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Grécia anuncia que não irá pagar dívida de 1,6 bilhão de euros com FMI

Via Opera Mundi

Governo grego se nega a cortar salários e pensões de trabalhadores para arrecadar dinheiro de pagamento de credores internacionais.

A Grécia anunciou neste domingo (24/05) que não irá pagar ao FMI (Fundo Monetário Internacional) uma dívida estimada em 1,6 bilhão de euros. Em nota oficial, o Ministério do Interior grego afirmou que não será possível cumprir o acordo feito em gestões anteriores com credores internacionais.

“Este dinheiro não será pago, porque não há. Isso é conhecido e discutido com base num otimismo cauteloso de que haverá acordo que permita ao país respirar”, disse o ministro do Interior, Nikos Vutsis.

Gregos foram às ruas em 2014 contra políticas de austeridade. Agência Efe

Uma das razões para a dificuldade em pagar a dívida é que o governo grego se nega a cortar salários e pensões, flexibilizar o mercado de trabalho e implantar a política de austeridade das instituições da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI).

No final de Fevereiro, os parceiros da zona do euro concordaram com a Grécia estender até Junho o empréstimo para chegar a acordo sobre as reformas que o país deve fazer para poder continuar a receber as verbas.

Em entrevista à emissora grega Mega, Nikos Vutsis afirmou que há divergências com o FMI sobre o cumprimento do acordo. Com uma dívida que chega a 175% do PIB e problemas de liquidez, a Grécia negocia há meses com credores a extensão do atual programa de resgate econômico.

BRICS sapateiam sobre os EUA na América do Sul

Por Pepe Escobar | Via redecastorphoto

Os presidentes Cristina Kirchner e Vladimir Putin em reunião recente.

Começou em abril/2015, com uma leva de acordos entre Argentina e Rússia, assinados durante a visita da presidenta Cristina Kirchner a Moscou.

E continuou com um investimento de US$ 53 bilhões, acertado enquanto o premiê chinês Li Keqiang visitava o Brasil, na primeira parada de mais uma ofensiva comercial pela América do Sul – e completado com uma doce metáfora: Li viajou num vagão fabricado na China, que trafegará por uma nova linha de metrô no Rio de Janeiro que estará operante para os Jogos Olímpicos de 2016.

Onde estão os EUA em tudo isso? Em lugar algum. Não estão. Aos poucos, passo a passo, mas inexoravelmente, países membros do grupo BRICS, a China e em menor medida também a Rússia – trabalharam para, nada menos que, reestruturar o comércio e a infraestrutura por toda a América Latina.

Incontáveis missões comerciais chinesas abordaram essas praias, sem descanso, mais ou menos como os EUA fizeram entre a Iª e a IIª Guerra Mundial. Numa reunião crucialmente importante em janeiro, com empresários latino-americanos, o presidente Xi Jinping prometeu encaminhar US$ 250 bilhões para projetos de infraestrutura, nos próximos dez anos.

Grandes projetos de infraestrutura na América Latina estão sendo financiados por capital chinês – exceto o porto de Mariel, em Cuba, financiado pelo BNDES do Brasil, e cuja operação ficará a cargo da operadora de portos PSA International Pte Ltd., de Cingapura. A construção do Canal da Nicarágua – maior, mais largo e mais profundo que o do Panamá – começou ano passado, por empresa construtora de Hong Kong, e deve estar concluído em 2019. A Argentina, por sua vez, obteve empréstimo de US$ 4,7 bilhões dos chineses, para construir duas barragens hidrelétricas na Patagônia.

Entre os 35 acordos comerciais firmados durante a visita de Li ao Brasil, estão um financiamento de US$ 7 bilhões para a gigante estatal brasileira do petróleo, Petrobras; foram negociados 22 jatos comerciais da Embraer, comprados pela Tianjin Airlines por US $1,3 bilhão; e vários outros acordos envolvendo a mineradora brasileira Vale. Os investimentos chineses devem ir, de algum modo, para recuperação e reparos do horrendo sistema brasileiro de rodovias, ferrovias e portos; os aeroportos estão em melhor estado, porque foram recuperados antes da Copa do Mundo de futebol, ano passado.

PM chinês, Li Keqiang e a Presidenta Dilma Rousseff.

A estrela dos acordos, foi, sem dúvida, a mega ferrovia de 3.500 quilômetros de extensão, de US$ 30 bilhões, prevista para ligar o porto de Santos no Brasil ao porto peruano de Ilo, no Pacífico peruano, cortando a Amazônia. Logisticamente, é absoluta necessidade para o Brasil, abrindo uma via até o Pacífico. Quem mais ganhará serão inevitavelmente os produtores de – de minério de ferro a soja em grãos – que exportam para a Ásia.

A ferrovia Atlântico-Pacífico pode ser projeto extremamente complexo – envolvendo questões de todo tipo, das ambientais a questões de terras, até a preferência que tem de ser dada na construção a firmas chinesas, sempre que os bancos chineses decidem sobre estender suas linhas de crédito. Mas dessa vez está resolvido. Os suspeitos de sempre estão – e o que mais poderiam estar? – preocupados.

A política oficial do Brasil, desde os anos Lula, tem sido atrair grandes investimentos chineses. China é o principal parceiro comercial do Brasil, desde 2009; antes, foram os EUA. A tendência começou com produção de alimentos, agora passa para investimentos em portos e ferrovias, e o próximo estágio será transferência de tecnologia. O Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura liderado pela China (BAII), do qual o Brasil é membro fundador chave, fará, sem dúvida alguma, parte do mesmo quadro.

O problema é que essa massiva interatuação comercial e de negócios, entre todos os BRICS se intercruza com processo político dos mais complexos. As três grandes potências da América do Sul – Brasil, Argentina e Venezuela – vêm enfrentando repetidas tentativas de “desestabilização”, coisa dos suspeitos de sempre, que regularmente denunciam a política externa das presidentas Dilma Rousseff e Cristina Kirchner e do presidente Nicolás Maduro, enquanto os mesmos suspeitos de sempre continuam a ansiar pelos bons velhos tempos quando esses países viviam sob dependência de Washington.

Com diferentes graus de complexidade – e disputas internas – Brasília, Buenos Aires e Caracas estão enfrentando simultaneamente complôs contra a ordem institucional. Os suspeitos de sempre já nem tentam dissimular a distância diplomática quase total em que estão, em relação aos Três Grandes sul-americanos.

Venezuela, sob sanções dos EUA, é considerada ameaça à segurança nacional dos EUA – ideia que não presta nem como piada ruim. Kirchner tem estado sob implacável assalto diplomático – para nem falar dos fundos abutres norte-americanos que atacam a Argentina. E com Brasília, as relações estão praticamente congeladas desde setembro de 2013, quando Rousseff suspendeu visita que faria a Washington, como resposta a ações de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA contra a Petrobras e também contra a própria presidenta.

A Agência de Segurança Nacional dos EUA pode ter vazado informação sensível com o objetivo de desestabilizar a agenda de desenvolvimento do Brasil – que inclui, no caso da Petrobras, a exploração das maiores reservas de depósitos de petróleo (o “pré-sal”) encontradas até aqui, nesse jovem século XXI.

O que se está desenrolando é absolutamente crucial, porque o Brasil é a segunda maior economia da América (depois dos EUA); é a maior potência comercial e financeira da América Latina; abriga o ex-segundo maior banco de desenvolvimento do mundo, o BNDES, posto que agora lhe foi tirado pelo banco dos BRICS; e também é sede da maior empresa da América Latina, Petrobras, também das maiores gigantes mundiais de energia.

Petrobras -Edifício sede, RJ-Brasil.

A pressão violentíssima que está sendo feita contra a Petrobras parte essencialmente de acionistas norte-americanos – que atuam como abutres, dedicados a fazer sangrar a empresa e a arrancar lucros da hemorragia, aliados a lobbyistas que abominam o status da Petrobras como exploradora prioritária dos depósitos do pré-sal.

Em resumo, o Brasil é a maior fronteira soberana que resiste contra a dominação hegemônica ilimitada das Américas. É claro que o Império do Caos está incomodado.

A parceria estratégica sempre em transformação que liga as nações BRICS foi recebida em círculos de Washington não só com incredulidade, mas com medo. É praticamente impossível para Washington causar dano real à China. – Muito mais “fácil”, comparativamente se atacar o Brasil ou a Rússia. Ainda que a ira de Washington concentre-se essencialmente contra a China – que se atreveu a construir negócio após negócio no antigo “quintal dos EUA”.

Mais uma vez, a estratégia dos chineses – bem como dos russos – é manter a calma e exibir perfil de “ganha-ganha”. Xi Jinping reuniu-se com Maduro em janeiro para fazer – e o que mais seria? – negócios. Reuniu-se com Cristina Kirchner em fevereiro para fazer o mesmo, exatamente quando especuladores preparavam-se para lançar mais um ataque contra o peso argentino. Agora, aí está a visita de Li à América do Sul.

Desnecessário dizer, os negócios entre América do Sul e China só fazem crescer. Argentina exporta alimentos e soja em grão; Brasil idem, e mais petróleo, minérios e madeira; Colômbia vende petróleo e minérios; Peru e Chile, cobre e ferro; Venezuela vende petróleo; Bolívia, minérios. China exporta principalmente produtos manufaturados de alto valor agregado.

Desenvolvimento chave a observar é o futuro imediato do Projeto Transul, proposto pela primeira vez numa conferência dos BRICS, ano passado no Rio. Em resumo, é uma aliança estratégica Brasil-China que conecta o desenvolvimento industrial brasileiro ao fornecimento de metais para a China; a crescente demanda chinesa – estão construindo nada menos que 30 megalópolis até 2030 – sendo suprida por companhias brasileiras ou sino-brasileiras. Agora, afinal, Pequim apôs ao projeto o seu selo de aprovação.

Por tudo isso, o Grande Quadro permanece inexorável no longo prazo; as nações BRICS e sul-americanas – que convergem na União das Nações Sul-Americanas, UNASUL – estão também apostando numa ordem mundial multipolar, e num processo de independência continental.

Muito fácil ver o quanto tudo isso está a oceanos de distância de uma Doutrina Monroe.

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Pepe Escobar é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Rede Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, e Al-Jazeera.

Câmara aprova criação do banco dos Brics

Por Lucas Pordeus Leon | Via Rádio EBC

Assinado em julho do ano passado, o acordo para criação do banco do Brics foi aprovado nessa quinta-feira (21) pelo Plenário da Câmara dos Deputados. O Brics é o grupo formado pelo Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul.

O objetivo do banco é financiar projetos públicos ou privados de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável dos membros do bloco e de outras economias emergentes. O banco também poderá fornecer assistência técnica.

O relator do projeto, deputado Raul Jungmann, do PPS/PE, explica que o banco é uma alternativa ao FMI, Fundo Monetário Internacional, e ao Banco Mundial.

O banco vai ser aberto a qualquer país membro das Nações Unidas. Mas os sócios-fundadores vão manter um poder de voto conjunto de pelo menos 55%. No total, o acordo autoriza o banco a operar com um capital de US$ 100 bilhões.

O deputado do PSB do Piauí, Heráclito Fortes, alerta que é preciso cumprir os compromissos.

A Câmara ainda aprovou nessa quinta-feira (21) um acordo de ajuda financeira entre os Brics. O Decreto permite que um dos países seja socorrido pelos demais em casos de não conseguir honrar compromissos internacionais. Os projetos do banco e da ajuda financeira agora seguem para o Senado.

 

OCDE: desigualdade aumenta em países ricos, mas cai na América Latina

Por Daniela Fernandes | Via BBC

Redução de desigualdade de renda de países da América Latina foi destaque de estudo

A desigualdade de renda continua aumentando nos países ricos, mas caiu na América Latina na última década, afirma um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado nesta quinta-feira.

“Ao longo das últimas três décadas, a desigualdade de renda aumentou na maioria dos países da OCDE, atingindo em alguns casos altas históricas”, diz o relatório In it together – Why less inequality benefits all (Juntos nisso – Por que menos desigualdade beneficia a todos, em tradução literal).

Hoje, nos países da OCDE, os 10% mais ricos ganham 9,6 vezes mais do que os 10% mais pobres. Nos anos 80, a proporção era de sete vezes mais e, na década de 2000, de 9,1.

A partir de meados dos anos 2000, as desigualdades de renda também aumentaram em grandes economias emergentes, como China, Rússia, Indonésia e África do Sul.

Já a maioria dos países da América Latina, “particularmente o Brasil”, vem reduzindo, desde o final dos anos 90, as diferenças de renda, afirma a organização.

A OCDE, que reúne 34 países, a grande maioria economias industrializadas, ressalta, no entanto, que a queda na desigualdade de renda na América Latina desacelerou a partir de 2010.

“A trajetória da América Latina contrasta com as dos países da OCDE, onde a desigualdade de renda tem aumentado desde o início dos anos 80″, disse à BBC Brasil Horácio Levy, analista de políticas sociais da organização.

“Houve, a partir do início dos anos 2000, uma queda generalizada da desigualdade na América Latina. Essa redução não ocorreu de forma tão acentuada em outras regiões”, diz Levy.

“Dessa vez o bolo cresceu, com o crescimento econômico, e foi melhor dividido. É um fato novo na realidade latino-americana”, afirma o analista.

Gini

O atual coeficiente Gini – indicador que mede a desigualdade de renda e que vai de 0 a 1 (quanto mais alto, maior é a desigualdade) – na média dos países da OCDE é de 0,32. O do Brasil é 0,55. O do México é 0,48 e, o do Chile, 0,51.

Segundo dados da OCDE, o coeficiente Gini médio de 22 países da organização em meados dos anos 80 era de 0,29. Ou seja, houve um aumento de quase 11% no índice, o que implica crescimento da desigualdade.

No Brasil, o coeficiente Gini passou de 0,6 em meados dos anos 90 para 0,55, uma queda de cerca de 8%.

O aumento das desigualdades de renda nos países desenvolvidos já havia sido destacado pelo economista francês Thomas Piketty em seu livro O Capital no Século XXI, que se tornou um best-seller internacional.

A OCDE afirma que a desigualdade de renda nos países ricos não aumentou apenas em períodos de crise, mas também durante “bons momentos econômicos”, com crescimento.

“O aumento da desigualdade está tão profundamente incorporado em nossas estruturas econômicas que será difícil reverter isso”, afirma o estudo, o terceiro sobre o tema realizado pela organização desde 2008.

Mudanças no mercado de trabalho

Um dos principais fatores que explicam o aumento da desigualdade nos países da OCDE são as mudanças ocorridas no mercado de trabalho, decorrentes da globalização, de avanços tecnológicos e de reformas regulatórias.

Pessoas qualificadas em setores com alta demanda, como tecnologia da informação ou finanças, tiveram aumentos substanciais dos ganhos, diz o relatório.

Já os empregos com baixa qualificação, que sofreram a concorrência direta de países emergentes com mão de obra bem mais barata, não tiveram o mesmo ritmo de evolução.

“O perfil da demanda de trabalho mudou muito nos países da OCDE nos últimos 30 anos. As pessoas com maior nível de formação conseguiram se adaptar e manter a qualidade do emprego”, disse Levy à BBC Brasil.

“Os empregos pouco qualificados foram os mais penalizados. A diferença salarial entre trabalhadores mais qualificados e os com menor nível de formação aumentou muito nos países desenvolvidos”, diz o analista.

Além disso, a crise financeira a partir de 2008, seguida pela crise econômica, aumentou o desemprego em vários países. Hoje, nos países da OCDE, um terço dos empregos são temporários ou de meio período.

Na América Latina, o principal fator que explica a redução das desigualdades é justamente a diminuição das diferenças salariais entre trabalhadores com alto e baixo nível de formação, o que ocorreu, afirma o estudo, em razão do maior acesso à educação nesses países.

“Os gastos na área de saúde e educação também aumentaram, o que teve impacto importante na redução das desigualdades na região”, diz o analista da OCDE.

Tsipras vai discutir acordo com Merkel e Hollande

Via Esquerda.net

Hollande, Merkel e Tsipras vão retomar a conversa esta quinta-feira em Riga. Foto União Europeia ©

O encontro com os governantes da França e Alemanha sobre o andamento das negociações terá lugar à margem da cimeira de Riga. O prazo para um eventual acordo está a esgotar-se.

A cimeira europeia de Riga será dedicada à relação com os países do Leste europeu, mas o primeiro-ministro grego quer aproveitar a ocasião para discutir pessoalmente com Angela Merkel e François Hollande os progressos das últimas semanas nas negociações entre o governo grego e os credores.

Parece ser cada vez mais ponto assente que o prazo para um entendimento ou para uma rotura irá acontecer antes do fim de junho, prazo em que termina o atual entendimento que vigora desde 20 de fevereiro e substituiu os memorandos da troika.

Dirigentes do Syriza e membros do Governo já deixaram claro que os reembolsos de dívida em junho, a começar pelo de dia 5 ao FMI, no valor de 300 milhões de euros, estarão em causa caso não seja assegurado o financiamento europeu, cortado desde agosto de 2014. Desde então a Grécia não recebeu mais um cêntimo e pagou cerca de 6500 milhões de euros com os seus próprios recursos, um caso único no panorama europeu, como sublinhou o ministro das Finanças Varoufakis esta semana em entrevista à televisão Star.

A intransigência mantém-se por parte dos credores, que querem ver aplicadas as medidas que o povo grego rejeitou nas urnas a 25 de janeiro. Outro obstáculo ao acordo têm sido as exigências contraditórias de FMI e da Comissão Europeia e BCE, que têm “linhas vermelhas” distintas e insistem nelas: por exemplo, enquanto o FMI não recua na exigência da liberalização das leis laborais mas vê com bons olhos a restruturação da dívida, os parceiros europeus insistem no contrário.

Esta semana o Syriza lançou um apelo à solidariedade de partidos e sindicatos europeus com a luta do povo grego e de apoio à posição do governo nas negociações. O partido de Alexis Tsipras insiste que “as linhas vermelhas do governo são as linhas vermelhas do povo grego” e rejeita um acordo que preveja mais cortes nos salários e pensões.

Na quarta-feira, várias organizações de esquerda reunidas no coletivo “Com os gregos” organizaram uma concentração de solidariedade que juntou centenas de pessoas no centro de Paris.

A ofensiva anti-trabalhista, a desigualdade e a hegemonia

Rennan Martins | Vila Velha, 21/05/2015

O que uma filósofa e um capitalista tem a nos dizer sobre o trabalho e o sistema financeiro? Hannah Arendt sabia que o poder econômico por si não conseguia manter a exploração do homem pelo homem, enquanto o industrial Henry Ford tinha consciência de que as regras do jogo eram feitas pra favorecer a oligarquia.

Em tempos de quase absoluta hegemonia do Capital, onde vemos os EUA erigir um verdadeiro Estado Policial de defesa da plutocracia, quando a União Europeia se põe a desmantelar direitos historicamente conquistados, ao mesmo tempo em que o Brasil abandona seu breve ciclo de inclusão social para novamente mergulhar na tese mercadista, discutindo até mesmo a “terceirização ampla, geral e irrestrita”, em que o mundo caminha para concentrar nas mãos do 1% mais de 50% de toda a riqueza, Hannah Arendt e sua obra As Origens do Totalitarismo tem muito a nos dizer.

Que leva os homens a tolerar tamanha desigualdade? O que torna possível o exacerbado aumento da concentração de riquezas, num patamar que ultrapassa qualquer nível de bom senso e demonstra ser patética a tese da meritocracia? Arendt nos esclarece o por que ainda existe o mínimo de ordem em meio a guerra declarada dos ricos contra os pobres.

O que faz com que os homens obedeçam ou tolerem o poder e, por outro lado, odeiem aqueles que dispõem da riqueza sem o poder é a ideia de que o poder tem uma determinada função e certa utilidade geral.

Ou seja, o que temos hoje é a lenda dos “criadores de emprego” da “confiança do investidor” e das vontades do Mercado, amplamente arraigada na população. Se os mais atentos já se deram conta de que o mercado financeiro e seus cartéis nada mais fazem que sugar o trabalho das massas, os que não tem tempo ou instrução suficiente creem piamente que a melhor maneira de ajudar quem está na base da pirâmide é não “importunando” os que em cima estão.

Mas quanto a própria classe dominante. Acreditam eles realmente que a economia, a produtividade e o trabalho depende da confiança com que levantam para investir, do rating atribuído pelas corruptíssimas agências de classificação de risco, ou da “flexibilidade” do mercado de trabalho de um país? O que a realidade nos mostra é que não, que estão bem conscientes de que as regras que lhes favorecem são artificiais. Vejamos o que dizia o industrial Henry Ford a respeito disso:

É bom que as pessoas da nação não entendam nosso sistema bancário e monetário, porque se souberem, acredito que uma revolução aconteceria amanhã mesmo.

Os detentores de privilégios cada dia mais representativos – e deixo bem claro que me refiro aqui a oligarquia, não aos empreendedores pequenos e médios, muito mais próximos dos trabalhadores em termos de recursos – sabem que a ordem socioeconômica é um contrato social que nada tem de inexorável, que é preciso que acreditemos que deles depende a criação de empregos e geração de riqueza.

Nesse ponto entra uma arma de crucial importância: a imprensa. A disseminação da ideologia, a disputa pela hegemonia, é ponto-chave quando falamos da luta de classes. Não é por acaso que o debate sobre a democratização dos meios de comunicação é interditado com violência pela mídia corporativa. Por meio desse jornalismo enviesado, que detém quase todos os espaços de comunicação, somos ensinados que a corrupção que importa é apenas a política, que os esquemas descobertos pela Operação Zelotes, com potencial desvio dez vezes maior que o da Lava Jato, não são dignos de nota. Dizem-nos que a sonegação, evasão e lavagem de dinheiro global do HSBC no caso Swissleaks não se trata de algo repugnante, chegando ao absurdo de alguns think thanks disseminarem a ideia de que esses crimes são “legítima defesa”.

Eis a razão e o motivo do Instituto Millenium estar aí a toda, do empresário Hélio Beltrão, do grupo Ultra, investir pesado no caricato Instituto Mises Brasil, ao mesmo tempo que adquire linhas de crédito no BNDES. A maioria desses figurões tem plena consciência que precisam convencer-nos que as injustiças perpetradas diuturnamente contra os trabalhadores são necessárias. Que, por exemplo, a irrisória economia feita do corte de direitos pelo “ajuste fiscal” trará o crescimento mais a frente. Ou que o rebaixamento de todo o mercado de trabalho a condição de terceirizado – onde a mão de obra é somente mais uma commoditie em negociação – na realidade nos beneficiará. A Fiesp investe absurdamente na campanha de terceirização por saber que a ideia precisa ter poder, de preferência sendo vista como inevitável.

Que fazer diante do fato do Rei estar nu e saber disso? A velha disputa política. Envolva-se num movimento, vá às ruas, converse com as pessoas, elas sentem que algo está errado, mas ainda não notaram o quê exatamente. Considere ainda, se dentro de suas possibilidades, apoiar financeiramente a imprensa alternativa e contra-hegemônica. Estamos num momento decisivo da história da humanidade, e o surgimento de uma sociedade relativamente mais igualitária e democrática só será viável por meio da construção coletiva e engajada de uma nova realidade.

A polêmica da Ferrovia Transoceânica; complementos e análise

Reproduzimos a matéria da BBC sobre as polêmicas em torno da proposta chinesa de uma ferrovia que ligue o Atlântico ao Pacífico, saindo do Rio de Janeiro e chegando a costa do Peru, adicionando antes um comentário esclarecedor sobre um tipo específico de ambientalismo que não está preocupado com o equilíbrio ecológico propriamente.

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Adriano Benayon - Quando, aí por volta de 1968/69 trabalhei na Divisão da América Meridional do Itamaraty, a Via Transoceânica já era meta acalentada pelos governos do Brasil, Peru, Equador, entre outros. Sempre foi boicotada. Esses projetos nunca agradaram a potência do norte deste Hemisfério dito Ocidental.

Evidentemente não interessava facilitar às potências industriais da Ásia o acesso, via Pacífico, a mercados da América do Sul, nem intensificar outros tipos de intercâmbio entre umas e outros.

Essa coisa dos transportes é crucial. Notadamente com o avanço tecnológico da China nessa área, e, ao mesmo tempo a nova realidade colocada pela relativamente recente compreensão de China e Rússia de que têm de aproximar-se, você vê hoje essas duas potências tratando de construir a imensa ferrovia de alta velocidade no trajeto da quase milenar Rota da Seda.

Aliás, os gaiatos falam de “custo Brasil” e nada de realizar infraestrutura de transporte adequada, aproveitando também a fabulosa infraestrutura natural dos rios e demais meios aquaviários, incrementada por eclusas, canais e demais obras. Além disso, estão aí os oceanos (os dois que a tal via oceânica uniria, sem falar no canal que os chineses devem estar construindo na Nicarágua, alternativo ao do Panamá).

A geopolítica está, como sempre, na ordem do dia.

Falando em ambientalistas, somos a favor do meio-ambiente, mas não da picaretagem do ambientalismo a serviço da oligarquia financeira angloamericana, aquele que, com ajuda de IBAMA, FUNAI, MP e outros menos votados obstaculiza as hidrelétricas, eclusas e tudo mais indispensável ao desenvolvimento (que ademais não é viável no Brasil, enquanto prevalecer a desnacionalização da economia).

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A polêmica da Ferrovia Transoceânica

Por Gerardo Lissardy | Via BBC

Uma ferrovia que começa no Rio de Janeiro banhada pelo Oceano Atlântico, atravessa a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes e termina na costa peruana em pleno Oceano Pacífico: este é o ambicioso plano que a China quer consolidar na América do Sul.

O projeto ganhou novo impulso com a visita do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, à região, que começou na noite da última segunda-feira no Brasil e ainda inclui escalas na Colômbia, no Peru e no Chile.

Nesta terça-feira, Li Keqiang se encontrou com a presidente Dilma Rousseff em Brasília. Na ocasião, foram assinados 35 acordos de cooperação entre os dois países, englobando áreas como planejamento estratégico, transportes, infraestrutura, energia e agricultura.

Durante o encontro, a presidente Dilma declarou que Brasil, China e Peru iniciaram os estudos de viabilidade da conexão ferroviária entre o Atlântico e o Pacífico. “Trata-se da ferrovia transcontinental que vai cruzar o nosso país no sentido leste oeste cortando o continente sul-americano”, disse a presidente que, logo depois, em conversa com repórteres, classificou a ferrovia como “estratégica para o Brasil”.

De Brasília, Li Keqiang segue para o Rio de Janeiro, onde deve participar da inauguração de uma exposição de marcas chinesas e de um passeio de barco pela baía de Guanabara. A agenda do premiê chinês no Brasil termina na próxima quinta-feira.

Ferrovia

Com o projeto da ferrovia, Pequim pretende aumentar sua presença econômica no continente e facilitar o acesso a matérias-primas, o que também gera interesse do Brasil e do Peru.

Em declaração no início da tarde desta terça-feira durante o encontro com Li Keqiang, a presidente Dilma Rousseff afirmou que, com a ferrovia, “um novo caminho para a Ásia se abrirá para o Brasil, reduzindo distâncias e custos”.

Especialistas acreditam que a construção da estrada de ferro marcaria uma nova fase na relação da China com a região. No entanto, para que o projeto saia do papel, será necessário superar grandes desafios de engenharia, ambientais e políticos, dizem analistas ouvidos pela BBC.

“Seria uma grande conquista e uma peça-chave da relação da China com a América do Sul, se esse projeto realmente sair do papel”, diz Kevin Gallagher, professor da Universidade de Boston e autor de estudos sobre a relação China-América Latina.

“Todo o projeto é uma grande promessa, mas deve ser bem feito ou pode se tornar um pesadelo”, ressalva.

Intercâmbio

Keqiang começa sua visita ao Brasil em meio a um momento de desaceleração da economia chinesa e das sul-americanas.

A região deve crescer menos de 1% neste ano, de acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), em parte por causa de uma atividade econômica mais fraca no Brasil. E a falta de infraestrutura continua a ser um dos principais problemas do país.

A China, por sua vez, necessita de recursos naturais para sustentar sua expansão econômica e tem interesse primordial na construção de projetos ferroviários em outras regiões do globo.

Neste contexto, a Ferrovia Transoceânica, cujo custo é estimado em até US$ 10 bilhões (R$ 30 bilhões), poderia cobrir as necessidades dos vários países envolvidos.

“Próximo passo”

Com a popularidade em baixa e abalada por escândalos de corrupção, Dilma prepara um programa de concessões de infraestrutura previsto para ser lançado em junho.

Segundo informações do jornal Folha de S.Paulo, trechos da ferrovia até a fronteira com o Peru estariam contemplados na segunda etapa das licitações.

Estudos técnicos já foram iniciados em solo brasileiro para ligar o porto de Açu, no Rio de Janeiro, a Porto Velho, na bacia amazônica.

A ligação da capital de Rondônia ao Pacífico daria a produtores brasileiros uma alternativa sobre o Atlântico e o Canal do Panamá para enviar matérias-primas para a China.

“Há uma lógica econômica por trás do projeto”, disse João Augusto Castro Neves, analista para América Latina da consultoria Eurasia Group.

Nos últimos anos, a relação entre a China e o Brasil é muito focada no aspecto comercial, com o aumento das exportações de produtos como soja e ferro para o gigante asiático.

Mas, segundo Castro Neves, obras como a da Ferrovia Transoceânica poderiam agregar valor a esse vínculo. “É o próximo passo no relacionamento”, diz ele à BBC.

Protestos

O projeto exacerbou as já tensas relações entre o Peru e a Bolívia, cujo presidente, Evo Morales, protestou ao saber que a estrada de ferro passaria por fora do território boliviano.

“Não sei se o Peru está jogando sujo”, disse Morales em outubro. Segundo ele, a ferrovia seria “mais curta, mais barata” se passasse pela Bolívia.

No entanto, o presidente peruano Ollanta Humala descartou essa possibilidade em novembro, comentando sobre um acordo com a China para iniciar os estudos do projeto.

O trem vai passar “pelo norte do Peru, por razões de interesse nacional”, disse Humala.

Juan Carlos Zevallos, economista que presidiu a agência reguladora de transportes peruana OSITRAN argumenta que a região apresenta “desenvolvimento consolidado” de infraestrutura para explorar a estrada de ferro, incluindo o porto de Paita, ponto de chegada da ferrovia.

Na opinião de Zevallos, o projeto facilitaria a entrada de produtos peruanos no Brasil, o maior mercado regional. “Esse é o interesse”, disse ele à BBC.

‘Problemas’

Especialistas antecipam possíveis problemas com grupos indígenas e defensores do meio ambiente, dada a possibilidade de que o trem passe por áreas consideradas sensíveis.

“Uma estrada no meio da Amazônia para atender ao mercado chinês (…) seria uma ilusão acreditar que não vai haver impacto”, critica Paulo Adario, diretor da Campanha Amazônia do Greenpeace.

Adario observou, contudo, que “a ferrovia tem menor impacto do que a rodovia para o escoamento da produção” e defendeu que sejam feitos estudos para medir o impacto socioambiental da obra.

Também há desafios de engenharia e custos para a construção de um trem que cruze a Cordilheira dos Andes e desemboque no Pacífico.

Castro Neves alertou que, se não houver planejamento adequado, o projeto pode terminar paralisado, como outras grandes promessas de investimentos na infraestrutura da região.

“A questão não é apenas injetar dinheiro”, diz ele.

Gallagher disse que o projeto vai representar “um verdadeiro teste para a relação” entre Pequim e da região.

“Se conseguir construir um trem de alta velocidade que funcione e facilite o comércio com a América Latina, de modo inclusivo e sem prejudicar o meio ambiente, a China tem tudo para se tornar a nova ‘queridinha’ da América Latina”, conclui.