodução das forças produtivas fica completamente subordinada à lógica do parasitismo. As elites imperiais e suas lumpen-burguesias satélites “necessitam” super-explorar até ao extermínio seus recursos naturais e mercados periféricos para sustentar as taxas de lucro do seu decadente sistema produtivo-financeiro.

As tendências globais rumo à decadência económica exprimem-se de múltiplas maneiras no dia a dia. Dentre elas, a volatilidade dos preços das matérias-primas, o petróleo por exemplo, chave mestra da economia mundial, cujo estancamento extractivo (que não conseguiu ser superado pelo show mediático em torno do “milagroso” petróleo de xisto) combina-se com desacelerações da procura internacional como ocorre actualmente. A isso somam-se golpes especulativos e geopolíticos que convertem os mercados em espaços instáveis onde as manobras de curto prazo impõem a incerteza.

O curto-prazismo especulativo hegemónico engendra pacotes tecnológicos depredadores como a mineração a céu aberto, a fracturação hidráulica ou a agricultura com base em transgénicos acompanhados por operações políticas e comunicacionais que degradam, desarticulam sistemas sociais procurando convertê-los em espaços indefesos diante dos saqueios.

O optimismo económico da época do auge neoliberal deu lugar ao pessimismo do “estancamento secular” agora apregoado pelos grandes peritos do sistema [4] . Eles indicam que a salvação do capitalismo não chegará a partir da economia condenada a sofrer recessões ou crescimentos insignificantes, o melhor é nem falar demasiado desses tristes temas. Então a guerra ascende ao primeiro plano, algum massacre protagonizado por tropas regulares ou mercenários, algum bombardeio, alguma ameaça de ataque na Europa do Leste, Ásia, África ou América Latina. Os meios de comunicação nos esmagam com essa notícias, contudo ninguém fala da guerra global.

Tudo acontece como se a dinâmica da guerra se houvesse autonomizado mas empregado um discurso embrulhado, difícil de entender. Mas assim como os super-poderes dos homens de negócios dos anos 1990 não eram independentes e sim compartilhados no interior de uma complexa trama de poderes (políticos, mediáticos, militares, etc) que em termos gerais costuma-se denominar como “classe dominante”, também a aparente autonomia do militar dificulta-nos ver as redes mafiosas de interesses onde se borram as fronteiras entre os seus componentes. As elites da era neoliberal sofreram mudanças decisivas, experimentaram mutações que as converteram em classes completamente degeneradas que, cada vez mais, só podem recorrer à força bruta, à lógica da guerra. Não se trata portanto de a componente militar se autonomizar e sim, antes, de que as elites imperialistas se militarizam. Elas já não seduzem com ofertas de consumo mais algumas doses de violência, agora só propagam o medo, ameaçam com as suas armas ou utilizam-nas.

Progressismos latino-americanos 

Dentro desse contexto global devemos avaliar os progressismos latino-americanos [5] que se instalaram na base das crises de governabilidade dos regimes neoliberais.

Os bons preços internacionais das matérias-primas durante a década passada, somados a políticas de contenção social dos pobres, permitiram-lhes recompor a governabilidade dos sistemas existentes. Em alguns desses casos desenvolveram-se ampliações ou renovações das elites capitalistas e em quase todos eles prosperaram as classes médias. Os governos progressistas iludiram-se supondo que as melhorias económicas lhes permitiram ganhar politicamente os referidos sectores mas, como era previsível, ocorreu o contrário: as camadas médias iam para a direita e, enquanto ascendiam, olhavam com desprezo os de baixo e assumiam como próprios os delírios mais reaccionários das suas burguesias. A explicação é simples, na medida em que são preservados (e ainda fortalecidos) os fundamentos do sistema e em que seus núcleos decisivos radicalizam seus elitismo depredador seguindo a rota traçada pelos Estados Unidos (e “Ocidente” em geral) produz-se um encadeamento de subculturas neo-fascistas que vão desde acima até abaixo, desde o centro até as burguesias periféricas e desde estas até suas camadas médias. Na Venezuela, Brasil ou Argentina as classes médias melhoravam seu nível de vida e ao mesmo tempo despejavam seus votos nos candidatos da direita velha ou renovada.

Estabeleceu-se um conflito interminável entre governos progressistas que tornavam governáveis os capitalismos locais e direitas selvagens ansiosas por realizar grandes roubos e esmagar os pobres. O progressismo, confrontado politicamente com essa direita qualificada de “irresponsável”, cujos fundamentos económicos respeitava, chantageava aqueles na esquerda que criticavam sua submissão às regras do jogo do capitalismo utilizando o papão reaccionário (“nós ou a besta”), acusando-os de fazerem o jogo da direita. Na realidade o progressismo é um grande jogo favorável ao sistema e em última análise à direita, sempre em condições de retornar ao governo graças à moderação, à “astúcia” aparentemente estúpida dos progressistas que por vezes conseguem cooptar esquerdas claudicantes cuja obsessão em “não fazer o jogo da direita” (e simultaneamente integrar-se no sistema) é completamente funcional à reprodução do país burguês e em consequência a essa detestável direita.

Agora o jogo começa a esgotar-se. Os progressismos governantes, com diferentes ritmos e variados discursos, acossados pelo arrefecimento económico global e pelo crescente intervencionismo dos Estados Unidos, vão perdendo espaço político. Em vários casos suas dificuldades fiscais pressionam-nos a ajustar despesas públicas (e de modo algum a reduzir os super lucros dos grupos económicos mais concentrados), a aceitar as devastações da mega-mineração ou a adoptar medidas que facilitam a concentração de rendimentos. No Brasil, o segundo governo Dilma colocou um neoliberal puro e duro no comando da política económica, encurralado por uma direita ascendente, uma economia oscilando entre o estancamento e a recessão e uma intervenção norte-americana cada vez mais activa. No Uruguai o novo governo de Tabaré Vazquez mostra um rosto claramente conservador e no Chile a presidência Bachelet não precisa correr demasiado à direita, depois da sua rosada demagogia eleitoral afirma-se como continuidade do governo anterior e em consequência, passada a confusão inicial, herdará também a hostilidade de importantes faixas de esquerda e dos movimentos sociais.

Na Argentina, o núcleo duro agro-mineral exportador-financeiro e os grupos industriais exportadores mais concentrados estão mais prósperos do nunca enquanto a ingerência norte-americana amplia-se conduzindo o jogo de títeres políticos rumo a uma ruptura ultra-direitista. Na Venezuela a eterna transição rumo a um socialismo que nunca acaba de chegar não conseguiu superar o capitalismo ainda que torne caótico o seu funcionamento, forjando desse modo o cenário de uma grande tragédia. Por enquanto só a Bolívia parece salvar-se da avalanche, afirmando-se na maior mutação social da sua história moderna sem superar o âmbito do subdesenvolvimento capitalista mas recompondo-o integrando as massas submersas, multiplicando por mil o que havia feito o peronismo na Argentina entre 1945 e 1955 (de qualquer forma isso não a liberta da mudança de contexto regional-global).

Na América Latina assistimos a um processo de crise muito profundo onde convergem progressismos declinantes com neoliberalismo integralmente degradados, como na Colômbia ou no México, conformando um panorama comum de perda de legitimidade do poder político, avanços de grupos económicos saqueadores e activismo imperialista cada vez mais forte.

A este panorama sombrio é necessário incorporar elementos que dão esperança, sem os quais não poderíamos começar a entender o que está a ocorrer. Por debaixo dos truques políticos, dos negócios rápidos e das histerias fascistas aparecem os protestos populares multitudinários, a persistência de esquerdas não cooptadas pelo sistema (para além dos seus perfis mais ou menos moderados ou radicais), a presença de insurgências incipientes ou poderosas (como na Colômbia).

Nem os cantos de sereia progressistas nem a repressão neoliberal puderam fazer desaparecer ou marginalizar completamente esses fantasmas. Realidade latino-americana que preocupa os estrategas do Império, que temem o que consideram como sua inevitável arremetida contra a região possa desencadear o inferno da insurgência continental. Nesse caso o paraíso dos grandes negócios poderia converter-se num grande atoleiro onde afundaria o conjunto do sistema.

Geopolítica do Império, integrações e colonizações 

A estratégia dos Estados Unidos aparece articulada em torno de três grandes eixos; o transatlântico e o transpacífico que apontam num gigantesco jogo de pinças contra a convergência russo-chinesa centro motor da integração euro-asiática. E a seguir o eixo latino-americano destinado à recolonização da região.

Os Estados Unidos tentam converter a massa continental asiática e sua ampliação russo-europeia num espaço desarticulado, com grandes zonas caóticas, objecto de saqueio e super-exploração.

Os recursos naturais, assim como os laborais, desses territórios constituem seu centro de atenção principal, na elipse estratégica que cobre o Golfo Pérsico e a Bacia do Mar Cáspio estendendo-se em direcção à Rússia encontram-se 80% da reservas globais de gás e 60% das de petróleo e na China habitam pouco mais de 230 milhões de operários industriais (aproximadamente um terço do total mundial).

A América Latina aparece como o pátio traseiro a recolonizar. Ali se encontram, por exemplo, as reservas petrolíferas da Venezuela (as primeira do mundo, 20% do total global), cerca de 80% das reservas mundiais de lítio (num triângulo territorial compreendido pelo Norte do Chile e Argentina e pelo Sul da Bolívia) imprescindível na futura indústria do automóvel eléctrico, as reservas de gás e petróleo de xisto do Sul argentino, fabulosas reservas de água doce do aquífero guarani entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina.

Uma das ofensivas fortes do Império na década passada foi a tentativa de constituição da ALCA, zona de livre comércio e investimentos que significava a anexação económica da região por parte dos Estados Unidos. O projecto fracassou, a ascensão do progressismo latino-americano somado à emergência de potências não ocidentais, sobretudo a China, e o atolamento estado-unidense na sua guerra asiáticas foram factores decisivos que em diferentes medidas debilitaram a investida imperial.

Mas a partir da chegada de Obama à presidência os Estados Unidos desencadearam uma ofensiva flexível de reconquista da América Latina: foi posta em marcha uma complexa mescla de pressões, negociações, desestabilizações e golpes de estado. Os golpes brandos com êxito em Honduras e no Paraguai, as tentativas de desestabilização no Equador, Argentina, Brasil e sobretudo na Venezuela (onde vai-se perfilando uma intervenção militar), mas também a tentativa em curso de extinção negociada da guerrilha colombiana e a domesticação de Cuba fazem parte dessa estratégia de recolonização.

A mesma é implementada através de uma sucessão de tentativas suaves e duras tendente a desarticular as resistências estatais e os processos de integração regional (Unasul, Celac, Alba) e extra-regionais periféricos (BRICS, acordos com a China e a Rússia, etc) assim como a bloquear, corromper ou dissolver as resistências sociais e as alternativas políticas mais avançadas, em curso ou potenciais. Tentando levar avante uma dinâmica de desarticulação mas procurando evitar que a mesma gere rebeliões que se propaguem como um rastilho de pólvora numa região actualmente muito inter-relacionada.

Sabem muito bem que em muitos países da região a substituição de governos “progressistas” por outros abertamente pró imperialistas significa a ascensão de camarilhas enlouquecidas que a curto prazo causariam situações de caos que poderiam desencadear insurgências perigosas. Alguns estrategas do Império acreditam poder neutralizar esse perigo com o próprio caos, desenvolvendo “guerras de quarta geração” instalando diferentes formas de violência social desestruturante combinadas com destruições mediático-culturais e repressões selectivas. Nesse sentido, o modelo mexicano é para eles (por agora) um paradigma interessante.

Temem por exemplo que um cenário de caos fascista na Venezuela derive numa guerra popular que os obrigaria a intervir directamente num conflito prolongado, o que somado às suas guerras asiáticas os conduziria a uma super extensão estratégica ingovernável. É por isso que consideram imprescindível obter o apaziguamento da guerrilha colombiana, potencial aliada estratégica de uma possível resistência popular venezuelana.

O panorama é completado com o processo de integração colonial dos países da chamada Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile). A isso somam-se os tratados de livre comércio de maneira individual com países da América Central e outros como o Chile e a Colômbia e o velho tratado entre EUA, Canadá e México.

Integração colonial e desarticulação, manipulação do caos e fortalecimento de pólos repressivos, Capriles mais Peña Nieto, Ollanta Humana mais Santos mais bandos narco-mafiosos… tudo isso dentro de um contexto global de decadência sistémica onde a velha ordem unipolar declina sem ser substituída por uma nova ordem multipolar. Tentativa de controle imperialista da América Latina submersa na desordem do capitalismo mundial.

O cérebro do Império não consegue superar as mazelas do seu corpo envelhecido e enfermo, os delírios reproduzem-se, as fugas para a frente multiplicam-se. Evidentemente encontramo-nos num momento histórico decisivo.

Referências:

[1] Finian Cunningham, “NATO’s Shadow of Nazi Operation Barbarossa”, Strategic Culture Foundation, 13/03/2015;

[2] Colonel Cassad, “Ukraine: Reprise de la guerre au printemps?”, http://lesakerfrancophone.net/ le 13 mars 2015;

[3] “El papa Francisco advirtió que vivimos una tercera guerra mundial combatida ‘por partes’ “, http://www.lanacion.com.ar , 13 de septiembre de 2014;

[4] Laurence H Summers, “Reflections on the ‘New Secular Stagnation Hypothesis’” y Robert J Gordon, “The turtle’s progress: Secular stagnation meets the headwinds” en “Secular Stagnation: Facts, Causes, and Cures”, CEPR Press, 2014;

[5] Utilizo o termo “progressista” no sentido mais amplo, desde governos que se proclamam socialistas ou pró socialistas como na Venezuela ou Bolívia até outros de corte neoliberal-progressista como os do Uruguai ou Brasil.

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Jorge Beinstein é doutor em economia e professor catedrático das universidades de Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, e de Havana, em Cuba. É autor de Capitalismo senil: a grande crise da economia global, publicado no Brasil pela editora Record (2001). Dirige o Instituto de Pesquisa Científica da Universidade da Bacia do Prata e publica regularmente em Le Monde Diplomatique (em castelhano).

Lições do conservadorismo inglês

Por Rogerio Studart | Via Brasil Econômico

Nem os conservadores britânicos ousaram, frente à atual crise externa, promover a austeridade monetária, e muito menos um arrocho como programa de responsabilidade fiscal.

O Partido Conservador inglês voltou ao poder em 2010 com uma plataforma de enfrentar a crise com um choque de confiança a partir de austeridade. A economia britânica passou a demonstrar maior vitalidade somente em 2013, e muitos creditam a espetacular vitória eleitoral da semana passada a essa estratégia econômica conservadora. Foi isso mesmo? E há alguma lição que podemos aferir do conservadorismo britânico?

Vamos direto ao ponto: a resposta inglesa à crise atual nunca foi exatamente um exemplo de austeridade. Depois do tombo do PIB em 2009 (-4.3%), o Banco da Inglaterra se comprometeu com uma política monetária não convencional, similar ao “quantitative easing” (QE) americano. Mas nem as taxas de juros em torno de 0% permitiram uma retomada suficientemente forte para reduzir o desemprego. De fato, houve um esboço de retomado, com o celebrado crescimento de 1,9% em 2010. Mas ele foi seguido de uma desaceleração ate 2012 (0,7% de crescimento); pior ainda: o desemprego dá um salto de 5,7% (em 2008) para 7,9% (em 2010).

Não surpreendentemente, em 2010, o partido trabalhista é substituído por uma aliança conservadora que prometia “austeridade com uma cara humana”. Os ingleses evidentemente entenderam deste slogan que o ajuste fiscal geraria ganhos de confiança e uma rápida retomada do investimento e do crescimento — e, mais importante, do emprego. Se enganaram profundamente: o desemprego somente aumentou nos dois primeiros anos da nova era conservadora – e, com ele, foram às alturas o descontentamento e a desilusão populares. Sobre a austeridade, é verdade que o governo de David Cameron conseguiu reduzir a necessidade de financiamento do setor público de algo em torno de 8% em 2010 para 4% em 2015, enquanto a dívida pública bruta aumentaria de 76% para 91% no mesmo período. Ou seja, frente a este quadro, os Tories , como são conhecidos na Inglaterra, decidiram fazer o que os conservadores em muitas partes fazem: mantiveram o discurso da austeridade, mas na prática afrouxaram um pouco a política fiscal.

O único trunfo que possuía até 2012 a estratégia dos Tories  era o fato de a combinação de política monetária e fiscal frouxas não ter causado inflação. Mas porque isso não ocorreu? Creio que por pelo menos três razoes. A primeira está no fato de que a liquidez adicional gerada pelo QE inglês foi absorvida, com um sorriso nos lábios, por estrangeiros. Isso porque, apesar da retração do seu peso político e econômico no mundo, os britânicos conseguiram manter a libra esterlina como moeda de troca das finanças e do comércio global. Isso lhes concede o “privilégio exuberante” (junto aos Estados Unidos) de emitir títulos públicos em volumes gigantescos sem que “o mercado” encare isso como o caminho para o caos fiscal.

A segunda razão se relaciona ao fato de que parte da liquidez adicional se dilui na circulação financeira gerada pelo novo boom especulativo no mercado imobiliário britânico. A terceira razão é que parte do consumo adicional termina por ampliar as importações, evitando assim pressões sobre a oferta doméstica — mas criando um déficit comercial que sempre foi alto desde 2008, e a partir de 2013 nunca foi inferior a 4.5% do PIB.

Apesar de todo o discurso, não foi a política de austeridade que permitiu aos Tories  evitar um resultado econômico (e, eu diria, eleitoral) medíocre. A queda do preço do petróleo e, portanto, dos custos de transporte aliviaram o bolso do debilitado consumidor inglês e o custo de produção da não menos combalida indústria. A retomada da economia americana e a valorização do dólar deram um impulso adicional para um pequeno ajuste da competitividade. A economia passou a acelerar-se, crescendo 1,7% e 2,6%, respectivamente em 2013 e 2014 — e tem chances de crescer 3% em 2015. O investimento teve uma pequeníssima recuperação, e, melhor ainda, o desemprego voltou a um patamar pré-crise de 5,4%. Face a esses números, só uma coisa me surpreende: que a maioria dos analistas políticos tenha duvidado da possibilidade do resultado eleitoral. Afinal, como diria o estrategista político de Bill Clinton sobre a vitória na campanha contra George Bush (pai): “É a economia…”!

Eu prometi terminar falando de lições sobre o Brasil. Então vamos lá. Talvez o melhor seja começar por dizer o óbvio ululante: não somos a Inglaterra. O real não é moeda forte, não temos nenhum “privilégio exuberante” e nosso mercado de dívida pública é basicamente doméstico. Temos uma inflação que, se era alta, acelerou-se a partir dos reajustes “a toque de caixa” dos preços administrados. Ao contrário dos Tories , não podemos nos dar ao luxo de manter taxas de juros baixíssimas sob o risco de sofrermos fugas de capital ou uma desvalorização, inflacionária, do real. Por fim, nunca tivemos os investidores, nacionais, estrangeiros ou o FMI, pedindo para que afrouxássemos nossa política fiscal. Ao contrário, sempre temos os olhos atentos do mundo pedindo mais “cortes na carne” (dos outros, evidentemente) — uma outra face do “privilégio exuberante” no atual sistema financeiro internacional.

Não somos a Inglaterra. Mas pelo menos uma lição não podemos deixar de ver nessa história: nem os Tories , no alto de sua fé liberal, ousaram, frente à atual crise externa, promover a austeridade monetária, e muito menos um arrocho como programa de responsabilidade fiscal. Os conservadores britânicos sabem que esta combinação gera recessão, quebras de empresas e mais desemprego; mas estariam “dispostos” a aceitar todo esse sofrimento (dos outros, é claro) caso levasse ao equilíbrio fiscal e ao crescimento no futuro. Mas indicam também saber que esta estratégia pode ser contraprodutiva e desastrosa em um momento externo difícil, pois essa combinação arrisca provocar uma queda acelerada e cumulativa da arrecadação do Tesouro — um caminho contrário da austeridade fiscal de longo prazo, que corretamente defendem.

Além disso, os Tories parecem entender que um ajuste nesses termos, quanto prolongado, termina por reduzir a confiança dos produtores e investidores, minando a possibilidade do crescimento pelo investimento, da redução do desemprego. Sem contar que, por fim, compreendem, como bons economistas políticos que são, que esse caminho mina o apoio político necessário para possíveis ajustes futuros. Ou seja, eles sabem que é uma combinação tecnicamente infrutífera e politicamente desastrosa — uma receita testada muitas vezes e que não deu certo.

Em suma, temos muitas lições a aprender com o conservadorismo inglês. Basta fazermos um esforço para traduzi-las de forma adequada.

Nova teoria sobre a morte de Osama Bin Laden

Por Cristina F. Pereda | Via El País Brasil

Um homem passa perto das ruínas da casa em que vivia o líder da Al Qaeda em Abbottabad (Paquistão). / SULTAN DOGAR (EFE)

Um artigo de conceituadíssimo jornalista põe em xeque a versão oficial sobre o assassinato do então líder da Al Qaeda pelos EUA.

As diferentes teorias sobre quem ordenou a morte do ex-presidente John F. Kennedy continuam vivas mais de 50 anos depois de seu assassinato em uma rua de Dallas. Umas elucubrações que logo podem abrir caminho a novas conjeturas sobre o final de Osama Bin Laden no Paquistão. No domingo, dia 10, o prestigioso jornalista norte-americano Seymour Hersh publicou uma nova versão, segundo a qual o relato oficial defendido pela Casa Branca nos últimos quatro anos é falso.

Segundo Hersh, os EUA teriam contado com a ajuda direta dos serviços de inteligência paquistaneses para acabar com a vida do cérebro dos atentados de 11 de Setembro. O líder da Al Qaeda estava preso desde 2006. Seu encontro ocorreu graças a um informante do Paquistão, não a uma operação da CIA. E tudo ocorreu graças a um acordo entre os dois países.

Mas, ao contrário de outros grandes trabalhos de Hersh, ganhador do Prêmio Pulitzer em 1970, várias vozes rechaçaram imediatamente sua versão. A Casa Branca assegura que as revelações carecem de fundamento. Um ex-agente da CIA declarou a POLITICO que “todos os dados são incorretos”. “Há muitos erros e afirmações sem base neste texto e não dá para comprová-los um por um”, concluiu Ned Price, porta-voz de Segurança Nacional da Casa Branca, em um comunicado.

O autor de reportagens de investigação de impacto, como as revelações da prisão de Abu Graib no Iraque, em uma série de reportagens para a revista The New Yorker em 2004, ou o massacre de My Lai no Vietnã em 1969, não desfrutou da mesma reação com seu último trabalho. Hersh baseia sua investigação nas afirmações de fontes anônima: um ex-agente da CIA e dois consultores “que tiveram acesso às informações”.

“A Casa Branca ainda mantém que foi uma operação norte-americana e que os oficiais do Exército do Paquistão e seu Serviço de Inteligência não foram avisados com antecedência. Isso é falso”, diz Hersh. Para ele, a versão oficial “poderia ter sido escrita por Lewis Carroll”. O jornalista duvida que Bin Laden teria escolhido uma pequena localidade a pouco mais de 60 quilômetros de Islamabad “como o lugar mais seguro para viver e liderar as operações da Al Qaeda”.

Hersh defende que Bin Laden vivia nesse complexo em Abbottabad como prisioneiro do serviço secreto paquistanês (ISI), que o mantinha recluso para poder utilizar sua figura como moeda de troca com a Al Qaeda, e que eles não só conheciam a operação que terminou em sua morte, também chegaram a colaborar, abrindo caminho aos Navy SEALs norte-americanos.

A pista sobre a localização de Bin Laden não chegou graças a uma operação da CIA que rastreou sua rede de comunicações, mas pela confissão de um agente da inteligência paquistanesa que visitou a Embaixada dos EUA no Paquistão e pediu parte dos 25 milhões de dólares de recompensa em troca da informação. A morte de Bin Laden não ocorreu depois de um enfrentamento com os Navy SEALS que chegaram até o terceiro andar da casa, a verdade é que ele foi executado.

Hersh confirmou que foi o presidente Obama que ordenou a operação que acabou com a morte do líder da Al Qaeda e que as forças especiais dos Navy SEALs se encarregaram de realizá-la. No entanto, teria sido essencial a cooperação da inteligência paquistanesa.

“O assassinato de Osama Bin Laden”, publicado na The London Review of Books, defende que o ISI contava com um agente infiltrado no complexo residencial de Bin Laden e que respondeu a todas as dúvidas da CIA para preparar o ataque. O Paquistão teria ordenado, além disso, a saída de todos os guarda-costas de Bin Laden “assim que ouvissem os primeiros helicópteros” e que fosse cortada a luz elétrica na cidade horas antes de começar o ataque.

Hersh teria trabalhado nessa investigação, de mais de 10.000 palavras, durante os últimos anos. No entanto, ela foi rechaçada pela revista The New Yorker. Ali, ele havia publicado em 2012 uma informação exclusiva sobre o treinamento de forças iranianas em bases militares de Nevada que nunca foi confirmada de maneira oficial. Um ano depois, o jornalista colocou em dúvida os relatórios sobre ataques com armas químicas na Síria baseando-se, mais uma vez, em fontes anônimas.

Nesta ocasião, Hersh se apoiou em outros testemunhos como os oferecidos em uma reportagem da The New York Times Magazine em 2014 ou nas queixas do ex-secretário de Defesa, Robert Gates, que denunciou em suas memórias, – “Duty” – que alguns dos fatos descritos por membros do Governo naqueles primeiros instantes não eram corretos.

Nacionalismo e petróleo

Por Wladmir Coelho | Via Política Econômica do Petróleo

A campanha contra a Petrobras revela em seus fundamentos uma série de preconceitos repetidos desde o final do século XIX. Estes preconceitos apresentam-se nos meios de comunicação revestidos de números, exemplos e vocabulário refinado sempre condenando as iniciativas nacionalistas confundidas ou transformadas em populismo entendido este como sinônimo de irresponsabilidade política e econômica.

O vocabulário e as práticas econômicas defendidas na grande mídia originam-se do pensamento liberal radicalizado no modelo neoliberal de nossos dias. Neste discurso é negada a existência de um sistema econômico nacional e considerado pecado mortal a intervenção do Estado na economia.

Nacionalismo econômico

No século XIX o economista alemão Friedrich List observou como mola do crescimento econômico dos Estados Unidos exatamente a forte presença do Estado na economia seja subsidiando ou protegendo a iniciativa nacional. List, ao contrário dos liberais clássicos, entendeu e defendeu a existência do sistema econômico nacional como base do crescimento econômico.

Este sistema econômico nacional seria amparado no conceito de nação ideal, defendido por List, cujo principio aplicava-se perfeitamente aos Estados Unidos segundo as observações do economista alemão. Nação ideal, entendia List, seria aquela com pleno controle das fontes de energia, alimentação e existência de um mercado interno em condições de manter a economia.

Acrescentava List a necessidade de apoio dos países mais desenvolvidos aos mais atrasados como forma, inclusive, de garantir a paz. O neoliberalismo de nossos dias defende exatamente o contrário ao dividir o mundo entre fornecedores de matéria prima e consumidores de tecnologia.

A ficção neoliberal

No caso do petróleo devemos observar, inclusive, a conversão de países considerados desenvolvidos, vide o caso do Canadá, em fornecedores de matéria prima. A situação do Canadá é assustadora aumentando este país a sua dependência dos Estados Unidos em função da venda de petróleo bruto.

A negativa da existência do sistema econômico nacional criou a verdade neoliberal entendendo qualquer alternativa ao modelo vigente como falsa economia ou não ciência.

Reforçou-se a ficção na qual existe um mercado controlado por forças naturais ou mágicas cujo motor encontra-se na livre concorrência. Elegeram-se sábios com total conhecimento da economia de ficção cuja função diária é reforçar a superstição e punir os eventuais hereges.

Um exemplo: Decorrente do sistema econômico nacional temos o nacionalismo econômico base do chamado Estado de bem estar social. Este modelo econômico ganhou força na Europa do pós-guerra principalmente na França, Inglaterra, Alemanha.

Todavia, desde o agravamento da crise econômica em 2008, recebe este modelo ataques em nome da manutenção da ficção econômica neoliberal preocupando-se os governos com o pagamento dos juros aos banqueiros em detrimento dos interesses dos trabalhadores.

Para o pagamento destes juros determinam-se as chamadas políticas de austeridade representadas no corte de benefícios sociais, no consumo e aumento do desemprego. Neste ponto podemos observar que o Estado de bem estar social não resultou na derrota ou desaparecimento dos interesses do poder econômico.

Neste modelo a iniciativa privada continuou existindo e foi claramente permitida uma ampliação do poder do sistema financeiro através das múltiplas fusões e desregulamentação dos chamados mercados. Entre a ampliação do lucro e manutenção de direitos sociais optaram os governos europeus pelo primeiro. Temos aqui uma clara distinção entre Estado de bem estar social e socialismo.

Políticas nacionalistas na América do Sul

Na América do Sul não foram poucas as tentativas de implantação de políticas econômicas nacionalistas. Sempre combatidas com violência pelos grandes grupos internacionais estas iniciativas não conseguiram implantar as transformações sociais verificadas na Europa.

No Brasil, a partir de 1930, inicia-se a modernização do Estado priorizando a regulamentação de setores da economia e oficializando direitos trabalhistas. Neste período o petróleo recebeu especial atenção através da criação de uma legislação própria – a partir de 1934 – efetivando-se o pleno controle estatal deste mineral quase duas décadas depois – 1953- com a criação da Petrobras.

A tentativa de aprofundamento de uma política econômica nacionalista nos anos 60, durante o governo João Goulart, resultou na oposição dos Estados Unidos e consequente introdução de uma ditadura militar cujo principal objetivo foi desnacionalizar a economia incluindo a quebra do monopólio do petróleo através da introdução do contrato de risco e desvio da Petrobras para o chamado mundo do mercado.

Durante o mesmo período vamos verificar exemplos semelhantes na Argentina, Venezuela, Bolívia sempre seguidos de golpes de Estado financiados através de empresas e governo dos Estados Unidos.

O Bolivarianismo

Atualmente a Venezuela, através do Bolivarianismo, representa um modelo de nacionalismo econômico direcionado para a implantação de um Estado de bem estar social.

O modelo econômico venezuelano encontra-se embasado no maior controle estatal do bem econômico petróleo utilizando este para o financiamento dos programas de assistência social, educação, pesquisa, defesa e criação de empresas publicas ou privadas nos diferentes setores da economia.

A Bolívia possui um modelo semelhante e consegue, igual à Venezuela, elevar determinados índices sociais notadamente aqueles relativos a pobreza absoluta, alfabetização e assistência médica.

Romper com o modelo neoliberal não constitui tarefa fácil. As elites políticas e econômicas da América Latina sobrevivem, desde o século XV, associadas aos interesses exportadores.

A base colonial de nossa economia possibilita a vida de luxo dos senhores de terras, eufemicamente tratados por empresários do agronegócio, dos executivos de multinacionais diversas que condenam os países a condição de montadores em prejuízo do desenvolvimento de uma tecnologia própria.

Estes senhores adotam, inclusive, o discurso do auxílio do mais rico ao mais pobre através da mitificação e mistificação do termo investimento externo confundido este com a necessidade de ampliação da exploração da mão de obra (incluindo a escravidão) e pleno acesso aos recursos da natureza sem a mínima preocupação com as consequências tenha esta a forma de falta d’água e destruição do meio ambiente.

Nacionalismo à brasileira

Enquanto a grande imprensa condena as ações sociais dos últimos 12 anos no Brasil os governos Lula e Dilma Rousseff tornaram-se mestres em manipular o vocabulário nacionalista escondendo as reais intenções neoliberais.

No discurso frases em defesa da Petrobras incluindo a falsa afirmativa da manutenção de sua condição estatal. Na prática provoca-se a asfixia da empresa forçando uma associação em desvantagem com os oligopólios de sempre.

Desta encenação a Petrobras tornou-se a principal vítima ao manter, o governo, a fórmula iniciada durante a ditadura e aprofundada no governo Fernando Henrique Cardoso.

Lula e Dilma Rousseff não recuperaram a Petrobras para a sua função de garantir a autossuficiência nacional mantendo o mito da 8ª irmã iniciado durante a ditadura. A imprensa com sua linguagem neoliberal utiliza a velha e corroída luta moralista aproveitando para acabar de vez com qualquer possibilidade da Petrobras assumir o seu verdadeiro papel.

Quem está dentro não quer sair, quem está fora quer entrar

A Petrobras vai seguindo o seu caminho em meio aos ataques. Nenhuma novidade. Esforça-se governo em seu discurso nacionalista e sua prática neoliberal defendendo a austeridade do jeitinho que ensinou o guru da ditadura Delfim Netto.

A oposição parlamentar, em sua maioria defensora do neoliberalismo, apropria-se do discurso moralista contra a corrupção e ressuscita o perigo comunista, clama pela volta da ditadura. Parece que estamos vivendo naquele samba do Sérgio Porto.

De forma indecente a grande imprensa divulga os “perigos” da ditadura bolivarianista, mas incentiva o culto aos tempos da ditadura militar. Todavia associam-se imprensa e governo e oposição parlamentar neoliberal quando o assunto é austeridade econômica.

Defendem governo, oposição neoliberal e grande imprensa a “necessidade” do aumento no valor da energia elétrica, da água, gasolina e os cortes nos direitos dos aposentados, viúvas e desempregados.

Escondem, todos eles, que estas empresas de energia, água, comunicação e petróleo foram construídas com dinheiro do povo para atender o povo. A privatização, total ou parcial destas empresas, não implicou, para seus proprietários, novos investimentos. Receberam tudo a preço de banana. Não admitem, todavia, uma queda em seus lucros que devem ser direcionados aos acionistas confortavelmente instalados nos Estados Unidos e Europa.

Vejam: Os donos do poder desejam apagar qualquer vestígio de combate a ficção neoliberal e transformam a crise econômica em crise moral cujo final seria o impeachment.

Esta palavra mágica, impeachment, reúne toda espécie de oportunistas interessados em manter o Brasil em sua condição colonial. Procuram iludir o povo percorrendo as ruas, gastam horas na internet atacando os patriotas e divulgando vídeos de militares aposentados defendendo a ditadura ou delirando com a invasão do Brasil por forças cubanas e venezuelanas. Alguns, mais honestos, aproveitam para aumentar a renda familiar vendendo Kits com camisetas e bonés.

O povo, apesar do bombardeio midiático, pergunta aos oportunistas: E depois do impeachment? Saindo a Dilma vamos direto ao paraíso? Conquistaremos de imediato aumentos salariais, redução nas tarifas de ônibus, energia elétrica e a água vai voltar a jorrar?

Em termos objetivos não oferecem, os oportunistas, uma resposta clara. Apenas vendem ilusões a serviço dos entreguistas e inimigos do povo com reforço da ficção neoliberal.

O trabalhador tem plena consciência da não existência de palavras mágicas. A crise não é moral. O momento requer uma profunda modificação no modelo econômico incluindo a ampliação de direitos dos trabalhadores e nacionalização dos recursos necessários à manutenção econômica nacional.

Dilma e Vázquez debaterão mudança nas regras para acordos fora do Mercosul

Via Agência Efe

A possibilidade de os países do Mercosul assinarem acordos bilaterais com outras nações de fora da região estará na pauta da reunião entre a presidente Dilma Rousseff e do presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, no próximo dia 21.

Defensor do “regionalismo aberto”, o líder uruguaio destacou a necessidade de os países de menor economia do Mercosul terem a oportunidade de fazerem pactos com outros Estados que não integram o bloco econômico sul-americano.

Presidente Dilma Rousseff se reunirá no próximo dia 21 com o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez. EFE/Fernando Bizerra Jr.

As declarações de Vázquez foram dadas quatro dias depois do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Armando Monteiro, ter dito que o Mercosul deveria dar “mais liberdade” a seus membros para negociar.

“Aparentemente isso não era apoiado por grandes países como o Brasil e a Argentina, salvo em algumas circunstâncias, como quando o Uruguai assinou seu tratado de livre-comércio com o México. No entanto, parece que o Brasil também está reivindicando isso agora”, disse o presidente do Uruguai.

A União Europeia (UE) defende um acordo “ambicioso” com o Mercosul, apesar das sensibilidades existentes em alguns setores estratégicos, conforme afirmou na última sexta-feira, em São Paulo, a embaixadora do bloco no Brasil, Ana Paula Zacarías.

Na última quarta-feira, o ministro de Relações Exteriores do Uruguai, Nin Novoa, adiantou que o comércio, a energia, o Mercosul e a UE estariam na pauta da reunião entre os dois líderes.